Resumo: Considera aspectos dos desenvolvimentos da Lingüística Documentária comparando-as às reflexões de Hjorland e Capurro, a partir do quadro de pesquisa sobre organização e comunicação da informação realizada pelo primeiro, e pelo panorama das discussões sobre o conceito de informação e de suas relações interdisciplinares, de ambos os autores. Procura estabelecer um paralelo entre a proposta brasileira e a dos autores, destacando o entendimento do conceito de informação como construção simbólica, a relação entre informação e comunidades discursivas, a construção da mensagem documentária e a preocupação com a integração da categoria recepção nos processos de organização da informação para o acesso.
Palavras-chave: Lingüística documentária; Informação e informatividade; Informação e comunidades discursivas; Mensagem documentária.
Abstract:
Considers of the aspects of the Documentary Linguistics developments
based on the reflections of Hjorland about the researches of the information
organization and communication, and based on the panorama of the discussions
about the information concept and its interdisciplinary relations by
Hjorland and Capurro. We intend to establish a parallel between the
brazilian Documentary Linguistics propositions and the aforementioned
authors', emphasizing the understanding of the concept of information as a
symbolic construction, the relation between information and discursive
communities, and the integration of the reception category into the
information organization process for its access.
Key words: Documentary linguistics; Information and
informativeness; Information and discursive communities; Information
communication.
Introdução
O objetivo deste artigo é o de traçar paralelos entre aspectos levantados
nas pesquisas de
Hjorland e
Capurro
e as que, isoladamente ou em conjunto com outros pesquisadores,
são desenvolvidas no Brasil no âmbito da Lingüística Documentária,
compreendida como subcampo da ciência da informação dedicado às reflexões de
natureza teórica e metodológica que trata da organização da informação para
o acesso.
Partimos do pressuposto de que os processos de organização da informação
para integrar sistemas informacionais visando o acesso e a possibilidade de
criar conhecimento caracteriza, a seu modo, a comunicação documentária, que
tem na linguagem seu apoio primordial. Admitimos, porém, que a linguagem
funciona como instrumento de comunicação apenas quando funciona,
simultaneamente, como meio para a construção do saber comunicado (Lopes,
1987).
Para dar conta desse objetivo,
depois de Saussure, as teorias da linguagem têm procurado integrar
progressivamente a pragmática a partir de Benveniste, Austin, Ducrot, Searle
etc.. As contribuições recentes nesse campo enfatizam a necessidade de
observar os aspectos relativos aos contextos circunstancial, situacional,
interacional e epistêmico. A apropriação dessas reflexões permite responder
com mais rigor à questão básica hoje colocada pela Ciência da Informação, no que diz respeito aos aspectos que ligam os sistemas informacionais,
as linguagens documentárias e seus públicos.
O interesse pela pesquisa de Hjorland e de Capurro se deve ao fato de que
eles sintetizam diferentes vertentes de pensamento sobre as questões da
organização do conhecimento e sugerem novas perspectivas sobre as questões
contemporâneas da ciência da informação. Em parte, as pesquisas brasileiras
apresentam muitos pontos de contato.
No artigo 'Domain
analysis in information science', Hjorland (2002) faz um panorama de
várias abordagens utilizadas na ciência da informação, que, reunidas,
formariam uma única competência para especialistas em informação. O quadro
reúne diferentes empreendimentos levados a efeito por pesquisadores europeus
e americanos que, sob distintos enfoques e prioridades, se propõem a
discutir os problemas de organização e comunicação da informação.
Segundo o autor, de modo
implícito ou explícito, o objetivo dos sistemas de informação é identificar
e comunicar o conhecimento para cumprir determinados objetivos - por
exemplo, para os médicos, informação para curar os pacientes. Observa,
porém, que não se pode tratar todos os domínios como se eles fossem
similares, o que põe em relevo a necessidade de considerar as diferentes
comunidades discursivas onde o trabalho com a informação tem lugar. A
proposta, em suma, mostra a importância de observar os elementos pragmáticos
da questão da organização para o acesso.
No panorama realizado por Hjorland nota-se a inexistência de qualquer
referência a textos produzidos no Brasil ou na América Latina. Tal fato,
muito provavelmente, relaciona-se à pouca visibilidade da produção acadêmica
brasileira derivada de problemas de idioma de publicação, mais do que da
ausência de construção de conhecimento na área no país. A complexidade
identificada no enfrentamento da heterogeneidade dos discursos
contemporâneos das ciências e a procura de otimizar sua circulação (que
não se restringe ao âmbito acadêmico) têm mobilizado, também nas
pesquisas brasileiras, além dos aspectos lógico-cognitivos, critérios
lingüístico e comunicacionais, terminológicos e pragmáticos.
Dentre a gama de problemas contemporâneos colocados pela ciência da
informação, procuraremos privilegiar, neste texto, os problemas que, sob
nosso ponto de vista, são subjacentes às onze abordagens propostas por
Hjorland no artigo acima citado (relativas à organização da informação em
classificações e tesauros, à indexação e recuperação, aos estudos
epistemológicos e aos terminológicos, etc.), utilizando também como
referência os levantados no documento
The concept of information,
de Capurro & Hjorland (2003; 2007), onde são focalizados
os princípios que estão na base do entendimento lingüístico, comunicacional
e pragmático que tocam às questões da organização e circulação da
informação.
Procuraremos introduzir a discussão pontuando o que consideramos
caracterizar melhor o pensamento dos autores - a questão da informação e da
informatividade – para, em seguida, abordar aspectos particulares que
co-relacionam as pesquisas brasileiras, dentre eles: a dimensão simbólica da
informação, as relações da informação com as comunidades discursivas e os
aspectos semiótico-pragmáticos da mensagem documentária. O cotejamento não é
exaustivo, mas permite levantar alguns dos problemas de pesquisa comuns.
Informação e informatividade
A reflexão e a prática na ciência da informação nos dias de hoje começam
pela discussão do conceito de informação. No entanto, alguns autores
priorizam, mais do que o significado do conceito 'informação', a
'informatividade' dos documentos (Numberg, citado por Frohmann, 2004). O
conceito de informatividade é originalmente utilizado na literatura da
Lingüística Textual que, na sua versão contemporânea, destaca o fato de que
a compreensão de um texto depende do conhecimento de outros textos: “um
discurso vem ao mundo numa inocente solitude, mas constrói-se através de um
já-dito em relação ao qual ele toma posição” (Val, 1991, p.15).
Essa condição de intertextualidade é, de certo modo, reconhecida pela
'análise de domínio' (Hjorland, 2002; Capurro & Hjorland, 2003; 2007)
quando os autores vinculam o objeto informativo às estruturas
informacionais, terminológicas e de linguagem das comunidades discursivas
que, mesmo em situações onde não são compartilhados pontos de vista, são
determinantes para definir os critérios de relevância que fazem com que algo
seja informativo.
Na opinião de Capurro e Hjorland, a informação é um conceito subjetivo,
porém não em um sentido individual, uma vez que os indivíduos se organizam
em situações sociais concretas e desempenham diferentes funções na divisão
do trabalho na sociedade. "Não é possível para os sistemas de informação
mapear todos os possíveis valores da informação" (Capurro & Hjorland,
2007, p.192). Na ótica da hermenêutica da informação, a 'pré-comprensão'
une os indivíduos tendo como marco não o sujeito isolado, mas a comunidade
ou o campo de conhecimento ou de ação na qual se insere o sujeito (Capurro,
2003).
A seleção do que é informativo ou não na constituição dos sistemas de
informação não é tarefa simples, pois os domínios e áreas de atividade
diferem quanto aos aspectos que os unem: alguns domínios "têm alto grau
de consenso e critérios de relevância explícitos", outros "têm
paradigmas diferentes, conflitantes ..." (Capurro & Hjorland, 2007). Na
perspectiva hermenêutica - que coloca em relevo o observador como intérprete
no interior de comunidades discursivas relacionadas a domínios de
conhecimento -, os universos de pré-compreensão balizam a oferta de sentido
(mensagem), e criam, desse modo, referência para a seleção de sentido (informação)
(Capurro, 2003, com base em Luhmann, 1987).
Informação como construção simbólica e informatividade
Para a Lingüística Documentária, o conceito de informação se realiza em
processo, ou seja, é uma construção (Lara, 1999). Tal idéia impede conceber
a atividade documentária considerando apenas as características dos
documentos. Smit (2003) sugere que, mais do que falar em documento de
bibliotecas, de arquivos, de museus etc., deve-se privilegiar sua função
informativa.
Sob perspectiva semelhante são
mobilizadas noções empíricas da informação, que se mostram mais apropriadas
para formular classes segundo diferentes funções e para realizar distinções
segundo o que se privilegia a partir dessas funções (Lara, 1999). A
'informatividade', nesse sentido, apresenta forte relacionamento com a
função pragmática da informação, não se podendo afirmar de antemão como se
realiza a informação nas situações concretas de uso.
Quando reconhecida como inscrição organizada, a informação é vista como
resultado de uma "construção institucional e intencional que tem nos
valores simbólicos e funcionais a condição para a construção do sentido e
para circular socialmente, desencadeando processos de conhecimento"
(Lara, 2006a). Por esse motivo, a Lingüística Documentária preocupa-se com
os problemas decorrentes dos processos simbólicos do tratamento e da
recuperação da informação, buscando pesquisar soluções que diminuam a
distância entre os estoques e o uso da informação a partir dos estudos das
estruturas simbólicas da documentação, das questões lingüísticas de mediação
entre produtores e consumidores da informação e da ligação entre os
processos documentários e a construção e verbalização da informação.
Nesse sentido, propõe que a
linguagem dos ambientes informacionais combine referências da produção
informacional, dos objetivos institucionais e dos elementos cognitivos e
comunicacionais de grupos de usuários (Tálamo & Lara, 2006) como meio de
promover a circulação social da informação.
Fundando suas metodologias de trabalho nos valores simbólicos, a Lingüística
Documentária compartilha a idéia de que, na discussão do fenômeno da
informação, não são as referências individuais que devem ser consideradas,
quer por reconhecer o caráter industrial da atividade documentária (Gardin,
1973) como, e principalmente, por entender que a questão da informação não é
individual, mas de ordem social, política e econômica, portanto, de natureza
pública (Tálamo & Kobashi, 2003).
O caráter de bem imaterial e simbólico da informação,
"projeta um fluxo de relações constantes: na produção, a relação entre conteúdo registrado e a forma da informação; no acesso, as formas significantes compatíveis simultaneamente com a linguagem do sistema e a linguagem do usuário; na troca, a relação entre o capital cultural dos segmentos populacionais e a forma simbólica do estoque informacional e no uso, a relação entre informação disponível socialmente e o conhecimento subjetivo dos segmentos sociais" (Tálamo & Kobashi, 2003, p. 19).
Compreender o caráter social da informação e, de modo correspondente, da
mensagem documentária, significa verificar que as estruturas de organização
da informação não são universais, mas variam segundo os contextos culturais
e as coordenadas espaço-temporais (Tálamo, 2001). Interesses e linguagem são
referências que balizam os procedimentos de organização para o acesso e uso
da informação (Lara & Tálamo, 2007). Admitindo o caráter processual e social
da informação, a Lingüística Documentária co-relaciona informação e
possibilidade de que os documentos sejam efetivamente informativos, o que
demonstra similaridade com a posição adotada por Hjorland e Capurro.
Informação e comunidades discursivas
No âmbito da Lingüística Documentária, as comunidades discursivas constituem
o principal apoio para a integração das referências de uso aos instrumentos
de organização e acesso à informação. A operacionalização desse procedimento
é passível via diálogo com a Terminologia que, enquanto campo de estudos da
Lingüística Aplicada, sugere formas que permitem identificar, compreender e
integrar a terminologia concreta efetivamente utilizada pelas comunidades
discursivas.
Ao observar as comunidades
discursivas, simultaneamente são observadas muitas das características da
recepção, quer pela identificação das referências mais compartilhadas, das
variações designacionais e conceituais, das formas de uso dos termos, bem
como dos modos como se organizam as áreas e respondem, nem sempre de forma
homogênea, pelos partidos epistemológicos adotados. Parte-se do pressuposto
de que tais variáveis se manifestam necessariamente nos discursos, não em
idealizações ou abstrações, constituindo, portanto, as bases concretas para
a formulação de propostas de organização e de acesso à informação.
As relações interdisciplinares da Ciência da Informação com a Terminologia
já apresentam resultados sólidos. A Lingüística Documentária, originalmente
proposta por García Gutiérrez, no início da década de 90 (García Gutiérrez,
1990), vem se consolidando desde aquela data em grande parte pela
apropriação de contribuições terminológicas que se traduzem tanto em
conceitos explicativos, como operacionais, trazendo para a ciência da
informação maior condição
para refletir sobre seus princípios teórico-epistemológicos, como maior
rigor nos métodos propostos.
A principal contribuição da Terminologia, porém, não é a identificação dos
termos em si, mas a validação social das escolhas de forma e de conteúdo,
como expressão pragmática da observação dos discursos das comunidades de
uso. Exemplo disso é o aperfeiçoamento das bases para a construção de
linguagens dos sistemas informacionais (sistemas de classificação, tesauros,
arquitetura da informação) que ganham um novo patamar ao substituir
procedimentos aleatórios de constituição dos vocabulários, por outros
baseados em referências concretas dos domínios e áreas de atividade.
Investe-se, via Terminologia, nas embreagens para a interpretação,
permitindo que a linguagem dos sistemas informacionais exerça mais
convenientemente seu papel de veículo para a comunicação, interpretação e
recuperação (Lara, 2006b).
Observe-se que os embreantes constituem uma classe de palavras cujo sentido
varia de acordo com a situação e, na análise do discurso, não podem ser
definidos fora de uma referência às mensagens. Uma unidade embreadora é
geralmente um dêitico, ou uma expressão sui-referencial que manifesta a
reflexividade fundamental da atividade lingüística (Charaudeau & Maingueneau,
2004). Neste texto, porém, o termo embreante é utilizado num sentido análogo
para nos referirmos à dependência, na interpretação, de conhecimentos
anteriores, de forma semelhante à usada por Granger (1974). Entendido dessa
maneira, a Terminologia, cujas bases são os discursos, fornecem as
referências para a embreagem da interpretação.
Pondera-se, no entanto, que não é qualquer Terminologia que confere
importância à linguagem na comunicação e a conseqüente observação dos
discursos efetivamente produzidos, Lara (2006a), razão pela qual a Lingüística
Documentária, acompanhando o desenvolvimento das reflexões daquele campo,
identifica como importantes os elementos ressaltados pela Terminologia
Comunicativa (Cabré, 1999) e pela Socioterminologia (Gaudin, 1993). As
duas vertentes têm o mérito de reconhecer a tênue separação entre a
linguagem de especialidade e a linguagem geral, o problema da dicotomia
entre os discursos das ciências e do senso comum, a variação e a polissemia,
bem como a importância da linguagem como instrumento de comunicação.
A apropriação das reflexões da Terminologia contemporânea permite à
Lingüística Documentária operar mais concretamente o reconhecimento da
diversidade discursiva e a conseqüente reunião de indicadores da recepção
que permitem formalizar vínculos de adesão e estabelecer equivalências entre
linguagens, contribuindo, assim, para melhorar a circulação da informação
entre diferentes públicos da informação: entre pares, e entre especialistas
e o público em geral. Do mesmo modo, promove a possibilidade da
interpretação não arbitrária do significado das representações, mostrando
que eles não se resumem a componentes semânticos autônomos, mas mobilizam
relações de sentido que se inscrevem nos universos temáticos expressos nos
discursos (Tálamo & Lara, 2006).
Pelo exposto, verifica-se a Lingüística Documentária também destaca a
importância das comunidades discursivas, pois é a partir delas que se pode
observar as diferentes situações sociais concretas em que inserem os
indivíduos que são elementos essenciais para reunir indicadores dos valores
que eles conferem à informação.
Informação, instituição e interpretação da mensagem documentária
Para Capurro e Hjorland, a informação, como conceito subjetivo, é signo (abordagem
semiótica) e, enquanto tal, depende de interpretação (Capurro & Hjorland,
2007). No processo semiótico-hermenêutico a produção do significado torna-se
informacional quando olhada no horizonte da comunidade de intérpretes, o que
[também] faz da informação uma categoria social (Capurro, 2003).
Frohmann (2006) defende posição semelhante ao falar da materialidade da
informação, resgatando o conceito de materialidade da enunciação, de
Foucault, que é relacionado à ordem da instituição (Frohmann 2006). Mas é Capurro quem mais observa os aspectos semióticos que envolvem a
interpretação da informação quando afirma que a Ciência da Informação é
ciência das mensagens (2003), reconhecendo a informação como categoria
antropológica.
De modo aproximado, a Lingüística Documentária propõe a centralidade da
mensagem documentária no processo comunicacional observando sua condição de
ponto de encontro entre referenciais da emissão e da recepção, ambas ligadas
a ordens institucionais. Ao associar a abordagem terminológica à
lingüístico-semiótica, a Lingüística Documentária preocupa-se
simultaneamente com o caráter processual do funcionamento do signo
documentário e com a função de 'operadores de sentido' dos descritores
materializados das linguagens de organização da informação.
O descritor como operador de sentido decorre de sua relação com as
terminologias, a partir das quais apresenta uma carga semântico-pragmática e
informativa fundada na observação de suas manifestações concretas nos
discursos. Os operadores de sentido são mobilizados concretamente nas
mensagens documentárias (Lara, 1999; 2006b) para veicular o que Capurro
denomina 'oferta de sentido', que funciona como referência para a
seleção de sentido (informação) pelo usuário (Capurro, 2003).
Sob nosso ponto de vista, a linguagem documentária funciona como
interpretante, ou conjunto de possibilidades interpretativas referidas
simultaneamente às linguagens de especialidade (caracterizadas por
apresentar os indicadores razoavelmente partilhados pelas comunidades
discursivas) e às hipóteses de organização adotadas pelo sistema
informacional.
Nessa condição, o signo
documentário - linguagem documentária e descritores como operadores de
sentido - , funciona como elemento para um tipo particular de semiose -
a semiose documentária - que não remete a um significado
cristalizado, mas a um jogo interpretativo onde são combinadas as
referências da emissão (via operadores de sentido) e da recepção (conhecimentos
e experiências dos sujeitos sócio-institucionais). Esse processo
interpretativo culmina na construção da informação, via seleção de sentido,
conforme a proposta de Capurro (Hjorland & Capurro, 2002; 2007).
As bases terminológico-pragmáticas dos operadores de sentido ativam o que
Hjorland denomina a pré-compreensão, noção que se aproxima daquela de
observação ou experiência colateral (experiência prévia, conhecimento de
fundo) na linguagem de Peirce (1974), mas numa dimensão mais ampla que a
individual, já que diz respeito ao conhecimento do sujeito social como
pertencente a uma comunidade discursiva relacionada a um domínio do saber ou
a uma área de atividade. É por essa via que a Lingüística Documentária
procura garantir um processo dinâmico de veiculação da informação, diferente
das situações de reprodução.
Pode-se afirmar, portanto, que a Lingüística Documentária compartilha da
visão de Capurro e Hjorland à medida que identifica o caráter processual da
informação e que propõe abordar semioticamente o descritor, visualizando-o
como um tipo particular de signo documentário que mobiliza sentidos
possíveis com base nas terminologias das comunidades discursivas. Essa
condição substitui, por um signo passível de interpretação, a simples
reprodução de um ponto de vista.
Informação e pragmática: conclusão
O que foi dito anteriormente permite estabelecer paralelos, ao menos com os
aspectos selecionados, entre a Lingüística Documentária e a proposta da
análise de domínio, de Hjorland, e da teoria hermenêutica da informação, de
Capurro, embora as pesquisas tenham origens diferentes. De qualquer modo,
todas elas destacam as preocupações com o aperfeiçoamento da comunicação em
ambientes informacionais.
Acreditamos, no entanto, que a inclusão da recepção nos fluxos sociais da
informação ainda tem de ser mais profundamente estudada, já que o tratamento
que tradicionalmente marca a atividade documentária é muito vinculado às
estruturas de codificação da informação, ignorando que o acesso e o uso da
informação têm como ator o sujeito real, territorializado (Lara & Tálamo,
2007).
Por essa razão, as pesquisas
desenvolvidas no âmbito da Lingüística Documentária têm se proposto,
recentemente, a verificar a possibilidade de incluir a dimensão da recepção
nos fluxos sociais da informação a partir do acréscimo de referências que
permitam, mais efetivamente, prover as mensagens documentárias de maior
condição de atualização. A atualização é aqui referida ao conceito
lingüístico de operação pela qual uma unidade da língua passa à fala (Dubois, 1988) no processo de enunciação, e que relaciona a língua ao mundo (Charaudeau
& Maingueneau, 2004).
Emissão e recepção respondem, em graus diferentes, a ordens institucionais
às quais se submetem as comunidades discursivas. Colocar o foco na mensagem
significa, sob nosso ponto de vista, considerar a recepção e a negociação de
sentido: como enunciação discursiva, a mensagem se realiza num ambiente que
não é exclusivamente lingüístico, mas também pragmático, uma vez que é um
acontecimento contextual apreendido na multiplicidade de suas dimensões
sociais e psicológicas (Charaudeau
& Maingueneau, 2004).
Embora os estudos sobre a eficácia das estruturas da mensagem que considerem a interação como elemento importante para integrar fluxos sociais da informação ainda sejam embrionários, a pesquisa sobre o tema assume extrema importância para auxiliar a identificação de elementos para a composição de "filtros sociais mais integrativos " (Lara & Tálamo, 2007) que mobilizem os valores relacionados ao conhecimento e à informação. De fato,
"... as formas de acesso cognitivo à informação ganham destaque, uma vez que exigem a construção de redes, metáforas das interações que vivem. Jamais se ignorou que o usuário vivesse em grupos com interesses formulados de forma específica, com fontes de informação próprias , etc... Supunha-se apenas que nada disso tinha importância para o funcionamento dos fluxos de informação. Hoje se discute como integrar esses componentes ao processo documentário, já que nenhum de seus elementos isolados garante o uso efetivo da informação " (Lara & Tálamo, 2007).
Ao menos teoricamente, é possível supor que, além das contribuições de
Hjorland e Capurro, as relacionadas à pragmática lingüística, em especial na
ótica da Lingüística Textual contemporânea, podem auxiliar a identificar
mecanismos para otimizar a interação partindo de uma noção de texto não como
unidade acabada, mas como lugar de interação entre atores sociais. Seria
necessário
"dispor de instrumental tecnológico que sustentasse não apenas a organização da informação, mas a apresentação de um conjunto de elementos exteriores ao texto (de outro modo estaríamos falando em processamento em linguagem natural, que não é o caso), a partir dos quais fosse possível viabilizar as relações de construção interacional dos sentidos. Temas como referenciação, inferenciação, acesso a conhecimentos prévios, ao lado de questões relativas aos gêneros textuais (Koch, 2006), poderiam ser mobilizadas para indicar a relevância dos textos reunidos no sistema informacional para os objetivos e necessidades dos usuários".
A linguagem é um 'palco' (Vogt, citado por Koch, 2004), "lugar
onde os indivíduos se representam e constituem o mundo e suas situações ao
se constituírem e representarem de determinada forma" (Koch, 2004,
p.127). Na observação das manifestações da linguagem visando a construção de
sistemas informacionais, nosso papel é "facilitar o aspecto curatorial da
recuperação da informação ..." (Smiraglia, 2006, p.185), considerando
que esse ato tem conseqüências.
A interlocução, o debate, bem
como a cooperação em pesquisa, são, portanto, fundamentais, como condição
para a construção do conhecimento visando melhores práticas para desempenhar
nosso papel de curadores da informação cujas ações não podem ignorar as
diferentes necessidades e possibilidades de uso social da informação.
[1]O presente artigo constitui resultado parcial de pesquisa financiada pelo CNPq.
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Sobre a autora / About the Author:
Marilda Lopes Ginez de Lara
larama@usp.br
Doutora em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, professora do Depto de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP e do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da ECA/USP; Bolsista de Produtividade em Pesquisa, CNPq.