Resumo: O presente texto é resultado de entrevista realizada pelos autores com Aldo de Albuquerque Barreto, por email, em 10 de abril de 2007. O pesquisador gentilmente concordou em responder nossas perguntas sobre a Revista Datagramazero onde participa do Conselho editorial. A qualidade do texto daí resultante estimulou-nos a formatar como artigo para publicação . As reflexões do entrevistados são privadas e não refletem necessariamente o pensamento de todo conselho editorial.
Palavras-chave:
Datagramazero; Periódico eletrônico; Texto; Escritura; Hipertexto; Web;
Acesso livre
Abstract: This text is based in a interview the
authors have made with Aldo de Albuquerque Barreto from Datagramazero
editorial committee. The article is a result of this conversation by
email. The reflections put in this interview by the professor are private ones and
it does
not indicate that they are the
thoughts of the whole
editorial committee.
Keywords: Datagramazero; Eletronic jounal; Text; Hypertex;
Eletronic writing; Web; Open access
“If you are reading this you are benefiting from the Open Access movement in scientific publishing. Open Access reduces the great divide between the haves and have-nots of the scientific world, allowing anyone, anywhere on the planet with internet access to […] the latest scientific reports, unfettered by prohibitive subscription fees or lack of affiliation with a major institution to pay for them. That the process directly delivers to the public a product paid for by their taxes can only be considered a just and additional benefit. But access to cutting edge knowledge is not the only divide between the haves and the have-nots. Even Open Access leaves a vast inequality in scientific discourse.” (Dayton, 2006)
Pesquisadores do quilate de Robert Merton,
John Ziman e
Karl Popper, em
tempos e contextos diferentes advogaram, com razão e paixão, em favor do
conhecimento como um bem público. Para Merton, é uma norma comportamental
dos cientistas; para Ziman, é a realização da ciência como instituição, e
para Popper, é o caminho para a democracia.
Hoje, convive-se com o que alguns pesquisadores apontam como
“mercantilização do conhecimento”, ou, de uma forma mais elegante, para a
necessidade de “uma resposta construtiva às disfunções do mercado no sistema
de comunicação científica”. Um estudo comissionado pelo Parlamento Britânico
(House of Commons, 2004) constatou a pujança do “setor editorial de
informação científica”, cerca de sete bilhões de Euros de faturamento anual.
Segundo Briquet de Lemos (2005), este segmento editorial apresenta forte
tendência ao monopólio e à cartelização - apenas oito fornecedores concentram
quase 70% do mercado mundial, situação essa apontada como uma das principais
causas do constante aumento de preços das assinaturas dos periódicos.
O mesmo autor lembra ainda que o papel das editoras comerciais não esgota a
questão dos preços: as sociedades científicas desempenham também um papel
importante no cenário – para grande parte delas, a publicação de revistas é
uma fonte generosa de recursos.
O Acesso livre é um tema polêmico. Na arena de discussão encontram-se
pesquisadores (do Norte e do Sul), editores, agências de financiamento,
profissionais da informação e aquele a quem Sallán (2006) denominam
“adminstrador da informação bibliométrica”, ou, o Institute of Scientific
Information – ISI. O catalisador das discussões, as Tecnologias de
Informação e Comunicação (TICs), mais especificamente, a Internet. O ponto
de concordância: o livre acesso à informação é uma condição necessária ao
desenvolvimento da ciência. Os pontos de discordância: como garantir
qualidade da informação publicada e, mais importante, quem paga a conta.
Reducionismos à parte, Mueller (2006) apresenta uma sólida visão sobre o
tema, e toca no ponto focal da controvérsia – cabe a própria comunidade
científica decidir pela continuidade do modelo atual, ou, pelo
fortalecimento de um novo paradigma de publicização da informação
científica.
Felizmente, não são raras no Brasil as iniciativas alinhadas com o movimento
do Acesso Livre. O Scielo e o Portal de Acesso Livre são exemplos de
experiências bem sucedidas que vieram para ficar (Neves, 2004). Existem
também boas discussões teóricas sobre o “estado da arte” dos periódicos
eletrônicos no país (Marcondes e Sayão, 2002;
Marcondes, 2003).
Entretanto, como apontado por
Dayton (2006) na epígrafe acima, existe ainda
um grande potencial de interatividade não explorado no Acesso Livre – a
possibilidade de um espaço de discurso entre o autor e o leitor, realização
máxima entre o have e have-not: não basta ter acesso, é preciso dialogar
para construir novo conhecimento.
É aqui que se insere a experiência pioneira do
Datagramazero, muito mais um
processo que um projeto, um devir, livre e on-line, um constante alinhamento
entre conteúdo e tecnologias, uma aposta que a Ciência da Informação “coordenará e induzirá o desenvolvimento de uma infra-estrutura de
possibilidades democráticas e sem barreiras para se exercer a opinião
pessoal”. Esse é o ponto onde
Open Access se encontra
Open Society.
Com o intuito de descortinar e divulgar a experiência do Datagramazero (DGZ)
como um periódico que busca lançar as bases de um projeto nacional para real
aproveitamento das TICs como fonte de acessibilidade e interatividade,
conversamos com Aldo de Albuquerque Barreto, do seu comitê Cientifico.
De princípio, perguntamos como o
DGZ se posiciona frente aos outros
periódicos nacionais na área de Ciência da Informação. Mais especificamente,
gostaríamos de saber que experiências e expectativas um pesquisador com
reconhecimento internacional na área levou para o
DGZ: um pesquisador
(in)satisfeito com o “mercado” de informação no Brasil?
“Iniciar o DGZ foi uma atitude mais de satisfação do que falta dela. Eu notava que o texto modificava seu status e poucos percebiam isso, e ainda percebem no Brasil. O riscado da escrita no conjunto de elementos que a delineiam mudou. O traço ou o "grammé" [1] como o chama Derrida, do grego gramma, significando letra, escritura, daí "gramatologia", daí DataGramaZero, o marco zero de uma nova escrita, a escritura, não como uma substância presente aqui e agora, mas uma diferença, isto é, uma pendência espacial e diferença temporal. Essa estrutura [2] ou melhor, esse princípio estruturador, é comum a todos os sistemas complexos envolvendo o registro e a transferência da informação. A escritura quando hipertextual é de alguma forma, externa à linguagem, pois agrega outros sentidos ao entendimento, não se prende unicamente a visão do texto linear e estático.”
Entra em cena a real possibilidade da hipertextualidade – a tecnologia hipertextual possibilita a abertura a um universo virtualmente irrestrito a diversos universos de conhecimentos como também permite ao leitor traçar seu próprio caminho na busca desse conhecimento. A convergência entre as tecnologias e a teoria literária permitiu um olhar renovado sobre a escrita:
“(...) Há um desentendimento de que o pensamento do autor possa ser expresso além do formato do texto. Quando recebemos um artigo para publicação, depois de aprovado, a primeira tarefa é desformatá-lo em sua estrutura “texto”. Sem modificar o sentido ou qualquer palavra do conteúdo, o texto é quebrado e enunciado em "lexias" de sete a nove linhas. Lexia é um termo de Roland Bartes para uma indicar unidades de leitura, onde o texto pode ser "quebrado” sem afetar sua direção ou sentido; um terremoto de palavras com coesão simbólica.”
Cria-se, assim, uma textualidade composta por blocos de palavras, interligadas por nós, proporcionando cruzamentos sem uma hierarquia rigidamente definida, com inúmeros pontos de entrada e saída, um caminho a ser escolhido por cada leitor, individualmente. Reside aqui o grande desafio para o editor:
“O segundo e mais difícil trabalho é operar neste novo texto de forma a convencer o futuro leitor do DGZ a não imprimi-lo para ler como texto, mas ficar conectado a revista na web. Daí o texto é hiperlincado interna e externamente, usando sempre as palavras do autor. Passa a ser uma bricolagem sem destino no tempo e no espaço. Em uma escritura sobre "a recuperação da informação" você pode, ocasionalmente e se as palavras do artigo permitirem, ir a Londres e assistir as reuniões da "classification research group" ou ser direcionado a um centro de pesquisa na França. Quando você imprime um escrito do DGZ, você perde metade da viagem.”
De fato, texto e hipertexto, este último como descrito por
Theodor Nelson nos anos sessenta do século passado, e enquanto tessituras de vários
discursos, guardam semelhanças, tanto para o autor como para o leitor. A
diferença fundamental, apontam os teóricos, deve-se ao suporte onde o
hipertexto se apóia – a tela do computador. Segundo Costa (1999, p.190),
“ é o aspecto informacional da tecnologia hipertextual que promove as
grandes diferenças na sistemática da leitura de textos que se cruzam na
articulação de um pensamento reflexivo/teórico (...) a leitura /escritura de
textos cruzados na tela de um computador assume aspectos às vezes bastante
distintos”.
Em a História da Leitura, Fischer
(2005) discorre sobre a narrativa virtual
como um texto em estado latente, que deixa de ser uma singularidade para
tornar-se uma estrutura que espera ser modificada pelo leitor interativo,
onde o meio é suprimido na dinâmica das potencialidades. A conectividade
proporcionada pela Internet é, assim, um elemento essencial no processo de
aprendizagem e, mais especificamente, na produção de conhecimento.
Complementa Barreto:
“O DataGramaZero nasceu virtual e pensa na inscrição de informação de maneira diferente. A viagem do leitor foi, antes, uma viagem do escriturador do DGZ. Não há coragem envolvida nesta feitura, mas a satisfação de caminhar por passos de outra pessoa, além de expor uma nova forma de mostrar e ler uma informação.”
A aposta de que o ato da leitura possa se realizar como um ato de criação em
si mesma não deixa de ser uma ousadia em um mercado editorial que,
tradicionalmente, ainda considera um texto científico como uma obra fechada.
Implícito aqui está uma visão de transferência de informação como um pacote
fechado, um quantum, que vai do emissor ao receptor, perdendo as
potencialidades e nuances do próprio meio no processo de assimilação da
informação. Nesse sentido, o movimento do Livre Acesso se realiza
principalmente pela vertente da democratização da informação. Ser livre e
on-line é a realidade do DGZ, ser interativo, é seu futuro.
Encontrar sustentação para a criação do
DGZ longe das amarras dos
financiamentos oficiais e das orientações institucionais foi, de princípio,
uma opção estratégica:
“Uma instituição de pesquisa não está muito interessada em estudos sobre o texto, a escritura, o pensamento do autor ou a apropriação da informação pelo leitor a partir de um texto ou hipertexto. O máximo que querem fazer é digitalizar o texto impresso em formato PDF e colocar tudo sem qualquer nova arquitetura na Internet (...) Os editores do DGZ o querem livre de qualquer vínculo, político, financeiro, religioso. Por uma questão de escolha, o DGZ não pleiteia e, não quer qualquer contribuição, de agências de fomento estabelecidas.”
Perguntado sobre os custos envolvidos na produção do periódico, Barreto respondeu:
“ O custo do DGZ é pequeno se comparado com as revistas impressas em papel. É bancado pela Instituição que o edita, o IASI - Instituto de Inserção na Sociedade da Informação, que é uma Organização Não-Governamental (ONG) destinada à pesquisa e ao ensino, na qual tenho participação operacional de aconselhamento técnico e científico. Não tenho idéia [de qual seria o custo da versão em papel] porque o DGZ não poderia ser impresso sem perder parte de sua substância. O DGZ não teria qualquer sentido impresso no papel. Sendo uma revista em hipertexto reproduzi-la em papel obrigaria em que todo conteúdo fosse reformatado de volta para um texto linear”
Uma equipe enxuta e uma sistemática de trabalho bem elaborada garantem a necessária agilidade de um periódico on-line:
“O DGZ tem uma equipe pequena mais produtiva.Publica seis números ao ano com quatro artigos, excepcionalmente cinco. Não acreditamos que mais artigos possam ser lidos na web. Sendo uma revista virtual, a velocidade de publicação é uma pressão para a edição. Contudo, autores começam a notar a característica diferencial do DGZ e temos tido uma procura muito grande. Quando o DGZ de abril é colocado na web, o DGZ de junho já está pronto. Podendo, contudo, ser modificado se uma semana antes do prazo de ir para a web nos for enviado um excelente artigo, dentro do tema daquele número. Existem originais na fila, mas temos publicado todos os artigos, aprovados, no prazo de 10/12 meses.”
Da recepção de originais até a publicação, tudo é feito virtualmente:
“Os artigos são remetidos pelos autores, é feita uma avaliação primeira de suas características e do seu interesse para o DGZ, que prioriza artigos inovadores onde pelo menos 80 % do conteúdo representem uma reflexão original do autor. O DGZ não publica artigos tipo avaliação de literatura ou avaliação/promoção de produtos ou serviços. São trocados emails com os autores e são indicadas as condições da revistas, inclusive seu reprocessamento em hipertexto. O artigo vai para avaliação do Comitê , onde participo junto com outras relevantes personagens desta área. Usamos, também, consultores "ad hoc". Liberado, o artigo, aguarda uma agregação por tema. Um artigo submetido hoje pode levar seis meses para ser publicado, ou ser publicado em uma semana. Depende de seu tema.”
A política editorial é descrita por Barreto com toda a transparência:
"Uma dificuldade é a recusa de artigos. Muitas vezes recusamos bons artigos, mas que não estão no enquadramento das normas explicitas ou implícitas da revista. As normas explicitas aparecem no site da Revista. As normas implícitas não estão formalizadas, pois são passiveis de negociação. O DGZ, atualmente, não prioriza:
a. Textos descritivos de análise e avaliação de literatura;
b. Textos em formato, tipicamente, de um trabalho acadêmico com estrutura tipo: introdução, revisão de literatura, metodologia resultados e conclusão;
c. Textos que são identificados como tendo sido um trabalho de final de curso de graduação ou posgraduação em seu formato original e em qualquer área.
d. Textos em que a autoria não está relacionada explicita e qualitativamente ao conteúdo do artigo ou autores, ainda, não estabelecidos definitivamente na área de conhecimento.
e. Textos com autoria múltipla, cuja contribuição de um dos autores para o texto é incerta ou não pode ser estabelecida.
f. O DGZ prioriza artigos onde existe um questionamento original e com preponderância de enunciados reveladores de uma reflexão do autor.”
A recusa da autoria múltipla repousa em sólida argumentação epistemológica, transcrita a seguir:
“Entende o Datagramazero que a geração de idéias nas ciências humanas e sociais possui um discurso de criação forte e personalizado, o que torna muito difícil indicar dentro da estrutura de enunciados de um artigo a participação de cada um de múltiplos autores. Entendemos como múltipla autoria, em humanas e sociais, a existência de cinco ou mais autores, para um mesmo artigo. Quando se manifesta este caso, de múltipla autoria, precisamos estabelecer qual a parte de cada autor no texto considerado.
Esta é uma situação diferente das áreas de ciências exatas onde na bancada do laboratório se pode qualificar a participação de cada pesquisador no processo desenvolvido e que depois será descrito na escrita. Nestas áreas é aceito como autor aquele que só gerou dados para o artigo, pois sua percepção de mudança no processo pela introdução de um novo input é uma contribuição que pode visivelmente modificar e requalificar todo o processo modificando o resultado.”
As normas implícitas podem, em conseqüência, ser explicitadas. Para Barreto:
“O que faz de um indivíduo um autor é o fato de que, através de seu nome podermos delimitar, recorta e caracterizar os textos que lhes são atribuídos em um campo de atuação. Isso não significa que o DGZ só aceita ou privilegia autores de uma elite ou lideres em uma área. Queremos identificar uma relação de pertencimento do autor com a área. Uma associação afetuosa construída pelo passar do tempo ou por um feito heróico como a pesquisa de uma tese de doutorado ou uma associação interdisciplinar.
Os discursos de uma disciplina e seus enunciadores definem a qualidade e a estabilidade de uma área do conhecimento e a vulgarização da autoria a enfraquece. O DataGramaZero não pode nem deve inflacionar a autoria na área, provocando uma desvalorização dos seus discursos atribuídos a um excesso de autores sem claro vínculo com o campo; isso poderia comprometer a qualidade da revista e ser um problema para a própria área.
A feitura do Datagramazero impõe um compromisso com os leitores, mas também, um forte compromisso com nossos autores, principalmente de não os expor a uma situação desconfortável junto ao leitorado. Sobre este ponto já se descrevia que: "a função-autor" não se constrói simplesmente atribuindo um texto a um indivíduo com poder criador, mas se constitui como uma "característica do modo de existência, de circulação e de funcionamento de alguns discursos no interior de uma sociedade", ou seja, indica que tal ou qual discurso deve ser recebido de certa maneira e que deve numa determinada cultura, receber um certo estatuto.O que faz de um indivíduo um autor é o fato de, através de seu nome, delimitarmos sua historia e recortarmos e caracterizarmos os textos que lhes são atribuídos. [Foucault, Michel (1992) O que é um autor? , Vega: Passagens, Lisboa, Portugal.]
Esta questão da múltipla autoria, contudo, é uma norma negociável com os nossos autores.”
A questão da interoperabilidade é vista com reservas:
“Vemos a web como uma facilitadora. Tanto da leitura como das edições livres. Protocolos e padrões complicam a coisa; o DGZ quer continuar simples e sem amarras. Não quer ser o mais lido ou aparecer mais.”
E complementa Barreto:
“Experimente procurar no Google a palavra "datagramazero". O buscador lhe trará cerca de 30 mil referências em 0,32 segundos, 70 % delas referentes à revista. O Google orienta e prioriza suas buscas por uma medida chamada PageRank. O pagerank é o coração do Google para posicionar, da melhor forma, as páginas web resultados das pesquisas dos seus usuários. Foi desenvolvido pelos fundadores do motor de busca, ainda quando estudantes, na Universidade de Stanford. Mesmo existindo atualmente dezenas de desenvolvedores que trabalham dia a dia no desenvolvimento da ferramenta, o PageRank continua sendo a base do software de buscas. O DGZ sem o protocolo OAI-PMH, e com oito anos de vida tem pagerank igual a 5 no buscador, em seu endereço principal. Um dos melhores índices das revistas nesta área no país.”
A preservação digital, no entanto, é cuidadosa, e é assim descrita por Barreto:
“O DGZ mantém todos os seus números publicados desde 1999 em seus três sites. Existe uma decisão do editor de que caso a revista não possa mais ser editada estes sites com todos os números serão mantidos, por pelo menos cinco anos. Tempo em que se negociará um novo editor que preserve os arquivos.”
Se ainda não é possível aferir o impacto do DGZ segundo a metodologia do ISI, as métricas atualmente empregadas dão indícios claros que a Revista se equipara àquelas de “primeira linha”:
“Temos três diferentes sites para colocar o DGZ. Dois nos fornecem estatísticas de acesso pelo Weblizer. Não contabilizamos nosso acesso por "hits" feito à revista, pois consideramos uma medida enganadora. O hit adiciona ao contador a cada vez que um link é clicado dentro do DGZ. Assim um mesmo visitante pode causar 30 ou mais hits e não ler nada.
Contabilizamos nosso leitorado pelas medidas File e Page que nos dão indicação de que uma visita foi realizada e pelo menos uma página ou uma figura foi baixada pelo leitor para seu computador. Ele teve que ler para selecionar. Apurando, com estas e outras medidas, podemos supor que o DGZ tem uma média de cerca de 2.500 a 3.000 visitas com qualidade de leitura por fascículo.
Temos, ainda, estatísticas de leitura para cada hora em cada dia do mês e por cada artigo no mês. Sabemos qual foi o artigo mais lido em cada fascículo e quando se acessa mais o DGZ
É importante informar que não abrimos estas medidas, a ninguém ou para qualquer finalidade, pois elas invadem a privacidade de nossos autores".Abaixo um exemplo das medidas para o mês de abril de 2007:
Finalmente, perguntado se o DGZ é um exemplar, que veio para fazer escola, Barreto arriscou:
“Veio, acho, para mostrar uma opção de leitura entre um texto e uma escritura hipertextual. Para sinalizar que a apropriação do conhecimento pode ser diferenciada quando a inscrição da informação utiliza estruturas diferentes. Veio para indicar que as pessoas de amanhã estarão lendo textos e livros, mas que estarão cada vez mais expostas a uma forma digital de leitura utilizando outros meios. Não acho que as revistas tradicionais irão desaparecer ou que não sejam boas e de enorme valor. O DGZ é apenas diferente.”
Entretanto, uma nova perspectiva se descortina. Em mensagem enviada para a lista de informação e crônicas sobre informação e conhecimento, <abarreto-l> , em 19 de abril de 2007, Barreto antecipa que, no Mundo da Realidade do Ciberespaço:
“O objeto interno da Ciência da Informação, do seu estudo, do ensino e da pesquisa se relaciona, na atualidade, unicamente, com a apropriação e compreensão da tecnologia da informação. O que nos permitiria reescrever novos objetivos para a área na era da web 2 como:1- Registrar, organizar e distribuir, unicamente, a informação de conteúdo delimitado pela tecnologia da informação;
2- Conhecer e mediar o processo de produção, distribuição e consumo da informação nas mídias atuais da TI; desde a geração pelo autor, sua inscrição adequada na estrutura oportuna e a distribuição priorizando a apropriação pelo receptor; sua posterior difusão e assimilação gerando inovação para um melhor estágio de desenvolvimento do indivíduo e da sua comunidade de convivência.
3- Facilitar a ação de integração social, através das redes eletrônicas, fortalecendo a participação cidadã em comunidades eletrônicas;
4- Promover a fluência digital como uma forma de educação para operar novos instrumentos de acesso e interatuação com a informação;
5 - Estimular o desenvolvimento e competência para operar o software e a informação livre;
6- Promover ambientes informacionais abertos nos quais o usuário possa, de maneira consciente e responsável, alterar os estoques de informação gerando nova qualidade informacional para toda a sociedade;
7- Promover a formação o respeito e a integridade dos ambientes colaborativos, dentro das regras firmadas por seus integrantes.
A Ciência da Informação. coordenará e induzirá o desenvolvimento de uma infra-estrutura de possibilidades democráticas e sem barreiras para se exercer a opinião pessoal. Esta habilidade de enunciar diretamente sobre os conteúdos em rede será a mais importante entre as futuras fontes de informação, através da realimentação, retorno e avaliação da comunidade de cada usuário.”
Certamente que nesse futuro próximo, o DGZ cumprirá sua meta de interatividade e a leitura, por certo, se aproximará cada vez mais do ato de criação.
Fonte da figura
Notas:
* O presente texto é resultado de entrevista realizada pelos autores com Aldo de Albuquerque Barreto, por email, em 10 de abril de 2007. Na impossibilidade de aceitar o convite para participar da Mesa Redonda «Acesso Livre e os Caminhos da Informação Científica em Saúde», realizado em 9 de maio de 2007, ICICT/FIOCRUZ, o pesquisador gentilmente concordou em responder nossas perguntas. A qualidade do texto daí resultante estimulou-nos a formatar como artigo e submeter à publicação.
Grammé - "o traço ou o grammé, como o chama Derrida ( do
grego gramma, letra, escritura, um pequeno peso, daí "gramatologia"), não é
uma substância presente aqui e agora (não se pode ver, sentir ou ouvir
diferença): ele é diferença, isto é, diferença espacial e diferença temporal
(adiamento). Essa estrutura, ou melhor, esse princípio estruturador, é comum
a todos os sistemas complexos envolvendo o registro, armazenamento e
comunicação de informação". Disponível em
http://www.eca.usp.br/nucleos/njr/espiral/tecno9.htm acessado em
27/062007.
Uma escritura é denunciada pelo "grammé", que é o traço de uma escrita com intenção em se aproximar da oralidade pelas suas condições de apresentar na mesma base uma possibilidade de explanação visual, gestual, figural, musical, verbal. A escritura é hipertextual é de alguma forma, externa à linguagem, pois agrega outros sentidos ao entendimento e não se prende unicamente a visão linear do texto de enunciação continua e estática.
Gramma - elemento de composição traços , atos do caráter da escrita, sinal gravado, letra, inscrição, registro, lista; nota de música, algarismo, acento gráfico; figura de matemática, desenho, pintura; telegrama, tetragrama.
Lexias - inspirados por Rolanda Barthes procuro explicar os locais de quebra para a partida de textos ou superposição de textos múltiplos. Lexias são indicadas como os locais do texto em que o conteúdo das palavras entra em terremotos de significação; também apontadas como fragmentos do texto que caracterizam uma unidade de leitura, um corte completamente arbitrário sem qualquer responsabilidade metodológica. A lexia é o envelope de um volume semântico, a voz do texto tutor, a linha saliente de um texto plural. O texto tutor seja ele o primeiro ou um dos seus muitos elos será sempre quebrado, interrompido em total desrespeito por suas divisões naturais; "o trabalho do "texto superposto", do momento que se subtrai toda a ideologia de totalidade consiste precisamente em maltratar o texto, em cortar-lhe a palavra".
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http://tinyurl.com/2jmphl visitado em 27/06/2007
Sobre os autores / About the Authors:
Maria Cristina Soares Guimaraes
Dra. em Ciência da Informação, UFRJ/IBICT, Pesquisadora do ICICT/FIOCRUZ.
Carlos Henrique Marcondes
Dr. em Ciência da Informação UFRJ/IBICT, Professor do Departamento de Ciência da Informação/UFF