por Viviane Couzinet e Edna Lúcia da Silva e Estera Muszkat Menezes
Resumo: Análise do desenvolvimento da Ciência da
Informação na França e no Brasil. Aborda as origens e as principais
características da área nos dois países. Considera que, tanto na França como no
Brasil, a área de Ciência da Informação apresenta dilemas e indefinições e busca
um caminho para sua sustentação como campo teórico e cognitivo .
Palavras-chave: Ciência da informação; França; Brasil.
Abstract: Analysis of the development of Information
Science in France and Brazil. It approaches the origins and the main
characteristics of the area in the two countries. It considers that Information
Science in France as in Brazil presents indefinitions and searches a way for its
sustentation as a theoretical and cognitive field.
Keywords: Information science; France; Brasil.
Introdução
A Ciência da Informação no mundo, desde sua criação, vivencia uma crise de identidade e suas fronteiras com outras disciplinas não estão claramente delimitadas. Considerada uma ciência emergente, enfrenta novos desafios impostos pelo processo de globalização e a sociedade da informação, bem como pela interferência das novas tecnologias, o que coloca no centro de todas as questões os problemas relacionados à informação que, em tese e na prática, têm sido seu objeto de estudo.
Consensualmente, os pesquisadores da área admitem que sua origem como
disciplina e atividade profissional teve como marco o incremento científico
ocorrido após a segunda guerra mundial, que gerou o fenômeno da explosão da
informação, a necessidade de controle bibliográfico, o surgimento das
indústrias e dos serviços de informação.
Desde então, as preocupações intelectuais da área voltaram-se para a
tentativa de encontrar uma configuração teórica que forneça sustentação aos
discursos e às práticas informacionais, e criem uma identidade de pesquisa
própria para área.
Wersig e Neveling (1975) propuseram uma sistematização
para os enfoques da Ciência da Informação, o que resultou na seguinte
classificação: orientada para o fenômeno informação; orientada para os meios
relacionados com as funções e as aplicações práticas, por isto apresentando
uma certa aproximação com a Biblioteconomia; orientada para a tecnologia,
neste sentido considerada um sub-ramo da ciência da computação; e orientada
para os propósitos, isto é, voltada para os estudos da informação como
necessidade social.
Para Belkin e Robertson (1976), a Ciência da Informação é
orientada para propósitos e, neste sentido, se preocupa com a efetiva
transferência da informação, o que tem sentido na medida em que gera
mudanças nas estruturas mentais dos indivíduos.
Saracevic (1996, 47) postula que a Ciência da Informação é
um “campo dedicado às questões científicas e à prática profissional
voltadas para os problemas de efetiva comunicação do conhecimento e de seus
registros entre os seres humanos, no contexto social, institucional ou
individual do uso e das necessidades de informação”. Ressalta o autor
que “no tratamento destas questões são consideradas de particular interesse
as vantagens das modernas tecnologias informacionais”.
Barreto (1999, p.1) ponderou que a Ciência da Informação cada vez mais terá seus caminhos relacionados aos das estruturas e dos fluxos de informação. Para o autor, “a relação entre o fluxo de informação e o público a quem o conhecimento é dirigido vem se modificando com o tempo, em função das diferentes técnicas que operam naquela transferência." O autor aposta que esse será o foco de interesse principal da área.
Discussões teóricas na área têm enfatizado a necessidade de definição da
abrangência da CI e, nesse processo, verifica-se também uma tentativa de
vinculação a outras ciências. Borko (1968) definiu a
Ciência da Informação como “uma ciência interdisciplinar que estuda as
propriedades e o comportamento da informação, as forças que dirigem o fluxo
e o uso da informação e as técnicas, tanto manuais como mecânicas, de
processar a informação visando sua armazenagem, recuperação e disseminação”.
Para González de Gómez (1990, p.121), o que constituiria o
domínio da Ciência da Informação estaria incluído numa “ampla zona
transdisciplinar, com dimensões físicas comunicacionais, cognitivas e
sociais ou antropológicas”. Nesse ponto de vista, para essa autora, a CI
teria como objeto as pragmáticas sociais de informação, a meta-informação e
suas relações com a informação. Esse objeto seria constituído por “um
conjunto e relações tecidas entre agentes, processos e produções simbólicas
e materiais”.
Saracevic (1996) identificou três características da
Ciência da Informação: sua interdisciplinaridade, sua vinculação com a
tecnologia e sua participação ativa na era da informação. Constatou que a
área tem mantido vínculos através dos tempos mais acentuadamente com a
Biblioteconomia, Ciência da Computação, Ciência Cognitiva e Comunicação.
Nesses últimos tempos, segundo esse autor, suas relações interdisciplinares
estão mudando, tornando-se mais aparentes as relações com a Ciência da
Computação e a inteligência artificial em estudos aplicados, e com a ciência
cognitiva em trabalhos teóricos e experimentais.
Para Pinheiro (1999, p.155), a Ciência da Informação
“tem seu próprio estatuto científico, como ciência social”, é
interdisciplinar por natureza, seu objeto de estudo, considerando sua
característica abstrata, é de difícil apreensão, apresenta interfaces com a
Biblioteconomia, Ciência da Computação, Ciência Cognitiva, Sociologia da
Ciência e Comunicação, entre outras áreas, e provém da bifurcação da
Documentação/Bibliografia e da Recuperação da Informação.
Como foi visto acima, existem algumas tentativas de definição e de
delimitação da abrangência da área e de criação de uma identidade para a
mesma, mas ainda não se chegou a um consenso a este respeito.Neste artigo,
busca-se estabelecer algumas características da Ciência da Informação na
França e no Brasil, visando entender sua origem e o âmbito de sua
abrangência nesses países. Encontros sucessivos de professores-pesquisadores
franceses com seus congêneres brasileiros, com o objetivo de refletir sobre
a Ciência da Informação – que no Brasil é uma ciência independente, e na
França ainda está muito atrelada à ciência da Comunicação, levaram à
definição de um projeto comum, visando comparar as situações brasileira e
francesa. A comparação foi movida por muitos questionamentos. Primeiramente,
tomou por base a própria indefinição da identidade da área e, em seguida, o
conjunto de pesquisas efetuadas sobre as ligações que unem o mundo da
pesquisa em Ciência da Informação com o mundo profissional, na França com os
documentalistas, no Brasil com os bibliotecários.
O projeto marca o início de um processo de colaboração científica entre dois
grupos de pesquisadores em Ciência da Informação que se interessam por
comunicação científica. Participam dessa iniciativa, na França, a equipe
Médiations en Information et Communication Spécialisées do
Laboratoire d’Études et de Recherches en Sciences Sociales (MICS –
LERASS), laboratório identificado como Equipe d’Accueil (EA 827)
pelo Ministère de l'Éducation Nationale et de la Recherche, que trabalha a
questão da comunicação na comunidade de pesquisadores há 12 anos. No Brasil,
membros da equipe do Núcleo de Estudos em Informação e Mediações
Comunicacionais Contemporâneas (NEIMCOC), do Departamento de Ciência da
Informação (CIN) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), grupo
certificado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq), que trabalha também com as mesmas questões há 9 anos.
A ciência da Informação na França
O movimento de formação da área de Ciências da Informação na França teve
início em 1960. Pesquisadores como Robert Escarpit (professor na
Universidade de Bordeaux 3), Jean Meyriat (diretor de estudos na
Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e diretor do Centro de
Documentação do Instituto de Estudos Políticos, em Paris) e Roland
Barthes (semiólogo), motivados pela insatisfação com suas próprias
disciplinas, foram responsáveis pela criação do Comitê de Ciências da
Informação e Comunicação.
A organização da conferência que discutiu as relações entre as Ciências da Informação e da Comunicação, realizada por esse comitê, em 1975, foi um fato importante nessa dinâmica. Em 1977, o comitê se transformaria na INFORCOM – Sociedade Francesa das Ciências da Informação e Comunicação (Meyriat; Miège, 2002).
Oficialmente, pode-se considerar que as Ciências da Informação, na França,
foram criadas em 1975, a partir da 52ª seção do Comité Consultatif des
Universités (CCU), organismo encarregado da gestão de carreiras no
Ministère de l'Éducation Nationale et de la Recherche. Esse comitê
sofreu transformações em 1980 e passou a se designar Conseil National des
Universités (CNU) (Couzinet, 2004).
A comunidade de pesquisadores em informação e comunicação é, portanto,
recente no país. A pesquisa em Ciências da Informação está intimamente
ligada à origem científica dos pesquisadores e, como conseqüência, as suas
temáticas são diversificadas. Meyriat apresentou o primeiro projeto
da área, cuja temática focava os documentos. Outro grupo mais tarde orientou
seus estudos para a televisão na perspectiva da comunicação. Com a
informatização das bibliotecas e dos centros de documentação, na França, e a
importância adquirida por esse processo, pesquisadores ligados à
Informática, Matemática e Física foram atraídos para a área e, assim,
introduziram novos temas e métodos de pesquisa, como, por exemplo, a
informetria e a concepção de softwares.
Assim, as pesquisas na área voltaram-se também para abordagens que envolviam eletrônica e informática (Couzinet, 2004).O modelo francês, que junta as Ciências da Informação com as Ciências da Comunicação, da forma como está estabelecido, parece ser único. Isto não impede que, em outros países, desenvolvam-se pesquisas utilizando métodos das ciências humanas e sociais.
A explicação para a união das duas ciências é dada pelos fundadores das
Ciências da Informação e da Comunicação na França. Jean
Meyriat (1985), por exemplo, justifica essa união quando considera a
informação como o conteúdo cognitivo do processo de comunicação, composto
por atividades de duas (ou várias) pessoas que se comunicam entre si, e que
o realizam em um meio social cujos múltiplos componentes influenciam as
condições de sua criação, transmissão e recepção. Meyriat
(1985) argumenta que não há informação se esta não é recebida de forma
ativa.
O receptor quando a recebe, se a reconhece, modifica seu conhecimento implícito ou explícito. Esse ponto de vista parece estabelecer que as Ciências da Informação estudam os conteúdos “ativados” por um processo de reconhecimento, e o próprio processo, ambos influenciados por uma situação de emergência. Diversos textos sobre o campo de competência das Ciências da Informação e Comunicação, produzidos nas seções do CNU, sustentam esse ponto de vista, o que estabeleceu os desdobramentos possíveis das pesquisas desse campo: estudos sobre a noção, os processos de produção, os usos, a concepção, a recepção, a mediação, os atores, o conteúdo e os sistemas, sob o ângulo da representação, dos significados ou das práticas associadas, das mídia e das indústrias culturais.
Esses desdobramentos são aplicáveis tanto às Ciências da Informação como às Ciências da Comunicação. Existe, por isso, uma dupla perspectiva, mas também alguns cruzamentos possíveis. Os textos mostram uma relação íntima entre as duas ciências (Conseil,2005).
Na França, as Ciências da Informação são uma vertente das Ciências Humanas e
Sociais. Para sintetizar e entender a abrangência das Ciências da Informação
no país, recorre-se a Metzger(2002), que delimitou três
orientações para a área: os estudos dos objetos portadores do saber; as
práticas humanas e sociais em matéria de elaboração e compartilhamento do
saber, de acesso à informação; e a formalização e o cálculo envolvendo
pesquisas ligadas à tecnologia digital e à matemática.
O relatório do Comité National d’Évaluation [1],
datado de 1993, informava que existiam vinte e quatro equipes de pesquisa em
Ciências da Informação em Comunicação, entre as quais somente cinco
trabalhavam com Ciências da Informação. Entre estas últimas, uma trabalhava
como equipe associada ao Centre de Recherches sur la Documentation et
l’Information Scientifique et Technique (CNRS), na Université de
Lille III; duas trabalhavam como «Equipe d’accueil»[2]
(Equipe de acolhida), uma no Conservatoire National des Arts et Métiers,
denominada de Information Scientifique et Techniques d’Information, a
outra na Ecole Nationale Supérieure des Sciences de l’Information et des
Bibliothèques (ENSSIB), denominada de Centre de Recherche en Sciences
de l’Information, e, enfim, duas equipes jovens [3],
o Centre de Recherches Retrospectives da Université d’Aix-Marseille III
e a Equipe de Recherche sur les Systèmes d’Information et de
Communication da Université de Lyon III (CNE, 1993).
A equipe de Mediations en Information et Communication Specialisée (MICS) do Laboratoire d’Études et de Recherches Appliquées en Sciences Sociales (LERASS) tem como missão desenvolver pesquisas sobre os fenômenos de mediação, incluindo a análise dos atores, dos suportes, dos vetores e das situações em informação e comunicação. É dessa forma que, além dos pesquisadores em Ciência da Informação e no seu campo de atividade específico, essa equipe tem estudado outros atores sociais concernentes à construção e difusão da informação especializada (Couzinet, 2002; Régimbeau; Couzinet, 2004).
Para se compreender melhor a formação da área, é necessário salientar que,
na França, existe uma característica específica com relação à oferta de
formação nas universidades: as carreiras profissionais ou
profissionalizantes existiam antes das Ciências de Informação e Comunicação
(Meyriat; Miège, 2002). É nesse sentido, marcada por essa
característica, que as Ciências da Informação avançam e, se algumas
formações mais generalistas surgem, a tendência à profissionalização é
norma, notadamente na área informação-documentação. As nomeações de
pesquisadores, nos anos de 1975 a 1980, foram estreitamente ligadas à
formação de profissionais. Além disso, alguns deles são originários da
profissão, com a qual conservaram ligações mais ou menos estreitas. Nesse
sentido, interrogar o mundo da pesquisa supõe interrogar também o mundo da
prática profissional.
Na atualidade, várias universidades francesas oferecem formação em Ciência
da Informação. Os programas e os níveis variam, isso tem dificultado uma
formação completa e, assim, muitos doutorandos têm procurado formação em
outras disciplinas (Couzinet, 2004). Conseqüentemente, a
formação de doutores ficou paralisada no início dos anos de 1990 e as
formações de terceiro ciclo são orientadas para diplomas profissionalizantes
de alto nível, os Diplômes d’Études Supérieures Spécialisées (DESS),
ao contrário das ciências da Comunicação que possuem Diplomes d’Études
Approfondies (DEA)[4].
Meyriat (1993) alertou aos documentalistas que essa
situação terá como conseqüência provável um risco de penúria para os
professores-pesquisadores.
Bibliotecários e documentalistas, na França, têm muitas vezes percursos
cujas origens são idênticas à dos pesquisadores, e muitas vezes paralelos.
No curso de uma história recente, é possível perceber formas de ajuda e,
muitas vezes, oposição entre o mundo profissional e o mundo da pesquisa.
Essas formas de sustentação mútua dos atores da informação especializada
foram evidenciadas a partir do estudo das redes de alianças que foram
criadas ao longo do tempo. Sua estabilidade depende do lugar ocupado por
cada um, do seu reconhecimento no seu mundo respectivo, e de sua força para
criar e manter esses laços. Na verdade, são profissionais que não se
reconhecem uns nos outros, daí se ignorarem (Couzinet,
2003).
Especula-se inclusive que essa seria a razão de pesquisas utilitárias orientadas para as realizações destinadas ao mundo da prática, existentes na área. Ou, dito de outra forma, esse tipo de situação contribui para privilegiar pesquisas aplicadas? A pesquisa está a serviço exclusivo da profissão, em detrimento da pesquisa básica? Além dessa postura exclusiva, que pode estar associada a uma origem da disciplina, não seria possível ver o papel, cada vez maior, da informática, fazendo com que as pesquisas privilegiem a atualidade do uso técnico dos instrumentos de gestão e de pesquisa da informação?
Nas pesquisas desenvolvidas, constata-se muitas vezes a tendência de se dar
maior ênfase aos aspectos técnicos e profissionais, em detrimento da
reflexão teórica e crítica. A conjunção da formação de origem e a forte
implicação profissional dos orientadores Jean Meyriat,
Madeleine Wolff-Terroine e Jean Paul Trystram [5]
podem ter influenciado esse viés. A influência pessoal de Jean Meyriat na
construção teórica e institucional das Ciências da Informação Comunicação é
reconhecida pela comunidade francesa.
Considerando que os três pesquisadores dirigiram, durante um longo tempo, a
grande maioria das teses de Ciências da Informação e Comunicação, a seguir
pesquisadores originários das ciências exatas tomaram o seu lugar (Richard
Bouché e Jacques Rouault, por exemplo), desenvolvendo trabalhos próximos
da lingüística e da informática. A partir desse processo, surgem novas
questões, como, por exemplo: Qual foi o papel dos recrutamentos efetuados no
final dos anos 80 para responder à forte demanda da profissão e dos poderes
públicos para seguir o desenvolvimento da informática? Quais são as
influências desses recrutamentos feitos essencialmente entre jovens doutores
em informática? Para responder a essas questões, seria necessário analisar
as temáticas de pesquisa, os locais de ensino e de pesquisa, bem como das
redes de alianças, para se estabelecer os perfis dos pesquisadores. Isso
deveria permitir avaliar a influência da origem disciplinar dos
professores-pesquisadores na orientação de seus trabalhos.
Trabalhos recentes demonstraram que a origem dos pesquisadores das Ciências
da Informação determina o ponto de vista das questões de pesquisa (Tetu,
2002). Por outro lado, a idéiageralmente aceita na comunidade Ciências da
Informação e Comunicação é a de que professores-pesquisadores de Ciências da
Informação seriam, na França, majoritariamente originários das ciências
exatas, levando à necessidade de examinar essa realidade.
Algumas questões podem ser formuladas em função dessa realidade, como, por exemplo: Tais origens levam ao uso de métodos de pesquisa mais positivistas, fundados em métodos quantitativos ou experimentais? Ou se trata, ao contrário, de manter uma filiação forte com o modelo de Ciência da Informação dos Estados Unidos, que se centra na pesquisa aplicada e que é relativamente mais antigo do que as Ciências da Informação francesa? A ligação estabelecida com o meio profissional de reconhecimento limitado a aplicações técnicas ou a investigações úteis ao aperfeiçoamento desviam os pesquisadores da pesquisa básica? Essa situação é conseqüência do peso da demanda social e da crescente influência das tecnologias na difusão da informação?
Com relação aos periódicos, constata-se a ausência de uma revista
especializada em Ciências da Informação, na França. Duas revistas vêm
divulgando mais sistematicamente os trabalhos dos pesquisadores: o
Bulletin des Bibliothéques de France da École Nationale Supérieure de
Sciences de l’Information et Bibliothéques (ENSSIB) e a
Documentaliste-Sciences de l’Information da Association des Professionnels
de l'Information et de la Documentation (ADBS).
Os pesquisadores franceses da área acreditam que um longo caminho foi
percorrido. No entanto, reconhecem que falta uma base forte para o
desenvolvimento dessa especialidade e que ainda enfrentam problemas de
visibilidade, tanto no plano nacional como internacional.
Muitas são as questões que ainda não estão respondidas e merecem uma análise
mais aprofundada. Quiçá possam ser foco de pesquisas futuras na área e que
se possa estabelecer algum paralelo entre as situações francesa e
brasileira.
A ciência da Informação no Brasil
Para se entender um pouco da formação da área de Ciência da Informação no
Brasil, torna-se necessário colocar o foco na trajetória do Instituto
Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD),
criado em 1954, e denominado, a partir de 1976, de Instituto Brasileiro de
Informação Científica e Tecnológica (IBICT).
O surgimento desse instituto foi influenciado internacionalmente pela
Unesco, que sugeriu à
Fundação Getúlio Vargas (FGV) que
promovesse a criação, no Brasil, de um centro nacional de bibliografia, já
que tinha incentivado na época, a implantação de instituições do gênero em
diferentes países.
A Fundação Getúlio Vargas realizava importantes atividades na área de bibliografia e documentação e sua escolha inicial foi por essa razão. No Brasil, no mesmo período, foi criado o CNPq, que tinha, entre suas atribuições, “manter relação com instituições nacionais e estrangeiras para intercâmbio de documentação técnico-científica” (Ferreira, 1999, p.6). Na estrutura organizacional desse órgão, por meio de proposta conjunta CNPq/FGV, foi criado, em 27 de fevereiro de 1954, por decreto presidencial, o IBBD.
Na época, faziam parte de seu quadro funcional, quase na sua totalidade, bibliotecários. O órgão era gerido pela bibliotecária Lídia Queiróz Sambaquy. Documentos mostram que essa bibliotecária foi responsável, direta ou indiretamente, pela delineação do modelo de funcionamento e atuação do instituto, definição de sua missão e cumprimento de seus objetivos, tornando-o uma entidade respeitável no país (Oddone,2006; Ferreira,1999).
O IBBD tinha os seguintes objetivos:
-promover a criação e o desenvolvimento dos serviços especializados de bibliografia e documentação;
-estimular o intercâmbio entre bibliotecas e centros de documentação, no âmbito nacional e internacional;
-incentivar e coordenar o melhor aproveitamento dos recursos bibliográficos e documentários do país, tendo em vista, em particular, sua utilização na informação científica e tecnológica destinada aos pesquisadores. (INSTITUTO..., 2003, p.7).
Fazia parte também das responsabilidade do IBBD colocar à disposição da
comunidade científica brasileira um acervo bibliográfico em ciência e
tecnologia (C&T), de forma a proporcionar o suporte necessário para o
desempenho para suas funções, no cenário nacional. O instituto desenvolvia
atividades de ensino e pesquisa, sendo pioneiro na introdução, no país, de
técnicas inovadoras para o tratamento da informação, seguindo as tendências
em nível internacional, e assim contribuindo para o aperfeiçoamento de
recursos humanos no Brasil, na área de informação.
Passou a atuar no âmbito do ensino a partir de 1956, através da implantação
do Curso de Especialização de Pesquisas Bibliográficas para a área de
Ciências Médicas. Esse curso de especialização transformou-se no Curso de
Documentação Científica (CDC), oferecido por cerca de
35 anos, sem interrupção (Barreto, 1995).
Ao longo do tempo, as ações do IBBD caracterizavam-se pela tentativa de
afastamento da Biblioteconomia convencional e uma aproximação mais efetiva
da Documentação. O IBBD passou a trabalhar com uma visão mais ligada à
documentação e, em decorrência, passou a se preocupar com a formação de
profissionais graduados em diversos cursos. Nos seus cursos de
especialização, passou a introduzir disciplinas que tratavam da bibliografia
especializada e da documentação, bem como temas afins. Assim, os alunos dos
cursos ministrados passaram a ser oriundos de áreas diversificadas,
incluindo graduados em história, física, química e outras, “formando uma
geração de documentalistas que se preocupava com o conteúdo, e não com a sua
forma, com a informação, e não com o seu suporte físico” (Zaher,2005,
p.3).
Oddone (2006), usando o conceito de regime de informação [6],
na acepção de Frohmann (1995) e
González de Gómez (2003), acredita que a criação do IBBD representou a
instauração de um novo regime de informação. Esse novo regime
caracterizou-se: pela centralidade do fenômeno informacional, por novas
posturas profissionais dos bibliotecários e pela força das novas construções
teóricas que começavam a circular no contexto do órgão. Oddone
(2006, p.49-50) alega que “influenciado ao mesmo tempo pela
Biblioteconomia, pela Documentação e pelo então moderníssimo conceito de
‘informação científica’, esse novo regime estabeleceu as condições de
possibilidade para a futura emergência da Ciência da Informação” no
Brasil.
Assim, as ações do IBBD influenciaram mudanças na formação dos próprios
bibliotecários brasileiros, na década de 1970, com a introdução de
disciplinas relacionadas à documentação nos currículos dos cursos de
Biblioteconomia do país. Alguns cursos, na época, denominavam-se Curso de
Biblioteconomia e Documentação. Na atualidade, a Biblioteconomia brasileira,
em função da necessidade de atualização e renovação dos parâmetros na
formação de bibliotecários, absorveu os conteúdos da documentação, e na
formação desses profissionais está implícita a formação de documentalistas.
O histórico resumido apresentado acima é importante na medida em que o
grande marco da origem da Ciência da Informação no país foi estabelecido com
a implantação do Curso de Mestrado em Ciência da Informação implantado pelo
IBBD, em 1970. Barreto (1995) constata que a criação do
curso marcou o “início da conscientização, no Brasil, para a necessidade
de organizar e controlar a informação como uma ferramenta para o próprio
desenvolvimento da ciência e da tecnologia”. Segundo Zaher
(1995), o primeiro curso de mestrado da área, ministrado por professores
americanos e ingleses (entre eles Frederick Wilfrid Lancaster,
Tefko Saracevic, Douglas Foskett, Derek Langridge,
conforme Pinheiro; Lourero, 1995, p.
48). O Curso, de acordo com Zaher (1995), foi concebido
visando à atualização dos professores de Biblioteconomia do país e à
introdução de novos conceitos filosóficos de classificação e tecnologia
aplicados aos processos da informação. Além dos professores, visou ainda o
aperfeiçoamento do quadro de pessoal do IBBD.
Barreto (1995) mapeou três fases pelas quais o primeiro
Programa de Pós-graduação de Ciência da Informação do Brasil passou, ao
longo de sua existência, que são:
1ª fase – período de 1970 a 1983: neste período, a maioria das disciplinas eram obrigatórias; o conteúdo curricular era predominantemente instrumental; o foco era dirigido para o interior dos sistemas de armazenamento e recuperação da informação e suas práticas operacionais.
2ª fase – período de 1983 a 1992: passou a operar através de um convênio com a Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ; adotou uma estrutura mais flexível quanto à obrigatoriedade de suas disciplinas; o estudante e seu orientador elaboravam um programa de estudo diferenciado e conforme as necessidades da pesquisa que seria desenvolvida e do contexto informacional. Nessa fase, o curso adotou o discurso da interdisciplinaridade.
3ª fase – a partir de 1992-2002: período que se dá o início do Doutorado em Ciência da Informação e se criou uma estrutura independente para o Programa de Ciência da Informação na ECO. Neste período os docentes e discentes realizaram durante um ano uma reavaliação do Programa. Deste processo de avaliação e como resultado da influência das agências de fomento e controle do governo, o mestrado foi reduzido para 30 meses de duração, ocorreu a diminuição do número de créditos e foi mantida a sua proposta de flexibilidade e interdisciplinaridade. Este período foi interrompido com a não renovação do convênio para o funcionamento do Programa na ECO-UFRJ.
A partir de julho 2003, constata-se uma nova fase desse Programa de Pós-graduação, como conseqüência da transferência de seu convênio de funcionamento para a Universidade Federal Fluminense e a integração de alguns doutores dessa universidade, membros do Departamento de Ciência da Informação (DCI), como parte do corpo docente do programa. A sua estrutura acadêmica foi reformulada. Sua área de concentração passou a ser: o conhecimento da informação e a informação para o conhecimento que pretende estudar a informação, sua estrutura, fluxos e instrumentos de organização e controle; as suas condições teóricas, conceituais, operacionais e técnicas; as suas aplicações e os atos de informação nos diferentes contextos; e seus elos com outros campos e sua relação com a geração do conhecimento. . Tal área abrange três linhas de pesquisa: Teoria, epistemologia, interdisciplinaridade e Ciência da Informação; Representação, gestão e tecnologia da informação; e Informação, conhecimento e sociedade (Universidade, 2007).
Olinto (1995) constatou que, nos primeiros 25 anos, o
mestrado em Ciência da Informação do IBICT
caracterizou-se como um curso que absorveu sobretudo bibliotecários A autora
entretanto revelou que, com base em uma análise de corte no tempo, pode-se
afirmar que o mestrado vem tendendo a uma diversificação progressiva da área
de graduação dos seus alunos e a presença de bibliotecários vem decaindo
progressivamente, tendência essa que se mostrou mais acentuada a partir da
década de 90.
Um outro fato igualmente importante para área de Ciência da Informação no
Brasil, protagonizado pelo IBBD, foi o lançamento da revista Ciência
Informação, ocorrido em 1972. A revista, segundo Gomes
(1995), foi produto de um momento de efervescência do IBBD, gerado por
alguns fatores: a implantação do Mestrado em Ciência da Informação, as
primeiras pesquisas da área, a presença de Célia Zaher na direção do
órgão, o que representou a fonte de energia, e a existência do computador
como mola propulsora das atividades do instituto. A iniciativa de criação
dessa revista, na área, representou pioneirismo, tanto no Brasil como na
América Latina. Segundo Pinheiro, Brascher e Burnier
(2005, p.22), “o periódico Ciência da Informação, do IBICT,
desempenha função primordial no desenvolvimento, consolidação e expansão da
área de Ciência da Informação no Brasil”.
A transformação do IBBD em IBICT, a partir de 1976,
foi motivada pela necessidade de se preencher uma lacuna no Sistema Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, com relação à necessidade de
fornecimento de informações em C&T. O objetivo era desenvolver uma rede de
informação no país, envolvendo outras entidades atuantes em Ciência e
Tecnologia, buscando-se um modelo de sistema de informação descentralizado
para o país. Tal mudança gerou também alterações na própria atuação do
IBICT e no seu quadro de pessoal técnico, que
inicialmente era constituído basicamente por bibliotecários, e passou a
incorporar engenheiros e analistas de sistemas. Os serviços de informação
prestados pelo IBBD diretamente à comunidade científica foram suspensos, o
que acarretou a perda gradativa de visibilidade e prestígio junto a essa
comunidade.
A opção por um modelo descentralizado de sistema de informação em Ciência e Tecnologia gerou ao IBICT dificuldades para mantê-lo, em função de mudanças de prioridades governamentais e da ausência de destinação de recursos necessários para fomentar atividades de informação em ciência e tecnologia no país (Instituto, 2003).
Assim, a pulverização e a descentralização dos serviços trouxeram
dificuldades ao papel de coordenador e articulador dos processos que
envolviam a informação científica e tecnológica no país. O
IBICT, apesar da grande importância que teve ao longo dos anos, para
consolidação da Ciência da Informação no Brasil e como espaço da área para
participação nas políticas de informação do país, a partir de 1976 vem
alternando momentos de crises, busca de nova identidade, e recuperação de
sua importância e liderança no cenário nacional.
A revista Ciência da Informação, no entanto, tem resistido às diversas crises do instituto e, apesar de se ter a impressão de que perdeu um pouco de sua consistência temática nos últimos anos, constitui-se como um produto consolidado e respeitado pela comunidade científica da área. Essa impressão de inconsistência é provavelmente decorrente do fato de que os problemas informacionais têm sido objeto de estudo em outras áreas de conhecimento e a revista tem aberto espaço para tais abordagens.
Na área de ensino, a transformação dos cursos de mestrado em Biblioteconomia
em cursos de mestrado em Ciência da Informação também serviu para ampliar a
abrangência da Ciência da Informação no país, já que o curso do
IBICT foi criado no Rio de Janeiro e se manteve
funcionando na mesma cidade desde então. Os cursos de pós-graduação em
Biblioteconomia que mudaram sua designação para Ciênciada Informação
pertencem às seguintes universidades: Universidade de Brasília (UNB)
em 1991, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1995,
Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-CAMP) em 1995,
Universidade Federal da Paraíba (UFPB) em 1997, Universidade de São
Paulo (USP) em 2005 (data de seu programa independente). A
área vem se fortalecendo com a implantação de novos programas de
pós-graduação nas seguintes universidades: Universidade Estadual Paulista
(UNESP) – mestrado em 1998 e doutorado em 2004; Universidade Federal
da Bahia (UFBA) – mestrado em 1998; Universidade Federal de Santa
Catarina (UFSC) – mestrado em 2002.
Para a consolidação da Ciência da Informação, no Brasil, como campo de
conhecimento científico, a criação em 1989 da Associação Nacional de
Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação e Biblioteconomia (ANCIB)
foi um fato igualmente importante. A ANCIB, entidade
associada à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), é a
principal sociedade científica da área e vem, desde 1994, realizando os
encontros nacionais de pesquisa e pós-graduação na área. Na evolução desses
eventos, percebe-se ampliação e atualização dos grupos temáticos de
pesquisa. Atualmente existem sete grupos temáticos (Associação.,
2006). Tais grupos, conforme indicado abaixo, servem como parâmetros para se
estabelecer os limites da abrangência das pesquisas desenvolvidas em Ciência
da Informação no país:
GT 1 - Estudos Históricos e Epistemológicos da Informação;
GT 2 - Organização e Representação do Conhecimento;
GT 3 - Mediação, Circulação e Uso da informação;
GT 4 - Gestão de Unidades de Informação;
GT 5 - Política, Ética, e Economia da Informação;
GT 6 - Informação, Educação e Trabalho;
GT 7 - Análise da informação e de seus fluxos em diferentes contextos.
A partir da década de 90, observa-se um movimento de expansão da área,
conseqüência da troca de nomes e orientação das escolas ou departamentos e
de cursos de graduação em Biblioteconomia e, com isso, um redimensionamento
na formação profissionais bibliotecários. Tais departamentos passaram também
a agregar docentes sem vínculo com a formação em Biblioteconomia, para
atender as novas perspectivas na formação dos profissionais bibliotecários.
Historicamente, no Brasil, a formação em Ciência da Informação sempre foi
realizada através de cursos de pós-graduação, enquanto que a de
bibliotecários realiza-se em nível de graduação. As funções desses dois
tipos de profissionais sempre foram distintas: aos bibliotecários eram
reservados os trabalhos nas bibliotecas públicas, universitárias, escolares
e nos centros de documentação de empresas; aos cientistas da informação se
destinavam os trabalhos em institutos de pesquisa ou em universidades
federais, como professores. Isso acontecia porque essas universidades
demandavam mestres e doutores, pois estavam estruturando as carreiras
docentes e incentivando a pesquisa como parte das funções acadêmicas. Tal
situação se modificou com a implantação do primeiro curso de graduação em
Ciência da Informação instituído na Pontifícia Universidade Católica de
Minas Gerais (PUC-MINAS), que teve início em 2000 (CARDOSO, 2002). A própria
Associação Brasileira de Ensino de Biblioteconomia e Documentação (ABEBD),
em 2001, passou a se denominar Associação Brasileira de Educação em Ciência
da Informação (ABECIN) (Associação,
2007).
Atualmente, no Brasil, a Ciência da Informação se constitui uma sub-área das
ciências sociais aplicadas, na classificação das áreas do conhecimento do
CNPq. A sub-área da Ciência da Informação compreende: a Biblioteconomia, a
teoria da informação, os processos da comunicação, a representação da
informação, a teoria da classificação, os métodos quantitativos, a
bibliometria, as técnicas de recuperação de informação, os processos de
disseminação de informação, a Arquivologia, a organização de arquivos.
Estudos para redefinição das subáreas estão em andamento e, provavelmente em
2007, serão aprovadas novas subáreas na classificação do CNPq.
Considerando a atual classificação, a área de conhecimento e pesquisa de
Ciência da Informação, no país, está consolidada e representada pelos
programas de pós-graduação (PUC/CAMP, UFBA, UFMG, UFF/IBICT,
UNB, UNESP/Marília, UFSC e USP e ainda uma linha de pesquisa no
Programa de Pós-graduação de Comunicação da UFRGS).
Hoje os caminhos da área de Ciência da Informação no Brasil estão sendo
traçados pelas instituições que detêm programas de pós-graduação, e
especialmente em nível de doutorado. A área encontra-se em período de
transformação e dessas influências e contribuições resultará provavelmente
uma nova configuração da abrangência da área nos próximos anos.
A área está representada igualmente em diversos veículos de comunicação e
disseminação da informação e conhecimento produzidos (Ciência da Informação,
Perspectivas em Ciência da Informação, Informação e Sociedade,
DataGramazero,
Transinformação, Encontros Bibli, Revista Digital de Biblioteconomia,
Ciência da Informação e Informação & Informação).
Em um mapeamento referente à pesquisa em Ciência da Informação no Brasil,
realizado a partir de informações contidas na Plataforma Lattes,
especificamente na versão 5.0 do Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil
(2004) e da base de dados de Currículos, bases mantidas pelo CNPq, foi
identificada a presença de 101 grupos, 239 linhas e 503 pesquisadores. Entre
os pesquisadores responsáveis pela produção do conhecimento da área de
Ciência da Informação, verificou-se a predominância do sexo feminino (66,5%)
e a formação básica em Biblioteconomia agregando 35,4% dos pesquisadores.
A região Sudeste concentra a maior incidência das comunidades científicas dentro do país, possuindo 48,4% dos grupos de pesquisa, concentrando 47,6% dos pesquisadores atuantes nos grupos de pesquisa da área. A consolidação e a expansão dos cursos de graduação, mestrado e doutorado nessa região é um fator muito significativo, e certamente tem contribuído para o desenvolvimento da pesquisa em Ciência da Informação. Através desse mapeamento, foi possível detectar que o desenvolvimento da Ciência da Informação no Brasil apresenta disparidades regionais, há concentração de grupos de pesquisa na região sudeste, e que a interdisciplinaridade aparece timidamente nas temáticas abordadas e um pouco mais na formação dos pesquisadores, quando tais dados são confrontados. Além disso, ele alerta para que a produção científica divulgada em literatura nacional, e em português, não concorre para a expansão do conhecimento da área em âmbito mundial (Silva, 2006).
Para Braga (1999, p.9), a Ciência da Informação no Brasil,
quando se analisa a produção científica da área, caracteriza-se como uma
área consiliente [7]. Os trabalhos de pesquisa “mostram um ‘salto
conjunto’ de diversas áreas do conhecimento que se refracionam e
intermatizam através de novos sujeitos e objetos informacionais”. Para essa
autora, a área emerge:
indefinida ainda que poderosa; presente em várias categorias – humanas e sociais – ainda que sui generis; não-convencional ainda que paradigma emergente; sem núcleos pré-definidos, sem amarras, sem fronteiras estanques, como um universo em expansão que não se limita senão pelas propriedades que assimila e transpõe, num jogo caótico de ser e de vir, e pela entidade com que lida – a informação.
Considerações Finais
Na França, as Ciências da Informação, na sua existência, além da forte
cooperação dos documentalistas, tem ligação estreita com a Comunicação, e
recebeu influência das disciplinas de origem de seus fundadores.Apesar das
raízes colocadas por Robert Escarpit, Jean Meyriat, Bernard Miège,
Jacques Perriault, Jean–François Tétu, Yves Jeanneret, entre outros,
para delimitar a área que engloba o conjunto Ciências Informação e da
Comunicação, e construir, ao mesmo tempo, espaços próprios – revistas,
colóquios, sociedades científicas, Conseil National des Universités [8]
– a institucionalização cognitiva e o reconhecimento mútuo desse conjunto
atípico – Ciências da Informação e Ciências da Comunicação – parece ser
sempre um problema para alguns pesquisadores.
No Brasil, a vinculação da Ciência da Informação ainda é estreita com a
Biblioteconomia e sofreu interferência da Documentação. Nos últimos anos,
com a agregação de profissionais de outras áreas do conhecimento, vive um
momento de desenvolvimento e tentativa de delimitação de sua área de
pesquisa, competência e atuação. Cabe esclarecer que a área tentou, ao longo
de sua existência, uma aproximação com a área de Comunicação. No
CNPq as duas áreas fazem parte do mesmo Comitê
Científico, diversos cursos funcionaram como uma linha de pesquisa em cursos
consolidados de Comunicação, como, por exemplo, na USP
e na UFRJ.
Tais parcerias foram desfeitas e hoje a única que se mantém é a da UFRGS, isso porque o Programa Pós-graduação em Comunicação e Informação já foi criado com esse perfil. Com a desarticulação institucional do IBICT, a área perdeu espaço de participação no processo de políticas públicas de informação e vem, a partir dos últimos anos, tentando resgatar esse espaço. A formação da massa crítica vem se fortalecendo desde 1970, o que tem contribuído para o incremento da investigação científica e dos programas de pós-graduação. O desenvolvimento de pesquisas está diretamente relacionado aos programas de pós-graduação.
A situação da pós-graduação da área, com base em análise de resultados de
avaliação realizada pela Capes nos programas de pós-graduação do país no
triênio 2001-2003, segundo Smit, Dias e Amaral (2004) pode
ser resumida da seguinte forma: a área tem demonstrado um comportamento mais
ativo em função do aumento quantitativo em seu crescimento (aumento do
número dos docentes vinculados aos programas, do número de mestres e
doutores qualificados) e amadurecimento científico (aumento do número de
publicações e resposta positiva às recomendações decorrentes das avaliações
realizadas).
Alertam os avaliadores que os programas necessitam “continuar atentos à construção e manutenção de sua consistência interna, cuidando para tornar visível sua identidade” e, com relação às pesquisas, devem procurar desenvolver estudos mais generalizáveis e menos excessivamente localizados no tempo e espaço, estabelecer vínculos da pesquisa com o ensino da graduação e privilegiar a qualidade na escolha das fontes para a publicação da produção científica, entre outros.
Pode-se considerar que, tanto na França como no Brasil, a área de Ciência da
Informação tem dilemas e indefinições, e busca um caminho para sua
sustentação como campo teórico e cognitivo.Neste esforço de comparação,
reconhece-se que se realizou apenas um esboço da situação e das tendências
da área de Ciência da Informação no Brasil e na França. Mais do que
respostas, levantam-se questões.. Na verdade, esse trabalho está ligado a um
conjunto de ações científicas visando o estabelecimento de relações entre a
comunidade de pesquisadores brasileiros e franceses dessa área.
A primeira etapa foi realizada com uma visita da professora Viviane Couzinet, da Université de Toulouse, ao Brasil, para um ciclo de conferências organizado pela ANCIB, por sua presidente, professora Regina Maria Martelleto, convite este que foi compartilhado pelas universidades brasileiras UFMG, USP e UFSC, e complementado, em janeiro de 2005, pelo convite para uma conferência da Professora Miriam Vieira da Cunha, da UFSC, na Université de Toulouse. Em 2006, a professora Regina Martelleto foi convidada, por sua vez, a pronunciar a conferência de abertura do colóquio sobre gestão de informação que se realizou na Universidade de Tours, e a proferir uma conferência na Université de Toulouse, participando também como convidada de uma defesa de tese.
O presente ensaio permitiu mostrar as diferenças eventuais, mas também
forneceu indícios de algumas similitudes, representados pela busca de
identidade e tentativa de se criar espaços próprios de interlocução e
atuação. Marca o início de um longo processo e se espera que, no seu
transcurso, as ligações privilegiadas de trocas científicas entre a
Université Paul Sabatier de Toulouse e a Universidade Federal de Santa
Catarina sejam reforçadas. Ressalte-se que essa iniciativa visa consolidar
os laços de cooperação científica entre a França e o Brasil, na área de
Ciência da Informação.
[1] Comitê organizado pelo Ministère de l'Éducation Nationale et de la
Recherche destinado a avaliar as disciplinas (avanço das pesquisas,
desenvolvimento dos laboratórios e dos cursos, posição das profissões no
mercado de trabalho).
[2] Certificação atribuída pelo Ministère de l'Éducation Nationale et de la
Recherche que permite aos laboratórios obter financiamentos e formar
doutores[.]
[3] Equipe associada ao CNRS, Equipe de acolhida e Equipe jovem são status
dos laboratórios atribuídos pelo Ministère de l'Enseignement et de la
Recherche permitindo enquadrar os doutorandos associados a um financiamento
atribuído por este Ministério.
[4] Diploma de preparação aos estudos de doutorado substituído atualmente
pelo Master2 pesquisa.
[5] Estes três são diretores de pesquisa que dirigiram quase a totalidade
das teses em Ciência da Informação neste período.
[6]regime de informação, na perspectiva de Frohmann (1995), significa
catalogar [mapear] o polêmico processo que resulta da tentativa da inquieta
estabilização dos conflitos entre os grupos sociais, interesses, discursos,
com os eqüitativos artefatos científicos e tecnológicos; para Gonzalez de
Gomez (2003, p.61) Um regime de informação se reconhece por suas linhas de
força dominantes […]. [Ele] define quem são os sujeitos, as organizações, as
regras e as autoridades informacionais e quais os meios e recursos
preferenciais de informação; [ele regula] os padrões de excelência e os
modelos de sua organização, interação e distribuição vigentes em certo
tempo, lugar e circunstância, conforme certas possibilidades culturais e
certas relações de poder.
[7] Segundo Wilson (1998 apud Braga, 1999, p.9),
consiliente é um termo cunhado por William Whewel em 1840 significando um «
salto conjunto » de conhecimentos entre e através das disciplinas, por meio
de ligaçao de fatos e de teorias, para criar novas bases explanatórias.
Braga (1999) referia-se aos trabalhos produzidos no
Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação do IBICT/UFRJ e
publicados em Pinheiro, Lena Vania Ribeiro (Org.) Ciência
da Informação, ciencias sociais e interdisciplinaridade. Rio de Janeiro :
IBICT, 1999. No entanto, neste artigo assume-se que tal classificação pode
ser extendida a grande parte da produção científica da área.
[8]O Conseil National des Universités (CNU) é uma instância encarregada de
atribuir a qualificação aos doutores, de forma que possam se apresentar nos
concursos de recrutamento de professores-pesquisadores. Esse conselho
qualifica também os professores-pesquisadores que obtiveram a Habiblitação
para Dirigir Pesquisas, diploma que permite postular uma candidatura a um
cargo de Professor de universidade. Ele gerencia ainda as promoções e define
o âmbito de cada uma das disciplinas. A 71 é uma seção do CNU que gerencia
as Ciências da Informação e da Comunicação.
[9]Agradecemos à Profa. Miriam Vieira da Cunha pelas críticas e sugestões
que certamente foram contribuições importantes no processo de elaboração
deste texto.
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Sobre os autores / About the Author:
Laboratoire d’Études et de Recherches Appliquées en Sciences Sociales (LERASS), Equipe Médiations en Information et Communication Spécialisées, Université Toulouse III Paul Sabatier.
Edna Lúcia da Silva
Departamento de Ciência da Informação,Núcleo de Estudos em Informação e Mediações Comunicacionais Contemporâneas, UFSC.
Estera Muszkat Menezes
Departamento de Ciência da Informação, Núcleo de Estudos em Informação e Mediações Comunicacionais Contemporâneas, UFSC.