Resumo: Políticas de informação
governamental têm sido implementadas em diversos países sob
a noção de governo eletrônico, ainda pouco estruturada
do ponto de vista teórico. No Brasil, a Administração
Federal tem desenvolvido diversas ações desde 2000.
Limitações de ordem sócio-econômica dificultam
o acesso da maioria da população a sistemas de telefonia
e a equipamentos de informática. Outro obstáculo ao
Governo Eletrônico é a deficiência na gestão
das informações governamentais. Após dois anos de
implantação, o impacto do Governo Eletrônico revela-se
maior na gestão interna da Administração Federal
do que no atendimento ao cidadão.
Palavras-chave: Governo Eletrônico,
Políticas de Informação, Informação
Governamental
Abstract: Information government policies have
been implemented in many countries under the notion of electronic government,
although it is not yet theorically built. The brazilian Federal Administration
has developed many actions since 2000. Economic and social limitations
difficult the access to the information technologies for the majority of
the population. Another obstacle to the Electronic Government is the deficiency
in the government information management . After two years of implantation,
the impact of the Electronic Government shows bigger in the internal management
of the Federal Administration than in the attendance to the citizen.
Keywords: Electronic Government, Information Policies,
Government Information
Introdução
A informação governamental é um dos principais componentes dos dispositivos de mediação no jogo democrático que envolve Estado e Sociedade Civil. As condições em que é produzida, estocada e disseminada dentro e fora do Estado determinam e são determinadas - direta ou indiretamente - pela diversidade de atores do cenário político-social. Isto pressupõe, no mínimo, que o Estado reconheça a informação como recurso gerencial intrínseco a todas as suas ações e objeto de políticas públicas específicas.
A implementação de políticas públicas em diversos setores - com impactos evidentes na governança e governabilidade - torna imprescindível o desenho e execução de políticas de informação governamental. Tal situação tem sido pouco freqüente na história do Brasil, não apenas nos períodos de autoritarismo, mas também em conjunturas recentes, de maiores teores democráticos.
Sob esta perspectiva, desenvolvemos, entre março de 2001 a fevereiro de 2003, com apoio do CNPq, o projeto de pesquisa "O Estado Informacional na sociedade da Informação: a Internet como instrumento de governança e governabilidade". Tendo como objetivo geral, "investigar os parâmetros políticos, tecnológicos e técnicos que, do ponto de vista informacional, constituem elementos otimizadores da Internet como instrumento de governança e governabilidade, à luz do Programa Sociedade da Informação", um dos aspectos abordados foi o Programa Governo Eletrônico, iniciativa da Administração Federal.
Durante o período mencionado, foram identificadas - através
do site do Governo Eletrônico (http://www.governoeletronico.gov.br),
jornais e outras fontes - 345 notícias relativas às seguintes
categorias:
· Ampliação dos serviços de órgãos federais na Internet
· Implantação da Rede Multiserviço (integração das redes existentes no âmbito da Administração Pública Federal)
· Programa de Informatização das Ações Educacionais (Internet nas escolas públicas de ensino médio)
· Rede Nacional de Informações em Saúde - RNIS (Interligação de 1.200 municípios à Internet; Implantação do projeto piloto do Cartão Nacional de Saúde Cartão SUS interligação de 4.300 municípios à RNIS e de 20.000 unidades de saúde à Rede do Ministério da Saúde)
· Compras Eletrônicas (licitação eletrônica para as compras governamentais no âmbito da administração pública federal)
· Cartão do Cidadão para acesso a serviços e informações governamentais
· Pagamentos Eletrônicos de taxas, impostos, contribuições, etc
· Regulamentação e efetivação do documento eletrônico como um documento legal de uso pleno
· Articulação de Poderes e Governos Estaduais e Municipais Federal para o compartilhamento da rede e infra-estrutura do Governo Eletrônico
· Infra-estrutura de chave publica: normas e padrões de segurança que permitam conceder validades jurídica aos documentos e transações efetuadas via web.
· Gestão do Governo Eletrônico
· Programa Brasileiro de Sociedade da Informação
· Experiências internacionais sobre Governo Eletrônico
O conjunto dos dados coletados possibilitou uma análise global
dos dois primeiros anos do Governo Eletrônico na Administração
Federal, à luz das especificidades do seu contexto administrativo
e sua situação informacional, além das relações
Estado-Sociedade no Brasil.
A noção de governo eletrônico
Uma questão inicial na abordagem de experiências de governo
eletrônico refere-se aos contornos teóricos da noção
que norteia tais iniciativas.
A noção de governo eletrônico é muito abrangente
e ainda carece de maior aprofundamento teórico e pesquisas
no campo da Ciência da Informação. Trata-se de um construto
que deriva inicialmente de políticas públicas, desenvolvidas
sobretudo em países anglo-saxônicos.
A diversidade de abordagens sobre o tema expressa a abrangência
da noção de Governo Eletrônico. "A sedutora expressão
´governo eletrônico` .. observa Nogueira (2000), "deve ser
vista com alguma cautela, pois reduz o governar ao campo estrito da prestação
de serviços, deixando de lado sua dimensão mais propriamente
política, referente ao dirigir e ao articular, com vistas a fixar
diretrizes de ação para a coletividade, reforçar seus
laços internos e sua convivência."
Lenk & Traunmüllerv (2001) visualizam quatro
perspectivas:
2. A Perspectiva de Processos - visando repensar o modus-operandi dos processos produtivos ora existentes no Governo, em suas várias esferas, tais como, por exemplo, os processos de licitação para compras (e-procurement);
3. A Perspectiva da Cooperação - visando integrar os vários órgãos governamentais, e estes com outras organizações privadas e não-governamentais, de modo a o processo decisório possa ser agilizado, sem perda de qualidade, assim como evitando-se fragmentação, redundâncias etc. hoje existentes nas relações entre esses vários atores;
4. A Perspectiva da Gestão do Conhecimento - visando permitir ao Governo, em suas várias esferas, criar, gerenciar e disponibilizar em repositórios adequados, o conhecimento tanto gerado quanto acumulado por seus vários órgãos.
Segundo Zweers & Planqué (2001),
"Governo Eletrônico é um conceito emergente que objetiva
fornecer ou tornar disponível informações, serviços
ou produtos, através de meio eletrônico, a partir ou através
de orgãos públicos, a qualquer momento, local e cidadão,
de modo a agregar valor a todos os stakeholders envolvidos com a esfera
pública" .
Balutisiv (1999) define Governo Eletrônico através
da seguinte equação:
Na perspectiva de Perri (2001), Governo Eletrônico envolve diversas
leituras:
2. Democracia Eletrônica (e-democracy)
Refere-se aos sistemas de votação eletrônica
e experiências piloto de consulta on-line aos cidadãos.
3. Governança Eletrônica
Essa seria a área menos estudada de Governo Eletrônico.
Inclui, entre outras atividades: suporte digital para elaboração
de políticas públicas; tomada de decisões; public
choices e workgroup entre os vários gestores públicos de
diferentes escalões.
Governo Eletrônico no Brasil
Uma das principais ações governamentais no campo da informação
no Brasil, o Governo Eletrônico contempla três das sete
linhas de ação do Programa Sociedade da Informação:
Universalização de serviços, Governo ao alcance de
todos e Infra-estrutura avançada. Seu estabelecimento
na Administração Pública Federal, a partir de
março de 2000, tem levado à arquitetura de uma estrutura
organizacional e informacional com ênfase nas "iniciativas do Governo
Federal voltadas para o uso da Internet no exercício da cidadania".
As principais linhas do Governo Eletrônico são:
- ampliação das condições de acesso do cidadão às informações, em formatos adequados, por meio da Internet;
- convergência entre sistemas de informação, redes e bancos de dados governamentais para permitir o intercâmbio de informações e a agilização de procedimentos;
- implantação de uma infra-estrutura avançada de comunicações e de serviços, com padrões de segurança e serviços, além de alto desempenho;
- uso do "poder de compra do Governo Federal" para a obtenção de custos menores e a otimização do uso de redes de comunicação;
- estímulo ao acesso à Internet, com ênfase de pontos de acesso em instituições públicas ou comunitárias;
O Governo Eletrônico tem privilegiado três frentes fundamentais:
a interação com o cidadão, a melhoria da sua própria
gestão interna e a integração com parceiros e fornecedores.
A infra-estrutura político-organizacional do Governo
Eletrônico abrange, por princípio, todos os ministérios,
mas tem como referências institucionais centrais a Casa Civil da
Presidência da República. Em 3 de abril de 2000 foi instituído
o Grupo de Trabalho Interministerial com a finalidade de examinar e propor
políticas, diretrizes e normas relacionadas com as "novas formas
eletrônicas de interação".
No âmbito do Conselho de Governo da Presidência da República, foi criado em 18 de outubro de 2000 o Comitê Executivo do Governo Eletrônico (CEGE) com o objetivo de "formular políticas, estabelecer diretrizes, coordenar e articular as ações de implantação do Governo Eletrônico".
Em 27 de outubro de 2000 foram definidos quatro Grupos de Trabalho para
o desenvolvimento de propostas relativas às 45 metas estabelecidas
para o Governo Eletrônico:
2. Universalização do Acesso à Internet
Ações que promovam a universalização do
acesso à Internet,por meio da redução dos custos incidentes
em toda a cadeia de provimento (de serviço e acesso), da utilização
de novos dispositivos e meios de comunicação e da adoção
de modelos de acesso coletivo ou compartilhado.
3. Universalização dos Serviços
Ações que visam disponibilizar todos os serviços
e informações, prestados pelo governo federal, ao alcance
do cidadão através da Internet e das demais formas eletrônicas
de interação.
4. Normas e Padrões para Prestação de Serviços
Ações visando estabelecer parâmetros de qualidade
para os serviços prestados.
Além do Governo Federal, iniciativas de Governo Eletrônico
vêm sendo desenvolvidas em administrações estaduais
(Minas Gerais, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, etc) e
municipais (São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, etc).
Um dos obstáculos ao objetivo do Governo Eletrônico de
oferecer serviços interativos ao cidadão através da
Internet são às limitações de ordem sócio-econômica
que dificultam, o acesso da maioria da população brasileira
a sistemas de telefonia e a equipamentos de informática. Pinto
(2000), destaca como principais dificuldades os seguintes aspectos:
. O principal meio de conexão dos usuários da Internet no Brasil é através da telefonia convencional (o número de linhas telefônicas é estimado em 62,5 milhões, das quais 38,8 milhões fixas e 23,7 milhões celulares ou seja, o acesso à telefonia alcança somente 39% da população).
. Elevado preço dos serviços de telefonia convencional .
. Inexistem categorias diferenciadas de tarifação que atendam às necessidades do usuário da Internet.
. Custo excessivo das conexões internacionais dos backbones locais.
. Provedores de acesso não dispõem de serviços de conexão com a Internet nas pequenas localidades.
. Alto custo dos equipamentos de informática, inacessíveis à absoluta maioria da sociedade brasileira, associado à falta de financiamento "ao estudante ou ao consumidor de menor renda e de oferta, no mercado, de equipamentos simplificados, a preços mais accessíveis".
. Escassa capacitação e familiaridade para a convivência com novas tecnologias e serviços.
Como observa Nogueira (2000),
Além desses aspectos, deve-se ressaltar a ausência
de políticas informacionais no Estado brasileiro. Esta situação
leva à produção, sem critérios, de volumosos
estoques informacionais que, insuficientemente gerenciados, comprometem
a qualidade do processo político-decisório governamental
e o direito do cidadão às informações. A exclusão
informacional que se faz presente em muitos guichês reais,
reflete-se na qualidade e quantidade de serviços públicos
na Internet.
Algumas conclusões
Após dois anos de investigação sobre a implantação do Governo Eletrônico na Administração Pública Federal (2001-2002), alguns pontos merecem destaque e remetem-nos a novas inquietações em termos de pesquisa:
- Do ponto de vista teórico, constata-se uma frágil densidade conceitual em torno do governo eletrônico, revelada não só na literatura sobre o tema na Ciência da Informação como nos programas governamentais a respeito no Brasil e em outros países. Por outro lado, constata-se que o tema, dada a sua abrangência, tende a ser abordado por várias disciplinas: Administração, Informática, Ciência Política, Direito, Ciência da Informação, Engenharia de Produção, etc.
- Observa-se uma institucionalização crescente do Programa Governo Eletrônico do Governo Federal. Este processo torna-se evidenciado na estruturação político-organizacional e na construção de marcos legais.
- As ações do Governo Federal em relação à implantação do Governo Eletrônico mostram-se mais evidentes em relação às suas metas - mesmo considerando que várias não foram atingidas - do que em relação ao Programa Sociedade da Informação.
- Sob a noção de "governo eletrônico" e a influência das iniciativas a respeito no plano federal, ações vêm crescendo, de forma diferenciada, nos níveis estadual e municipal.
- O desenvolvimento desigual do Governo Eletrônico na Administração Federal tende a enfatizar especialmente as ações relativas à melhoria da sua própria gestão interna, seguido das propostas de integração com parceiros e fornecedores e, por último, a interação com o cidadão.
- A infra-estrutura informacional da Administração Federal, disponibilizada na Internet, apesar dos avanços nos últimos quatro anos, ainda mostra-se insuficiente no que se refere às condições de acesso à informação e serviços governamentais e ampliação da qualidade desses serviços, de modo a garantir maiores oportunidades de participação social no processo democrático.
Finalmente, a observação sobre as ações
desenvolvidas nos últimos dois anos sugere que a sociedade encontra-se
ausente na arquitetura da dimensão político-organizacional
do Governo Eletrônico. Tal ausência certamente compromete
qualquer política pública de largo espectro social como no
caso das ações relativas à informação
governamental. Compromete-se, assim, seu potencial como território
de mediação democrática no qual Estado e Sociedade
se realizam cotidianamente.
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Sobre os autores / About the Authors:
Carlos Henrique Marcondes
marcondes@alternex.com.br
Dr. em Ciência da Informação.
Professor do Departamento em Ciência da Informação
da UFF
José Maria Jardim
jmjardim@cruiser.com.br
Dr. em Ciência da Informação.
Professor do Departamento em Ciência da Informação
da UFF