Resumo: As 'áreas de conhecimento' têm
sido objeto de discussão por gestores e administradores de C&T
e pela comunidade científica na busca de instrumento de apoio
à sistematização de dados de C&T principalmente
para atividades de gestão e administração. A principal
tabela em uso pelo sistema de C&T do país está reconhecidamente
desatualizada necessitando de revisão ou reclassificação.
O objetivo deste artigo é contribuir para o atual debate em base
de resultados prévios de participação em trabalho
de revisão da tabela realizado na década de 90 e de resultados
de pesquisas na área da organização e representação
do conhecimento no contexto da Ciência da Informação.
Palavras-chave: Organização do Conhecimento;
Representação do Conhecimento; Classificação
do Conhecimento; Classificação em Ciência e Tecnologia;
Classificação de Projetos de Pesquisa e Desenvolvimento
Abstract: Classification of field of research has
been discussed in Brasil by science administrators and the scientific community
at least over the last ten years. The principal instrument in use in the
country is recognised as out of date and needs a revision. The objective
of the present article is to contribute to the present debate on this subject
in the basis of previous work experience and of research results in the
field of knowledge organization.
Keywords: Knowledge Organization; Knowledge Representation;
Knowledge Classification; Classification in Science and Technology; Classification
of Research and Developement Projects
1 Considerações Preliminares
A 'organização do conhecimento' sempre foi reconhecida
como área de interesse de estudo e pesquisa sob óticas diferentes
por estudiosos e profissionais de diversos campos do saber. Numa cronologia
histórica, DAHLBERG (1993) destaca que inicialmente e por muito
tempo o interesse por esta área foi quase que exclusivo dos bibliotecários
e dos filósofos. Mais tarde passou a ser também de interesse
dos autores de enciclopédias e dos educadores. Nos últimos
tempos documentalistas, cientistas da informação e lingüistas
também passaram a se interessar por esta área. Em tempos
ainda mais recentes, os profissionais de inteligência artificial
e produtores de sistemas especialistas e de sistemas de hipermídias
passaram a integrar o grupo de interessados em organização
do conhecimento.
LANGRIDGE (1977) explica a natureza do tipo de interesse na área de organização do conhecimento quando analisa a questão do ponto de vista da Biblioteconomia, mostrando que a classificação em biblioteca depende de estudos mais fundamentais nessa área. Ressalta que o estudo fundamental da classificação está intimamente relacionado ao estudo de significado e definição e que nesses aspectos, contribuições são feitas, de formas diferentes, por psicólogos, lingüistas e filósofos. Considera que os psicólogos se preocupam com o processo de classificação como ele ocorre na mente humana, investigando seu desenvolvimento nas crianças e seu papel em todo o processo de pensamento e aprendizagem. Continua dizendo que os lingüistas e os filólogos tratam de significados, definições e classificações incorporadas em diferentes línguas. Comenta que todos esses estudos são científicos uma vez que observam, descrevem e fazem generalizações sobre o comportamento humano. Num paralelo com o interesse dos filósofos e a classificação em bibliotecas, mostra uma correlação mais significativa uma vez que os filósofos se preocupam com a natureza dessas atividades que envolve questões de significado, definição ou classificação.
A área de organização e representação do conhecimento no contexto da Biblioteconomia, historicamente teve suas atividades voltadas para o arranjo físico e para a indexação temática de acervos em sistemas de recuperação de documentos. Ao longo do tempo esquemas de classificação enumerativos e facetados - gerais (abrangendo o universo do conhecimento no todo) ou especializados (abrangendo uma área específica) - e outras linguagens de indexação tipo tesauros, foram criados como instrumentos de apoio a atividades de tratamento e recuperação da informação.
Na área de organização do conhecimento, especificamente em relação ao universo de Ciência e Tecnologia, a Ciência da Informação possui contribuições importantes feitas a partir dos anos 50 em diversas grandes áreas: classificação e indexação nas Ciências (VICKERY 1958), nas Ciências Sociais (FOSKETT 1963) e nas Humanidades (LANGRIDGE 1976). A década de 70 foi marcada por importantes avanços em teoria da classificação, particularmente voltados para classificações facetadas, desenvolvidos pelo Classification Research Group (CRG) do Reino Unido, dando continuidade às contribuições de Ranganathan (1951,1967). É importante também ressaltar que contribuições da teoria do conceito (DALHBERG 1978, 1993) e da teoria da terminologia (WUESTER 1981) assim como, mais recentemente, dos princípios da orientação a objeto e da construção de ontologias vem enriquecendo a área de organização e representação do conhecimento no contexto das tecnologias da informação (CAMPOS 2001; BIOLCHINI 2003).
Nos últimos anos, a diversidade de pesquisa em Ciência da Informação na área de organização e representação do conhecimento tem sido reconhecida (OLSON 2001), assim como tem sido apontada a importância de se agregar enfoques históricos, culturais e sociais do conhecimento às questões tradicionais de investigação nessa área (ANDERSEN 2002). Assim , contribuições relevantes podem ser obtidas de áreas afins como História e Filosofia da Ciência, Epistemologia, Ciências Cognitivas e Educação.
A representação do universo do conhecimento, em alguma estrutura de classificação que permita organizar de maneira sistemática dados da produção científica publicada e de outras atividades de C&T, é instrumento de importância fundamental para as áreas de gestão e avaliação, assim como suporte representativo para a formulação, implementação, acompanhamento e avaliação de políticas públicas na área de C&T.
A sistematização de dados na busca de indicadores de C&T sempre mereceu a atenção de organismos internacionais e principalmente daqueles países que apresentam índices representativos de produtividade em pesquisa e desenvolvimento. O mapeamento criterioso e confiável do desenvolvimento de C&T para atender a diferentes perspectivas de demandas e interesses específicos de informação é considerado de importância inquestionável para gestores e administradores de C&T. É neste contexto que a tabela de classificação de "áreas do conhecimento" aparece como instrumento de apoio necessário e mesmo indispensável .
A complexidade de abordagem do universo de C&T e a diversidade de atividades do sistema de C&T indicam a dificuldade de se construir, atualizar e mesmo compatibilizar instrumentos de classificação por áreas do conhecimento que satisfaçam os diferentes interesses institucionais de agregação de dados deste universo.
LANGRIDGE (1977) ressalta que a unidade do conhecimento é um tópico controvertido, principalmente em relação à divisão do conhecimento em disciplinas. No contexto da educação, MORIN (2001) trata dos conceitos de : disciplinaridade, interdisciplinaridade, polidisciplinaridade, transdisciplinaridade, multidisciplinaridade e de expressões como: mentalidadde hiperdisciplinar, invasões interdisciplinares, migrações interdisciplinares, disciplinas híbridas, disciplinas agregadas, fronteiras disciplinares. A simples enumeração desses termos, de difícil definição e apreensão, por serem de natureza polissêmica e imprecisa, mostra a complexidade em lidar com o universo do conhecimento não só no contexto da educação, como também em questões de organização e representação do conhecimento em sistemas de recuperação de informação, onde as estruturas de classificação desempenham papel de fundamental importância.
No Brasil, as "Áreas do Conhecimento" tem sido tema de discussão envolvendo gestores e administradores, as agências de fomento e avaliação, as sociedades científicas, os institutos de pesquisa e a própria comunidade científica. No final da década de noventa, por iniciativa do CNPq, ocorreram discussões em torno da "revisão" da tabela de áreas do conhecimento em vigor, trabalho este que resultou numa versão preliminar que, por razões circunstanciais à época, não chegou a ser finalizada como versão final para implementação. Atualmente, a "Reclassificação das Áreas ao Conhecimento" é ponto de agenda da Comissão Mista CAPES/CNPq para o desenvolvimento da Pós-graduação e da Ciência e Tecnologia, instalada em 2003.
A construção de uma tabela de 'áreas do conhecimento', envolve aspectos básicos de 'organização', portanto, necessariamente de 'classificação'. LANGRIDGE (1977) aponta quatro pontos fundamentais de classificação que contribuem para a presente discussão:
a) "a classificação transforma impressões sensoriais isoladas e incoerentes em objetos reconhecíveis e padrões recorríveis"
Numa analogia ao objetivo central de organização de "áreas do conhecimento", podemos reeditar essa premissa como: a classificação transforma dados isolados e incoerentes em C&T em informação reconhecível no âmbito de C&T e conhecimento recorrível do contexto de C&T no país.
b) "toda classificação está relacionada a um propósito"
Podemos dizer que no contexto das "áreas do conhecimento", o propósito central de organização é a sistematização de dados em C&T na busca de indicadores como apoio a atividades de planejamento, gestão e avaliação.
c) "os mesmos objetos podem ser classificados de maneiras diferentes dependendo do propósito a que se destinam"
Portanto, pode haver tantas tabelas de "áreas do conhecimento"
quanto forem os diferentes propósitos de sua construção.
A expectativa está em torno das possíveis "perguntas" a serem
contempladas em função de determinada ordenação
de dados, atendendo a demandas específicas que, necessariamente,
são as mais diversas. Isto nos leva a admitir, em princípio,
a relatividade de qualquer tabela de "áreas do conhecimento" que
venha a ser construída em ser considerada como "certa" ou "errada".
No caso específico que estamos tratando, o que podemos dizer é
que um determinado arranjo de classes representando as " áreas do
conhecimento" em C&T pode atender satisfatoriamente a mais
propósitos do que outro. Na verdade, o que se está
explicitamente buscando no momento é a reclassificação
das áreas do conhecimento no contexto da Comissão Mista CAPES/CNPq
para o Desenvolvimento da Pós-graduação e da Ciência
e Tecnologia no País.
d) "não há substituto à classificação"
Independentemente do fato de que somos levados a admitir que, de alguma forma, toda classificação é arbitrária e que nenhuma categorização é tão perfeita e completa, que satisfaça de forma plena às inúmeras possíveis expectativas de retorno, somos também forçados a admitir que "não há substituto à classificação". Portanto, é necessário um investimento sólido na construção, revisão ou reclassificação de uma tabela de 'áreas do conhecimento' que represente com propriedade o atual desenvolvimento em C&T do país.
Essas considerações preliminares nos levam a refletir e analisar as "áreas do conhecimento" como problema de interesse específico de organização e representação do conhecimento no contexto da Ciência da Informação, como contribuição à sistematização de dados em C & T. O objetivo específico do presente trabalho é contribuir, em base da experiência na participação da revisão da tabela em vigor na década de 90 como representante do IBICT e com resultados de pesquisa na área de organização e representação do conhecimento, para a atual discussão da reclassificação das áreas do conhecimento.
O artigo compreende três partes principais relacionadas à
temática central das 'Áreas do Conhecimento' sob diferentes
perspectivas. A primeira trata de considerações sobre a
tradicional tabela de áreas do conhecimento em uso pelo CNPq e pela
CAPES, especialmente em torno dos resultados do trabalho de revisão
realizado na década de 90. A seguir é examinado o arranjo
de Seções das comunicações apresentadas às
Reuniões Anuais da SBPC no período 1956-2001 mostrando as
modificações da classificação das áreas
do conhecimento no tempo. A terceira parte apresenta o exemplo de uma classificação
australiana (ASRC), construída especificamente para projetos de
pesquisa e programa de ensino - cursos e disciplinas.
2 As 'Áreas do Conhecimento' e a Tabela CNPq/CAPES
O Brasil conta com poucos instrumentos especialmente criados
e desenvolvidos especificamente para a classificação
de dados provenientes de atividades de pesquisa e ensino em
ciência. O instrumento mais conhecido, que por
tempo muito foi o único, e que ainda hoje
é reconhecido como referencial por ser o
mais utilizado pelas diversas instituições do sistema de
C&T do país é a tabela conhecida como "tabela de
áreas do conhecimento do CNPq", cuja estrutura de base data da década
de 50.
Ao longo do tempo adaptações foram sendo feitas à referida tabela no sentido de melhor atender às necessidades e demandas específicas de informação frente ao próprio desenvolvimento da ciência, tanto pelo próprio CNPq, como pela CAPES, assim como por outros órgãos de ciência, como as fundações de amparo à pesquisa e as sociedades científicas. As mudanças ocorridas correspondem na verdade a tentativas de "atualização" no sentido de incorporar áreas não contempladas, sem contudo modificar a estrutura básica da tabela. Nos últimos tempos, a mudança mais marcante foi a incorporação de uma classe principal ou grande área denominada pelo CNPq como "Outros" e pela CAPES como "Outras", tópico que voltaremos a nos referir mais adiante.
Uma primeira questão que deve ser considerada como básica
para reflexão na discussão de tabela de áreas
do conhecimento é quanto a sua finalidade. A Apresentação
Introdutória da versão impressa da conhecida
"tabela de áreas do conhecimento do CNPq" explicita que:
A conscientização da importância e da necessidade
de Revisão da Tabela de Áreas do Conhecimento (TAC) em vigor
foi foco de atenção da presidência do CNPq em 1995.
Na ocasião, a própria comunidade científica, representada
pelos então membros dos comitês assessores do CNPq,
manifestou de maneira bem contundente tal necessidade. Na ocasião
foram apontadas como principais críticas à tabela em
vigor:
Como apoio à iniciativa do trabalho de revisão da
tabela, os membros dos comitês assessores do CNPq à época
assim se pronunciaram:
a) Considerações sobre as Grandes Áreas
Na tabela hierárquica de "áreas do conhecimento",
as Grandes Áreas correspondem à Primeira Divisão ,
revelando o Princípio de Divisão adotado para
o universo que se quer representar. Dos resultados obtidos e das discussões
realizadas com membros dos comitês assessores do CNPq à época
do mencionado trabalho de revisão, dois pontos merecem ser destacados:
a manutenção, exclusão ou inclusão de grandes
áreas e a ordenação das mesmas na Tabela.
Quanto à manutenção, supressão ou inclusão de grandes áreas, os membros dos comitês assessores do CNPq presentes numa reunião de discussão sobre o assunto decidiram manter as Grandes Áreas da tabela em vigor e na mesma ordem em que estão apresentadas, ou seja:
Ciências Exatas e da Terra
Ciências Biológicas
Engenharias
Ciências da Saúde
Ciências Agrárias
Ciências Sociais Aplicadas
Ciências Humanas
Lingüística, Letras e Artes
No entanto, reconhecendo a importância das implicações do estabelecimento das principais divisões de primeira hierarquia numa Tabela de áreas do conhecimento para representar o universo de C&T do país é relevante mencionar para futuras reflexões, duas propostas de inclusão de Grandes Áreas recebidas e sua justificativa e sobre a ordenação nas mesmas na Tabela.
Quanto a propostas de inclusão de Grandes Áreas foram recebidas as seguintes sugestões:
* criação da Grande Área "Ciências Aplicadas e Tecnologias"
À época das discussões em torno da revisão da tabela de áreas do conhecimento do CNPq foi identificada a ênfase da tabela atual para a classificação de projetos de cunho científico e as dificuldades de classificação dos projetos de cunho tecnológico. Na ocasião foi constituído um grupo de trabalho para desenvolver essa vertente com representantes de programas do CNPq, considerando também diretrizes do PPA vigente. Numa primeira versão para futuras discussões, as seguintes grandes áreas foram indicadas para o desenvolvimento de tal classificação:
Interessante destacar também que uma Grande Área
"Ciências
Aplicadas" já fez parte da classificação
da SBPC para as comunicações de suas Reuniões Anuais
no período 1976 e 1998, como será mostrado e comentado mais
adiante.
* criação da Grande Área "Artes"
separada de Lingüística e Letras
Estes dois exemplos são ilustrativos no sentido de indicar
a importância de se definir o "Principio de Divisão" a ser
adotado num arranjo hierárquico. A definição das Grandes
Áreas é que determinará a abrangência do universo
que se quer representar. É preciso se estar consciente de que é
desta decisão que decorrerá todas as implicações
de inclusão ou exclusão das classes que representarão
as demais divisões hierárquicas nos níveis de
área e subárea.
A título de reflexão é importante considerar que, em relação à ordenação das Grandes Áreas na tabela, foi apresentada para discussão a sugestão de se optar pela ordem alfabética, sugestão que não foi aceita (naquele momento) pelos membros dos demais comitês assessores do CNPq.
A ordenação das grandes áreas necessariamente
reflete a adoção de algum princípio implícito
de divisão que foi adotado na construção da
tabela de classificação. Este princípio certamente
reflete decisões implícitas de ordem histórica
ou política que devem ser tomadas de forma consciente. Sobre
esta questão, convém mencionar que a CAPES usa a mesmas denominações
das grandes áreas da tabela CNPq, porém em ordem alfabética.
b) Considerações sobre as Áreas
As Áreas correspondem ao segundo nível hierárquico.
Na ocasião foram recebidas 10 (dez) sugestões de criação
novas áreas. A seguir estão mencionadas as novas áreas
sugeridas para inclusão naquele momento da revisão da tabela,
indicando a que Grande Área pertencem e um resumo da justificativa,
quando apresentada.
Na Grande Área Ciências Exatas e da Terra foi sugerida a inclusão de duas novas áreas: "Ciências Atmosféricas e do Espaço" como desdobramento da área de Geociências e "Espeleologia" - sugestão feita pela Sociedade Brasileira de Espeleologia.
Na Grande Área Ciências Biológicas foi sugerida a inclusão de duas áreas. Uma das áreas sugerida foi "Biotecnologia ou Genética - Biologia Molecular e Biotecnologia" - pois pesquisadores dessa área estavam tendo dificuldade para classificar suas temáticas de pesquisa na tabela atual. A outra área foi "Neurociências", área que além de ser reconhecida como separada, distinta das tradicionais Bioquímica, Biofísica, Fisiologia e Farmacologia, foi considerada como de expressivo crescimento no país.
Na Grande Área Engenharias duas novas áreas foram sugeridas para inclusão na tabela: "Ciências da Energia" - como atualização para acomodar satisfatoriamente a atual produção científica nacional e "Engenharia Cartográfica ou Agrimensura"- alegando a existência de cinco cursos no país ( o mais antigo de 1965) e dificuldade no preenchimento de formulários de pesquisa.
Na Grande Área das Ciências Agrárias foi sugerida a inclusão da área "Administração e Extensão Rural" - porque atende a todas as áreas de Ciências Agrárias e não só a de Agronomia.
Na grande área das Ciências Sociais Aplicadas foi sugerida a inclusão da área "Ciências Atuariais" - criação justificada pela existência de vários cursos de nível superior em diversas universidades do país e o crescimento do campo profissional da Atuária.
Na Grande Área Ciências Humanas foi sugerida a criação da área "Folclore" devido ao avanço científico da área.
Uma vez que as Artes tiveram um expressivo crescimento nos últimos anos, estruturando-se em sistema de pós-graduação com especificadas próprias, foi sugerida a inclusão das seguintes áreas: "Artes (Geral)", "Artes Cênicas", "Artes Corporais", "Artes Musicais" e "Artes Visuais".
Embora os resultados das notificações recebidas de inclusão de áreas, não possam ser considerados como completos (alguns comitês não se pronunciaram) revelaram que o número de cursos de nível superior da área no país foi importante parâmetro de inclusão de novas áreas.
c) Considerações sobre as Subáreas
As subáreas dizem respeito ao terceiro nível da
divisão hierárquica da tabela em questão. As principais
considerações deste nível de classificação
estiveram relacionadas a necessidade de se contar com algum princípio
que proporcionasse um certo equilíbrio quanto ao número
de subáreas a serem incluídas na tabela, o que evitaria uma
fragmentação exagerada da classificação.
Os resultados mostraram que o maior número de subáreas
ocorreu nas áreas de Medicina (36), seguida pelas áreas de
Antropologia (17), Administração (15), Engenharia Mecânica
(14), Odontologia e Psicologia (13). As áreas de Genética,
Biologia Molecular e Biotecnologia, Engenharia de Materiais e Metalurgia,
Demografia, Ciência Política e Estudos de Linguagem receberam
sugestões de 11 subáreas cada.
2.2 Outras sugestões recebidas dos membros dos comitês
assessores do CNPq para a nova tabela
Por ocasião do trabalho de revisão, membros dos
comitês assessores do CNPq apresentaram sugestões em termos
de expectativa da nova tabela em preencher necessidades de áreas
específicas. A seguir, uma síntese das
principais sugestões apresentadas, indicando a área de origem:
2.3 A Grande área "Outros" do CNPq e a Grande
Área "Outras" da CAPES
A necessidade de se contar com uma Seção "Gerais", "Outros",
"Diversos", "Vários" ou "Miscelânea" parece ser desejável
e, até mesmo, indispensável em qualquer tabela ou esquema
de classificação. O primeiro Esquema de Classificação
Bibliográfica, desenvolvido em 1789, a Classificação
Decimal de Dewey, dividiu o universo do conhecimento em dez classes principais,
sendo a classe 000 "Generalidades", cuja estrutura de base
está mantida até os dias de hoje. Por outro lado, a
criação de uma classe 'Geral' passa a se constituir de um
aglomerado de dados sem que se possa distinguir algum outro critério
de classificação que não o que o seu próprio
nome indica. Este fato pode ser constatado na apresentação
a seguir das áreas que em 2002 compreendiam a Grande Área
"Outros"
da Tabela do CNPq e a Grande Área "Outras" da tabela da
CAPES.
| CNPq - Grande Área "Outros" | |
| Administração Hospitalar
Administração Rural Carreira Militar Carreira Religiosa Ciências Biomedicina Ciências Atuariais Ciências Sociais Decoração Desenho de Moda Desenho de Projetos Diplomacia |
Engenharia de Agrimensura
Engenharia Cartográfica Engenharia de Armamentos Engenharia Mecatrônica Engenharia Têxtil Estudos Sociais História Natural Química Industrial Relações Internacionais Relações Públicas Secretariado Executivo |
Uma rápida leitura dos 23 itens que integram esta grande área indica que representam denominações genéricas e específicas de áreas, indo de grandes áreas (ex.: Ciências, Ciências Sociais) , áreas (ex.: História Natural), subáreas (ex.: Engenharia Cartográfica) até especialidades (ex.: Desenho de Moda).
A Grande Área "Outras" da CAPES apresenta duas subdivisões:
Área de Ensino com 13 itens e Área Multidisciplinar com 82
itens, num total de 95 itens. A seguir, a enumeração
desses itens.
| CAPES - Grande Área "Outras" | |
| Área: Ensino
Educação Científica e Tecnológica Educação em Ciências e Matemática Educação em Ciências e Matemáticas Educação Matemática Educação para a Ciência Ensino das Ciências Ensino de Ciências (Modalidade Física e Química) Ensino de Ciências e Educação Matemática Ensino de Ciências e Matemática Ensino de Ciências Naturais e Matemática Ensino de Física Ensino em Ciências da Saúde Ensino, Filosofia e História das Ciências Área: Multidisciplinar
|
Esses itens que compõem a área multidisciplinar ilustram
as palavras do Presidente da CAPES nas sugestões para o Plano Nacional
de Pós-graduação 2003: "Outro desafio... é
a institucionalização da outros campos do saber. O item que
mais cresce hoje na CAPES é a multidisciplinaridade", ao que
podemos acrescentar, sem dúvida alguma, ser este também,
o grande desafio atual da construção de uma tabela de áreas
do conhecimento.
3 As 'Áreas do Conhecimento' no tempo e a SBPC
As dados a seguir são resultados de pesquisa realizada no âmbito
da Ciência da Informação. A motivação
surgiu do interesse em observar como a organização do conhecimento
tenta se adequar no tempo ao desenvolvimento da Ciência - no caso
específico, à representação das áreas
do conhecimento numa tabela de classificação.
Os parâmetros da pesquisa realizada compreenderam:
A seguir um breve relato sobre a representatividade das fontes de
dados e dos elementos selecionadas para análise.
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência foi criada em 1948 no contexto do "movimento de afirmação do pensamento científico' no Brasil (Fernandes, 2000). O objetivo principal da Sociedade foi alavancar o progresso da Ciência no País. Ao longo do tempo, as Reuniões Anuais e a Revista "Ciência e Cultura" se firmaram como instrumentos efetivos no alcance dos objetivos da Sociedade.
As Reuniões Anuais da SBPC se caracterizaram ao longo do tempo como um elemento integrador da Ciência num país continental como o Brasil. Esses encontros que se realizam a cada ano num dos Estados da Federação, reúnem cientistas de diversas áreas do conhecimento, provenientes das instituições de ciência de todo o país.
As Comunicações apresentadas às Reuniões Anuais da SBPC são ordenadas em "Seções" que representam "Áreas do Conhecimento". Essas Seções foram sendo estruturadas ao longo do tempo como Tabelas de Classificação. Consideramos importante do ponto de vista da Ciência da Informação acompanhar, ano a ano, a evolução das tabelas de 1956 a 2001 visando identificar as mudanças que ocorreram no tempo na organização das 'áreas do conhecimento' para representar o desenvolvimento da ciência no país no período estudado. Os principais elementos de análises dizem respeito a aspectos estruturais e conceituais.
Os elementos de análise de natureza estrutural foram:
identificação de marcos de mudança no tempo nas tabelas
de classificação das Seções,
a questão específica da Seção Ciências
Aplicadas e a Seção Gerais. Em relação aos
elementos de natureza conceitual foram registrados exemplos de áreas
do conhecimento que pertenceram a mais de uma grande área
no tempo, a denominação de áreas incluindo e
excluindo a palavra 'Ciência' e mesmas áreas que apresentaram
denominações diferentes no tempo. A seguir, a síntese
dos resultados obtidos.
3.1 Marcos de Mudança da Classificação
no Tempo
No período estudado (1956-2001), os anos de 1972, 1976, 1984
e 2001, respectivamente Tabelas 1, 2,
3
e 4, foram considerados como marcos representativos
de mudança nas classificações de 'áreas
do conhecimento' representando as Seções das comunicações
apresentadas às Reuniões Anuais da SBPC. A indicação
de cor diz respeito à grande área e às respectivas
áreas e subáreas, tomando como base o ano de 2001 ou
seja: cor verde,
Ciências Humanas; cor vermelha,
Ciências Biológicas e da Saúde; cor
azul, Ciências Exatas e Tecnológicas.
A grande área Ciências Aplicadas (que não
aparece em 2001) está identificada pela cor preta e
a Seção Gerais (que também
não aparece em 2001) pela cor rosa.
A análise das classificações da SBPC no tempo revelou diferentes tipos de classificação: enumeração de áreas (de 1956 a 1972), indícios de hierarquização por grandes áreas (1976), mudança na ordem das grandes áreas (1984) e ordenação das áreas e subáreas por grandes áreas (2001). Quanto à Notação da tabela no tempo, a análise revelou a adoção de Notação simples (letras - ver Tabela 1 ou números ver Tabela 2) e Notação mista (letras e números - ver Tabelas 3 e 4.
Nas análises ano a ano foi possível identificar mudanças de denominação de Grandes Áreas no tempo. Tomando por base a estrutura da classificação de 2001, observamos que:
Os resultados acima indicam questões que poderíamos
caracterizar como de ordem conceitual e estrutural decorrentes da própria
natureza do processo de desenvolvimento da ciência.
A questão conceitual fica mais explícita no caso das Ciências Humanas, quando Ciências Humanas, Ciências Sociais e Ciências do Homem se apresentam como denominações diferentes de grandes áreas para o mesmo agrupamento de áreas e subáreas.
No caso das Ciências Biológicas e da Saúde, a questão conjuntural aparece com maior destaque, englobando as chamadas Ciências da Vida e as Ciências do Meio Ambiente que mudam de hierarquia, de grande área para subárea, ao longo do tempo.
A área das Ciências Exatas e Tecnológicas nas décadas
de 70 e 80 está representada por três grandes áreas:
Ciências
Matemáticas, Ciências da Matéria e Ciências
da Terra e do Universo. Na reestruturação da Tabela em
2001 esta grande área passa a ter oito áreas compreendendo
grandes áreas dos anos anteriores. É importante destacar
que as áreas que compõem a grande área das Ciências
Exatas e Tecnológicas até 1984 aparecem em primeiro
lugar na ordenação da tabela, fato que também foi
encontrado em tabelas de áreas do conhecimento de outros países,
como por exemplo, na classificação da ASRC como veremos mais
adiante. Especulações em torno deste fato podem levar a questões
conjunturais de âmbito internacional sobre o papel da ciência
a partir da década de 50.
3.2 A Seção "Ciências Aplicadas"
A Seção Ciências Aplicadas aparece representada
como grande área do conhecimento na tabela de classificação
da SBPC entre os anos de 1976 e 1998. Antes e a partir deste período
as áreas que compõem a grande classe das Ciências
Aplicadas aparecem dispersas em outras grandes áreas do conhecimento.
A análise ano a ano da grande área das Ciências
Aplicadas na tabela da SBPC revelou que a inclusão do número
de áreas do conhecimento nesta classe mais do que duplicou
entre 1970 e 1990, ou seja, de quatro seções
na década de 70 para 10 seções nas décadas
de 80 e 90.
A Tabela 5 mostra a composição da Seção Ciências Aplicadas na classificação da SBPC. Na coluna da esquerda, a relação completa das áreas do conhecimento que pertenceram à grande área das Ciências Aplicadas no período estudado. Na coluna da direita essas mesmas áreas estão indicadas pela cor que representa a grande área à qual cada área pertence na tabela SBPC 2001: a cor verde representa as Ciências Humanas, a cor vermelha as Ciências Biológicas e da Saúde, a cor azul as Ciências Exatas e Tecnológicas. A intenção foi identificar a que grandes áreas do conhecimento estão vinculadas às áreas que, num certo período do tempo (de 1976 a 1998), foram caracterizadas como "Ciências Aplicadas " na tabela de áreas do conhecimento da SBPC.
Os resultados encontrados revelaram que as áreas que representaram
por algum tempo a Seção "Ciências Aplicadas" encontram-se
dispersas pelas três grandes áreas da ciência como representadas
na tabela da SBPC do ano de 2001. Interessante observar que a Seção
Desenho Industrial foi excluída no ano de 1991. Esses resultados
indicam a necessidade de se refletir sobre o conceito de Ciências
Aplicadas numa tabela de áreas do conhecimento representando a produção
em ciência no Brasil.
3.3 A Seção "Gerais"
Um ponto que também merece ser destacado é a nomeação
de uma Seção Gerais no ano de 1972 onde foram
incluídas 37 comunicações cujas temáticas
supostamente não se classificavam de maneira satisfatória
nas demais áreas mencionadas na tabela daquele ano (ver Tabela
1).
A seguir estão apresentados dez títulos selecionados das comunicações que foram classificadas na Seção Gerais em 1972 para ilustrar a natureza e a complexidade do problema de alocação de certos "temas de pesquisa" em especificidade em tabelas de 'áreas do conhecimento':
Como pode ser constatado, a maior parte dos exemplos citados
pertence às áreas de Medicina e Letras.
Se observarmos a tabela de classificação das Seções
da SBPC naquele ano (ver Tabela 1), encontraremos 11
Seções representando áreas das Ciências
Biológicas e da Saúde. No entanto, as comunicações
apresentavam temáticas tão específicas que estariam
'melhor classificadas numa Seção 'Gerais'.
3.4 Áreas do Conhecimento representadas em Grandes Áreas
distintas no tempo
A seguir são mostradas questões de ordem conceitual
na alocação das áreas da estrutura da tabela ou na
própria estruturação das subáreas nas respectivas
áreas e grandes áreas a que pertencem. As áreas da
Psicologia, Geografia, Estatística, Ecologia e História ilustram
esses casos.
No período estudado, a Psicologia aparece como Seção das Ciências Humanas de 1957 a 1976. Nos anos de 1977 e 1978, passa a integrar a Seção das Ciências da Vida que em 2001 passou a se denominar Seção das Ciências Biológicas e da Saúde. A Psicologia é vista no tempo tanto como Ciência Humana quanto como Ciência Biológica e da Saúde.
A Seção Geografia no período estudado aparece na década de setenta nas áreas de Geociências e Geologia. Em 1995 aparece pela primeira vez a área da Geografia Humana e Regional como Seção da grande área Ciências do Homem. Neste mesmo ano, a seção Geografia é também mantida na grande área das Ciências da Terra e do Universo. Este exemplo mostrou que no tempo a Geografia passou a ser área de investigação tanto nas Ciências Exatas como nas Ciências Humanas.
A área da Ecologia parece em 1971 na tabela da SBPC como Seção Ecologia e Poluição. De 1973 a 1975 a Ecologia aparece como subseção das Ciências Biológicas. De 1976 a 1978 aparece como subseção, da então criada grande área Ciências do Meio Ambiente que de 1979 a 1994 compreende as subseções Ecologia e Poluição Ambiental. A partir de 1995 essas duas subseções passam a ser representadas como subseções conjuntas de 1995 a 2000 e em separado em 2001 da grande área das Ciências Biológicas e da Saúde. Este exemplo caracteriza o interesse de pesquisa de uma mesma área no tempo em relação a sua alocação numa tabela hierárquica indo de Seção principal para a subseção de uma área.
O caso da Antropologia, da Arqueologia e da História.
A análise dessas áreas ao longo do tempo das tabelas da SBPC
ilustra bem questões de multidisciplinaridade e multicompetência,
demonstrando claramente as dificuldades de alocação coerente
e precisa em agrupamento hierárquico de áreas do conhecimento.
No caso em questão a reprodução da alocação
dessas áreas nas tabelas no tempo é por si só ilustrativa.
| 1972
Antropologia e Sociologia Arqueologia, Pré-história e História
|
1974
Ciências Sociais Antropologia, Pré-história e Arqueologia História Pré-história e Arqueologia |
| 1975
Antropologia Física Ciências Sociais Antropologia História Pré-história e Arqueologia |
1976
Ciências do Homem História e Arqueologia Sociologia e Antropologia
|
| 2001
Ciências Humanas Antropologia Antrop. das Populações Afro-Brasileiras Antropologia Rural Antropologia Urbana Arqueologia História História Antiga e Medieval História Moderna e Contemporânea História do Brasil História e Filosofia da Ciência |
Em relação a este último exemplo é importante
trazer o pensamento de Morin (2000) que esclarece questões de ordem
disciplinar de áreas do conhecimento mostrando problemas de classificação.
No trecho abaixo Morin de refere especificamente à área da
'Pré-história':
Às palavras de Morin nos permitimos acrescentar
que este exemplo mostra o quanto é complexa a construção
de tabelas de classificação de áreas do conhecimento
do universo de C&T.
De maneira geral todos os exemplos das áreas acima mencionadas,
de uma forma ou de outra, podem ser interpretados como ''ponto de vista',
decorrente do próprio desenvolvimento de temáticas
de pesquisa com perspectivas diferentes de abordagem,
gerando questões de ordem multidisciplinar, entre outras possíveis
interpretações. O importante é se estar alertado para
esses tipos de dificuldades na construção e atualização
de classificação de áreas do conhecimento.
3.5 Denominações de Áreas Incluindo
e Excluindo a palavra Ciência
A seguir são mostrados exemplos de denominações
de áreas que incluíram ou excluíram a
palavra 'Ciência', indicando quando as modificações
ocorreram no tempo.
a. Exemplos de áreas que excluíram a palavra 'Ciência' em sua denominação de Seção:
Ciências Agronômicas (1956-1967)
Agronomia (a partir de 1971)
b. Exemplos de denominações áreas de passaram
a incorporar a palavra 'Ciência' na denominação
da Seção no tempo:
Um vez que a tabela em questão é em 'Ciência',
a inclusão e exclusão da palavra "Ciência' na denominação
de áreas de conhecimento é um ponto importante a ser considerado.
3.6 Mesmas áreas com denominações diferentes
no tempo
Para exemplificar este caso foi selecionada a Seção de
Informação Cientifica. A seguir estão indicadas as
diferentes denominações desta área no tempo:
A área de informação científica incorporou
a 'Documentação' a partir de 1975. Em apenas um ano incluiu
a 'Comunicação". Importante considerar que uma tabela de
áreas do conhecimento no Brasil deve se utilizar de denominações
que revelem a essência da prática de pesquisa considerando
seu desenvolvimento natural enquanto área do conhecimento. Uma busca
no tempo das denominações ocorridas de alguma forma indica
características de abrangência das pesquisas na área.
3.7 Comentários sobre as tabelas da SBPC
O acompanhamento das tabelas de classificação das Seções
de Comunicações às Reuniões Anuais da SBPC
no tempo revelaram importantes características de adaptações
necessárias ao acompanhamento do universo de C&T no país
ao longo das últimas cinco décadas. De uma enumeração
de áreas do conhecimento na década de 50 e 60, as Seções
foram se estruturando de forma hierárquica a partir da década
de 70 e de forma mais consolidada nas décadas de 80 e 90.
Na presente década começa a ser observada categorização
"tipo de" na procura de consistência sistemática em termos
de especialidade.
Ao longo do tempo foram observadas mudanças na classificação quanto aos diferentes níveis de hierarquização, ou seja, de grandes áreas, áreas e subáreas. Em relação às grandes áreas merecem destaque a inclusão e exclusão da grande área das Ciências Aplicadas e as mudanças de ordenação das grandes áreas no tempo. Neste último aspecto é importante observar que até a década de 70, a ordem das Seções iniciava pelas Ciências Exatas e Tecnológicas. A tabela de 2001 começa pelas Ciências Humanas, dado importante a ser explorado principalmente no contexto da História da Ciência no país. Do ponto de vista de organização e representação do conhecimento o importante está na conscientização e conseqüente decisão do princípio de divisão a ser adotado na construção da tabela revelando, de alguma forma, a representatividade das áreas do conhecimento no universo de C&T que se quer representar.
Como comentário final salientamos que a análise dos dados
da SBPC revelou o potencial da área de organização
e representação do conhecimento, especificamente da teoria
da classificação no contexto da Ciência
da Informação, como suporte relevante à criação
de instrumentos na sistematização de dados para fins de Gestão
e Avaliação em Ciência, assim como para a História
da Ciência no país.
4 As Áreas do Conhecimento e a Classificação
ASRC
A Australian Standard Research Classification (ASRC) se refere
a um conjunto de classificações desenvolvido pelo Australian
Bureau of Statistics com o objetivo de medir e analisar a pesquisa
e o desenvolvimento (P&D) na Austrália.
A seleção deste material para apresentação
no presente contexto de discussão se deve a três características
principais desta fonte:
2. a classificação por campo de pesquisa da ASRC (que corresponde a tabela de áreas do conhecimento) tomou como base para a sua construção classificações de reconhecida relevância: Comunidade Européia (ECC), OCDE (Manual Frascati) e National Science Foundation (USA);
3. o fato de que enquanto a versão publicada em 1993 menciona como unidade a ser classificada os projetos de pesquisa, a versão de 1998 menciona os projetos de pesquisa e os programas de pesquisa no contexto de ensino, o que coincide com os objetivos da Comissão Mista CAPES/CNPq na reclassificação das áreas do conhecimento no país.
A classificação da ASRC compreende três classificações:
por Tipo de Atividade, por Área do Conhecimento e por Objetivo Socioeconômico.
A classificação por Tipo de Atividade permite que a atividade de P&D seja categorizada, de acordo com o tipo de atividade de pesquisa em: Pesquisa Básica Pura, Pesquisa Básica Estratégica, Pesquisa Aplicada e Desenvolvimento Experimental.
Na classificação por Campo de Pesquisa (FOR - Field of Research) é a natureza da atividade de P&D que está sendo examinada. Na edição de 1993 está explicitado que esta classificação permite que a atividade de P&D seja categorizada de acordo com o campo de pesquisa trabalhado. Esclarece que a classificação é baseada primeiramente em disciplinas acadêmicas reconhecidas e áreas de estudo em evolução. Esta mesma classificação na edição de 1998 se denomina Classificação por Campo de Pesquisa, Cursos e Disciplinas (RFCD - Research Field, Courses and Disciplines). Especifica que esta classificação permite que a atividade de P&D seja categorizada no setor da educação superior. Categorias incluídas nesta classificação: a) disciplinas acadêmicas reconhecidas e os principais campos relacionados, ministradas nas universidades ou outras instituições de ensino superior; b) principais campos de pesquisa investigados por instituições e organizações nacionais de pesquisa; e c) áreas emergentes de estudo. Importante observar o que muda nas duas edições desta classificação.
A Tabela 6 mostra uma comparação entre a Classificação por Campo de Pesquisa (ASRC/FOR) de 1993 e a Classificação por Campo de Pesquisa, Cursos Disciplinas (ASRC/RFCD) de 1998. A intenção é verificar as mudanças de estrutura e rearranjos de áreas do conhecimento ocorridas em função da abrangência da classificação, ou seja: de classificação por campo de pesquisa em 1993 para classificação por campo de pesquisa, cursos e disciplinas em 1998. A classificação de 1998 abrangendo Campos de Pesquisa Cursos e Disciplinas corresponde exatamente à perspectiva atual da reclassificação da áreas do conhecimento da Comissão Mista CAPES/CNPq.
A Tabela 6 revela mudanças de denominações e rearranjo das macro divisões e desmembramentos das grandes áreas da tabela da ASRC/FOR 1993 para a tabela da ASRC/RFCD de 1998. Em relação às grandes áreas do conhecimento a principal observação se refere ao aumento considerável de número de áreas decorrente do desmembramento das Ciências Sociais em 8 áreas e das Humanidades em 4 áreas. Essas observações de especificação de grandes áreas é ponto crucial de atenção uma vez que é dessas classes que numa estrutura hierárquica decorrem as demais classes representando áreas e subáreas. Conseqüentemente, são as grandes áreas que norteiam a macro abrangência do instrumento em termos da agregação de dados, delineando o universo do conhecimento que se quer representar.
A titulo de comparação para futuras reflexões é apresentada uma comparação das grandes áreas conhecimento da tabela de classificação do CNPq e da ASRC. A Tabela 7 mostra a comparação CNPq-ASRC/FOR 1993 e a Tabela 8 mostra a comparação CNPq-ASRC/RFCD 1998. A comparação das áreas do conhecimento do CNPq com as áreas da ASRC/FOR revela semelhanças na definição das grandes áreas. Como principal observação na comparação das duas tabelas apontamos o desmembramento da área de Engenharias em mais duas grandes áreas: Informação, Computação e Tecnologias de Informação e a área Ciências Aplicadas e Tecnologias. Em relação à comparação CNPq-ASRC/RFCD, esta última referente a campos de pesquisa, cursos e disciplinas, nota-se um aumento considerável de grandes áreas para representar este universo, distanciando-se consideravelmente das grandes áreas da tabela do CNPq ainda em vigor no país.
A Tabela 9 mostra o número de classes que representam
as diferentes hierarquias das classificações analisadas:
tabela de áreas do conhecimento CNPq/CAPES, tabelas das Seções
de Comunicações da Reuniões Anuais da SBPC
e as tabelas ASRC/FOR de 1993 e a ASRC/RFCD de 1998 para que se tenha
uma idéia da ordem de amplitude e nível de
especificidade do universo de C&T representado em cada uma delas.
5 Considerações finais
Da experiência de participar de um trabalho preliminar de revisão
da Tabela de Áreas do Conhecimento e de como pesquisadora
investigar a evolução de uma tabela de classificação
da SBPC no tempo para acompanhar o desenvolvimento da Ciência
no país, foi possível identificar algumas questões
que merecem reflexão num trabalho de construção,
revisão ou reclassificação das 'áreas do conhecimento'
no âmbito de uma comissão conjunta CNPq-CAPES
para uso no sistema de C&T do país.
Por que uma Tabela de Áreas do Conhecimento?
Para quem / Para que uma Tabela de Áreas do Conhecimento?
Como construir uma Tabela de Áreas do Conhecimento?
Podemos dizer que a finalidade principal de uma tabela de 'Áreas do Conhecimento' é orientar o Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia do País. Uma tabela desta natureza, construída em base de uma sistematização de campos de pesquisa, poderá gerar indicadores representativos de atividades de pesquisa (projetos de pesquisa), formação de recursos humanos (programas de ensino superior) e produtos (publicações, bases-de-dados etc.), para citar alguns exemplos.
Os possíveis usuários de tal instrumento seriam as instituições de Ciência, Tecnologia e Inovação do país, notadamente: órgãos governamentais, agências de fomento, instituições de ensino e pesquisa, sociedades científicas e a própria comunidade científica .
A construção, revisão ou atualização de uma tabela de áreas do conhecimento é atividade complexa que necessita do apoio incondicional da própria comunidade de pesquisadores em C&T através de suas principais representações. A participação efetiva dos membros dos Comitês Assessores do CNPq, da CAPES , assim como das Sociedades Científicas é necessária não só para compartilhar esforços no trabalho a ser realizado mas, também, como garantia da aceitação e uso da nova tabela pela comunidade de C&T do país.
A elaboração ou atualização de uma tabela de áreas do conhecimento deve considerar as experiências da própria comunidade brasileira em sua prática de pesquisa no intuito de retratar a realidade nacional na qual e para a qual se produz conhecimento em C&T no país. No entanto, a busca de classificações de áreas do conhecimento com propósitos semelhantes, originárias de experiência em outros países e de organismos internacionais, é importante como exemplos de abordagem de um mesmo problema mas, também, para não se perder de vista a viabilidade de comparação de dados em nível internacional.
O arranjo hierárquico representa o universo de C & T em grandes áreas, áreas, subáreas e especialidades. As tabelas de áreas do conhecimento no país em uso pelo CNPq, pela CAPES e pela SBPC, assim como o exemplo da classificação Australiana, usam o arranjo hierárquico. A vantagem deste tipo de arranjo é que as partes são co-extensivas com o todo, permitindo diferentes níveis de agregação com lógica própria de sistematização de dados em C&T.
O caso das Ciências Aplicadas merece atenção especial enquanto área do conhecimento, especialmente visando a classificação de projetos de cunho tecnológico.
O crescente número de projetos e programas de pesquisa de natureza multidisciplinar exigirá atenção especial no delineamento de uma tabela de áreas do conhecimento no país.
O sucesso do trabalho de construção, atualização/revisão/reclassificação de tabelas de áreas do conhecimento dependerá de vontade política e de investimento específico tanto em pessoal especializado, altamente capacitado, como em infra-estrutura necessária de apoio à implementação dos resultados alcançados. Além disso, será necessário contar com a participação efetiva da comunidade científica e manter uma equipe de acompanhamento permanente.
Para finalizar, cumpre ressaltar que a tabela de 'áreas do conhecimento' não deve ser considerada como o único instrumento possível de sistematização de dados em C&T. No entanto, é mister que a ordenação das "áreas do conhecimento" em algum arranjo de classificação hierárquica é um instrumento indispensável, imprescindível mesmo, como suporte às atividades de gestão e avaliação de C&T e como referencial representativo de apoio à formulação de políticas públicas em C&T do país.
Anexos
Referências Bibliográficas
ANDERSEN, J. "Communication technologies and the concept of knowledge organization - a medium-theory perspective". Knowledge Organization, vol. 29, no. 1, 2002. p. 29-39
AUSTRALIAN BUREAU OF STATISTICS. Australian Standard Research Classification 1998: a set of classifications for R&D projects. T.J. Skinner, acting Australian Statistician. Canberra, ABS, 1998
AUSTRALIAN BUREAU OF STATISTICS. Australian Standard Research Classification 1993: a set of classifications for R&D projects. Ian Castles, Australian Statistician. Canberra, ABS, 1993
BIOLCHINI, J. C. de A.. Da Organização do Conhecimento à Inteligência: o desenvolvimento de ontologias como suporte à decisão médica. Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação, Convênio IBICT-UFRJ. Orientação de Rosali Fernandez de Souza. Rio de Janeiro, 2003.
CAMPOS, M.L. de A . A organização de unidades de conhecimento em hiperdocumentos: o modelo conceitual como um espaço comunicacional para a realização da autoria. Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação, Convênio IBICT-UFRJ. Orientação de Rosali Fernandez de Souza e Maria Luiza Machado Campos. Rio de Janeiro, 2001.187p.
DAHLBERG, I. Ontical structures and universal classification. Bangalore, Sarada Ranganathan Endowment, 1978 a . 64 p.
DAHLBERG, I. "Faceted classification and terminology". In: TKE'93, TERMINOLOGY AND KNOWLEDGE ENGENEERING, Cologne, Aug.25-27, 1993. Proceedings. Frankfurt, Indeks Verlag, 1993. P. 225-234
FOSKETT, D.J. Classification and indexing in the social sciences. London, Butterworths, 1963.190p.
LANGRIDGE, D. Classification and indexing in the humanities. London, Butterworths, 1976.143p.
LANGRIDGE, D. W. Classificação: abordagem para estudantes de biblioteconomia. Tradução de Rosali P. Fernandez. Rio de Janeiro, Interciência, 1977.
MORIN, E. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2001. 128 p.
OLSON, H. A . "Diversity in knowledge organization". Editorial. Knowledge Organization, vol. 28, no. 2, 2001 p.63-64.
RANGANATHAN, S.R. Prolegomena to library classification . Bombay, Asia Publishing House, 1967. 640 p.
RANGANATHAN, S.R. Philosophy of library classification. New Delhi, Ejnar Munksgaard, 1951.
VICKERY, B. C. Classification and indexing in science. London, Butterworths, 1975.
WÜESTER, E. "L'étude scientifique générale
de la terminologie, zone frontalière entre la linguistique, la logique,
l'ontologie, l'informatique et les sciences des choses." In: RONDEAU,
G., FELDER, F. (org.). Textes choisis de terminologie I. Fondéments
théoriques de la terminologie. Quebéc, GIRSTERM,1981.
P. 57-114.
Sobre a autora / About the Author:
Rosali Fernandez de Souza
rosali@ibict.br
PhD, Pesquisadora Titular IBICT/MCT
Professora do PPGCI do Convênio IBICT/UFF