Resumo: É comum nas linguagens documentárias como os tesauros, a identificação de relações hierárquicas entre os termos, a partir da lógica aristotélica, fazendo uso da dedução lógica dos silogismos e da análise dos cinco predicados como gênero, espécie, diferença, propriedade e acidente. Já, para as relações associativas, a literatura de linguagem documentária não apresenta nenhum teórico capaz de explicar as associações. Assim, este trabalho sugere o Empirismo inglês de David Hume como a referência adequada às relações associativas em linguagem documentária. Este trabalho tem o objetivo de revisar os conceitos de David Hume, especificamente os de Relações Naturais e de Relações Filosóficas, definido estas relações e, comentar, sob sua égide, um exercício de reclassificação das vinte e duas relações entre termos propostas por Cintra no livro Para Entender as Linguagens Documentárias. Este exercício traz uma alternativa teórica para as novas e infinitas associações entre os termos provindos da prática dos mais diversos campos do conhecimento, além de apresentar um teórico esquecido na literatura de linguagem documentária.
Palavras-chave:
Linguagem documentária; David Hume; Relações associativas; Tesauros;
Empirismo inglês; Associação de ideias.
Abstract:
It is common within the documentary language field like thesaurus, the
presence of hierarchical relationships among terms, based on deductive
Aristotelian logic of silogism and on the analysis of the five predicates as
genus, species, difference, property and accident. This paper aims to review
the concepts of David Hume, specifically Natural and Philosophical Relations,
defining these relations and proposing an exercise of reclassification of
the twenty-two relations among terms proposed by Cintra et al, in the book
Para Entender as Linguagens Documentárias. This exercise provides a
theoretical alternative to the endless new association among terms aroused
from the practice of many fields of knowledge, bringing out a forgotten
theoretician in the literature of documentary language.
Key words: Documentary language. David Hume.
Associative relations. Thesaurus; British empiricism; Association of ideas.
Introdução
É comum nas linguagens documentárias como os tesauros, a identificação de
relações hierárquicas entre os termos, a partir da lógica aristotélica,
fazendo uso da dedução lógica dos silogismos e da análise dos cinco
predicados como gênero, espécie, diferença, propriedade e acidente. Já, para
as relações associativas, a literatura de linguagem documentária não
apresenta nenhum teórico capaz de explicar as associações. Assim, este
trabalho sugere o Empirismo inglês de
David Hume como a referência adequada
às relações associativas em linguagem documentária.
Desta maneira, a partir de Aristóteles, as relações hierárquicas são
conceituadas como aquelas nas quais há subordinação de conceitos; portanto
fazem referência às semelhanças inerentes à própria essência e suas
diferenças específicas. De forma que para as espécies colocarem-se como tal,
há necessidade de identidade e semelhanças que as coloquem em um mesmo
gênero, ao mesmo tempo em que, suas diferenças específicas as separem em
espécies, propriamente ditas.
Em contraposição, as relações associativas se fazem a partir da experiência
que sempre se dá em um tempo e em um determinado lugar. Estas associações,
para Hume, podem ser naturais quando se referem às relações inatas à
natureza humana, ou, filosóficas quando dependem de uma ideia suplementar à
observação direta para serem estabelecidas.
As impressões representam as sensações e, as ideias são derivadas das
impressões, daquilo que é dado pela experiência e se constituem por
composição, transposição, aumento ou diminuição. Isto significa, para o
empirismo inglês, que o homem não cria qualquer ideia; as ideias são
construídas através dos processos associativos. Assim, as relações não
hierárquicas, em especial as relações associativas só podem ser
reconhecidas, e, estabelecidas pela prática, isto é, pelo conhecimento do
campo conceitual. Para ilustrar tal contextualização Cintra (2002, p.
55) propõem associar a lista de doenças transmitidas sexualmente com a de
doenças por alienação mental incurável através de um motivo comum que
associaria tais entidades: por serem motivos médicos juridicamente aceitos
para o divórcio. Tal é a especificidade das relações associativas: é preciso
de um contexto que as valide pois elas por si só não são suficientes para
demonstrar seus elos e associações.
As autoras ainda fazem um comentário importante: “... tais relações não
podem ser definidas em toda sua extensão”. Assim, quando se trata da
associação de ideias em campos específicos do conhecimento, as considerações
hierárquicas não dão conta de resolver os problemas impostos pelas
experiências do vivido. Desta forma, com o objetivo de fundamentar estas
relações não hierárquicas, no mesmo texto citado acima, são apresentados
vinte e dois tipos de relações associativas, tais como: atribuição,
disciplina e fenômenos estudados, processo e agente ou instrumento; relação
de influência; matéria-prima/ produto, coisa/aplicação; ação/resultado da
ação, etc. (Cintra, 2002, p. 64-65).
É de se notar a ausência de David Hume como embasamento teórico na
literatura de linguagem documentária justamente no item da associação de
idéias, pois esta representa uma das maiores contribuições do empirismo
inglês. Desta forma, esse trabalho objetiva repor parte das ideias de Hume
sobre a associação de ideias e comentar um exercício de relação de termos,
apresentado em outra oportunidade (Mostafa & Nova Cruz, 2009).
O empirismo inglês
Se consultarmos os manuais de filosofia, o nome de
Bacon desponta, no século
dezesseis, como um dos primeiros teóricos ingleses a pensar em
experimentação e em indução científica. Mas o empirismo como um corpo de
conhecimentos organizados inicia-se com o filósofo
John Locke (1632-1704),
que imortalizou a metáfora da mente como uma tabula rasa. Isto porque Locke
contesta o inatismo cartesiano (as ideias são inatas em nós) entendendo a
origem das ideias no mundo externo a nós. A mente, para Locke é uma folha de
papel em branco (tabula rasa) a ser preenchida pela experiência ao longo da
vida.
A experiência está na base de todo o empirismo inglês, constituindo-se em um
dos seus traços distintivos. Dizemos um dos traços porque o empirismo não
pode ser reduzido apenas à experiência. Segundo
Deleuze, a definição
clássica do empirismo pensada a partir da tradição kantiana de que o
conhecimento não só começa com a experiência como dela deriva, causa mal
entendidos. Não só porque, segundo essa definição, não haveria filósofos que
não fossem empiristas (incluindo Platão e Leibniz) mas porque o conhecimento
não é o mais importante para o empirismo; o conhecimento é apenas o meio de
uma atividade prática; além disso, a experiência para o filósofo David Hume,
o terceiro e mais importante empirista inglês, não é constituinte e nem tem
um caráter unívoco.
Na compreensão de Deleuze (idem, p. 121) o empirismo não é uma teoria das
sensações ou impressões mas uma teoria das relações. E as relações não
derivam da experiência. Há pois um reducionismo preconceituoso nos próprios
manuais de filosofia que importa desfazer. Locke, anteriormente à Hume,
talvez tenha sido ingênuo, ao propor a metáfora da tabula rasa para o
processo da aquisição do conhecimento. Entretanto, foi Locke quem abriu toda
uma possibilidade para os pensamentos filosóficos que o seguiram.
David Hume (1711-1776) foi adiante de Locke, explicando como o espírito
devém sujeito, isto é, torna-se sujeito. Pois o sujeito não está pronto no
empirismo, uma vez que aqui não há a prioris como na filosofia kantiana. Por
isso, Hume se preocupa em demonstrar como, através do dado, da coleção de
ideias associadas, usando sua crença e a invenção, a inferência e o
artifício, o sujeito se constitui no dado e mais, ultrapassa o
experimentado. Com Hume, o homem cria mais do que percebe, devém natureza
humana! E ainda, pelas circunstâncias, pelos interesses, pelos desejos e
necessidades cria, inventa, escolhe, normatiza o mundo que o cerca.
Não se pensaria que os filósofos empiristas fizessem tratados sobre a
natureza humana. Mas é disso que trata a sua filosofia: esclarecer a
dualidade empírica entre a Natureza e os princípios da natureza humana, vale
dizer entre os termos e as relações ou ainda entre o dado (produto da
Natureza) e o sujeito (produto dos princípios da natureza humana). O sujeito
se constitui no dado, não por uma simples coleção de ideias impressa em uma
suposta tabula rasa. Nem por simples associação destas ideias. Deleuze fala
em um duplo movimento para que o espírito possa devir sujeito: Inferência
(crença) e Invenção (artifício). É crendo ou inferindo os dados e,
inventando o novo, o diferente, o artifício que o espírito devém sujeito,
devém outro.
Outra distinção em Hume e que distingue o empirismo da dedução aristotélica
é que, da mesma forma que o sujeito ainda não é sujeito, o objeto também não
é o referente certo e seguro, passível de uma representação. A ideia não é a
representação de um objeto, mas de uma impressão e esta impressão não é
representativa, não é introduzida, mas inata. Vejamos tudo isso mais de
perto.
David Hume e o Tratado da natureza humana
Hume introduz o seu
Tratado da
Natureza Humana fazendo uma espécie de
elogio aos filósofos ingleses e ao novo método para o estudo da natureza
humana, baseado na experimentação e na observação. Segundo ele outras nações
poderiam rivalizar com os ingleses na poesia ou nas artes mais agradáveis,
mas “... os aperfeiçoamentos na razão e na filosofia não poderiam caber
senão a uma terra de tolerância e liberdade” (Hume, 2009, p. 22). Neste hino
inglês de tolerância e liberdade há a consciência do papel da filosofia no
mundo moderno e, especialmente o papel desta nova filosofia em um novo plano
de imanência, agora povoado por novos conceitos, como hábito, crença,
circunstância, experiência, atividade prática, interesse, ceticismo.
Justificam-se assim os comentários de Deleuze de que o empirismo não
representa uma reação aos conceitos mas também não é uma aderência ao
simples vivido “ele [o empirismo] empreende a mais louca criação de
conceitos, uma criação jamais vista e maior que todas aquelas de que se
ouviu falar”. (Deleuze, 2006, Prólogo, p.9).
Os conceitos empiristas tratam então da natureza humana, uma vez que, da
natureza, cuidam os físicos. Já aos filósofos compete o entendimento sobre a
natureza do homem: de como temos ideias, de como elas se compõem, quais seus
princípios de conexão e de como chegamos a fazer abstrações e, portanto, de
como chegamos a nos constituir em sujeitos. Por isso, essas operações do
entendimento não estão separadas das paixões ou circunstancias que nos fazem
pensar, pois o sentido do entendimento é tornar sociável uma paixão ou um
interesse. O Tratado da natureza humana divide-se, por isso em três livros:
Livro 1: Do entendimento; Livro 2: Das paixões; Livro 3: Da moral. Há em
todos os três livros, um subtítulo comum: uma tentativa de introduzir o
método experimental de raciocínio nos assuntos morais.É no primeiro livro Do
entendimento que aparecem as relações entre as ideias. Vejamos o gráfico
proposto por Coventry (2007, pg. 57).
Quadro 1: A distribuição da percepção

Fonte: Modificado de Conventry, A. Compreender Hume p. 54
O empirismo parte das percepções, essas entendidas como uma coleção de
imagens ou coleção de percepções distintas. Pensemos em coleção sem álbum ou
em peça sem teatro (exemplos do próprio Hume) para pensar as percepções que
vão se dando, ora como impressões, ora como ideias. As impressões são
sensação no corpo mas são também ideias na imaginação. Nas palavras de Hume,
as percepções da mente humana se reduzem a dois gêneros distintos,
Impressões e Ideias. Essa distinção não presume uma dicotomia e nem
estabelece diferenças antagônicas de natureza entre seus termos, como alerta
Valadares (2009). A diferença entre elas consiste nos graus de força e
vividez com que atingem a mente e penetram em nosso pensamento ou
consciência. Portanto, diz respeito mais à variação de intensidade e aos
respectivos graus de vividez e força que se devem atribuir a cada tipo de
percepção; é uma divisão antes intensiva que qualitativa.
Hume denomina ideias as pálidas imagens dessas impressões no pensamento ou
raciocínio. As ideias são cópias das impressões. A mão no fogo acarreta a
sensação de calor (impressões). A lembrança desse fato é uma ideia!; as
ideias são cópias das impressões. Impressões e ideias concordam em natureza
pois concerne a uma mesma percepção considerada em dois momentos
diferenciados de sua presença na mente. As idéias são as marcas dessas
impressões dissipadas no fluxo de percepções que constitui a mente humana,
como é a formulação de Valadares (2009, p. 2).
Hume lembra ainda uma segunda divisão entre nossas percepções, que se aplica
tanto às impressões como às ideias. Trata-se da divisão em simples e
complexas. Uma impressão simples seria qualquer impressão de aroma, paladar,
um som, dor ou prazer. As ideias simples se assemelham às impressões
simples. A toda ideia corresponde uma impressão: é o princípio da cópia. Mas
as ideias complexas não são simples sensações mas são pensamentos, daí o
princípio da cópia se aplicar somente às ideias simples e não às ideias
complexas. Sem nenhuma exceção, para toda ideia simples existe sempre,
impressão correspondente e para toda impressão simples existe uma ideia
correspondente. O princípio da cópia é importante para afastar ideias
inadequadas pois sempre é possível perguntar de que impressão tal ideia
deriva?
As ideias e impressões complexas se formam a partir de ideias simples;
ocorre, porém que é impossível experimentar isoladamente uma impressão
simples pois nossa mente não se detém em algo por demais singular. A mente
associa ideias, quase que involuntariamente. Assim, as ideias simples só
existem na mente já associadas umas às outras. Associações que se fazem
dentro de determinadas relações. Mais uma vez esclarece Valadares (Idem
p.254) que a imaginação passa de uma ideia a outra irresistivelmente e
prescinde, neste movimento, do raciocínio, sendo essa associação
pré-cognitiva na imaginação.
Hume introduz outra distinção na classificação das impressões e das ideias:
impressão de sensação e impressão de reflexão. As impressões de sensação
ocorrem através de nossos órgãos sensoriais; as impressões de reflexão são
derivadas de nossas ideias e são essas que interessam para o exercício
argumentativo de Hume. As impressões de reflexão incluem as paixões, os
desejos e as emoções. Quando a mente relembra a ideia, uma nova impressão de
desejo ou aversão é produzida. As ideias são divididas entre aquelas
produzidas pela memória e aquelas produzidas pela imaginação. A memória
retém a vividez original das impressões, preservando a ordem e a posição das
impressões originais.
Já a imaginação tem liberdade de transpor, recortar, transformar e combinar
ideias em ordens quaisquer. A imaginação tem o poder de distinguir ideias,
separando-as. Hume faz disso o princípio da diferença ou da separabilidade:
tudo o que é separável é discernível e tudo o que é discernível é diferente.
Uma consequência da divisão entre ideias simples e complexas é que os
componentes das ideias complexas são separáveis em elementos simples,
possíveis de novas combinações pela imaginação. O espírito é uma coleção de
ideias e essas ideias são a própria imaginação. As ideias se unem na
imaginação.
A imaginação sendo uma coleção sem álbum necessita ser fixada pelo princípio
de associação; a associação é uma lei da natureza; a imaginação é inata à
natureza humana mas fixada por princípios inerentes a ela. Pois toda lei
funciona pelos efeitos e por isso, o importante é analisar quais efeitos a
associação de ideias produz na imaginação. Mas como alerta Deleuze, o fato
da ideia estar na imaginação não significa que já há sujeito em curso mas
apenas que há um lugar que é preciso localizar, pois nada se faz pela
imaginação mas tudo se faz na imaginação, que então devém uma natureza
humana.
Hume dá assim um novo papel à imaginação. Se tradicionalmente a imaginação
tem sido considerada como causa de erros, não é menos verdade que ela
funciona de acordo com certos princípios orientadores do pensamento e da
ação, que lhe dão regularidade e constância. A razão em Hume (ou
entendimento) é cética, pois ela não acredita que os fenômenos se repetem na
forma de lei; os fenômenos ou objetos ou ideias são associados uns aos
outros pelo hábito; o entendimento no empirismo inglês tem uma importância
derivada pois ele não legisla sobre a sensibilidade ou sobre os sentidos. O
entendimento é um efeito produzido pelo princípio de associação de idéias.
O mais importante no empirismo é a indivisibilidade das impressões. No
empirismo não é o sujeito que pensa pois não existe sujeito a priori. O
sujeito não é algo separado do dado, ou separado do mundo. O sujeito é o
dado, é o fluxo do sensível, é a coleção de percepções ou imagens, que
tomados por movimentos associativos, supera o dado, produzindo a natureza
humana. A natureza humana é hábito, o hábito de adquirir hábitos. Hábito é
espera, é crença. Não há certezas absolutas nesta espera. Há apenas uma
crença, uma espera. (Mostafa, 2008 p. 53) Quando exercemos imaginativamente
nosso entendimento, nossas mentes são orientadas por relações entre as
idéias e essas relações constituem o último tópico do gráfico que estamos
comentando. Para as linguagens documentárias, o tópico das relações
reveste-se de fundamental importância e passaremos a detalhá-lo após alguns
apontamentos de síntese a seguir:
David Hume
• Empirista cético nasceu na cidade Edimburgo, na Escócia, no “Século das Luzes”.
• Seu ateísmo, frustra sua tentativa de ocupar o cargo de professor em duas Universidades escocesas.
• Hipóteses que não pudessem ser experimentadas pelos sentidos não tinham validade para ele.
• Para investigar a origem das idéias partiu do cotidiano das pessoas e do ponto de vista das crianças, afirmando não existirem idéias inatas, pois elas vão se formando na mente humana ao longo da vida.
• Todos os materiais da mente ou conteúdos da consciência, constituem percepções. Estas se subdividem em impressões, que são percepções mais vivas; e idéias ou pensamentos, que são percepções mais fracas, pois são cópias, que recordamos, imaginamos ou refletimos.
• O “eu” não passa de um feixe de percepções que variam conforme vamos vivendo, ou seja, experimentando novas percepções. Não somos portanto a unidade constante implícita na idéia de “eu”, do mesmo modo que a idéia de “espírito” no sentido de substância ( algo essencial, que não varia), não passa de invenção da mente.
• As associações de idéias são o resultado das associação de idéias quando a mente reúne uma idéia simples ou complexa.
• Existem três tipos de associação de idéias: de semelhança (vê um retrato), de contigüidade (neve e branco) e de causalidade (ferimento e dor).
• Hume divide a investigação humana em dois gêneros: um que estabelece relações de idéias e outro relações de fato.
• A crença e o hábito: as relações de fatos estabelecidas pela mente não se baseiam em nenhum princípio racional, mas apenas na experiência ou no hábito.
• A causalidade, aquilo que todo efeito deve ter uma causa, não passaria de outra ficção racionalista, pois as causa e os efeitos não são descobertos pela razão, mas pela experiência. Desse modo a ciência que se constitui de afirmações fundamentadas em relação a fatos, não tem bases racionais, pois a crença e o hábito fundamentam as leis imutáveis da natureza.
Relação de idéias
O último tópico do gráfico proposto concerne às relações ou às associações
entre as ideias. Até aqui mencionamos dois princípios humeanos importantes:
o da cópia (à toda ideia corresponde uma impressão) e o da diferença (tudo o
que é separável é discernível e portanto, diferente). Adentremos o terceiro
princípio da teoria das percepções, de especial interesse para as linguagens
documentárias: o princípio da associação de ideias.
Todos nós associamos ideias por semelhança, por contiguidade no tempo e no
espaço e por relações de causa e efeito. São relações da linguagem e do
pensamento comum: uma ideia introduz a outra, naturalmente, sem que
precisemos pensar muito; associamos a foto do amigo ao amigo, por
semelhança; associamos a casa em que moramos com a vizinhança, por
contiguidade espacial, e o fogo lembra dor por ser a causa de um efeito.
Apreciemos nas palavras do próprio Hume a descrição das sete classes gerais
de relações:
1. A primeira é a semelhança. Essa é uma relação sem a qual não pode existir nenhuma relação filosófica ...
2. A identidade pode ser vista como uma segunda espécie de relação. Considero aqui esta relação enquanto aplicada em seu sentido mais restrito, a objetos constantes e imutáveis ... de todas as relações, a identidade é a mais universal ...
3. Após a identidade, as relações mais universais e abrangentes são as de tempo e lugar, que estão na origem de um número infinito de comparações, tais como distante, contíguo, acima, abaixo, antes, depois, etc.
4. Todos os objetos que admitem quantidade ou número podem ser comparados sob esse aspecto – que é outra fonte bastante fértil de relações.
5. Quando dois objetos quaisquer possuem em comum uma mesma qualidade, os graus dessas qualidades formam uma quinta espécie de relação. Assim, de dois objetos pesados, um pode ter um peso maior ou menor que outro. Duas cores, ainda que do mesmo tipo, podem possuir tonalidades diferentes, e nesse sentido, ser passíveis de comparação.
6. A relação de contrariedade pode, à primeira vista, ser considerada uma exceção à regra de que nenhuma relação, de nenhuma espécie, pode subsistir sem algum grau de semelhança.
7. Quanto a todos os outros objetos, tais como o fogo e a água, ou o calor e o frio, somente a experiência e a contrariedade de suas causas e efeitos podem revelar se são contrárias. A relação de c ausa e efeito é, portanto, a sétima espécie de relação filosófica, além de ser também uma relação natural.
Fonte: Hume, D. Tratado da natureza humana, p. 38 e 39
Mas além de associamos ideias em que uma introduz a outra naturalmente, Hume
alude também às associações que fazemos de maneira arbitrária, sem que haja
entre elas, uma conexão necessária: esse tipo de relação, o autor parece
qualificar de filosófica. A distinção humeana entre relações naturais e
relações filosóficas terá toda a sua importância no que tange à causalidade,
pois o autor irá defender que a união das ideias de causa e efeito, na
imaginação, só serão creditadas e aceitas, se forem unidas como se fosse uma
relação natural. Estudiosos de Hume defendem, por isso, que o naturalismo
humeano está na base do naturalismo epistemológico contemporâneo. Sousa
(2006), por exemplo, destaca justamente a naturalização das relações de
causa e efeito para seu estudo dissertativo a respeito da filosofia de David
Hume.
Para efeitos de visualização, fiquemos com o esquema abaixo:
Quadro 2. Relações Naturais e Filosóficas para David Hume

Fonte: própria
Assim, Hume divide os sete tipos de relações existentes em dois tipos: as
relações de ideias comparadas e as relações entre fatos ocorridos. As
primeiras são aquelas que dependem totalmente das ideias que estão sendo
comparadas e permanecem as mesmas, desde que as ideias não sejam mudadas.
Por exemplo um triângulo terá sempre os seus três ângulos iguais a dois
ângulos retos desde que não mudemos a ideia de triângulo. São chamadas
também de relações constantes porque dependem inteiramente das ideias
comparadas. São elas: semelhança, contrariedade, graus de qualidade, e
proporção em quantidade ou número.
As relações constantes dependem inteiramente das ideias e mudam somente com
uma alteração de suas ideias. Segundo Hume, reconhecemos essas ideias à
primeira vista, intuitivamente, sem necessidade de grandes investigações
pois as ideias estão aparentes à mente. Sabemos quando duas coisas se
parecem ou quando são opostas; se um tom de vermelho é mais forte que o
outro; ou se três é maior que dois. Já as relações inconstantes incluem
identidade, relações de tempo e lugar e causação. Essas são inconstantes
porque não dependem inteiramente das ideias e podem mudar sem mudança nas
ideias. Por exemplo: O mesmo objeto visto de distâncias diferentes ou em
lugares diferentes. Há que pontuar aqui que a relatividade do tempo tem sido
sempre uma das questões metafísicas mais relevantes desde a filosofia
clássica.
O tempo, em seu caráter extensivo é dividido infinitamente e relacionado com
consecutivas posições no espaço (chronos). Este tempo cronológico permite
realizar associações de continuidade e contiguidade, como as horas do dia,
os dias da semana e as estações do ano. Entretanto, dentro de outras imagens
de pensamento filosófico, o tempo é considerado no seu caráter intensivo,
não divisível, e, portanto, não teleológico (aion). Neste tempo de
intensidades as relações não se fazem por causa-efeito ou por continuidade e
sim por variação contínua. Explicando melhor, mesmo fatos ou ideias não
contíguas no tempo extensivo, podem ser associadas, filosoficamente, dentro
do conceito de tempo intensivo, pois se trata de um tempo, por assim dizer,
todo-aberto, aquele que comporta na sua associação sensações ou mesmo fatos
que extensivamente estariam apartados no tempo. Por exemplo, associam-se -
pela experiência vivida - na mesma “categoria temporal” as
ideias
relacionadas aos tempos felizes ou aos tempos difíceis .
Ainda, é importante resgatar na filosofia bergsoniana as duas formas distintas de “reconhecimento”. Para Bergson, ao percebermos os movimentos das coisas e do mundo, operamos, naturalmente um reconhecimento, chamado por ele, de automático ou habitual. Assim, associamos por “reconhecimento sensório-motor” (Deleuze, 2009, p. 58) as pessoas e as coisas que se movimentam ao nosso redor. Tratam-se de associações automáticas, provocadas pelos encontros e percebidas através dos movimentos das experiências da vida de todos os dias. Para que essas associações ocorram há necessidade de tocar nossa percepção, daí ser denominado reconhecimento sensório-motor.
Entretanto, para Henry Bergson há outro tipo - completamente diferente - de
reconhecimento, mais complexo e rico do que o habitual; chamado de
reconhecimento atento. Trata-se daquela percepção que não passa pelo
circuito sensório-motor, não se faz a partir dos movimentos percebidos, pelo
contrário, trata-se da observação atenta de um detalhe específico de algo
que afeta nossa percepção e é associada a lembranças, entra em relação com
uma “imagem lembrança” (idem, p. 61).
Nos pareceu importante trazer estes conceitos de reconhecimento de Bergson
pois os associamos (filosoficamente, por suposto), livremente, às relações
naturais e filosóficas de David Hume. Ademais, o tipo de reconhecimento
atento, aquele que é feito a partir de detalhes apanhados no objeto
percebido, na escolha específica – nas palavras de Deleuze (2009) de um
“fragmento mínimo sem importância” ou “de um mero ponto”
(imagem ótica pura)
permite um circuito ascendente de relações e associações sempre novas,
criativas, infinitas, flexíveis que como diz Bergson (apud Deleuze, 2009, P.
62): “tem por efeito criar de novo, os sistemas cada vez mais vastos aos
quais ele (objeto) se pode ligar”. Este suporte teórico nos animou a propor,
ao final deste texto um exercício de associação de termos como uma nova
categorização possível para as relações não-hireárquicas. Talvez fosse
oportuno mencionar, aqui, que a associação de ideias chamou a atenção, além
de David Hume, no século 18, também de Bérgson e Freud, no século 20. Mas
Hume foi o primeiro filósofo a tratar das relações.
Hume observa que das três relações (identidade, espaço-e-tempo e
causalidade), “... relações essas que não dependem inteiramente das idéias,
a única que remete para além de nossos sentidos, e nos informa acerca de
existências e objetos que não vemos ou tocamos, é a causalidade” (Hume, 2009
p. 103). Como assinala Sousa (2006 p. 7) o tema central do primeiro livro do
Tratado é o problema da origem da ideia de conexão necessária entre objetos
constantemente relacionados mediante relações de causa e efeito. Hume fará
um longo percurso, mobilizando conceitos e princípios que nos permitirão
descrever e compreender o modo de funcionamento da natureza humana.
Após analisar a importância da contiguidade e sucessão para as relações de
causa e efeito (a sucessão refere-se à prioridade temporal das causas em
relação aos efeitos) Hume descobre a relação de conexão necessária que deve
haver entre a causa e o efeito, relação essa que considera muito mais
importante do que as duas anteriores, contiguidade e sucessão.
Baseado em seu princípio da cópia, Hume descobre que os objetos que
permanecem nas causas e seus efeitos são contíguos e portanto, a
contiguidade é essencial à causação; o segundo componente das causas e
efeitos é que a causa tem que ser temporalmente anterior ao efeito. Surge na
argumentação do autor, o elemento mais importante à causação que é a relação
de conexão necessária. A inferência causal depende da contiguidade, sucessão
e conjunção constante.
Estamos então diante de duas ordens de relações: as relações entre ideias e
as relações entre fatos. As primeiras incluem pura matemática (geometria,
álgebra e aritmética) e são demonstrativamente certas ao ponto que negá-las
envolve uma contradição. Por exemplo, não podemos dizer que quadrado é
redondo pois já definimos o quadrado com características tais que não
pertencem à esfericidade. Já as relações de fato não são intuitivamente
corretas, e negá-las não significa cair em contradição e tampouco podemos
demonstrá-las logicamente. As relações de fatos são baseadas na
relação de causa e efeito, que por sua vez, estão baseadas na experiência.
As associações cotidianas que fazemos são baseadas na experiência repetida
das relações de causa e efeito e da experiência da conjunção constante entre
as causas e os efeitos.
Quadro 3: Relações naturais e relações filosóficas sugeridas por Hume

Fonte: as autoras
Entretanto, Hume observa que a multiplicidade de casos semelhantes que
percebemos na conjunção constante de objetos, não permite que estabeleçamos
uma verdadeira conexão necessária entre eles. A conjunção constante assim
como a contiguidade e a sucessão ainda não são suficientes para explicar os
raciocínios ou as inferências causais. Embora ampliem nossa experiência
passada em direção ao futuro, não permitem que estabeleçamos uma conexão
necessária eles. O autor persegue então a fundação da inferência e pergunta
pela origem da conexão necessária que estabelecemos entre as ideias de fatos
comparados. Conclui pela experiência repetida de causa e efeito que marca a
imaginação com um outro princípio da natureza humana: o hábito. A conexão
necessária é resultante da expectativa, da espera formada pelo hábito.
O hábito cria uma determinação que nos faz passar infalivelmente de um
objeto a outro. E por que depositamos tanta crença na inferência causal é a
pergunta seguinte do incansável Hume. Resposta: a crença é um tipo de hábito
que atua antes da reflexão do entendimento e ela é tão vívida quanto a
primeira impressão ou ideia da memória. Veio para ficar.
Nosso exercício
Como nos referimos durante este texto, nosso objetivo principal foi trazer
os conceitos teóricos de David Hume para fundamentar as relações
associativas não-hierárquicas tão necessárias à organização do conhecimento,
objeto da ciência da informação. Todavia, ainda queremos compartilhar nosso
exercício de classificação alternativa (Mostafa e Nova Cruz, 2009) para as
vinte e duas relações de termos apresentados em Cintra (2002), de
forma a aplicar os conceitos teóricos acima expostos.
Como dito anteriormente, as relações não hierárquicas somente podem ser
organizadas quando referentes a uma experiência dada ou a um campo
específico do conhecimento. Assim, talvez, o mérito do exercício que
apresentamos a seguir, seja simplificar a organização dos termos em dois
grandes grupos (Relações Naturais e Relações Filosóficas) bem como restituir
a Hume o lugar de destaque dentro da associação de termos na linguagem
documentária. A Aristóteles as relações hierárquicas, a David Hume as
relações não hierárquicas: naturais ou filosóficas!
No livro "Para entender as linguagens documentárias" , de 2002, Cintra propõem uma série grande de relações entre termos baseados nas mais diversas associações. As autoras compõem vinte e duas relações possíveis. O exercício que realizamos foi reorganizar ou propor uma reclassificação de tais associações de forma a enquadrá-las dentro das relações propostas por Hume: Naturais ou Filosóficas.
As relações naturais, para David Hume são as de causa e efeito, de
semelhança e de contiguidade. As relações filosóficas também podem ser causa
e efeito, além das de identidade, semelhança, contrariedade, quantidade e
qualidade. Desta forma, recortamos e reordenamos as relações inicialmente
propostas por Cintra nestas duas categorias maiores. Dentro das
relações naturais de causa e efeito agrupamos as relações de processo ou
operação/ seu agente ou instrumento; ação / resultado da ação; causalidade
ou causa/ consequência; efeito/ causa; dependência causal (doenças e seus
agentes patogênicos); atividade/ agente e atividade/ propriedade. Às
relações naturais de semelhança, endentamos: atividades complementares
(compra e venda) e coisa ou atividade/ suas propriedades ou agentes. As
relações naturais de contiguidade passaram a comportar as associações de
pessoas ou coisas/ suas origens.
Dentro das relações filosóficas de identidade, acomodamos: relação de
atribuição, as
disciplinas ou campos de estudo/ objetos ou fenômenos estudados; ação/ seu
paciente e as chamadas associações implícitas. Nas relações filosóficas de
semelhança, nos pareceu correto englobar as coisas ou atividades/ suas
propriedades ou agentes e as relações interfaceta. As relações filosóficas
de contrariedade são claramente associadas às relações por opostos e as de
coisa/ seu contra-agente (inseto/ inseticida).
As relações filosóficas de causa e efeito são aquelas que não naturalmente
associamos à causalidade determinada – que seria uma relação natural do tipo
fogo-queima - e que, portanto, dependem do contexto em que se colocam. São
elas: Coisa ou atividade/ suas propriedades ou agentes (como substância
ingerida e toxicidade potencial).
Por fim, as relações filosóficas de qualidade identificamos às expressões
sincategoremáticas/ substantivos nelas incluídos (flores associadas às
flores de plástico), enquanto às de quantidade relacionamos os termos
associados quanto à relação de influência (política monetária/ taxa de
inflação).
Faz-se mister, aqui, enfatizar que ao propormos esta reclassificação das
relações associativas por entendê-la mais prática e, esperamos, menos
complexa. Não temos a pretensão de afirmar que esta seria a solução
referencial ou exata para organizar termos e relações não-hierárquicas.
Antes disso, preferimos fazer uso das palavras de Italo Calvino quando apresenta sua linguagem literária como uma rede combinatória de experiências: “Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis” (Calvino, 1995, p.138). Com esta afirmação pretendemos deixar portas abertas para que novas relações entre termos – assim como novas propostas de organização destes termos – venham contemplar as sempre novas necessidades da linguagem documentária e da ciência da informação na sua expectativa de organizar diferentes campos de conhecimento na potencialidade dinâmica e criadora do pensamento.
Referências Bibliográficas
BERGSON, H. O Pensamento e o Movente (Introdução). Coleção Pensadores São Paulo: Abril Cultural, 1979.
CALVINO, I. Seis propostas para o próximo milênio. 2. ed. São Paulo: Cia.
das Letras, 1995.
CINTRA, A.M.M., et al. Para entender as linguagens documentárias. São Paulo:
Polis, 2002.
COVENTRY, A. M. Compreender Hume. Petrópolis: Vozes, 2009
DELEUZE, G. Empirismo e subjetividade. Ensaio sobre a natureza humana
segundo
Hume. São Paulo: 34, 2001.
____________. Cinema II. A Imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 2009.
HUME, D. Tratado da Natureza Humana.São Paulo: Unesp, 2009.
SOUSA, C. J. Naturalização das Relações de Causa e Efeito na Filosofia De
David Hume.89 f., 2006. (Dissertação de Mestrado)-Filosofia do Setor de
Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná.
Curitiba, 2006.
MOSTAFA, S. P.; NOVA CRUZ, D. David Hume e as relações associativas: da
teoria ao tesauro. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA
INFORMAÇÃO, 10, 2009, João Pessoa. Anais ... João Pessoa, Programa de
Pós-graduação em Ciência da Informação da UFPB, 2009.
VALADARES, A. A teoria da causalidade imaginária na filosofia de Hume.
Kriterion: revista de filosofia vol. 50 n. 119: 251-268, june , 2009.
Sobre
os autores / About the Author:
Doutora em Filosofia da Educação pela PUC, São Paulo. Professora de Ciência da Informação e Documentação, USP, Ribeirão Preto.
Denise Viuniski da Nova Cruz
Mestre em Educação pela Universidade do Vale do Itajaí, Santa Catariana. Professora de Clínica Médica e Semiologia, Universidade do Vale do Itajaí, Santa Catarina.