A imperfeição da informação é geralmente conhecida na literatura como incerteza. No entanto, este termo é muito restritivo; o que se convenciona chamar tratamento de incerteza pode, na verdade, estar remetendo a outras imperfeições da informação, como imprecisão, ruído, não abrangência, conflito, ignorância parcial, etc.A representação da informação imperfeita Suponhamos, por exemplo, que queiramos descobrir a que horas começa uma conferência em um Congresso[1] . Algumas das respostas que podemos obter são:
Informação perfeita: A conferência começa às 8h.Informação imprecisa: A conferência começa entre 10h e 11h.
Informação incerta: Talvez a conferência comece às 8h.
Informação vaga: A conferência começa lá pelas 8h.
Informação probabilista: É provável que a conferência comece às 8h.
Informação inconsistente: Disseram que a conferência começa às 8h, mas o programa diz que ele começa às 10h.
Ignorância total: Eu não faço a menor idéia do horário da conferência
As informações que conseguimos obter podem, portanto, variar de adequadas, quando descobrimos exatamente o que queremos saber, a completamente imperfeitas, seja pela total ausência de informações ou por informações completamente inadequadas, irrelevante e sem prioridade. O mais interessante aqui é que, mesmo sabendo da imperfeição dos tipos de informação acima indicados, conseguimos tomar decisões, mas, certamente, estas decisões podem não ser as mais adequadas. Mas sempre, de alguma forma, teremos um padrão adequado para representar a informação organizada. Se existisse uma sociologia da incerteza poderíamos relacioná-la com a hipótese de que, na maioria das estruturas organizacionais, pela sua própria textura e autoritarismo, as decisões estariam baseadas em padrões imperfeitos de informação. No caso extremo desta conjectura poderíamos supor que a formalidade dos canais e dos papeis exercidos e a própria rede de informação existente em uma organização determina tão fortemente a imperfeição ou a tendência da cadeia de informação, que não há qualquer liberdade de decisão. Não importa, assim, quem estará ocupando o papel formal, sábio ou bruto, a decisão será praticamente a mesma, considerando o autoritarismo semântico, da estrutura de papeis na organização [2].Diferente seria estudar os modelos que determinam condições onde uma informação possa ser imperfeita, mas por razões de sua própria natureza. Um hipertexto, em si, é uma rede de informação com enorme liberdade de auto formatação, pois, representa uma bricolagem de textos tendendo ao infinito. A informação no texto linear reduz a incerteza pontual considerando a estrutura textual, unidimensional das palavras. Os hipertextos com sua trajetória vagante e livre criam incertezas, pois textos entrelaçados e direcionados ao infinito não respondem, apontam, e o fazem sem uma definição estrita.
Na agregação de hipertextos o termo Docuverse[3] foi criado por Theodore Nelson [4] para descrever uma biblioteca eletrônica global de documentos interconectados, um meta documento global. O modelo do Docuverse manifesta-se na união de hipertextos, rede de redes, interligando milhões de documentos. O hipertexto permite a qualquer pessoa estabelecer links para outros textos dentro e fora de documento tutor. O sistema consente que tal aconteça através dos protocolos utilizados na informação eletrônica que deixam qualquer autor estabelecer um elo para qualquer documento, acessível ao público e que esteja num arquivo da Internet.
É assim que, algumas velhas teorias se tornaram atuais na Rede. Na medida em que esta se torna mais presente e real é de crer que as implicações mencionadas por seus teóricos se tornem também realidade. O paradigma do hipertexto é o paradigma chave da cultura da rede eletrônica. A sua natureza é não linear, não hierárquica, sem fronteiras. Hipertextualizar é uma forma muito lógica de representar a informação e mostra como a nossa mente a processa, organiza e guarda. Os textos entrelaçados criam um espaço de informação orgânico, quando oposto ao formato linear imposto pelo velho modelo da informação impressa. É um sistema de representação de informação, que fornece um arcabouço semântico de múltiplos caminhos, e múltiplas experiências com a informação. Ao programar um hipertexto, seria importante dispor de um mapa navegacional, relacionado com vetores de seu fluxo, mostrando o grau de controle que o autor dá ao leitor nos caminhos a seguir e a possibilidade de esquematizar estes documentos para uma recuperação e apropriação da informação.
Os hipertextos, porém, não se desenvolvem ou se organizam seguindo o rigor dos cinco predicados de gênero, espécie, diferença, propriedade, acidente. Gênero, sendo uma classe de objetos que possuem um determinado número de características em comum, divisíveis em partes, chamadas espécies relacionadas de alguma forma ao gênero superior. A Propriedade como uma característica essencial a um conceito, inerente a ele e seus iguais e o Acidente uma qualidade ou circunstância que pode ou não estar presente em um determinado conceito. Os textos paralelos estão livres dos encadeamentos homogêneos e pré-determinados podendo iniciar em Biologia e terminar em Mitologia. Se informação no texto linear reduz a dúvida pontual, o hipertexto com sua trajetória livre mostra a incerteza, pois textos entrelaçados e direcionados ao infinito não respondem, apontam, e o fazem sem uma definição precisa. Hipertextos não se agregam por esquemas de organização verticais do tipo relacionamento de como em uma estrutura tipo árvore, mas se agrupam em mundos conceituais assemelhados a composição dos conjuntos aproximados para idéias.
O hipertexto cria espaços de informação multidimensionais e sem fronteiras. Antes da rede, os espaços de informação eram ilhas isoladas, agora são universos, partes de um todo integrado e integrativo. O desafio é mostrar os tentáculos de um texto em movimento, conhecê-lo melhor e indicar um modelo para sua possível agregação e identificação semântica. Será o futuro da escrita e dos que com ela trabalham.
A ciência da informação tem lutado para conseguir uma articulação para inserção destas tecnologias novas no seu agir cotidiano. Considerando que as tecnologias da informação deverão ser definitivamente incluídas na área, existe toda uma reorganização dos métodos associados ao seu pensar e as suas práticas, para formar um novo contexto nos atos de informação. Como o objetivo declarado desta tecnologia é promover o acesso universal à informação e a inclusão social, este objetivo passa a ser uma decisão de status tecnológico da sociedade. Não é mais passível de dúvida ou contraposição. É uma constatação da prática diária, que determinará o desenvolvimento e a própria existência da ciência da informação.
Notas:
[1] Adaptada de Guilherme Bittencourt, Inteligência Computacional, http://www.das.ufsc.br/gia/softcomp/softcomp.html
[2] Boulding ,K., "The economics of knowledge and the knowledge of economics", em Economics of Information and Knowledge, editado por Lamberton ,D.M., Penguin Books, Inglaterra, 1971
[3] Decouverse - http://www.dgz.org.br/dez05/Art_01.htm
[4] Theodore Nelson - http://historiadainternet.blogspot.com/2003/11/theodore-nelson-o-homem-de-xanadu.html
Aldo de Albuquerque Barreto
aldoibict@alternex.com.brPesquisador Titular do MCT-IBCT