DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.10  n.6   dez09                            ARTIGO 02

O funcionamento discursivo das nuvens de tags na rede eletrônica: sentidos sobre Capitolina
The discursive operation of the tag clouds in the electronic net: senses on Capitolina
 

por Vivian Lemes Moreira e Lucília Maria Sousa Romão

 


Resumo: Partindo do pressuposto de que a rede eletrônica é composta por diversas vozes formando um grande arquivo (Arquivo), esse trabalho tem como intento analisar, à luz da Análise do Discurso de filiação francesa, o funcionamento discursivo da nuvem de etiquetas (tags) isto é, do campo textual que aparece em algumas páginas eletrônicas. Trabalhamos com a hipótese de que a nuvem de etiquetas (tags) funciona de dois modos: primeiro, promovendo a condensação dos dizeres que estão dispersos em vários outros arquivos eletrônicos; segundo, esse mesmo campo pode inscrever efeitos de dispersão de sentidos sobre a página digital ao modo de uma nuvem onde estão marcados tantos outros sentidos de outros arquivos. Promovendo a mobilização de conceitos sobre a rede eletrônica e a hipermídia, buscamos refletir sobre o modo como o sujeito procura, ordena, instala e categoriza seus arquivos através da folksonomia, utilizando-se das tags para fazer falar (e calar) certas palavras; queremos problematizar, assim, o modo como os dizeres são instalados e como circulam na rede. Como corpus desse trabalho, será analisada a etiqueta "Capitu", coletada na nuvem de etiquetas do site globo.com e no site de blog Technorati, dando destaque ao título do romance de Machado de Assis que se transformou em programa de televisão no ano de 2008.
Palavras-chaves: Discurso, Memória, Folksonomia, Nuvem de Etiquetas, Capitu.
 

Abstract: It is assumed that the electronic network is composed by several voices forming a great file. This work has the intent to analyzes the discursive operation in the formation of a tag cloud. It was used the Speech Analysis of French affinity to examine the textual field that appears in some electronic pages named tag clouds. It was presumed that the tag cloud works in of two manners: first promoting the aggregation of the words dispersed in several other electronic files; secondly the same field can enroll effects of dispersion of senses in a digital page as a cloud carry so many other senses of other files marked. By studying the concepts of electronic network and the hypermedia it was tried to contemplate the way as the subject search, orders, installs and classifies files using a folksonomy taxonomy. Using tags to speak (and to silence) about certain words. In this way we want to question the way the words are installed and as and then circulate in the net. As the corpus of that work, the tag “Capitu " will be analyzed as linked to the words collected in the cloud of tags of the site: <www.globo.com> and Technorati; these tags exist as a result of a television program about a novel “Capitu” in the year of 2008 based in the romance of Machado of Assis.
Keywords: Discourse, Memory, folksonomy, Tag cloud, Capitu.

 

 

Introdução: Arquivo entre nuvens

“Há dessas reminiscências que não descansam antes que a pena ou a língua as publique.”,

  Machado de Assis

Em outros estudos (Romão e Benedetti, 2008; Moreira e Romão, 2009), temos afirmado que a rede eletrônica é composta por diversas vozes formando um grande arquivo (Arquivo), em que as fronteiras de/dos dizeres mantêm-se tanto mais difusas quanto movediças. Com base nisso, à luz da Análise do Discurso de filiação francesa, temos lido e interpretado o funcionamento discursivo da nuvem de tags, isto é, do campo textual que aparece em algumas páginas eletrônicas. Trabalhamos com a hipótese de que a nuvem de tags funciona de dois modos: primeiro, promovendo a condensação dos dizeres que estão dispersos em vários outros arquivos eletrônicos; segundo, esse mesmo campo pode inscrever efeitos de espalhamento de sentidos sobre a página digital ao modo de uma chuva irradiadora de tantos outros sentidos de/para outros arquivos.


Promovendo a mobilização de conceitos sobre a rede eletrônica e a hipermídia e ancoradas pelas noções de discurso e memória discursiva, buscamos, neste artigo, refletir sobre o modo como o sujeito procura, ordena, instala e categoriza seus arquivos através da folksonomia, utilizando-se das tags para fazer falar (e calar) certas palavras; queremos problematizar, assim, o modo como os dizeres são instalados e como circulam na rede. Nosso corpus está constituído por recortes da nuvem de tags, que constam as tags “Capitu”, nome da personagem do romance machadiano que foi transformado em minissérie televisiva, recortes estes coletados em dois lugares da rede eletrônica, quais sejam, o site globo.com e no site de blog Technorati. Buscamos flagrar como o nome de Capitulina é falado e "discursivizado" no discurso dos referidos sites, como os sentidos inscritos pelo literário, na obra machadiana, deslocam-se pela materialidade do televisivo e como passam a circular na rede eletrônica.



À moda da Web 2.0: fios em redes

“É que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas.”  Machado de Assis

O ciberespaço é considerado como todo e qualquer espaço informacional multidimensional que depende da interação do indivíduo e permite a ele o acesso, a produção, a disseminação, a organização e o intercambio das informações. Segundo Pierre Lévy (2003, p.195),

 

“O ciberespaço encarna um dispositivo de comunicação qualitativamente original, que se deve bem distinguir das outras formas de comunicação de suporte técnico. A imprensa, a edição, o rádio e a televisão funcionam segundo um esquema em estrela, ou ‘um para todos’. Um centro emissor envia mensagens na direção de receptores passivos e, sobretudo, isolados um dos outros. Já o ciberespaço trata-se da comunicação conforme um dispositivo ‘todos para todos. ”
 

Dessa forma, o ciberespaço é entendido como um lugar heterogêneo no qual o navegador não é mais um receptor passivo, ele passa a produzir dizeres e compartilhá-los com outros leitores na rede. Assim “Todas as pessoas e grupos realmente desejosos de publicar um texto, uma música, ou imagens na World Wide Web podem fazê-lo, tornando as informações disponíveis para um vasto público internacional”. (Lévy, 2003, p. 196). Esse dispositivo que inclui as noções de “tudo”e “todos” faz a rede eletrônica parecer um lugar de potências e de completude em que os sentidos poderiam ser compartilhado da mesma maneira; na direção de inscrever uma ressalva anotamos que nem todos estão on-line e, mesmo os navegantes com sede de ventos eletrônicos, não conseguem estar em todos os lugares da rede ou expostos a todos os sentidos que a trama dela instala.


Diremos, então, que o ciberespaço é um lugar marcado pela comunicação interativa e coletiva dos que ali tecem os fios de suas rede e, dessa forma, a Web 2.0 vem marcar de uma vez por todas o caráter coletivo e participativo na Internet, ou seja, a heterogeneidade de vozes e de dizeres dos sujeitos navegadores.

 

“Os deslizamentos de uma página a outra, de um texto a outro abrem uma fronteira larga, na qual o sujeito do discurso se move e transita por uma invernada de sentidos diversos e (des)ordenados e faz da sua vagação discursiva um ir-e-vir de aparições ligeiras sem assentamentos. A liberdade apresenta-se como a moeda de troca no campo da virtualidade multidimensional, já que sempre existe a possibilidade de deslocar-se, mover-se com grande desenvoltura e velocidade.” (Romão, 2004, p.73)

 

Dessa forma, a Web 2.0 é caracterizada pelo compartilhamento, organização e ampliação das formas de publicação na rede eletrônica e os sites construídos dentro desse contexto instalam atos de linguagem produzidos pelo próprio sujeito-navegador (Romão, 2007) que, através dos recursos tecnológicos de publicação ao seu alcance, vai construindo dizeres e arquivos, movendo as palavras de um lugar para outro, deslocando-se entre palavras ditas e reditas em outros lugares. Compondo algo que, conforme Eco (2003, p.4), instala algo não linear: e que pode ser definido assim:

 

“O produto da máquina não é mais linear: é uma explosão de fogos de artifícios semióticos. Seu modelo é menos uma linha reta do que uma verdadeira galáxia, onde todos podem captar nexos inesperados entre as estrelas diferentes para formar uma nova imagem celestial em qualquer novo ponto da navegação”.

 

Dessa maneira, sites como You tube, Del.icio.us, Flickr, Wikipedia entre outros espalhados pela rede eletrônica, além de blogs de grande sucesso na rede, são exemplos de lugares discursivos onde o sujeito pode inscrever e ordenar as palavras a seu modo, pode colocar em movimento e em circulação os seus sentidos. Esse movimento de dizer em rede e de poder estar em um ponto da rede configura a net como algo em constante criação (imprevisível para dizer o mínimo), cuja produção e constituição dão-se a (des)conhecer de modo sempre incompleto e em uma página além, mais adiante ou mais atrás. Segundo Lévy (2003, p. 202), “Qualquer um terá sua página, o seu mapa, o seu site, o seu ou os seus pontos de vista. Cada um se tornará autor, proprietário de uma parcela do ciberespaço. Entretanto, essas páginas, sites e mapas dialogam, interconectam-se e confluem através de canais móveis e labirínticos”.

O que consideramos relevante marcar aqui é que a rede eletrônica permite a construção de um espaço materializado, conduzido e remexido pela voz do sujeito-navegador com as diversas páginas e arquivos que ele vai criando e compartilhando, (des)construindo e desfazendo que, por sua vez, são linkados e presos por fios, pontos de encontro e nós. Chartier (2002, p.25) afirma que:

 

“O texto eletrônico, tal qual o conhecemos, é um texto móvel, maleável, aberto. O leitor pode intervir em seu próprio conteúdo e não somente nos espaços deixados em branco pela composição tipográfica. Pode deslocar, recortar, estender, recompor as unidades textuais das quais se apodera. Nesse processo, desaparece a atribuição dos textos ao nome de seu autor, já que estão constantemente modificados por uma escritura coletiva, múltipla, polifônica.”

 

Essa escritura múltipla, não-linear, coletiva e heterogênea forma uma grande teia eletrônica, uma rede que é percurso, movimento, deslocamento e errância, cuja linguagem é configurada a partir dos “traços caracterizadores” de modo que são aplicáveis a qualquer tipo específico de hipermídia. O primeiro traço é caracterizado pela hibridização de linguagens, processos sígnicos, códigos e mídias que a hipermídia aciona na medida mesma que o receptor ou leitor imersivo interage com ela, cooperando na sua realização. Quanto maior a interatividade, maior será a experiência de imersão do leitor. Por meio da interação do sujeito, é possível navegar em incontáveis versões virtuais que vão surgindo na medida mesma que o receptor dá um click no seu mouse; é desse modo que a hipermídia une textos, imagens fixas e animadas, vídeos, sons, ruídos em um todo complexo, convergentes em um único aparelho, o computador. Sem essa convergência, a hipermídia como linguagem híbrida e o mundo digital não seriam passíveis de materialidade. “Por hipertexto entendo ser uma linguagem que dialoga com outras interfaces semióticas, adiciona e acondiciona á sua superfície formas outras de textualidade.” (Xavier, 2005, p.171).


O segundo traço da hipermídia refere-se a organização dos fluxos informacionais em arquiteturas hipertextuais. Essas arquiteturas são formadas por “nós” conhecidos também por links, que são unidades básicas de informação em um hipertexto. Conforme Leão (2005, p.27), “o hipertexto em geral, é composto por blocos de informações e por vínculos eletrônicos (links) que ligam esses elementos”. Assim, os nós podem aparecer na forma de texto, gráficos, seqüências de vídeos ou de áudios, janelas ou de misturas entre eles. Para que o sujeito-navegador siga os rastros hipertextuais, é necessário que haja um auxílio na navegação, para que o sujeito saiba que o item é clicavél; dessa forma, há uma regra sobre clicabilidade (Nielsen, 2007) em que o hipertexto deve ser destacado com uma cor diferente e ou sublinhado, geralmente a cor azul é recomendada para essa ação, pois remete ao sujeito certa familiaridade de que é um item clicavél. Segundo Nielsen (2007, p.329), “(...) a navegação do website geralmente relaciona-se com o reconhecimento e a interpretação”; dessa forma, ao ver a cor azul, o internauta reconhece e a interpreta como um hipertexto.


O formato flexível e o acesso não-linear da hipermídia permitem buscas divergentes e caminhos diversos no interior do documento. Quanto mais o leitor se concentrar e manter a interatividade, mais profunda será a sua experiência de imersão, assim ele irá decifrando e percorrendo os nós até encontrar seus objetivos de busca na web. A estrutura de caráter hiper e não-seqüencial proporciona infinitas opções de um leitor imersivo. Para Santanella (2004, p.50), “a hipermídia não é feita para ser lida do começo ao fim, mas sim através de buscas, descobertas e escolhas.”, ou seja, a arquitetura da hipermídia otimiza tecnicamente o espaço de livre exposição que é a web, e permite a construção, debates e leituras de múltiplos discursos, através das diversas páginas que vão se interligando por meio dos incontáveis nós, que tecem a rede e formam um grande labirinto.

 

“A construção da teia mundial envolve o trabalho de diversas mentes, distribuídas em diversas páginas. Seu crescimento e sua vitalidade não se encontram localizados em um ponto central e específico. Ao contrário, é no caráter de autogeração e autopoiéses que a Internet se desenvolve. Sem dúvida alguma, o que faz da web uma teia, uma rede na qual uma complexa malha de informações se interligam, é a própria tecnologia hipertextual que permite os elos entre os pontos diversos. Cada página, cada site, traz em si o potencial de se intercomunicar com todos os outros pontos da rede”. (Leão, 2005, p.24)

 

O contexto da web 2.0 faz falar dizeres de sujeitos que navegam em uma superfície cujo modo de organização é particular, fractal, espalhado e diferente da linearidade do impresso, modo este onde a interatividade é o imperativo, a palavra está em "con-fusão" com outras materialidades, a voz do sujeito desfiada pela heterogeneidade e o discurso em constante movimento.



Folksonomia e nuvens de tags: movimentos de contenção e espalhamento

“Os mesmos sonhos que ora conta não tiveram, naqueles três ou quatro minutos, esta lógica de movimentos e pensamentos. Eram soltos, emendados e mal emendados, como o desenho truncado e torto, uma confusão, um turbilhão, que me cegava e ensurdecia.”  Machado de Assis


A folksonomia (Thomas Vander Wal, 2004), é a prática de indexação colaborativa das informações na malha digital realizada pelo sujeito-navegador, que utiliza o seu próprio vocabulário para indexar páginas ou informações de seu interesse contidas na web. O processo de folksonomia é realizado pelo sujeito-navegador, que cria etiquetas para indexar seus documentos e ou links na web de forma livre, utilizando a linguagem natural, não se preocupando em estabelecer uma ordem hierárquica entre as tags que são criadas, nem mesmo criar uma padronização do vocabulário, como é feito por profissionais especializados na área da informação.

 

Por isso, muitas vezes podemos nos deparar com tags que carregam sentidos que dizem respeito somente a memória discursiva do seu criador, dessa forma elas muitas vezes servem somente para o próprio sujeito criador da tag localizar seus links e documentos na rede. Assim como as tags chamadas por Kipp (2007) de “affective tag”, ou seja, tags de cunho afetivo, tais como: legal, interessante, bonito; que também possuem o seu conteúdo muitas vezes recuperado somente pelo seu criador.


Assim sendo, podemos nos deparar com alguns textos que tratam a folksonomia como um vocabulário descontrolado, devido ela não ter como principio o controle terminológico, ou seja, ela não tenta controlar os sentidos, como em um sistema de informação, onde o controle tenta ser realizado por meio de um vocabulário controlado, que visa delimitar os significados dos termos, tentando controlar os sentidos das palavras sinônimos e quase sinônimos, e ambigüidades dos termos homógrafos. Segundo Moreiro González (2008, p.8),


“La asignación de estas etiquetas públicas se realiza sin ánimo de lucro y sin la supervisión de un organismo centralizador, de manera que una de las características de este lenguaje libre es la ausencia de estructuración entre los términos, salvo la formada por el conjunto que describe determinado objeto o concepto, si bien es cierto que cada términotiene sentido de forma individual”.
 

A folksonomia visa o compartilhamento das informações entre os leitores na web, ela permite que as informações sejam organizadas de forma simples e flexíveis feitas por qualquer pessoa que se habilite a criar tags para organizar conteúdos de seu interesse na rede. De acordo com Moreiro González  (2008, p.8): “Las folksonomías muestran mucho interés para mejorar la navegación y recuperación de todo tipo de materiales. Ejemplos de folksonomías se pueden ver en las etiquetas para blogs en Technorati, Del.icio.us social bookmarks, para etiquetar sitios Web, o Flickr para fotografías”. Muitos bookmarks, tais como o Connotea e o Citeulike, são marcadores designados para assuntos acadêmicos, e tornaram-se uma fonte de informação útil para quem o utiliza, Citeulike is a social bookmarking service designed for use by academics who wish to bookmark academic articles for later retrieval. Connotea  is a social bookmarking service designed, like, citeulike, for academics” (Kipp, 2007).


Por tudo isso, a folksonomia tem se mostrado como uma opção interessante para a organização, recuperação e compartilhamento das informações na web, desde que os sites sejam organizados e cumpram com pelo menos algumas diretrizes de usabilidade (Nielsen, 2007) para que consigam cumprir a sua finalidade (comércio, entretenimento, etc) do que é denominado “informar” os leitores já que, segundo os estudos de (Nielsen e Loranger, 2007 p.30), o tempo médio gasto por um internauta de baixa experiência em uma página é de 35 segundos e de um internauta com alta experiência é de 25 segundos. Dessa forma, o site teria no máximo 35 segundos para seduzir o leitor além de mostrar atrativos em relação a sua proposta e finalidade, e se a página oferecer o que o sujeito-navegador está procurando ele irá permanecer mais tempo. É bom lembrar aqui que estamos no tempo e espaço do clique, dos movimentos rápidos de deslocamento do sujeito-navegador, das apostas ligeiras e dos sentidos de leitura e escrita construídos durante a própria leitura e escrita.


Como estratégia para conter o espalhamento dos sentidos e a suposta fuga escorregadia do leitor, muitos sites e blogs que utilizam uma nuvem de tags, ou seja, as palavras que conseguiriam mostrar aos sujeitos-navegadores, em um espaço em curto de tempo, quais são os assuntos principais abordados por eles; essas palavras teriam a função de facilitar a navegação, indicando ao modo de algumas placas, por onde o navegador poderia caminhar. Uma “tag cloud”, termo traduzido pra o português como “nuvem de tags”, é onde se concentram as tags mais utilizadas e ou vistas pelos internautas no momento, ou seja, as palavras mais cobiçadas pelos inúmeros acessos de outros internautas.

 

As tags que estiverem em destaque dentro da nuvem são as de maior ocorrência no momento e, segundo (Montero, Solana), “a tag cloud is a list of the most popular tags, usually displayed in alphabetical order, and visually weighted by font size” . Através da nuvem de tag, pode-se condensar quais os assuntos e ou informações estão em foco dentro de um site ou blog; através de um click, é possível ter acesso a uma página onde há vários links que utilizaram essa etiqueta; enfim, através de um nome, tanto é permitido deslocar para outros em um movimento de espalhamento pela rede, quanto é possível condensar os movimentos de busca de vários sujeitos que anteriormente já estiveram na página e acessaram aquele nome. Segundo Nielsen e Loranger (2007, p.258), “A web é um meio direcionado aos usuários, em que estes adotam estratégias de busca de informações para economizar tempo. Eles não tendem a buscar informações de uma maneira linear. Em vez disso, contam com pistas visuais que fornecem uma indicação mais forte ".

Por isso, a nuvem de tags pode instalar ainda um componente de busca dentro de um site, pois, na nuvem, estão situados os assuntos mais procurados e visitados. Assim, quando o sujeito-navegador entra no site para saber as novidades, ele pode visualizá-las através da nuvem de tags que fornece uma indicação visual bem interessante, ou seja, marca o nome que estave e está em evidência. Em conseqüência disso, os assuntos mais importantes da página acabam sendo indexados através das tags criadas pelos próprios internautas e expostas no formato de nuvem, podendo funcionar até como uma consulta pronta para os próximos navegadores. Inferimos que este processo só permitido pela/na web 2.0 que, como já vimos anteriormente, é uma superfície aberta, porosa e composta pelos fios, redes e tecelagens dos sujeitos-navegadores em permanente movimentos. Tudo isso nos remete a dois conceitos-chave da teoria discursiva de linha francesa, quais sejam, discurso e memória sobre os quais falaremos a seguir.



Movimentos na rede do discurso: sentidos em permanente errância e deslizamento

“Nem tudo é claro na vida e nos livros. A verdade é que sinto um gosto particular em referir tal aborrecimento, quando é certo que ele me lembra outros que não quisera lembrar por nada.”  Machado de Assis


Mobilizando os conceitos discutidos até aqui sobre web 2.0 e folksonomia, pretendemos construir um diálogo com a Análise do Discurso de matriz francesa para investigar o funcionamento discursivo da nuvem de tags. Para isso, percorremos as marcas lingüísticas deixadas pelos sujeitos-navegadores nas tags, essas que fazem falar (e calar) certas palavras, problematizando, assim, o modo como os dizeres são instalados e como circulam na rede através do processo da folksonomia. Partimos do pressuposto de é pela língua que o sujeito se constitui e de que ambos estão permanentemente em movimentos de dizer e calar, de escolher algumas palavras e desviar de outras, de marcar a presença de alguns signos e apagamento daqueles tidos como indesejáveis. “Não trabalha com a língua enquanto sistema abstrato, mas com a língua no mundo, com maneiras de significar, com homens falando, considerando a produção de sentidos enquanto parte de suas vidas”. (Orlandi, 1999, p. 15-16).

 

Isso nos faz considerar que o sentido não é apenas um, ou seja, que as palavras estão petrificadas em estado de dicionário com um significado já dado aprioristicamente; mas que os fluxos de sentidos dão-se a conhecer afetados pela história, pelas condições de produção e pelas posições dos sujeitos no momento da navegação no nosso caso. Assim, é possível observar os deslizamentos dos sentidos inscritos nos dizeres on-line e no modo como os sujeitos (des)arranjam as etiquetas que preenchem as nuvens de tags nos arquivos eletrônicos.

 
Esse modo de pensar a língua em funcionamento promove uma ruptura com o esquema que prevê a comunicação em uma linha direta e linear em que há um emissor a dizer mensagens a um receptor, codificando-as de maneira supostamente eficaz, em um canal específico, de modo a permitir a emergência da clareza e a coerência. Este esquema na horizontal, estanque e fechado em torno do conteúdo a ser decifrado evita o ruído, algo indesejável a ser mantido à margem como equívoco a ser evitado, controlado.

 

Nessa concepção, a língua “serve” para comunicar com precisão, transmitir informações de modo compreensível, assegurar que o sentido seja unívoco e garantir ao falante a potência de encontrar as melhores e mais adequadas palavras. A teoria discursiva coloca em xeque esta concepção marcando um deslocamento importante para o objeto do nosso estudo aqui: as palavras não cabem em um esquema enclausurante, têm suas fronteiras flexíveis e porosas, são passíveis de jogo e inscrevem-se de modo sempre imprevisível dependendo das condições históricas e das posições-sujeito. Esse postulado é bastante cabível se tomarmos as considerações de web 2.0 e de folksonomia, processo que se sustentam a partir da abertura ao movimento inesperado, ao dizer do navegador, a palavras novas e outras. Mais ainda, os arquivos eletrônicos e as várias vozes que tagarelam nas etiquetas das tags reclamam a compreensão do sujeito-navegador como posição discursiva.


Conforme Orlandi (p. 116), "o sujeito que produz uma leitura a partir de sua posição interpreta. O sujeito-leitor que se relaciona criticamente com sua posição, que a problematiza, explicitando as condições de produção da sua leitura”. Pontuamos que uma tag pode evocar diversos (sempre outros) sentidos, pois a interpretação está ligada à posição que o sujeito ocupa e às redes de memória às quais ele está afiliado. Por isso, faz-se necessária a compreensão de que as tags inscrevem-se a partir da memória discursiva dos sujeitos-navegadores, já que é ela que permite compreender a pluralidade dos gestos de leitura, de escrita e de interpretação.

 

Isso nos dirige a um lugar teórico que não se contenta com uma leitura fechada, propondo analisar os possíveis percursos de sentidos que as palavras, na rede, podem espalhar. Assim, marcamos, juntamente com Pêcheux (1994), o discurso como efeito de sentido e como movimento e fluxo, que se instala em “clivagens subterrâneas” onde o sentido sempre pode vir-a ser- outro. Na navegação, a tag de uma nuvem pode evocar um sentido ao sujeito e, ao clicar na tag, ele pode vir a descobrir algo novo entre os links que vão aparecendo; ocorre a possibilidade de o sentido inicial que o sujeito interpretou, esperou ou antecipou, na tag, escapar, remetendo o sujeito a um outro discurso que não estava afiliado a sua rede de memória.


Não entendemos memória aqui como capacidade de se lembrar ou esquecer de algo, como traço do mundo cognitivo ou como propriedade da inteligência; tomamos este termo como memória discursiva ou interdiscurso, que é definida por Orlandi (1999, p. 31) da seguinte forma: “o já dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada da palavra”. A memória, para a Análise de Discurso, é constitutiva do discurso, a rede de sentidos já dados em outro momento, anterior e exterior que está sempre sendo atualizada a cada discurso. Segundo Pêcheux (1990, p.21), o enunciado é “repetido sem fim como um eco inesgotável, apegado ao acontecimento”. Assim, a memória discursiva é superfície do dizível na rede eletrônica a garantir os nós, os links, os pontos inesgotáveis de dizeres do sujeito.


Se a memória discursiva permite a ancoragem do dizer do sujeito nas tags, também o silêncio lhe é constitutivo, posto que há sentidos que não foram ditos e ficaram interditados nas tags dentro de uma nuvem e, mesmo calados, eles significam e reclamam interpretação, situados entre o dizer e não dizer. Na nuvem de tags, podemos notar que uma etiqueta condensa e silencia os sentidos de diversos links que estão carregados de tantos outros sentidos, que aparecem somente ao leitor após o click. Assim o sentido marca um lugar de onde se diz uma palavra e se deixa de marcar outras possíveis que poderiam estar ali, mas que foram caladas. Nessa direção, dizer é também calar, deixar de dizer, silenciar e desviar do dito, visto que significar de um modo é não significar de outro. Para ampliar essa reflexão, mobilizaremos a noção de silêncio fundador cunhada por Orlandi, (1997, p. 23) do seguinte modo:


“Se a linguagem implica silêncio, este, por sua vez, é o não-dito visto do interior da linguagem.Não é o nada, não é o vazio sem história. É silêncio significante. ... o silêncio não é mero complemento da linguagem. Ele tem significância própria. E quando dizemos fundador estamos afirmando esse seu caráter necessário e próprio. Fundador não significa aqui originário, nem o lugar do sentido absoluto. Nem tampouco que haveria, no silêncio, um sentido independente, auto-suficiente e preexistente. Significa que o silêncio é garantia do movimento dos sentidos. Sempre se diz a partir do silêncio”
 

Essa noção de silêncio fundador interessa-nos porque estamos problematizando o modo como os sujeitos nomeiam seus arquivos na rede, especialmente as palavras “escolhidas” (e também silenciadas ou apagadas) nas etiquetas das nuvens de tag. Considerando que “a linguagem é a passagem incessante das palavras ao silêncio e do silêncio às palavras” (Orlandi, p.72), iremos investigar o percurso dos sentidos na rede eletrônica, flagrando nas tags, a inscrição das redes de memória já ditas em outros sites e ou meios de comunicação sobre palavra Capitu, o que nos convida a retornar à obra machadiana.



Análises discursiva dos dados: da obra literária à nuvem de tag, um nome de mulher

“Imagina um relógio que só tivesse pêndulo, sem mostrador, de maneira que não se vissem as horas escritas. O pêndulo iria de um lado para o outro, mas nenhum sinal externo mostraria a marcha do tempo.”   Machado de Assis

 

Como trabalhamos com o interdiscurso, inicialmente iremos percorrer alguns, dentre outros, sentidos atribuídos à personagem feminina Capitolina. Interessa-nos dizer algo sobre a posição que ela ocupa na narrativa de Dom Casmurro, ou seja, perceber como ela é falada, anotada na linguagem, marcada em uma posição pelo narrador Bentinho que, já bem mais velho e sob a névoa das lembranças opacas, retorna à adolescência e mocidade para recontar(-se) e recompor a narrativa de seu namoro e casamento. Temos, então, a voz de um sujeito que nos dá a conhecer o que pode e deve circular sobre Capitu, o que ele quer que apareça (e também que fique silenciado) sobre a presença dela, percorrendo um modo (dentre tantos outros possíveis) de dizer e colar os cacos do passado. Vejamos como, em alguns momentos da narrativa, Capitu é falada pelo narrador.
 


“Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.” (p.56)



“Retórica de namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova.” (p.72)


Como analistas do discurso, recorremos às marcas lingüísticas para, a partir do modo como se apresentam e estão materializadas, perceber o funcionamento discursivo, remetendo o dizer, no caso do narrador, a uma região de sentidos ancorada na memória discursiva e crivada por condições de produção específicas. Ao dizer dos olhos de Capitu como “olhos que o diabo lhe deu”, inferimos que o sujeito marca o efeito perturbador e desviante desse olhar, ou melhor, “daquele olhar” já que temos o relato no presente de algo distanciado pelo apagamento dos anos vividos. Pelo acesso à memória discursiva, temos o sentido dominante em torno da criação divina do ser humano, sentido este aqui deslocado em relação à Capitu, cujos olhos não foram criados por Deus, mas doados pelo diabo. Assim, ela é "discursivizada" como ameaça e perigo para um seminarista como Bentinho, ou seja, é colocada em um lugar misterioso e de acesso perturbador. O sujeito-narrador coloca-se em um lugar de não entendimento diante daquela mulher, algo que se anuncia dentre outras marcas da narrativa. Além dos olhos diabólicos, temos ainda duas outras marcas importantes, “olhos de ressaca” e de “cigana oblíqua e dissimulada”, que insistem em regularizar o efeito de mistério e perturbação dos olhos de Capitu e constroem metáforas sinalizadoras de algo escapante e abismal com o qual Bentinho terá que se haver ao longo da história.

 


“Ri-me do engano e expliquei que não era o soldado que se tinha pintado no papel, mas o gravador, e tive de explicar também o que era o gravador e o que era gravura: as curiosidades de Capitu, em suma.” (p. 214)

“Era também mais curiosa. As curiosidades de Capitu dão para um capítulo. Era de vária espécie, explicáveis e inexplicáveis, assim úteis como inúteis, umas graves, outras frívolas; gostava de saber tudo.” (p.68)

“Tudo era matéria às curiosidades de Capitu, mobílias antigas, alfaias velhas, costumes, notícias de Itaguaí, a infância e a mocidade de minha mãe, um dito aqui, uma lembrança ali, um adágio acolá...” (p.70)


“Curiosidades” no plural é outro nome que representa Capitu ao longo da narrativa, marcando um poder incessante de querer saber, de desejar conhecer, de inquietar-se com as respostas, de provocar questões, algo narrado por Bentinho como certa ironia em alguns pontos, com certa desimportância em outros. O interessante é que a recorrência dessa palavra “curiosidades” – sempre no plural – reforça um modo de dizer não apenas de Capitu, mas também do narrador, curioso a-menos em relação a ela. Os objetos da curiosidade capitulina são da ordem do “tudo saber”, o que inclui desde processos, móveis, palavras, histórias até o que o narrador considera inútil; enfim, temos aqui mais um poder atribuído à figura feminina que, além de olhos misteriosos e de ressaca, não se contenta com o que sabe nem com o que tem, percorrendo, assim, um longo caminho de ousadias em direção ao novo.


“Como vês, Capitu, aos quatorze anos, tinha já idéias atrevidas, muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram só atrevidas em si, na prática faziam-se hábeis, sinuosas, surdas, e alcançavam o fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos.” (p.45)

“Na verdade, Capitu ia crescendo às carreiras, as formas arredondavam-se e avigoravam-se com grande intensidade; moralmente, a mesma coisa. Era mulher por dentro e por fora, mulher à direita e à esquerda, mulher por todos os lados, e desde os pés até a cabeça. Esse arvorecer era apressado (...)” (p.167)

“Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem.” (p.68)


Nos recortes acima, a ciranda dos sentidos de/sobre Capitu encadeia-se marcada pelos movimentos anteriores, quais sejam, “olhos diabólicos de cigana e de ressaca”, “curiosidades” incessantes, acrescentando aí Capitu mulher “dos pés à cabeça”. As “idéias atrevidas” são narradas como crescentes já que, à medida que o tempo passa, elas ganham mais expressão. Vale destacar que esse movimento de dizer do atrevimento de Capitu combina-se com certos atos da figura feminina que, na narrativa, inscrevem sinais de curiosidades e questionamentos; tal movimento é dito por Bentinho como algo que acontece aos “saltinhos”, ou seja, aos poucos. E é justamente isso que permite a este sujeito, na posição de narrador sem olhos de cigano e sem tantas curiosidades, definir Capitu como mulher emoldurada pela “intensidade”. Mulher materializada como mulher “por dentro e por fora, mulher à direita e à esquerda, mulher por todos os lados, e desde os pés até a cabeça”, isto é, como mulher a mais, mais poderosa do que ele como homem.


Algumas das pistas flagradas nos recortes acima permitem dizer que o relato sobre Capitu a coloca em uma posição-sujeito de "empoderamento" cujo efeito é marcado também pelo poder-a-menos do narrador, que se curva e submete àquilo que lhe falta e que é atribuído como excesso à figura feminina. Com essa pequena análise, pretendemos, não esgotar a obra ou fazer uma análise literária, mas sim apresentar um dos conflitos mais densos e motivadores da obra Dom Casmurro, o relato sobre algo que o tempo já corroeu e que, na atualização do discurso, é recuperado por fragmentos de lembranças, por embaçamentos sem certezas já que os tempos de dizer sobre ontem e hoje constituem lentes incompletas, traiçoeiras e frágeis. Os recortes acima nos levam ainda a observar que, ao ser falada como mulher “mais mulher”, como curiosa e perturbadoramente atrevida, Capitu não possa ser dita de outro modo, seja apagada em alguns de seus outros papéis como, por exemplo, de filha, mãe, nora dentre outros.


A partir de agora, analisaremos recortes lingüísticos de sites da rede eletrônica para flagrar se e como alguns dos sentidos de Capitu são materializados nas etiquetas coladas nas nuvens de tags, marcando que, pelas análises feitas em diversos sites, podemos inferir que uma nuvem de tags funciona de duas formas: primeiro, promovendo a condensação dos dizeres que estão dispersos em vários outros arquivos eletrônicos. Em um segundo momento, ela pode inscrever efeitos de espalhamento de sentidos sobre a página digital ao modo de uma chuva irradiadora de tantos outros sentidos e (para) outros arquivos. Na análise que se segue, mobilizamos um corpus de análise colhido no site de entretenimento e notícias  globo.com  e o outro recorte colhido no site do blog Technorati,  realizando a busca pela tag Capitu.

 


http://www.globo.com/

A nuvem de tag acima foi colhida no site globo.com, na semana em que foi ao ar a minissérie Capitu produzida e colocada em circulação pela emissora Rede Globo, depois de uma forte campanha publicitária diga-se de passagem. Essa nuvem destaca os temas que foram mais procurados pelos leitores do site no dia 09/12/2008 e é composta por sentidos existentes no site, bem diversificados incluindo programação televisiva, notícias do cotidiano, música, etc. Bastante diferente do que iremos ver na próxima nuvem da tags, colhida no site de blog Technorati, onde a nuvem de tags foi formada através da busca pela tag Capitu, com todas tags relacionadas ao assunto, sendo que essa relação foi estabelecida pelo próprio sujeito-navegador.


Temos a nuvem de tags como um ponto de condensação dos dizeres circulados dentro do site já que, cada tag pertencente à nuvem, possui seu link em outro ponto do site; assim, os sentidos contidos nessas etiquetas são deslizantes, moventes porque estamos em uma palavra de passagem que marca o fluxo de algo anterior, ou seja, do que já foi muito lido antes em outros links do site por outros sujeitos e, certamente, do que poderá ser lido depois em outro lugar. Foi possível encontrar diversos links ao clicar sobre a tag Capitu do site globo.com, alguns marcando a estréia da minissérie “Hoje estréia Capitu!” e outros inscrevendo efeitos sobre a personalidade da personagem principal “Capitu e o universo feminino”.
 


http://busca2.globo.com/Busca/?annotationClass=no&query=capitu



Destacamos a recorrência do nome da atriz global que representou a personagem Capitu nas formulações seguintes: “Maria Fernanda Cândido fala da minissérie Capitu” e “Atores Maria Fernanda Cândido e Michel Melamed estréiam minissérie”. É marcado, na língua, o efeito de publicidade da minissérie, de anotação da atualidade e novidade da estréia, de algo atualíssimo sobre o qual se antecipa a necessidade de saber como se o sujeito-navegador tivesse necessidade não de conhecer Capitu, Machado ou Dom Casmurro, mas precisasse ver a minissérie.


Por isso, ao clicar na tag Capitu para saber o dia de estréia e o horário da minissérie, o sujeito recupera todos os arquivos sobre Capitu que foram acessados por outros sujeitos-navegadores do site. Podemos, assim, inferir que a tag tem a função do deslocamento, pois ela acessa outras redes de memória que convidam o navegador a continuar a navegar, a ir a outra página através dos diversos links, incitando o leitor a voar mais, adiante e à frente, em um fluxo de outra direção.

 

O atrativo é dado pela tag que teria sido a mais cotada, a mais disputada anteriormente, a mais famosamente convocada e, como conseqüência, estaria colocada em um campo atrativo supostamente bem interessante e facilitador, qual seja, a nuvem de tag. Assim, está dada a ciranda do deslocamento, do ir e estar-em-fluxo, do mover-se para a próxima outra nova palavra, para um outro link, para outra etiqueta através dos incontáveis nós da rede, e é esse mecanismo que sustenta o fluxo na própria rede eletrônica.

 

Também assim se constitui os movimentos do sujeito na linguagem: amarrando as palavras em fluxo no dizer, o sujeito tenta driblar o vazio, apagar o que foi esquecido, lembrar do que lhe é permitido e dizer sobre Capitu, no caso. Foi possível observar na presença dos links em vídeos sobre a produção da minissérie, mostrando o deslocamento do arquivo literário para o televisivo e, finalmente, para o da rede eletrônica. Mas, pouco ou nenhum estudo do literário pode ser falado aqui, o que escamoteou a discussão em torno do conflito da trama narrativa, deixando em evidência a minissérie.


O link “Capitu propõe interatividade mesmo antes da estréia” instala a possibilidade de dialogar com os leitores através da hipermídia com seu caráter interativo, cabendo aqui ressaltar que foi feito um site exclusivo para a minissérie, totalmente interativo, permitindo até que o leitor pudesse escrever mensagens desenhando no site através dos movimentos do seu mouse, como se estivesse utilizando o programa Paint do Windows. Dessa forma, anotamos o efeito de aproximação do sujeito-navegador da trama, não exatamente da obra literária Dom Casmurro nem de Machado de Assis, mas aproximação da minissérie global, dos atores, cenários, música, fotografias que a emissora selecionou para falar de Capitu, Bentinho, Escobar e outros.
 

 


   http://technorati.com/search/capitu?language=n
 


A nuvem de tag acima foi retirada do site de sistemas de blog Technorati, que é um grande sistema de blogs, considerado na rede o sistema mais importante. Realizamos uma pesquisa no site Technorati a partir da ferramenta “search the blogosphere”, busca na blogesfera, digitando a palavra Capitu. Como resultado, apareceram todos os blogs que possuíam a tag Capitu; conseqüentemente foi gerado, pelo próprio sistema, uma nuvem de tags que possui diversas etiquetas de assuntos relacionados a Capitu.

 

Ou seja, quando o sujeito-navegador escreve um texto sobre Dom Casmurro em seu blog e atribui a esse texto palavras-chave, como Capitu, Bentinho e livro, essas tags acabam sendo relacionadas; assim, esse processo é feito com os outros diversos textos sobre o assunto encontrados no sistema. Quando é realizada a pesquisa sobre Capitu, o sistema isca e captura todas as tags que estão no mesmo tópico que a tag Capitu e gera uma nuvem com as tags que apareceram com mais freqüência, juntamente com a Capitu dos textos de diversos blogs encontrados.


Dessa forma, através dessa nuvem, foi possível observar uma chuva de tags que completam, preenchem e garantem a teia interativa da própria rede, provocando o remetimento do sujeito-navegador ao fio da memória discursiva sobre Capitu, tanto a personagem discursivizada na literatura (com as tags Machado de Assis, dom casmurro, bentinho, machado-de-assis, literatura, livro, dom-casmurro), como aquela que foi discursivizada pela minissérie televisiva (com as tags globo, tv, beirut, minissérie, elephant gun, rede globo, séries, Luiz Fernando carvalho, televisão, tv globo).

 

Percebemos também a presença de tags mais abrangentes tais como arte e música, nas quais instalam-se, por exemplo, a trilha musical da minissérie com música Elephant gun da banda Beirut. Devido às palavras serem instaladas através do processo de folksonomia, existem tags que aparentemente constroem o mesmo significado: rede globo e tv globo, dom casmurro e dom-casmurro, machado de Assis e machado-de-assis, televisão e tv; porém, como sabemos pela teoria discursiva, o sentido sempre pode ser outro e mesmo sinônimos constroem sentidos diversos dependendo das formações discursivas às quais são filiadas.

 

Das tags “globo, tv e televisão” podem emergir diversos sentidos; como exemplo, tomamos a palavra “globo” que se for lida separadamente ou fora de uma nuvem de tags, pode significar, globo terrestre em um site de ecologia, globo ocular em uma página sobre assuntos médicos e saúde. Tudo isso vai depender das condições de produção, das formações discursivas e das posições-sujeito materializadas no site.

 

O mesmo ocorre em relação às etiquetas “tv e ou televisão”, pois na nuvem de tags acima, quem clica na tag televisão ou tv vai recuperar assuntos sobre o nome de uma corporação midiática chamada Rede Globo de televisão e não links sobre televisão no geral. Nos deparamos, então, com o efeito de espalhamento, de ampla extensão das tags, de onde podem emergir diversos significados. Se entrássemos em um site de vendas e clicássemos na tag em questão, recuperaríamos arquivos sobre o aparelho de televisão, ou se entrássemos no site de outra emissora a televisão seria referida como a própria emissora. Reiteramos que o deslocamento e a fluidez constituem o jogo dos sentidos na rede, na web 2.0, na folksonomia e no discurso, condição esta que promoveu rupturas nos sentidos dados pelos arquivos literário e midiático sobre Capitu.



Considerações finais: metáfora de nuvem e movimento de fechamento desse trabalho

“Certa idéia, que negrejava em mim, abriu as asas e entrou a batê-las de um lado para outro, como fazem as idéias que querem sair.” Machado de Assis

 


Para efeito de fechamento deste trabalho, gostaríamos de trabalhar com a metáfora da nuvem que condensa gotículas de água que antes estavam em outro canto e que só se constitui assim, a partir da água que antes era rio, lago, mar. A nuvem também não tem rigidez de ficar em um lugar apenas, tampouco na mesma posição sempre: é movente e errática. Do mesmo modo, a nuvem de tag é marca do que se constitui no discurso a partir do outro, do já falado antes em outro lugar e só é possível de ser acessada devido ao caráter hipertextual da web, feita de incontáveis nós que vão se interligando e formando a grande malha digital que vemos hoje.

 

Observamos também o processo de confecção das tags pelo sujeito-navegador, através do processo de folksonomia, sempre marca algumas palavras, esquecendo que outras poderiam estar ali ocupando o lugar das primeiras; isso relaciona-se com o fato de que uma nuvem de tags desdobra-se, apaga-se, fixa-se por um tempo curto e pode dar espaço a outra. Por fim, essas etiquetas coladas nas tags podem fazer emergir diversos outros sentidos, alguns até mesmo considerados como fora de um contexto da página, como foi possível ser visualizado nas análises sobre as tags, tv/televisão e globo. Nesse sentido a nuvem de tags sobre Capitu, gerada a partir do sistema de busca da Technorati, colocou o sujeito-navegador atrás de pistas sobre o que foi discursivizado sobre Capitu e sobre o que foi dito sobre outros sentidos.


Nosso gesto de leitura sinaliza que a nuvem de tags funciona ao modo de uma nuvem de gotículas de água: primeiro, promovendo a condensação dos dizeres que estão dispersos em vários outros arquivos eletrônicos, promovendo o endereçamento constante de uma etiqueta a outra, infinitivamente; segundo, a nuvem de tags inscreve efeitos de espalhamento de sentidos (e silêncios) sobre a página digital e, ao modo de uma chuva irradiadora, provoca o respingo em muitos outros arquivos, de modo inimaginável.

 

 

Notas

 

[[1] Todas as epígrafes desse artigo foram retiradas da obra “Dom Casmurro” de Machado de Assis.

 

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Sobre os autor / About the Author:

Vivian Lemes Moreira

vivianm@aluno.ffclrp.usp.br

Mestranda de Ciências da Informação e da Documentação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP.

 

Lucília Maria Sousa Romão

luciliamsr@ffclrp.usp.br

Professora doutora no Curso de Ciências da Informação e da Documentação e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP. Professora colaboradora do Programa de Mestrado em Ciência, Tecnologia e Sociedade da UFSCar.