Dos Seres e dos Sentimentos Fabulosos
(Impressões de Leitura)
por Nilson Lage
Em seu Libro de los seres imaginarios, Jorge Luis Borges, amparado
em pesquisa de Margarita Guerrero, fala dos dragões, com sua
composição estranha de animal e fogo, armados de nove semelhanças:
chifres de veado, cabeça de camelo, olhos de demônio, pescoço
de serpente, ventre de molusco, escamas de peixe, garras de águia,
planta dos pés de tigre e orelhas de touro. Tanto a tradição
chinesa quanto a razão poética de Shakespeare o encontram
nas nuvens; não em todas, mas naquela que aparece em um momento
especial - 'a cloud that's dragonish'.
O homem não inventou apenas Deus à sua imagem e semelhança,
mas também metáforas como a do Bao A Qu, criatura do Oriente
Médio que habita o primeiro degrau da escada da Torre de Vitória,
em Chitor, e vai tomando forma à medida que segue os passos de quem
sobe até o topo. Sua aparição se completa quando o
visitante é puro: neste caso, dizem, irradia luz azul muito viva
- algo que aconteceu uma única vez ao longo dos séculos ou
milênios em que existem Chitor, a torre e Bao A Qu.
No livro estão a parca, que caminha "ereta como báculo";
o jáculo, que passa voando como flecha; e a anfisbena, serpente
com uma cabeça onde todas as cobras têm as suas e outra na
ponta do rabo, ambas de olhos brilhantes, dentes venenosos.
Da China, veio a história do Imperador Amarelo: ele devolveu
a seu lugar o povo dos espelhos que havia atravessado para cá e
fez adormecer todos os fantasmas invasores, menos o peixe, que apenas cochila
e de vez em quando aparece, quando a luz penetra a superfície polida
em determinado ângulo e fere seus olhos.
Da Grécia clássica - para ser exato, em dois textos de
Platão, Timeu e Leis, - chegou-nos a versão
de que a Terra e os outros planetas seriam seres vivos, que, mais ou menos
um milênio depois, Giordano Bruno dotou de sangue quente e razão
humana. Refletindo sobre esse tema, e sobre a hipótese de ser o
céu a Santa Morada, Fechner, psicólogo alemão
do Século XIX, admitiu que, se os planetas são criaturas
tranqüilas e de movimentos regulares, deveriam, então, ser
anjos as estrelas, que iluminam cada uma o seu espaço do Universo.
Aos animais abstratos com que Condillac tentou refutar a noção
das 'idéias inatas' de Descartes e Lotze pretendeu contestar as
categorias kantianas, não se pode deixar de acrescentar algo que
Borges esqueceu em seu livro, talvez por ser recente ou porque não
se trata exatamente de um ser vivo, mas como se fosse: a 'máquina
universal' criada por Allan Turing na década de 1930, que
se ocupa, infinitamente, de processar e apagar símbolos que representam
seres e ações. Pouco importa, na verdade, que da fábula
tenham nascido os computadores como os conhecemos porque, pelo menos nesse
caso comprovado, a ficção, disfarçada de teoria, precedeu
a realidade, como um software que antecede seu hardware.
Não apenas Condillac, Lotze ou Turing criaram fantasias para
vestir idéias; há os profissionais do ramo, como Kafka, com
as alegorias de A Metamorfose, ou sua descrição sucinta
de um animal parecido com a raposa, mas com algo humano, que deita a cauda
para atrair o escritor e a retira quando ele a quer tomar.
Sejam divindades voadoras com longas cabeleiras ou aves com cara de
moça, garras recurvadas, pálidas de uma fome que não
conseguem saciar, as harpias, escreve Borges, podem ser confundidas com
as parcas, ou com a fúria dos infernos.
(continua...)
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(...continuação)
Raptam, arrebatam; são como a morte, mas não vestem túnica
nem portam a foice. Nada se parecem com o asno de três patas que
Zaratustra concebeu, animal tão correto e magnífico que seu
esterco é âmbar; ou com a fênix, ave egípcia
sagrada, de penas douradas e carmim, que dura 12.994 anos terrestres
e, por todo esse tempo, renasce toda vez que a pensam liquidada.
São muitos os seres de que nos fala o compêndio: o centauro,
a roca, o cérbero (que é um cão), a medusa, o basilisco
(com o signo da coroa cravado na cabeça de serpente),o behemoth
(besta da tradição hebraica), o cronos (ou Heracles), os
elfos, o grifo, o hipogrifo, o unicórnio (que encara a si
mesmo no brasão da rainha da Inglaterra), as valquírias,
as ninfas, as sereias, os lêmures (almas dos mortos malvados, isto
é, de quase todos), os sátiros, os gnomos, as bruxas, as
fadas ...
Mais poderiam juntar-se a esse elenco, se contadas criaturas regionais,
como o boitatá, o saci ou a mula-sem-cabeça. No entanto,
o que me importa e me levou a escrever é o princípio ou fórmula
dessa criação, porque revela o limite da imaginação
humana e nos faz compreender certas relações terrenas.
Nada é realmente novo ou diferente do que existe ou do que se
pode abstrair da realidade, à qual nos aprisionamos irremediavelmente.
Em alguns casos, como no da lenda árabe da Torre de Vitória,
trata-se de ilustrar uma idéia com analogias corriqueiras: a altura
pela sublimidade, o brilho pela pureza, o pegajoso pelo repugnante, e assim
por diante. O mais que fazemos é caminhar pelo sentido inverso ao
trânsito dos fractais, buscando formas que julgamos 'puras' e nas
quais fundamos nossa geometria.
No mais das vezes, faz-se mais simples ainda: multiplicam-se cabeças,
braços ou olhos; colocam-se estranhos adereços, como o chifre
pontudo que se compõe tão belamente com o perfil dos cavalos
selvagens. Ou ainda juntam-se coisas diferentes ou até contrárias
uma à outra no mesmo ser ou contexto: a mulher e o peixe (diria
eu, as metades erradas); o cavaleiro e o cavalo (também aí
não as melhores partes, diria uma dama de bom senso), ying
e yang.
Neste sentido, talvez a mais arrojada criação da mente
humana tenha sido o amor integral, aquele de que falam os poetas. Porque,
sendo fálico, desejo sem alvo definido - e, portanto, prazer, brinquedo
e fúria -, querem também que seja cupido, etéreo e
voltado a objeto - sonho, portanto, beleza e repouso.
É como se a junção dos extremos, parte do enigma
desse amor, compusesse a estranheza que, no entanto, é para ser
vivida mais do que compreendida. Porque é algo que se desliga das
outras afeições e prazeres, dos compromissos da vida civil
e das gratificações da vida intelectual, da razão
e do bom senso - e diante do qual, simplesmente, nos cabe, podendo, experimentar.
19 de fevereiro de 2004
Nilson Lage
lage@floripa.com.br
Professor Titular da Universidade Federal de Santa Catarina
Diretor do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência
e Tecnologia - IBICT
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