DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.6  n.2   abr/05                            ARTIGO 04

Histórias em quadrinhos e serviços de informação: um relacionamento em fase de definição
Comics and information services: a relationship to be defined
por Waldomiro Vergueiro




Resumo: Existentes como meio de comunicação de massa desde o fim do século 19, as histórias em quadrinhos recentemente têm sido mais bem recebidas pela sociedade, adentrando as unidades de informação e trazendo novos desafios para os profissionais de informação, que necessitam familiarizar-se com elas, informar-se sobre as suas características e conhecer as fontes na área. Com base neste contexto, apresenta-se uma definição das histórias em quadrinhos, as características de sua linguagem, seu enfoque como meios de comunicação de massa, relação com as bibliotecas e as principais características de seus produtos, consumidores e fontes de informação. Sugerem-se algumas fontes na área.
Palavras-chave: Histórias em Quadrinhos - Serviços de Informação; Histórias em Quadrinhos - Bibliotecas; Gibitecas.

Abstract: Existing as media since the end of the 19th. Century, comics have been better accepted by society recently, entering into information units and bringing new challenges to information professionals, who need to become acquainted with them, acquire information about their characteristics and know better the information sources in the field. Based on this context, the definition of comics is presented, as well as the characteristics of their language, their approach as communication media, their relationship with libraries and the main features of the comics products, consumers and information sources. Some information sources on the subject are suggested.
Keywords: Comics - Information services; Comics - Libraries; Gibitecas.
 
 
 

Introdução

Como linguagem gráfica, as histórias em quadrinhos existem praticamente desde o início da história do homem, quando os nossos ancestrais, por meio de desenhos canhestros, contavam graficamente, nas paredes das cavernas em que habitavam, as peripécias de suas caçadas ou refletiam sobre o seu cotidiano. Como meio de comunicação de massa, pode-se dizer que os quadrinhos existem há mais de um século, florescendo vertiginosamente na imprensa sensacionalista norte-americana de finais do século 19. No entanto, contrariamente ao que esta longa trajetória levaria a crer, o reconhecimento das histórias em quadrinhos como uma produção artística e cultural de grande influência na sociedade ainda não se deu em sua plenitude, embora passos importantes nesse sentido tenham sido dados nos últimos 30 anos, a partir da valorização da linguagem dos quadrinhos por intelectuais europeus do porte de Umberto Eco [1976], Alain Resnais e Frederico Fellini [MOYA, 1977].

Tendo sido objeto de perseguições e preconceitos em sua longa trajetória, hoje as histórias em quadrinhos já são encaradas de forma muito mais positiva por parcelas cada vez maiores da sociedade. Aos poucos, elas passaram a ser aceitas nos mais diversos ambientes educacionais, sendo utilizadas por professores de todas as áreas e níveis de ensino e se tornando objeto de atenção de pesquisadores no mundo inteiro. Em conseqüência, passaram a fazer parte de coleções das bibliotecas, passando a representar um desafio para os profissionais da informação devido à pouca familiaridade que estes tinham (e têm) com esse produto editorial. No Brasil, a situação não é substancialmente diferente do que ocorre no resto do mundo, com muitos profissionais da informação tendo dificuldade para definir a forma adequada de tratar as histórias em quadrinhos em suas unidades de informação e se questionando sobre maneiras de melhor compreender e prestar serviços àqueles que delas fazem uso. Neste sentido, este artigo visa familiarizar os profissionais brasileiros com as histórias em quadrinhos, informando sobre as principais características do meio e indicando fontes de informação na área, esperando, desta forma, fornecer os meios para que os profissionais da informação possam estabelecer parâmetros mínimos de ação em relação aos quadrinhos, proporcionando maiores benefícios às comunidades que atendem.
 

1 – As histórias em quadrinhos: definição, linguagem e produtos

Nos países de língua inglesa, as histórias em quadrinhos são conhecidas como "comics", "comic books" ou "comic strips", denominações oriundas da predominância do aspecto cômico nas primeiras manifestações quadrinhísticas desses países. Os franceses, por sua vez, costumam referir-se a elas como "bandes dessinées", devido à forma como foram tradicionalmente publicados nos jornais, em forma de tira ("bande"). Traduzida literalmente para o português, essa expressão resultou em "banda desenhada", denominação que foi incorporada pelos leitores de Portugal e algumas de suas ex-colônias, à exceção do Brasil; nesses países, embora atualmente em desuso, costumava-se também utilizar a pitoresca expressão "história aos quadradinhos" para denominar todas as publicações desse tipo de material. Já os espanhóis referem-se a elas como "tebeos", denominação derivada de uma popular revista dirigida a crianças e jovens, que publicava prioritariamente histórias em quadrinhos; modernamente, no entanto, muitos se referem a elas como "cómicos", tradução literal e totalmente insatisfatória do termo inglês "comics". Os países latinoamericanos, de uma maneira geral, optaram pela denominação "historietas", ainda que esta traga uma forte carga pejorativa, enquanto que os japoneses, para quem elas sempre constituíram um popular e disseminado meio de entretenimento, a elas se referem como "mangás", um nome genérico que caracteriza o veículo onde são publicadas as histórias em quadrinhos no país, geralmente grossos volumes com mais de 500 páginas. Na busca de uma denominação própria, os italianos optaram pela expressão "fumetti", plural de "fumetto", termo que utilizam para se referir à figura no qual estão contidas as falas e pensamentos dos personagens dos quadrinhos, que em português recebe o nome de "balão". O Brasil, depois de alguma controvérsia inicial sobre a utilização de "estórias" ou "histórias", parece ter consagrado a expressão "histórias em quadrinhos" (normalmente abreviada para "HQ") como a de maior preferência; no entanto, muitos leitores antigos e grande parte dos novos continuam ainda a utilizar o termo gibis quando se referem às revistas de histórias em quadrinhos de uma maneira geral, reproduzindo uma apropriação lingüística semelhante à ocorrida no território espanhol, pois Gibi foi também uma popular revista de histórias em quadrinhos publicada no país [ANSELMO, 1975; CIRNE, 1990; MOYA, 1996].

Além de caracterizar a universalidade do meio de comunicação, esse elenco de denominações diferentes também demonstra como cada idioma buscou, de uma forma ou de outra, utilizar uma palavra que deixasse evidente suas características básicas. Evidentemente, alguns foram mais bem sucedidos do que outros. A expressão brasileira histórias em quadrinhos, bem como a portuguesa, histórias aos quadradinhos, parecem ser as que melhor se aproximam desse objetivo, pois evidenciam os dois elementos básicos inerentes ao meio, enfatizando que ele constitui uma forma narrativa composta por uma seqüência de quadros pictográficos. A expressão romance gráfico (graphic novel), divulgada em anos recentes pelo norte-americano Will Eisner [1985], embora bastante simpática, apresenta o inconveniente de se referir somente à linguagem quando utilizada em uma narrativa longa, não abrangendo as tiras publicadas em jornais.

Deixando de lado essa discussão terminológica e adotando definitivamente a expressão histórias em quadrinhos para o restante deste artigo, é possível afirmar, em relação a elas, que constituem um meio de comunicação de massa que agrega dois códigos distintos para a transmissão de uma mensagem:

1) o lingüístico, presente nas palavras utilizadas nos elementos narrativos, na expressão dos diversos personagens e na representação dos diversos sons; e

2) o pictórico, constituído pela representação de pessoas, objetos, meio ambiente, idéias abstratas e/ou esotéricas etc.

Além desses dois códigos, as histórias em quadrinhos desenvolveram também diversos elementos que lhes são hoje característicos e constituem elementos característicos de sua linguagem, como o balão, as onomatopéias, as parábolas visuais etc., todos eles concorrendo para expressar uma narrativa, por mais breve que esta seja [SARACENI, 2003].

Aliando o visual ao escrito, as histórias em quadrinhos tornaram-se um meio de comunicação de massa de grande penetração, podendo-se dizer até mesmo que, junto com o cinema, caracterizam a comunicação de massa no século 20. Publicadas inicialmente em jornais, o aparecimento das revistas em quadrinhos (conhecidas como comic books) durante a década de 1930 possibilitou a ampliação do meio praticamente todos os países do mundo. Hoje em dia, elas são publicadas em grande variedade de títulos e gêneros, com tiragens que muitas vezes ultrapassam 100 mil exemplares por edição.

Milhões e milhões de exemplares de revistas de histórias em quadrinhos de todas as formas e tamanhos são publicados diariamente no mundo inteiro, sem mencionar os milhares de séries ou tiras em quadrinhos publicados em jornais. Em conjunto, eles versam sobre os mais variados temas e são não apenas adquiridos como, também, avidamente consumidos por um público fiel e sempre ansioso por novidades. Apesar da concorrência de meios de comunicação e entretenimento cada vez mais abundantes e diversificados, as histórias em quadrinhos continuam ainda a atrair um público considerável neste final de século. E isto acontece independentemente do meio em que elas são publicadas.

A produção, divulgação e comercialização de histórias em quadrinhos têm uma tradição secular de atuação empresarial, organizando-se em uma escala industrial que permitiu, durante esses anos todos, a profissionalização de suas várias etapas de elaboração. Hoje em dia, graças à comunicação eletrônica, quadrinhos produzidos em escala industrial agregam um grande número de profissionais que, muitas vezes, sequer entram em contato direto uns com os outros, como o roteirista (que elabora a proposta da narrativa); o desenhista (que faz a primeira versão a lápis do desenho), o arte-finalista (que passa tinta sobre as linhas a lápis), o colorista (que acrescenta as cores), sem contar os profissionais anônimos que atuam na fase de impressão e distribuição, até o produto chegar às mãos do consumidor.

As últimas duas décadas trouxeram uma diversificação no mercado produtor de quadrinhos, principalmente com o surgimento das minisséries e das "graphic novels" no mercado norte-americano (e, posteriormente, também no resto do mundo), o que representou um elemento de renovação para o meio e um fator de propulsão no consumo. Juntas, essas duas categorias de produto em quadrinhos significaram uma resposta adequada para o meio de comunicação de massa, ajudando a avançar na segmentação de seu público e permitindo sua maior aceitação por parte da sociedade.
 

2 - As histórias em quadrinhos como meios de comunicação de massa

De uma certa foram, as histórias em quadrinhos podem ser vistas como as herdeiras diretas das romances folhetinescos dos séculos 18 e 19: inicialmente voltados para o consumo e entretenimento das classes de menores níveis culturais, ambos sofreram o mesmo tipo de resistência por parte das elites letradas de sua época. Neste sentido, não se diferenciam de meios de comunicação como a televisão ou o cinema. Ou, ainda, daquelas modalidades de literatura voltadas e consumidas pela população em geral, hoje genericamente conhecidas como literatura de massa, entre as quais costumam ser incluídos os livros de ficção científica, as histórias policiais, os romances cor-de-rosa e grande parte dos best sellers produzidos por autores consagrados como Mario Puzo, Irving Wallace, Dan Brown e Danielle Steel.

Devido principalmente ao enfoque humorístico de seus primeiros produtos e ao público que visavam atingir – os imigrantes e iletrado das camadas mais baixas da população -, os quadrinhos estiveram até mesmo abaixo de outros meios de comunicação de massa em termos de apreciação da crítica literária. Seus aspectos negativos sempre foram muito mais enfatizados que os positivos, muitas vezes sendo vistos como totalmente desprovidos de qualquer faceta favorável. Para isso também contribuiu, em grande medida, a proximidade das histórias em quadrinhos com outras produções gráficas polêmicas, como a caricatura e a charge política, elementos que estão na raiz mesma de seu desenvolvimento.

A trajetória das histórias em quadrinhos como produto de consumo de massa, apesar do sucesso de público que a acompanhava, foi sempre cercada por crescente oposição de parcelas influentes da sociedade letrada. De forma geral, pais e educadores viam com muita desconfiança a leitura de quadrinhos por parte de seus filhos e alunos, imaginando que isto pudesse prejudicar seu desenvolvimento intelectual ou contribuir para afastá-los de leituras mais nobres. Durante décadas, preconceitos e idéias negativas contra os quadrinhos levaram a sociedade a acreditar que esse tipo de leitura trazia malefícios talvez inimagináveis a todos aqueles que nele se aventuravam. Em alguns momentos, a sociedade tomou medidas muitas vezes drásticas com o intuito de afastar crianças e adolescentes da leitura de histórias em quadrinhos, com autores como o psiquiatra Fredric Wertham escrevendo livros que visavam demonstrar a influência negativa dos quadrinhos sobre seus leitores [MOYA, 1977]. Esta visão estereotipada e negativa acabou gerando uma série de medidas contra os quadrinhos, que englobaram desde a queima de exemplares em escolas e praças até a elaboração, pelos editores, de códigos de ética para sua publicação [NYBERG, 1998; SILVA, 1976: 101-104].

A barreiras sociais contra as histórias em quadrinhos predominaram durante muito tempo e não se pode realmente afirmar que já deixaram de existir. Ainda hoje, muitos pais proíbem a leitura desse tipo de material todas as vezes que seus filhos não vão bem nos estudos ou apresentam problemas de comportamento na sala de aula. Felizmente, o interesse crescente dos estudiosos pelas histórias em quadrinhos, principalmente a partir da década de 60, bem como a realização de pesquisas sérias e bem alicerçadas, acabaram demonstrando que boa parte dessas barreiras não possuía qualquer fundamento científico, consistindo em preconceitos totalmente desprovidos de comprovação. Atualmente, sabe-se que o leitor de histórias em quadrinhos não se sai pior, ou melhor, na escola em virtude de sua preferência de leitura, nem lê mais ou menos livros sérios do que aqueles que não consomem quadrinhos e nem são indivíduos deslocados na sociedade [ANSELMO, 1975].
 

3 - As histórias em quadrinhos e as bibliotecas

Pelo fato de serem consideradas materiais de segunda ou terceira categorias por parcelas influentes da sociedade, as histórias em quadrinhos enfrentaram muitas dificuldades para serem incluídas nos acervos das bibliotecas. Por um lado, elas não conseguiam entrar nas bibliotecas universitárias e de pesquisa devido a sua presumida falta de importância como objeto de estudo científico; por outro, seu ingresso em bibliotecas públicas e escolares era vetado pelo próprio estardalhaço que muitos de seus opositores costumavam fazer com regularidade, manifestando-se, às vezes de maneira agressiva, contra a mais remota possibilidade de colocá-los à disposição do público por intermédio de uma instituição cultural mantida pelos cofres governamentais.

No entanto, falar da oposição da sociedade pode não ser suficiente para explicar a inexistência ou escassa presença das histórias em quadrinhos no acervo das bibliotecas. É preciso atentar que muitos responsáveis por unidades de informação, que talvez pudessem ter exercido influência decisiva para reverter esse fato, tampouco estiveram neutros no processo. Algumas vezes de maneira consciente, outras por simples inércia, os bibliotecários se recusaram a selecionar os quadrinhos para suas bibliotecas por entenderem que eles não se adequavam aos critérios de qualidade que haviam definido para seus acervos. No entanto, isto não aconteceu porque esses profissionais eram mal intencionados: a prática bibliotecária desenvolve-se no emaranhado das relações sociais que caracterizam um determinado agrupamento humano e aqueles que atuam em serviços de informação são tão influenciados pelas idéias dominantes na sociedade quanto as pessoas a que servem. Nesse sentido, pode-se dizer que a resistência dos bibliotecários às histórias em quadrinhos e aos demais meios de comunicação de massa foi um reflexo da resistência da própria sociedade em relação a eles, diminuindo à medida que todos esses meios passaram a ser vistos com outros olhos.

Entretanto, as barreiras contra alternativas de leitura e informação diferentes do livro tradicional não desapareceram de forma automática. Mesmo hoje, seria temeridade afirmar que as revistas e outras modalidades de histórias em quadrinhos já podem ser facilmente encontradas nas bibliotecas. Ainda que o número aumente progressivamente, as unidades de informação que incorporam regularmente as histórias em quadrinhos em seus acervos ainda constituem mais a exceção do que a regra no país. Em muitas dessas unidades de informação, pode acontecer dos quadrinhos receberem um tratamento diferenciado em relação a outros materiais, como a não incorporação definitiva ao acervo, o descarte generalizado e a despreocupação com o estabelecimento de critérios de seleção, bem como serem objeto de restrições quanto à sua aquisição com recursos próprios ou quanto ao uso por todas as categorias de usuários (proibindo-se o acesso a usuários de determinadas faixas etárias, por exemplo). A pior situação ocorre quando, em uma evidente demonstração de ignorância e preconceito, as histórias em quadrinhos são utilizadas pelos profissionais de informação como um chamariz para a leitura de livros, uma espécie de concessão dos profissionais a uma leitura menor...

Felizmente, essa situação vem se modificando aos poucos. Ainda que em ritmo mais lento que o desejado, o número de bibliotecas que encaram as histórias em quadrinhos como uma coleção especial, merecendo atenção diferenciada em relação ao restante do acervo, aumenta dia a dia. Nos Estados Unidos, muitas bibliotecas universitárias possuem coleções especializadas de quadrinhos [SCOTT, 1990]; no Brasil também já surgem os primeiros acervos especializados de quadrinhos em âmbito universitário, podendo-se destacar os existentes na biblioteca do Centro Universitário de Ensino Superior de São Caetano (IMES) e no Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Entretanto, no âmbito das bibliotecas públicas, a situação já é um pouco diferente, tendendo favoravelmente para o lado brasileiro, principalmente com o advento e atuação das chamadas gibitecas.

Bibliotecas públicas especialmente dedicadas à coleta, armazenamento e disseminação de histórias em quadrinhos são instituições genuinamente brasileiras, existindo desde o início da década de 1980, quando uma instituição pública na capital do Estado do Paraná decidiu fundar a primeira unidade desse tipo, que batizou com o nome de gibiteca, um neologismo que mescla a forma como as revistas de histórias em quadrinhos são tradicional e carinhosamente referidas no país – gibis -, com as unidades de informação - bibliotecas [VERGUEIRO, 1994]. Com o surgimento da Gibiteca de Curitiba, cunhava-se o termo genérico para denominar qualquer biblioteca que colocasse as histórias em quadrinhos como o centro de sua prática de serviço de informação e que seria então utilizado em todo o país.

A Gibiteca de Curitiba constituiu, durante um bom tempo, uma iniciativa isolada, fruto do interesse de um grupo de idealistas e amantes das histórias em quadrinhos. Embora ela jamais tenha estado inserida no âmbito de um serviço de informação tradicional e nem tenha contado com um profissional de informação para gerenciá-la, uma situação que ainda persiste, isso não impediu que se tornasse o ponto central de uma intensa atividade relacionada às histórias em quadrinhos, indo muito além de uma coleção especializada.

Talvez em função do sucesso da Gibiteca de Curitiba, ou mesmo por pressão dos usuários que, cada vez com maior freqüência, solicitam histórias em quadrinhos, aos poucos alguns responsáveis por bibliotecas públicas no país também começaram a criar espaços específicos para elas. Na maioria das vezes, tratou-se de iniciativas isoladas de profissionais que encaravam os quadrinhos de uma maneira diferente da de seus colegas, tendo sempre se interessado por essa questão. Assim, com ou sem o apoio de seus superiores, esses profissionais selecionaram e organizaram coleções de quadrinhos, na maioria das vezes tendo que fundamentar essa atividade em doações obtidas junto à comunidade, ao mesmo tempo em que buscaram desenvolver atividades visando atrair usuários e criar um ambiente que pudesse garantir o apoio da população a esse novo tipo de acervo. Entre as diversas gibitecas que surgiram dessa forma, pode-se destacar, por seu trabalho pioneiro, aquela organizada junto à biblioteca pública da cidade de Londrina, também no Estado do Paraná, denominada gibilândia [FIERLI e col., 1991].

A primeira gibiteca brasileira a surgir dentro de um serviço de biblioteca pública, a partir de iniciativa da própria administração municipal, foi a Gibiteca Henfil, órgão do Departamento de Bibliotecas Infanto-Juvenis da Secretaria de Cultura do município de São Paulo, inaugurada em 1991 e hoje possuindo o maior acervo do país, com mais de 100 mil exemplares. Além de possuir um vasto acervo e ser responsável por um dos maiores índices de freqüência das bibliotecas públicas da cidade de São Paulo, a Gibiteca Henfil também se coloca como um grande centro de eventos relacionados com os quadrinhos, promovendo cursos, exposições, palestras, debates e lançamentos de novas obras e servindo como ponto de encontro para reuniões de leitores e de associações de quadrinhistas.

Seria difícil afirmar o número exato de gibitecas atualmente existentes no Brasil. Sabe-se que várias cidades, como Belo Horizonte (MG), João Pessoa (PB), Brasília (DF), Santos (SP) e São Bernardo do Campo (SP) as possuem. Algumas vezes, elas são vinculadas a bibliotecas públicas; outras, a instituições privadas. Tanto podem contar com bibliotecários para administrá-las como ser dirigidas por voluntários da comunidade ou por funcionários das administrações municipais, designados para fazê-lo em virtude de predileções especiais ou familiaridade com o meio. No entanto, os últimos anos têm evidenciado a tendência de constituir gibitecas como setores ou ramais especiais de bibliotecas públicas, dirigidos por profissionais capacitados, o que parece apontar para uma conscientização a respeito do nível de serviço que deve ser prestado aos usuários desses tipos de materiais. Neste sentido, o Brasil vai à contramão da opinião de Scott [1990: 17], que acredita não ser uma biblioteca pública "comumente o local para aprender a respeitar as revistas de histórias em quadrinhos".

Por outro lado, muitos bibliotecários brasileiros estão, aos poucos, descobrindo que, para proporcionar melhor serviço aos amantes dos quadrinhos nas gibitecas é necessário conhecer a fundo tanto as características do meio de comunicação de massa como do próprio leitor de quadrinhos, de modo a poder realizar de maneira adequada todas aquelas atividades que envolvem a seleção, coleta, aquisição, tratamento, disseminação e preservação desses materiais. Nesse sentido, fica evidente para eles que compreender e dominar com suficiente independência os diversos veículos em que os quadrinhos estão disponíveis, os tipos de leitores que costumam se sentir atraídos pela linguagem gráfica seqüencial e as diversas fontes de informação sobre histórias em quadrinhos, tanto bibliográficas como virtuais, são requisitos indispensáveis para todos aqueles que pretendem se dedicar a um trabalho sério de documentação nessa área.

Com a finalidade de colaborar para diminuir as dificuldades nessas áreas, a última parte deste artigo será voltada para a caracterização desses aspectos do instigante universo das histórias em quadrinhos.
 

4 – Produção, consumo e informação sobre histórias em quadrinhos

4.1 Produção

À primeira vista, o mercado produtor de histórias em quadrinhos pode parecer bastante simples. Para aqueles que não o conhecem a fundo, ele é composto apenas por algumas poucas editoras que periodicamente publicam as revistas – os tradicionais gibis -, em grande diversidade de títulos e normalmente em papel jornal.

Esta descrição poderia até ser considerada como válida até alguns anos atrás, e ainda assim caso fossem deixassem de lado os milhares de tiras que são publicados diariamente em jornais dos mais variados tipos e periodicidades. Atualmente, o mercado produtor de histórias em quadrinhos, embora em um primeiro momento se coloque como simples e seja bastante semelhante ao mercado livreiro tradicional, tem características próprias que exigem uma maior familiaridade de todos aqueles que desejam dele usufruir.

De uma maneira geral, atualmente diversos veículos e formatos de publicação de histórias em quadrinhos podem ser encontrados no mercado, cada um deles com características singulares que afetam tanto sua forma como seu conteúdo. Entre esses, pode-se destacar:

a) gibis: publicações periódicas disponíveis em uma grande diversidade de títulos e temáticas, são encontrados com facilidade em qualquer banca de jornal. Os mais conhecidos são aqueles publicados no formato 13,5 X 19 cm. Normalmente destinados ao público infantil e juvenil, são baratos, feitos em papel frágil e de pouca durabilidade, representando o clássico produto para consumo de massa; no entanto, também existem gibis no formato conhecido como americano, por ser o tamanho em que são publicados os "comic books" nos Estados Unidos e diversos outros países. A periodicidade dessas revistas pode variar, sendo mais comum a mensal. Esta é uma área bastante dinâmica, com muitos títulos aparecendo, fundindo-se com outros ou dividindo-se em dois ou mais, mudando de editora ou simplesmente desaparecendo do mercado, enquanto alguns poucos se mantêm ativos durante décadas a fio. Além das revistas de periodicidade regular, costumam também ser publicados suplementos e edições especiais, almanaques e edições singulares ou comemorativas que englobam personagens de várias revistas diferentes, às vezes sob uma denominação totalmente nova, outras utilizando um título já familiar aos leitores.

Sob muitos aspectos, os gibis representam um mercado totalmente caótico, sem qualquer tipo de padronização em relação à numeração, uniformidade dos títulos ou continuidade, com almanaques e números especiais intercalando títulos regulares, podendo tanto receber uma numeração própria como seguir a mesma seqüência numérica do título principal, numa balbúrdia difícil de compreender por aqueles que não estão familiarizados com o meio.

Obras representativas desta categoria são os títulos correntes produzidos pelos estúdios do desenhista Maurício de Sousa (Mônica, Chico Bento, Cebolinha, Cascão, Magali, etc.), as revistas Disney (O Pato Donald, Zé Carioca, Mickey, Tio Patinhas, Almanaque Disney, etc.), os da linha Bonelli, italiana (Tex, Zagor, Dylan Dog, Martin Mystère, etc.) e os de super-heróis (X-Men, Homem-Aranha, Hulk, Batman, Superman, Liga da Justiça, etc)[1].

b) álbuns e edições encadernadas: fisicamente, estão muito mais próximos dos livros infantis do que dos gibis. Diferentemente destes últimos, no entanto, não têm periodicidade, sendo publicados em edições únicas, que trazem histórias em geral fechadas em si mesmas, sem um compromisso declarado com a continuidade (embora, algumas vezes, ocorra que o sucesso de um personagem leve a seu aparecimento em álbuns posteriores).

Pode-se situar no continente europeu a origem dessas publicações, principalmente na França e Bélgica, onde obras muito luxuosas ainda hoje são bastante comuns. Os álbuns tanto podem trazer histórias inéditas, especialmente preparadas para esse formato, como podem ser constituídos por narrativas já anteriormente publicadas em veículos diversos, como jornais ou revistas regulares.

O custo dessas publicações costuma ser mais alto que o dos gibis, o que se justifica pela qualidade do papel, da impressão e da encadernação. Também a qualidade das histórias costuma ser muito superior à dos gibis, pois os álbuns, na medida em que se tem uma delimitação de páginas e de público mais delineada, permitem experimentações gráficas e mergulhos temáticos mais profundos que os das revistas regulares.

Os álbuns são, talvez, os grandes responsáveis pelo aumento de status das histórias em quadrinhos entre as camadas letradas da população. Felizmente, o mercado brasileiro vem apresentando nos últimos anos uma maior diversidade de títulos nesse tipo de veículo, ainda que o preço das edições continue sendo proibitivo para muitos leitores. Os álbuns e edições encadernadas são raramente encontrados em bancas de jornal. Os locais mais apropriados para encontrá-los são as grandes livrarias que, muitas vezes, costumam ter um espaço reservado para eles.

Obras representativas desta categoria são os títulos do personagem Asterix, de René Goscinny e Albert Uderzo, destacando-se O filho de Asterix, O adivinho, O domínio dos deuses, Asterix e Latraviata, etc.

c) "Graphic novels", maxi e minisséries: constituíram a grande coqueluche dos anos 1980 nas histórias em quadrinhos. Surgidas nos Estados Unidos como uma alternativa para revitalizar o gênero e atrair novos leitores, guardam bastante semelhança com os álbuns e edições encadernadas, a grande diferença sendo a relação que têm com o mercado norte-americano e as publicações regulares em gibi.

A fórmula básica das graphic novels, maxi e minissérie constitui-se na busca de um tratamento diferenciado para um ou mais personagens familiares aos leitores, explorando-os em edições fechadas que se diferenciam daquele tratamento dado a eles nos meios tradicionais. Isto envolve tanto um maior aprimoramento gráfico, com publicações em formato diverso e papel de melhor qualidade, como temático, envolvendo produções mais elaboradas em termos de roteiro e arte, muitas vezes com a presença de artistas especialmente convidados. É um esquema editorial apropriado tanto para uma única publicação (a "graphic novel") como para uma série limitada (a minissérie, normalmente entre três e seis números, e a maxissérie, que geralmente se situa em torno de 16 números) e permite atingir todos aqueles leitores que gostariam de ter acesso a materiais de melhor nível, mas não querem se comprometer com a compra regular de um ou mais títulos.

No mercado brasileiro, os editores costumam optar pelo formato americano e maior qualidade de papel para essas publicações, o que significa um custo maior para o usuário final. Esta, entretanto, não é uma regra fixa, pois algumas dessas publicações também podem ser disponibilizadas no conhecido formatinho (13,5 X 19 cm.). As edições mais recentes podem ser encontradas em qualquer banca de jornal, enquanto que edições mais antigas só podem ser encontradas em livrarias especializadas em quadrinhos, conhecidas como Gibiterias ou Comic Stores, que ainda são em pequeno número e existem, em sua maioria, apenas nas capitais dos Estados.

Obras representativas desta categoria são Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons; Batman: O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller; Elektra Assassina, de Frank Miller e Bill Sienkiewicz e Avenida Dropsie: a vizinhança, de Will Eisner, etc.

d) quadrinhos em jornais: os jornais foram o berço das histórias em quadrinhos e uma grande quantidade delas continua a ser publicada neles diária ou semanalmente, numa produção cuja dimensão é difícil de avaliar. Muitas tiras ou histórias dominicais jamais são lançadas novamente em outra modalidade de publicação, dificultando o trabalho de preservação da memória quadrinhística, pois os jornais são materiais frágeis que se perdem com muita facilidade.

Para se ter acesso aos quadrinhos publicados na imprensa jornalística, sejam as tiras diárias ou as páginas dominicais, muitas vezes não existe alternativa a não ser identificar os títulos em que aparecem e efetuar uma assinatura (ou adquiri-los diariamente em bancas de jornais), uma solução que é apropriada para materiais correntes mas que pouco efetiva quando se busca material retrospectivo.

A preservação desses materiais é também bastante problemática, mas uma alternativa viável é recortá-las e acomodá-las em pastas suspensas ou qualquer outro tipo de receptáculo apropriado. Por outro lado, títulos mais populares costumam ser reunidos em antologias, que são publicadas em formato de livro, sendo então bastante semelhantes aos álbuns mencionados no item b, acima. Exemplos significativos de quadrinhos originalmente publicados em jornais que já se encontram disponíveis em antologias são os dos personagens Calvin, de Bill Waterson (O progresso científico deu "tilt"), Snoopy, de Charles Schulz (Snoopy, eu te amo); Garfield, de Jim Davis (Garfield perde os pés) e aqueles produzidos por populares autores brasileiros, como Angeli (Os skrotinhos: a cura pelo fel) e Laerte (Overman: o álbum, o mito).

e) fanzines: o termo designa uma revista feitas por aficcionados do gênero, a maioria das vezes colecionadores ou artistas iniciantes. Nesse sentido, a própria palavra escolhida para definir essas publicações já define suas principais características, representando a junção de dois termos: fã e magazine.

Os fanzines podem ser publicações de caráter analítico, buscando discutir as histórias em quadrinhos e suas particularidades, debater preferências, explorar as características de cada autor ou personagem, como também incluir histórias originais elaboradas pelos responsáveis pela publicação ou por leitores e pessoas especialmente convidadas. Neste último caso, costuma-se distinguir uma outra categoria, a de revistas alternativas, designando aquelas produzidas fora do mercado tradicional de gibis.

O Brasil tem uma larga tradição na publicação de fanzines de histórias em quadrinhos, que vem desde a década de 60, quando o advogado piracicabano Edson Rontani lançou a primeira publicação no país a enquadrar-se nessa categoria [MAGALHÃES, 1993: 39].

É uma área onde prevalece a ausência de qualquer tipo de norma, impossibilitando a existência de um controle bibliográfico por mínimo que ele seja. O número e variedade dos fanzines representam uma verdadeira legião de títulos que englobam desde aqueles com pretensões enciclopédicas àqueles dedicados a um único personagem. Eles são publicados em formatos os mais diversos, em um nível de qualidade que varia em relação direta com a própria diversidade dos títulos, em enormes ou reduzidíssimas tiragens, com vida breve ou longa, com paradas bruscas e retomadas aceleradas, sem obedecer a qualquer tipo de periodicidade regular ou seguindo um rígido cronograma de publicação [Magalhães, 2004].

A "indústria" dos fanzines apresenta um nível de organização ainda menor do que aquele da indústria de publicação de gibis. Independente dessa balbúrdia, no entanto, o mercado de fanzines é dominado por uma verdadeira azáfama criativa, o que vem possibilitando o aparecimento e desenvolvimento de grandes artistas, que encontram nesse veículo o ambiente propício para desenvolver seus dotes artísticos e atingir uma maior variedade de leitores, uma vez que o mercado tradicional não lhes possibilita espaço para atuação.

f) Publicações variadas: além de sua disponibilidade nos diversos tipos de materiais já descritos, as histórias em quadrinhos podem também ser incluídas em revistas gerais de informação ou dirigidas para públicos especializados. Além disso, os quadrinhos podem surgir em publicações especialmente elaboradas para uso em publicidade ou propaganda política; livros didáticos; edições patrocinadas por instituições governamentais ou não, que as utilizam como instrumentos para a transmissão de mensagens educativas; revistas que as enfocam como tema principal, abordando aspectos de conteúdo e novidades da área, para apenas citar algumas das modalidades mais evidentes.

Juntamente com as anteriores, todas essas publicações compõem um quadro bastante diversificado de produtos que buscam atender a uma demanda ainda não suficientemente delimitada, englobando um público bastante diverso.

4.2 Consumo

Enquanto que, por um lado, infere-se que o público consumidor de histórias em quadrinhos é composto principalmente por crianças e jovens, camadas para as quais é dirigida a maior parte das publicações em gibis, ainda não se tem suficiente domínio das peculiaridades desse público, de modo a se poder afirmar como ele atinge ou deixa de atingir determinados níveis de exigência. Autores como Baron-Carvais [1989], Pustz [1999] e Schelly [c2001] já se debruçaram sobre o universo dos leitores de histórias em quadrinhos, buscando caracterizá-los e discutir suas peculiaridades, o que permite a distribuição dos usuários dessa linguagem gráfica seqüencial nas seguintes categorias básicas:

a) eventuais: aqueles que usufruem das histórias em quadrinhos da mesma forma como utilizam todas as outras modalidades de leitura, sem qualquer predileção especial por esse meio de comunicação específico, com um conhecimento apenas superficial de autores ou títulos e tendendo a se concentrar naqueles de maior popularidade. Não buscam nada além da satisfação momentânea de suas necessidades de leitura de entretenimento, sendo guiados muito mais por motivos circunstanciais do que por qualquer ato consciente de escolha;

b) exaustivos: os que lêem apenas histórias em quadrinhos mas não fazem qualquer tipo de seleção, consumindo à exaustão tudo o que for produzido pelo meio. Em termos etários, tendem a se concentrar nas camadas mais jovens da população. É possível supor que o número desses leitores diminui em proporção com o seu envelhecimento: quanto mais velhos, menor é a probabilidade da leitura exclusiva de histórias em quadrinhos, já que surgem outros interesses a dividir sua atenção. No entanto, essa regra não é assim tão rígida. Algumas vezes, leitores exaustivos são também grandes colecionadores;

c) seletivos: leitores que têm predileção apenas por determinados gêneros, personagens ou autores. Lêem tudo o que é publicado em sua área de interesse e buscam fazer a correlação de suas leituras com outros meios de comunicação de massa. Leitores seletivos também costumam, algumas vezes, ser colecionadores desses materiais;

d) fanáticos: como o próprio nome diz, levam sua predileção a extremos. Não apenas lêem as histórias de seus personagens e títulos prediletos, como também procuram saber o máximo possível sobre eles, conhecendo minúcias de produção, características específicas de cada desenhista ou roteirista, evolução histórica do protagonista e coadjuvantes, etc. Constantemente, são também ávidos colecionadores de tudo que diga respeito a sua predileção, englobando publicações de todos os tipos que se relacionem com ele, bem como filmes e suas trilhas sonoras, autógrafos dos autores e desenhos originais dos artistas. Os fanáticos não falam de outro assunto que não aquele de sua predileção e tendem a defender seus pontos de vista com unhas e dentes, parecendo não entender muito bem porque estes não são compartilhados pelo restante da população. Quando encontram outros com preocupações semelhantes, costumam criar clubes ou associações;

e) estudiosos: nem sempre são leitores tão ávidos, mas resolveram se debruçar sobre as histórias em quadrinhos para estudar suas características e relações com outros meios de comunicação, com outros aspectos da vida social ou sob o ponto de vista de sua aplicação em determinadas ciências ou atividades. Muitas vezes, a predileção pelo estudo das histórias em quadrinhos ocorre em função de contingências acadêmicas específicas, como a elaboração de uma tese ou trabalho de conclusão de curso de graduação, deixando de existir tão logo elas terminem. Outras vezes, esse estudo inicial funciona como um despertar para esse tipo de publicação, persistindo na vida intelectual do indivíduo, que continua a ler e a estudar os quadrinhos durante muito tempo após o término da atividade acadêmica que originalmente o levou a eles. Ele passa a fazer parte, então, de grupos mais exigentes de leitores, que procuram por materiais de maior nível de qualidade, que tenham condições de lhes trazer benefícios intelectuais inquestionáveis.

Este panorama do público leitor, ainda que possa soar de maneira artificial, na medida em que os tipos puros de cada um deles são talvez bem menos comuns do que mesclas de dois ou mais, pode pelo menos evidenciar que o público que se interessa pelas histórias em quadrinhos não representa um bloco monolítico como se costuma erroneamente imaginar. A compreensão dessas peculiaridades dos leitores é vital para o estabelecimento de serviços de informação que visem atendê-los com eficiência. Aliada a essa compreensão, quase que como a outra face de uma mesma moeda, está o conhecimento das diversas alternativas de gênero narrativo que as histórias em quadrinhos costumam abranger – como as histórias com protagonistas infantis, de animais falantes, circunscritas no ambiente da família tradicional ou protagonizadas por mulheres, de aventuras (e suas subdivisões nos gêneros como policial, horror, ficção científica, etc.), de super-heróis, eróticas, etc -, passo essencial para definir alguns critérios mínimos que permitam uma correta avaliação dos produtos quadrinhísticos disponíveis no mercado.

4.3 Informação sobre histórias em quadrinhos

Na medida em que as histórias em quadrinhos se tornaram um elemento de grande influência na cultura popular, também o interesse por elas aumentou em todas as áreas. Pesquisas acadêmicas sobre quadrinhos têm surgido nas áreas do conhecimento mais diversas, como história, sociologia, artes, literatura, antropologia, educação, etc., ampliando a disponibilidade de informações de qualidade sobre eles. Além disso, principalmente a partir do aparecimento da rede Internet, a quantidade de recursos informacionais existentes sobre a linguagem gráfica seqüencial e seus produtos cresceu exponencialmente, variando enormemente em termos de forma, qualidade e conteúdo. Como exemplo dessa diversidade, saliente-se que busca realizada na Internet com a ferramenta Google (<http://www.google.com.br>), realizada em 12 de fevereiro de 2005 e utilizando o termo comics trouxe como resultado, 39.800.000 (trinta e nove milhões e oitocentas mil) indicações de sites que tratam do tema, abrangendo sites institucionais de editoras, acadêmicos, pessoais (de autores de quadrinhos ou estudiosos do assunto), de personagens, organizados por aficionados de quadrinhos, etc. Mesmo se considerando a duplicidade e dispersão de informações comuns a esse tipo de busca, pode-se entender que o número de itens identificados na busca representa um indicador seguro do impacto social dos quadrinhos no momento atual.

Para os profissionais de informação que atuam no acesso e disseminação de histórias em quadrinhos, a identificação e uso de fontes de informação seguras e confiáveis sobre elas representam elementos essenciais para a prestação de um serviço de informação eficiente. Nesse sentido, o mercado editorial tradicional fornece já vários títulos gerais que constituem referência na área; infelizmente, fora algumas poucas obras de autores brasileiros ou disponíveis em português [CAVALCANTI, s.d., 1977; CIRNE, s.d., 1990; GOIDANICH, 1990; LUYTEN, 1985; MOYA, 1977, 1996], a grande maioria dos manuais ou obras enciclopédicas sobre quadrinhos é de procedência internacional, dificultando a aquisição e posse por parte das unidades de informação brasileiras [EISNER,1985; GIFFORD, 1990; O´SULLIVAN, 1990; e SABIN, 1992]. Os periódicos especializados na área são também internacionais, destacando-se, por sua qualidade e rigor científicos, o título International Journal of Comic Art, publicado nos Estados Unidos desde 1999. Em português, a única obra periódica especializada em quadrinhos é a revista Wizard Brasil, publicada pela Editora Globo desde 2003, que apresenta uma série de informações principalmente factuais sobre histórias em quadrinhos, com benefícios limitados para uma pesquisa mais aprofundada.

Na Internet, as melhores informações sobre quadrinhos também estão em sites estrangeiros, sendo os mais confiáveis aqueles organizados por instituições de pesquisa, grupos de pesquisadores ou bibliotecas especializadas. Nesse sentido, recentemente a Association of College & Research Libraries [BUSSERT, 2005], dos Estados Unidos, divulgou uma lista comentada de endereços online sobre quadrinhos, destacando guias de pesquisa, organizações e associações, periódicos on-line, obras e recursos de referência, dos quais podem ser destacados:

Comic Books: Internet Resources - guia de pesquisa contendo análises de recursos sobre histórias em quadrinhos existentes na rede Internet, distribuídos em categorias como portais e guias, notícias e previews, revistas e publicações especializadas, história e bibliografia. Disponível em: <http://ublib.buffalo.edu/libraries/asl/guides/comics.html>;

ArtBomb – apresenta resenhas de títulos sofisticados de histórias em quadrinhos. As resenhas podem ser buscadas por criador, título ou gênero. Disponível em: <http://www.artbomb.net>;

Comic Book Legal Defense Fund (CBLDF)site que busca defender os direitos dos autores de histórias em quadrinhos, oferecendo novidades, links de interesse, anúncios de convenções e relatórios que visam ampliar a conscientização sobre questões de censura na indústria de quadrinhos. Inclui também uma bibliografia sobre a censura de publicações, englobando artigos e livros selecionados sobre o tema. Disponível em: <http://www.cbldf.org>;

Comic Books, Library of Congress Popular Culture Collections, Serials & Government Publications Division – catálogo da maior coleção de revistas de histórias em quadrinhos nos Estados Unidos, incluindo material desde a década de 1930. Disponível em: <http://memory.loc.gov/ammem/awhhtml/awser2/comic_books.html> ;
ImageText – um periódico especializado em formato digital sobre histórias em quadrinhos, com acesso livre a todos os artigos. Busca colaborar com o estudo acadêmico das histórias em quadrinhos em geral, abrangendo revistas, cartuns, graphic novels, e temas correlatos como vídeo games e outras mídias. Disponível em: <http://www.english.ufl.edu/imagetext>;

Grand Comic Database – registros de mais de 70.000 fascículos de revistas de histórias em quadrinhos, minicomics e fanzines, acessíveis por escritor, desenhista, título da história e editor. Disponível em: <http://www.comics.org>.

Logicamente, as fontes de informação acima apontadas, tanto impressas como digitais, constituem apenas a ponta do iceberg da enorme disponibilidade de informações existentes sobre quadrinhos, cabendo a cada profissional que atue com eles buscar a familiaridade e domínio total dessas fontes, para melhor servir à sua comunidade. Esta questão parece ser importante para profissionais de informação de países mais avançados, que já disponibilizaram na literatura especializada um pouco de sua experiência, com reflexos diretos na atuação de qualquer profissional de informação no mundo, inclusive os brasileiros, podendo trazer valiosos subsídios para sua reflexão e aprimoramento [BARKER, 1993; DeCANDIDO, 1990, 1991; HOFFMANN, 1989].
 

Conclusão

O domínio completo do universo das histórias em quadrinhos em todas as suas especificidades não se atinge da noite para o dia. Por um lado, elas não se prestam muito bem a categorizações e tem-se sempre a impressão de que alguma coisa escapou quando se fala sobre elas, desde categorizações mais precisas a particularizações que tornem esse objeto mais facilmente compreensível àqueles que com ele não têm ainda muita familiaridade, caso de muitos profissionais da informação.

Certamente, ainda existe um grande caminho a ser percorrido até que os quadrinhos representem um material comum nas unidades de informação. No entanto, da mesma forma como vários dos preconceitos contra eles – que antes pareciam inabaláveis -, foram derrubados, é de se esperar que cada vez mais os quadrinhos possam adentrar as portas das bibliotecas e centros de documentação especializados com muito mais facilidade do que antes, sendo recebidos por profissionais preparados e dispostos a tratá-los, divulgá-los e, acima de tudo, com seu trabalho, agregar-lhes valor por meio de seu trabalho especializado. Até agora, a experiência tem demonstrado que isto é possível.
 


Nota

[1] As referências completas dos títulos em quadrinhos citados neste artigo estão incluídas no Anexo 1.
 
 

Referências bibliográficas

ANSELMO, Zilda Augusto. Histórias em quadrinhos. Petrópolis: Vozes, 1975.

BARKER, Keith (Ed) Graphic account: the selection and promotion of graphic novels in libraries for young people. London : The Library Association, Young Libraries Group, 1993.

BARON-CARVAIS, Annie. La historieta. México: Fondo de Cultura Econômica, 1989.

BUSSERT, Leslie. Comic books and graphic novels: digital resources for an evolving form of art and literature. C&RL News, v. 66, n. 2, Feb. 2005. Disponível em: <http://www.ala.org/ala/acrl/acrlpubs/cr/news/backissues2005/february05/comicbook.htm>

CAVALCANTI, Ionaldo A. Esses incríveis heróis de papel. São Paulo: Ed. Mater, s.d.

CAVALCANTI, Ionaldo A. O mundo dos quadrinhos. São Paulo: Ed. Símbolo, 1977.

CIRNE, Moacy. Os feras do quadrinho brasileiro. Rio de Janeiro: FUNARTE, s.d.

CIRNE, Moacy. História e crítica dos quadrinhos brasileiros. Rio de Janeiro: Europa; FUNARTE, 1990.

DeCANDIDO, Keith R. A. Picture this: graphic novels in libraries. Library Journal, v. 115, n. 5, p. 50-5, 1990.

DeCANDIDO, Keith R. A. Get the picture? A serious look at comics in libraries. Library Journal, v. 116, n. 8, p. 46-50, 1991.

ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. São Paulo: Perspectiva, 1976.

EISNER, Will. Comics & sequential art. Tamarac, FL: Poorhouse Press, 1985.

FIERLI, Aglaé de L. et alii. Gibilândia: relato de experiência. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE BIBLIOTECONOMIA E DOCUMENTAÇÃO, 16, Salvador, 1991. Anais. Salvador : Associação Profissional de Bibliotecários do Estado da Bahia, 1991. v. 1, p. 80-91.

GIFFORD, Denis. The international book of comics. Hamlim, 1990.

GOIDANICH, Hiron Cardoso. Enciclopédia dos quadrinhos. Porto Alegre : L&PM, 1990.

HOFFMANN, Frank. Comic books in libraries, archives and media centers. The Serials Librarian, v. 16, n. 1-2, p. 167-98, 1989.

INTERNATIONAL JOURNAL OF COMIC ART. Drexell Hill, PA, 1999-

LUYTEN, Sonia. O que é história em quadrinhos. São Paulo: Brasiliense, 1985.

MAGALHÃES, Henrique. A nova onda dos fanzines. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2004;

MAGALHÃES, Henrique. O que é fanzine. São Paulo: Brasiliense, 1993.

MOYA, Álvaro de. História da história em quadrinhos. São Paulo: Brasiliense, 1996.

MOYA, Álvaro de. Shazam! 3.ed. São Paulo: Perspectiva, 1977.

NYBERG, Amy Kiste. Seal of approval: the history of the comics code. Jackson: University Press of Mississippi, 1998.

O´SULLIVAN, Judith. The great American comic strip. Bulfinch Press, 1990.

PUSTZ, Matthew J. Comic book culture: fanboys and true believers. Jackson: University of Mississippi, 1999.

SABIN, Roger. Adult comics: an introduction. London and New York: Routledge, 1992.

SARACENI, Mario. The language of comics. London and New York: Routledge, 2003.

SCHELLY, Bill. Sense of wonder: a life in comic fandom. Raleigh: TwoMorrows, c2001.

SCOTT, Randall W. Comics librarianship: a handbook. Jefferson: McFarland, 1990.

SILVA, Diamantino da. Quadrinhos para Quadrados. Porto Alegre: Bels, 1976.

VERGUEIRO, Waldomiro C. S. Comic book collections in Brazilian public libraries: the "gibitecas". New Library World, v.95, n. 1117, p. 14-8, 1994.

WIZARD BRASIL. São Paulo, Editora Globo, 2003-
 
 

Anexo 1 – Obras em quadrinhos citadas no texto

a) Revistas ou Gibis

ALMANAQUE DISNEY. São Paulo, Ed. Abril, 1970-

BATMAN. São Paulo, Panini, 2002-

CASCÃO. São Paulo, Ed. Globo, 1987-

CEBOLINHA. São Paulo, Ed. Globo, 1987-

CHICO BENTO. São Paulo, Ed. Globo, 1987-

DYLAN DOG. São Paulo, Ed. Mythos, 2002-

HOMEM-ARANHA. São Paulo, Panini, 2002-

O INCRÍVEL HULK. São Paulo, Panini, 2004-

LIGA DA JUSTIÇA. São Paulo, Panini, 2002-

MAGALI. São Paulo, Ed. Globo, 1989-

MARTIN MYSTÈRE. São Paulo, Ed. Mythos, 2002-

MICKEY. São Paulo, Ed. Abril, 1952-

MÔNICA. São Paulo, Ed. Globo, 1987-

O PATO DONALD. São Paulo, Ed. Abril, 1950-

SUPERMAN. São Paulo, Panini, 2002-

TEX. São Paulo, Ed. Mythos, 1999-

TIO PATINHAS. São Paulo, Ed. Abril, 1963-

X-MEN. São Paulo, Panini, 2002-

ZAGOR. São Paulo, Ed. Mythos, 1999-

ZÉ CARIOCA. São Paulo, Ed. Abril, 1961-
 

b) Álbuns, Graphic Novels e Minisséries

ANGELI. Os skrotinhos: a cura pelo fel. São Paulo: Jacaranda; Devir, 2001.

DAVIS, Jim. Garfield perde os pés. Rio de Janeiro: Cedibra, c1987.

EISNER, Will. Avenida Dropsie: a vizinhança. São Paulo: Devir, 2004.

GOSCINNY, René e UDERZO, Albert. O adivinho. Rio de Janeiro: Record, c1985.

GOSCINNY, René e UDERZO, Albert. O domínio dos deuses. Rio de Janeiro: Record, c1971.

LAERTE. Overman: o álbum, o mito. São Paulo: Devir; Jacaranda, 2003.

MILLER, Frank. Batman: O Cavaleiro das Trevas. São Paulo: Ed. Abril, 2002. 2v.

MILLER, Frank e SIENKIEWICZ, Bill. Elektra Assassina. São Paulo: Ed. Abril, 1986. 4v.

MOORE, Alan e GIBBONS, Dave. Watchmen. São Paulo: Ed. Abril, fev. a ago. de 1999. 12v.

SCHULZ, Charles M. Snoopy, eu te amo. São Paulo: Conrad, 2004.

UDERZO, Albert. Asterix e Latraviata. Rio de Janeiro: Record, 2001.

UDERZO, Albert. O filho de Asterix. Rio de Janeiro: Record, c1983.

WATTERSON, Bill. O progresso científico deu "tilt". São Paulo: Best Editora, c1991.
 


Sobre o autor / About the Author:

Waldomiro Vergueiro
wdcsverg@usb.br

Professor Associado, Chefe do Departamento de Biblioteconomia e Documentação
Coordenador do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo