Liderança e difusão
da Internet: o caso do Brasil
Leadership and Internet
diffusion: the case of Brazil
por Ernest
J. Wilson III
Resumo: Ao final de uma década de mudanças econômicas e tecnológicas notavelmente rápidas, ou mesmo revolucionárias, é fácil assumir que a expansão continuada da Internet está garantida. No Brasil, o uso da Internet cresceu 130% entre 1997 e 1998 e constitui agora uma grande indústria, com quase 1.300 provedores de serviços (ISPs), e algo em torno de cinco ou seis milhões de usuários. A difusão é tão rápida através do mundo em desenvolvimento que isto já não parece tão importante como há uma década atrás. Ainda assim, devemos resistir à tentação de considerar os padrões e os ritmos da difusão da Internet como se não fossem dignos de nota, particularmente nos países em desenvolvimento.
Palavras Chave: Uso da Internet; Padrões de Difusão; Liderança; Expansão das Novas TecnologiasAbstract: At the end of a decade that has seen remarkably rapid if not revolutionary technological and economic changes, it is easy to take for granted the steady spread of the Internet. In Brazil, Internet use jumped 130% between from 1997-1998, and the Internet now constitutes a major industry with almost 1,300 ISPs, and somewhere between 5 and 6 million users. Diffusion is moving so fast throughout the developing world that it no longer seems as noteworthy as it did a decade ago. Yet we must resist the temptation to see the patterns and rhythms of Internet diffusion as unremarkable, especially in developing countries.
Keywords: Internet Use; Diffusion Patterns; Leadership; Spread of New Technologies
Com base nas minhas próprias pesquisas no Brasil e em uma dúzia de outros países, cheguei à conclusão de que a difusão não é o resultado de mudanças tecnológicas automáticas, inevitáveis e invariáveis. Ao contrário, a difusão resulta da interação complexa de fatores estruturais, institucionais e mesmo individuais. É esta terceira característica que gostaria de enfatizar neste ensaio. Em todos os países, a Internet se expande através de uma intervenção consistente e ativa de um pequeno grupo de indivíduos, os quais, atuando em conjunto ou isoladamente, lutam contra forças conservadoras para obter mudanças que, de uma forma global, no contexto do setor das comunicações e da informação, têm um potencial revolucionário genuíno. Assim, identifico este grupo novo, dinâmico, de líderes individuais ativos no setor da Internet, como de "revolucionários da informação". No Brasil, este grupo tem muitas características singulares; e, em última análise, a difusão da Internet é singular para0 cada país. Ao mesmo tempo, os "revolucionários da informação" brasileiros compartilham algumas características com as suas contrapartes em outros países e regiões do mundo.
Modelos de Difusão da Internet
Existe um certo número de modelos usuais para explicar os padrões de difusão da Internet pelo mundo. A maior parte deles é útil; ainda assim, são também muito parciais e incompletos, na sua maioria. Uma das mais famosas representações da difusão da Internet é a de Landwebber's, que usa diferentes cores em um mapa-múndi para ilustrar a expansão daquela tecnologia para os países do mundo. Ela ilustra rude e claramente os imensos desequilíbrios entre o Norte e o Sul. E quando os mapas de difusão de hoje são contrastados com aqueles de vários anos atrás, eles também representam o rápido crescimento do acesso à Internet nas cidades mais importantes da maior parte dos países do mundo.
Uma segunda abordagem é empregada por Sy Goodman, Larry Press e outros associados com a Internet Society no seu projeto MOSAIC. Eles selecionam seis variáveis: penetrabilidade, dispersão geográfica, absorção setorial, infraestrutura de conectividade, infraestrutura de organização e sofisticação do uso, para captar dimensões-chave da difusão relativas à sociedade (Press, 1999). Um terceiro modelo famoso e difundido da expansão da Internet insiste em que a difusão está associada com outras variáveis relativas à sociedade, tais como o PIB per capita, ou a democracia. Este modelo usa um gráfico de dispersão para mostrar as relações entre as variáveis normalmente representadas por uma linha salpicada de 45 graus (Mansell e Wehn).
Ainda assim, mesmo úteis como são, tais modelos deixam de capturar por inteiro a complexidade da difusão no Brasil e em outros países. Um número demasiadamente grande de autores toma por certo o crescimento sustentado da Internet e, ao fazê-lo, passam ao largo dos determinantes sociais de difusão mais interessantes; omitem importantes questões analíticas, institucionais, políticas e de pessoal que deveriam ser levadas em conta no entendimento da difusão. Por isso, eles sustentam pontos de vista falhos sobre o projeto de política pública que deveria promover a difusão da Internet. Assim, precisamos de um quadro de difusão mais detalhado e com mais matizes do que os que dispomos hoje. Fazer isso implica superar três grandes problemas que os modelos existentes apresentam. Em primeiro lugar, eles são desnecessariamente estáticos. Os modelos Landwebber e Mosaic proporcionam instantâneos de mudanças, mas omitem a dinâmica interna da difusão. A maior parte dos analistas não considera o processo seqüencial através do qual a Internet emerge no mundo real. A Internet nunca surge completamente desenvolvida em um certo instante; como um ser vivo, ela cresce e se desenvolve. Em segundo lugar, um número demasiadamente grande de analistas negligenciam as características não-tecnológicas, próprias da sociedade de um país que modela a difusão, em particular a base institucional para a aquela difusão. Em terceiro lugar, há muito pouca atividade humana ou pensamento estratégico naqueles modelos. Nem as escolhas individuais, nem as lideranças pessoais fazem parte do quadro de difusão representado por aqueles modelos. O que se segue trata daqueles problemas no contexto do Brasil.SEQÜÊNCIAS DA EXPANSÃO DA INTERNET: O PAPEL DAS INSTITUIÇÕES
Podemos superar o modelo estático ao reconhecer que a difusão da Internet no Brasil ocorre em fases. Dividimos a difusão no Brasil em três fases na seqüência: pré-comercial; comercial; e de penetração acelerada. Em cada fase, a difusão foi precedida por inovação institucional e por novas orientações de políticas. Chamamos a atenção para a base institucional da expansão da Internet e demonstramos que a sua difusão não foi apenas uma resposta ao PIB, à demanda do consumidor e à tecnologia. Deveu-se muito a um processo institucional envolvendo escolhas de políticas.
As instituições na fase não-comercial
Todas as invenções, inclusive a Internet, nasceram em instituições. No final dos anos oitenta, a Internet e a sua difusão no Brasil começaram nas instituições de pesquisa da comunidade científica nacional. Pesquisadores líderes começaram a reconhecer o potencial das aplicações de pesquisa daquela nova invenção chamada Internet. Eles desenvolveram o primeiro tronco [backbone] nacional, coordenado por um consórcio chamado de Rede Nacional de Pesquisa (RNP) e financiado por uma agência federal do antigo Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), hoje Conselho Nacional do Desenvolvimento Tecnológico, com alguma ajuda do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) [UNDP - United Nations Development Program]
Por volta da mesma época, o Instituto Brasileiro de Análises Econômicas e Sociais (IBASE), criado originalmente como um grupo independente de pesquisas para proporcionar informação e apoio a causas populares durante o governo militar, buscou formas baratas de distribuir informações para os seus membros. Os computadores e as mensagens eletrônicas pareciam ser o modo de fazê-lo. Em julho de 1989, o IBASE lançou oficialmente o AlterNex, que proporcionava "serviços de troca de informações eletrônicas baseados em sistemas UNIX, de correio eletrônico internacional e de conferência eletrônica". (Afonso, p. 66). Por volta de 1992, o AlterNex e a RNP estiveram trabalhando conjuntamente, em particular para ajudar no apoio da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, realizada no Rio, naquele ano. Esta organização local não-governamental, o IBASE, trabalhou conjuntamente com as suas contrapartes internacionais, em especial com a Association for Progressive Computing, sediada em San Francisco.
Além dessa parceria, o IBASE buscou estender o acesso para outros que não os seus próprios membros e, assim, em junho de 1992, "lançou o primeiro sistema completo da Internet no Brasil aberto ao acesso público". (Afonso, p. 67) Assim, a primeira instituição a abrir a rede para uma participação mais ampla não foi nem o governo nem a empresa privada.
Dois anos mais tarde, em 1994, as instituições governamentais passaram a participar mais explicitamente, uma vez que o Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT)decidiu dar suporte a um grande tronco da Internet, ao qual mais gente pudesse ter acesso. Em maio de 1995, o MCT e o Ministério das Comunicações criaram conjuntamente o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGIB). Ao mesmo tempo, a empresa pública brasileira EMBRATEL, a companhia nacional para longas distâncias, começou o seu próprio projeto experimental da Internet. Em seguida, os dois ministérios principais [envolvidos] também tomaram um certo número de medidas para expandir a conectividade e o acesso, redigindo, inclusive, um decreto para reduzir o custo das linhas alugadas da Internet para as instituições educacionais e de pesquisa. O Comitê Gestor da Internet no Brasil, em um esforço para tornar a rede auto-sustentável, pressionou para reduzir os subsídios federais para o backbone.
Por volta de 1995, o número de brasileiros com acesso à Internet havia crescido de zero para um pequeno punhado de pesquisadores e ativistas de ONGs, cerca de 45.000, dos quais apenas 5.000 tinham acesso à World Wide Web. Mesmo naquela data tardia, contudo, a maior parte dos assinantes trabalhava em universidades, centros de pesquisa e instituições públicas.
[S. Bilello, "Online Journalism spreads Rapidly in Brazil, 7.21.99, p.1 Freedom forum International Latin America http://www.freedomforum.org/international/1999/7/2/21brazil.asp]
Seguindo a liderança do Ibase e das instituições de pesquisa e do setor público, as organizações do setor privado (empresas) passaram a estar cada vez mais interessadas em entrar no mercado da Internet que se estava formando no Brasil. Um exemplo importante foi o respeitável jornal do Rio de Janeiro, o Jornal do Brasil. Esta organização de notícias lançou a primeira edição on-line do país. Depois daquele esforço eletrônico pioneiro mostrar o caminho, duas das maiores companhias líderes de mídia em São Paulo, o Grupo Abril e a Folha de São Paulo (o diário de maior circulação do país) reuniram-se para criar o Universo Online, que logo se tornou o maior site existente. Uma das conseqüências do aumento do interesse público é que a rede RNP, até então restrita às instituições científicas e de pesquisas, abriu-se em 1996 a outros. Começou a atuar como uma "rede Internet nacional comercial para os provedores de serviço que necessitavam de linhas para as suas operações", funcionando como um "ISP de ISPs" ..., "com velocidades de transmissão de 64 Kbps a 128 Kbps entre várias cidades em diferentes regiões do Brasil e com dez linhas dedicadas adicionais com uma velocidade de 2 Mbps" ... "que, por sua vez, se conectavam à Internet nos Estados Unidos".
[Vito Echevarria, Internet Booms in Brazil, http://www.boardwatch.com/mag/97/jan/bwm60.htm , p5].
Esta nova invenção se difundia pela sociedade.Penetração Acelerada
Por volta de 1997-98, a penetração da Internet se acelerou rapidamente e se difundiu mais amplamente pelo país. Os usuários cresceram em 130% entre 1997 e 1998, de longe o maior crescimento na América Latina naquele ano (ainda que o crescimento do ano seguinte haja sido de "somente" 40%) [www.brazilinfo.net/report.html]. Em 1998, existiam 321 provedores comerciais de serviços da Internet. Eles haviam organizado a sua própria associação voluntária, a Associação Brasileira dos Provedores (ABRANET). Em meados de 1998, foi registrado que 13% das corporações no Brasil possuiam algum tipo de de rede externa (extranet) e que 23% planejavam fazê-lo no ano seguinte. As três razões mais importantes que deram para isso foram a integração mais estreita com parceiros, a capacidade de reagir mais rapidamente aos mercados dinâmicos, e o aperfeiçoamento das suas cadeias de suprimentos. [http://www.amcham.com.br/publicadep/inside/ib63.htm].
Um outro signo de difusão, e introduzindo uma dinâmica diferente, foi que em 1998-1999 corporações estrangeira começaram pela primeira vez a se moverem agressivamente para o mercado brasileiro, com companhias tais como o Yahoo, a Microsoft, a Telefonica (Espanha), a StarMedia (New York) e a AOL reacendendo o seu interesse no Brasil e em outros países latino-americanos para capturar um pedaço do mercado de 165 milhões de pessoas do país.
Sublinhando, talvez, a importância de uma boa liderança e estratégia na dinâmica da difusão, mesmo no setor privado, está a experiência variada recente da gigante AOL. Por um lado, a companhia pareceu estar conquistando clientes a uma taxa mais rápida do que o previsto (65.000, no fim de 1999), e com uma taxa de utilização duas vezes maior do que a esperada. Os executivos da AOL afirmam que a sua campanha no Brasil foi a que teve maior êxito na sua história.
Ao mesmo tempo, eles enfrentaram algumas dificuldades. O seu presidente Francisco Loureiro renunciou abruptamente do seu cargo de liderança por discordâncias com outros executivos, ao mesmo tempo que aumentavam as reclamações de clientes quanto aos serviços da AOL e a possibilidade de uma multa de US$ 1,4 milhões das autoridades brasileiras de proteção ao consumidor.[NYT, Dezembro 11, 1999, p. B2]
Um observador de uma firma de consultoria que monitora a indústria disse sobre a AOL que "pode ser que por causa do seu crescimento impressionante nos EUA eles tenham simplesmente empacotado as coisas e partido para o Brasil... A necessidade de ter o seu produto marcado antecipadamente, de seduzir e de educar os seus consumidores, nada disso parecia ter uma alta prioridade no Brasil" [ibid]. No fundo, pode ser que as grandes corporações estrangeiras não tenham uma vantagem automática à medida que a Internet vai se difundindo nos países em desenvolvimento. O Universo Online, um provedor online com proprietário local, tem mais de 600.000 clientes (e reduziu os seus preços quase pela metade dois dias depois que a AOL começou a prestar os seus serviços).
Em 1999, o número de brasileiros com acesso à Internet alcançou quase sete milhões. O suprimento de serviços da Internet saltou do IBASE, sozinho em 1992, para mais de 320 ISPs em 1999. o NYTs (New York Times) registra 6,8 milhões de usuários da Internet, o que coloca a nação atrás da Austrália e na frente da China e da França, quando classificada quanto ao número de usuários, de acordo com o Almanaque da Indústria da Computação. "O número de pessoas usando a Internet no Brasil mais do que dobrou neste ano, com um crescimento similar esperado para os anos mais próximos". [NYT, op.cit., p B2]
Recapitulando, grosso modo, as linhas daquela seqüência: no Brasil, os primeiros entre os iniciadores na fase não-comercial foram umas poucas instituições de pesquisa (financiadas pelo governo). Estas se viram rapidamente seguidas e, de certo modo, superadas por uma organização não-governamental (ONG) que se tornou, de fato, o primeiro provedor (ISP - Internet Service Provider) público. Logo em seguida, centros ministeriais do governo (distintos dos centros de pesquisa semi-autônomos) impuseram a sua autoridade e, nos seus calcanhares, entraram na briga, como fornecedoras de serviços de Internet, as enormes [gargantuan] empresas estatais do setor de telecomunicações. Finalmente, provedores (ISPs) privados (locais e estrangeiros) começaram a oferecer serviços ao público. A seqüência parece ser:
instituições de pesquisa --> ONGs --> ministérios --> empresas comerciais.
Ainda assim, esta abordagem institucional deixa de lado alguns elementos-chave do quadro. Em primeiro lugar, o modelo linear desconsidera os conflitos e as diferenças de estratégia e tática que emergem inevitavelmente no 'movimento' Internet. Nem todos os inovadores e revolucionários da informação concordam em todas as questões fundamentais. Além disso, enquanto em diversos aspectos parece existir uma expansão direta, linear e inevitável, de fato a realidade 'terrena' é muito menos linear e unidirecional, mais rica em desvios, voltas e recuos. Uma apreciação mais completa da difusão da Internet poderia tratar dessas questões. Quanto a isso, apenas vou indicar algumas vias de pesquisa futura que se poderiam seguir.
ALÉM DAS INSTITUIÇÕES: DISPUTAS DE POLÍTICAS E O PAPEL DOS "REVOLUCIONÁRIOS DA INFORMAÇÃO" BRASILEIROS
Estas dinâmicas poderiam ser chamadas de 'ritmos de difusão' nacionais. Tais ritmos foram constituídos pela interação das instituições com ativistas individuais e empreendedores, entusiastas radicais desejosos de ir mais longe e mais rápido.
Disputas de Políticas na Difusão da Internet
No processo de difusão da Internet, surge um certo número de conflitos sobre questões tão difíceis e controversas como o papel dos subsídios, o grau de competição e as regras de entrada dos ministérios e das companhias estatais. Vou falar de dois deles.
Por exemplo, muito cedo irromperam disputas no Brasil sobre o papel da RNP, se esta deveria permanecer uma rede estritamente acadêmica com acesso livre para acadêmicos e taxada para todos os outros consumidores. (A TELEBRÁS administraria, então, o provimento pago de serviços não-acadêmicos para o público em geral.) As disputas levaram a uma cisão em meados dos anos 90, quando a rede de pesquisa da cidade do Rio de Janeiro (da FAPERJ) rompeu os seus vínculos institucionais com o restante do consórcio da RNP (financiado pelo governo brasileiro) e tentou retirar o IBASE, uma vez que ele não era "uma rede estritamente acadêmica e cobrava pelos seus serviços" (Afonso, p.67). De fato, o AlterNex serviu como uma incubadora de outros ISPs, uma vez que alguns de seus usuários, tendo como base aquele suporte nas suas ligações principais para notícias e correio eletrônico, passaram a atuar como provedores de serviço, por direito próprio.
Um outro conflito de importância crítica teve lugar quanto à atuação das grandes companhias telefônicas brasileiras (Telebrás, [etc.]) estatais, se lhes seria ou não concedido o monopólio dos serviços da Internet. Esta era uma decisão fundamental, com enormes implicações para o futuro da difusão da Internet na nação. O debate sobre este ponto durou por algum tempo. Então, no dia 30 de maio de 1995, os dois ministérios implicados com a questão decidiram que a Internet era um serviço de valor acrescentado ('value-added service') e não um serviço tradicional de telecomunicações, abrindo assim o mercado para uma competição vigorosa de outros provedores de serviço, que não os da área das telecomunicações.
Através da análise de tais conflitos sobre a política, a estratégia e (de fato) sobre o acesso, pode-se obter um quadro bem mais completo da dinâmica política e das políticas da difusão. Aqueles eram dois conflitos; existiram muitos mais. Em dezembro de 1999, o presidente Fernando Henrique Cardoso lançou um programa de quatro anos, de R$ 3,4 bilhões, chamado de "Sociedade da Informação", uma iniciativa ambiciosa que visa a difusão da Internet na sociedade brasileira. Resta conhecer o quanto o programa será efetivo nos próximos anos, dado que 96% do país não está conectado à Internet, o que depende de novas iniciativas do setor privado e dos governos estaduais.A Liderança dos Revolucionários da Informação
Um elemento final -- a liderança -- é, de algum modo, o mais crítico e o menos entendido na evolução dos padrões da Internet em um país. A liderança é especialmente importante nos períodos de grandes mudanças estruturais, quando as velhas 'regras do jogo' tornam-se cada vez menos relevantes como guias para os tomadores de decisão sob as novas condições e, ainda, quando os atores-chave buscam orientação sobre o comportamento a seguir sob aquelas circunstâncias completamente novas. Naquelas condições, tanto podem surgir líderes para proporcionar orientação como podem não surgir. Não é inevitável o seu aparecimento.
A liderança da Internet no Brasil tem muitos elementos que operam entre setores muito diferentes e em diferentes níveis. Existem líderes nacionalmente conhecidos, tais como o antigo ministro [das Comunicações] Sérgio Motta, que teve um papel fundamental na reforma de todo o setor das TICs [Tecnologias da Informação e da Comunicação]. Existem outros que, nos primeiros dias da Internet, fizeram contribuições decisivas e fundamentais na arena da Internet. Aqueles atores podem ser menos conhecidos do público fora das fronteiras do setor, mas produziram contribuições-chave.
Na minha pesquisa em muitos países em desenvolvimento, descobri um padrão pelo qual um pequeno grupo de pessoas se reúnem deliberadamente para tornar os serviços da Internet mais amplamente acessíveis para os seus compatriotas. Eles seguem tipicamente duas estratégias complementares para alcançar aquela finalidade. Em primeiro lugar, eles tentam reestruturar os elementos básicos do setor existente de telecomunicações para avançar na difusão da Internet, em etapas tais como a ampliação da competição e a extinção dos monopólios.
Em segundo lugar, eles também procuram esculpir um novo conjunto de atividades nunca antes existentes. Na maior parte dos países, sejam eles sofisticados como a Malásia, moderadamente sofisticados como o Egito ou pouco sofisticados como Gana, existe um grupo relativamente pequeno de Revolucionários da Informação, e eles tendem a conhecer uns aos outros e interagir entre si durante anos.
Estes indivíduos únicos compartilham, tipicamente, características comuns de um país para o outro. Em termos pessoais e individuais, são tipicamente indivíduos de grande energia e visão. Também possuem um tipo de zelo missionário para 'converter' os retardatários, em particular os poderosos retardatários no governo. Todos são muito intruídos. Têm ampla experiência no exterior, onde testemunharam o tremendo potencial da Internet e das outras ICTs (TICs). Na maior parte dos casos, são ferozes nacionalistas, tão dedicados ao progresso dos seus países como a fazer um monte de dinheiro. Mostram freqüentemente um receio extremo de que os seus países e suas populações fiquem bem atrás, caso eles e seus companheiros revolucionários falhem em agir decisiva e rapidamente para ganhar o mundo para os seus povos.
Mais interessante ainda, talvez, seja que aqueles indivíduos compartilham certas características organizacionais e profissionais, assim como certos traços de personalidade. O grupo sempre apresenta uma variedade de conhecimento especializado ['expertise'] e de vínculos institucionais. Entre os revolucionários da informação normalmente se incluem um ou dois professores, freqüentemente com um treinamento técnico avançado, ao nível de Doutorado, que trabalham em universidades ou em centros de pesquisa. Podem existir uma ou duas pessoas trabalhando nos ministérios de Comunicação ou de Telecomunicações. É especiamente importante notar que onde a difusão é mais rápida e obtém maior êxito existe normalmente um membro do grupo com um bom vínculo direto político e pessoal com o escritório do primeiro ministro ou do presidente do país.
Em termos da dinâmica interna, este pequeno grupo começa por se encontrar regularmente em conferências ou em intervalos para o café para compartilhar as suas idéias e discutir as estratégias para impulsionar a sua visão coletiva dos imperativos da sociedade quanto à difusão da Internet. Os seus membros têm consciência do seu estatuto 'de ponta'. Não é surpreendente que estes Revolucionários da Informação organizem freqüentemente a primeira assembléia [chapter] local da 'Internet Society', tornando-se os seus primeiros funcionários e membros. Eles também fazem alianças com outras redes e organizações internacionais, tais como a 'Association for Progressive Computing', e formam outras organizações profissionais estritamente locais que passam a atrair cada vez mais membros.
Depois de alguns anos batalhando contra funcionários ignorantes ou descuidados e contra gerentes hostis de empresas públicas, eles começam a ganhar adeptos para a sua visão, na burocracia e na elite política. Se obtêm verdadeiramente êxito, a política pública começa lentamente a mudar. Em alguns casos, os defensores da Internet são admitidos nas posições de poder (ou escondidos naquelas posições). Uma vez dentro, os pesquisadores e professores podem modificar a estrutura de autoridade dos ministérios e institutos públicos. Alguns desses Revolucionários da Informação podem terminar por ocupar posições de liderança nas instituições que eles antes criticavam desde fora. Finalmente, passam a assumir posições desde onde podem realmente começar a projetar o futuro caminho da Internet.
Mesmo sem uma perfeita correspondência, a experiência brasileira parece conformar-se às linhas básicas deste modelo. Parece, a partir das minhas entrevistas no Brasil, que um pequeno punhado de homens, trabalhando de forma cooperativa, foi especialmente importante no impulso da difusão da Internet e das outras novas ICTs naquele país. Eles trabalharam para todos os tipos de instituição acima citados -- institutos de pesquisa, universidades, agências governamentais. Muitos compartilham uma paixão intensa quanto aos benefícios da 'Net.
É muito difícil 'mapear' os seus comportamentos e contribuições completamente, mas, em geral, creio que o esquema a seguir captura a essência daquele grupo. Descobri que eles conheciam bem
uns aos outros (em certo momento, segundo um informante, se referiam a eles mesmos, brincando, como a "Gangue dos Quatro", aqueles da conspiração chinesa comunista pós-Mao).
Entre os proponentes originais, profundamente envolvidos, da ampliação do uso da Internet estavam pessoas tais como o Professor Tadao Takahashi, que foi o primeiro dirigente da Rede Nacional de Pesquisas (RNP) e que pressionou inflexivelmente pela expansão da Internet para dentro e para fora da comunidade científica. Ele é considerado por muitos como um dos pais da Internet no Brasil. Outro defensor foi Ivan Moura Campos, que foi Secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de Minas Gerais e que serviu previamente no Ministério de Ciência e Tecnologia. Campos também teve responsabilidades no monitoramento da adequação com as políticas de reserva de mercado governamentais do fim dos anos 80 e do começo dos anos 90. Eduardo da Costa, também um engenheiro por formação, foi responsável pela SOFTEX, o órgão promotor de exportação de software de computador, e estava no CNPq em uma posição crucial, em um momento crucial, com a responsabilidade de destinar e desembolsar dinheiro daquela agência para o setor emergente de processamento de informação. Estavam também profundamente envolvidos no processo especialistas de universidades, tal como o Prof. Lucena da Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Formado em Engenharia Elétrica, ele se tornou o chefe do subcomitê consultivo do Ministério da Ciência e Tecnologia sobre IT (Tecnologia da Informação) e foi o principal autor da seção 'Sociedade da Informação' do relatório final para o Ministro. Assim como muitos dos outros Revolucionários da Informação, ele também circulou entre várias instituições como universidades e comitês consultivos, assim como por algum tempo estabeleceu uma empresa privada. Outro professor, também envolvido em uma variedade de órgãos educacionais e profissionais, foi Sílvio Meira, presidente da Sociedade Brasileira de Computação, estabelecida em Recife. Fora das instituições educacionais do estado, Carlos Afonso, do IBASE, também um engenheiro de formação, insistiu na importância da ampliação e difusão da Internet em prol das causas progressistas, através de seu profundo envolvimento no IBASE e suas ligações com outros atores, como o Dr. Takahashi. É importante notar que todas essas pessoas, com exceção de Takahashi, receberam os seus títulos de PhDs fora do país e se conheciam bem, ou eram bons amigos, antes daqueles fatos.
Estes parecem ser alguns dos principais "Revolucionários da Informação" que, muito concreta e diretamente, ajudaram a guiar a Revolução da Informação no Brasil contribuindo para reestruturar as velhas intituições e para criar, desde o início, os novos serviços nos quais acreditaram apaixonadamente. Desde o princípio da era da Internet, (os últimos anos 80)tanto separadamente e como um grupo com fronteiras móveis e diferentes membros em diferentes momentos, eles levaram adiante vigorosamente a difusão da Internet para torná-la o serviço popular em que se tornou hoje. É impressionante o grau de mobilidade deste grupo no Brasil, com aqueles indivíduos circulando entre as universidades, centros de pesquisa, agências governamentais, ministérios, mais tarde no setor privado e, freqüentemente, de volta às universidades. Um alinhamento diferente dos Revolucionários da Informação poderia ter produzido um padrão de difusão diferente, ou um processo de desenvolvimento a um ritmo diferente. No que diz respeito à Internet, é essencial recordar que mesmo o "inevitável" não ocorre automaticamente.
CONCLUSÃO
Quanto mais sabemos sobre a natureza da difusão da informação e da tecnologia em um país, mais os produtores e analistas de políticas públicas, assim como estudiosos e pesquisadores, serão capazes de descrever positivamente e afetar positivamente os resultados do processo. O Brasil não é uma exceção. Permanece sendo um país com um rápido crescimento no setor central que parece ser a máquina condutora da próxima revolução econômica -- as Tecnologias da Informação e da Comunicação. A privatização das telecomunicações, a explosão de provedores nacionais e estrangeiros de conteúdo e ISPs e o rápido crescimento da base consumidora são bons presságios para o futuro do setor no Brasil.
Naturalmente, permanecem barreiras estruturais substanciais que atrasam a difusão, entre elas o baixo nível educacional de grande parte da população ((apenas 15% de analfabetos, mas menos de 1/3 da população tem sete ou mais anos de escolaridade) BDKT, p. 24;) e que distorcem seriamente a distribuição de renda, o que também reduz a capacidade dos indivíduos para comprar os serviços da Internet aos preços de mercado; e outras limitações são bem reais. Ainda, mesmo com uma alta estimativa de seis milhões de pessoas, isso representa apenas 4% da população; o desfio para os analistas é continuar a rastrear o papel dos Revolucionários da Informação nas causas daquelas reformas estruturais.
Referências:
Afonso, Carlos, "The Internet and the Community in Brazil: Background, Issues and Options", IEEE Communications Magazine, July 1996, pp. 62-68.Bilello, S, "Online Journalism Spreads Rapidly in Brazil",
http://www.freedomforum.org/international/1999/7/21brazil.aspEchevarria, V, "Internet Booms in Brazil",
http://www.boardwatch.com/mag/97/jan/bwm60.htmMansell, Robin and Uta Wehn (eds.), Knowledge Societies: Information Technology for Sustainable Development, (Oxford: Oxford University Press, 1998).
The MOSAIC Group, The Global Diffusion of the Internet Project: An Initial Inductive Study, March 1998.
Press, Larry. Information Technology and Global Diffusion, (Santa Monica, CA: Rand Corporation, 1999).
Romero, Simon, "AOL Waltzes into Brazil, Unprepared for the Samba", New York Times, December, 11 1999, p. B2.
Sobre o autor / About the Author:
Ernest J. Wilson III
ewilson@cidcm.umd.edu
University of Maryland and
Senior Advisor, Global Information Infrastructure Commission, USA