DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.3   n.4  ago/02                       COLUNAS

Sobre uma Introdução às Ciências da Comunicação*
por Joana Coeli Ribeiro Garcia
 

As ciências da informação e da comunicação (CIC) buscam encontrar os fundamentos teóricos que as constituem como ciência, utilizando-se de modelos de outras áreas do conhecimento com as quais mantêm um inter-relacionamento que não se transforma em verdadeiro saber. Na Introdução às ciências da comunicação, Daniel Bougnoux exemplifica o movimento, com a metáfora do vestíbulo da casa, onde profissionais oriundos de diversas disciplinas entram e discutem, mas ninguém faz o trabalho pesado que a casa exige. Isto ocorre porque cada um detém apenas parcelas do conhecimento o que os impede de elaborar a teoria que daria sustentação científica às CIC e, algumas vezes, dificulta a comunicação entre eles. Considera essas questões básicas e assume a tarefa de fornecer os elementos para o leitor "entrar e circular" nas ciências da informação e da comunicação através de uma caminhada crítica que perpassa várias ciências e configura uma rede, uma interdisciplina, possibilitando inúmeras correlações. 

O autor, anteriormente professor de filosofia e literatura, se contagia pela possibilidade de trançar problemáticas não esclarecidas em outras áreas, utilizando uma abordagem comunicacional de questões antigas até encontrar o entendimento das mutações atuais na interseção das reflexões filosóficas e sociais. Ainda que Daniel Bougnoux designe a obra como introdutória ela é indispensável a quantos se dedicam aos estudos e à pesquisa dos problemas que envolvem o fenômeno da informação e o processo de sua comunicação. Aliás as idéias, expostas de forma clara, são muitas vezes acompanhadas de exemplos e/ou de metáforas para que a "orquestra não desafine", isto é, para que estabeleçam as correlações necessárias e sejam entendidas reportando-se ao contexto de sua transmissão. Ao utilizar a expressão de Bateson "comunicar é entrar na orquestra", Bougnoux explicita que isto corresponde a jogar o jogo de um certo código, pois ao contrário, não há comunicação. 

Identifica a origem das CIC em duas vertentes: uma pedagógica que nasce nas universidades desejosas de adaptar seus cursos para atender à demanda de novas profissões; outra teórica que surge de uma interrogação antropológica (centrada nos anos 60) sobre a redefinição da cultura que a identifica com as várias maneiras de comunicar. Coloca o vivido ou pensado pelas gerações precedentes em relações horizontais, pragmáticas; aceita, além da palavra, do signo lingüístico, a fotografia, o vídeo, a imagem, o indício e a expressão corporal como os componentes de uma vasta orquestra semiótica e em conformidade com às trocas habituais; critica a concepção individualista do conhecimento aceitando a comunicação em companhia da filosofia atual baseada no pensamento de relação fundadora e primordial; descreve a exterioridade da razão nas redes sócio-técnicas das ferramentas de conhecimento, classificação, e administração; avalia os efeitos da técnica (mídia) sobre o espírito, segundo uma abordagem histórica, materialista própria da midiologia; admite que informação deixa o futuro indefinidamente aberto pois atende ao apelo do mundo exterior para enriquecer, guiar e eventualmente, complicar a vida do homem. 

Sintetiza a trajetória da obra respondendo a quatro perguntas, das quais, três referem-se a que o livro não contém. Não faz nenhum alerta para a febre do virtual e do simulacro. Ao contrário se regozija pela possibilidade do virtual multiplicar os signos, as coisas, as variáveis em torno dos dados da natureza o que é um aumento real das experiências humanas. Não desenvolve a expressão "sociedade do espetáculo" de Guy Debord, porquanto prefere a materialização das condições de transmissão de mensagens em oposição ao idealismo do espetáculo das representações do teatro, do circo, e de outras tantas formas, bem assim das seduções publicitárias. 

(... continua)
(...)
 
 

Não tem uma metodologia a propor ao estudante e ao pesquisador em vista das áreas cobertas pelas CIC, porque elas não falam em uníssono e este é mais um motivo para que cada um realize buscas à sua maneira. Por fim, responde à primeira das quatro questões que concluem o livro e são o fio condutor das discussões que empreende: merecem as CIC a designação de ciências? Afirma que elas mal preenchem os critérios de cientismo porquanto seu objeto quando engastado numa relação pragmática sujeito a sujeito dificilmente se presta a uma elaboração rigorosa. Em contrapartida, realizam um cruzamento com as ciências sociais já constituídas em termos de problemáticas e de suas curiosidades, transformando-as num processo inacabado de comunicação.

Introdução às ciências da comunicação ultrapassa a história das tecnologias de tratamento e transmissão das mensagens em direção à midiologia em seus aspectos semiológicos (signos usados pela mídia), pragmáticos (como os usuários se apropriam das mensagens), imaginários (sonhos individuais ou coletivos que envolvem a ferramenta com identificações e projeções) e sistêmicos (meios de comunicação que preparam um outro meio que se transforma em prolongamento de nós mesmos). Como Régis Debray, Bougnoux defende que mais importante que o conteúdo das mensagens é a compreensão das relações em que tais mensagens se inscrevem. A midiologia trata das ferramentas de transmissão, mas principalmente dos usos e efeitos simbólicos das mensagens o que significa dizer que envolvimento social e interpessoal também se agregam. Entende transmissão como a relação entre o antes e o agora, portanto com horizonte histórico, resultando numa transformação que pode tanto ser uma maldição como um milagre. 

Coerentemente Daniel Bougnoux conceitua comunicação como uma ação sobre o espírito das pessoas. A ação comunicacional não coloca em relação o par técnico sujeito/objeto, mas o par pragmático sujeito/sujeito. "É o homem agindo sobre (as representações de) o homem por meio de signos". E continua, colocando que essa ação é aleatória, pois sempre há no sujeito uma incerteza em relação à resposta dada. Quando as relações pragmáticas aleatórias se concentram em objetos fixos, rotinas, perdem o nome de comunicação, passam, por exemplo, a se chamar ensino ao constituírem os conteúdos programáticos numa escola.  Faz-se necessário a comunicação continuar a ser uma coisa vaga, turbulenta, nem ciência, nem técnica, que está acima e enquadra a maior parte delas. "... uma grande nuvem que os ventos impelem e rasgam, e que plana acima de quase todos os saberes".
 
 




* BOUGNOUX, Daniel. Introdução às Ciências da Comunicação. Bauru: Editora da Universidade do Sagrado Coração, 1999. 220p.



 
 


Joana Coeli Ribeiro Garcia
joanacoeli@uol.com.br
Professora do Departamento de Biblioteconomia e Documentação da Universidade Federal da Paraíba (DBD/UFPB). Doutoranda em Ciência da Informação - MCT/IBICT - UFRJ/ECO