Resumo: O presente artigo1 conta a historia 2 da ciência da informação na visão do autor. Focaliza nas redes de saber e no seu desenvolvimento o fio condutor da narrativa. A rede do saber seria sempre ilimitada, pois a sua estrutura é sempre diferente da estrutura que era um momento antes e a cada vez se pode percorrer o caminho segundo trilhas diferentes. A área de ciência da informação se constrói ao sabor das inovações na tecnologia e é sempre melhor lidar com a sua historiografia que com sua epistemologia. Assim, contar a história de como se atuava no passado é didático e fundamental para o entendimento da evolução das práticas da área e para a formação dos seus profissionais
Palavras-chave: Ciência da informação; Historiografia; Redes de saber; Fluxos de informação; Textos e hipertextos; O limite da tecnologia.
Abstract:
The paper is concerned with information Science history in the particular
view of the author. The knowledge network and its development in time gives
the trail to narrate the history. The information field was built in the
course of the development of the information and communication technology.
To know what has happened in the past is important for the study of the area
and students and lectures acting in this Field.
Key words: Information science; Historiography;
Knowledge networks; Information flow; Texts and hypertexts; The limits of
technology.
Devemos ir contentes, de um lugar a outro,
Sem apegar-nos a nenhum como a uma pátria
Não nos quer atados, o espírito do mundo
Quer que cresçamos subindo andar por andarSó quem se dispõe a partir e a ir em frente
Pode escapar da rotina paralisante.
Para nós não tem fim o chamado da vida....
Saúda, pois, e despede-te, coração *
O fluxo de informação e sua distribuição ampliada e eqüitativa tem sido um sonho de diversos homens em diversas épocas. Desde a escrita o homem vem passando por proezas tecnológicas que tem mudado sua visão e sua relação com o mundo da informação.
Umberto Eco3 em conferência na Biblioteca de Alexandria fala com propriedade sobre este tema:
"As bibliotecas, ao longo dos séculos, têm sido o meio mais importante de conservar nosso saber coletivo. Elas foram e ainda, são uma espécie de cérebro universal onde podemos reaver o que esquecemos e o que ainda não sabemos. Livros pertencem a essa classe de instrumentos, que, uma vez inventados, não foram aprimorados porque já estão bons o bastante, como o martelo, a faca, a colher ou a tesoura."
E vai além:
"Segundo Platão, em "Fedro", quando Hermes - ou Thot, o suposto inventor da escrita- apresentou sua invenção para o faraó Thamus, este louvou tal técnica inaudita, que haveria de permitir aos seres humanos recordarem aquilo que, de outro modo, esqueceriam.
"Meu habilidoso Thot", disse o Faraó, "a memória é um dom importante que se deve manter vivo mediante um exercício contínuo. Graças a sua invenção, as pessoas não serão mais obrigadas a exercitar a memória."
Estava errado o Faraó. A escrita não acabou com a memória: "Livros desafiam e aprimoram a memória; não a entorpecem."
"Mais tarde, Victor Hugo, em seu romance "Nossa Senhora de Paris", narrou a história de um padre, Claude Frollo, que olhava tristonho para as torres da sua catedral. A história de "Nossa Senhora de Paris" se passa no século 15, após a invenção da imprensa. Uma catedral medieval era uma espécie de programa de tevê permanente e imitável, destinado a transmitir às pessoas tudo o que era indispensável para a sua vida cotidiana, assim como para a sua salvação eterna."
Agora, porém, Frollo tem sobre a sua mesa um livro impresso e ele sussurra: "Ceci tuera cela" - "isto vai matar aquilo" ou, em outras palavras, o livro vai matar a catedral, o alfabeto vai matar as imagens. O livro vai desviar as pessoas de seus valores mais importantes, vai incentivar informação supérflua, a livre interpretação das Escrituras sagradas, trazer uma curiosidade insana "
Era o testemunho de um temor eterno: o temor de que uma nova condição
tecnológica pudesse matar algo que consideramos precioso e frutífero.
As redes de documento universal tem sido uma aspiração do homem desde que se
passou ao estágio de tratar e organizar documentos em diversas plataformas
tecnológicas.
Nas redes de saber cada ponto pode ter uma conexão com qualquer outro ponto;
mas não é possível ligá-los por um fio seqüencial, pois uma rede é um
labirinto sem interior ou com exterior formatado.
Esta contextura pode ser finita ou infinita e em ambos os casos,
considerando que cada um dos pontos de sua formação pode ser ligado ou
religado a qualquer outro, o seu próprio processo de conexão é um contínuo
processo de correção das conexões.
A rede do saber seria sempre ilimitada, pois a sua estrutura é sempre
diferente da estrutura que era um momento antes e a cada vez se pode
percorrer o caminho segundo trilhas diferentes. Um feitio de distribuição do
conhecimento “em rede” é uma aventura ocorrendo desde o século XVII passando
por antigas instituições e grupos de estudiosos.
Mas na idade média, que consideramos aqui como o período entre o fim do
Império Romano e o nascimento da civilização da Grécia e Roma, algo entre os
anos 900 e 1300 a informação era privilegio dos eruditos e estava retida
pelos muros dos mosteiros cuidada e vigiada pelos monges. Umberto Eco
4 em
seu livro O Nome da Rosa visualiza esta prisão no discurso de Jorge, o
bibliotecário chefe dos monges copistas da Itália medieval:
"Mas é próprio de nosso trabalho, do trabalho de nossa ordem e em particular do trabalho deste mosteiro, aliás, a sua substância – o estudo e a custódia do saber, a custódia digo não a busca, porque é próprio do saber coisa divina, ser completo e definido desde o inicio, na perfeição do verbo que exprime a si mesmo".
E segue:
"Não há progressos, não há revoluções de períodos na história do saber, mas no máximo, continua e sublime recapitulação."
Assim, a informação esteve cativa em universos simbólicos divinos por longos anos.
Entre alforrias e prisões chegou até a época da Internet onde grande parte
dos textos é liberado completo em sua linguagem natural. Mas muitos insistem
em continuar operando por uma sublime recapitulação do passado.
Acredito que a área de ciência da informação se reconstroí ao sabor das
inovações na tecnologia e prefiro sempre lidar com a sua historiografia que
com sua epistemologia. Assim, contar a história de como se atuava no passado
é didático e fundamental para o entendimento da evolução das práticas da
área e para a formação dos seus profissionais.
O livre fluxo de informação e sua distribuição eqüitativa tem sido um sonho
de diversos homens em diversas épocas. A rede de saber universal foi uma
preocupação desde a Academia de Lince, talvez a mais velha sociedade
científica de 1603.
A primeira sociedade Cientifica da Europa - a
Academia de Lince, foi
criada em 1603, na Itália.
Galileu foi um dos seus mais proeminentes
membros, nela ingressando em 1611. A Royal Society, fundada em Londres em 28
de novembro de 1660, foi reconhecida oficialmente em 1662. A Academia de
Ciências de Paris foi criada em 1666; a de Berlim é de 1700.
O periódico científico aparece após a fundação das sociedades cientificas na
França e Inglaterra em 1660. O
Journal de Sçavants
surgiu em janeiro de
1665, com 20 páginas e 10 artigos, algumas cartas e notas; procurava
informar sobre os livros publicados na Europa e resumir seu conteúdo, assim
como para tornar conhecidas as experiências realizadas nos campos da física,
química, engenharia e anatomia; um jornal literário com pinceladas de defesa
da indústria nascente. Embora seja factível supor que nesses jornais
pioneiros fossem noticiados acontecimentos científicos, se aceita como
correto que o primeiro periódico inteiramente voltado aos assuntos
científicos foi o
Philosophical. Transactions
de 1666 publicado pela
Academia Real de Ciências da Inglaterra.
A luta por uma distribuição adequada do conhecimento produzido pela
humanidade vem desde o século XVII passando por antigas instituições e
grupos europeus e americanos do norte, como a construção da
Enciclopédia de
Diderot e D’Alembert.
Paul Otlet e seu grupo na Bélgica,
Vannevar Bush e
seus pesquisadores na segunda guerra mundial, a aldeia global de
Marshal
McLuhan, as idéias de
Roland Barthes,
Jaques Derrida, os
"mitemas" de
Claude Lèvi-Strauss, a
Arqueologia do Saber de
Michel Foucoult e o Decuverse
5 global
de Theodor Nelson.
O ideal compartilhado seria o de se construir uma sociedade do conhecimento
não só uma sociedade da informação. É um erro confundir a sociedade da
informação com a sociedade do conhecimento. A sociedade da informação é uma
utopia de realização tecnológica e a do conhecimento uma esperança de
realização do saber.
A Sociedade do conhecimento contribui para que o indivíduo se realize na sua
realidade vivencial. Compreende configurações éticas e culturais e dimensões
políticas. A sociedade da informação, por outro lado, está limitada a um
avanço de novas técnicas devotadas para guardar, recuperar e transferir a
informação.
Em nenhum momento a sociedade da informação pretendeu ser responsável pelo
conhecimento gerado na sociedade. Foi sempre uma tecnoutopia e nunca uma
utopia para um conhecimento social ampliado. A sociedade da informação,
também, agrega as redes de informação, que são conformações com vigor
dinâmico para uma ação de geração de conhecimento.
A atual rede hipertextual da interface web possui uma racionalidade que
nasce no século dezessete considerando o nível e a qualidade da tecnologia
vigente em cada época. A sociedade em rede permite partilhar o saber para se
ter uma sociedade do conhecimento compartilhado, porque cada indivíduo entra
no universo tecnológico das redes interligadas trazendo sua cultura, suas
memórias cognitivas e sua odisséia particular.
A era do Iluminismo modifica a relação do pensamento erudito em relação ao
acesso da informação. O Iluminismo foi um movimento intelectual surgido no
século XVIII, o chamado "século das luzes". É um pensamento que defende a
valorização do homem e da razão. O filosofo
Immanuel Kant o definiu assim:
"O Iluminismo é a saída do ser humano do estado de não-emancipação em que
ele próprio se colocou.” Não-emancipação é a incapacidade de fazer uso de
sua razão sem recorrer a outros.
Os iluministas pregavam uma sociedade de transição come classes tendo mais
oportunidades iguais através do conhecimento. O Princípio da publicidade das
idéias
indica que o uso público da própria razão deve ser sempre livre e só isso
pode fazer brilhar as luzes entre os homens.
As organizações sociais que primeiro se ocuparam com a inclusão pelo
conhecimento foram as sociedades científicas e dentre estas a primeira foi a
Accademia dei Lincei. já citada. Em 17 de agosto de 1603, Quatro jovens
criaram em Roma uma associação de estudos científicos: Federico Cesi, filho
do duque d'Acquasparta, Francesco Stelluti, especializado em Ciências
Naturais e tradutor da língua persa, o conde Anastácio De Filüs e o médico
holandês Johann Eck; nenhum dos três primeiros tinha mais de e 30 anos.
A Accademia dei Lincei recebeu esse nome porque Lincei em italiano significa
Lince. Os linces são ágeis felinos de orelhas empinadas, que habitam vários
países do hemisfério norte, há muitos séculos são considerados animais
privilegiados por sua visão de alta acuidade, o que lhes permite enxergar
bem a grandes distâncias. Os homens de ciência eram então tidos como
verdadeiros linces, porque enxergavam mais longe do que os demais,
geralmente se dedicavam a estudar vários domínios do conhecimento.
Ainda na
Itália temos a Accademia del Cimento , em Florença desde 1651, a qual se
destacou por ter semeado os primeiros observatórios meteorológicos do mundo
por vários países da Europa, equipados com os instrumentos inventados por
Galileu, o cientista dos séculos XVI e XVII.
A criação das academias de Londres (em 1665), de Paris (em 1666) e de Berlim
(em 1700) ocorreu quando essas cidades começaram a destacar-se pela criação
de conhecimento científico, substituindo lentamente em relevância científica
as italianas, que em meados do século XIX começavam a decair.
A meta das primeiras academias era o de possibilitar a qualquer pessoa do
povo saber o que era ciência e como eram feitas as descobertas científicas,
já que em suas reuniões se praticava geralmente a realização de experimentos
para que os leigos as vissem.
As redes de distribuição de saber, começando com as enciclopédias, procuram
a organizar o conhecimento, mesmo considerando, que na enciclopédia a
codificação do saber em se dá em uma língua modelo e com conteúdos em
universos particulares de linguagem. De uma representação enciclopédica
nunca se extrai uma revelação definitiva do conhecimento ou sua exibição
global. Na introdução da sua enciclopédia D’Alembert indica:
“o sistema geral das ciências e das artes é uma espécie de labirinto de caminho tortuoso que o espírito enfrenta sem bem conhecer a estrada a seguir".
Contudo, é na enciclopédia que se configura bem o sentido de rede de
conhecimento distributivo. Em uma rede cada ponto pode ter conexão com
qualquer outro ponto. Não é possível ligá-los por um fio seqüencial. Uma
rede é um labirinto sem interior ou exterior. Pode ser finito ou infinito e
em ambos os casos, considerando que cada um dos pontos de sua formação pode
ser ligado a qualquer outro, o seu próprio processo de conexão é um contínuo
processo de correção das conexões.
A “Encyclopédie" , ou “Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des
métiers” foi uma das primeiras redes do saber acumulado, embora, de conexões
fixas. Foi publicada na França no século XVIII mas seu trabalho começou em
1750 e os volumes finais publicados em 1772. A obra, compreendendo 28
volumes, 71.818 artigos, e 2.885 ilustrações foi editada por
Jean le Rond
d'Alembert e Denis Diderot. D'Alembert deixou o projeto antes do seu
término, sendo os últimos volumes obra de Diderot. Muitas das mais notáveis
figuras do Iluminismo francês contribuíram para a obra, incluindo Voltaire,
Rousseau, e Montesquieu.
Os escritores da enciclopédia viram-na como a destruição das superstições
para o acesso ao conhecimento humano. Na França, na época, no entanto,
causaria uma tempestade de controvérsias. Isto foi devido em parte pela sua
tolerância religiosa.
A enciclopédia elogiava pensadores protestantes e desafiava os dogmas da
Igreja Católica Romana. Foi também um vasto
"compendium" das tecnologias do
período, descrevendo os instrumentos manuais tradicionais bem como os novos
dispositivos da Revolução Industrial no Reino Unido. A “Encyclopédie”
desempenhou um papel importante na atividade intelectual anterior à
Revolução Francesa.
O "Sistema figurativo do conhecimento humano", era a estrutura pela qual a
“Encyclopédie” estava organizada. Tinha três grandes ramos: memória, razão e
imaginação. A “Encyclopédie” pretendia ser uma classificação do conhecimento
humano.
Em seguida é com a iniciativa de dois documentalistas e apóstolos da paz que
se começa a configurar uma problemática moderna das relações culturais entre
a informação e o conhecimento. Paul Otlet e Henri La Fontaine são dois
advogados belgas que decidem organizar o I Congresso Mundial de
Associações
Internacionais de Documentação
em Bruxelas, em 1910.
Sinal da maturidade de um movimento além-fronteiras que conta com cerca de
400 entidades. Os dois criam uma União que tem sua própria revista:
La Vie
internationale. Ela prepara ao conceito de “mundialismo” e
“interdependência" do universo solidário das células do saber. Um mesmo
desejo de acabar com o caos das primeiras redes de intercâmbio cultural.
Paul Otlet sonha em facilitar o acesso do maior número de pessoas à
informação graças a um complexo conjunto de bibliotecas conectadas por
canais telegráficos e telefônicos.
Paul Otlet (1868-1944) junto com o prêmio Nobel da Paz de 1913, Henry la
Fontaine deu ao mundo, no período anterior a primeira guerra, diversas
organizações para disseminação do conhecimento: o Instituto Internacional de
Bibliografia (1895), uma biblioteca internacional e sociedades e associações
para montar um rede de conhecimento mundial.
Os determinantes colocados anteriormente permitem refletir com mais
liberdade a questão da ciência da informação em um desenrolar histórico
descritivo, que tem somente a validade no contexto do desenvolvimento
histórico da informação e conhecimento. Permitem ainda verificar que o ideal
do acesso ao conhecimento livre e para todos não surgiu com a Internet.
O historiador Eric Hobsbawm
analisando o século XX diz que, nos últimos
cinqüenta nos a humanidade viu inserir no seu convívio mais inovações do que
em todo o resto da sua historia. No limiar do período de que nos fala o
historiador, fatos muito importantes aconteceram. Entre 1945 e 1948, uma
bolha tecnológica produziu: a fissão nuclear que permitiu o lançamento da
primeira bomba atômica; forma introduzidos o Eniac e depois o Univac-1, os
primeiros computadores de aplicações gerais; o cientista Alexander Fleming
descobriu, a Penicilina no Hospital St. Mary ‘s em Londres; um avião voou
mais rápido do que o som; foi inventado o transistor e foi iniciada a
UNESCO
em Paris. Ainda nesse tempo, Norbert Wainer publicou
“Cybernetics”, sobre a
teoria matemática da informação e
Vannevar Bush publicou
“As we may think”
(Como nós pensamos), apontando os problemas decorrentes do volume e do valor
e da informação liberada após a segunda guerra mundial.
Acabava a guerra e a informação mantida secreta naquele período seria
colocada a disposição do mundo. Designado pelo presidente Roosevelt o Doutor
Vannevar Bush, foi de 1938 a 1942 o responsável pelo Comitê Nacional de
Pesquisa depois
Office for Scientific Reserach and Development;
a missão de. Bush foi congregar cerca de 6.000 cientistas americanos e
europeus para direcioná-los ao esforço de guerra. Em 1945, Bush escreveu
sobre o problema da informação em ciência e tecnologia e os possíveis
obstáculos que, poderiam ser encontrados na sua organização e repasse a
sociedade. Os entraves estariam localizados nos seguintes pontos:
a) formação inadequada de recursos humanos adequados para lidar com o volume de informação,
b) fraco instrumental de armazenamento e recuperação da informação existente
c) o arcabouço teórico existente para a área não explicava ou solucionava as práticas de informação da época.
O artigo de Bush apareceu primeiro em 1939, em uma carta ao editor da
Revista Fortune, teve sua histórica versão no periódico Atlantic Monthly e
posteriormente a Revista Life
fez vários comentários e chamadas sobre o
problema e o trabalho de Bush. Isso era o máximo de exposição, que uma
questão poderia querer na mídia da época.
Vannevar Bush pode ser considerado o pioneiro da ciência da informação e
1945 sua data fundadora pela publicação do seu artigo.
Ele indicou uma
mudança de paradigma para a área de informação em ciência e tecnologia, que
envolvia: seus profissionais, seus apetrechos de trabalho e falta de
condições teóricas para embasar a organização, representação e processamento
da informação para sua armazenagem e recuperação pelo usuário.
Vannevar
Bush introduziu a noção de associação de conceitos ou palavras para
organização da informação, pois este seria o padrão que o cérebro humano
utiliza para transformar informação em conhecimento. Indicou que os sistemas
de classificação e indexação existentes à época eram limitativos e não
intuitivos. Os processos para armazenar e recuperar informação deveriam ser
operacionalizados por associação de conceitos “como nós pensamos”.
A formação do profissional de informação foi dita conservadora para a época;
o aparelhamento da área insipiente; propôs, então, a construção de uma máquina o Memex como um utensílio tecnológico para armazenar e recuperar documentos
através de associação de palavras; advertiu, em seus escritos, que a base
teórica utilizada na construção dos sistemas de classificação da informação
além de ultrapassada estava errada.
As idéias de Bush provocaram tamanho frisson na época, que foram parar em
Londres. Em 1946, um ano após o termino da segunda guerra foi realizada em
Londres a “Royal Empire Society Scientific Conference”, onde se discutiu a
importância da informação, mas que levou à realização em
1948 da Royal Society Scientific Information Conference. Cerca de 340 cientistas e
documentaristas de todo o mundo compareceram a esta Conferência, que durou
dez dias úteis. Os seus Anais têm 723 páginas, dividido em dois volumes e
quatro seções. A publicação dos Anais foi editada nos Estados Unidos. Os
cientistas de quase todas as áreas do conhecimento, que compareceram a
Reunião em Londres, tinham propostas para resolver os problemas da
organização e acesso a informação e muitos vieram para a área trabalhar com
o assunto e para não de perder o seu status acadêmico, o novo campo foi
criado com o nome de: ciência da informação. Os resultados da Conferência de
1948 na Royal Society de Londres, apesar das 723 páginas, ficaram muito
perto das indicações de Vannevar Bush.
Na Inglaterra e no resto do mundo os acontecimentos, desde a publicação
do “As we may think” até a Conferência de 1948 da Royal Society, provocaram
uma cisão com a Biblioteconomia que durou perto de 40 anos.
Um ano após a Conferência da Royal Society de Londres, Jason Farradane, J.
Bernal e outros cientistas criaram o
Institute for Information Scientists ,
para acolher as novas idéias e os novos pesquisadores surgidos para esta
“nova” área. Hoje reunidos com a documentação e a
biblioteconomia o instituto se agregou na
Chartered
Institute of Library and Information Professionals.
Nesta mesma época, em 1952, foi criada pelo grupo dos cientistas da
informação o
Classification Research Group , com a intenção de propor novas
teorias para armazenar e recuperar a informação; o problema da época era o
grande volume de informação e sua gestão, as memórias pequenas e de alto
custo. Os profissionais que fundaram o “Institute for Information Scientists”
criaram sob o comando de
Jason Farradane o primeiro programa de pós-graduação em
de ciência da informação na
The City University , anteriormente chamada de
Northampton College of High Technology, localizado na City de Londres,
na Inglaterra.
Mensageira do futuro os estudos desta área foram criados em uma Faculdade de
alta tecnologia e vinculada, inicialmente, ao Centro de Administração e
Negócios da Universidade inglesa (Business Administration Centre).
Alguns estudos indicam o começo da ciência da informação relacionando-o a
uma pequena reunião realizada em 1961 e de novo em 1962 no Georgia Institute
of Technology no Estado da Georgia, nos EUA. Esta Conferência chamou-se
"Conferences
on training science information specialists, october 12-13, 1961 [and] April
12-13, 1962".
Agregou um total de cerca de 60 pessoas, somando os dois anos de sua
realização. A maioria dos participantes foram docentes e bibliotecários da
própria universidade americana sede do evento. A reunião da Geórgia tratou,
particularmente, do treinamento de especialistas da informação e unicamente
no contexto dos EUA é o que revela as
parcas 100 laudas de seus Anais .
Robert S. Taylor 6 7 diretor do Center for the Information Sciences at Lehigh ,na época, presente a reunião afirma:
"esta foi a primeira vez que foi feita, dentro dos EUA, uma distinção entre especialistas da informação e cientistas da informação e mais ainda, entre tecnologistas da informação e e cientistas da informação. A conferencia da Georgia Tech foi importante para o desenvolvimento de cursos da área nos Estados Unidos da America tanto na Georgia Tech, na Lehigh University e Drexel University.
Muita confusão se faz com esta Reunião e o início de qualquer coisa na área de ciência da informação em termos mundiais; Sua intenção e atuação estão restritas a educação e basicamente nos EUA. [8]
A divulgação ampliada desta Reunião regional ocorreu devido uma publicação denominada ARIST - The Annual Review of Information Science and Technology produzida pela American Society for Information Science & Technology (ASIST). Estas séries anuais iniciadas em 1966 com o Volume 1 editado por Carlos A. Cuadra se propunham revisar os aspectos importantes do desenvolvimento da área de ciência da informação nos anos anteriores de cada número. Contudo, dado seu patrocínio e a sua esfera de edição havia um considerável pendor para revisar o desenvolvimento da área acontecido, principalmente, nos EUA e generalizá-lo para o resto do mundo. Tal acontecia pela força da publicação e de seus protrocinadores, atuando com mais intensidade nas décadas de 1960, 70, 80. Muitas publicações e estudos que utilizaram o ARIST como seu corpus de suas pesquisas, reproduziram assim uma visão parcial da área, acreditando-a universal .
A ciência da informação e os
especialistas da informação só tiveram acesso ao computador, cerca de trinta e cinco anos
depois, a partir do final dos anos 1980, quando o custo da memória digital baixou e
permitiu o processamento de textos em linguagem natural. O acesso e o uso da
informação foi facilitado ajudando inclusive a esclarecer
controvérsias editoriais como a relatada acima.
A informação e o conhecimento
A informação sintoniza o mundo, pois referencia o homem ao seu passado
histórico, às suas cognições prévias e ao seu espaço de convivência com
outros homens, colocando-o em um ponto do presente, tendo uma memória do
passado e uma perspectiva de futuro; o indivíduo que apropria o conhecimento
se localiza em um ponto no presente que é o espaço de assimilação da
informação.
Assim, qualquer reflexão sobre as condições políticas, econômicas ou sociais
de um produto ou serviço de informação está condicionada a existência de uma
premissa básica, que é a sua relação com uma geração do conhecimento.
Os fluxos de informação se movem em dois níveis: em um primeiro nível os
fluxos internos de informação se movimentam entre os elementos de um sistema
de armazenamento e recuperação da informação, e se orientam para sua
organização e controle. Estes fluxos internos tem uma premissa de razão
prática, um conjunto de ações pautadas por um agir baseado em princípios
produtivos.
Em outro nível existem fluxos externos a este sistema de informação. No
fluxo externo a direita, a informação gerada pelo autor que entrou e passou
pelo sistema de informação para ser tratada é assimilada como conhecimento
pelo receptor. No extremo esquerdo, no início, dos fluxos se realiza um
fenômeno de transferência do pensamento do autor para um inscrição de
informação, cuja Essência está na passagem do que está na linguagem de
pensamento do autor para um texto de informação em linguagem comum ao
gerador e receptor.
No fluxo à final à direita temos um processo de cognição que permite
transformar a informação em conhecimento. Uma interiorização da informação a
para um subjetivismo privado. Um desfalecer da informação para renascer como
conhecimento. No fluxo inicial a esquerda acontece uma desapropriação
cognitiva, quando o pensamento, do gerador, se arranja em informação, em uma
linguagem com inscrições próprias. Aqui a passagem ocorre desde os
labirintos do pensar privado do autor para um espaço de vivência pública
onde está o leitor.
O lugar em que a informação se faz conhecimento é na consciência do receptor
que precisa ter condições para aceitar esta informação e a interiorizar. "De
que adianta esta luz Senhor, se ela não brilha em mim" diz Santo
Agostinho em suas "Confissões".
A ciência da informação, em seu percurso desde 1945, possui três tempos
distintos se quisermos analisar o seu desenvolvimento:
• Tempo gerência da informação de 1945 - 1980
• Tempo relação informação e conhecimento de 1980 - 1995
• Tempo do conhecimento interativo de 1995.
Indicar três tempos para a ciência da informação não é colocar uma separação
de práticas e idéias em tempos fechados. A intenção é marcar o foco para uma
determinada época. As questões, de gerência de informação, por exemplo, tem
uma constância que se abrigam até nos dias atuais. Mas durante os anos
próximos ao pós-guerra, este era o principal problema a ser resolvido.
Ordenar, organizar e controlar uma explosão de informação, para o qual o
instrumental e a as teorias da época não tinham uma solução preparada. Vale
lembrar que o computador praticamente ainda não existia e todo instrumental
teria que ser reapropriado de outras áreas ou produzido pela área. Existem áreas como a astronomia que
avançam preparando seu próprio instrumental de pesquisa e desenvolvimento. A
ciência da informação se desenvolve na cadência de aparelhos e instrumentais
desenvolvido por outras áreas, como a informática, a lingüística, as
telecomunicações etc.
Assim, no tempo da gestão, não havendo no curto prazo os aparelhos
necessários para resolver o problema, foi necessário estabelecer uma
metodologia de reformatação da informação baseada na substituição do
conteúdo dos documentos por indicadores deste conteúdo. Por esta operação um documento
de trezentas páginas poderia ser substituído por um conjunto de indicadores
constituído por suas informações
bibliográficas de descrição e localização e um determinado número de palavras chaves.
A era da gestão trouxe o esplendor das linguagens de classificações,
indexações, tesouros, medidas para testar a eficiência na recuperação do
documento quando usando uma linguagem de armazenamento específica: a
recuperação e precisão são duas das medidas da época que se acomodam até
hoje.
Os eventos desta ideologia tecnicista foram tão fortes que permanecem na área há
50 anos; formam um conjunto articulado de idéias e valores que, ainda,
comandam os sistemas de armazenamento e recuperação da informação. Mas o
problema dos domicílios de memória pequenos, e caros era o problema da época
e tinha de ser resolvido. Com a baixa do custo de armazenagem, o computador
foi sendo liberado, para os problemas, inclusive os de informação. Foi possível, então,
lidar com a questão do volume e do controle da informação em termos
naturais. O problema da redução da informação para adaptá-la aos estoques deixou de
ser uma condição o
prioritária, embora as questões de gestão de estoques de informação baseadas
na tecnologia dos anos 1950 persistam até hoje.
A seguir viria o cognitivismo
Existem controvérsias quanto às raízes do cognitivismo como um pensamento
predominante de um período. Parece haver alguma concordância que tudo
começou em um
Simpósio sobre Teoria da Informação, realizado no
Massachutts
Institute of Technology em 11 de setembro de 1956, onde figuras importantes no
desenvolvimento do novo pensar apresentaram artigos inéditos: Herbert Simon, Noan Chomsky e Claude Shanhon.
O certo é que nos anos 60 se encontram os principais autores e atores do
cognitivismo ou da Ciência da Cognição, estudando o comportamento da
assimilação dor conhecimento em seres humanos, máquinas e na interação dos
dois.
Na década de 1960, as características do refletir cognitivista estavam em
todos os campos da ciência. Na ciência da informação o cognitivismo, baseado
na relação da informação e a geração do conhecimento, chegou na década de
setenta introduzido por: Belkin, Wersig e por Nevelling ; por projetos como
o Project in Scientific Information Exchange in Psycology da American
Psychological Association; o trabalho do Center for Reseach in Scientific
Communication da John Hopkin University e o
INFROSS Project na Universidade
de Bath, Inglaterra que estudou o desenho de sistemas de informação para
ciências sociais.
A característica da informação passou a ser sua “(in) tensão”
[9] para gerar o
conhecimento no indivíduo e conseqüentemente em sua realidade. É nesse
sentido que a ciência da informação mostra a sua interdisciplinaridade, pois
ao se relacionar com o conhecimento a informação necessita, para sua
explicação, de uma reflexão que busca a filosofia, a lingüística, a ciência
cognitiva, a ciência da computação, a sociologia, entre outras tantas.
O conhecimento, destino final da informação, é organizado em estruturas mentais
por meio das quais um sujeito assimila a “coisa” informação. Conhecer é um
ato de interpretação individual, uma apropriação do objeto pelas
estruturas mentais de cada sujeito. Estruturas mentais, que acreditamos, não são
pré-formatadas, no sentido de serem programadas nos genes. As estruturas
mentais são construídas pelo sujeito sensível, que percebe o meio.
A geração de conhecimento é pois, uma reconstrução das estruturas mentais do
indivíduo realizada através de sua competência cognitiva, ou seja, é uma
modificação em seu estoque mental de saber acumulado, resultante de uma
interação com uma informação. Esta reconstrução pode alterar o estado de
conhecimento do indivíduo, ou porque aumenta seu estoque de saber acumulado,
ou porque sedimenta saber já estocado, ou porque reforma saber anteriormente
estocado.
Com o foco na relação entre a informação e o conhecimento, modificou-se a
importância relativa da gestão dos estoques de informação passando-se a
apreciar a importância da ação de informação modificando a coletividade. Se antes havia
uma razão pratica e uma premissa técnica e produtivista para a administração
e o controle dos estoques, agora a reflexão considera as condições da passagem da informação para os receptores em
sua realidade vivencial; a promessa de gerar conhecimento teria que
estar balanceada por fatores como o
indivíduo, o seu bem estar e suas competências para interiorizar a
informação.
A partir de 1990, após a internet, a informação assumiu um novo status,
principalmente com a sua interface gráfica
a
world wide web. Embora, os
primeiros esforços de uma rede mundial de computadores apareçam em 1972, com
uma mostra pública da Arpanet
, ligando 40 computadores. Mas, foi só em 1989
que, Tim Berners-Lee, cidadão inglês, tecnologista da informação,
trabalhando no European Organization for Nuclear Research, Center – Cern,
programou os primeiros softwares que permitiram a atual configuração gráfica
da web, onde o que você vê, é o que você consegue ter, e a partir daí o
desenvolvimento popular da Internet.
São as, então, novas tecnologias de informação e sua disseminação, que modificaram
aspectos fundamentais, tanto da condição da informação quanto, na
possibilidade
da sua distribuição. Estas tecnologias intensas modificaram radicalmente a
qualificação de tempo e espaço entre as relações do emissor, com os estoques
e os receptores da informação.
Quando falamos em novas tecnologias de informação pensamos de imediato no
computador, na telecomunicação e na convergência da base tecnológica
permitindo que, todos os insumos de informação fossem convertidos para uma
base digital, possibilitando, assim , tudo seguir no mesmo canal de transferência
da informação.
Contudo estas são conquistas baseadas em apetrechos elétrico, eletrônicos ilusórios e efêmeros.
Conjuntos fantasmagóricos de fios, fibras, circuitos e tubos de raio catodo.
As reais modificações que as tecnologias intensas de informação trouxeram
foi uma nova forma de lidar com o acesso a informação e as
modificações relacionadas ao tempo e ao espaço de sua transferência.
O tempo de interação do receptor com a informação, quando conectado online,
é em tempo real, com uma velocidade que o reduz ao entorno de zero. Esta
velocidade de acesso junto com a possibilidade de uso coloca nova dimensão para o
julgamento de valor da informação; o receptor passa a ser o julgador da sua relevância em tempo real, no momento de sua interação e não mais em uma
condição de retro alimentação, isto é, no final do processo.
A estrutura do documento pode estar em diversas linguagens, combinando
texto, imagem e som; não está mais presa a uma estrutura linear que vai
contemplando o significado no passo da escrita. Cada receptor interage com o texto com a intencionalidade de uma
percepção orientada por uma decisão individual de ficar no texto ou ir a
outros espaços de informação paralelos, permitido por seus links.
A facilidade de ir e vir, na dimensão do espaço de comunicação é ampliada
por uma conexão na rede internet; o receptor passeia por diferentes memórias
de informação no momento de sua vontade.
O instrumental tecnológico que possibilita esta nova interação é restritivo
em termos econômicos e de aprendizado técnico; é, ainda, socialmente pouco
acessível, mas isto não pode anular as condições que colocam a distribuição
eletrônica como uma nova e eficiente maneira de plublicitar enunciados para
as diversas comunidades, com a intenção de criar conhecimento.
As modificações da escrita
A informação no texto linear, das narrativas contínuas
como um folhetim onde o significado trilha um só caminho,
reduz a incerteza pontual na colocação unidimensional das palavras; o
hipertexto com sua trajetória vagantemente livre cria incerteza, pois junta
textos entrelaçados e os direcionados ao infinito, não respondem, apontam;
indicam mas sem uma definição estrita sem linhas formais ou formas previamente
programadas. Não tem nem mesmo uma única realidade por norma ou forma. Pode ser
um percurso de passos delirantes sem destino certo e explicações fáceis: é
como um percorrer de labirintos de medusas entrelaçadas.
Se a informação é a mediadora do conhecimento em suas formas lineares no
hipertexto esta mediação se perde em potências de mosaicos. A apropriação
esclarecedora está nos passos do caminhante que cria o traçado do caminho.
Na nova escrita o caminhar
só prossegue se as pegadas anteriores foram firmes e interiorizadas corretamente; nesse
sentido o caminhante nunca faz o caminho; o caminhar é permitido pelo conhecer.
No hipertexto, os caminhantes estão sempre em perigo de estarem perdidos nos
desvios da sua rota, encantados mais pelo feitiço do percorrer, que na ação
do conhecer. Um hipertexto é então uma aventura que entrelaça coisas: informação, conhecimento, labirintos, espelhos e medusas; um ritual de
passagens múltiplas, atalhos e desvios em direção a uma construção
individualizada da leitura para a geração do conhecimento.
As pessoas de amanhã
Como serão, então, as pessoas do amanhã em um mundo em que a escrita se
torna cada vez mais em formato digital? A questão a considerar é como
acontecerá a apropriação da informação e geração do conhecimento em um
cenário onde a consciência humana já tenha e os sentidos condicionados pelo
formato digital dos textos. Uma consciência vagueante na forma e
tangenciadora de conteúdos próximos.
A apropriação da informação é uma condição necessária ao receptor para
validar a informação acessada. Não é suficiente que os enunciados sejam
intencionalmente planejada para um bom acesso. O conteúdo deve atingir espaços
semânticos compatíveis e harmoniosos para a sua compreensão e aceitação.
A assimilação de um texto linear, fechado possui um desenlace cognitivo
diferente de uma apropriação da informação em formato digital digital hipertextualizada. No
texto linear a interatuação com a estrutura física possibilita uma condição
de reflexão com trocas de enunciados entre receptor e texto em uma relação
biunívoca. O texto linear é dito fechado devido ao seu estado de acabamento.
A sua abertura referencial é, geralmente, uma opção e uma possibilidade pós-
leitura.
Textos paralelos em rede permitem na sua interação, um diálogo,
receptor-texto, com uma troca de enunciados multiespaciais e assíncronos. O
diferencial está na possibilidade de conversação do sujeito com a estrutura
e a na sua possibilidade de ir e vir, para dialogar, ao mesmo tempo, com
escrituras conexas que se cruzam para expandir, referenciar, restringir,
agregar conteúdo ao tema e as idéias de um texto central. Esta
potencialidade se relaciona livremente com o código lingüístico que, apenas,
deve ser sempre comum para o entendimento entre a escritura emissora e um
sujeito receptor.
Não acreditamos que a linguagem se diferencie no texto linear do hipertexto,
embora reconhecendo a potencialidade de uma linguagem multimídia que um
hipertexto usa. Não há diferenciação de linguagem nas escrituras digitais, mas sim
uma dessemelhança no ato de informação que conduz entre geografias semânticas.
Há nos textos paralelos uma explosão do imaginário. A dissimilitude é estrutural e não existe
uma disputa de sintaxe ou de ortografia entre um texto único ou um conjunto
de textos entrelaçados. A diferença se coloca no arranjo estrutural e pelo jogo de
enunciados que se processam entre: os conteúdos, o pensamento e o
indivíduo. O hipertexto é uma configuração de relações subjetivas maior que uma máquina e
suas regras de funcionamento.
O processo cognitivo de apropriação do conhecimento através da informação
escrita nos dois casos é diferenciado. O desafio atual da ciência da
informação será estudar como esta mudança na estrutura da escritura se
refletirá na qualidade da assimilação do conhecimento pelo o indivíduo.
Os limites da Tecnologia de informação
As novas tecnologias de informação e transferência da informação ficaram
muito perto do computador e suas linguagens e sua programação. Quando
falamos em novas tecnologias de informação pensamos de imediato no
computador, na telecomunicação e na convergência da base tecnológica.
Contudo, este instrumental da técnica, apesar de imprescindível, representa
uma pequena parte da conquista da liberdade individual sobre a informação.
São efêmeros gadgets
que acompanham a infraestrutura de uma nova plataforma
tecnológica, conjuntos, mutantes formando as hipervias em
backbones que distribuem enunciados. Estes instrumentais da tecnologia da
informação se modificam a cada vã momento reaparecendo sempre em melhore forma e
mais potente.
As reais modificações advindas das tecnologias de informação são as condições de interatividade e interconectividade
do receptor com a informação. Estas transformações estabeleceram um
novo relacionamento entre o gerador, o receptor; uma grande idéia
que se chocou com o tempo certo.
A velocidade e modalidade de acesso à informação modificam nossa
sensibilidade e competência cognitiva. A convergência da narrativa para uma
base digital inseriu imagem e som na estrutura de informação. A pergunta que
persiste é como serão os documentos de amanhã em estruturas abertas e
acêntricas levando ao rumo de textos paralelos?
Por intuição e pesquisa ainda em andamento podemos indicar que o
conhecimento seria apropriado com maior abrangência temática , embora talvez
mais fragmentado. A tecnologia da informação já trouxe profundas e válidas
modificações em áreas como a medicina pelo diagnóstico a distância e a
análise do DNA; na engenharia pelo estudo a partir de protótipos e projetos
em realidade virtual; na geologia com o geoprocessamento; na educação com o
aprendizado à distância, para citar alguns exemplos.
Sempre me preocupou, contudo, refletir sobre qual é o limite da tecnologia,
ou a partir de que ponto este conjunto de conhecimentos, que se aplicam a um determinado uso deixa de ter interesse
social.
Um processo de inovação se diferencia de uma nova tecnologia; a tecnologia
é uma sucessão de eventos sistemáticos; de técnicas, processos,
métodos, meios e instrumentos de uma ação de transformação de idéias e de
ações; é diferente da inovação que é a aceitação dos eventos da tecnologia pela
pluralidade dos elementos de um determinado espaço social. Na inovação se acredita
que, um
acréscimo de bem estar comum trará uma situação melhor do que a que existia antes. A
inovação modifica a realidade e os seus habitantes.
O limite da tecnologia se dará sempre, quando a inovação criada pela
tecnologia, deixar de trabalhar
em benefício do indivíduo e se voltar contra ele para lhe causar problemas.
As novas tecnologias de informação de tão intensas produzem medo
pois, aumentam, consideravelmente, os poderes do homem. Algumas vezes o
transformam em objeto destes poderes. O mundo digital, por exemplo, cria facilidades
para as atividades cotidianas, as atividades de pesquisa e de ensino, mas cria,
também, monstros que assombram a nossa segurança e privacidade.
Tem sido muito pensado neste novo tempo cibernético a questão do valor da
tecnologia da informação quando ponderado contra a possibilidade de uma
existência mais simples e com mais felicidade. Qual é o papel da informação
em formato eletrônico no grande dilema da existência do ser humano atual. Quanto da
informação se orienta para formar uma inteligência coletiva e quanto para
uma inteligência de competição e de provocação de consumo em favor do mercado. Estas
transformações se associam a felicidade do ser humano na simplicidade dos
seus espaços de convivência?
A felicidade estará melhor
no simples e doce sentimento da existência?
O iluminismo, pensamento que defende a valorização do homem e da razão,
modificou o status do acesso da informação. O seu corolário, o princípio da
publicidade da informação promoveu o uso público dos discursos como um bem
sempre livre que faria brilhar as luzes entre os homens.
Contudo, as utopias coletivas da felicidade pela informação podem conduzir a quimeras individuais que, conduzem a uma nova configuração do
seu valor para a sociedade. A convivência atual acontece , cada vez mais,
virtualmente em uma realidade paralela de salas de discussão e mensagens
eletrônicas; os jovens preferem a comunicação instantânea das mensagens torpedos ou os mensageiros
interativos para ali viver e relatar a sua vida aos companheiros.
Cada vez mais a opção de uma vivência escondida se mostra em uma
tecnologia como a dos "Chats", o "Facebook", o "MySpace", os "Podcasts",
"You tube". Parece que uma "Second Life" paralela é possível. O
doce sentimento da existência é vivido por nosso outro, um avatar do que
sonhamos ser atuando em uma vivência sem nossa presença.
Esse é o fatalismo da vivência eletrônica sem compromisso com o real, onde o
centro de avaliação exclui da terra a esperança de se estar em contato pessoal
para
a felicidade do conviver. Na realidade virtual o uma parte grande do valor
do sujeito advém do êxito de
exibição e do sucesso dos mil contatos nos sites de convivência. A
felicidade pela visibilidade tem que ser assegurada mesmo sem muito conteúdo
e em um mundo paralelo.
Há que se lidar, agora, com os limites da tecnologia da informação.
[*] Herman Hesse, Andares, (fragmentos)
[1] Este artigo utiliza outras narrativas do autor para construir uma
quase historia da ciência da informação
[2] Originalmente o artigo foi preparado para constar da publicação "
Coleção Sala de Aula" , a ser editado pela EDUFBA-Editora da UFBA.Esta
versão, revista posteriormente, difere em muitas partes da que foi preparada
para aquela coleção.
[3] Eco,U. - Folha de São Paulo. Caderno Mais. p.4-10. 14 de dezembro de
2003
[4] Eco, U. – O Nome da Rosa, 13ª edição, Nova Fronteira, Rio de Janeiro,
1983
[5] Decuverse: O termo Docuverse foi criado por Ted Nelson para descrever
uma biblioteca eletrônica global de documentos interconectados, i.e., um
metadocumento global. O paradigma do Docuverse manifesta-se na Rede
Internet, visto esta se espalhar por todo o globo, interligando milhões de
documentos.
[6] Taylor, R. S., On education, Bulletin of ASIS , 2(8), 34, 1976
[7] Taylor R.S. Professional Experts of Information Science and Technology, Arist, vol 1,p.15-40.1966
[8] A Dra. Joana Coeli Ribeiro Garcia escreve: "Vários autores, em publicações mais recentes ou mais antigas, dentre os quais Pinheiro, 1998, Shera, 1968 e Taylor, 1966, referem-se às conferências do Georgia Tech como marco para a ciência da informação. No entanto, não há, pelo menos no Brasil, um estudo em que se aprecie a totalidade das ocorrências de tais eventos".... "Diversamente muitos autores citam Borko (1968), adjetivando de clássica a definição que ele apresenta de ciência da informação. Porém no artigo em que conceitua ciência da informação ele afirma que faz uma síntese das definições de Taylor (1966) [7],publicada no Annual Review of Information Science and Technology (ARIST). Este, por sua vez, credita a definição ao Georgia Tech." - Ver em http://www.ies.ufpb.br/ojs2/index.php/ies/article/viewFile/153/147 Visitado em 01/02/2008.
[9] “(in) tensão” - a separação da palavra quer denotar seu sentido de direção (in) e a tensão de apropriação de um conhecimento quando o receptor assimila o pensamento de um emissor traduzido em uma informação colocada em um código comum a ambos.
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Wersig,G, Nevelling U, The Phenomena of Interest to Information Science,
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(v2.0)
Sobre a autor / About the Author:
Aldo de Albuquerque Barreto
aldobar@globo.com
Ph.D.em Ciência da Informação (Londres); pesquisador titular do Ministério da Ciência e Tecnologia no IBICT.