Resumo:
Os conceitos de maior relevância e os principais modelos associados às
redes de conhecimentos são analisados com ênfase nas diversas abordagens
presentes na literatura. As redes de conhecimento que têm a cooperação e a
interação como seus pontos de convergência são examinadas com o propósito de
identificar seus elementos essenciais. A maior parte dos argumentos
encontrados está centrada na interação entre atores que compartilham e
constroem conhecimentos, desenvolvendo idéias e processos por meio do
movimento de informações. As redes de conhecimento são articuladas e
configuradas pelas ações e interações de atores organizacionais, redes essas
nas quais os processos de compartilhamento da informação e de construção do
conhecimento lhes são peculiares.
Palavras-chave:
Redes de conhecimento; Compartilhamento da informação; Construção do
conhecimento.
Abstract: The most relevant concepts and the main
models associated to knowledge networks are analyzed with emphasis on the
several approaches present in literature. Knowledge networks which have
cooperation and interaction as their convergence points are examined with
the purpose of identifying their essential elements. Most of the arguments
found are centered in the interaction between actors who share and build
knowledge, developing ideas and processes through information movement.
Knowledge networks are articulated and depicted by the actions and
interactions of organizational actors, networks in which information sharing
processes and knowledge construction processes are peculiar.
Keywords:
Knowledge networks; Information sharing; Knowledge building.
Introdução
Observa-se, na atualidade, que o relacionamento visando à cooperação
tornou-se ponto central da nova forma organizacional e passou a ocupar papel
relevante nos empreendimentos modernos. A cooperação está relacionada, quase
sempre, ao desenvolvimento que gera e a interação.
A participação em redes sociais, a cooperação, as parcerias e a adoção de
redes de comunicação possibilitam a interação. A interação leva ao
compartilhamento, impulsiona os fluxos de informação e de conhecimento que
são decorrentes do movimento de uma rede e determinados pelos vínculos que
se configuram e re-configuram. Esses são elementos que podem constituir uma
rede de conhecimento. A expressão “Redes de Conhecimento” tem
aparecido na literatura com maior freqüência apenas nos últimos anos, porém
com distintas acepções.
Os argumentos que demarcam as redes de conhecimento divergem, parece não
apresentarem coerência suficientes para caracterizá-las. Apesar de
indubitavelmente relacioná-las a informação e ao conhecimento.
Tendo esses preceitos como norte, este estudo identificou e analisou os
conceitos, as abordagens e os modelos de redes de conhecimento presentes na
literatura científica, principalmente nas áreas de Ciência da Informação e
Administração, com o objetivo de identificar seus elementos essenciais. Os
resultados permitem a visualização dessas redes em múltiplas perspectivas.
Articulação em Redes
Quando se aborda o tema rede, impregnado em seu conceito está à concepção de
cooperação, por serem as redes responsáveis pelas articulações entre
diferentes atores que interagem entre si e fortalecem todo o conjunto “à
medida que são fortalecidas por ele, permitindo-lhe expandir-se em novas
unidades ou manter-se em equilíbrio sustentável. Cada nódulo representa uma
unidade e cada fio um canal por onde essas unidades se articulam por meio de
diversos fluxos” (Mance, 2000).
Casarotto Filho e Pires (1999, p.37), respaldados pelos estudos de
Stamer,
adaptaram e ampliaram peculiaridades relativas à cooperação, que criam elos
entre indivíduos diferentes, que se unem para alcançar metas de interesse
geral. No entanto, essa cooperação, para os autores, requer:
Troca de informações entre várias empresas;
Estabelecimento de um intercâmbio de idéias;
Desenvolvimento de visão estratégica;
Definição de áreas de atuação;
Análise conjunta dos problemas e solução em comum;
Definição das contribuições dos parceiros.
E, ainda, continuam os autores, a cooperação consiste em: “- abandonar
o individualismo; - saber tolerar, ceder; - aceitar que o concorrente é um
semelhante; - banir expressões do tipo: Cada um por si e Deus por todos; ou
a máxima da concorrência perfeita: Todos contra todos”. Isto é, na
cooperação é necessário estar acessível à ampliação ou ao recuo das
fronteiras de ações individuais e organizacionais, é estar livre a
negociações e predisposto a compartilhar informação e conhecimento para o
bem comum.
A cooperação é condição sine qua non para a integração em redes.
Casarotto Filho e Pires (1999) distinguem dois tipos de redes, as redes
topdown e as redes flexíveis que, para eles, são meios de sobrevivência
das pequenas empresas. Nas redes topdown, a pequena empresa é
fornecedora – de insumos – para uma grande empresa, denominada nessa
estrutura empresa-mãe, para que ela possa elaborar a montagem final de um
determinado produto. Essa é uma estrutura vertical em que as pequenas
empresas desenvolvem insumos para uma grande empresa e não têm nenhum poder
de influência na rede, sendo dependente das estratégias definidas pela
empresa-mãe.
Nas redes flexíveis, as empresas relacionam-se horizontalmente, com poder de
influência e de ação semelhantes. Casarotto Filho e Pires (1999)
vinculam-nas à organização de consórcios, em que simulam a atuação de uma
grande empresa, embora tenham uma flexibilidade muito maior. As redes
sociais e de conhecimento podem ser consideradas redes flexíveis, nas quais
os atores ganham competências pessoal e empresarial, valendo-se de suas
relações, que movimentam a informação e constroem conhecimento.
Para Castells (1999, p.498), as “redes são estruturas abertas capazes de
expandir de forma ilimitada, integrando novos nós desde que consigam
comunicar-se dentro da rede”, isto é, desde que compartilhem objetivos
comuns. “Uma estrutura social com base em redes é um sistema aberto
altamente dinâmico suscetível de inovação sem ameaças ao seu equilíbrio”.
O autor ressalta que a rede reorganiza as relações de poder. “As conexões
que ligam as redes (por exemplo, fluxos financeiros assumindo o controle de
impérios da mídia que influenciam os processos políticos) representam os
instrumentos privilegiados do poder”. A conjunção das tecnologias da
informação e da evolução social deu origem a “uma nova base material para
o desempenho de atividades em toda estrutura social. Essa base material
construída em redes define os processos sociais predominantes,
conseqüentemente dando forma à própria estrutura social”.
Redes de Conhecimento: Principais Abordagens
Nas redes de conhecimento, a informação carece de interpretação. Normalmente
é subjetiva e provém de um ator que coopera na rede com sua bagagem
intelectual, cultural e organizacional. É essa informação, e seu
compartilhamento, o foco do estudo das redes de conhecimento e é por meio
dela que o conhecimento individual pode ser o mote para parcerias que tragam
benefícios recíprocos.
É possível uma maior compreensão das redes de conhecimento e uma visão mais
distinta do que são essas redes, pelas vantagens descritas por Creech e
Willard (2001):
-As redes de conhecimento enfatizam a criação de valores comuns por todos os seus membros, movimentam-se por meio
do compartilhamento da informação, visando a reunião e a criação de novos conhecimentos;
-As redes de conhecimento fortalecem a capacidade de pesquisa e de comunicação em todos os membros na rede;
-As redes de conhecimento identificam e implementam estratégias que exigem maior empenho dos responsáveis na tomada de decisões, isso porque movimentam o conhecimento dentro de políticas e práticas adotadas pelos participantes.
Em uma economia de rede, Jarvenpaa e Tanriverdi (2003) afirmam que um nó
representa um repositório de conhecimento único, enquanto uma ligação
representa vínculos econômicos e estratégicos que possibilitam fluxos de
conhecimento entre os nós. A extensão da rede de conhecimento, interna e
externa à empresa, determina sua habilidade para criar e impulsionar o
conhecimento. A rede de conhecimento externa compreende clientes,
fornecedores, parceiros e outros participantes que influenciam na capacidade
de adquirir conhecimento para a empresa.
A organização dos indivíduos em redes é comum na comunicação científica há
décadas; os colégios invisíveis são evidências desse fato. Apenas mais
recentemente – década de 1990 – vem sendo intensificado na literatura o
enfoque de organizações em rede visando seu crescimento econômico.
Esse fato está em consonância com os argumentos de Büchel e Raub (2002)
quando dizem que as redes de conhecimento têm potencial para dar suporte às
organizações intensivas em conhecimento, melhoram sua eficiência,
impulsionam a inovação e assim mantêm o moral dos empregados. As redes de
conhecimento cada vez mais são fortalecidas e despertam interesses dentro
das organizações.
Segundo os autores, elas criam um ambiente mais produtivo, quando se
abandonam alguns tipos de controle exercido. Os gerentes comprometidos,
seriamente, com as redes de conhecimento podem fornecer um contexto fértil
para que esses agrupamentos de membros ajudem a organização a responder às
pressões do mercado.
A inserção em redes desenvolve nas organizações a capacidade de reagir às
mudanças ambientais. Guimarães, Gramkow e Filipon (2003) afirmam que isso
ocorre em decorrência do estabelecimento de relações que tem como condutor
central a cooperação, que sustenta a rede e promove o desenvolvimento
sustentável local e regional.
Os autores destacam os principais benefícios das organizações pela atuação em rede:
- construção do conhecimento;
- desenvolvimento tecnológico;
- novos negócios e abertura de mercado;
- aumento da qualidade e da produtividade de serviços, produtos, e processos;
- ascensão pela transferência de tecnologia e pela sistematização de processos.
E constatam que a participação em redes leva seus integrantes a
estabelecer relações de cooperação que superam as competitivas e modificam o
status de concorrentes para parceiros, graças ao trabalho com novas formas
de relacionamento e gerenciamento de seus negócios.
A eficiência, a inovação e a satisfação decorrentes dessas redes
possibilitam o crescimento empresarial e o desenvolvimento de uma cultura de
cooperação, principalmente para as empresas baseadas em conhecimento que têm
como foco promover o conhecimento e a especialização dos empregados e criar
redes internas dessas fontes humanas do conhecimento.
Diferentes trajetórias podem ser distinguidas na criação das redes no campo
da tecnologia. Casas, Gortari e Santos (2000) encontraram variações por
campo de conhecimento, por dimensões espaciais das redes, por setores
econômicos, por tipo dos atores envolvidos e pelo fluxo do conhecimento.
As autoras destacam que a disseminação das potencialidades acumuladas em
centros de pesquisa impulsiona os projetos de Pesquisa e Desenvolvimento
(P&D) de interesse da indústria, assim como o desenvolvimento de partes
industriais específicas e os serviços especializados. Alguns dos fluxos
continuam a ser baseados em contatos individuais; outros compreendem redes
institucionais.
Os fluxos de conhecimento parecem ser focalizados em campos tecnológicos
novos, principalmente entre as organizações pertencentes a arranjos
territoriais – como os pólos, os parques, etc. – que são espaços nos quais a
parceria entre academia, indústria e governo, é uma condição para seu
fortalecimento.
As empresas que se concentram em um espaço territorial e fruem de benefícios
advindos desse espaço são consideradas integrantes de Redes Locais de
Produção, que são qualificadas por Escobar, Ferreira e Crespo
(2000,
p.109) como “uma nova dinâmica industrial, baseada em aglomerações de
PMEs que desfrutam de uma série de benefícios coletivos, decorrentes da
concentração e especialização de competência de produção e de mão-de-obra”
em uma área geográfica delimitada, situação que provoca o desenvolvimento de
uma cultura industrial própria.
Os autores ressaltam a dimensão sistêmica que se desenvolve nessas redes,
nas quais os sistemas de relações com os agentes e o contexto são profícuos.
Até mesmo a percepção quanto aos concorrentes sofre mudanças, que passam a
ser aceitos como parceiros em potencial e não mais como adversários.
A criação de espaços de conhecimento e a construção de redes entre a
academia, a indústria e o governo, para Casas, Gortari e Santos (2000),
devem ser consideradas pelos responsáveis pelas políticas a fim de dar apoio
ao desenvolvimento econômico.
Com base em evidências obtidas em pesquisa, as autoras afirmam que os
espaços do conhecimento promovem o desenvolvimento tecnológico. Eles podem
contribuir mais diretamente para a formação de ambientes de inovação e se
constituem em uma etapa importante na sua criação.
O desenvolvimento de capacidades de pesquisa implica na acumulação do
conhecimento, que, embora fragmentado e subtilizado no âmbito empresarial,
permite que um processo emergente de recombinação, por meio da formação das
redes, supra as demandas de setores específicos. Interações laterais e
bilaterais construídas pelas instituições em campos tecnológicos diferentes
representam uma base importante para a criação dos espaços do conhecimento
que suportariam redes espirais do conhecimento (Casas;
Gortari; Santos, 2000).
Creech e Willard (2001) abordam os espaços com um outro enfoque. Para elas,
as redes do conhecimento têm uma grande variedade de espaços de atuação,
tanto reais quanto virtuais, dentro dos quais desenvolvem seus projetos.
Todos podem ser necessários, em algum ponto, para o desenvolvimento de
projetos em colaboração. Podemos destacar alguns veículos que se distinguem
como meios que dão suporte às redes de conhecimento: telefone, e-mail,
extranet, videoconferência, chat, e software para comunidades virtuais.
Uma outra abordagem que as autoras acentuam, no desenvolvimento de seu
trabalho, são as redes de conhecimento formal, atreladas não só ao
compartilhamento e ao agrupamento do conhecimento explícito existente entre
organizações – aquele que pode ser registrado, freqüentemente referido como
a memória corporativa –, mas também à construção do conhecimento novo e à
aplicação eficaz desse conhecimento. A fim de realizar todas estas tarefas,
as redes devem também reconhecer a importância do conhecimento tácito (como
fazer – conhecimento prático) e implícito (visão, cultura e valores).
Em um contexto de rede, criar e compartilhar conhecimento tácito requer a
adoção de técnicas de trabalho em colaboração e o estabelecimento de
relacionamentos e de confiança entre os atores.
Vemos como incontestável esse fato, quando analisamos a base de sustentação
que acelera as inovações e as tornam mais profícuas. Nessa esfera
Hollenstein (2003) reconhece 14 fontes de conhecimento externo importantes
para a integração de redes de conhecimento que visam a inovação: clientes,
fornecedores de componentes, de equipamentos e de software, concorrentes,
empresas do mesmo grupo, universidades, outras instituições de pesquisa,
empresas de consultoria, instituições de transferência de tecnologia, base
de dados de patentes, convenções profissionais e periódicos, feiras e
exposições, e redes virtuais. O autor observa, ainda, que a cooperação e a
rede têm-se tornado essencial para a geração de inovação, especialmente na
Suíça, e que o uso do conhecimento externo é uma das formas mais
proeminentes de inovação na indústria.
Redes de Conhecimento: Modelos Cooperativos
A expressão “redes de conhecimento” é geralmente utilizada de forma ampla e
inclui uma diversidade de modelos de trabalhos em cooperação. Creech e
Willard (2001) citam alguns modelos cooperativos.
Redes internas de gestão do conhecimento: redes que se desenvolvem através
do mapeamento do conhecimento dos especialistas, combinado com a criação de
ambientes apropriados para compartilhá-lo. Sua finalidade inicial é
maximizar a aplicação do conhecimento individual agregando-o aos objetivos
da organização. Estas redes são principalmente intra-organizacionais, embora
possam até cruzar limites nacionais.
Esse tipo de rede assemelha-se ao que Von Krogh, Ichijo e Nonaka (2001,
p.16) denominam “contexto capacitante” e ao que
Shimizu (1995) denomina de “Ba”.
Contexto capacitante e Ba consistem em um espaço físico ou virtual, no qual
são fomentados relacionamentos baseados em conhecimento e informação.
Alianças estratégicas: são arranjos intencionais entre organizações com
interesses comuns, que permitem, às firmas participantes, ganhar vantagem
competitiva em relação a seus concorrentes fora da rede. Ocorrem no setor
privado.
Lastres (1995, p.127) classifica as alianças estratégicas como
“redes de
inovação”, argumenta que esses tipos de arranjo colaborativos são
normalmente implementados com o propósito de Pesquisa e Desenvolvimento
(P&D). São acordos firmados em conformidade entre parceiros autônomos e
incluem: “joint ventures; acordos de P&D conjuntos; acordos de intercâmbio
tecnológico; investimento direto; licenciamento; redes horizontais e
verticais de vários tipos”.
Um exemplo de aliança estratégica é a firmada pela firma Intel e pela
Stmicroelectronics para compartilhamento de conhecimento: “De modo a
otimizar seu acesso ao conhecimento externo, as duas empresas firmaram um
acordo, em que ambas podem utilizar as propriedades intelectuais uma da
outra, com isenção de custos e sem necessidade de aprovação prévia” (Anand;
Glick; Manz, 2002, p.64).
Redes de Especialistas: reúnem preferentemente indivíduos, não organizações.
O convite para se juntar à rede é baseado na especialidade, em uma área
particular.Podemos fazer uma analogia entre os
gatekeepers tecnológicos, que atuam como
intermediários na busca da informação, e as redes de especialistas, visto
serem os gatekeepers especialistas em alguma área de uma organização. E,
como destaca Metoyer-Duran (1993), eles são pontos da rede, disseminam
informação na rede interna e externa à organização.
Redes de informação: promovem primeiramente o acesso à informação fornecida
por membros da rede e ocasionalmente se organizam por assuntos. Entretanto,
são fundamentalmente de natureza passiva. Os usuários devem ir à rede para
se beneficiar do trabalho dela.
Os dois modelos apresentados a seguir exemplificam essas redes. O primeiro é
uma concepção de Aguirre; Brena e Cantu (2001), o outro de
Hibbitts (1999).
Embora os autores, não utilizam à expressão “redes de informação” em seus
trabalhos, a descrição do que eles entendem por redes de conhecimento é
também considerada, pela ciência da informação, como redes de informação.
a) Sistema baseado em gestão do conhecimento e Multi-Agent System (MAS) technology, como a Redes Informáticas de Conocimiento mediante Agentes (RICA), que pode ser entendida como um repositório de informação na Internet gerenciado por um sistema de multiagentes, que visa prover o usuário de serviços baseados em conhecimento.
b) Publicações acadêmicas independentes na Web, com a finalidade de impulsionar o desenvolvimento de uma área, mediante a criação de comunidades acadêmicas eletrônicas interativas.
Redes de conhecimento formal: consistem em grupos de organizações
especializadas que trabalham juntas para um fim comum, fortalecem suas
capacidades de pesquisa e de comunicação, compartilham bases de conhecimento
e desenvolvem soluções que vão ao encontro das necessidades dos responsáveis
pela tomada de decisões nos níveis nacional e internacional.
As redes formais estão proliferando, especialmente nos países em que a
informação e o conhecimento são mais valorizados para o respaldo das
organizações. Um exemplo, é a Scientific Knowledge Network (SKN), no Canadá,
que tem o objetivo de converter informação em conhecimento (Katz, Bonin,
1999).
Para Jarvenpaa e Tanriverdi (2003), duas forças conduzem à proliferação e à
virtualização das redes de conhecimento nas empresas. A primeira é a
tecnologia da informação, que possibilita coordenar os trabalhos através do
tempo e do espaço. E a segunda são os produtos, serviços e processos
empresariais mais intensivos em conhecimento.
Comunidades de práticas (CoPs): comunidade formada por dois ou mais
indivíduos para a conversação e o compartilhamento de informação, visa o
desenvolvimento de novas idéias e processos. A participação é voluntária, e
quanto maior o interesse dos participantes, mais condições a comunidade terá
de se desenvolver. Atraem indivíduos que estão dispostos a compartilhar sua
expertise. O que move essas comunidades é a intenção de fortalecer as
habilidades individuais.
Em consonância com esse conceito de comunidades de práticas está o de
Teixeira Filho (2002, p.163): “Grupo de pessoas ligadas primariamente por
interesses em comum, que compartilham conhecimentos e experiências
adquiridos em sua prática de trabalho e/ou pessoal”.
Os conceitos de comunidades de prática estão relacionados aos de comunidades
virtuais, que representam um:
“Conjunto de pessoas disponíveis para interesses comuns, que não necessariamente estão presentes, mas podem estar em diferentes posições geográficas e temporárias. O virtual transforma o tangível, a matéria, num fato não presente, não disponível para o tato, fora do alcance de nossas mãos e peles” (Tajara, 2002, p.38).
Podemos encontrar comunidades de práticas em ambientes virtuais e também,
inseridas no contexto de comunidades virtuais de interesses mais amplos.
Com outros argumentos, Büchel e Raub (2002) relacionam o conceito de redes
de conhecimento com o de comunidades de práticas. Para eles, comunidades de
prática são grupos informais de pessoas, que, juntas, compartilham suas
especialidades.
Os benefícios para as organizações que mantêm ou incentivam a formação de
comunidades de práticas, esclarecem Lee e Valderrama (2003), revertem para a
organização, como um todo, e para o indivíduo. A organização sentirá
efeitos, como: resposta mais rápida aos clientes, diminuição dos custos,
melhoria da qualidade no trabalho e no tempo de sua execução, maior
facilidade e rapidez na implementação de projetos. E os membros da
comunidade também serão beneficiados, especialmente no acesso ao
conhecimento de que precisam e no compartilhamento de documentos relevantes.
Para Davenport e Hall (2002), as comunidades de práticas contribuem
diretamente para o conhecimento organizacional em três domínios, em que o
conhecimento é essencialmente corporativo, isto é, incorporado ao trabalho
dos indivíduos e expresso pela interação entre eles. O primeiro refere-se ao
“aprendizado localizado” (situated learning) tem base no contexto e nos
artefatos que as mobiliza. É na comunidade que os participantes devem
aprender como conduzir as atividades que exercem e fazê-lo nas situações, em
que aprender significa ser capaz de participar efetivamente do meio em que o
conhecimento está sendo construído.
A “experiência distribuída” (distributed cognition) consiste no segundo
domínio abordado por Davenport e Hall, e está centrada no conhecimento
obtido pelos participantes em suas atividades de trabalho do dia-a-dia, gera
a experiência, que é compartilhada na comunidade, que culmina na acumulação
do conhecimento, base para uma inovação incorporada ao conhecimento do
grupo.
O terceiro domínio constitui-se da “análise do discurso e análise da
conversação” (discourse analysis and conversation analysis), ligados ao
campo de estudo da comunicação, especificamente a lingüística. Nesse
domínio, os participantes aprendem como comportar-se em um grupo de
profissionais, recebem e reproduzem o conhecimento da coletividade com seu
background e com sua experiência que são adquiridos no decorrer de suas
vidas e manifestam-se em suas ações por meio do conhecimento tácito.
As comunidades de prática são, também, efetivas para membros que estão
dispersos em múltiplos locais e propiciam o contato para a troca de
informação que subsidiam seus trabalhos, facilitando a reunião e
explicitação do conhecimento tácito. Lee e Valderrama (2003) afirmam que
essas comunidades existem, virtualmente, em todas as organizações,
entretanto a maioria delas não reconhece sua presença. Para seu
fortalecimento, elas precisam de um líder de respeito que apóie a criação da
comunidade, participe ativamente e encoraje outras pessoas a compartir.
A facilidade no compartilhamento do conhecimento coletado é uma de suas
características; dessa forma reúnem membros com interesses similares, visões
compartilhadas, e desejos de crescimento profissional não só do indivíduo,
mas de todos. Porém, o nível de conhecimento e experiência varia dentro do
grupo; segundo os autores, essa diversidade e o interesse crescente dos
membros dinamiza a vitalidade que sustenta a comunidade.
Redes de conhecimento virtual: é como uma estrutura organizacional que pode
fortalecer a capacidade de processamento de informação da organização e dar
poder à organização inteira para processar informação e tomar decisões. Na
rede o papel principal do chefe varia, consistindo não apenas em conceder o
direito da tomada de decisão estratégica, mas também em submeter-se ao
controle do relacionamento social dentro do núcleo e na periferia da rede (Jarverpaa;
TanriverdiI, 2003).
Embora as redes de conhecimento virtuais possam existir em indústrias
intensivas em recursos físicos, Jarvenpaa e Tanriverdi (2003) afirmam que
elas são mais proeminentes em setores baseados em ciência e tecnologia. Os
autores atribuem algumas características as redes virtuais que podemos
relacionar com as redes sociais de uma forma geral.
Redes virtuais aproximam atores geograficamente dispersos, por meio de
recursos tecnológicos, possibilitam o compartilhamento de interesses e
projetos comuns, desenvolvem a cooperação entre indivíduos e organizações e
abrem novas possibilidades de criação e trabalho.
Reúnem transeuntes que delineiam provisoriamente seu contorno, é lateral e
sua estrutura organizacional é mediada pelo computador. Os autores explicam
que reúnem transeuntes porque os membros, os projetos e os objetivos mudam e
evoluem constantemente. Seu contorno é provisório porque ela não está
restrita ao âmbito geográfico. É lateral pela ausência de chefia
institucionalizada; dependendo do interesse que move a rede, podem despontar
diferentes lideranças. Quase todos os membros de uma rede em algum momento
assumem um papel de liderança, simultaneamente ou seqüencialmente.
Bowonder e Miyake (1999) consideram as redes virtuais, especialmente,
aquelas com fornecedores e clientes, um tipo de tática que pode agregar
valor e auxiliar a empresa na concentração de competências estratégicas
singulares (core competence), sendo suas principais vantagens: flexibilidade
nas operações, foco nas competências estratégicas, e baixos custos. Para os
autores, a rede possibilita ainda a formação de alianças que facilitam a
construção do conhecimento pela combinação do conhecimento cognitivo e das
competências e experiências internas, responde, assim, rapidamente aos
anseios da empresa e possibilita a inovação.
Para Jarvenpaa e Tanriverdi (2003), a confiança nas redes de conhecimento
virtuais deve ser valorizada por três razões:
Primeira – Rede de conhecimento virtual é sinônimo de insegurança e incerteza, sua capacidade é limitada tanto pela tecnologia da informação quanto pela predisposição a freqüentes conflitos. A ocorrência de mudanças sem precedentes – como as rápidas transformações industriais, a globalização e a incessante evolução tecnológica – abastece os níveis elevados de incerteza que, por sua vez, exige grande confiança em relacionamentos intra e interorganizacional.
Segunda – Redes de conhecimento virtuais têm diferentes participantes com diferentes motivações. Nessa diversidade de interesses, constantes mudanças de condições e de oportunidades, é comum haver conflitos. O alto potencial de conflito necessita que líderes busquem a construção de confiança na rede. Confiança é instrumento para evitar ou para gerenciar conflitos e disputas, e para a manutenção de relacionamentos com empregados, clientes ou fornecedores.
Terceira – Redes de conhecimento virtuais são limitadas pela tecnologia que lhes facultou a existência. O uso da tecnologia para a comunicação limita a oportunidade de construir confiança. A virtualização está sempre unida ao escasso tempo e espaço disponibilizados aos projetos para desenvolver relacionamentos sociais. Quando o relacionamento das pessoas está limitado pela comunicação virtual, o relacionamento social vai sendo enfraquecido.
Tratando da comunicação nas redes com o auxílio tecnológico, que facilita
conexões entre pessoas, Creech e Willard (2001) ressaltam que as
comunicações síncronas têm uma presença social mais elevada do que as
comunicações assíncronas, porque permitem a troca espontânea. As situações
rotineiras, tais como trocas regulares de informação, podem beneficiar-se
das tecnologias com menor presença social.
Büchel e Raub (2002) identificaram redes de conhecimento de quatro tipos,
que classificaram em duas dimensões. A primeira dimensão refere-se às redes
que focam principalmente os benefícios individuais ao invés daquelas que
focam benefícios organizacionais; a segunda dimensão inclui redes que são
autogerenciadas preferentemente àquelas que são controladas por gerentes.
Na primeira dimensão, os autores classificam as redes de hobby e de
aprendizagem profissional; essas duas redes ajustam-se ao conceito
tradicional de comunidades de práticas. Elas focam o indivíduo.
Redes de hobby são baseadas em interesses pessoais (por exemplo: tênis,
esqui, etc.) e normalmente não recebem controle da gerência. A satisfação
individual é o maior objetivo dessa rede, que traz a idéia subjacente de que
indivíduos satisfeitos no trabalho são mais produtivos.
As redes de aprendizagem profissionais constroem a base individual de uma
determinada habilidade. Se sua importância for reconhecida, receberão o
apoio da gerência. A partilha do conhecimento, nessas redes, é espontânea e
contínua, e decorre naturalmente do trabalho de todos e do apoio mútuo. O
valor do conhecimento a ser compartido é determinado não por uma chefia, mas
pelo potencial de quem faz uso dela. Não obstante o benefício principal
possa ser encontrado no indivíduo, essas redes levam à alta produtividade
graças ao conhecimento individualmente adquirido. Seu foco converge na
melhoria da habilidade e perícia dos membros da rede. E, como decorrência,
ocasiona a satisfação pessoal.
Na segunda dimensão, Büchel e Raub (2002) incluem as redes de melhores
práticas e de oportunidades de negócios que contribuem diretamente para as
finanças da organização.
Redes de melhores práticas são formas institucionalizadas essenciais de
compartilhamento de conhecimento em organizações. As redes focam as melhores
práticas no trabalho, por meio dos benefícios organizacionais, e, na maior
parte dos casos, recebe apoio da gerência. São caracterizadas pelo
multidirecionamento: cada membro e cada unidade podem, em princípio,
aprender com todos os outros. Essas redes concentram seus esforços na
eficiência organizacional e na reutilização do conhecimento existente.
Uma rede de melhores práticas de técnicos, do serviço da empresa Xérox,
construiu uma base de conhecimento detalhada que fornece sustentação
valiosa, sempre que um de seus membros encontra um problema complicado. A
rede dos técnicos reduziu o tempo de reparo, o custo das peças de reposição,
aumentou a satisfação dos clientes e alcançou a perícia compartilhada para
problemas específicos.
Mais do que focalizar o conhecimento existente, as redes de oportunidade de
negócios podem agir de maneira mais pró-ativa, por exemplo: investir no
conhecimento existente e usar isso para explorar novos mercados. As redes
são formadas por membros de organizações que compartilham interesses por um
tema em particular e trabalham freqüentemente no limiar do conhecimento
atual. Um resultado comum dessa interação é a criação de conhecimento
inteiramente novo, como: uma nova solução para um problema que já existia;
uma nova tecnologia; um novo produto; ou um negócio inteiramente novo.
As redes de oportunidades de negócios são direcionadas aos negócios, são
potencialmente mais inovadoras e atrativas na perspectiva de crescimento.
Segundo Büchel e Raub (2002), as redes são formadas por grupos de indivíduos
genuinamente interessados em criar um novo produto ou serviço, requerem
espaço para desenvolver idéias e não precisam, necessariamente, ajustar-se
ao modelo organizacional existente. Essas redes quebram regras
organizacionais e abrem novas perspectivas de negócios. O foco dessas redes
concentra-se na construção do conhecimento e na inovação de produtos e
serviços.
Economistas reconhecem que produtos intensivos em conhecimento são reflexos
de redes de rápido crescimento. Bee (2003) exemplifica a ocorrência desses
efeitos na rede: uma nova tecnologia, como o fax, é introduzida no mercado,
e alguns usuários consideram-na um bem valioso por causa das próprias
necessidades. Enquanto a rede dos usuários cresce, a tecnologia ganha valor
para todos na rede e esta incentiva compras adicionais, o que impulsiona o
crescimento da rede, que por sua vez, estimula a inovação tecnológica nessa
área. O crescimento da rede suscita retornos econômicos mais elevados a
todos os participantes, o que gera a antecipação de implementações
tecnológicas, sem investimento adicional.
Redes de Conhecimento: Elementos Essenciais
Analisando todas as características de modelos de redes de conhecimento
apresentadas, podemos distinguir alguns atributos:
- Destacam a importância dos resultados individuais, por meio da espontaneidade e da informalidade;
- Movimentam-se pelo compartilhamento da informação e pela construção do conhecimento;
- Desenvolvem uma cultura comum, desde a linguagem até a adoção de práticas coerentes com o trabalho eprincipalmente uma cultura de cooperação;
- Impulsionam as organizações e promovem a inovação;
- Congregam a participação de atores individuais e/ou organizacionais nas redes;
- Podem ser formais – quando os relacionamentos entre os atores ocorrem devido à iniciativa organizacional;
- Podem ser informais – quando os relacionamentos acontecem e não são planejados;
- Possibilitam o desenvolvimento de novas idéias e processos, decorrentes da conversação e troca de informações;
- Fortalecem as bases individuais e coletivas de certa habilidade;
- Reúnem transeuntes que se interessam em compartilhar sua especialidade;
- Configuram-se e se re-configuram incessantemente, não possuem limites.
Essas características estabelecem a base para a construção do conceito de
rede de conhecimento, que tem como foco a interação e o compartilhamento da
informação. Assim:
Redes de conhecimento compreendem o desenvolvimento de novas idéias e processos, decorrentes da interação entre atores e fortalecem os estoques individuais e coletivos de uma determinada perícia. São configuradas e re-configuradas pelo movimento da informação e pela construção do conhecimento.
As redes de conhecimento estão vinculadas ao contexto que as gera, sendo o
ambiente social e cultural, no qual elas proliferam, determinante para o seu
direcionamento e evolução.
Considerações Finais
Os atores que detêm mais informação na rede são os que estão mais próximos e
acessíveis aos outros atores. São esses os que mais partilham seus
conhecimentos e recebem a confiança dos demais atores. São esses que
despontam como responsáveis por mediar, disseminar e controlar a informação
na rede. São esses que mais provocam a reflexão, que incitam novos
conhecimentos e que promovem inovações empresariais locais e às vezes
setoriais.
Assim, a rede de conhecimento apresenta-se como o mais comum e importante
ambiente de aquisição de conhecimento no meio empresarial; ela fortalece o
relacionamento organizacional e abre espaço para a cooperação entre as
empresas.
A formação de uma rede pode ser ou não planejada e proposital, mas para que
novas idéias e processos resultantes da interação possam, de fato,
contribuir para a troca da informação e para a aquisição do conhecimento,
que a eleva ao patamar de rede de conhecimento, é necessário desenvolver
ações que a sustentem e a mobilizem.
A principal ação para mobilizar uma rede de conhecimento está relacionada ao
movimento da informação na rede. Impulsionar e incentivar o compartilhamento
da informação e a construção do conhecimento na rede é condição sine qua non
para sua sustentação e crescimento. Os atores incumbidos dessa tarefa ou que
se dispuserem a exercer o papel de estimular a partilha na rede deverão
contar com a confiança dos membros da rede.
Os atores, para quem os fluxos informacionais da rede, majoritariamente,
estão direcionados, recebem uma diversidade de informações que impulsionam
mudanças em suas estruturas cognitivas, muito mais rapidamente do que a de
outros atores que não estão no centro desses fluxos. Assim podemos afirmar
que o intenso fluxo de informação, que incide em um ator, aumenta sua
bagagem informacional e causa a transformação do conhecimento que possui.
Entendemos que o crescimento e o fortalecimento da rede estão vinculados a
dois aspectos distintos. O primeiro refere-se à sensação que os atores
experimentam de serem recompensados e estarem contribuindo e recebendo
ativos, isto é, informações e conhecimentos que antes não tinham ou não
estavam solidificadas. Trata-se de aditivos importantes para suas práticas e
crescimento profissional. O segundo está atrelado ao crescimento do número
de participantes na rede, que é conseqüência do primeiro, o que significa
que, se a rede for profícua, seu crescimento ocorrerá naturalmente e sem
desgaste para seus integrantes.
Redes de conhecimento acentuam capacidades individuais e desenvolvem
capacidades coletivas, que entram em interação com os atores na rede e com
membros de outros campos em que os atores desenvolvem, de igual modo, suas
práticas e habilidades, contribuindo, também, para a troca da informação e a
disseminação do conhecimento em outras esferas.
Consideram-se assim as redes de conhecimento como redes sociais, visto serem
tecidas por interações decorrentes da cooperação e trabalhos em parcerias,
que resultam em benefícios cujos reflexos podem beneficiar uma organização
ou uma comunidade, que possivelmente esteja inserida em uma estrutura maior.
Isto significa que uma rede cria, naturalmente, as condições necessárias
para se projetar em territórios cada vez maiores. Participar de uma rede
social é estar inserido em uma estrutura social, e sempre haverá novas
possibilidades e novas fronteiras a ultrapassar e novas oportunidades a
buscar.
Existe um longo caminho a percorrer para que atores desprendam-se de alguns
costumes e renunciem a movimentos, a que estão afeitos no contexto
sociocultural em que vivem, e passem a participar de redes, o que implica
interagir e compartilhar, ou seja, ofertar e receber. A união possibilita
que alguns empreendimentos sejam viabilizados, isto é, a interação de um
ator com outros, mantendo relações de interdependência e de aprendizado,
permite-lhe alcançar o que sozinho ele não alcançaria.
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Sobre os autor / About the Author:
Doutora em Ciência da Informação,Professora Adjunta do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina (UEL).