Resumo: O presente artigo pretende identificar e conceituar, através da história, as plataformas de conhecimento, sistemas hegemônicos, que têm como núcleo central tecnologias de informação e comunicação: a fala, a escrita, o livro impresso, o computador, a Internet e as atuais ferramentas colaborativas.Por serem mais dinâmicas e plurais na circulação de idéias, essas plataformas favoreceram e atraem, como imã, os setores mais dinâmicos sociais e econômicos, influenciando, com o tempo, a maneira pela qual organizamos a sociedade. Iremos detalhar as características, movimentos e entropias dessas plataformas e aplicar esse ferramental na passagem da plataforma do livro manuscrito ao impresso, como base para o estudo posterior da Internet..O tema será abordado de maneira prospectiva, pois faz parte do trabalho acadêmico em andamento da produção da tese do autor, que têm como questão central a compreensão dos ambientes colaborativos da Internet e que mudanças deveremos promover na Ciência da Informação para lidar com essa nova realidade. Sugestões e críticas ao longo do processo são extremamente salutares e bem-vindas.
Palavras-chave:
Plataformas de conhecimento; Sistemas de conhecimento; Entropia;
História da informação e do conhecimento.
Abstract:
The present article intends to identify through history the
knowledge platforms, hegemonic systems, that have as central nucleus
technologies of information and communication: the word, the writing, the
book printed, the computer, the Internet and the current collaborations
tools. To be more dynamic and plural in the circulation of ideas, these
platforms they had favored and they attract, like a magnet the social and
economic sectors most dynamic, influencing, with the time, the way for which
we organize the society. We will go to detail the characteristics, movements
and entropies of these platforms. This subject is part of the in progress
academic work of the production of the thesis of the author, that has as
central question the understanding of collaborations environments of the
Internet and that changes we will have to promote in the Information Science
for dealing with this new reality. Critical and suggestions are welcome.
Keywords:
Platforms of knowledge; Systems of knowledge; Entropy; History of the
information and the knowledge.
Aos futuros profissionais e pesquisadores que lidarão com sistemas complexos de informação.
Introdução
Atualmente, a visão sistêmica tem dado lugar a outras abordagens teóricas
para a compreensão de alguns fenômenos informacionais da atualidade e, em
especial, da Internet. ”A rede é um receptor epistêmico ou um
cristalizador eis por que tomou, atualmente, o lugar de noções outrora
dominantes, como o sistema ou a estrutura”, (Musso, 2004).
Apesar de concordarmos que não podemos analisar a Internet sem o
aprofundamento do conceito de rede, consideramos que a Web [2] não deixa de ser
rede por estar em um sistema, nem o sistema deixa de ser sistema por estar
em rede.Necessitaremos, entretanto, seguir um longo percurso para defender
essas idéias. Primeiro, deixar claro o papel do profissional e cientista da
informação como “mediadores do processo de geração de conhecimento” e
não mais como “recuperadores de informação”.
Depois, recolocar a visão sistêmica, seu movimento dinâmico e permanente e
suas eventuais crises, que passaremos a chamar de entropias [3].Aplicar ainda
esses conceitos nos sistemas de conhecimento e, por fim, detalhar os
sistemas hegemônicos de conhecimentos, que optamos por chamar de plataformas
de conhecimento.Por fim, detalhar suas engrenagens, crises e mudanças de
formato, aplicando esse ferramental na passagem da plataforma do livro
manuscrito para o livro impresso, preparando o cenário teórico, para estudar
em artigos futuro a Internet.
Dos “recuperadores de informação” aos “mediadores do conhecimento”
No artigo de 1997 “As tecnologias intensivas de informação e o
reposicionamento dos atores do setor”, Barreto demarcava a necessidade de
uma mudança de pensar e agir da Ciência da Informação em função de duas
novas condições:
- um modelo teórico em mudança, no qual a relação entre a informação e o conhecimento é privilegiada;
- tecnologias intensas em inovação modificam, também, as condições de produção, distribuição e uso da informação, com novos reposicionamentos, que afetam, como resultado, todos os atores do setor de informação, assim como os seus relacionamentos, (Barreto, 1997).
O pesquisador defendia a necessidade de ampliar a visão do campo de ação da
Ciência da Informação deixando o foco central em Sistemas de Recuperação de
Informação (Information Retrieval System), já que “os sistemas de
recuperação da informação obedeciam a um rígido formalismo técnico e
reducionista, que serviu aos propósitos de gerenciamento e controle da
informação em determinada situação”, (Barreto, 1997).
E argumentava que: o “o objetivo da informação e de suas unidades
gestoras é promover o desenvolvimento do indivíduo de seu grupo e da
sociedade através dos sistemas de produção do conhecimento (Barreto,
2007).
Para ele, conhecimento é toda a alteração provocada no estado cognitivo
do indivíduo, isto é, no seu estoque mental de saber acumulado, proveniente
de uma interação positiva com uma estrutura de informação. E desenvolvimento
uma forma ampla e geral, como um acréscimo de bem estar , um novo estágio de
qualidade de convivência, alcançado através da informação, (Barreto, 1997).
O autor propunha nova meta a ser perseguida pelos profissionais e cientistas
da informação: a passagem de mediadores do conhecimento, através de
pesquisas e atividades que visem levar a informação à “geração de
conhecimento no indivíduo e no seu espaço de convivência”, (Barreto, 1998).
Segundo o autor, o papel da Ciência da Informação era e continua sendo o de
permitir e facilitar que o ciclo do conhecimento se complete e se renove
infinitamente, através do seguinte modelo:
Informação -> conhecimento -> desenvolvimento -> informação
A proposta de que a Ciência da Informação deveria ampliar a visão de atuação, já defendida, também na época, por outros autores da área no exterior, como Gernot Wersig e Ulrich Neveling, encontraram eco no Brasil entre os cientistas da informação. Isa Freire, por exemplo, defendeu a mesma posição no artigo “A responsabilidade social da Ciência da Informação na perspectiva da consciência possível”, de 2004, apontando como referência conceitual Aldo Barreto,Gernot Wersig e Ulrich Neveling:
”É assim que, vivendo em uma sociedade que estende a teia de sua rede aos quatro cantos do mundo, os cientistas da informação devem acrescentar à reconhecida função de "mediadores" a de "facilitadores" da comunicação do conhecimento. Pois embora a informação sempre tenha sido uma poderosa força de transformação, o capital, a tecnologia, a multiplicação dos meios de comunicação de massa e sua influência na socialização dos indivíduos deram uma nova dimensão a esse potencial”, (Freire, 2004).
E prossegue:
“Com isso, crescem as possibilidades de serem criados instrumentos para transferência efetiva da informação e do conhecimento, de modo a apoiar as atividades que fazem parte do próprio núcleo de transformação da sociedade”, (Freire, 2004).
Em artigo mais recente, Barreto considera que essa passagem conceitual - defendida na época - marcou para sempre a história da Ciência da Informação, que pode ser dividida em três tempos:
- da gerência de informação (1945 a 1980);
- da relação informação e conhecimento (1980 a 1995);
- do conhecimento interativo de (1995 - até os dias atuais), (Barreto, 2002)[4].
Assim, como resumo das idéias de Barreto, Wersig, Neveling,
Freire, podemos
supor que o desafio lançando antes e ainda hoje para a Ciência da Informação
é o da mediação do conhecimento na sociedade. Essa medição tem como ambiente
de análise e atuação sistemas de conhecimento, nos quais sistemas de
(recuperação e armazenamento) de informação são parte do todo.
Para entender esse ambiente, vamos rediscutir os sistemas, que entram em
crise, explodem e mudam.
Os sistemas que entram em crise, explodem e mudam
O principal esforço, no Brasil, para introduzir a visão de sistemas para a
área da Ciência da Informação tem sido feito por Araújo, não só na sua tese
de doutorado [5] , como em outros artigos, sendo o mais recente o de 2005.Neste
artigo, a autora, resume que: ”Sistemas podem ser conceituados como um
conjunto de partes inter-relacionadas, interagindo para atingir
determinado(s) objetivos”, (Araújo, 2005).
Observa que o mundo pode ser visto como um conjunto de sistemas e
subsistemas em implicações de conter/estar contido, tendo sistemas mais
gerais e específicos, sub-sistemas, (Araújo, 2005).
Briggs e Burke, ao
analisar a história da informação e do conhecimento, afirmam que os sistemas
estão em contínua mudança, e que há neles “elementos diversos desempenham
papéis de maior ou menor grau ”, (Briggs e Burke, 2006).
Charles West Churchman (1913 –2004), autor clássico sobre o tema, lembra que
qualquer sistema pode ser dividido em dois ambientes distintos: o que está
dentro e sobre controle e o que está fora com pouco: ” quando
dizemos que alguma coisa está situada “fora” do sistema, queremos significar
que o sistema pode fazer relativamente pouco a respeito das características
ou comportamento de tal coisa”, (Churchman, 1968).
Araújo explica que na teoria geral dos sistemas o equilíbrio entre toda as
partes é algo desejável: ” equilíbrio significa “estabilidade dinâmica”,
preservação de caráter do sistemas, quando este atravessa períodos de
crescimento e expansão”, (Araújo, 2005). Para ela, quanto maior o
sistema, “maior a entropia em seu interior, mais entropia é gerada no
esforço de gestão desse sistema – de tal forma que gigantismo, crescimento
exagerado, megassistemas implicam logicamente aceleração do processo
entrópico e conseqüente desorganização, caos, desequilíbrio acentuado”,
(Araújo, 2005).
Ao refletir sobre esse problema dos desequilíbrios nos sistemas (Barreto,
2007) reintroduz as idéias de
similitude de Galileu [6]:
”Há mais de 350 anos, Galileu (1564-1642) formulou seu princípio da similitude dizendo que nenhum organismo biológico ou instituição humana, que sofra uma mudança de tamanho e uma conseqüente mudança na escala de proporções, não passa por isso sem modificar sua forma ou conformação, (Barreto, 2007).
E complementa:
”A analogia destes conceitos ao crescimento dos estoques de memória leva a crer que estas estruturas de armazenagem tendem a crescer em volume periódico e cumulativamente e terão em um determinado momento que enfrentar um problema de forma e conteúdo. A menos que existam estratégias de adaptação, os estoques tenderão a quebrar por seu próprio peso; transformar-se em agregados inúteis de informação por terem um exagerado excedente de informação não relevante”, (Barreto, 2007).
Barreto recorre ainda a outro pesquisador externo a CI, o biólogo e
matemático D'Arcy Wentworth Thompson (1860-1948) para procurar explicações
sobre o fenômeno da entropia, levantada por Araújo:
”O conhecimento, potencialmente armazenado em estoques de informação, acumula-se exponencialmente em estruturas que lhe servem de repositório. Mesmo colocando-se filtro de entrada para limitar qualitativamente o crescimento destes estoques, a coisa toda tenderá a ruir em pedaços, devido ao seu próprio peso, a menos que se modifique as proporções relativas da estrutura em relação ao seu conteúdo físico”, (Thompson, 1961).
Araújo cita os problemas práticos que essas quebras e entropias periódicas
ocasionam, ao aplicar o conceito aos sistemas de recuperação da informação:
”O limite de crescimento do sistema de informação e seus subsistemas já foi atingido, presencia-se no momento a transição desse crescimento para a saturação (que parece estar levando os processos do sistema a uma estagnação, não concretização): seleção que não seleciona; indexação que isola e mutila; organização de arquivos que têm problemas quanto a sua própria integridade física, problemas que se ampliam e repercutem no armazenamento; imprecisão e indeterminismo de análise e negociação de questões e perplexidades na disseminação/acesso ao documento. Nesse contexto, nada resta a acrescentar quanto ao sistema de avaliação: os estudos espelham, de maneira geral o gigantismo dos sistemas e insatisfação e a frustração do usuário com a resposta que lhe é fornecida pelo sistema, (Araújo, 1995).
Araújo sustenta ainda que “há um ponto crucial além do qual o crescimento da massa crítica leva a uma explosão, a um gigantismo, que acarreta uma saturação, i.é, o alcance de um “ponto limite” do qual não há mais capacidade de absorção/assimilação”, (Araújo, 2005).A pesquisadora aprofunda o tema e resgata os conceitos de sistema de Afanasiev, que defende:
”Há no sistema determinada periodicidade, determinado ritmo que faz com que em seu processo de movimento e desenvolvimento atravesse certas etapas ou fases cronologicamente sucessivas” (Afanasiev, 1977).
O que complementa Araújo: “O sistema é um processo em função do que sua estrutura vem a ser a sua organização no tempo. É um contínuo tornar-se”, (Araújo, 2005).
Castells no seu estudo “The Theory of Network Society” recupera trabalhos de Stephen J. Gould (1980) que aborda o aspecto tecnológico, como um dos elementos para se compreender o ciclo de contínua mudança dos sistemas:
“Os sistemas tecnológicos evoluem incrementalmente, mas que de tempos em tempos sofrem uma descontinuidade. Estas descontinuidades são marcadas por revoluções tecnológicas que introduzem um novo paradigma tecnológico”, (Castells, 2004).
Podemos afirmar, assim, que sistemas estão em movimento periódico e
regular, criam etapas demarcadas por contínuas explosões e quebras, a partir
de uma dada entropia, solucionadas, muitas vezes, como sugere Gould por
novas tecnologias, como indica a figura abaixo:

Os sistemas, portanto, mesmo os mais específicos, como sistemas de
recuperação da informação ou o mais amplos, como os de conhecimento, evoluem
não de forma contínua, mas por sucessivas entropias ou quebras.Uns podem
estar contidos em outros e as várias partes do mesmo exercem papéis distinto
no todo.Por fim, mudam de forma regularmente, geralmente, a partir da
introdução no sistema de uma nova tecnologia.
As visões acima nos permitem, agora, com a ajuda e relacionando os aspectos
ressaltados pelos autores citados no estudo do sistema (Barreto, Galileu,
Thompson, Araújo, Briggs, Burke, Gould, Castells, Afanasiev), reunindo
as idéias anteriores, chegar a uma definição do que seria um sistema de
conhecimento, que adotaremos para efeito desse estudo:
Sistemas de conhecimento aqui serão considerados o conjunto de partes e ações inter-relacionadas, que desempenham maior ou menor grau de influência sobre o todo que tem como objetivo principal: gerar conhecimento e desenvolvimento no indivíduo e no seu espaço de convivência. Podemos ainda dizer que esses sistemas quando sujeitos, a determinada entropia, mudam de forma, a partir da introdução de uma nova tecnologia [8] .
Passemos agora aos detalhes do sistema ao resgatar a figura apresentada artigo de (Barreto, 1998), na qual apresenta um amplo sistema de conhecimento e o fluxo tradicional da informação dentro dele [9]:

No Sistema de Conhecimento proposto por Barreto identificamos as seguintes
partes do conjunto:
Geração da informação (fatos e idéias) -> Processamento
da Informação -> Armazenamento e Recuperação -> Difusão -> Assimilação ->
Geração da informação, através da retroalimentação.
Um fluxo similar ao que defende Fischer ao descrever a História da Leitura:
”Os especialistas em comunicação reconhecem cinco fases de intercâmbio de
informações: produção, transmissão, recepção, armazenagem e repetição”,
(Fischer, 2005).
Definido o contorno do todo e as partes dos sistemas de conhecimento,
passemos agora a discussão do tema central do artigo. Os sistemas de
conhecimento hegemônicos ou como vamos preferir adotar as plataformas de
conhecimento.
As plataformas de conhecimento
Diversos estudos têm sido feitos sobre a história da informação, da
comunicação ou do conhecimento e todos têm em comum a necessidade de
demarcar etapas, mantendo uma certa similaridade entre eles, através de
épocas, eras, ordens, tempos, espíritos.
No artigo de 1998,
“Mudança estrutural no fluxo do conhecimento:a
comunicação eletrônica”, por exemplo, ao olhar para o passado,
Barreto
apresenta tabela feita por Masuda, no qual o autor descreve as seguintes
etapas da comunicação do homem: da linguagem, da escrita, da imprensa e a
do computador, (Masuda, 1980). Santos ao tentar explicar a passagem do
computador para a rede, opta por escolher como divisor a Ordem do livro e a
Ordem da Internet, (Santos, 2006). Briggs e Burke dividem as etapas no livro
“A História Social da Mídia”, da seguinte maneira:
”Este livro focaliza o mundo ocidental moderno a partir do século XV. A narrativa começa com a impressão (c.1450 d.C), e não com o alfabeto (c.2000 a.C), a escrita (c.50000 a.C), ou a fala”, (Briggs e Burke, 2006).
Ao escrever
“A Revolução de Gutenberg”, Man escolhe por algo
similar:”Em um gráfico da comunicação humana nos últimos cinco mil anos,
a curva ascendente que vai do grunhido ao correio eletrônico não é regular.
Tem quatro pontos principais, cada um marcando momentos nos quais a
comunicação atingia um nível de velocidade e alcance” (Man, John, 2002).
E prossegue:
”O primeiro foi a invenção da escrita que levou à criação das sociedades grandes, duradouras, com elites clericais. O segundo foi a invenção do alfabeto, que trouxe a escrita até o alcance das pessoas comuns a partir dos quatro anos de idade (…) o terceiro ponto, causado pela invenção da imprensa com tipos móveis, que surgiu na Europa e, então no mundo, quinhentos anos atrás (…) e o quarto que parece estar nos transformando em células de um cérebro planetário, é o advento da Internet”, (Man, John, 2002).
Lévy, ao descrever as tecnologias da Inteligência, divide a história do
conhecimento em três tempos do espírito: o da oralidade primária, da escrita
e da informática, (Lévy, 1993). O que Chartier veio chamar de cultura
impressa e cultura manuscrita, que produziram triagens, hierarquias,
associações entre formatos gêneros e leituras. E lembra que hoje no texto
eletrônico os mesmos processos estão presentes.
Man considera, ao analisar a era Gutenberg, que esta possibilitou a criação
de um genoma intelectual, uma base de conhecimento que poderia ser passada
de geração a geração, (Man, 2002). Podemos aferir, assim, que há etapas bem
marcadas, em torno das quais a produção do conhecimento, passa a ser
difundida de outra maneira, a partir um núcleo central, uma tecnologia de
comunicação e informação, que molda cada período da história da humanidade.
O que Castells sugere, citando Stephen J. Gould, como quebras de paradigma
tecnológico, que organiza uma série de descobertas tecnológicas posteriores,
(Castells, 2004).
Algo como vemos na tabela abaixo:

O geógrafo Milton Santos no artigo “A normalidade da crise” ao estudar o
capitalismo, introduz o conceito sistemas hegemônicos.Defende que os
processos não hegemônicos tendem a desaparecer fisicamente, ou a permanecer,
mas de forma subordinada, exceto em algumas áreas da vida social e em certas
frações do território onde podem manter-se relativamente autônomos, isto é,
capazes de uma reprodução própria ”... enquanto os demais processos
acabam por serem deglutidos ou se adaptam passiva ou ativamente, tornando-se
hegemonizados” (Santos, 1999).
Briggs e Burke lembram que Innis considerava que cada meio de comunicação
tende a criar um perigoso monopólio do conhecimento, sujeito a rupturas:
” ... o monopólio intelectual dos monges da Idade Média, baseado em
pergaminhos, foi solapado pelo papel e pela impressão gráfica do mesmo modo
que o “poder do monopólio sobre a escrita” exercido pelos sacerdotes
egípcios na idade dos hieróglifos havia sido subvertido pelos gregos e seu
alfabeto”, (Briggs e Burke, 2006). Fischer lembra que os países europeus e
os Estados Unidos, ao adotarem a revolução literária, criaram um novo
mercado de livros e periódicos, técnicas inovadoras de publicação e
distribuição, subgêneros, estilos e gostos originais os quais o restante do
mundo (Oriente Médio, Ásia, África, América Latina, Oceania), desde então
foi “obrigado” a seguir. (Fischer, 2005).
Enfim, ao analisar a história dos sistemas de conhecimento, percebemos que é
marcada por determinados sistemas, que se mantém na sociedade por um período
(são geralmente processos longos) sob determinada ordem vigente, espírito,
cultura, e, a partir de novas tecnologias de informação e comunicação,
explodem e mudam de forma para um outro ambiente, ou plataforma, seguindo o
modelo de ruptura e mudança dos sistemas, tornando-se hegemônicos com o
tempo, em função de favorecer à dinâmica do fluxo do conhecimento. Ou como
podemos repetir Milton Santos: “enquanto os demais processos acabam por serem
deglutidos ou se adaptam passiva ou ativamente, tornando-se hegemonizados”.
Podemos dizer mais.
Quando esses sistemas hegemônicos mudam de forma, criam um novo espírito na
sociedade e induzem mudanças sociais. “Geralmente aceita-se que as
mudanças na mídia, tiveram importantes conseqüências culturais e sociais.”,
(Briggs e Burke, 2006). Os autores afirmam que os estudiosos, ao analisar os
séculos XII e XIII, citam a criação da cultura escrita. E que o psicólogo
David Olson, em
“The World of Paper”, cunhou a expressão “a
mentalidade letrada”:
”(...) as mudanças que as práticas de leitura e da escrita provocaram, segundo ele (Olson), no modo como pensamos a linguagem, o espírito e o mundo, do surgimento da subjetividade do universo como livro”, (Briggs e Burke, 2006).
Já Hewitt abordando também o surgimento da prensa avalia que “novas tecnologias na transmissão de informação produziram mudanças radicais nas hierárquicas de poder até então existentes”, (Hewitt, 2007). Controversas, entretanto, são a natureza e o escopo dessas mudanças sociais e culturais, a partir de cada um desses genomas, espaços, ambientes. Uma pergunta necessária passa a ser: esses sistemas são agentes ou indutores desse processo de mudança?
”Falar da impressão gráfica como agente de mudança é dar muita ênfase ao meio de comunicação, em detrimento de escritores, impressores e leitores que usaram a nova tecnologia, cada qual segundo seus próprios e diferentes objetivos”, (Briggs e Burke, 2006).
Os dois autores defendem que as novas técnicas de comunicação são mais um
“agente catalisador”, mais ajudando as mudanças sociais do que as
originando e de que qualquer uma revolução desse tipo. Lembram, ao citar a
era do livro impresso, que são necessárias determinadas condições sociais e
culturais favoráveis para se disseminar o conhecimento, a partir do novo
meio, lembrando que a chegada do livro impresso na Europa não foi homogênea,
com mais resistência, por exemplo, na Rússia em função do analfabetismo e na
Turquia pelo despotismo, (Briggs e Burke, 2006).
Os dois historiadores lembram ainda que é preciso ter cuidado para não se
analisar a importância da impressão gráfica de forma isolada, ao se
contrapor a Einsenstein, “mas que é necessário avaliar todos os
diferentes meios de comunicação como interdependentes, tratando-os qual um
pacote, um repertório, um sistema, ou o que os franceses chama de “regime”,
(Briggs e Burke, 2006). Consideram ainda que a “impressão gráfica não é um
agente, mas uma tecnologia empregada por indivíduos ou grupos para
propósitos diferentes em locais diversos " é preferível pensar em efeitos
similares da impressão gráfica em lugares diferentes”, (Briggs e Burke, 2006).
Posição similar a de Pierre Lévy:
”Uma técnica é produzida dentro de uma cultura, e uma sociedade encontra-se condicionada por suas técnicas. E digo condicionada, não determinada (...) o estribo condiciona efetivamente toda a cavalaria e, indiretamente, todo o feudalismo, mas não o determina”, (Lévy, 1999). E segue: ”Técnicas criam novas condições e possibilitam ocasiões inesperadas para o desenvolvimento das pessoas e das sociedades, mas que elas não determinam automaticamente nem as trevas nem a iluminação para o futuro humano”, ((Lévy 1999).
A frase de Fischer ilustra bem essa relação dialética, ao se referir ao
iluminismo: “O livro francês conquistou a Europa, mas, com a Revolução
Francesa, a sociedade conquistou o livro”, (Fischer, 2005). Chartier
alerta que o futuro possível não está inelutavelmente inscrito nas mutações
da técnica, (Chartier, 1997). Hewitt reforça essa idéia ao utilizar o verbo
despertou: “O processo de impressão despertou o fogo intelectual no final
da Idade Média”.
Lévy, por fim, opta por escolher o termo Ecologia Cognitiva [11] como sendo esse
ambiente de produção de conhecimento que marca determinados momentos
históricos e se altera a cada nova etapa: ”Concluímos nossa investigação
sobre a história das formas de conhecimento com um paralelo entre certas
formas culturais e o uso dominante das tecnologias intelectuais”,
(Lévy,
1993). O autor considera que nenhuma destas aquisições de sentido
encontra-se previamente garantida, nenhum avanço técnico é determinado a
priori, “antes de ter sido submetido à prova do coletivo heterogêneo, da
rede complexa onde ela devera circular e que ela conseguirá, eventualmente
reorganizar”, (Lévy, 1993).
Essa prova ao coletivo heterogêneo que se refere Lévy a um novo sistema de
conhecimento não estaria diretamente ligada à capacidade de resolver os
problemas do ambiente anterior, principalmente, para gerar desenvolvimento
de forma mais dinâmica, abrindo um espaço do ser humano para uma nova etapa
da sociedade?
Fischer recorda que o livro impresso despertou a alfabetização, que implicou
em mais instrução da população, sendo um impulsionador do progresso,
“onde havia riqueza, havia escola; onde havia escolas, havia mais instrução;
e onde havia mais instrução, rápidos avanços ocorriam em toda área de
atuação humana” (Fischer, 2005). E ainda que “os que sabiam ler, ao
longo da história, ocuparam as terras mais valiosas do mundo”, (Fischer,
2005).
Assim, quando novos ambientes de produção de conhecimento surgem, baseados
em novas tecnologias de comunicação e informação, tem no fator
desenvolvimento um dos itens principais para que venha a se podem se tornar
hegemônico na sociedade. Recordemos o que defende Barreto que o
desenvolvimento significa um acréscimo de bem estar, um novo estágio de
qualidade de convivência, alcançado através da informação, (Barreto, 1998).
Assim, optamos por chamar os sistemas hegemônicos de conhecimento por apenas
plataforma [12]de conhecimento, para introduzir no conceito a dimensão
tecnológica necessária.
Definimos, assim, as Plataformas de conhecimento:
São sistemas de conhecimento, que passam a hegemônicos em dada sociedade por permitirem melhor dinamismo na difusão da informação e do conhecimento, comparados à plataforma anterior, tendendo a uma rápida difusão, mas de forma heterogênea, pelos benefícios que trazem para o desenvolvimento das forças produtivas. Em função dessa nova dinâmica, alteram a longo prazo a maneira pela qual o ser humano organiza a sociedade.
Considerações finais
Burke no seu livro
“Uma história social do conhecimento” observa que
as novas tecnologias impulsionaram nos anos 90 um interesse crescente pela
história do conhecimento e da informação. O autor comenta que é comum para
os que habitam um dado sistema de conhecimento transformá-lo em um senso
comum, sem ter a noção exata da sua dimensão e contornos. Na proposta
do seu estudo o autor defende a importância de uma “desfamiliarização”,
citando o crítico russo Viktor Shklovsky, que sugere a necessidade de
transformar o que é familiar em estanho e vive versa, defendendo um mergulho
no passado para se atingir esse objetivo. ”É só pela comparação que
podemos vê-lo como um sistema entre outros”, (Burke, 2003).
No seu livro “As tecnologias da Inteligência” Pierre Lévy considera
que na época atual, a técnica é uma das dimensões fundamentais onde está em
jogo a transformação do mundo humano por ele mesmo, sendo
“um dos mais importantes temas filosóficos e políticos de nosso tempo”, (Lévy, 1993). Segundo ele, “o não aprofundamento e o distanciamento da filosofia política e a reflexão sobre o conhecimento cristalizaram-se em épocas nas quais as tecnologias de transformação estavam relativamente estáveis ou pareciam evoluir em uma direção previsível”, (Lévy, 1993).
Briggs e Burke avaliam que os historiadores – de qualquer período ou
tendência – devem “levar em conta seriamente a teoria e a tecnologia da
comunicação”, (Briggs e Burke, 2006). Consideram que “os efeitos a longo
prazo, especialmente as conseqüências surpreendentes e involuntárias do uso
de determinado meio de comunicação, são mais difíceis de separar, mesmo que
haja distanciamento em razão do tempo decorrido”, (Briggs e Burke, 2006).
Chartier, também lembra que refletir sobre as revoluções do livro e, mas
amplamente sobre o uso da escrita, é examinar a tensão fundamental que
atravessa o mundo contemporâneo, dilacerando entre a afirmação das
particularidades e o desejo universal.
Idéias que reforçam a importância desse trabalho prospectivo no passado para
entender o futuro.
Vimos que há uma entropia principal – a da geração de informação – que leva
o ser humano a procurar novas tecnologias para difundir idéias e semear o
desenvolvimento no ciclo descrito por Barreto: -> Informação -> conhecimento
-> desenvolvimento -> informação .
Se novas idéias não circulam, as plataformas de conhecimento, entram em
lenta entropia e junto a sociedade, pois não há a irrigação na entrada,
criando problemas posteriores de conhecimento e desenvolvimento em toda
cadeia. Se isso vale para a plataforma principal, a mesma se aplica para os
sistemas que serão posteriormente homogeneizados por ela, logo depois, em um
lento processo, que pode durar século, como no passado e décadas, ou mesmo
anos, nos tempos atuais e quem sabe meses, em futuro próximo.
Observamos também que o processo sempre será heterogêneo: haja visto que
hoje existem tribos, nações, grupos e indivíduos que não têm escrita,
habitantes que não sabem ler, outros que nunca viram um computador e aqueles
que nunca navegaram na Internet e, entre estes, os que não usam ferramentas
colaborativas. Aplica-se aqui a mesma lógica utilizada no tamanho dos
estoques, que ficam armazenadas como desejos latentes ou idéias não
desenvolvidas nos indivíduos, criando algo como define Galileu, citado por
Barreto:
”A menos que existam estratégias de adaptação, os estoques (no caso latentes na sociedade) tenderão a quebrar por seu próprio peso; transformar-se em agregados inúteis”, (Barreto 2007).
O desenho abaixo detalha a idéia ao longo dos séculos:

Necessidade de expansão indica o aumento populacional, necessidade de ampliar as
visões de mundo e de diversidade, o questionamento de poderes existentes, a
ampliação da capacidade do homem para conhecer e desenvolver novas técnicas;
Novas tecnologias de informação e comunicação, TICs (processamento da
informação) – surgem para, inicialmente, processar as idéias e fatos, depois
difundi-las, serem assimiladas, retroalimentarem o sistema e serem
armazenadas para posterior recuperação, visando o conhecimento e o
desenvolvimento da sociedade;
Absorção e Difusão representa o início de um novo formato de sistema de informação é
marcado pela chegada de uma nova TIC, que precisa,
enquanto geradora de um novo ambiente, ser absorvida culturalmente e depois
praticamente pela sociedade, em um ciclo de absorção, que implica adaptação,
melhorias constantes e incrementais na própria tecnologia, além da difusão
da mesma como uma saída para diversos problemas existentes. Esse processo
reforça a expansão do novo sistema, espalhando-o mais e mais na sociedade,
gerando soluções e, com o tempo, novos problemas, antecipando uma nova
quebra, pequenas e grandes entropias.
Longe de esgotar o tema, procuraremos chegar a conceitos que nos levem a uma
compreensão melhor dos fenômenos que hoje estamos vivendo, com a chegada da
Plataforma de Conhecimento da Rede Colaborativa em substituição a plataforma
da rede, que, por sua vez, ocupou o espaço da plataforma digital, que
substituiu a do livro.
Como defende
Pierre Lévy no livro
Cibercultura é importante compreender o
mundo em que vivemos, nos apossar da discussão da técnica para que possamos
influenciar e garantir que o desenvolvimento dessas novas tecnologias esteja
dentro de uma perspectiva humanista.
Essa é a intenção da presente pesquisa.
Notas
[1] O autor desenvolveu o presente trabalho com bolsa de pesquisa do
CNPq.
[2] Consideramos Web, como diversos outros autores, como um sinônimo de
Internet.
[3] Para o efeito deste trabalho, entropia será considerada um determinado
problema que inviabiliza o desenvolvimento harmônico de determinado sistema.
[4] Interessante observar que a historiografia de Barreto para a Ciência da
Informação marca a passagem do computador de grande porte para o
microcomputador e deste para a Internet.
[5] Tese defendida na Comunicação na Universidade Federal do Rio de Janeiro,
em convênio com o IBICT – Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e
Tecnologia, em 1994.
[6] http://pt.wikipedia.org/wiki/Galileu_Galilei
[8] Vamos considerar que uma determinada metodologia é uma técnica e,
portanto, pode alterar a forma do sistema.
[9] Na linha tracejada o autor define o que está dentro e o que está fora do
sistema, compondo o ambiente do mesmo.
[10] Wiki, blogs, comunidades, Chat. (ver mais no artigo do autor: “Quatro
redes e um dilema em relação ao usuário”, (http://webinsider.uol.com.br/index.php/2007/09/20/quatro-redes-e-um-dilema-em-relacao-ao-usuario/).
[11] Mais sobre o termo:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ecologia_cognitiva
[12] Optamos pelo conceito de plataforma, trazendo-o do contexto da
informática e adaptando para o tema, onde significa, a partir do Wikipedia:
“um determinado padrão de um processo operacional (...) uma expressão
utilizada para denominar a tecnologia empregada em determinada
infra-estrutura de Tecnologia da Informação ou telecomunicações, garantindo
facilidade de integração dos diversos elementos dessa infra-estrutura”.
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Sobre o autor / About the Author:
Professor do MBA de Gestão de Conhecimento do Crie/Coppe/UFRJ, Coordenador do ICO, Instituto de Inteligência Coletiva, Doutorando em Ciência da Informação pelo Ibict, UFF.