Resumo: Arquitetura da informação
voltada para o hipertexto da WWW é, muitas vezes, abordada a partir
da analogia com a metáfora do labirinto e do fio de Ariadne. A utilização
dessas metáforas procura trazer à discussão a complexidade
do hipertexto e a necessidade de algum princípio de ordem para adentrá-lo.
A arquitetura da informação visa fornecer elementos que servem
de guia a uma navegação enriquecedora, sem amputar as possibilidades
e a riqueza do hipertexto e procurando evitar leituras lineares e unívocas.
Propomos uma discussão sobre os conceitos que norteiam os procedimentos
da AI nos dias de hoje lançando mão de preceitos mais ou
menos estabelecidos no campo da Arquitetura em seu período pós-moderno,
que é uma resposta à nova sensibilidade, a sensibilidade
de nossos tempos. A adoção desses novos procedimentos metodológicos
na prática da AI é discutida a seguir, a partir da organização
do conteúdo, do conhecimento do público e das intenções
do emissor (site).
Palavras-chave: Hipertexto; hipermídia;
arquitetura da informação.
Abstract: The information architecture approach
to the WWW’s hypertext, most of the times, makes use of the labyrinth and
Ariadne’s Thread metaphors. Its use intends to help discussing the hypertext
complexity and the need of some principle to look through it. The information
architecture intends to provide elements that can be used as guides to
an enhanced navigation, by avoiding linear and univocal interpretations
that would limit its possibilities and the hypertext richness as well.
We propose to discuss the concepts that drives the information architecture
approach by using more or less established precepts of postmodern architecture
as an answer to the new sensibility, the sensibility of our times. The
adoption of these new methodological procedures in the information architecture
is discussed here, concerning the content organization, public knowledge
and the sender’s intention.
Keywords: Hypertext, hypermedia; information architecture.
1. Os Labirintos
Diversos autores[1] já usaram a imagem do labirinto como metáfora para exemplificar a complexidade, o descentramento, as inter-conexões, as encruzilhadas, os caminhos e descaminhos que o usuário/navegador encontra no hipertexto/hipermídia[2]. A visão de labirinto que herdamos dos gregos é muito diferente daquela dos cretenses, que o viam como algo complexo e rico, um misto de divertimento, prazer e astúcia (MACHADO, 1997).
Segundo o Dicionário Aurélio, Labirinto é um “edifício composto de grande número de divisões, corredores, galerias, etc., e de feitio tão complicado que só a muito custo se lhe acerta com a saída”. Pode ser também um lugar ou um jogo no qual se procura um caminho, oculto entre mil caminhos claramente sugeridos. O labirinto esconde e mostra. Quanto mais habilmente oculto, quanto mais sedutor e enganador, mais ele será interessante. Talvez o labirinto mais famoso seja o Palácio de Knossos, onde morava o Minotauro, e onde se passa a lenda de Teseu e o Minotauro (e o fio de Ariadne, acrescentaríamos).
1.1 A lenda de Teseu e o Minotauro
Um jovem herói ateniense chamado Teseu, ao saber que sua cidade
deveria pagar a Creta um tributo anual (sete rapazes e sete moças,
para serem entregues ao insaciável Minotauro), solicitou ser incluído
entre eles. O Minotauro vivia em um labirinto, constituído de salas
e passagens intrincadas do palácio de Knossos, cuja construção
é atribuída ao arquiteto ateniense Dédalo. Ao chegar
a Creta, Teseu conheceu Ariadne, a filha do rei Minos, que se apaixonou
por ele. Ariadne, resolvida a salvar Teseu, pediu a Dédalo a planta
do palácio. Ela acreditava que Teseu poderia matar o Minotauro,
mas não saberia sair do labirinto.
Ariadne deu um novelo a Teseu recomendando que o desenrolasse à medida que entrasse no labirinto onde o Minotauro vivia encerrado. Teseu usou essa estratégia, matou o Minotauro e, com a ajuda do fio de Ariadne, encontrou o caminho de volta.
Esta é uma lenda grega.
1.2 Os labirintos de Creta
Todos os palácios minóicos eram verdadeiros labirintos
(LAFARGA, 2002): os caminhos que conduzem às dependências
reais eram em zigzag; as escadas, curvas. Assim o visitante era conduzido
pelo palácio por um caminho tortuoso e indireto, dando constantes
voltas. O labirinto passou a ser considerado uma espécie de armadilha,
embora não o tenha sido em sua origem. Os palácios eram verdadeiros
povoados, com muitas habitações, áreas para os ritos
sagrados e um grande pátio interno. Os cretenses não se utilizavam
da simetria nas fachadas e traçados. Conta a lenda que Dédalo
teria construído o labirinto do Palácio de Knossos onde se
encerrava o Minotauro. A denominação labirinto é
de origem indoeuropéia e sabe-se que também identificava
uma dança ritual cujos passos eram desenhados no solo. Diferentemente
do que a lenda grega nos faz pensar, o labirinto teria, para a civilização
cretense, um caráter lúdico e estético. Arlindo
Machado (MACHADO, 1997) assim descreve esta dança:
2. Os labirintos da Internet: o hipertexto
Quando pensamos no hipertexto, como ele se mostra na WWW, a imagem do labirinto surge de forma quase imediata, por sua estrutura não-linear, fragmentada em mosaicos e limites não visíveis, bifurcações que levam a diferentes caminhos. Por tudo isto é muito pouco provável que um mesmo caminho seja repetido duas vezes. Mas um labirinto também pode ser lúdico, extremamente rico em suas variações e surpresas, onde a ambigüidade e o acaso levam-nos a lugares nunca antes visitados. O hipertexto mostra-se como uma enciclopédia feita por milhões de autores, sem um projeto anterior, sem sumário ou índice, sem numeração de páginas e sem encadernação, cujas páginas soltas conduzem, aparentemente, ao caos. Mas também é depositária de um conhecimento planetário, multilíngüe, riquíssimo em imagens, opiniões e informações. Quando navegamos na Internet em busca de alguma coisa não estamos à procura de minotauros, como o Teseu da lenda em sua busca ou caçada a algo que pouco conhece mas que almeja encontrar? Embora tenha um objetivo, Teseu não sabe nem como chegar até ele e nem como voltar, pois no interior do labirinto não se vê o início, nem o fim e nem o centro. Também muitas vezes navegamos de forma menos objetiva, como o dançarino do labirinto, onde: "Resolver o labirinto era percorrê-lo como um todo, era conhecê-lo por inteiro, ao invés de achar uma saída" (MACHADO, 1997).
2.1 Origem do termo hipertexto: Bush e Ted Nelson
Mas o que é este labirinto chamado hipertexto? O termo hipertexto
foi criado e usado pela primeira vez na década de 60 por Theodor
Nelson. Os suportes em papel, diz ele, têm limitações
no que toca à sua organização e apresentação
das idéias. Por outro lado, com o computador pode-se construir novos
tipos de leitura onde o leitor irá encontrar aquilo que lhe interessa,
conectando textos e imagens de forma complexa, o que não pode ser
feito no suporte do papel. Propõe então uma forma de organização
de textos e imagens que opere de forma mais próxima ao pensamento:
"o pensamento opera de forma não-linear, na maioria da vezes de
forma caótica, como um turbilhão". É neste contexto
que ele usa pela primeira vez o termo "hyper-text" (depois "hypertext",
sem o hífem) para definir essa forma flexível e não-linear
(nonsequential) de apresentar o material relativo a um assunto:
um conjunto de textos e imagens interconectados a outros documentos e que
permitiriam inúmeros percursos e leituras[3].
Estas idéias originam-se - pelo menos em parte - nos trabalhos de Vannevar Bush[4] notadamente no famoso artigo "As We May Think" (BUSH, 1945) e que foi reproduzido na íntegra no principal livro de Ted Nelson, Literary Machines (NELSON, 1993). Em seu artigo Bush faz uma avaliação das ciências do pós-guerra e constata que há um grande crescimento nas áreas de pesquisas e um assombroso processo de especialização que gera uma colossal produção de documentos publicados nos suportes de papel. Isto traz como conseqüência a incapacidade dos pesquisadores de ler e memorizar tudo o que é produzido e publicado em sua área. Cita como exemplo o trabalho de Mendel sobre as leis da genética que demorou muito tempo para que se tornasse conhecido, o que significou uma grande perda para aqueles que poderiam entendê-lo e levar adiante seu trabalho. Uma das formas de romper com este quadro é criar novos sistemas de transmissão e recebimento de informações, já que os vigentes são considerados inadequados, atrasados e prejudiciais ao andamento da ciência: os sistemas de indexação dos documentos utilizam ordem alfabética, códigos numéricos, divisões e sub-divisões hierárquicas. "A mente humana não trabalha desta forma", diz Bush, "ela opera por associações". Considerando a especialização como "necessária ao progresso", observa que o esforço em criar pontes entre as disciplinas é incipiente e que precisa ser estimulado. Como saída para estas questões recorre às novas tecnologias do pós-guerra que poderiam ser usadas num processo de transformação e inovação dos registros científicos, e num exercício de imaginação Bush propõe então a criação do Memex: um dispositivo eletro-mecânico que armazena livros, gravações, cartas e outros documentos. Grande parte deste acervo seria constituído por microfilmes preparados especialmente para seu uso, como jornais, livros, enciclopédias, etc. Bush prevê o uso de códigos mnemônicos, armazenado no próprio aparelho, para consultas e que pode ser acessado por simples toque num botão, além da indexação tradicional. Através de mecanismos e alavancas pode-se consultar diversos documentos simultaneamente (como se fossem as "janelas" dos atuais softwares) e também agrupá-los sob um novo nome e um novo código que poderá inserido no livro de códigos. Desta forma o documento criado pelo agrupamento de vários outros poderá ser recuperado no futuro.
Para demonstrar praticamente o Memex, Bush lança mão de um exemplo: um pesquisador está interessado nas origens e propriedades do arco e flecha. Sendo mais específico, procura saber porque o arco curto turco é aparentemente superior ao arco longo inglês nas escaramuças das Cruzadas. Há no acervo do Memex deste pesquisador, dezenas de títulos sobre o assunto. Ele começa pela consulta a uma enciclopédia onde acha uma referência ao assunto que deixa projetada na tela. Prossegue consultando outros livros de história e vai selecionando as páginas e que interessam que ficam visíveis nas telas. Ele pode então fazer comentários próprios e estabelecer vários tipos de ligações entre as páginas. Assim o pesquisador vai construindo o seu próprio caminho. Ao constatar que a elasticidade é um fator importante na confecção dos arcos, ele pode acessar livros e tabelas sobre materiais, suas propriedades e constantes físicas, estabelecendo um vínculo paralelo com este assunto. Assim ele constrói uma "trilha" (trail) próprio a partir de um labirinto de documentos disponíveis. Este conjunto pode ser guardado exatamente da forma como foi elaborado para futuras consultas que serão feitas com simples aperto de botões, ou ainda fotografados e repassados para outra pessoa usar em seu próprio Memex. Da mesma forma, diz Bush, um advogado ou um médico podem consultar as literaturas específicas de suas áreas, artigos e opiniões de colegas, etc.
O Memex utiliza instrumentos já conhecidos e possíveis, embora inúmeros problemas técnicos tivessem ainda que ser resolvidos. Mas deixa em aberto a discussão de se utilizar novos meios além dos descritos, como por exemplo a possibilidade de estabelecer ligações mais diretas entre o cérebro e os instrumentos através da captação das ondas elétricas cerebrais. "Teremos sempre que transformar em movimentos mecânicos a passagem de um fenômeno elétrico a outro?"
Concluindo, Bush fala que o homem construiu uma civilização complexa e que precisa mecanizar o registro das informações para que possa avançar sem ficar atolado em informações muitas vezes desnecessárias naquele momento, mas que estejam seguramente guardadas para que ele possa achá-las novamente quando achar importante.
Bush não fala em rede e troca de informações, mas numa solução individualizada, onde cada pessoa comporia o seu próprio acervo no Memex, uma máquina individual, pessoal. Sugere também um sistema de microfilmes contendo edições completas e que poderiam ser compradas - idéia concretizada com o CD-Rom de nossos dias. Mas o pesquisador ainda é um solitário que conta com sua biblioteca de livros de papel microfilmados, fitas de áudio gravadas e os microfilmes disponíveis para aquisição. Desta forma a proposta do Memex atende apenas parcialmente suas preocupações teóricas, não sendo nada mais que uma interessante máquina de consulta e leitura.
2.2 Paul Otlet e Agostino Ramelli
Em 1934 Paul Otlet (1868-1944)[5], o criador
da CDU e do neologismo “documentação”, lança o Traité
de Documentación, considerado uma das primeiras sistematizações
das Ciências da Informação. Nesta obra visionária,
Otlet faz especulações sobre a comunicação
online,
a conversão de voz em escrita e vice-versa, além de lançar
o conceitos de hipertexto. Com apenas um vídeo e um telefone o usuário
estaria conectado a enormes centros de informação. Imagina
máquinas capazes de ajudar a criar um novo tipo de enciclopédia,
como um mecanismo exterior e uma ferramenta da mente, tal qual um órgão
fora do corpo. "Otlet concebe uma finalidade última para a documentação:
o trabalho de síntese ou condensação da informação"
(TÁLAMO et al., 2002). Segundos as autoras, "A ficha, enquanto suporte
de informação, pode ser ordenada de diferentes maneiras,
libertando o homem da linearidade do texto escrito", criando assim a possibilidade
da criação de diferentes relações e encadeamentos,
de novas e diferentes leituras. Os livros, por exemplo, seriam “desmontados”,
possibilitando o agrupamento por assuntos e idéias afins, que Otlet
chamou de "princípio monográfico". Otlet acompanha o desenvolvimento
do microfilme e sugere o uso da televisão (ainda em fase experimental)
na transmissão de informações, e do rádio para
a documentação sonora e musical.
Estes dispositivos ou máquinas concebidos tanto por Otlet como por Bush têm uma longa tradição. Agostino Ramelli[6], engenheiro e inventor, cria 1588 a "roda de leitura", com a finalidade de consultar vários volumes impressos simultaneamente sem que o leitor precisasse sair do lugar, bastando para tal girar a roda até o livro desejado.
Os mecanismos sugeridos por Ramelli, Otlet e Bush têm algo em comum: são máquinas de leitura, porém cada qual mantém características próprias. Enquanto o primeiro limitava-se a dispor as obras numa roda para consulta simultânea, os dois últimos propõem sistemas de organização e consulta de documentos, capaz de possibilitar as inter-relações advindas de associações de idéias. A máquina de Bush é individual: o pesquisador deverá ter um conjunto imenso de documentos para poder elaborar sua pesquisa com certa profundidade sem que lhe faltem textos muitas vezes cruciais para seu trabalho. Já em Otlet existe uma clara opção pela centralização dos documentos em locais específicos, cujo conteúdo seria acessado à distância através de um sistema de comunicação, formando uma rede uni-direcional (do tipo "um para todos"). Similar às redes de rádio e televisão, porém com uma diferença: era o usuário que solicitava a informação que desejava.
2.3 O hipertexto na WWW
Hoje o termo hipertexto integrou-se à linguagem do dia-a-dia
e adquiriu inúmeras conotações. Usa-se hipertexto
para descrever um web site, assim como para referir-se a qualquer
texto (aqui no sentido amplo e englobando imagens e sons) não-linear,
como uma enciclopédia ou uma hiper-ficção.
Estas últimas acepções de hipertexto, vistas como
um traço cultural da pós-modernidade, inserem-se nas discussões
sobre a desconstrução, a fragmentação, o efêmero,
os deslocamentos, a desterritorialização, o descentramentos
e outros temas da contemporaneidade e não são o nosso objeto
de estudo neste trabalho. No entanto, no hipertexto eletrônico na
WWW - que iremos enfocar - iremos encontrar todos estes conceitos
e outros mais.
Pierre Lévy dá uma "definição técnica"
e outra funcional, aproximando-se das concepções de Ted Nelson
e Vannevar Bush, que concebem o hipertexto como um dispositivo da informática:
“Funcionalmente, um hipertexto é um tipo de programa[7]
para a organização de conhecimentos ou dados, a aquisição
de informações e a comunicação" (LÉVY,
1991).
Quando se fala em fragmentação e descontinuidade - traços
da cultura contemporânea - como características do hipertexto
é preciso que fique bem claro o que significam neste contexto. Antes
de mais nada é preciso dizer que estas características não
surgem com a informática, nem com os sistemas eletrônicos
digitais, nem com a Internet e nem com o hipertexto eletrônico. Pelo
contrário, apenas encontram nesses sistemas uma possibilidade de
realização. A fragmentação, aqui, refere-se
à própria estrutura da rede, composta por blocos independentes
e unitários e que dão ao usuário a opção
de traçar seu próprio caminho - ou criar seu próprio
texto,
sua pesquisa ou sua história. Cada bloco, ou fragmento,
constitui uma unidade de sentido, é uma narrativa, tem uma linearidade
para que seja inteligível. Essas unidades inter-relacionadas se
tocam em alguns pontos como um mosaico de pedras poligonais. O usuário
percorre o site através dos links que o interessem,
de acordo com as associações de idéias que lhe forem
mais interessantes e instigantes.
3. A Arquitetura da Informação
Diante da complexidade do hipertexto torna-se necessário
planejar e estruturar as informações visando sua acessibilidade
pelos usuários. Assim como no labirinto o Fio de Ariadne marca o
caminho para a volta de Teseu após matar o Minotauro, a arquitetura
da informação procura mapear o labirinto imprimindo um certo
grau de ordem ao hipertexto. É um campo de trabalho bastante definido
e seu alcance não vai além do site, não se propondo
a “organizar” a rede como um todo. É tanto uma referência
para o objetivo que se pretende atingir como para a saída.
Permite uma caminhada – ou navegação – que pode ser refeita,
mas também abre a possibilidade de trilhar múltiplos caminhos
que levem a um mesmo objetivo.
Inúmeras são as definições de arquitetura da informação. Preferimos ficar com o conceito que provavelmente deu origem à expressão ao juntar “Arquitetura” e “Informação”, ou seja, a prática de preceitos da arquitetura aplicadas num dado conjunto de objetos (informações).
Mas como se define a Arquitetura? A Arquitetura é tomada aqui como "a arte de organizar o espaço que se exprime através da construção". Organizar neste contexto significa por em ordem, ordenar objetos e funções (M. ZAHAR, 1959, Citado por TEIXEIRA COELHO, 1979, p.19-20). É também a disposição das partes ou elementos de um conjunto - edifício ou espaço urbano - ; ou ainda, a busca de uma ordem que estrutura e organiza o funcionamento de um sistema.
Estes conceitos procuram definir as atividades da arquitetura como atividade.
No entanto, ao longo do tempo a Arquitetura - como todos os aspectos da
cultura - passou por diversos períodos: clássico, barroco,
gótico, moderno. "A sensibilidade atual é claramente distinta
da que vigorou até da que vigorou até o início da
Segunda Guerra Mundial" (TEIXEIRA COELHO, 2001, p.7). Os preceitos da arquitetura
pós-moderna agregam às definições acima algumas
características que são profundamente diferentes do período
antecessor - a Arquitetura Moderna. Diferenças de enfoque que contemplam
uma nova sensibilidade. Em relação a dois tópicos
essenciais da arquitetura moderna - o funcionalismo (a forma segue a
função) e o universalismo - a visão pós-moderna
contrapõe, respectivamente, uma visão crítica do
uso funcional e a preocupação com o local, o particular.
Como podemos ver a seguir, não são somente estas concepções
que se modificam:
| Pós-moderno | Moderno |
| complexidade, contradição | simplicidade |
| ambigüidade, tensão | unicidade |
| inclusividade ("e... e") | exclusividade ("ou... ou") |
| hibridismo | purismo |
| vitalidade emaranhada | unidade óbvia (ou obviedade integrista) |
Estes conceitos percorrem a cultura contemporânea e esta nova sensibilidade não é mais a mesma da época do moderno. Como diz Teixeira Coelho: "com seu procedimento de patch-work - ou melhor, de livre-associação - a arquitetura pós-moderna poderia estar tentando apreender aquelas configurações da cidade que se tornaram inapreensíveis." (...) à economia do modernismo se oporia a ecologia do pós-modernismo; enquanto no primeiro caso o que se tem é uma linguagem que recebe normas (nomia) ditadas fora dela e por cima dela, no segundo, a lógica que prevalece é aquela interna à linguagem ou à situação (ao eco, quer dizer ao corpo, ao habitat mesmo) (grifos meus) " (TEIXEIRA COELHO, 2001, p. 76/77)
Tomando estas referências como ponto de partida, vemos a arquitetura
da informação como um conjunto de procedimentos metodológicos
(e ecológicos) que permitem criar ordens num hipertexto visando
abrir possibilidades de leituras para um conjunto de documentos. Tudo isto
num espaço de fluxos (CASTELLS, 2001). Esta ordem, é
bom que se diga, não deverá tentar aprisionar a complexidade,
a contradição, a ambigüidade, a tensão, a inclusividade
("e... e"), o hibridismo, enfim, a "vitalidade emaranhada". Também
não significa que o emissor deva impor-se ao usuário/receptor,
pois, segundo Eco "a competência do destinatário não
é necessariamente a do emitente". O que tudo isto quer dizer? No
capítulo "Como o texto prevê o leitor" (ECO, 1986, p. 38)
encontramos algumas referências ao leitor e ao texto que oferecem
pistas interessantes:
Este equilíbrio entre "autor/leitor" ou "emissor/receptor"
remete a preocupações com a diferença, a alteridade,
o local e às identidades cambiantes. O usuário, ao visitar
sites de seu interesse, irá se identificar com diferentes
situações e ambientes, não só comportando-se
de forma diferente como também exigindo uma abordagem diferenciada.
Pensemos numa pessoa jovem e que trabalha no mercado financeiro. Ela pode
visitar os sites da Bolsa de Valores, de um banco, do filme
Matrix, um site de esportes e outro ainda de música de sua
preferência. Em cada um desses sites espera encontrar assuntos, pessoas
e linguagens diferentes que proporcionarão identificações
diferentes. Segundo Hall:
As formas de organização devem ser respaldadas por
objetivos e cabe aos arquitetos da informação propor caminhos
que, sem perder de vista o emitente, façam sentido para os usuários,
considerem as diferenças e os locais, explorem as múltiplas
possibilidades do hipertexto, e evitem o uso de sistemas altamente estruturados.
3.1 A prática da arquitetura da Informação na
WWW
A criação e o desenvolvimento de sites é
cada vez mais um trabalho multidisciplinar e de equipe. Quando se olha
a ficha técnica de um site de porte grande ou médio,
é comum encontrar um amplo conjunto de profissionais, de diretores
de criação a programadores, de especialistas em determinados
softwares de animação a produtores, de diretores de áudio
a redatores. Porém, são pouquíssimos os sites
onde encontramos o profissional de arquitetura da informação.
Porque isto ocorre se todos concordam que a organização das
informações dentro de um site é fundamental?
Parece-me que é necessário fazer uma distinção
entre a atividade da organização da informação
e o profissional mais capacitado para desenvolvê-la. Há unanimidade
em relação à atividade, mas ela não é
ainda delimitada suficientemente de forma a exigir um profissional específico.
De um modo geral a arquitetura da informação encontra-se distribuída em diversas outras atividades ou mesmo englobada numa delas, seja no gerenciamento do site, no design ou na área de marketing das empresas. No início da Internet, quando os profissionais de informática eram os mais familiarizados com as ferramentas e com o computador, eles assumiam as atividades de design, redação e organização do site. Com o passar do tempo estas atividades foram – e estão sendo – gradualmente ocupadas por profissionais diversos e mais capacitados. O profissional de arquitetura da informação ainda é pouco conhecido, pouco valorizado, ou antes, totalmente ignorado. Seu trabalho consiste em criar uma organização própria e particular para o conjunto de informações do site, planejar a distribuição destas informações, determinar o conteúdo apropriado e relacioná-lo dentro do site. "Grande parte dos problemas de um site estão diretamente ligados à organização das informações, já que uma arquitetura mal planejada afetará todas as outras áreas" (LARA, 1999). O profissional de arquitetura da informação deve participar dos trabalhos desde seu início. As mesmas informações que irão nortear os trabalhos de redação e design serão as bases de seus trabalho.
3.1.1 A organização do conteúdo
Os primeiros questionamentos a serem feitos quando se recebe uma série
de informações para serem organizadas num site, são:
* O usuário: sua visão e características
Uma vez que sabemos quem é o nosso público e conhecemos
algumas coisas sobre ele e sobre suas necessidades e espectativas, fica
mais fácil determinar se uma informação é relevante
ou não, ou se uma é mais importante do que outra. É
preciso ter sempre em mente as premissas anteriores para não perder
de vista as metas principais do site. De nada adiantará um
site extremamente sofisticado e completo, recheado de ferramentas
e bancos de dados, efeitos gráficos e design arrojado se ele for
inadequado aos seus usuários ou se a organização do
conteúdo for pouco clara ou excessivamente dispersa. Um site
de um museu, de um jornal ou de uma concessionária de veículos
não são diferentes apenas porque trabalham com "coisas" diferentes.
Seu público - que até pode ser o mesmo - busca diferentes
informações quando visita um site ou outro. A linguagem,
quando se fala de um concerto ou de um produto de consumo, evidentemente
não pode ser a mesma. E quando falamos em linguagem dizemos: textos,
fotos, design, organização das páginas, etc. Um exemplo:
o aficionado que entra no site do filme Matrix Reloaded irá
esperar 30 ou 40 minutos para ver o trailler do filme. Uma pessoa
que está procurando uma informação ou serviço
possivelmente não terá a mesma paciência de esperar
(carregando...), passar por inúmeros links e páginas
para chegar à informação desejada.
b) em relação à instituição: A instituição tem uma proposta clara para sua entrada na Internet? O que ela pretende? Que serviços ou facilidades irá dispor aos usuários? Quais outras informações e serviços a instituição poderia oferecer aos usuários?
* A estruturação da informação X diagramas,
organogramas e fluxos da empresa
Alguns critérios são fundamentais para se ordenar as
informações em estruturas organizacionais. Precisamos ter
sempre em mente que esta estrutura não tem rigorosamente nada em
comum com a estrutura da instituição e os seus fluxos internos
de informação. Não é incomum encontrarmos sites
que utilizam como categorias as divisões internas da empresa (departamento
X, departamento Y...). Nada mais obscuro do que isto para uma pessoa que
não conhece a empresa e não freqüenta suas dependências
e, principalmente, não tem o menor interesse nestes assuntos. A
estrutura organizacional de um site deve levar em conta as informações
e serviços que mais interessem aos usuários.
O conteúdo do site deve estar em consonância com os objetivos da instituição e as informações devem ser trabalhadas para que sejam compreensíveis ao seu público e consigam satisfazer as expectativas dos usuários. Algumas instituições já têm uma política de informação consistente e definida. Isto irá facilitar enormemente o trabalho de organização do site, porém não será através da simples transposição desta estrutura existente que iremos ter um site adequadamente estruturado. Esta estrutura anterior deverá ser questionada e adaptada ao novo meio levando-se em conta suas características e os futuros usuários.
3.1.2 A Estruturação das informações:
alguns exemplos
A estruturação dos assuntos pode ser feita de várias
maneiras. Geoge Landow sugere duas grandes categorias (LANDOW, 1997): estrutura
axial e estrutura em rede. Já Anna Gunder identifica uma terceira
que chama de estrutura lateral (GUNDER, 2001).
Erro! Argumento de opção desconhecido.
Erro! Argumento de opção desconhecido. Erro! Argumento
de opção desconhecido.
| Estrutura axial | Estrutura em rede | Estrutura lateral |
A estrutura axial caracteriza-se por ser um texto não-seqüencial "puro". É aquele texto (ou imagem, ou tabela) que se relaciona parcialmente com o texto principal, tem apenas um ponto de contato com ele. É um atalho que pode levar a um "beco-sem-saída" e que obriga o navegador a retornar ao ponto original. Como exemplo podemos citar uma observação, uma nota, uma definição de um termo.
A estrutura em rede caracteriza a WWW, onde os documentos vinculam-se de forma cruzada, hierárquica ou não, através de ligações (links) estabelecidos pelo(s) autor(es). Mas não é somente isto: é também uma forma de organização que permite as associações que surgem num determinado momento e que pode levar o usuário a sair do site em busca de algo que o tenha despertado, num processo que pode continuar quase indefinidamente, numa espécie de semiose ilimitada.
A estrutura lateral caracteriza-se pela falta de links
de retorno (à pagina anterior), e que não indica um caminho
principal de onde partem os links secundários. Exemplos destes
tipos de links nós encontramos nas enciclopédias,
dicionários e outras formas de apresentação de textos
que utilizam ordem alfabética ou cronológica e solicitam
a escolha das páginas a partir de letras do alfabeto (A, B, C,...)
ou de datas (anos, meses, dias), ou ainda, pela identificação
de um número de uma revista (no.1, no.2 ou Abril/2001, Maio/2002).
Nestes casos os textos ou documentos estão relacionados a uma estrutura
de busca pré-determinada e rígida e que não permite
relacionamentos "para fora".
Já Rosenfeld propõe uma distinção diferente,
distinguindo entre esquemas de organização e estruturas
de organização:
Os esquemas de organização podem ser exatos
(alfabéticos, cronológicos) ou ambíguos (em
categorias baseadas em processos associativos), enquanto as estruturas
organizacionais incluem as hierarquias e os modelos orientados para as
bases de dados (ibid).
Estas categorias, na verdade, são meramente referenciais, já que normalmente elas aparecem mescladas, fundidas, misturadas e quase nunca em sua forma "pura".
3.1.3 Clareza e redundância
Devemos ter sempre em mente que as características da instituição
devem equilibrar-se com as necessidades do usuário e que cada caso
deve ser estudado separadamente. O que não podemos esquecer são
alguns preceitos gerais que independem da forma como os documentos serão
estruturados:
* Buscar múltiplos caminhos para um mesmo ponto
Como já vimos, a estrutura em rede do hipertexto dá a
possibilidade de ligações diretas e cruzadas, imediatas e
distantes. É interessante pensar na criação de diferentes
caminhos para um mesmo documento, uma vez que o leitor tem a liberdade
de escolha e dessa forma é difícil prever que caminho fará
para chegar a um determinado ponto da rede. Se houver apenas um ponto de
contato estaremos nos aproximando da linearidade, que num hipertexto pode
significar o mesmo que esconder o documento. Links diretos, indiretos,
referências e sistemas de busca compõem o espectro destas
referências cruzadas. Num hipertexto a redundância é
sempre preferível à economia.
* A escolha de nomes para as categorias
Os nomes das categorias devem expressar de forma concisa e precisa
o que o visitante irá encontrar. Estudar caso a caso e não
hesitar em agrupar ou dividir assuntos quando a clareza estiver em jogo;
evitar, sempre que possível, o uso de jargões. Nunca usar
termos excessivamente técnicos a menos que o site seja dirigido
a uma comunidade acostumada a eles (advogados, médicos, engenheiros,
etc.).
Considerações finais
A arquitetura da informação não é uma técnica, não fornece receitas. Antes, ela é um conjunto de procedimentos metodológicos e sua aplicação não visa criar uma camisa de força no conjunto da informação de um site. Aprisionar o hipertexto em organizações altamente estruturadas é não permitir escolhas. As especificidades e particularidades de cada caso podem ser mesmo determinantes no caminho a seguir. Cabe à arquitetura da informação balizar, sinalizar, indicar, sugerir, abrir possibilidades.
A opção por alguns conceitos do pós-modernismo
adotados neste texto deve-se à crença de que somente com
idéias e conceitos contemporâneos seremos capazes de enfrentar
os problemas de hoje. A física clássica não responde
a uma série de problemas colocados nas últimas décadas.
Da mesma forma a utilização de metodologias, técnicas
e sistemas "clássicos" de organização não responde
a algumas das necessidades dos nossos dias.
A metáfora do Fio de Ariadne para a arquitetura da informação
supõe que o fio seja utilizado para orientar os caminhos, mas a
escolha é tributária do usuário: se dermos novelos
de fios para diversas pessoas, dificilmente duas farão o mesmo trajeto,
embora o ponto de partida e o de chegada possam ser os mesmos.
[1] Por exemplo: MACHADO, Arlindo. Hipermídia, o Labirinto
como metáfora, in A Arte no século XXI: a humanização
das tecnologias, org. por Diana domingues. São Paulo: Fundação
Editora UNESP, 1997; DIAS, Maria Helana Pereira. Hipertexto (2000) - O
labirinto Eletrônico: uma experiência hipertextual. Tese de
doutorado apresentada à UNICAMP. http://www.unicamp.br/~hans/mh/
- Consultada em setembro/2002; LEÃO, Lucia. O Labirinto da hipermídia
- arquitetura e navegação no ciberespaço. São
Paulo: Iluminuras, 1999.
[2] Seguindo vários autores usaremos as palavras hipertexto
e hipermídia como sinônimos, ambos significando o conjunto
de textos, imagens estáticas ou em movimento e sons.
[3] http://www.uni-giessen.de/faq/archiv/xanadu.faq.etx/msg00000.html
[4] Bush foi diretor do Office of Scientific Research and Development
(OSRD) entre 1941 e 1947, tendo se tornado a figura central do programa
de desenvolvimento da "cisão" nuclear e do projeto Manhattan. Este
era o nome do projeto secreto que levou à construção
da bomba nuclear americana na II Grande Guerra. Contava com a participação
da elite dos cientistas da época, entre eles vários prêmio
Nobel, como Albert Einstein, Enrico Fermi, Neils Bohr, Robert Oppenheimer
e centenas de outros. O resultado do projeto foram as bombas lançadas
sobre Hiroshima e Nagasaki em 16 de julho de 1945, curiosamente no mesmo
mês e ano da publicação de seu famoso artigo.
[5] Para conhecer melhor Paul Otlet e suas idéias, consultar:
RAYWARD, W. Visions of Xanadu: Paul Otlet (1868-1944) and Hypertext. Texto
eletrônico. http://alexia.lis.uiuc.edu/~wrayward/otlet/xanadu.htm
[6] Para saber mais sobre Agostino Ramelli: http://www.nytimes.com/library/cyber/euro/010698euro.html,
http://www.sil.si.edu/Exhibitions/Science-and-the-Artists-Book/engi.htm,
consultados em 17 de maio de 2003
[7 Lévy refere-se aos programas de hipertexto que tiveram algum
sucesso nos anos 80 e início dos anos 90, tais como o HyperCard
da Apple, Intermídia, ToolBook, etc. Eram editores onde podia-se
importar textos, imagens e sons e montá-los numa estrutura em formato
de teia ou rede.
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Sobre o autor / About the Author:
Durval de Lara Filho
dulara@blueweb.com.br
Arquiteto e Web Designer, pós-graduando da ECA-USP.