Tradução para o português de Pedro Maia Soares,
com acréscimos à edição revista e ampliada
canadense de 1999
Editora Schwarcz Ltda., Companhia das Letras, São Paulo, 2003
- 495 pp. - ~R$60,00
http://www.companhiadasletras.com.br
"No inverno de 1977, Gianni Guadalupe sugeriu que preparássemos
um guia de viagens para alguns lugares descritos na literatura. Lugares
como Selene, a cidade-vampiro de Paul Féval, Shangri-La, Oz e Ruritânia",
assim Alberto Manguel inicia a introdução de seu fantástico
livro, o "Dicionário de Lugares Imaginários", escrito
com Gianni Guadalupi, um guia de viagem por lugares inexistentes - ou melhor,
existentes apenas no terreno imaginário da ficção.
Os autores fizeram um amplo levantamento de paisagens estranhas e exóticas,
de cidades, países, ilhas, paraísos utópicos, mundos
subterrâneos, muitos deles cenários de aventuras incríveis
e, muitas vezes, absurdas existentes na literatura mundial.
O livro percorre a história da literatura, indo da Abadia
de "O nome da rosa" ao "País das Maravilhas", passando
por locais menos famosos como Agzceaziguls e Cacklogallinia.
Só não foram considerados paraísos, infernos e lugares
localizados no futuro. Cada verbete é uma pequena obra de ficção
inteligente e bem-humorada. Os locais são tratados como se de fato
existissem, com descrições detalhadas, fiéis à
fonte original. Entre as diversas informações, há
a localização geográfica e a história dos lugares,
o comportamento de seus habitantes, a flora e a fauna, pontos turísticos
e até recomendações gastronômicas. Mapas e ilustrações
enriquecem os tópicos.
O viajante literário tem a oportunidade de conhecer paisagens
inusitadas como Frívola, a terra das maravilhas tênues,
com seus cavalos tão frágeis que ninguém pode montá-los.
Ou Capilária, região povoada por mulheres loiras gigantescas
que devoram os bullpops (criaturas pequenas e indefesas, semelhantes
a órgãos sexuais masculinos). Ou ainda Pauk, uma sala
vazia cujo único habitante é uma aranha gigantesca.
Diferente de uma obra de referência usual, utilizada apenas para
consultas eventuais, o "Dicionário de Lugares Imaginários"
pode ser lido linearmente do começo ao fim. Esta edição
foi enriquecida com alguns lugares famosos da literatura brasileira, como
Antares, o Ateneu, o Sítio do Pica-Pau Amarelo,
o Liso do Sussuarão e a lendária Pasárgada,
do poeta Manuel Bandeira.
Alberto Mangel comenta: "Durante mais de dois anos, visitamos cerca
de 2 mil lugares, muitos dos quais eram quase desconhecidos, outros se
revelaram inaceitáveis, de modo que, no final, pouco mais da metade
daquele número foi incluído. O universo imaginário
é de uma riqueza e de uma diversidade espantosas: mundos criados
para satisfazer um desejo urgente de perfeição, utopias imaculadas
como Cristianópolis ou Victoria, que mal respiram; outros, como
Nárnia ou o país das Maravilhas, inventados para dar um lar
à magia, onde o impossível não entra em choque com
a vizinhança; outros ainda, como o reino dos Sonhos, construídos
para satisfazer os viajantes enfastiados com a realidade; ou viajantes
que praticam há muito tempo artes tenebrosas e pouco ortodoxas,
como na ilha de Noble."
Você poderá se refugiar no reino da Sabedoria,
onde o acesso se faz por um posto de pedágio. Os viajantes ao visitá-lo
ganham um kit com mapas e moedas e um livro de regras; o contentamento
do visitante não pode ser garantido mas a perda de tempo promete
ser reembolsada. Fundada por um jovem príncipe que cruzou
o mar do conhecimento e do qual seus dois filhos fundaram posteriormente
as cidades de Dicionópolis no sul e Digitópolis
ao norte de Sabedoria. Quem preferir pode se refugiar nas montanhas
da Ignorância. Escarpadas, agrestes e escorregadias, as montanhas
da Ignorância são habitadas por seres estranhos; lá
moram os três demônios do Compromisso, que andam em
círculos. Quando um diz branco o segundo diz preto e o terceiro
concorda com ambos. Apesar de tudo, muitos lá se refugiam e são
felizes, alguns doutos sábios de outras terras encontram lá
paz interior e estão sempre prontos a fornecer informação
errada.
Recensão composta com trechos do livro e de sua exposição por Aldo de Albuquerque Barreto