A noção de documento: de Otlet aos
dias de hoje
The notion of document: from Otlet to current days
Resumo: Objetiva analisar o documento enquanto objeto
informacional partindo da hipótese de que a noção de documento relaciona-se à
sua condição de informatividade, o que implica considerar seu aspecto pragmático
e o caráter social e simbólico da informação. Sob o ponto de vista metodológico,
procedemos à recuperação histórica do conceito e sua atualização na
contemporaneidade recorrendo à Terminografia para análise e cotejamento das
noções de documento e de Documentação. O corpus de análise compreende textos dos
principais documentalistas e teóricos da Documentação franceses, espanhóis e em
língua inglesa, desde Otlet. A análise mostra que os termos documento e
Documentação já tinham em germe a noção de informação, bem como revela sua
atualização por parte dos franceses e espanhóis. Já a corrente anglo-saxã, ao
adotar uma abordagem de informação que extrapola, muitas vezes, aquela
relacionada aos processos de organização da informação para o acesso e uso,
distanciou-se da abordagem clássica de documento. Como conclusão, podemos
afirmar que a construção histórica do conceito de documento no âmbito da Ciência
da Informação é anterior ao surgimento desta denominação da área, o que nos
conduz ao reconhecimento da noção de documento proposta por Otlet e desenvolvida
pelos franceses e espanhóis. Documento é hoje concebido simultaneamente como
instância física e informativa que, sob ações e condições específicas
contextualizadas, otimiza a circulação social do conhecimento.
Palavras-chave: Documento; Informação; Informatividade;
Documentação; Paul Otlet
.
Abstract: This paper aims at analyzing documents as
information objects, based on the hypothesis that the notion of document is
related to its informativeness condition, which demands the consideration of its
pragmatic aspect and the social and symbolic character of information. From a
me-thodological perspective, we traced the development of the historical concept
of document to its present day usage, resorting to Terminography for the
analysis and comparison of the notions of document and Documentation. The corpus
used in the analyses is comprised of texts by the main documentalists and
Documentation theoreticians in the French, Spanish and English languages, since
Otlet. The analysis shows that, from those early days, the terms document and
Documentation contained the germ of the notion of information; it also shows the
updating of these concepts over time, as performed by the French and Spanish.
The Anglo-Saxon tradition, however, by adopting an approach of information that
often goes beyond that related to the processes of organization of information
for its use and access to, has diverged from the classic approach of document.
As a result, it can be said that the historical construction of the concept of
document in the field of Information Science predates the appearance of this
denomination of the area, which leads us to the recognition of the notion of
document proposed by Otlet and further developed by the French and Spanish. The
document is nowadays conceived simultaneously as a physical and an informational
manifestation which, under specific conditions, and subjected to specific
actions in context, optimizes the social circulation of knowledge.
Keywords: Documento; Informação; Informatividade;
Documentação; Paul Otlet.
Introdução
Este trabalho objetiva analisar o documento
enquanto objeto informacional, de modo a subsidiar sua discussão no âmbito
estrito da Ciência da Informação na contemporaneidade. Partimos da hipótese
de que a noção de documento relaciona-se à sua condição de informatividade,
ou seja, às suas possibilidades de informar. Mais do que a informação, é a
informatividade que permite entrever o jogo intertextual que caracteriza os
processos de recepção determinando os critérios de relevância para que algo
seja considerado informativo. A capacidade de um documento ser informativo
implica o aspecto pragmático do objeto informacional à medida que revela o
caráter social e simbólico da informação e, consequentemente, os ambientes e
as situações concretas de uso.
Sob o ponto de vista metodológico, procedemos à recuperação histórica do
conceito de documento – e de Documentação –, visando identificar sua
relação com a delimitação do conceito nos dias atuais, quando ele é visto
como instrumento para promover a circulação social do conhecimento. Para
tanto, utilizamos o instrumental da Terminografia, recurso que auxilia a
coleta, análise e cotejamento das afirmações. O corpus de análise compreende
textos dos primeiros documentalistas
Paul Otlet e
Suzanne Briet (versão
clássica), e posteriormente dos teóricos franceses Jean Meyriat, Robert
Escarpit e Hubert Fondin, e dos espanhóis Lasso de la Vega, Desantes Guanter,
Sagredo Fernández e Izquierdo Arroyo (discípulos da versão clássica). Em um
segundo grupo, abordamos a produção em idioma inglês de Buckland e Frohmann.
Os dois últimos espanhóis citados, além de López Yepes, Fayet-Scribe, Fondin
e Couzinet e colegas são adotados para embasamento histórico e conceitual.
Adotamos aqui a grafia ‘documentação’ para indicar o conjunto de técnicas de
organização da informação visando recuperação, acesso e uso, e
‘Documentação’ para falar dos fundamentos teórico-metodológicos que
sustentam estes procedimentos.
A noção de documento na versão clássica
Uma das obras básicas da Ciência da Informação é, sem dúvida,
O Traité de
Documentation, publicado por
Paul Otlet (1868-1944) em 1934.Otlet (1996, p. 9) acredita que necessitamos não apenas de bibliografia
(descrição de documentos), mas de bibliologia, ou seja, de uma ciência e uma
técnica gerais do documento, como desenvolve:
A bibliologia elabora os dados científicos e técnicos relativos a este quádruplo objeto: 1º o registro do pensamento humano e da realidade exterior em elementos de natureza material, ou seja, documentos; 2º a conservação, circulação, atualização, catalografia, descrição e análise desses documentos; 3º a elaboração, com a ajuda de documentos simples, dos documentos mais complexos, e com a ajuda dos documentos particulares, o conjunto desses documentos; 4º em último grau, o registro dos dados cada vez mais completo, exato, preciso, simples, direto, rápido, sinótico, de forma simultaneamente analítica e sintética; seguindo um plano cada vez mais integral enciclopédico, universal e mundial (Otlet, 1996, p. 10). (Tradução livre da versão em espanhol)
Livro e documento constituem para ele “um suporte de uma certa matéria e dimensão (...) em que se incluem signos representativos de certos dados intelectuais" (Otlet, 1996, p. 43). Como o livro, na sua perspectiva, não abarca outros tipos de documentos, Otlet adota a forma ‘livro ou documento’, mantendo a primeira palavra apenas em regime de conservação dos usos (Sagredo Fernández; Izquierdo Arroyo, 1983, p. 305).
Para Otlet (1996, p. 43), os livros – termo genérico que engloba os
manuscritos e impressos de toda espécie que, em número de milhões, têm sido
feitos ou publicados em forma de volumes, periódicos, publicações de arte –
constituem em seu conjunto a memória materializada da humanidade,
armazenando os fatos, as ideias, as ações, sentimentos, sonhos, ou seja,
aquilo que tem impressionado a razão do homem. Segundo ele, os livros se
converteram, por excelência, nos órgãos da conversação, da concentração e da
difusão do pensamento, devendo-se considerá-los como instrumentos de
pesquisa, de cultura, de ensino, de informação e de recreio, pois são o
receptáculo e o meio de transportes das ideias.Segundo Otlet (1996, p. 45), a determinação das características de um livro
é indispensável para reconhecê-lo e identificá-lo, e esta determinação
individual não seria possível se não em função de suas características
gerais. Afirma que o livro pode ser abordado a partir das seguintes
características: a verdade (o verdadeiro); a beleza (o belo); a moralidade
(o bem); a originalidade; a clareza (compreensibilidade); o valor econômico
(comercialidade); e a novidade.
O livro pode ser abordado como conteúdo (ideias que se referem a um certo
assunto, consideradas em um certo lugar e em um certo tempo) e como um
continente (uma certa forma de livro e uma certa língua na qual se expressam
as ideias). Tais formas seriam de duas classes: a forma da expressão
objetiva, didática, científica, suscetível de progresso constante, como os
moldes preparados para receber o pensamento; e as formas literárias
propriamente ditas que correspondem aos gêneros e espécies que estudam a
retórica. Os elementos que constituem o livro (elementos materiais,
gráficos, linguísticos e intelectuais) são relativos ao ‘continente’ ou
‘forma’ no sentido amplo da palavra. Os elementos de ‘conteúdo’ ou
‘fundo’
são os científicos ou literários. Por trás do livro ‘continente’ estaria o
‘conteúdo’, a literatura em sentido amplo (Otlet, 1996, p. 47 e 106).
A proposta de Otlet parte da ideia de um termo genérico (biblión ou
bibliograma ou documento) que cobriria todos os tipos: volumes, folhetos,
revistas, artigos, cartas, diagramas, fotografias, estampas, certificados,
estatísticas, além dos discos e filmes. Afirma que biblión é a unidade
intelectual e abstrata, “que se pode encontrar concreta e realmente, mas
revestida de modalidades diversas”. Compara esta unidade “ao átomo na
Física, à célula na Biologia, ao espírito na Psicologia e à admissão humana
na Sociologia”. A unidade intelectual seria o pensamento e o livro um meio
de produzir utilidades intelectuais (Otlet, 1996, p. 43, 44 e 46).
Sagredo Fernández e Izquierdo Arroyo (1983, p. 308, 309, 311) esclarecem a
acepção otletiana ao afirmar que o termo pensée é constantemente utilizado
no sentido mais amplo adotado por Descartes e os primeiros racionalistas, ou
seja, como um conteúdo da consciência ou ideia, abarcando tanto o aspecto
intelectual quanto o afetivo: o que interessa no documento não é somente seu
conteúdo cognoscitivo ou puramente intelectual. Além disso, trata-se do que
é projetado sobre o suporte documental, assim como de compreender o que foi
depositado nele. Como decorrência, posto que documentos são construídos e
utilizados, a Documentação ou Documentologia seria a teoria que se ocupa dos
problemas colocados por tal produção e uso, devendo responder a ambos os
propósitos: tratar do modo de produzir e tratar do modo de usar os
documentos.
Esta teoria não trata, portanto, apenas da extensão do conteúdo do documento, mas também da atribuição hermenêutica (ou interpretativa) no sentido de buscar meios e métodos que dêem conta da mensagem do autor do documento de modo rápido e preciso. Segundo estes autores, Otlet também atenta para o fato de que a atribuição hermenêutica não se refere ao individualismo documental: os documentos isolados devem ser levados à unificação no momento de serem produzidos e compreendidos. Esta concepção não se limita ao problema da transmissão do saber, pois os termos originais em francês documentaliser e documenter (que se relacionam à produção e ao uso dos documentos) são, para Otlet, duas vertentes obrigatórias da Documentologia.
Quanto à terminologia adotada para a área que propõe, nos artigos publicados
entre 1905 e 1917, Otlet foi abandonando a palavra bibliografia em proveito
das palavras documentação e informação. No Tratado de Documentação, ele faz
uso de documentologia para designar o campo do conhecimento ao qual ele se
consagra ultrapassando as palavras bibliografia, bibliologia e documentação
(Fayet-Scribe, 2001, p. 52).
Sagredo Fernández e Izquierdo Arroyo (1983, p. 309) demonstram e, por fim,
afirmam, que o objeto da Documentologia otletiana é muito mais rico do que
foi a história posterior da disciplina.
Suzanne Briet (1894-1989), funcionária da Biblioteca Nacional da França, foi
uma das principais continuadoras de Otlet ao recolocar, após a Segunda
Guerra Mundial, muitos dos princípios estabelecidos por ele, em especial por
meio da obra clássica:
Qu’est-ce que la documentation?, publicada em 1951.
Briet parte da definição de documento da UFOD (Union Française des
Organismes de Documentation) (adotada em 1935, segundo Fayet-Scribe, 2001,
p. 281): toda base de conhecimento, fixada materialmente, suscetível de ser
utilizada para consulta, estudo ou prova. Propõe, em seguida, outra
definição que julga mais atual e abstrata: o documento é todo signo indicial
(ou índice) concreto ou simbólico, preservado ou registrado para fins de
representação, de reconstituição ou de prova de um fenômeno físico ou
intelectual. Além do livro e das outras formas documentais que apareceram,
como o artigo de revisão e o artigo de jornal, cita que há obras inteiras,
incluindo suas ilustrações, que são transferidas para microfilmes ou
microfichas (Briet, 1951, p. 7 e 9). Adota a expressão ‘produção
documentária’ (Briet,1951, p. 24-25) para indicar a produção de documentos
secundários pelas organizações de documentação a partir dos documentos
iniciais (os quais seriam criados pelos autores e apenas conservados pelas
organizações de documentação). Considera como documentos secundários as
traduções, análises, boletins de documentação, arquivos, catálogos,
bibliografias, dossiês, fotografias, microfilmes, seleções, sínteses
documentárias, enciclopédias, guias de orientação.
A abordagem de documento que marcou o nome de Briet é, no entanto, aquela
que trata do que pode vir a ser um documento: ela exemplifica ao tratar de
um antílope africano de uma espécie nova que foi encontrado e levado à
Europa, tendo sido o fato divulgado nos meios de comunicação. O fato também
se torna objeto de uma comunicação na Academia de Ciências e tema de
atividades de ensino de um professor de Museu. Adicionalmente, o animal vivo
é enjaulado e catalogado (no Jardim Zoológico), quando morto é dissecado e
conservado no Museu, emprestado para uma exposição, passando, assim, a ser
registrado em documentos impressos (e sob outros suportes) como livros e
enciclopédias, os quais compõem bibliotecas e seus catálogos, entre outros.
Para Briet, o antílope catalogado é um documento inicial; os outros são
documentos secundários ou derivados (Briet, 1951, p. 7-8). Verifica-se,
assim, que para a autora os documentos iniciais não são apenas os documentos
textuais convencionais.
O que foi dito mostra que as propostas de Otlet e de Briet já enunciavam as
questões de promoção e acesso à informação, ou seja, os termos documento e
Documentação já tinham em germe a noção de informação tal como é
compreendida contemporaneamente.
A noção de documento dos discípulos da versão clássica
A abordagem sobre documento iniciada por Otlet foi consolidada por ele e
seus discípulos, em especial em solo francês, de tal modo que a história da
Documentação na França até a metade do século XX pode ser considerada a
história da Documentação (como constatamos em Fayet-Scribe, 2001). Esta
corrente passou por um período de relativo esquecimento durante a Segunda
Guerra Mundial, sendo retomada nos anos 1960 no país. Neste contexto, teve
início movimento que foi legitimado nos anos 1970, a partir das pesquisas do
Comitê de Ciências da Informação e Comunicação, formado por Robert Escarpit,
Jean Meyriat e Roland Barthes, entre outros (Couzinet, 2004, p. 23).
Na Espanha, a Documentação repercutiu, em particular, a partir de Lasso de
la Vega (1947, 1969), preocupado com os fundamentos e métodos do tratamento
da massa documental, considerado por ele como necessário para a produção
científica, e de López Yepez, com seu Teoría de la Documentación (1978).
A relação entre Ciências da Informação e Ciências da Comunicação observada
na Espanha foi provavelmente decorrente da influência francesa da pesquisa
realizada pelo Comitê de Ciências da Informação e Comunicação.
A noção de documento dos discípulos da versão clássica: os discípulos
franceses de Otlet
Escarpit (1991, p. 123-126), em obra originalmente publicada em 1976, define
o documento como um objeto informacional visível ou palpável e dotado de uma
dupla independência com relação ao tempo: a sincronia – que se refere à
independência interna da mensagem, concebida não como uma sequência linear
de eventos, mas justaposição multidimensional de traços –, e a estabilidade
– independência global do objeto informacional, que não é um evento inscrito
na passagem do tempo, mas um suporte material do traço que pode ser
conservado, transportado, reproduzido.
Sincronia e estabilidade se manifestam para dar conta de três funções:
• função icônica: estabelecimento de uma sincronia interna da mensagem visual (e eventual-mente tátil) para sua inscrição em um objeto estável, constituído no espaço e no tempo;
• função discursiva: criação de uma imagem espacial estável de um discurso inscrito no tempo, sendo que a linearidade temporal do discurso é dada pela linearidade espacial da escrita; e, por fim,
• função documentária: estabilização do conjunto da mensagem mista (traço/ ícone e palavra/ discurso) sobre um suporte que o torna independente do tempo e sincronicamente disponível.
Para o autor, a estabilização da informação no tempo poderia a princípio
parecer paradoxal, já que transformar o evento em documento seria despojá-lo
de sua imprevisibilidade. Explica que enquanto um evento se produz, um
documento é produzido, existe, e por isso é definido, inteiramente
conhecível e previsível. Afirma que estabilização não é regressão: trata-se
de compensar o efeito temporal, não de o anular. O tempo, cujo efeito é
compensado durante a constituição do documento, deve ser reintroduzido sob a
forma de movimento para que a informação seja restituída ao destinatário.
Passa-se então de uma justaposição multidimensional e sincrônica a uma
sucessão linear e diacrônica, produtora de informação. Deste modo, o
documento, meio de constituição de um saber, supõe que os traços fiquem
disponíveis para uma leitura, ou seja, para uma exploração livre de toda
restrição baseada em eventos ou cronologia e em função de um projeto a
realizar. Escarpit refere-se não apenas a uma reativação do evento mas a uma
produção informacional nova.
Para Meyriat (1981, p. 51-53, 55), a definição de documento não se impõe
como uma evidência inicial, mas depende dos pontos de vista e dos métodos da
Documentação e da Documentologia, pois necessita, para ser efetivada e
compreendida, das noções que recobrem seus termos derivados, como segue.
Recolocando conceitos desde Otlet, os quais são tratados de modo semelhante
por Escarpit, Meyriat afirma que o documento pode ser definido como um
objeto que dá suporte à informação, serve para comunicar e é durável.
Para ele, esta definição opera por meio de duas noções conjuntas e
inseparáveis uma da outra: uma de natureza material (o objeto que serve de
suporte), e outra conceitual (o conteúdo da comunicação, ou seja, a
informação). Deste modo, segundo Meyriat, toda mensagem possui uma
significação, e não se pode definir um documento sem ter em conta o
significado da mensagem que ele tem a função de transmitir.
Uma das questões centrais de que trata Meyriat é a de como um objeto pode
tornar-se um documento. Documentos escritos são, para ele, um caso
privilegiado, por ser a escrita o meio mais comumente utilizado para
comunicar uma mensagem. Mas pondera que os escritos não são os únicos
objetos que têm por função transmitir uma informação, do que decorre que a
noção de documento é muito mais ampla que a noção de escrita.
Por este motivo é que Meyriat considera que a vontade do emissor não é
suficiente. Um jornal cotidiano é feito para servir de suporte e para
transmitir informações, mas se o comprador o usar para embrulhar legumes,
por exemplo, o jornal não é mais um suporte de informação. Mas este objeto
pode transformar-se novamente se o destinatário do pacote colocar os olhos
sobre o conteúdo e tomar conhecimento de algumas notícias. A vontade de
obter uma informação é por isso um elemento necessário para que um objeto
seja considerado como documento, apesar de a vontade de seu criador ter sido
outra. É no momento em que se busca informação em um objeto, cuja função
original é prática ou estética, que ‘se faz um documento’.
Meyriat dá então o exemplo de sua bicicleta, comentando que ela poderá um
dia ser objeto de interrogação quanto às informações sobre o lazer da
burguesia da metade do século XX, ou sobre as técnicas empregadas pela
construção mecânica. Deste modo, nem todo objeto tem por função normal ser
suporte de informação, mas esta pode ser uma de suas funções, embora sua
função principal seja outra. O documento tem uma dupla origem: ele pode ou
não ter sido criado como tal.
Este papel ativo do receptor pode modificar no tempo a função de informação
de um mesmo objeto. Como decorrência, um objeto leva a muitos documentos
diferentes. Quando uma firma industrial produz e difunde um catálogo, ela o
faz para comunicar para sua clientela informações sobre produtos, sua
qualidade, seu preço; e esse documento é imediatamente reconhecido como tal.
Mas ele pode posteriormente tornar-se o objeto de uma nova leitura por
outros usuários, que buscarão outras informações, como a história dos
preços, das técnicas de fabricação, dos hábitos de consumo, etc. Estes
usuários são tão legítimos quanto os primeiros, ainda que não tenham sido
previstos pelo autor do documento. Generalizando esta observação, Meyriat
entende que a capacidade informativa de um documento não é jamais esgotada
pelos usos de informações já realizados. É sempre possível colocar questões
novas a um documento já explorado com a esperança de obter informações novas
como resposta.
Assim, para Meyriat (1981, p. 54), o documento não é um dado, mas o produto
de uma vontade, aquela de informar ou se informar, a segunda ao menos sendo
sempre necessária. Segundo ele, a noção de uso é central, do que entende que
se poderia dizer que o ‘usuário faz o documento’.
A despeito de todos os exemplos, Meyriat não trata de elementos da natureza,
ou seja, não manufaturados, como o antílope de Briet e ambientes e objetos
naturais tratados por ela e por Otlet. Em síntese, deduz-se que para Meyriat
os escritos não são os únicos tipos de documentos e nem todo escrito é
documento, pois um objeto pode ser produzido para ser documento ou não, mas
seu uso como documento é que irá determiná-lo como tal, o que pode
modificar-se com o tempo dependendo dos diversos usos do mesmo documento.
Couzinet, Régimbeau e Courbières (2001) mostram que para
Meyriat (1981) o
documento tem uma função de prova e de suporte de informação que a fixa,
podendo ser ‘produzido intencionalmente’ e/ou ter uma função atribuída. A
questão que ‘faz o documento’ [destaque nosso] é a de que o documento por
intenção cedeu lugar ao documento por atribuição. O ‘documento por
atribuição’ não é criado como tal: o objeto pode vir a ser um documento do
fato de que aquele que busca a informação, ou seja, que lhe reconhece uma
significação, erige o mesmo em suporte de mensagem.
Objetivando retomar e homenagear Meyriat, os pesquisadores Couzinet,
Régimbeau e Courbières (2001) afirmam que esta reflexão sobre a noção de
documento religa informação, significação e processos de recepção e coloca
as bases de toda a pesquisa sobre o assunto. Segundo eles, a distinção entre
‘documento por atribuição’ e ‘documento por intenção’ foi revista e
desenvolvida por Hubert Fondin (1995), mas de uma forma geral esta noção foi
pouco trabalhada na França nos últimos anos. Para eles, os pesquisadores de
Ciência da Informação dos Estados Unidos, como Buckland e Day, têm
desenvolvido esta concepção de ‘documento por atribuição’. Entendem que,
ainda que estes pesquisadores conheçam os pioneiros europeus como Otlet e
Briet, ignoram os trabalhos dos pesquisadores franceses das Ciências da
Informação e Comunicação – que citamos anteriormente – os quais contribuíram
para precisar o termo ‘documento’.
A noção de documento dos discípulos da versão clássica: os discípulos
espanhóis de Otlet
A literatura é unânime em considerar que a produção espanhola sobre
Documentação foi iniciada por Lasso de la Vega, citado anteriormente, autor
espanhol que mais escreveu sobre este conceito em obras publicadas entre
1947 e 1980 (López Yepes, 1995, p. 262). Contudo, a produção científica
sobre Documentação deu-se efetivamente na Espanha somente a partir dos anos
1970, fundamentada em sistematização única realizada por López Yepes em obra
histórico-conceitual sobre as diversas correntes teóricas documentárias
intitulada Teoría de la Documentación, de 1978, e atualizada em 1995, sob o
título La Documentación como disciplina: teoría e historia. Também é da
Espanha a tradução para o espanhol do Tratado de Documentação (Otlet, 1996),
por Maria Dolores Ayuso García, sendo a única tradução identificada desta
obra.
Segundo Salvador Bruna (2006) em trabalho de análise qualitativa da
literatura, a introdução e difusão da concepção otletiana forneceu a base
teórica na qual foi edificada a teoria documentária enquanto disciplina
acadêmica espanhola. Deste modo, o papel significativo que este país
deflagra na história da Documentação só é comparado ao da França, país que
foi berço (junto com a Bélgica) e continuador deste movimento.
Desantes Guanter (1978), em prólogo à obra de López Yepes, faz uma
associação entre o documento e a informação, quando afirma que a
documentação seria um dos possíveis objetos da informação. Segundo este
autor, documentação e informação estariam amputadas em boa parte de seu
campo de atuação, de estudo e de solução de problemas se fossem mantidas
afastadas uma da outra. Também afirma que a possibilidade de informação
cresce com a documentação, torna-se mais potente, não só em termos
quantitativos, mas também qualitativos. A documentação só se justifica se
existe para ser informada, e todos os processos a que a documentação se
submete se justificam somente se desembocam em um processo informativo,
atual ou potencial. Para Desantes Guanter, a documentação que não é
informação constitui uma contradição conceitual.
Para Sagredo Fernández e Izquierdo Arroyo (1983, p. 265) e, de modo similar
a Meyriat, um documento só existe quando é utilizado como tal, ou seja, é o
uso que decide sobre seu caráter documental. O documento é em si um objeto
manufaturado (quanto ao registro em um suporte) e ‘mentefaturado’ (quanto ao
conteúdo significativo gerado pela mente) que pode funcionar como documento
propriamente ou como um objeto qualquer: um cartão postal não é em si um
documento na mente e/ou intenção do autor, mas poderá passar a sê-lo se for
utilizado como tal.
Enquanto pesquisador de idioma espanhol, o mexicano Rendón Rojas parte da
obra de López Yepes para tratar da noção de documento, afirmando que a
definição apresentada por Briet (que citamos anteriormente) possui um
sentido amplo, a partir da qual pode-se considerar como documento tudo que
possua uma expressão material e represente certo fenômeno, não só o escrito,
como manuscritos e impressos, folhas soltas de propagandas, como também
gráficos, fotografias, desenhos, filmes, discos, estatísticas e qualquer
coisa natural ou os monumentos e objetos da vida cotidiana produzidos pelo
homem (Rendón Rojas, 2005, p. 120-121). Considera a necessidade de
restringir o uso do termo documento no âmbito da Bibliotecología (segundo
denominação que adota e é comum nos países de idioma espanhol da América
Latina), realizando assim a decomposição explicativa que segue abaixo. Sua
proposta se aproxima daquela de Briet sobre como um objeto se torna
documento no contexto da área, a despeito das diferenças apontadas (Rendón
Roja, 2005, p. 127-128):
• em um primeiro nível, têm-se os objetos tal qual são, sem que tenha havido para sua apari-ção uma intencionalidade de torná-lo documento;
• em um segundo nível, estes mesmos objetos são transformados em documentos pelo e para o trabalho dos especialistas de determinadas disciplinas, deixando de ser um objeto em si para ser um objeto para outro. Estes especialistas estudam estes objetos-documento e atribuem mensagens a eles, conscientemente objetivando a informação;
• no terceiro nível, os documentos que, após a ação dos especialistas adquiriram outra natureza cuja função é transmitir esta informação adicional, passam às mãos do profissional da informação documentária. Este profissional insere o documento em um sistema de informação documentária, agregando-lhe informação ao representá-lo e prepará-lo para ser recuperado por um usuário. É neste último nível que o documento toma a dimensão bibliotecológica (segundo termo adotado no texto).
Deste modo, deve-se considerar, segundo Rendón Roja (2005, p. 129), a ação intencional executada pelo profissional da informação como baseada em estruturas de análise que permitam ao produto intelectual produzido pelo autor converter-se em um documento no sentido específico traçado. A ação deste profissional dá um novo sentido ao documento inicial porque o coloca em um contexto que não estava antes. Esta ação dá personalidade ao documento dentro do sistema de informação documentária, a qual não se reduz a ter uma etiqueta e encontrar-se em um determinado lugar (o que pode ser alcançado por ações irrefletidas e empíricas), mas a estruturas mais profundas, produto de uma atividade intelectual, teórica e criativa.
Considera ainda que, esta atividade do sujeito para completar o ‘ser
documento’ não implica relativismo porque é realizada sobre um objeto,
portanto, com base nas propriedades e atributos presentes nesta
matéria-prima: não se trata de uma invenção ou criação, mas de uma
transformação de algo que já ‘é’. Além disso, as estruturas empregadas para
a manipulação do documento também são objetivas porque respondem à realidade
do sistema de informação documentária (Rendón Roja, 2005, p. 130).
Com isso, entendemos que o autor não está trabalhando com a ideia de que a
informação exista no próprio objeto mas que, a despeito da recepção, esta se
dá em função de um objeto X ou Y, cujas características próprias apresentam
implicações para o ‘ser documento’ Rendón Roja (2005, p. 127) afirma que quando se fala de documento no âmbito bibliotecológico, deve-se estar consciente de que talvez seja uma coisa
distinta se considerada em um ponto de vista histórico, criminalístico,
literário ou em qualquer outro ramo do saber humano. Entende que podemos
distinguir diferentes níveis de ‘ser documento’ segundo o lugar que o objeto
ocupe em uma ontologia construída epistemicamente.
A noção de documento dos discípulos da versão clássica: Documentação
francesa e espanhola
A exposição acima permite confirmar a relevância, densidade e atualidade da
obra de autores da linha francesa (Meyriat, Escarpit e Fondin), cuja
elaboração conceitual e nível de generalização parece não ter par frente às
obras atuais. Enquanto discípula da versão clássica de documento, a produção
espanhola evidencia abordagem peculiar sobre Documentação, da qual
enfatizamos a obra dos pesquisadores Sagredo Fernández e Izquierdo Arroyo
que, publicada em 1983, trata profundamente do Tratado de Documentação de
Otlet, possibilitando leitura contextualizada do mesmo. López Yepes também é
citado por ser o principal responsável pela ‘escola espanhola’ que citamos.
Cabe apontar o não reconhecimento destes avanços na área e observar que se
estes autores não foram superados, mas também não são conhecidos, tendem a
ser reinventados, o que pode levar a grandes esforços sem, necessariamente,
a mesma qualidade.
A despeito deste não reconhecimento, constatamos que a noção de documento
proposta pelos primeiros documentalistas foi aprofundada e atualizada pelos
pesquisadores franceses e espanhóis nas décadas seguintes.
A noção de documento em versões anglo-saxãs
Buckland (1991, p. 43, 44, 46 e 47) trata da ‘informação como coisa’,
‘informação como conhecimento’ e ‘informação como processo’ e propõe a
primeira como noção de informação pertinente à Ciência da Informação. Frente
à pergunta ‘o que é informativo?’, o autor sugere abandonar a busca por
objetos candidatos a serem considerados ‘informação como coisa’ e inverter a
abordagem perguntando às pessoas o que elas identificam como coisas a partir
das quais elas podem tornar-se informadas.
Buckland afirma que o significado de documento foi tratado por bibliógrafos
e documentalistas no movimento da Documentação preocupados com os problemas
recentes de armazenamento e recuperação da informação no século XX.
Apresenta a solução adotada por este movimento no uso de ‘documento’ como
termo genérico para indicar qualquer recurso informacional físico, em vez de
limitá-lo a objetos do tipo texto em meios físicos específicos como papel,
papiro, microforma. Segundo ele, Otlet, Briet e outros documentalistas
afirmam que:
• a documentação deve estar preocupada com objetos potencialmente informativos;
• nem todos os objetos potencialmente informativos são documentos no sentido tradicional de textos sobre papel; e,
• outros objetos informativos como pessoas, produtos, eventos e objetos de museu não devem ser excluídos.
Buckland recorre à noção clássica de documento, citando que Otlet enfatiza a
necessidade de definição de documento e documentação que inclua objetos
naturais, artefatos, objetos apontando pistas de atividades humanas, objetos
tais como modelos designados para representar ideias, e obras de artes,
assim como textos. Comenta que o termo documento (ou unidade documentária)
foi usado no sentido especializado como um termo genérico para denotar
objetos físicos informativos.
Cita o exemplo da ideia de documento desenvolvida a partir de um antílope
por Briet, questionando qual seria o termo genérico o suficiente para
incluir todas as coisas informativas de que tratamos. Sugere ‘discurso’ como
um termo melhor para indicar textos no sentido geral ou artefatos com
intenção de representar coisas. Apresenta como possibilidade dividir objetos
em: artefatos com intenção de constituir discurso (como livros), artefatos
que não tinham esta intenção (como barcos), e objetos que não são artefatos
(como os antílopes). Do mesmo modo que os franceses e espanhóis discípulos
da versão clássica de documento, Buckland apresenta exemplos explicativos
das origens dos objetos informacionais e suas funções posteriores, como no
caso do livro que pode ser usado como um peso para portas.
Também Frohmann (2004, p. 405-406) ressalta que os estudos contemporâneos
devem muito ao movimento documentalista do final do século XIX e início do
século XX, salientando a importância de recuperar e repensar as profícuas
práticas documentárias dos primeiros documentalistas. Frohmann baseia-se nas
ideias de L. Wittgenstein, para quem o estudo de práticas com documentos (ou
inscrições), em toda sua variedade, leva a um conjunto de conceitos
fundamentais para pensar filosoficamente sobre informação, mais que estudos
centrados em uma abordagem teórica e filosófica da natureza da informação.
Entende, por isso, que a documentação cobre um terreno maior que o dos
estudos de informação (information studies) e que uma implicação do foco
sobre práticas documentárias para uma filosofia da informação é a de que
esta filosofia é subordinada à filosofia da documentação.
Em texto posterior, Frohmann (2006), ao criticar a rejeição dos estudos de
informação que envolvem os documentos, retoma a ideia de que o conceito de
materialidade traz uma compreensão mais rica do caráter social e público da
informação na atualidade. O documento, como materialidade da informação,
evidencia a importante relação entre estudos de documentação e estudos de
informação. As pesquisas sobre materialização da informação por meio da
documentação podem identificar os campos de força – institucional,
tecnológica, política e cultural – que configuram características sociais e
públicas da informação na atualidade. Frohmann baseia-se em Foucault para
quem a documentação tem um papel mais significante que o da comunicação da
informação, antes relacionado ao processo que ele chama de ‘escrita
disciplinar’ que envolve indivíduos e circuitos específicos institucionais.
A documentação seria a ponte entre a análise do discurso ou enunciações de
Foucault e os estudos da materialidade da informação: as práticas
documentárias institucionais fornecem à informação peso, massa, inércia e
estabilidade que materializam a mesma a tal ponto que podem configurar
profundamente a vida social.
Constatada a relevância dada por Frohmann à documentação, questionamos em
que medida ele faz referência também ao conjunto de técnicas de organização
da informação visando recuperação, acesso e uso. A abrangência dada por ele
ao termo ‘práticas documentárias’ não parece incluir, como ocorre na
Documentação, o fenômeno da institucionalização da informação relacionado ao
trato da massa documental como requisito para a comunicação documentária,
enquanto “processo que envolve a codificação e a decodificação de conteúdos
informacionais, ou seja, o tratamento e a recuperação da informação” (Lara,
1993, p. 4). Deste modo, a relevância atribuída por Frohmann ao movimento
dos primeiros documentalistas parece indicar antes aspectos da produção e
uso dos documentos que propriamente os aspectos das operações realizadas
sobre o documento que caracterizam a área.
De qualquer modo, interessa-nos especialmente a noção de informatividade dos
documentos tratado por Frohmann (2004, p. 387). Segundo ele, trata-se das
propriedades das práticas documentárias, as quais ocorrem em quatro grandes
categorias relativas ao documento: sua materialidade; seus lugares
institucionais; modos pelos quais eles são socialmente disciplinados; e sua
contingência histórica. Para Frohmann, informatividade refere-se aos fatores
que devem ser levados em conta para compreender como documentos tornam-se
informativos. Como documentos só o são de fato se forem informativos,
diríamos que informatividade refere-se a como objetos tornam-se
informativos, constituindo-se como documentos.
Embora não tenhamos clareza sobre o entendimento de documento por Frohmann
no sentido estrito da Ciência da Informação, a noção de informatividade
apresenta pertinência e remete àquelas apresentadas pelos autores discípulos
da versão clássica de documento, citadas anteriormente.
Observamos que os dois autores da versão anglo-saxã analisados referem-se
aos primeiros documentalistas (Otlet e Briet, explicitamente) considerando
sua obra como fundamental para a área mas também atual em suas bases. Deste
modo, também aqui constatamos a continuidade e atualização da versão
clássica da noção de documento.
A corrente anglo-saxã de Ciência da Informação
Para uma avaliação das implicações atuais da noção de documento apresentadas
anteriormente, tratamos a seguir do cenário em que as mesmas estão
inseridas, discorrendo sobre alguns aspectos que caracterizam a corrente
anglo-saxã de Ciência da Informação.
Adotamos como base a análise realizada por Fondin (2005) que retrata a
história da Ciência da Informação surgida nos anos 1950 e 1960 nos Estados
Unidos como aquela constituída por pesquisas de especialistas
norte-americanos do tratamento automático da informação em um contexto
técnico e científico. A esta origem marcadamente estadunidense, este autor
denomina de visão histórica e considera a corrente dominante em Ciência da
Informação.
Fondin entende que esta visão levanta problemas, inclusive nos Estados
Unidos, em função da confiança em um progresso técnico que permitiria
conceber e realizar um sistema de informação documentária ‘perfeito’, ou
seja, capaz de fornecer toda ‘boa informação’ [destaque nosso], e só esta,
àqueles que têm necessidade, e sob uma forma adequada. Nesta visão, o
interesse de pesquisadores em técnicas de tratamento, armazenamento, busca e
difusão de documentos e seus conteúdos para ‘fornecer informação à.’,
partiu para uma abordagem mais global sobre informação que acabou por gerar
indefinição e ambiguidade.
Afirma que as ambiguidades e contradições desta abordagem são evidentes no
início do século XXI (mas têm início na década de 1990) e explicam as
divergências de pontos de vista expressos por um número cada vez maior de
pesquisadores em Ciência da Informação. Também lembra que estas divergências
justificam as perguntas daqueles que são de fora da Ciência da Informação
relativas ao que seja esta área.
Ao questionar a convivência de diversas abordagens em Ciência da Informação,
Fondin pergunta se esta área pode ao mesmo tempo ser a ciência da difusão
dos saberes e a ciência da busca documentária. Afirma que ela não poderia
ter como objeto de estudo, simultaneamente, os fenômenos primários e os
fenômenos secundários de produção e difusão do conhecimento. Sendo os
fenômenos secundários aqueles relacionados à produção e difusão de
informação no âmbito de sistemas, entendemos que tanto os fenômenos
primários quanto os secundários são pertinentes à área mas não ocupam o
mesmo papel: os secundários não podem ser compreendidos sem os primários, já
que estes conformam os ambientes sociais e cognitivos que merecem a
intervenção intencional daqueles, mas não se configuram como objeto da
Ciência da Informação.
Este autor acredita que, de fato, trata-se de justaposição de fenômenos e
seus sistemas correspondentes, pois a única dependência entre eles é
cronológica e sua única ligação é o documento em sua materialidade.
Observamos que o foco na produção e difusão dos saberes assemelha-se àquele
explorado por Frohmann, já que não evidencia o processo documentário
propriamente. Este foco distancia-se da explicitação de Otlet quando afirma
que a Documentologia não seria uma teoria de transmissão dos saberes, mas de
intervenção na produção e uso dos documentos. Como dissemos, trata-se da
atribuição hermenêutica (ou interpretativa) que opera pela busca de meios e
métodos que deem conta da mensagem do autor do documento de modo rápido e
preciso.
Fondin afirma que muitas ciências estudam os fenômenos da vida e do
movimento, integrando a palavra ‘informação’ em seu vocabulário explicativo,
como a Física, Biologia, Direito, Ciência da Comunicação, Ciência da
Informação (diríamos também Psicologia, Sociologia, Ciência da Computação).
A informação é objeto de estudo de todas estas ciências, pois um objeto
social não pertence de direito a nenhuma delas. A partir deste quadro, Fondin pergunta qual especificidade científica a Ciência da Informação
reivindica em torno do objeto informação, uma vez que ela não pode pretender
estudar todos os conteúdos de todas as mensagens em suas entidades
correspondentes.
Dada a característica intrínseca do termo informação relativa à abrangência
em que se manifesta, a retomada da noção de documento originada na corrente
denominada Documentação parece promissora como recurso para o acercamento do
conceito de informação que identifica nossa área de interesse.
Análise e comentários dos resultados
O resultado do cotejamento a partir das fichas terminográficas de apoio à
coleta das afirmações dos autores analisados mostra reiteração de
determinados traços que permitem a identificação de similaridades entre as
abordagens.
Inicialmente, a proposta de Otlet pode ser resumida na noção de documento
como registro do pensamento individual e da memória coletiva da humanidade
que permite o transporte de ideias, servindo como instrumento de pesquisa,
ensino, cultura e lazer. Desde sua discípula direta – Suzanne Briet –, até
os franceses e espanhóis discípulos da versão clássica da noção de
documento, os traços iniciais se mantêm mas são acrescidos de elementos que
se relacionam ao signo e à comunicação da informação, assim como à própria
palavra informação e derivadas. Para estes pesquisadores, documento seria
objeto simultaneamente de natureza material e conceitual, potencialmente
informativo, pois apresenta capacidade de conservação, transporte,
reprodução e comunicação do signo.
Dentre os franceses, Escarpit trabalha com a ideia de documento enquanto
meio de constituição de um saber, formado por mensagem estabilizada sobre um
suporte que a torna independente do tempo e sincronicamente disponível para
uma leitura em função de um projeto a realizar, de tal modo que haja uma
produção informacional nova, e não apenas uma reativação do evento. Este
autor reforça, para a compreensão de documento, as noções de tempo,
sincronia e produção de informações novas, apontando para a relação não
linear entre emissor e receptor e para o papel protagonista do usuário.
Outro ponto de debate é aquele relativo às tipologias de objetos que
caracterizariam os documentos. A tendência atual, já colocada por Otlet, é
a de que não é o tipo de objeto que define o documento, mas seu uso enquanto
tal.
As categorizações realizadas por Briet, Meyriat e Buckland são
sistematizadas a seguir: documentos textuais ou escritos em diversos
suportes, assim como pessoas, produtos, eventos, objetos naturais,
artefatos, objetos apontando pistas de atividades humanas, objetos tais como
modelos designados para representar ideias, obras de artes, enfim, segundo
Buckland: artefatos com intenção de constituir discurso (aqueles que
convencionalmente chamamos de documentos), artefatos que não tinham esta
intenção (artefatos produzidos com função utilitária ou estética), e objetos
que não são artefatos (seres vivos e elementos da natureza em geral).
Focando a questão mais propriamente nas especificidades da Ciência da
Informação, é Briet quem caracteriza o documento como documento secundário,
ou seja, aquele que é produzido a partir de documentos iniciais ou
originais, visando melhor acesso e uso destes. Neste contexto, cabem as
contribuições de Meyriat para quem a noção de documento depende dos pontos
de vista e dos métodos da Documentação, a qual, por sua vez, segundo
Desantes Guanter, explica-se pela noção de informação e não existe sem esta.
Na produção espanhola que este último autor representa, Lasso de la Vega deu
início à noção de documento, cujas operações constituindo massa documental
são condição necessária para a atividade científica e para o desenvolvimento
da Ciência.
Como abstração e generalização mais interessante a esta discussão,
encontramos especial-mente em Meyriat, mas também em Sagredo Fernández e
Izquierdo Arroyo, e em Buckland, ideias relativas à produção e uso de
documentos como categorias necessárias para a compreensão do conceito, que
resumimos a seguir: o documento é objeto produzido ou não com intenção de
ser documento, pode funcionar ou não como documento, pois o uso como
documento é que determina que ele assim o seja, o qual, por sua vez, pode
modificar-se com o tempo dependendo dos diversos usos do mesmo documento.
De modo distinto dos anteriores, citamos Frohmann cujas caracterizações sob
os aspectos institucionais e sociais voltam-se ao documento como informação
materializada que, portanto, apresenta peso, massa, inércia e estabilidade a
tal ponto que pode configurar a vida social. Este autor trata também do
documento enquanto objeto que apresenta informatividade, a qual se dá
segundo sua materialidade, seus lugares institucionais, os modos pelos quais
é socialmente disciplinado e sua contingência histórica. Esta noção de
documento assemelha-se àquela apresentada no parágrafo anterior pelos
discípulos da versão clássica, cuja ênfase está no uso. Outros traços que se
distinguem referem-se à noção de documentação, a qual não evidencia a ideia
das práticas documentárias (ações de representação para recuperação da
informação) dos outros autores tratados, indicando abordagem sobre produção
e uso de documentos que independe destas práticas.
Especialmente distintos, contudo, são os traços apresentados por Fondin
sobre a literatura anglo-saxã, enquanto corrente dominante de Ciência da
Informação, cuja abordagem de informação tende a prescindir da noção de
documento como recurso para difusão da informação a públicos específicos, e
a diluir a especificidade desta atividade ao tratar simultaneamente da
produção e uso de saberes e da produção e uso de informação. Segundo este
autor, como a informação é objeto social que pode ser abordado por diversas
áreas, esta corrente partiu para uma abordagem mais global sobre informação
que acabou por gerar indefinição e ambiguidade.
Considerações finais
O quadro final indica que as definições iniciais de documento e Documentação
já continham, em germe, a noção de informação tal como entendida
contemporaneamente. Em especial, no entanto, constatamos que a construção
histórica do conceito de documento no âmbito da Ciência da Informação é
anterior ao surgimento desta denominação para a área. Por este motivo,
consideramos pertinente o reconhecimento da noção de documento proposta pela
corrente teórica denominada Documentação, representada pelos documentalistas
franceses e espanhóis citados, entre outros ancorados nesta mesma corrente.
A revisão de algumas propostas em torno do documento para a Documentação, e
posteriormente para a Ciência da Informação, tende a mostrar que o objeto
desta área não seria uma outra área de conhecimento, nem seria a informação
– registrada ou não –, do que decorre que também não seria o documento. Não
seria, ainda, o sistema de informação documentária, ou o usuário da
informação. As propostas tendem a corroborar a ideia de que este objeto seja
constituído das ações que visam a promoção do acesso e uso da informação.
Estas ações são aquelas de elaboração da informação institucional, as quais
são fundadas em hipóteses de organização. Para Smit (2000, p. 34),
‘institucionalização da informação’ é o fruto dos processos de estocagem e
registro de informações, uma vez que estes decorrem de decisões
institucionais (ou, por extensão, sociais). Este produto que a área realiza
confere “status” a certas informações e o nega a outras. A informação, ao ser institucionalizada em nome de uma utilidade que lhe foi atribuída, é organizada em nome de objetivos institucionais. A institucionalização da informação (...) encontra sua justificativa cultural, social e econômica à medida que esta informação é disponibilizada para a sociedade, ou comunidade, que financia a manutenção do estoque.
Na construção da informação institucional, os documentos criados pela Ciência da Informação assemelham-se à ideia dos ‘documentos secundários’, conforme sugere Briet, e à ação intencional do profissional quando dispõe o documento inicial em um contexto que não estava antes, dando-lhe personalidade, como reforça Rendón Rojas. A atividade documentária desenvolve-se, nesse sentido, a partir da intenção de construir registros que possam ser informativos, considerando não apenas as características extrínsecas do documento original (do autor), como sua possibilidade de recepção (vínculos de adesão).
Dito de outro modo, tais registros procuram otimizar a possibilidade de uso
e de interpretação, caracterizando-se, assim, como produtos que, elaborados
por meio de procedimentos metodológicos específicos, permitem à Ciência da
Informação exercer sua função social. Ressaltamos, no entanto, que a
intencionalidade da atividade documentária não implica automaticamente seu
uso efetivo traduzido em apropriação. Como afirmou Peñuela Canizal
(1987), a
informação da linguagem é diferente da informação da mensagem (Lara, 1999).
A teoria social do documento foi tratada por Lund (2009, p. 416) a partir de
duas abordagens: uma mais ampla que enfoca o papel social do documento, e
outra que se volta principalmente à linguística, tratando de mensagens
escritas e faladas. O autor afirma que esta diferença apresenta-se como um
importante desafio para a Ciência da Informação, uma vez que a teoria do
documento definida de modo mais amplo atende aos interesses científicos
gerais de estudo de como documentos funcionam na sociedade, mas a teoria do
documento definida sob menor amplitude é mais relevante para o
desenvolvimento de fundamentos teóricos para gestão profissional de
documentos.
A reiteração das afirmações sobre o documento como instância física e
informativa corrobora o caráter pragmático da noção de documento. Sob essa
perspectiva, o tratamento da informação não se dissocia dos contextos
culturais de produção e uso de conhecimento, demandando a combinação de
referências da produção informacional, dos objetivos institucionais e dos
elementos cognitivos e comunicacionais dos públicos da informação, como meio
de otimizar a circulação social da informação.
Como conclusão, podemos afirmar que a recuperação histórica da discussão
sobre a noção de documento e de Documentação permite afirmar a
especificidade da Ciência da Informação, cuja função é a de construir novos
documentos a partir de documentos originais ou de dados esparsos (como nos
dossiês, segundo Otlet), visando realizar a mediação entre objetos
potencialmente informativos e pessoas potencialmente usuárias da informação.
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Sobre os autores / About the Author:
Doutora, professora da Escola de Ciência da Informação (ECI), UFMG.
Marilda Lopes Ginez de Lara
Doutora, professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA), USP.