DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.9  n.6   dez/08                  ARTIGO 01

    Informação, informatividade e Lingüística Documentária: alguns paralelos com as reflexões de Hjorland e Capurro [1]
    Information, informativeness and Documentary Linguistics: some parallels with the reflections of Hjorland and Capurro
    por Marilda Lopes Ginez de Lara
     


    Resumo: Considera aspectos dos desenvolvimentos da Lingüística Documentária comparando-as às reflexões de Hjorland e Capurro, a partir do quadro de pesquisa sobre organização e comunicação da informação realizada pelo primeiro, e pelo panorama das discussões sobre o conceito de informação e de suas relações interdisciplinares, de ambos os autores. Procura estabelecer um paralelo entre a proposta brasileira e a dos autores, destacando o entendimento do conceito de informação como construção simbólica, a relação entre informação e comunidades discursivas, a construção da mensagem documentária e a preocupação com a integração da categoria recepção nos processos de organização da informação para o acesso.

    Palavras-chave:  Lingüística documentária; Informação e informatividade; Informação e comunidades discursivas; Mensagem documentária.

     

     

    Abstract:  Considers of the aspects of the Documentary Linguistics developments based on the reflections of Hjorland about the researches of the information organization and communication, and based on the panorama of the discussions about the information concept and its interdisciplinary relations by Hjorland and Capurro. We intend to establish a parallel between the brazilian Documentary Linguistics propositions and the aforementioned authors', emphasizing the understanding of the concept of information as a symbolic construction, the relation between information and discursive communities, and the integration of the reception category into the information organization process for its access.
    Key words: Documentary linguistics; Information and informativeness; Information and discursive communities; Information communication.

     


     

    Introdução

    O objetivo deste artigo é o de traçar paralelos entre aspectos levantados nas pesquisas de Hjorland e Capurro e as que, isoladamente ou em conjunto com outros pesquisadores, são desenvolvidas no Brasil no âmbito da Lingüística Documentária, compreendida como subcampo da ciência da informação dedicado às reflexões de natureza teórica e metodológica que trata da organização da informação para o acesso.

    Partimos do pressuposto de que os processos de organização da informação para integrar sistemas informacionais visando o acesso e a possibilidade de criar conhecimento caracteriza, a seu modo, a comunicação documentária, que tem na linguagem seu apoio primordial. Admitimos, porém, que a linguagem funciona como instrumento de comunicação apenas quando funciona, simultaneamente, como meio para a construção do saber comunicado (Lopes, 1987).

     

    Para dar conta desse objetivo, depois de Saussure, as teorias da linguagem têm procurado integrar progressivamente a pragmática a partir de Benveniste, Austin, Ducrot, Searle etc.. As contribuições recentes nesse campo enfatizam a necessidade de observar os aspectos relativos aos contextos circunstancial, situacional, interacional e epistêmico. A apropriação dessas reflexões permite responder com mais rigor à questão básica hoje colocada pela Ciência da Informação, no que diz respeito aos aspectos que ligam os sistemas informacionais, as linguagens documentárias e seus públicos.

    O interesse pela pesquisa de Hjorland e de Capurro se deve ao fato de que eles sintetizam diferentes vertentes de pensamento sobre as questões da organização do conhecimento e sugerem novas perspectivas sobre as questões contemporâneas da ciência da informação. Em parte, as pesquisas brasileiras apresentam muitos pontos de contato.

    No artigo 'Domain analysis in information science', Hjorland (2002) faz um panorama de várias abordagens utilizadas na ciência da informação, que, reunidas, formariam uma única competência para especialistas em informação. O quadro reúne diferentes empreendimentos levados a efeito por pesquisadores europeus e americanos que, sob distintos enfoques e prioridades, se propõem a discutir os problemas de organização e comunicação da informação.

     

    Segundo o autor, de modo implícito ou explícito, o objetivo dos sistemas de informação é identificar e comunicar o conhecimento para cumprir determinados objetivos - por exemplo, para os médicos, informação para curar os pacientes. Observa, porém, que não se pode tratar todos os domínios como se eles fossem similares, o que põe em relevo a necessidade de considerar as diferentes comunidades discursivas onde o trabalho com a informação tem lugar. A proposta, em suma, mostra a importância de observar os elementos pragmáticos da questão da organização para o acesso.

    No panorama realizado por Hjorland nota-se a inexistência de qualquer referência a textos produzidos no Brasil ou na América Latina. Tal fato, muito provavelmente, relaciona-se à pouca visibilidade da produção acadêmica brasileira derivada de problemas de idioma de publicação, mais do que da ausência de construção de conhecimento na área no país. A complexidade identificada no enfrentamento da heterogeneidade dos discursos contemporâneos das ciências e a procura de otimizar sua circulação (que não se restringe ao âmbito acadêmico) têm mobilizado, também nas pesquisas brasileiras, além dos aspectos lógico-cognitivos, critérios lingüístico e comunicacionais, terminológicos e pragmáticos.

    Dentre a gama de problemas contemporâneos colocados pela ciência da informação, procuraremos privilegiar, neste texto, os problemas que, sob nosso ponto de vista, são subjacentes às onze abordagens propostas por Hjorland no artigo acima citado (relativas à organização da informação em classificações e tesauros, à indexação e recuperação, aos estudos epistemológicos e aos terminológicos, etc.), utilizando também como referência os levantados no documento The concept of information, de Capurro & Hjorland (2003; 2007), onde são focalizados os princípios que estão na base do entendimento lingüístico, comunicacional e pragmático que tocam às questões da organização e circulação da informação.

    Procuraremos introduzir a discussão pontuando o que consideramos caracterizar melhor o pensamento dos autores - a questão da informação e da informatividade – para, em seguida, abordar aspectos particulares que co-relacionam as pesquisas brasileiras, dentre eles: a dimensão simbólica da informação, as relações da informação com as comunidades discursivas e os aspectos semiótico-pragmáticos da mensagem documentária. O cotejamento não é exaustivo, mas permite levantar alguns dos problemas de pesquisa comuns.

    Informação e informatividade
    A reflexão e a prática na ciência da informação nos dias de hoje começam pela discussão do conceito de informação. No entanto, alguns autores priorizam, mais do que o significado do conceito 'informação', a 'informatividade' dos documentos (Numberg, citado por Frohmann, 2004). O conceito de informatividade é originalmente utilizado na literatura da Lingüística Textual que, na sua versão contemporânea, destaca o fato de que a compreensão de um texto depende do conhecimento de outros textos: “um discurso vem ao mundo numa inocente solitude, mas constrói-se através de um já-dito em relação ao qual ele toma posição” (Val, 1991, p.15).

    Essa condição de intertextualidade é, de certo modo, reconhecida pela 'análise de domínio' (Hjorland, 2002; Capurro & Hjorland, 2003; 2007) quando os autores vinculam o objeto informativo às estruturas informacionais, terminológicas e de linguagem das comunidades discursivas que, mesmo em situações onde não são compartilhados pontos de vista, são determinantes para definir os critérios de relevância que fazem com que algo seja informativo.

    Na opinião de Capurro e Hjorland, a informação é um conceito subjetivo, porém não em um sentido individual, uma vez que os indivíduos se organizam em situações sociais concretas e desempenham diferentes funções na divisão do trabalho na sociedade. "Não é possível para os sistemas de informação mapear todos os possíveis valores da informação" (Capurro & Hjorland, 2007, p.192). Na ótica da hermenêutica da informação, a 'pré-comprensão' une os indivíduos tendo como marco não o sujeito isolado, mas a comunidade ou o campo de conhecimento ou de ação na qual se insere o sujeito (Capurro, 2003).

    A seleção do que é informativo ou não na constituição dos sistemas de informação não é tarefa simples, pois os domínios e áreas de atividade diferem quanto aos aspectos que os unem: alguns domínios "têm alto grau de consenso e critérios de relevância explícitos", outros "têm paradigmas diferentes, conflitantes ..." (Capurro & Hjorland, 2007). Na perspectiva hermenêutica - que coloca em relevo o observador como intérprete no interior de comunidades discursivas relacionadas a domínios de conhecimento -, os universos de pré-compreensão balizam a oferta de sentido (mensagem), e criam, desse modo, referência para a seleção de sentido (informação) (Capurro, 2003, com base em Luhmann, 1987).

    Informação como construção simbólica e informatividade
    Para a Lingüística Documentária, o conceito de informação se realiza em processo, ou seja, é uma construção (Lara, 1999). Tal idéia impede conceber a atividade documentária considerando apenas as características dos documentos. Smit (2003) sugere que, mais do que falar em documento de bibliotecas, de arquivos, de museus etc., deve-se privilegiar sua função informativa.

     

    Sob perspectiva semelhante são mobilizadas noções empíricas da informação, que se mostram mais apropriadas para formular classes segundo diferentes funções e para realizar distinções segundo o que se privilegia a partir dessas funções (Lara, 1999). A 'informatividade', nesse sentido, apresenta forte relacionamento com a função pragmática da informação, não se podendo afirmar de antemão como se realiza a informação nas situações concretas de uso.

    Quando reconhecida como inscrição organizada, a informação é vista como resultado de uma "construção institucional e intencional que tem nos valores simbólicos e funcionais a condição para a construção do sentido e para circular socialmente, desencadeando processos de conhecimento" (Lara, 2006a). Por esse motivo, a Lingüística Documentária preocupa-se com os problemas decorrentes dos processos simbólicos do tratamento e da recuperação da informação, buscando pesquisar soluções que diminuam a distância entre os estoques e o uso da informação a partir dos estudos das estruturas simbólicas da documentação, das questões lingüísticas de mediação entre produtores e consumidores da informação e da ligação entre os processos documentários e a construção e verbalização da informação.

     

    Nesse sentido, propõe que a linguagem dos ambientes informacionais combine referências da produção informacional, dos objetivos institucionais e dos elementos cognitivos e comunicacionais de grupos de usuários (Tálamo & Lara, 2006) como meio de promover a circulação social da informação.

    Fundando suas metodologias de trabalho nos valores simbólicos, a Lingüística Documentária compartilha a idéia de que, na discussão do fenômeno da informação, não são as referências individuais que devem ser consideradas, quer por reconhecer o caráter industrial da atividade documentária (Gardin, 1973) como, e principalmente, por entender que a questão da informação não é individual, mas de ordem social, política e econômica, portanto, de natureza pública (Tálamo & Kobashi, 2003).

     

    O caráter de bem imaterial e simbólico da informação,

     

     "projeta um fluxo de relações constantes: na produção, a relação entre conteúdo registrado e a forma da informação; no acesso, as formas significantes compatíveis simultaneamente com a linguagem do sistema e a linguagem do usuário; na troca, a relação entre o capital cultural dos segmentos populacionais e a forma simbólica do estoque informacional e no uso, a relação entre informação disponível socialmente e o conhecimento subjetivo dos segmentos sociais" (Tálamo & Kobashi, 2003, p. 19).


    Compreender o caráter social da informação e, de modo correspondente, da mensagem documentária, significa verificar que as estruturas de organização da informação não são universais, mas variam segundo os contextos culturais e as coordenadas espaço-temporais (Tálamo, 2001). Interesses e linguagem são referências que balizam os procedimentos de organização para o acesso e uso da informação (Lara & Tálamo, 2007). Admitindo o caráter processual e social da informação, a Lingüística Documentária co-relaciona informação e possibilidade de que os documentos sejam efetivamente informativos, o que demonstra similaridade com a posição adotada por Hjorland e Capurro.

    Informação e comunidades discursivas
    No âmbito da Lingüística Documentária, as comunidades discursivas constituem o principal apoio para a integração das referências de uso aos instrumentos de organização e acesso à informação. A operacionalização desse procedimento é passível via diálogo com a Terminologia que, enquanto campo de estudos da Lingüística Aplicada, sugere formas que permitem identificar, compreender e integrar a terminologia concreta efetivamente utilizada pelas comunidades discursivas.

     

    Ao observar as comunidades discursivas, simultaneamente são observadas muitas das características da recepção, quer pela identificação das referências mais compartilhadas, das variações designacionais e conceituais, das formas de uso dos termos, bem como dos modos como se organizam as áreas e respondem, nem sempre de forma homogênea, pelos partidos epistemológicos adotados. Parte-se do pressuposto de que tais variáveis se manifestam necessariamente nos discursos, não em idealizações ou abstrações, constituindo, portanto, as bases concretas para a formulação de propostas de organização e de acesso à informação.

    As relações interdisciplinares da Ciência da Informação com a Terminologia já apresentam resultados sólidos. A Lingüística Documentária, originalmente proposta por García Gutiérrez, no início da década de 90 (García Gutiérrez, 1990), vem se consolidando desde aquela data em grande parte pela apropriação de contribuições terminológicas que se traduzem tanto em conceitos explicativos, como operacionais, trazendo para a ciência da informação maior condição para refletir sobre seus princípios teórico-epistemológicos, como maior rigor nos métodos propostos.

    A principal contribuição da Terminologia, porém, não é a identificação dos termos em si, mas a validação social das escolhas de forma e de conteúdo, como expressão pragmática da observação dos discursos das comunidades de uso. Exemplo disso é o aperfeiçoamento das bases para a construção de linguagens dos sistemas informacionais (sistemas de classificação, tesauros, arquitetura da informação) que ganham um novo patamar ao substituir procedimentos aleatórios de constituição dos vocabulários, por outros baseados em referências concretas dos domínios e áreas de atividade. Investe-se, via Terminologia, nas embreagens para a interpretação, permitindo que a linguagem dos sistemas informacionais exerça mais convenientemente seu papel de veículo para a comunicação, interpretação e recuperação (Lara, 2006b).

    Observe-se que os embreantes constituem uma classe de palavras cujo sentido varia de acordo com a situação e, na análise do discurso, não podem ser definidos fora de uma referência às mensagens. Uma unidade embreadora é geralmente um dêitico, ou uma expressão sui-referencial que manifesta a reflexividade fundamental da atividade lingüística (Charaudeau & Maingueneau, 2004). Neste texto, porém, o termo embreante é utilizado num sentido análogo para nos referirmos à dependência, na interpretação, de conhecimentos anteriores, de forma semelhante à usada por Granger (1974). Entendido dessa maneira, a Terminologia, cujas bases são os discursos, fornecem as referências para a embreagem da interpretação.

    Pondera-se, no entanto, que não é qualquer Terminologia que confere importância à linguagem na comunicação e a conseqüente observação dos discursos efetivamente produzidos, Lara (2006a), razão pela qual a Lingüística Documentária, acompanhando o desenvolvimento das reflexões daquele campo, identifica como importantes os elementos ressaltados pela Terminologia Comunicativa (Cabré, 1999) e pela Socioterminologia  (Gaudin, 1993). As duas vertentes têm o mérito de reconhecer a tênue separação entre a linguagem de especialidade e a linguagem geral, o problema da dicotomia entre os discursos das ciências e do senso comum, a variação e a polissemia, bem como a importância da linguagem como instrumento de comunicação.

    A apropriação das reflexões da Terminologia contemporânea permite à Lingüística Documentária operar mais concretamente o reconhecimento da diversidade discursiva e a conseqüente reunião de indicadores da recepção que permitem formalizar vínculos de adesão e estabelecer equivalências entre linguagens, contribuindo, assim, para melhorar a circulação da informação entre diferentes públicos da informação: entre pares, e entre especialistas e o público em geral. Do mesmo modo, promove a possibilidade da interpretação não arbitrária do significado das representações, mostrando que eles não se resumem a componentes semânticos autônomos, mas mobilizam relações de sentido que se inscrevem nos universos temáticos expressos nos discursos (Tálamo & Lara, 2006).

    Pelo exposto, verifica-se a Lingüística Documentária também destaca a importância das comunidades discursivas, pois é a partir delas que se pode observar as diferentes situações sociais concretas em que inserem os indivíduos que são elementos essenciais para reunir indicadores dos valores que eles conferem à informação.

    Informação, instituição e interpretação da mensagem documentária
    Para Capurro e Hjorland, a informação, como conceito subjetivo, é signo (abordagem semiótica) e, enquanto tal, depende de interpretação (Capurro & Hjorland, 2007). No processo semiótico-hermenêutico a produção do significado torna-se informacional quando olhada no horizonte da comunidade de intérpretes, o que [também] faz da informação uma categoria social (Capurro, 2003). Frohmann (2006) defende posição semelhante ao falar da materialidade da informação, resgatando o conceito de materialidade da enunciação, de Foucault, que é relacionado à ordem da instituição (Frohmann 2006). Mas é Capurro quem mais observa os aspectos semióticos que envolvem a interpretação da informação quando afirma que a Ciência da Informação é ciência das mensagens (2003), reconhecendo a informação como categoria antropológica.

    De modo aproximado, a Lingüística Documentária propõe a centralidade da mensagem documentária no processo comunicacional observando sua condição de ponto de encontro entre referenciais da emissão e da recepção, ambas ligadas a ordens institucionais. Ao associar a abordagem terminológica à lingüístico-semiótica, a Lingüística Documentária preocupa-se simultaneamente com o caráter processual do funcionamento do signo documentário e com a função de 'operadores de sentido' dos descritores materializados das linguagens de organização da informação.

    O descritor como operador de sentido decorre de sua relação com as terminologias, a partir das quais apresenta uma carga semântico-pragmática e informativa fundada na observação de suas manifestações concretas nos discursos. Os operadores de sentido são mobilizados concretamente nas mensagens documentárias (Lara, 1999; 2006b) para veicular o que Capurro denomina 'oferta de sentido', que funciona como referência para a seleção de sentido (informação) pelo usuário (Capurro, 2003).

    Sob nosso ponto de vista, a linguagem documentária funciona como interpretante, ou conjunto de possibilidades interpretativas referidas simultaneamente às linguagens de especialidade (caracterizadas por apresentar os indicadores razoavelmente partilhados pelas comunidades discursivas) e às hipóteses de organização adotadas pelo sistema informacional.

     

    Nessa condição, o signo documentário - linguagem documentária e descritores como operadores de sentido - , funciona como elemento para um tipo particular de semiose - a semiose documentária - que não remete a um significado cristalizado, mas a um jogo interpretativo onde são combinadas as referências da emissão (via operadores de sentido) e da recepção (conhecimentos e experiências dos sujeitos sócio-institucionais). Esse processo interpretativo culmina na construção da informação, via seleção de sentido, conforme a proposta de Capurro (Hjorland & Capurro, 2002; 2007).

    As bases terminológico-pragmáticas dos operadores de sentido ativam o que Hjorland denomina a pré-compreensão, noção que se aproxima daquela de observação ou experiência colateral (experiência prévia, conhecimento de fundo) na linguagem de Peirce (1974), mas numa dimensão mais ampla que a individual, já que diz respeito ao conhecimento do sujeito social como pertencente a uma comunidade discursiva relacionada a um domínio do saber ou a uma área de atividade. É por essa via que a Lingüística Documentária procura garantir um processo dinâmico de veiculação da informação, diferente das situações de reprodução.

    Pode-se afirmar, portanto, que a Lingüística Documentária compartilha da visão de Capurro e Hjorland à medida que identifica o caráter processual da informação e que propõe abordar semioticamente o descritor, visualizando-o como um tipo particular de signo documentário que mobiliza sentidos possíveis com base nas terminologias das comunidades discursivas. Essa condição substitui, por um signo passível de interpretação, a simples reprodução de um ponto de vista.

    Informação e pragmática: conclusão
    O que foi dito anteriormente permite estabelecer paralelos, ao menos com os aspectos selecionados, entre a Lingüística Documentária e a proposta da análise de domínio, de Hjorland, e da teoria hermenêutica da informação, de Capurro, embora as pesquisas tenham origens diferentes. De qualquer modo, todas elas destacam as preocupações com o aperfeiçoamento da comunicação em ambientes informacionais.

    Acreditamos, no entanto, que a inclusão da recepção nos fluxos sociais da informação ainda tem de ser mais profundamente estudada, já que o tratamento que tradicionalmente marca a atividade documentária é muito vinculado às estruturas de codificação da informação, ignorando que o acesso e o uso da informação têm como ator o sujeito real, territorializado (Lara & Tálamo, 2007).

     

    Por essa razão, as pesquisas desenvolvidas no âmbito da Lingüística Documentária têm se proposto, recentemente, a verificar a possibilidade de incluir a dimensão da recepção nos fluxos sociais da informação a partir do acréscimo de referências que permitam, mais efetivamente, prover as mensagens documentárias de maior condição de atualização. A atualização é aqui referida ao conceito lingüístico de operação pela qual uma unidade da língua passa à fala (Dubois, 1988) no processo de enunciação, e que relaciona a língua ao mundo (Charaudeau & Maingueneau, 2004).

    Emissão e recepção respondem, em graus diferentes, a ordens institucionais às quais se submetem as comunidades discursivas. Colocar o foco na mensagem significa, sob nosso ponto de vista, considerar a recepção e a negociação de sentido: como enunciação discursiva, a mensagem se realiza num ambiente que não é exclusivamente lingüístico, mas também pragmático, uma vez que é um acontecimento contextual apreendido na multiplicidade de suas dimensões sociais e psicológicas (Charaudeau & Maingueneau, 2004).

     

    Embora os estudos sobre a eficácia das estruturas da mensagem que considerem a interação como elemento importante para integrar fluxos sociais da informação ainda sejam embrionários, a pesquisa sobre o tema assume extrema importância para auxiliar a identificação de elementos para a composição de "filtros sociais mais integrativos " (Lara & Tálamo, 2007) que mobilizem os valores relacionados ao conhecimento e à informação. De fato,


    "... as formas de acesso cognitivo à informação ganham destaque, uma vez que exigem a construção de redes, metáforas das interações que vivem. Jamais se ignorou que o usuário vivesse em grupos com interesses formulados de forma específica, com fontes de informação próprias , etc... Supunha-se apenas que nada disso tinha importância para o funcionamento dos fluxos de informação. Hoje se discute como integrar esses componentes ao processo documentário, já que nenhum de seus elementos isolados garante o uso efetivo da informação " (Lara & Tálamo, 2007).



    Ao menos teoricamente, é possível supor que, além das contribuições de Hjorland e Capurro, as relacionadas à pragmática lingüística, em especial na ótica da Lingüística Textual contemporânea, podem auxiliar a identificar mecanismos para otimizar a interação partindo de uma noção de texto não como unidade acabada, mas como lugar de interação entre atores sociais. Seria necessário

     

    "dispor de instrumental tecnológico que sustentasse não apenas a organização da informação, mas a apresentação de um conjunto de elementos exteriores ao texto (de outro modo estaríamos falando em processamento em linguagem natural, que não é o caso), a partir dos quais fosse possível viabilizar as relações de construção interacional dos sentidos. Temas como referenciação, inferenciação, acesso a conhecimentos prévios, ao lado de questões relativas aos gêneros textuais (Koch, 2006), poderiam ser mobilizadas para indicar a relevância dos textos reunidos no sistema informacional para os objetivos e necessidades dos usuários".


    A linguagem é um 'palco' (Vogt, citado por Koch, 2004), "lugar onde os indivíduos se representam e constituem o mundo e suas situações ao se constituírem e representarem de determinada forma" (Koch, 2004, p.127). Na observação das manifestações da linguagem visando a construção de sistemas informacionais, nosso papel é "facilitar o aspecto curatorial da recuperação da informação ..." (Smiraglia, 2006, p.185), considerando que esse ato tem conseqüências.

     

    A interlocução, o debate, bem como a cooperação em pesquisa, são, portanto, fundamentais, como condição para a construção do conhecimento visando melhores práticas para desempenhar nosso papel de curadores da informação cujas ações não podem ignorar as diferentes necessidades e possibilidades de uso social da informação.
     

    Notas

    [1]O presente artigo constitui resultado parcial de pesquisa financiada pelo CNPq.

     

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    Sobre a autora / About the Author:

    Marilda Lopes Ginez de Lara
    larama@usp.br

    Doutora em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, professora do Depto de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP e do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da ECA/USP; Bolsista de Produtividade em Pesquisa, CNPq.