DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.5   n.2   abr/04                            RECENSÕES

Dicionário de Lugares Imaginários
Alberto Manguel e Gianni Guadalupi

Tradução para o português de Pedro Maia Soares, com acréscimos à edição revista e ampliada canadense de 1999
Editora Schwarcz Ltda., Companhia das Letras, São Paulo, 2003 - 495 pp. - ~R$60,00
http://www.companhiadasletras.com.br

"No inverno de 1977, Gianni Guadalupe sugeriu que preparássemos um guia de viagens para alguns lugares descritos na literatura. Lugares como Selene, a cidade-vampiro de Paul Féval, Shangri-La, Oz e Ruritânia", assim Alberto Manguel inicia a introdução de seu fantástico livro, o "Dicionário de Lugares Imaginários", escrito com Gianni Guadalupi, um guia de viagem por lugares inexistentes - ou melhor, existentes apenas no terreno imaginário da ficção. Os autores fizeram um amplo levantamento de paisagens estranhas e exóticas, de cidades, países, ilhas, paraísos utópicos, mundos subterrâneos, muitos deles cenários de aventuras incríveis e, muitas vezes, absurdas existentes na literatura mundial.
O livro percorre a história da literatura, indo da Abadia de "O nome da rosa" ao "País das Maravilhas", passando por locais menos famosos como Agzceaziguls e Cacklogallinia. Só não foram considerados paraísos, infernos e lugares localizados no futuro. Cada verbete é uma pequena obra de ficção inteligente e bem-humorada. Os locais são tratados como se de fato existissem, com descrições detalhadas, fiéis à fonte original. Entre as diversas informações, há a localização geográfica e a história dos lugares, o comportamento de seus habitantes, a flora e a fauna, pontos turísticos e até recomendações gastronômicas. Mapas e ilustrações enriquecem os tópicos.
O viajante literário tem a oportunidade de conhecer paisagens inusitadas como Frívola, a terra das maravilhas tênues, com seus cavalos tão frágeis que ninguém pode montá-los. Ou Capilária, região povoada por mulheres loiras gigantescas que devoram os bullpops (criaturas pequenas e indefesas, semelhantes a órgãos sexuais masculinos). Ou ainda Pauk, uma sala vazia cujo único habitante é uma aranha gigantesca.
Diferente de uma obra de referência usual, utilizada apenas para consultas eventuais, o "Dicionário de Lugares Imaginários" pode ser lido linearmente do começo ao fim. Esta edição foi enriquecida com alguns lugares famosos da literatura brasileira, como Antares, o Ateneu, o Sítio do Pica-Pau Amarelo, o Liso do Sussuarão e a lendária Pasárgada, do poeta Manuel Bandeira.

Alberto Mangel comenta: "Durante mais de dois anos, visitamos cerca de 2 mil lugares, muitos dos quais eram quase desconhecidos, outros se revelaram inaceitáveis, de modo que, no final, pouco mais da metade daquele número foi incluído. O universo imaginário é de uma riqueza e de uma diversidade espantosas: mundos criados para satisfazer um desejo urgente de perfeição, utopias imaculadas como Cristianópolis ou Victoria, que mal respiram; outros, como Nárnia ou o país das Maravilhas, inventados para dar um lar à magia, onde o impossível não entra em choque com a vizinhança; outros ainda, como o reino dos Sonhos, construídos para satisfazer os viajantes enfastiados com a realidade; ou viajantes que praticam há muito tempo artes tenebrosas e pouco ortodoxas, como na ilha de Noble."
Você poderá se refugiar no reino da Sabedoria, onde o acesso se faz por um posto de pedágio. Os viajantes ao visitá-lo ganham um kit com mapas e moedas e um livro de regras; o contentamento do visitante não pode ser garantido mas a perda de tempo promete ser reembolsada.  Fundada por um jovem príncipe que cruzou o mar do conhecimento e do qual seus dois filhos fundaram posteriormente as cidades de Dicionópolis no sul e Digitópolis ao norte de Sabedoria. Quem preferir pode se refugiar nas montanhas da Ignorância. Escarpadas, agrestes e escorregadias, as montanhas da Ignorância são habitadas por seres estranhos; lá moram os três demônios do Compromisso, que andam em círculos. Quando um diz branco o segundo diz preto e o terceiro concorda com ambos. Apesar de tudo, muitos lá se refugiam e são felizes, alguns doutos sábios de outras terras encontram lá paz interior e estão sempre prontos a fornecer informação errada.
 
 

Recensão composta com trechos do livro e de sua exposição por Aldo de Albuquerque Barreto