DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.5   n.2   abr/04                       COLUNAS


 
Dos Seres e dos Sentimentos Fabulosos
(Impressões de Leitura)
 por Nilson Lage

Em seu Libro de los seres imaginarios, Jorge Luis Borges, amparado em pesquisa de Margarita Guerrero,  fala dos dragões, com sua composição estranha de animal e fogo, armados de nove semelhanças: chifres de veado, cabeça de camelo, olhos de demônio, pescoço de serpente, ventre de molusco, escamas de peixe, garras de águia, planta dos pés de tigre e orelhas de touro. Tanto a tradição chinesa quanto a razão poética de Shakespeare o encontram nas nuvens; não em todas, mas naquela que aparece em um momento especial - 'a cloud that's dragonish'.

O homem não inventou apenas Deus à sua imagem e semelhança, mas também metáforas como a do Bao A Qu, criatura do Oriente Médio que habita o primeiro degrau da escada da  Torre de Vitória, em Chitor, e vai tomando forma à medida que segue os passos de quem sobe até o topo. Sua aparição se completa quando o visitante é puro: neste caso, dizem, irradia luz azul muito viva - algo que aconteceu uma única vez ao longo dos séculos ou milênios em que existem Chitor, a torre e Bao A Qu.

No livro estão a parca, que caminha "ereta como báculo"; o jáculo, que passa voando como flecha; e a anfisbena, serpente com uma cabeça onde todas as cobras têm as suas e outra na ponta do rabo, ambas de olhos brilhantes, dentes venenosos.

Da China, veio a história do Imperador Amarelo: ele devolveu a seu lugar o povo dos espelhos que havia atravessado para cá e fez adormecer todos os fantasmas invasores, menos o peixe, que apenas cochila e de vez em quando aparece, quando a luz penetra a superfície polida em determinado ângulo e fere seus olhos. 

Da Grécia clássica - para ser exato, em dois textos de Platão, Timeu e Leis, - chegou-nos  a versão de que a Terra e os outros planetas seriam seres vivos, que, mais ou menos um milênio depois, Giordano Bruno dotou de sangue quente e razão humana. Refletindo sobre esse tema, e sobre a hipótese de ser o céu a Santa Morada,  Fechner, psicólogo alemão do Século XIX, admitiu que, se os planetas são criaturas tranqüilas e de movimentos regulares, deveriam, então, ser anjos as estrelas, que iluminam cada uma o seu espaço do Universo.

Aos animais abstratos com que Condillac tentou refutar a noção das 'idéias inatas' de Descartes e Lotze pretendeu contestar as categorias kantianas, não se pode deixar de acrescentar algo que Borges esqueceu em seu livro, talvez por ser recente ou porque não se trata exatamente de um ser vivo,  mas como se fosse: a 'máquina universal' criada por  Allan Turing na década de 1930, que se ocupa, infinitamente, de processar e apagar símbolos que representam seres e ações. Pouco importa, na verdade, que da fábula tenham nascido os computadores como os conhecemos porque, pelo menos nesse caso comprovado, a ficção, disfarçada de teoria, precedeu a realidade, como um software que antecede seu hardware.

Não apenas Condillac, Lotze ou Turing criaram fantasias para vestir idéias; há os profissionais do ramo, como Kafka, com as alegorias de A Metamorfose, ou sua descrição sucinta de um animal parecido com a raposa, mas com algo humano, que deita a cauda para atrair o escritor e a retira quando ele a quer tomar.

Sejam divindades voadoras com longas cabeleiras ou aves com cara de moça, garras recurvadas, pálidas de uma fome que não conseguem saciar, as harpias, escreve Borges, podem ser confundidas com as parcas, ou com a fúria dos infernos.

 (continua...)


(...continuação)
 

Raptam, arrebatam; são como a morte, mas não vestem túnica nem portam a foice. Nada se parecem com o asno de três patas que Zaratustra concebeu, animal tão correto e magnífico que seu esterco é âmbar; ou com a fênix, ave egípcia sagrada, de penas douradas e carmim,  que dura 12.994 anos terrestres e, por todo esse tempo, renasce toda vez que a pensam liquidada.

São muitos os seres de que nos fala o compêndio: o centauro, a roca, o cérbero (que é um cão), a medusa, o basilisco (com o signo da coroa cravado na cabeça de serpente),o behemoth (besta da tradição hebraica), o cronos (ou Heracles), os elfos, o grifo, o hipogrifo, o unicórnio (que encara a si  mesmo no brasão da rainha da Inglaterra), as valquírias, as ninfas, as sereias, os lêmures (almas dos mortos malvados, isto é, de quase todos), os sátiros, os gnomos, as bruxas, as fadas ...

Mais poderiam juntar-se  a esse elenco, se contadas criaturas regionais, como o boitatá, o saci ou a mula-sem-cabeça. No entanto, o que me importa e me levou a escrever é o princípio ou fórmula dessa criação, porque revela o limite da imaginação humana e nos faz compreender certas relações terrenas.

Nada é realmente novo ou diferente do que existe ou do que se pode abstrair da realidade, à qual nos aprisionamos irremediavelmente. Em alguns casos, como no da lenda árabe da Torre de Vitória, trata-se de ilustrar uma idéia com analogias corriqueiras: a altura pela sublimidade, o brilho pela pureza, o pegajoso pelo repugnante, e assim por diante. O mais que fazemos é caminhar pelo sentido inverso ao trânsito dos fractais, buscando formas que julgamos 'puras' e nas quais fundamos nossa geometria.

No mais das vezes, faz-se mais simples ainda: multiplicam-se cabeças, braços ou olhos; colocam-se estranhos adereços, como o chifre pontudo que se compõe tão belamente com o perfil dos cavalos selvagens. Ou ainda juntam-se coisas diferentes ou até contrárias uma à outra no mesmo ser ou contexto: a mulher e o peixe (diria eu, as metades erradas); o cavaleiro e o cavalo (também aí não as melhores partes, diria uma dama de bom senso), ying e yang

Neste sentido, talvez a mais arrojada criação da mente humana tenha sido o amor integral, aquele de que falam os poetas. Porque, sendo fálico, desejo sem alvo definido - e, portanto, prazer, brinquedo e fúria -, querem também que seja cupido, etéreo e voltado a objeto - sonho,  portanto, beleza e repouso.

É como se a junção dos extremos, parte do enigma desse amor, compusesse a estranheza que, no entanto, é para ser vivida mais do que compreendida. Porque é algo que se desliga das outras afeições e prazeres, dos compromissos da vida civil e das gratificações da vida intelectual, da razão e do bom senso - e diante do qual, simplesmente, nos cabe, podendo, experimentar. 
 

19 de fevereiro de 2004




Nilson Lage
lage@floripa.com.br 
Professor Titular da Universidade Federal de Santa Catarina
Diretor do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia - IBICT