Resumo: Expõe o pensamento sartriano a respeito da leitura: um exercício de liberdade, um pacto de generosidade, um engajamento no mundo. Aponta a exigência do autor e do leitor quanto à continuidade da escrita e da leitura. Mostra como Sartre privilegia o leitor e sua consciência imaginante, pois, para o filósofo, o texto só se concretiza no momento da leitura, quando o leitor lhe confere sentido estético. Apresenta a capacidade do leitor em conjeturar sobre o texto, realizando antecipações; tal é possível pelas lembranças e percepções comuns; assim, em Sartre, o tempo é histórico. Menciona a idéia sartriana sobre a prosa ser uma objetividade criada pela consciência a partir de um corpo. Indica o processo de descentramento no ato da leitura, que acontece tanto na produção, quanto no desvelamento do objeto literário; dessa maneira, a leitura transcende o texto. Infere, pela análise de extratos literários selecionados do livro Que é a literatura, que a leitura pode ser considerada um fenômeno temporal, corporal, descentrado, transcendental.
Palavras-chave:
Leitor; Leitura e criação dirigida; Leitura, fenômeno temporal; Leitura,
fenômeno corporal; Leitura, fenômeno descentrado; Leitura, fenômeno
transcendental.
Abstract:
It exposes thought Sartre’s think and point of view about
the reading: one practice of freedom, one pact of generosity, one engagement
in the world, one guided creation. Points to the requirement of the author
and the reader as to the continuity of the writing and reading. Shows how
Sartre focuses the reader and the imaginative consciousness, therefore, for
the philosopher, the text comes into being only at the time of reading when
the reader gives it aesthetic. Displays the reader’s conjecture on the text,
making advances; it is possible for the memories and perceptions common; so
in Sartre, the time is history. Sartre mentions the idea of the prose is an
objectivity created by the consciousness from one body. Indicates the
process of decentralization in the act of reading, which happens in the
production, the unveiling of the literary object; in this way, reading
beyond the text. It says by the analysis of literary work extracts of the
book What is the literature, the reading can be considered one temporal
phenomenon, corporal phenomenon, decentralised phenomenon and transcendental
phenomenon.
Keywords:
Reader; Reading-guided creation; Reading and temporal phenomenon; Reading
and corporal phenomenon; Reading and decentralized phenomenon; reading
andtranscendental phenomenon.
Introdução
Esse artigo pretende analisar o pensamento
sartriano a respeito da leitura, inferindo que a mesma pode ser
entendida como um fenômeno temporal, corporal, descentrado e transcendental.
O ponto de partida para as argumentações a respeito da leitura é o livro Que
é a literatura?, obra em que Sartre expõe a literatura como posicionamento
no mundo, e o escritor como um falador que se engaja na obra para provocar o
leitor. Cabe a esse último, por meio da imaginação, desvendar o texto com a
liberdade que lhe é garantida no exercício da leitura.
Assim, no ato da leitura existe uma cumplicidade entre o leitor e o autor,
que Jean-Paul Sartre
chama de pacto de generosidade. Nesse pacto, o leitor tem função primordial,
pois trafega com desenvoltura no texto, ora interpretando-o, ora realizando
previsões sobre ele, ora lapidando-o com prazer – de tal forma que se
configura como o responsável pela criação do objeto literário, muito embora
tal objeto seja produzido pelo autor.
A leitura segundo Sartre
Pacto é um contrato, um ajuste entre duas ou mais pessoas. Como o escritor
não escreve para si, mas para o outro, ele tem, implícito, um contrato com
esse outro e, então, é como um pacto que Sartre (2004, p.
46) define a leitura:
a leitura é um pacto de generosidade entre o autor e o leitor; cada um confia no outro, conta com o outro, exige do outro tanto quanto exige de si mesmo. Essa confiança já é, em si mesma, generosidade: ninguém pode obrigar o autor a crer que o leitor fará uso de sua liberdade; ninguém pode obrigar o leitor a crer que o autor fez uso da sua.
Nesse pacto de generosidade entre autor e leitor, ambos se entregam ao texto e realizam exigências. O leitor exige que o autor escreva novamente, e o autor exige que o leitor experimente sua liberdade. Contudo, esse contrato sartriano da leitura implica em transcender o corpo do texto em favor da imaginação do leitor. Por que tal pacto favorece o leitor? Porque, na visão de Sartre (2004, p. 35) “o objeto literário é um estranho pião, que só existe em movimento”; destarte, “para fazê-lo surgir é necessário um ato concreto que se chama leitura, e ele só dura enquanto essa leitura durar”; continua o pensador: “fora daí, há apenas traços negros sobre o papel”; assim, “ler implica prever, esperar”, e “os leitores estão sempre adiante da frase que leem.”
O que significa isso? Que Sartre entronizou o leitor, ou seja, ele
transformou o leitor em regente do texto literário. No pensamento sartriano,
o texto só adquire sentido estético quando o leitor, pela sua consciência
imaginante, cria um significado para as frases. Por polir o texto com
sua imaginação criadora, pode o leitor arvorar-se em criador e, dessa feita,
atuar como regente do texto literário, ou, dito de outra maneira: como o
artista se confunde com a obra, é o olhar imaginante do leitor que se
responsabiliza pela criação. Ou, ainda, como lembra Ouriques
(2008, p. 24), “os olhos do leitor seriam marcas de filtro, de busca, de
interpretações.”
Além disso, o filósofo tem como certa a capacidade do leitor de prever e
conjeturar sobre o texto (vivencia o futuro) e a incapacidade do
escritor de fazer o mesmo (posto que escreveu no passado) – o que é
um indício da temporalidade da leitura. Entretanto, em Sartre
(2004, p. 56) o tempo é histórico, tem a ver com o contexto, “as lembranças
e percepções comuns”, de sorte que “o escritor fala a seus
contemporâneos.”
Dessa feita, um livro emociona ou causa indignação ao leitor quando o mesmo
vivenciou os fatos narrados, sejam estes fatos reais ou fictícios. O
fundamental é que os valores e costumes apresentados na obra literária
tenham sido partilhados por autor e leitor. Por esse motivo, Sartre
considera responsabilidade do autor apontar os acontecimentos históricos sem
se esconder sob o manto da neutralidade, isto é, ele defende o engajamento
do escritor, sua liberdade de opinar, visto que, assim como os
acontecimentos, escritor e leitor são históricos, não podendo, então, viver
alienados das questões sociais à sua volta.
Isso pode ser observado nas palavras de Sartre (2004, p.
20): “o escritor ‘engajado’... abandonou o sonho impossível de fazer uma
pintura imparcial da Sociedade e da condição humana.” Assim, o escritor
engajado luta para não ser objetividade, ou seja, revela, no texto
literário, as mazelas da humanidade como ele as vê e deseja que o leitor as
veja, ou, como disse Ouriques (2008, p. 20), para Sartre o
prosador “é portador de uma visão de mundo situada” e sua produção “se
revela impregnada de posicionamentos e escolhas.” A preocupação
sartriana com o engajamento se justifica, lembra Ouriques
(2008, p. 42), pelo fato de o filósofo “ter transitado numa das épocas
mais conturbada da história, em destaque o período de ocupação nazista”
e, dessa forma, “soube retratar a fragilidade, a angústia das pessoas
diante de um mundo esfacelado”, cuja única alternativa seria “reerguer-se a
partir dos destroços da guerra.”
Como para Sartre o tempo é histórico, o engajamento de prosador se dá com o
leitor que vive na mesma época que a sua, e, então, “o escritor engajado não
escreve para a posteridade, sua escolha é responder às exigências do tempo
presente.” (Ouriques, 2008, p. 44). Por esse motivo,
o filósofo considera a prosa como se caracterizando mais pela utilidade do
que pela beleza, o que a distingue da poesia. Além disso, para Sartre o
texto literário, diferente da pintura ou da música, é especial no sentido de
valer-se da linguagem sempre com uma intenção: a de comunicar algo que
incite à ação e não que sirva apenas à mera contemplação ou ao puro êxtase.
Tal se dá porque o artista não considera “as cores e os sons como uma linguagem” e, dessa feita, a pintura e a música não exprimem, realmente, a expressão; assim, o pintor “cria uma casa imaginária sobre a tela, e não um signo de casa”, visto que “o pintor é mudo: ele nos apresenta um casebre, só isso; você pode ver nele o que quiser”; por outro lado, “o escritor pode dirigir o leitor e, se descreve um casebre, mostrar nele o símbolo das injustiças sociais, provocar nossa indignação.” (Sartre, 2004, p. 11, 12). Dessa feita, o escritor, ao considerar as palavras como signos, pode domesticá-las, pode utilizá-las como um instrumento de manipulação, pois “a prosa é utilitária por essência” e “o escritor é um falador; designa, demonstra, ordena, recusa, interpela, suplica, insulta, persuade , insinua” e, portanto, “temos o direito de perguntar ao prosador antes de mais nada: com que finalidade você escreve?” (Sartre, 2004, p. 18, 19).
Assim, por valer-se das palavras como meio de persuasão, o escritor se
engaja, quer dizer, ele tem um motivo para escrever, ele tem um público a
quem deseja atingir. Para o filósofo, não é gratuita a verbosidade do
escritor. Embutidas no texto estão a intenção de comunicar e a intenção de
modificar comportamentos – portanto, o escritor não é imparcial e utiliza as
palavras como armas poderosas de convencimento.
Além do mais, para Sartre, escrever é um trabalho, exige esforço e
comprometimento do autor, ao passo que ler é um prazer, o leitor se
desvincula de compromissos assumidos com a finalidade de se deliciar com o
texto. Sendo trabalho, o escritor labuta para colocar no papel sua
subjetividade, ou seja, projeta na escritura suas ideias e seus valores, seu
saber consolidado e cristalizado. Por outro lado, o leitor vê o texto como
um objeto a ser apreciado e lapidado.
Muito embora respeite a liberdade do leitor em modificar ou não seu
comportamento pela leitura, Sartre (2004, p. 50) aposta
naquele leitor que se envolve: “quanto a mim que leio, se crio e mantenho
em existência um mundo injusto, não posso fazê-lo sem que me torne
responsável por ele” e “toda arte do autor consiste em me obrigar a
criar aquilo que ele desvenda – portanto, em me comprometer”; assim, o
leitor cria o texto que o autor, generosamente, desvenda. Se o escritor
retira a venda que recobre suas palavras e permite que o leitor brinque com
elas a ponto de inserir o sentido que lhe apraz, fica a pergunta: ao criar
novos significados, o leitor, também, não desvenda o texto?
Segundo Sartre (2004, p. 34), “à nossa certeza interior
de sermos ‘desvendantes’, se junta aquela de sermos inessenciais à coisa
desvendada.” Parece existir, aqui, um paradoxo em Sartre: se somos
desvendantes e inessenciais em relação à coisa desvendada, se não
produzimos o ser, como a leitura poderia atingir o leitor? Como o escritor
modificaria comportamentos? Afinal, por que escrever? Tal paradoxo tem uma
razão de ser: Sartre não separa o operário, o artesão ou o técnico, do
prosador, visto considerar este último como alguém que utiliza as palavras
de maneira utilitária. Portanto, produção, a seu ver, não é o mesmo que
criação. As pessoas produzem, a consciência cria. Assim, o filósofo define o
autor como produtor da obra literária, cabendo ao leitor a função desvelante,
ou seja, é a consciência imaginante do leitor quem de fato, desvenda o
texto. Nesse sentido, o leitor é soberano no texto literário e, portanto, é
sua função imaginante que concederá sentido ao lido, ou, como diz
Sartre (2004, p. 34): “a criação passa para o
inessencial em relação à atividade criadora.”
Dito de outra maneira: Sartre considera o papel desvelante do leitor como
sendo superior ao papel produtor do autor, e o texto também não adquire
relevância, posto que se transformou em objeto – e, portanto, inessencial.
Assim, o sujeito-leitor passa à condição de essencial na criação artística
posto que a transforma em objeto estético pelos meandros de sua imaginação,
por sua consciência desvelante.
Cumpre lembrar que, para Sartre, o ser-em-si, o real, serve apenas de
respaldo à imaginação. Assim é que o objeto estético é da ordem da
imaginação e não da percepção. Destarte, a leitura seria um objeto (ser-em-si),
e a consciência do leitor (para-si), concederia sentidos a ela.
Conquanto acredite que a imaginação esteja apoiada na percepção, e que esta
última apenas revele perfis, tem como certo que a imaginação, a partir dos
perfis desvelados pela consciência imaginante, organize esses perfis como se
os mesmos fossem objetos, uma objetividade estética.
Ainda segundo o pensamento sartriano, o objeto estético está apoiado em um
corpo que não é para aquele essencial. É como se a prosa fosse o equivalente
da consciência reflexiva, ou seja, diferente de Merleau-Ponty, Sartre
defende que a prosa não é obra de um corpo linguageiro, mas uma
objetividade criada pela consciência a partir de um corpo. Assim, muito
embora em Sartre a imaginação do leitor seja primordial no processo estético
chamado leitura e o corpo seja uma contingência nesse mesmo processo, é
possível observar em Sartre, também, a intercorporeidade e o descentramento
na leitura.
Tal se dá porque tanto o autor quanto o leitor valem-se da linguagem e a
mesma, segundo Sartre (2004, 19), “é nossa carapaça e
nossas antenas, protege-nos contra os outros e informa-nos a respeito deles,
é um prolongamento dos nossos sentidos” e, continua: “estamos na
linguagem como em nosso corpo; nós a sentimos espontaneamente
ultrapassando-a em direção a outros fins, tal como sentimos as nossas mãos e
os nossos pés”. Infere-se que: ao considerar a linguagem um
prolongamento dos nossos sentidos, Sartre está admitindo que a mesma exige
um corpo, muito embora não reconheça aí qualquer sorte de origem; e se,
segundo Sartre (2004, p. 22), “as palavras são
transparentes e o olhar as atravessa”, então a leitura implica valer-se
dos olhos da carne e o corpo ocuparia uma posição relevante nesse processo;
além disso, se o escritor produz o objeto literário para o outro, para o
leitor e este último o desvela porque aceita a fala do outro, do autor,
ambos se descentram nesse exercício chamado leitura.
E ainda: se, conforme Sartre (2004, p. 21), “a função
do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e considerar-se
inocente diante dele”, pode-se dizer que isso significa que o autor não se
centra em suas ideias, ele as descentra para atingir o outro, pois as
palavras são “pistolas carregadas.” (Brice-Parain apud
Sartre, 2004, p. 21) . Já foi observado que o escritor se engaja. Ora,
se o prosador se engaja, ele se descentra, haja vista que se preocupa com o
outro, com o leitor, pois suas palavras têm a intenção de comunicar algo, de
mudar certas atitudes do leitor, de fato, é com essa finalidade que ele
escreve.
Já foi observado, também, que para Sartre o leitor prevê e vai além do
escrito, realiza uma intervenção no texto, reinventa a obra. Mesmo
considerando o leitor como soberano no texto, será que ele apaga
completamente a figura do autor? Não, pois Sartre (2004,
p. 38) tem a leitura como “uma criação dirigida”, quer dizer, o autor
“guia” o leitor, coloca “balizas” para o leitor, muito embora estas
balizas estejam separadas por “espaços vazios.” Portanto, será nesses
espaços vazios que o leitor irá inserir sua subjetividade.
Assim, “uma vez que a criação só pode encontrar sua realização final na
leitura, uma vez que o artista deve confiar a outrem a tarefa de completar
aquilo que iniciou, ... toda obra literária é um apelo” e “o escritor
apela à liberdade do leitor para que esta colabore na produção da obra.”
(Sartre, 2004, p. 39). Ora, existem aqui duas
assertivas sartrianas: a obra literária precisa tanto do engajamento
do autor quanto da liberdade do leitor e ambos – autor e leitor – geram a
obra de arte. Portanto, existe uma parceria implícita, um pacto entre o
autor e o leitor.
Afirma Ouriques (2008, p. 43, 44) que, de acordo com o
pensamento sartriano, “ao se dirigir aos corações dos homens, às suas
emoções e seu imaginário, o romancista não procura explicitamente impor suas
ideias, mesmo tendo sua maneira pessoal de analisar o mundo”, mas
“acaba intervindo junto ao leitor através das vias que lhe são próprias,
sugerindo-lhe um pacto” e, assim, espera “sua participação na transformação
social”, pois a literatura, para Sartre, “pertence ao plano
sociológico, baseia-se em critérios de justiça, liberdade e engajamento” com
o intuito de suscitar “a liberdade existente em cada um de nós.”
Muito embora o filósofo não considere o livro como um meio para um fim, quer
dizer, o autor não deve valer-se do livro como ferramenta para suscitar
emoções no leitor, acredita, contudo, que o livro é uma finalidade em si
mesma, qual seja, promover a liberdade do leitor. Isso parece uma
contradição. Se o livro não visa a um fim, como poderia visar a liberdade do
leitor? Parece que Sartre, no seu afã de destacar a soberania do leitor no
texto, tropeçou nas palavras. Parece, também, que ele percebeu o lapso,
pois, acrescenta:
A leitura é um exercício de generosidade; e aquilo que o escritor pede ao leitor não é a aplicação de uma liberdade abstrata, mas a doação de toda a sua pessoa, com suas paixões, suas prevenções, suas simpatias, seu temperamento sexual, sua escala de valores. (Sartre, 2004, p. 42).
O autor, portanto, deseja suscitar emoções no leitor; deseja que o leitor,
conquanto exerça a liberdade, se envolva com o texto. Como o autor faz isto?
Dando ao leitor o “prazer estético”, “a alegria estética.” (Sartre,
2004, p. 47). Assim, a generosidade no ato da leitura implica em
descentramento, pois “a alegria estética provém da consciência que tomo
de resgatar e interiorizar isso que é o não-eu por excelência” e
“envolve uma exigência absoluta em relação a outrem”, haja vista que
escrever “é recorrer à consciência de outrem para se fazer reconhecer
como essencial à totalidade do ser; é querer viver essa essencialidade por
pessoas interpostas.” (Sartre, 2004, p. 49).
Como a leitura não é “uma operação mecânica”, o leitor, se estiver
“distraído, cansado, confuso, desatento, a maior parte das relações lhe
escaparão”, e “ele não conseguirá fazer ‘pegar’ o objeto (no sentido
em que se diz que o fogo ‘pegou’ ou ‘não pegou’)”, pois cabe a ele projetar
“para além das palavras”, visto que o “sentido não está mais contido
nas palavras”, pois “o objeto literário, ainda que se realize através
da linguagem, nunca é dado na linguagem.” (Sartre,
2004, p. 37). Tal acontece, explicita Müller-Granzotto
(2005, p.5), porque o objeto literário “não tem outra substância que a
subjetividade do leitor” e em Sartre “a obra existe apenas no nível
exato das capacidades do leitor.”
Conclusão
Resumindo o pensamento sartriano a respeito da leitura, pode-se dizer que o
filósofo, muito embora atribua ao leitor a função desvelante do
texto, reconhece que “é o esforço conjugado do autor com o leitor que
fará surgir esse objeto concreto e imaginário que é a obra do espírito.”
(Sartre, 2004, p. 37). Dito de outra maneira: segundo o
pensador, o sentido da obra não está contido nas palavras de um livro, é o
leitor que introduzirá no texto a significação que lhe apraz. Mas significa
também que o autor manteve certos silêncios porque quis, pois, como seu
trabalho é subjetivo, ele escolhe, deliberadamente, esconder algumas de suas
intenções. Entretanto, muito embora estas não estejam expressas no texto,
são sua fala – fala esta que o leitor tem a liberdade de contestar.
Dessa maneira, o pacto entre escritor e leitor funciona como uma rua de mão
dupla na qual ambos trafegam respeitando, cada um, seu lado da direção, a
sinalização necessária, a visibilidade do caminho, e, assim, sem atropelos,
suavemente, dá-se a experiência da leitura – temporal, corporal,
descentrada, transcendente.
Referências Bibliográficas
FMüller-Granzotto, Marcos José. Sartre e Merleau-Ponty acerca do “objeto
estético”. 2005. Sinopse do Curso de Pós-Graduação em Literatura: Filosofia
e Literatura, da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis,
2005.
Ouriques, Débora Regina. Sartre e Merleau-Ponty em torno da noção de objeto
estético. 2008. 120 f. Dissertação (Mestrado em Literatura) – Universidade
Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2008.
Sartre, Jean-Paul. Que é a literatura? Tradução de Carlos Felipe Moisés. 3.
ed. São Paulo: Ática, 2004.
Sobre os autores / About the Author:
Doutora em Literatura. Professora no Curso de Biblioteconomia, Departamento de Ciência da Informação, da Universidade Federal de Santa Catarina