Classificação Social da Informação
na Web: Tecnologia, Informação e Gente
Social Classification of Information in the web: Technology,
Information and Folks
por Alessandra Galdo e Angel Freddy Godoy Viera e Rosângela Schwarz Rodrigues
Resumo: Este artigo analisa as razões que levam o
usuário de informação a colaborar livre e espontaneamente na classificação
social da informação ou folksonomias e a utilizá-las para navegar por
informações na Web. Com base em pesquisa bibliográfica e análise de sites,
abordam-se particularidades dessas ferramentas. Faz-se uma reflexão a respeito
dos desafios que a Internet traz à classificação e recuperação da informação, um
dos problemas clássicos da Ciência da Informação e os desafios que traz à
própria Ciência da Informação. Conclui que as folksonomias não têm a precisão
técnica, nem o objetivo de substituir as ferramentas clássicas de recuperação da
informação, ainda assim são utilizadas devido ao seu caráter colaborativo. A
classificação da informação por meio de folksonomias indica não apenas
categorias de informações, mas categorias sociais agregadas por interesses
comuns a partir do uso da informação. Tecnologia, informação e gente compõem a
pluralidade da Internet e traz novas questões à Ciência da Informação.
Palavras-chave: Ciência da informação; Classificação da
informação; Recuperação da informação; Folksonomia; Colaboração; Internet.
Abstract: This paper analyzes the reasons that lead
the information user to use and to spontaneously and freely collaborate to the
social classification of information or folksonomies. Discusses about the
challenges that Internet brings to Information Retrieval and Classification, one
of the most classic problems of Information Science. and the challenges that
Internet brings to The Information Science. It concludes that the folksonomias
do not have the precision technique, nor the objective to substitute the classic
tools of Information Retrieval, still thus its used in reason of the
collaborative and communicative possibilities. The folksonomies not only
indicates categories of information, but social categories added by common
interests from the use of the information. Technology, information and people
compose the plurality of the Internet and bring new questions to Information
Science.
Keywords: Information science; Information
classification; Information retrieval; Folksonomy; Collaboration; Internet.
Introdução
Nepomuceno (2007) questiona se a Ciência da
Informação resistirá ou se transmutará perante a Internet. Os problemas
clássicos dessa ciência estimulada pela explosão informacional do pós-guerra
estavam em tratar e organizar documentos em diversos suportes, gerenciar
estoques de informação, disseminar e recuperar informações. Com a Internet,
o problema da recuperação da informação ganha novas dimensões de
complexidade. Além da explosão informacional em termos de volume, a
informação digital na Internet prolifera em diferentes formatos, como
música, vídeos, imagens e animações, extrapolando as técnicas clássicas de
recuperação de informações baseadas principalmente em formatos textuais.
Na visão de Barreto (2008) a história da Ciência da Informação pode ser
caracterizada por três fases distintas: - a fase da gerência da informação,
cuja ênfase se dá nas técnicas e linguagens de classificação, indexação,
construção de tesauros e no problema da recuperação da informação e sua
precisão, “medidas da época que se acomodam até hoje”, como esclarece
o autor; - a fase da relação entre informação e conhecimento, momento em que
a Ciência da Informação passa a se preocupar com a importância da ação da
informação modificando a coletividades; - a fase do conhecimento interativo,
na qual a informação assume “novo status, principalmente com a sua
interface gráfica, a world wide web” que modifica “radicalmente a
qualificação de tempo e espaço entre as relações do emissor, com os estoques
e os receptores da informação”.
O autor analisa, ainda, que a Internet traz uma nova forma de lidar com a informação, como é o caso do hipertexto meio pelo qual, a leitura e o conhecimento, propiciado pela informação, são construídos pelo receptor. Barreto (2008) reflete que no hipertexto, a apropriação do conhecimento ou “a apropriação esclarecedora está nos passos do caminhante que cria o traçado do caminho”.
Nesse sentido, é possível afirmar que em relação à classificação e recuperação da informação, as folksonomias caracterizam-se como ferramentas típicas da fase do conhecimento interativo, na medida em que traz uma nova forma de lidar com a classificação, recuperação e compartilhamento da informação, forma na qual os próprios usuários colaboram livremente na classificação da informação, construindo seu próprio caminho para organizar a informação. As nuvens de “tags”, uma das formas de navegar pelas informações classificadas espontaneamente pelos usuários modificam-se em tempo real, em interação constante entre os usuários e a informação, modificando também a relação de tempo entre a classificação da informação e seu uso.
O foco desse trabalho é a abordagem colaborativa da Internet, dinamizadora
dos sistemas denominados por folksonomias e a participação do usuário na
construção da informação e do conhecimento na Rede. Nesse sentido, mesmo sem
responder integralmente à pergunta de Nepomuceno, ou seja, se a Ciência da
Informação se transmuta perante a Internet, pode-se dizer que muitos dos
problemas, soluções e ferramentas clássicas da Ciência da Informação se
transmutam e de uma forma ou outra vêm sendo influenciadas pelos ideais
colaborativos e pela participação livre e voluntária de milhares de pessoas,
como ocorre nas folksonomias, bem como na construção e reconstrução
constante da Web, ambiente em que a informação está em interação contínua e
dinâmica com pessoas.
Recuperação da informação na Web
A classificação e recuperação da informação é um dos problemas clássicos da
Ciência da Informação. As primeiras técnicas de recuperação da informação
tinham o objetivo de recuperar informações em textos e em coleções de
documentos classificados e organizados por profissionais da informação. Com
o surgimento e popularização da Web a recuperação de informação na Web
torna-se um desafio sem precedentes seja pelo volume, pela espontaneidade e
velocidade com que os conteúdos na Rede se constroem, sem uma instância
reguladora a dirigi-la ou ordená-la, pela diversidade de informações, pela
descentralidade na publicação, variedade de autores, idiomas, interesses e
usos da informação, assim como pela grande volatilidade das informações
disponibilizadas. São forças que tornam a Web caótica em constante mudança e
auto geração, e do ponto de vista das técnicas de recuperação da informação,
completamente diferente das coleções tradicionais de documentos.
As primeiras gerações de ferramentas de busca Web tentavam simplesmente
transferir as técnicas clássicas de recuperação de documentos para a Web,
mudando apenas a escala de abrangência, a qualidade e a relevância dos
resultados. Deixavam a desejar principalmente na questão de categorização e
classificação dos resultados das buscas. As técnicas clássicas de
recuperação da informação continuam sendo necessárias na recuperação Web,
mas já não são suficientes em uma rede de informações sem precedentes em
escala, sem uma coordenação centralizada na sua criação, e com uma enorme
diversidade de cenários e objetivos de seus usuários. (Manning, 2008)
Ferramentas foram e são desenvolvidas no intuito de resolver a indexação,
classificação e recuperação de informações na Web. Os motores de busca, por
exemplo, vasculham a rede localizando novos conteúdos, indexando
automaticamente termos das páginas, classificam os resultados da buscas por
relevância, utilizando parâmetros que são peculiares dos conteúdos da Web,
por exemplo, análise dos links que apontam para uma página, análise do
acesso, uso dos termos, entre outros. As ferramentas que fazem uso da
chamada inteligência artificial também são desenvolvidas na tentativa de se
aproximar a compreensão semântica e da linguagem humana ao processar,
classificar e recuperar informações na Web. Se recuperar informações de
texto na Internet apresenta tamanha complexidade, ainda mais complexo é
recuperar informações digitais em diversos formatos como música ou imagens.
Ao mesmo tempo em que a Internet traz desafios para as técnicas tradicionais
de classificação e recuperação da Informação, traz, também, soluções
próprias para lidar com a classificação da informação num ambiente caótico e
em constante modificação como é a Web. As ferramentas tecnológicas se
mesclam com fenômenos humanos como a colaboração espontânea dos usuários por
meio das redes sociais e de relacionamento. É certo que a cooperação, o
trabalho colaborativo são comportamentos humanos anteriores às Tecnologias
da Informação e Comunicação, mas tomam uma dimensão global com a Internet,
rompendo barreiras geográficas, lingüísticas e independem de uma coordenação
centralizada.
Assim homem, software e máquinas se integram na classificação da
informação na Web por meio de ferramentas que utilizam a classificação e
indexação voluntária, espontânea, feita livremente pelos usuários. É o caso
das chamadas folksonomias ou classificação social da informação (social
classification). É preciso ter em vista os fenômenos da cooperação e
colaboração na Rede para compreender como e porque as pessoas contribuem
livre e voluntariamente na classificação e compartilhamento de informações
na Web.
Movimentos livres e colaboração na Internet
O conceito de trabalho colaborativo na Internet se assemelha ao modelo de
desenvolvimento do software livre, no qual programas de computador são
criados e modificados por pessoas através do trabalho e conhecimento
compartilhado livre e cooperativamente. Silveira (2005) explica que:
o espírito do desenvolvimento colaborativo e baseado em um fluxo livre sobre o conhecimento, permitiu a produção das principais ferramentas e protocolos da Internet, bem como, acelerou a estruturação e disseminação da rede levando também ao ciberespaço a prática do compartilhamento do código fonte dos softwares e a liberdade para a sua alteração e para a distribuição das novas linhas de código. O movimento do software livre iniciado por Richard Stallman, em 1984, alastrou-se pelos vários países e tornou-se uma força concreta, tecnológica, cultural e política. (Silveira, 2005)
O espírito de colaboração aberta se manifesta também em outros recursos
informacionais com destaque para ferramentas colaborativas como os ambientes
“wiki” para criação de conteúdos.
Lima e Santini (2007) explicam que o
desenvolvimento do software livre criou espaços de produção colaborativa e
que no esteio dessa iniciativa desenvolveu-se uma infinidade de iniciativas
fundadas em estruturas abertas. Na visão dos autores, essas formas de
organização produtiva influenciam a produção e organização do conhecimento.
Assim, a organização, classificação e recuperação da informação na Web,
também recebem influência dos movimentos livres e do trabalho colaborativo
por meio da Internet, como se vê na classificação social da informação ou
folksonomias. Esse tipo de classificação da informação não tem o objetivo ou
possibilidade técnica de substituir a classificação e recuperação
tradicional da informação, essencial no tratamento da informação com
finalidades técnicas e científicas, mas se soma a essa e traz novas e
originais formas de lidar com a informação, como a classificação da
informação definida pelos próprios usuários.
Classificação colaborativa e recuperação da informação na Web
O campo da biblioteconomia e Ciência da Informação desenvolveu regras
elaboradas e esquemas para catalogação, categorização e classificação,
vocabulários controlados e descritores de conteúdos de documentos, com o
intuito de facilitar o acesso, a recuperação e disseminação da informação.
Mathes (2005) discorre que a criação de metadados tem sido elaborada por
profissionais da informação. Em bibliotecas primeiramente são organizados em
registros catalográficos por profissionais que trabalham com complexas e
detalhadas regras e vocabulário controlado. Um dos padrões de metadados mais
utilizados na descrição de objetos digitais na Web atualmente também é uma
iniciativa dos profissionais da informação, o padrão de metadados
Dublin
Core. Entretanto, Barreto (2000) lembra que:
quanto mais o estoque de informação estiver codificado em uma metalinguagem mais estará ocultando a informação completa em linguagem natural. O sistema de armazenamento da informação obedece a um rígido formalismo técnico e reducionista, que serve aos propósitos de gerenciamento e controle da informação em uma determinada situação [...] que os sistemas de metadados não podem interferir com o sistema de significação da informação, com o universo semântico dos receptores. (Barreto, 2000)
Se a metalinguagem serve aos propósitos de gerenciamento e controle da informação em muitas situações, em outras se confronta com um grande desafio para a classificação de enormes bases de informação como é o caso da Web. Catarino e Baptista (2007) analisam o que chamam de novas formas de organizar e compartilhar os conteúdos disponíveis na Internet, as denominadas folksonomias, em que os usuários indexam livremente as informações da Web, através das “tags” (etiqueta, rótulo). Por meio do que as autoras chamam de etiquetagem, o usuário pode recuperar informações ou compartilhá-las. Pode visualizar as “tags” de outros usuários, assim como identificar o grau de popularidade de cada “tag” no sistema e acessar as informações relacionadas.
A expressão folksonomia vem do inglês (folsksonomy) e é uma
associação entre “folks” (pessoal, gente, turma) e taxonomy
(taxonomia), creditada ao arquiteto da informação Thomas Vander Wal. Em
português encontra-se tanto o termo folksonomia como gentonomia que
derivaria da combinação entre “gente” e “taxonomia”, ou seja,
uma taxonomia elaborada por gente no sentido de grupo, de colaboração e em
oposição à indexação automática para a Rede feita por máquinas nas
ferramentas tradicionais de busca na Internet.
Neste trabalho se usará a expressão folksonomia para designar o trabalho
colaborativo de classificação das informações Web, em que os usuários
descrevem as informações utilizando “tags” e essa classificação é
compartilhada livremente para outros usuários e dependendo do sistema outros
usuários podem também adicionar “tags” para descrever melhor esses
conteúdos. No idioma inglês, esses sistemas são chamados também de
“collaborative tagging”, “social classification”, “social
indexing” e “social tagging” evidenciando o fenômeno tratado
anteriormente da colaboração com finalidades coletivas.
Uma das formas de navegar pelas “tags” disponibilizadas pelos usuários é por
meio da chamada “nuvem de tags” (tag cloud), que apresentam uma forma
de visualização para facilitar a recuperação de informações. Nas nuvens de
“tags”, o tamanho das letras e a cor das palavras dispostas em
imagens geradas dinamicamente, modificam-se à medida que informação é
acessada, gerada ou classificada, podendo indicar a popularidade de uma “tag”,
ou a freqüência da palavra nos documentos da coleção. A figura 1 mostra um
exemplo de uma nuvem de “tags”.
Figura 1: Exemplo de uma nuvem de “tags” (tag clouds).

Fonte: Imagem gerada com a ferramenta TagCrowd (http://www.tagcrowd.com/)
Como exposto anteriormente, com tais características de interatividade em
tempo real e construção de conhecimento, as folksonomias são uma expressão
da fase do conhecimento interativo na Ciência da Informação descrita por
Barreto (2008). Vale lembrar que essas ferramentas, as folksonomias, não têm
o objetivo nem a precisão técnica para substituir as ferramentas clássicas
de recuperação da informação. Entretanto, apresentam-se como alternativas
baseadas no trabalho colaborativo e espontâneo, de milhares de usuários de
diversas partes do mundo nos moldes de como se desenvolve o trabalho da
Wikipédia ou a construção do conhecimento nas redes sociais.
Se recuperar informações textuais na Internet torna-se cada vez mais difícil
pelo volume informacional, as informações digitais em formatos não textuais,
como imagens, vídeos, música não tem ainda técnicas sedimentadas, ainda que
esforços de desenvolvimento tecnológico nesse sentido estejam sendo
empreendidos e alguns deles já estejam disponibilizados para os usuários da
Web. As próprias páginas Web apresentam partes não textuais como, por
exemplo, títulos ou até textos inteiros elaborados como imagens ou no
formato flash, não possibilitando a indexação pelos “webbots”
(robôs Web)
utilizados pelos sistemas de busca Web. (Manning, 2008)
Nesses casos a indexação manual voluntária, colaborativa é um recurso
precioso para a comunidade da Internet, ainda que apresente inconsistências
ou imprecisão. Do ponto de vista das preferências do usuário no processo de
busca na Web, Sinclair e Cardew-Hall (2008) explicam que os usuários optam
pela interface tradicional com “Search Box” (caixas de busca) quando
precisam de informações muito específicas e que a preferência sobre as
nuvens de “tags” por meio das folksonomias se dá quando o usuário busca
informações mais gerais.
Mathes (2005) conclui que a folksonomia representa simultaneamente o melhor
e o pior da organização da informação. Sua natureza não controlável, caótica
sofre de imprecisão e ambigüidade que poderiam ser melhoradas pelos
vocabulários controlados. O autor se pergunta porque, então, as pessoas se
empenham nessa classificação colaborativa. Conclui que esses sistemas
permitem que o usuário organize as informações a seu modo e participe
ativamente transformando a criação de metadados em uma atividade
comunicativa.
Na mesma linha de raciocínio, Catarino e Baptista (2007) concluem que a
principal vantagem das folksonomias é o cunho colaborativo e a desvantagem,
a falta de controle de vocabulários que é resultado da liberdade de
indexação dos conteúdos conforme as necessidades e entendimento do usuário.
Como toda técnica, deve-se tomar cuidado na aplicabilidade da mesma levando
em consideração suas limitações e buscando as vantagens de suas
especificidades. É o caso das aplicações das folksonomias para classificar
conteúdos de uma base de dados de objetivo geral que lida com imagens,
vídeos, musicas, e até “bookmarks” (marcadores de links), disponibilizados
por usuários com características heterogêneas em relação a temas de
interesse. Porém aplicar a folksonomia como forma principal de descrição e
classificação de informações em repositórios de artigos científicos, nos
quais é necessário maior rigor cientifico na descrição e classificação para
potencializar a precisão na recuperação da informação, não se mostra
adequado. Nesses casos, a organização e classificação da informação
continuará a fazer uso das técnicas tradicionais desenvolvidas pela
Biblioteconomia e Ciência da Informação, gerenciadas por profissionais da
informação especializados.
O que faz com que as folksonomias venham ganhando espaço na classificação e
recuperação da informação para fins diversos, é o fator colaborativo como
mostram Catarino e Baptista (2007). As autoras apresentam um levantamento
das ferramentas que utilizam taxonomias, mas avisam que os serviços
indicados não foram analisados para identificar a possibilidade de interação
entre os usuários. O quadro a seguir elaborado pelas autoras apresenta 20
sites que adotam folksonomias.
Quadro 1: Sites que adotam a Folksonomia

Fonte: Catarino e Baptista, 2007. Quadro 4 (http://dgz.org.br/jun07/Art_04.htm)
Dos serviços relacionados pelas autoras e que puderam ser acessados, apenas
5 não apresentavam nenhum tipo de possibilidade de interação entre usuários,
como a comunicação entre si por meio de “profiles” (perfis). Como essas
ferramentas estão em constante modificação, é possível concluir que a
maioria dos sites que adotam folksonomias apresenta a possibilidade de
interação social e comunicação, ainda que com níveis de interação
diferentes.
Entretanto, é importante observar que o quadro apresenta serviços que usam
as folksonomias para vários formatos de informação. Em relação ao aspecto da
recuperação da informação em si, as folksonomias mostram ser o método mais
utilizado para informações não textuais como arquivos de imagens ou músicas.
A Last Fm serviço desenvolvido por um grupo
londrino e que se denomina como uma revolução social na música (the social
music revolution) é um caso exemplar. Através do que chamam de plataforma
social de música permite a recuperação de informações de música baseada
exclusivamente no modelo de “social tagging”. Mas não é só. Também no
espírito colaborativo e livre da Rede, os usuários enviam faixa de músicas e
as compartilham com outros usuários que podem também navegar ou mesmo entrar
em contato entre si através dos perfis de usuários na forma de rede social.
Informação, tecnologia, e pessoas formam a pluralidade da Internet, e é com
essa pluralidade que os profissionais da informação precisam lidar hoje.
Assim, cabe comentar a pergunta de Nepomuceno (2007): “a Ciência da
Informação conseguirá sobreviver sozinha ou precisaremos de uma nova
Ciência, como a nova Ciência Web ou da Rede, na qual todas as áreas estarão
mais próximas?” Capra (1982, p.46) observa que
“as limitações da visão de mundo cartesiana,
clássica, estão ficando evidentes. Para transcender os modelos clássicos, os
cientistas terão de ir muito além da abordagem mecanicista e reducionista
... e adotar enfoques holísticos.” Não há como delimitar o conhecimento a
apenas esta ou aquela parte, em regiões setorizadas. Morin (1996) sugere uma
nova postura para as ciências, fazendo o conhecimento progredir através das
áreas, comunicar não apenas informações, mas estruturas de pensamento entre
comunidades científicas.
Nepomuceno (2007) se pergunta se a Ciência da Informação está diante de um
novo paradigma científico. O conceito de paradigma científico é apresentado
por Kuhn (2007, p.220) como: “constelação de crenças, valores e técnicas
partilhados pelos membros de uma comunidade determinada, bem como por
soluções de problemas que tomadas como modelo tornam-se base para a
resolução dos problemas” do que chama de ciência normal. Como “ciência
normal” o autor define a pesquisa baseada em realizações científicas
passadas, em paradigmas estabelecidos e aceitos por uma comunidade
científica. Entretanto, explica o autor, existem momentos que, por fatores
internos ou externos, uma teoria não consegue responder a uma anomalia e
surge uma crise a partir da qual precisam ser estabelecidos novos
paradigmas. Desse modo, a ciência não avança de forma cumulativa e linear,
mas por meio das revoluções científicas que se dão quando se percebe que os
paradigmas disponíveis já não têm como responder a um novo fenômeno.
Instrumentos produzidos pelo desenvolvimento da ciência, como aconteceu com
o microscópio podem provocar progressos de um lado e uma crise científica em
outro. (Kuhn , 2007). A Internet parece ser um desses instrumentos que levam
uma ciência, a Ciência da Informação a se repensar, rever, criar e recriar
técnicas e conceitos.
Considerações finais
Com a Internet, o problema da classificação e recuperação da informação
ganha complexidade. Além do volume informacional, a informação digital se
prolifera em diferentes formatos, como música, vídeos, imagens,
transbordando as técnicas de recuperação de informações textuais. As
folksonomias ou classificação social da informação são ferramentas eficazes
para classificar informações não textuais como imagens ou músicas.
Entretanto folksonomias não são adequadas para organização, classificação e
recuperação da informação com finalidades técnicas e científicas.
Ao mesmo tempo, essas ferramentas requerem tempo e dedicação do usuário que
se empenha espontaneamente em classificar informações na Web por meio de
trabalho colaborativo. Pesquisas anteriores mostram que o que motiva o
usuário a se dedicar livremente a esse tipo de atividade é o fator
comunicativo, a integração social. O próprio usuário classifica a
informação, compartilha com uma comunidade, navega pelas informações
classificadas por outros, se integra e encontra pontos de interesse comum
com outras pessoas. O mesmo fenômeno que ocorre nas redes sociais ou “social
network”.
Tais fatos como o interesse humano de estabelecer interações a partir de
interesses compartilhados por meio das “tags”, a necessidade de comunicação,
a integração por meio de interesses comuns são característicos das
necessidades humanas e essas necessidades se mesclam à busca por informações
na Internet. O compartilhamento da informação por meio das folksonomias se
apresenta como compartilhamento das necessidades humanas de comunicação e
convivência. A informação e as “tags” indicam comportamentos e interesses de
grupos sociais, não apenas categorias de informações, mas categorias sociais
agregadas por interesses comuns. Tecnologia, informação e gente formam o
caldo de cultura da Internet.
Nepomuceno (2007) se pergunta: “De onde tiraremos os subsídios da Ciência da
Informação que está estruturada para gerenciar documentos e estoques
imateriais e agora terá que lidar com seres vivos?” Parece que a Ciência da Informação tem um novo desafio: estudar a conjunção
de informação, tecnologia e “seres vivos” nas palavras de
Nepomuceno (2007). É preciso pensar a Ciência da Informação (e não só ela) sob a perspectiva da
complexidade, da comunicação de estruturas de pensamento como reflete
Morin
(1996) para lidar com a informação na Internet, na informação em interação
dinâmica com pessoas e estimulando a interação entre pessoas. As
folksonomias são uma ilustração dos desafios e, principalmente, das
possibilidades que se apresentam à Ciência da Informação na fase do
conhecimento interativo.
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Sobre os autores / About the Author:
Mestranda em Ciência da Informação na Universidade Federal de Santa Catarina. Administradora, Especialista em Recursos Humanos e em Marketing.
Angel Freddy Godoy Viera
Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Santa Catarina.
Rosângela Schwarz Rodrigues
Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Santa Catarina.