Resumo: As diversas técnicas e práticas que compõem a gama de fenômenos informacionais no universo museológico implicam diretamente na produção e disseminação do conhecimento que por sua vez, será a base para os discursos de cunho identitários e arranjos da memória social. Neste artigo temos a intenção de analisar as múltiplas posturas teóricas e abordagens práticas nas quais se encontram envolvidas as ações de informação em museus. Consideramos em primeiro lugar, algumas noções fundamentais acerca do próprio conceito de informação e em seguida sobre a importância, muitas vezes negligenciada, de não enfatizar procedimentos essenciais tais como a documentação e a exposição. Tais procedimentos permitem uma efetiva ação de inserção social por meio do atendimento adequado às diversas demandas informacionais específicas do público usuário.
Palavras-chave:
Informação; Exposição; Documentação; Museus; Ciência da informação;
Conhecimento.
Abstract:The various techniques and practices that
compose the amplitude of the informational universe in museology directly
include the production and dissemination of knowledge. This in turn will be
the basis for speeches of indentity and social arrangements in a social
memory. In this article we intend to analyze some theoretical approaches and
pratical positions concerning the information flow in a museum
institution. We first take some of the fundamental aspects of the
information concept and then study the real importance of essential
procedures such as documentation and presentation in the our context of
analysis. These procedures allow to size effective actions of social
inclusion through measures wich care for different informational demands
according to specific user and public.
Keywords:
Information; Exposition; Documentation; Museums; Information science;
Knowledge.
Introdução
O desafio em trabalhar questões informacionais na contemporaneidade, é expressos fundamentalmente pelos mais abrangentes usos, conceitos e definições que podem ser associados ao termo ‘informação’. As complexas teias relacionais, representações e implicações em termos práticos, dentro das quais se desenvolvem fenômenos de informação, nos remete a uma gama também bastante diversificada de possíveis perspectivas e abordagens. Por perpassar os mais variados campos do conhecimento e domínios epistemológicos, será no âmbito da Ciência da Informação, com suas propriedades essencialmente interdisciplinares, que tais realidades poderão ser analisadas considerando o vasto emaranhado teórico que compõe o universo de construção, conhecimento e usos da informação.
O museu, na qualidade de instância de representação da memória social e
espaço no qual a informação é considerada insumo cultural, é terreno
propício para o desenvolvimento de estudos e ações relacionadas à
informação. Sobretudo considerando a informação como um conhecimento humano,
com características cognitivas, resultantes do ato de conhecer e capaz de
transformar idéias e aspectos comunicacionais (Le Coadic, 2004, p. 4).
A informação inserida no âmbito do museu pode ser concebida e manifestada a partir de uma série de aspectos e nuances que caracterizam o pensar e as práticas museológicas com vistas à construção de conhecimento. Torna-se grata à questão da informação em museus, a perspectiva de Mikhailov (1980, p. 73) ao construir a noção de “informação científica” correspondendo ao “resultado de atividades sociais de produção de conhecimento”, e fundamentalmente como “aspecto transformador da realidade e seu caráter social ligado a fenômenos e regularidades inerentes à sociedade humana”.As perspectivas de abordagens adotadas pelos teóricos que se debruçam sobre a questão da informação na esfera museológica, muitas vezes apontam para direções diferenciadas, o que não significa que sejam contraditórias.
De maneira que alguns tratam a informação produzida e divulgada através dos museus relacionada a questões de processamento e documentação, enquanto outros preferem dar mais ênfase às linguagens expositivas como ferramenta comunicacional. É importante acentuar também que no meio desta diversidade de olhares não se deve perder de vista o caráter institucional no qual se encontra atrelada a maioria dos museus, sobretudo aqueles classificados como “tradicionais”. Esta realidade que caracteriza os museus como “instâncias informacionais componentes do aparelho de Estado” (Loureiro, 1996, p. 102) pode, com freqüência, configurar um quadro abrangente no qual ocorrem implicações de ordem ideológica, voltadas ao respaldo e a manutenção de interesses e relações específicas de poder.
Nossa proposta consiste em tratar a informação em museus, considerando a
complexidade das múltiplas ações de caráter tanto teórico como prático
envolvidas no processo de produção do conhecimento/informação de caráter
museológico. Para tanto, procuraremos apresentar uma breve análise sobre os
conceitos de informação e museu em suas intrínsecas inserções nos processos
e relações sociais, fundamentalmente ligados à memória e ao patrimônio
cultural. Examinaremos as questões relativas aos procedimentos técnicos de
musealização dos objetos componentes das coleções de museus e sua
representação através das atividades de documentação e exposição,
evidenciando seu potencial informacional/comunicativo. Sugerimos por fim,
uma perspectiva de debate acerca de uma prática de construção/divulgação do
conhecimento produzido em museus que privilegie a participação efetiva do
público/usuário nas ações voltadas à memória e aos processos de configuração
e fortalecimento das identidades sociais.
Informação’ como categoria de análise
Em termos etimológicos, a palavra informação – que vem do latim ‘informare’
– significa “dar forma”, “colocar em forma”, o que remete aos sentidos de
criação, apresentação e representação. Capurro (1985, p. 2), respalda-se em
Tomás de Aquino para buscar as origens epistemológicas do conceito de
informação: ‘informatio’, denotando aspectos ontológico, epistemológico,
pedagógico e lingüístico. Informação, nestes termos, apontaria para os
aspectos de mediação entre mente e objetos, uma vez que são percebidos pelos
nossos sentidos.
Considerando assim, o seu sentido formal/ordenador, Zeman (1970, 156-157),
ressalta o caráter qualitativo – e não só quantitativo – e organizador da
informação, sempre voltada à questão da forma, porém, indo além da simples
materialidade do objeto. Nesta perspectiva, o autor sublinha o “caráter
monístico” da informação.
Mônada, segundo Giordano Bruno (séc. XVI) e
também, Gottfried
Wilhelm von Leibniz (séc. XVIII), significa os “elementos das coisas”, isto é,
representaria a menor partícula a partir da qual se constituiriam a
complexidade das formas. Seriam, assim “átomos da natureza”.
Esta noção monística poderia apontar para uma problemática bastante
pertinente na atualidade sobre as questões que envolvem o papel da
informação no processo de construção do conhecimento. Lopes (1998, p. 2),
alerta que “o fracionamento do todo em mônadas funciona sob o mesmo modelo
que o fracionamento atual do conhecimento em informação (as mônadas do
século XX)”. Tal assertiva poderia motivar a crítica de que a informação não
é indivisível como as mônadas, não se tratando, desse modo, de átomos
rigorosamente herméticos do conhecimento, que por si mesmo, é vasto e
irregular. O que vale para nossa proposta aqui, entretanto, é ressaltar na
idéia de mônada associada à informação o seu aspecto organizador capaz de
“dar forma”, fugindo ao domínio estrito da materialidade do objeto.
Segundo esta mesma lógica de raciocínio em que não deve ser compreendida sob
um olhar a priori do aspecto físico, Buckley (1983, p. 603), considera a
informação não como ente ou objeto, mas “inerentemente relacional entre dois
ou mais conjuntos de eventos”, sendo seu significado, assim, construído na
arena das interações sociais. No que tange à questão do significado, é
fundamental que estejamos sempre atentos às limitações da possibilidade de
uma representação abarcar todo um universo de conotações e domínios
semânticos de um determinado evento ou objeto.
A noção de ‘reflexo’ tal como trabalhada por
Zeman (1970, p. 159), é
emblemática e fundamental para o entendimento do caráter relacional da
informação. Segundo o autor, todo registro de um objeto ou toda informação
comporta um “máximo de condensação possível” para que haja possibilidade de
torná-lo inteligível – ainda que de maneira parcial. O ser humano não pode
refletir a variedade de um objeto em sua totalidade, mas apenas escolhendo
alguma coisa. Assim, “a coisa como tal, que percebemos sob forma de sua
aparência, torna-se algo para nós se somos capazes de dominá-las e
transformá-las”. A proximidade fenomenal que nos traz à esfera da
materialidade, estaria presa às reduções semânticas da nossa percepção por
meio dos “reflexos”, e a informação também seria um fenômeno reflexivo no
âmbito das relações sociais.
Na percepção de Capurro (1985, p. 7), informação em sentido
hermenêutico-existencial enquanto dimensão do nosso estado de convivência no
mundo com os outros, significa “compartilhar um mundo comum tematicamente e situacionalmente”. Admitindo que o homem não reflete a heterogeneidade do
objeto mas apenas aspectos eleitos da realidade total, o compartilhamento
proposto por Capurro diria respeito a convenções a partir de determinadas
formulações redutoras subjetivamente selecionadas em seus aspectos
pretensamente “mais importantes”, sob o signo da organicidade – pois caso
contrário, elas seriam caóticas.
Mesmo diante de todo um quadro que evidencia o caráter múltiplo e
controverso do conceito de informação, não podemos esquecer que, por outro
lado, existem certas premissas epistemológicas comuns ao fenômeno
informacional, como por exemplo, seu domínio por excelência: o campo das
relações sociais. Os diversos autores que de alguma maneira vem pensando a
informação a partir do escopo teórico da Ciência da Informação, ainda que a
partir de pontos de vista por vezes bastante estanques e divergentes,
ratificam tal complexidade e heterogeneidade do fenômeno. Brookes (1980) e MacGarry (1984), por exemplo, possuem visões que se assemelham no sentido de
considerarem a informação uma espécie de matéria prima ou pequena partícula
da estrutura do conhecimento. Perspectivas estas que remetem, de certa
forma, a Belkin e Robertson, (1976), quando se referem à informação como
algo capaz de transformar estruturas cognitivas.
Considerando a problemática nos termos teóricos e conceituais descritos
acima, desenha-se o quadro de possíveis relações e implicações do fenômeno
da informação no espaço museológico. Sobretudo no que tange aos aspectos
relativos ao objeto e sua passagem pelas ações de musealização incluindo as
questões de processamento técnico e teórico e as linguagens expositivas.
Os Museus e suas implicações informacionais
Em função da heterogeneidade das práticas e premissas conceituais, além da
vasta gama de abordagens que vem sendo empreendidas ao longo do tempo,
apontar para uma única definição de museu no remeteria a um recorte no
mínimo impreciso. A primeira definição institucional surge no século XX a
partir da criação do Comitê Internacional de Museus e dá conta dos seus
aspectos de conservação e preservação de coleções de objetos de caráter
cultural ou científico com fins de estudo, educação e lazer. A partir dos
anos de 1950, The
International Council of Museums, ICOM concebe novas definições
agregando valores relativos à função social do museu:
“instituição permanente, sem fins lucrativos, aberta ao público, a serviço de uma sociedade e de sua evolução, que adquire, conserva, pesquisa, comunica e expõe para fins de estudo, educação e lazer os testemunhos do homem e do seu meio-ambiente.”
A partir desta redefinição tem início um movimento na Museologia fortemente inclinado a romper com paradigmas museológicos arraigados às técnicas de processamento de acervo, onde se tomava o objeto por ele mesmo, suprimindo assim todas as inúmeras possibilidades de análise e implicações que podem ser recorrentes (Mensch, 1992, p. 2). Começa a ter grande alcance uma perspectiva que prima pela importância e representatividade social do espaço museológico.
De certa forma, esta tomada de consciência para as questões sociais vem sendo em muitas ocasiões subjugada, ainda que isto não expurgue do museu seu grande volume de dados semânticos. Estas estruturas representadas e organizadas a partir de procedimentos teóricos e técnicos, consistem na informação portadora de um potencial propulsor de conhecimento. Tais insumos informacionais dos quais os museus são portadores, estão diretamente relacionados aos objetos musealizados.
A análise do objeto no interior do espaço museológico, a luz de um
aprofundamento teórico que não se prende apenas aos aspectos formais é,
portanto, condição sine-qua non para a compreensão do organismo
informacional que compõe os museus. O objeto de museu como testemunho de uma
realidade, segundo Maroevic (2000, p. 6) é “elemento de informação básico do
conhecimento humano”, e para que seja possível uma leitura efetiva deste
testemunho é necessário que se reconheça a linguagem do objeto em suas
dimensões tanto materiais quanto estruturais.
Aqui se destaca a perspectiva de Buckland (1991, p. 352) e sua categoria de
“informação-como-coisa”, identificada pelo autor no interior de uma
caracterização acerca das diversas definições de informação encontradas na
literatura. Elas estariam subdivididas em três grupos, a saber:
“Informação-como-processo”: referem-se às mudanças ocorridas através do ato de informar; “Informação-como-conhecimento”: relacionam-se ao aspecto intangível da informação, associando-a diretamente ao conhecimento; “Informação-como-coisa”: referentes a um grupo de definições que, embora considerem a necessidade da representação física da informação para fins de compreensão e manipulação, da mesma forma, reconhecem que essas representações tangíveis diriam respeito tanto à informação de natureza concreta/material como intangível/simbólica.
Chegando a questionar a validade e totalidade de “qualquer visão de
informação, ciência da informação ou sistemas de informação que não sejam
estendidos aos objetos”, uma vez que a coleta, armazenamento e recuperação
da informação passam necessariamente pelos seus processos, Buckland
refere-se ao museu e sua característica de tratar essencialmente com
objetos. Para o autor, por mais que a intenção de uma exposição museológica
seja a de informar o público como parte do processo de construção do
conhecimento, estas perspectivas se balizam na operacionalização da
informação a partir da “fisicalidade” do objeto.
Ocupando status central na museologia como portador de potencial de
informação, o objeto na perspectiva de Mensch, Pow & Schouten
(1990, p.
59-60) é considerado um fenômeno, no sentido lato, que possui
características próprias. Para os autores, no âmbito das práticas
museológicas a informação contida no objeto pode ser observada sob três
categorias de análise: informação do objeto, documentação e informação
contextual. Estas categorias serão norteadoras dos prismas aqui analisados.
A proposta categoria ‘informação do objeto’, está a princípio relacionada a
características físicas tais como: composição, material, técnica,
morfologia, etc. Entretanto é fundamental levar em conta além dos contornos
“sintáticos”, também a dimensão “semântica”
do objeto de museu. Esta faceta
da análise da informação do objeto remete ao processo interpretativo que, na
percepção dos teóricos, pode considerar dois tipos de significados: o
principal, que diz respeito à funcionalidade e uso; e o secundário,
referente à agregação de valores simbólicos.
A devida relevância aos aspectos semânticos no processamento técnico do
objeto musealizado é que vai garantir que a informação, no âmbito do museu,
possa assumir o papel de elemento estrutural capaz de dar acesso à
possibilidade de construção e interpretação da realidade social. Este papel
é destacado por Maroevic (2000, p. 7), como o de excelência por parte do
profissional de museu, a quem se deve a investigação do significado do
objeto, em ou para, um determinado contexto social.
O manto de significações que recobre o objeto musealizado nos remete a dois
caminhos de possibilidades de análise da informação produzida e divulgada
nos museus: através da comunicação/exposição e da documentação. Ambas fazem
parte do complexo de procedimentos teóricos e técnicos que podemos chamar de
‘musealização’, onde os bens concretos e simbólicos adquirem a
potencialidade de representação de uma determinada realidade social, uma vez
que se torna “expressão museológica, exemplar de sustentação da verdade”
(Loureiro, 1996, p. 110). Adiante nos ateremos a cada um destes dois
“braços” do processo de musealização, que é justamente aonde será construído
o discurso informacional no horizonte dos museus.
Informação, Museu e construção de conhecimento
É parte fundamental de qualquer tratamento de informação a análise
documental, que deve ser balizada na leitura interpretativa do documento.
Este pode ser grosso modo, definido como qualquer objeto portador de
informação. (Le Coadic, 2000, p. 5). A documentação em museus é a atividade
responsável pelo processamento do acervo, e mantém um elo estreito com o
sentido informacional empreendido pelo espaço museológico. Por meio do
processo de documentação a informação no museu é elaborada com vistas à
construção do conhecimento. Para tanto, deve-se considerar como elementos
integrantes desta ação agregadora de informação pela qual passa o acervo
museológico as diversas etapas e procedimentos museográficos, desde a coleta
até a exposição.
Apesar do caráter fundamental das ações de documentação, no Brasil a
situação ainda é precária no que se refere à definição de práticas de
organização e automação de acervos – só para citar dois dos procedimentos
que fazem parte de um complexo de atividades documentais no escopo
museológico. Tal realidade fica bem clara nas palavras de Pinheiro (1996, p.
5) quando afirma que: "A situação da documentação e informação em museus, no Brasil, tem
características próprias de um país no qual a memória, patrimônio,
identidade cultural e preservação se inserem de forma muito frágil nas
políticas públicas culturais.”
Tal precariedade dificulta, de uma maneira geral, as iniciativas
museográficas brasileira voltadas a trabalhar com eficiência o potencial
informacional contido nos objetos de museus. Ao passo que em outros países a
realidade é um pouco diferente, uma vez que há uma efervescência de
atividades documentais/informacionais refletida na preocupação com a criação
de sistemas de informação capazes de tornar a instituição museológica
mediadora entre os “documentos/objetos” e o público/usuário.
Partindo das considerações de Ferrez e Bianchini (1987, p. 6), é possível
afirmar a existência de um paralelo entre a perspectiva museológica quanto
aos sistemas de documentação e a questão dos sistemas de recuperação da
informação no âmbito da Ciência da Informação. De fato, se o museu não
dispuser de uma estrutura conceitual mínima para que desenvolva sua
linguagem documental básica e, nem tampouco, seja capaz de organizar um
sistema de recuperação de informação, ele estará alheio às nuances culturais
da sociedade a qual serve e representa. Tal desestruturação informacional no
museu constitui uma barreira para a percepção e análise do objeto/informação
em sua dimensão semântica, além de representar ao mesmo tempo, obstáculo à
produção de conhecimento de forma relevante e participativa .
Os estudos, reflexões e práticas acerca dos museus a partir de um corpus
teórico consistente ainda caminha em direção a uma estruturação sólida a fim
de criar mecanismos que respondam às suas necessidades como um conjunto de
saberes acerca do patrimônio e da memória social. A ausência de uma
metodologia museológica bem definida é decisiva para a desestruturação da
informação no âmbito dos museus. Os insuficientes recursos empreendidos com
a informação/documentação é conseqüência do não conhecimento do potencial do
museu como um “sistema de informação” (Ferrez & Bianchini, 1987, p. 5),
também no que se refere à questão da transferência e disseminação da
informação. Este aspecto nos leva a pensar o outro “braço” da problemática
informacional no universo museológico: a questão comunicacional.
Toda e qualquer atividade informacional no museu carrega intrinsecamente o
vetor comunicacional como consequência natural de um processo de organização
de conhecimento. Castro (1999, p. 19), reafirma esta perspectiva quando
argumenta que o registro da informação não pode objetivar unicamente a
conservação do objeto de museu. Deve haver uma sistemática organizada com
vistas a ampliar seu potencial para a pesquisa e a comunicação. A autora
prossegue argumentando que uma das maneiras de se encarar o fenômeno
informacional no âmbito do museu, é “percebê-lo em interação com o campo
comunicacional”.
O objeto musealizado é um dos protagonistas no processo de comunicação em
museus, onde se estabelece de maneira efetiva o diálogo entre o
público/usuário e o discurso produzido e difundido pelo museu. E para que
este diálogo possa se dar, é muito importante que os meios de comunicação e
mecanismos de informação dos quais dispõe a instituição museológica sejam
capazes de prover uma inserção inclusiva e participativa do visitante e seu
meio social. E que esta inclusão promova insumo informacional capaz de
produzir conhecimentos voltados para agir diretamente na realidade como um
vetor de tomada de consciência e transformação.
A atual tendência das práticas museológicas de criação de novos e mais
efetivos canais de comunicação, tem acarretado reflexões acerca da
potencialidade do museu trabalhar essencialmente a questão da transferência
de informação, intencionando prioritariamente a geração de conhecimento.
Diante desta perspectiva Carvalho (1998, p. 34), chama a atenção para a
importância do conceito de ‘relevância’ que segundo ela é
“basilar para a
avaliação dos sistemas de comunicação em instituições que lidam com a
informação”.
Relevância constitui conceito complexo e polissêmico. Por este motivo nos
propomos a tratá-lo de acordo com a perspectiva de Saracevic (1970, p. 121),
emblemática para a Ciência da Informação. Segundo o autor, o conceito de
relevância inicialmente foi desenvolvido no bojo dos sistemas de recuperação
de informação sob um prisma mais técnico-operacional. Somente num segundo
momento se começa a levar em consideração a visão de relevância destinada ao
usuário.
Para Saracevic, se a informação não for relevante não é definitivamente informação. Assim, o autor relaciona o conceito de relevância a sistemas de recuperação da informação, estando também associada ao efetivo fornecimento de informação para o usuário. Ainda para Saracevic, (p. 112) a relevância está ligada de maneira indelével ao conceito de comunicação como processo, ou seja, a informação transmitida de uma fonte ao destinatário, de maneira que possa ocorrer “reiterações” e “realimentações”. Diante desta realidade, portanto, se verifica a importância da noção de relevância em um sistema de comunicação que, no âmbito museológico, aponta para aspectos da transferência de informação para o público. Tal processo se dá, fundamentalmente, através da exposição museológica.
A relação público/usuário e museu se consolida por meio da exposição
museológica, prática que caracteriza a o museu enquanto tal. A exposição é o
meio pelo qual os dados primários intrínsecos ao objeto musealizado, podem
se tornar informação, na medida em que atuem como agente transformador de
estruturas comportamentais e cognitivas naqueles que estão no outro extremo
do processo comunicacional.
A exposição museológica, na concepção de Monteiro (1998, p. 38), em seu
aspecto comunicacional pode ser compreendida a partir de duas categorias:
representação e simulação. Quando o museu trabalha seu processo expositivo
somente segundo o prisma representacional, há uma inclinação a se deixar de
lado todo o potencial informacional dos objetos expostos, podendo ainda,
obscurecer a multiplicidade de possibilidades comunicacionais para o
estabelecimento de uma linguagem comum entre público/usuário e museu. Por
outro lado, na perspectiva expositiva pautada sob a égide da simulação, o
museu tem a possibilidade de valorizar a informação como agente capaz de
agrupar todo o manancial semântico do objeto musealizado.
Deveria ser tarefa primordial dos profissionais de museus, comprometidos com
o trabalho no processo expositivo – estando aí envolvidas todas as etapas
anteriores ao produto final “exposição” – uma análise informacional
preocupada em considerar o impacto que vai provocar no público/usuário a
narrativa expositiva. Em outras palavras, a questão semântica e cognitiva
deveria constituir parâmetros essenciais para a avaliação de sistemas
informacionais.
Belkin (1980, p. 139), discorrendo acerca da problemática da recuperação da informação, argumenta que diferentes tipos de demandas informacionais requerem diversificadas estratégias de recuperação da informação. Sob este mesmo prisma, pensado especificamente no âmbito das práticas museológicas, a exposição no entender de Maroevic (2000, p. 6), ao passo que se depara com a heterogeneidade de possibilidades de público-alvo, deveria ser construída segundo uma lógica que respeitasse esta multiplicidade.
A adoção de estratégias
diferentes para necessidades diferentes, de acordo com as demandas de
público/usuário, possibilitaria que a informação construída e transferida em
museus agisse diretamente na dimensão estrutural/cognitiva do receptor, de
maneira a provocar ainda um processo de interpretação e plena negociação de
sentidos a partir do discurso museológico.
Considerações gerais
Admitindo que o fenômeno da informação não seja passível de modelização em
seu processo de construção, mas sim que há “ações de informação” que passam
por diversos discursos e negociações de significados no âmbito social
(González de Gómez, 1990, p. 118), consequentemente devemos admitir a
existência inapelável de diferentes “necessidades de informação”. E da mesma
maneira, haveria todo um sistema de informação ao qual caberia a atribuição
dos “valores de informação”, pautados nos critério de pertinência e
relevância segundo as relações estabelecidas nos processos discursivos no
quadro social.
Neste sentido, deveria haver uma “pragmática social” de circulação de informação pautada em princípios de eficácia das ações informacionais. Ocorre, no entanto, que os sistemas de informação uma vez institucionalizados no domínio estratégico e instrumental no interior de uma lógica “moderna-social-industrial-capitalista”, atendem de maneira diferenciada e particularizada demandas de usuários.
O museu que não se organiza em torno da estrutura de um sistema
informacional, que contemple de maneira enfática as questões referentes à
recuperação e difusão da informação com vistas à construção de conhecimento,
se mantém ao largo da realidade social em que está inserido, além de
contribuírem ainda, para delinear práticas regulares de exclusão. Não basta,
entretanto, que o museu documente e exponha.
Para ocorrer uma transferência da informação efetiva é necessário que haja, por parte do público/usuário, o domínio dos códigos. Em outras palavras, o espaço museológico deve objetivar o fluxo interacional entre os seus processos museográficos/discursivos e aqueles para os quais eles são implementados. Para tanto, é fundamental que as pessoas envolvidas com as atividades em museus estejam conscientes do potencial informacional com o qual estão lidando, pois é certo que: “Sem conhecer o poder e a força da informação que está nas suas reservas técnicas, os museus acabam por suprimir o contexto social, econômico, político e cultural que circunda um objeto museológico” (Meneses, 1994, p. 93).
Faz-se fundamental que os esforços em se pensar, propor e agir no museu
procurem construir estruturas de saber na linha de uma teoria e uma prática
que visam decodificar a informação potencialmente contida no objeto.
Mensch,
Pouw & Schouten (1990, p. 62), afirmam a importância da visão teórica sobre
o significado do objeto como fonte de conhecimento, no que tange aos
procedimentos técnicos que também envolvem a etapa das “descobertas” de
informações nestes objetos.
Desta forma, podemos dizer que somente através das construções e atribuições do público/usuário na qualidade de interprete, interagindo com os profissionais de museus, é que se pode dar o legítimo processo de significação do objeto musealizado. Assim, é cada vez mais vital a preocupação com a perspectiva do público/usuário, pois como nos lembra bem Maroevic (2000, p. 31), a informação uma vez interpretada pela Museologia se encontra vulnerável a novas (re)significações na qual “até mesmo a manipulação ideológica está incluída”.
Acerca da questão do objeto como documento portador de informação, se deve
tomar muito cuidado para que não se subjugue o caráter cognitivo da análise
diante das perspectivas puramente estéticas e/ou materiais, pois isto
implicaria na inserção da informação no plano da formatação ideológica do
saber construído em museus. Vale ressaltar a fala de Zeman (1970, p. 165)
quando afirma que “o objeto é mais rico que seu reflexo” o que mostra a
importância da heterogeneidade de olhares no tratamento desta problemática
da análise do documento, em todo o seu processo social, no âmbito
museológico.
O museu em suas práticas e princípios metodológicos não pode se manter alheio à percepção das propriedades informacionais articuladas sob o prisma das várias disciplinas que determinam seu aspecto multidisciplinar. (Castro, 1999, p.15). É essencial a apreensão a partir de múltiplos olhares e saberes no trabalho museológico, sobretudo no que tange ao processo de musealização, pois é o momento em que o objeto vai passar – através do filtro dos conhecimentos empregado – pelos recortes que vão selecionar os seus aspectos “mais importantes”. Este movimento, que vai conferir a peça do acervo museológico características e usos específicos, é o mais propenso a direcionamentos e aplicações ideológicas, desembocando em práticas expositivo-comunicacionais favorecedoras de uma parte da realidade, normalmente revestida dos modelos interpretativos de interesses parciais e/ou hegemônicos.
Como espaço comunicacional e emissor de informação, se faz necessário o
entendimento de que não é somente com a informação processada e disponível
que o museu estará cumprindo este papel. O estabelecimento de canais e
linguagens de transferência que não fiquem na superfície da pura
transmissão, é fundamental para instrumentalizar a instituição museológica
para assumir sua responsabilidade social. O grau de acessibilidade aliado ao
insumo instrumental para a negociação semântica, pode fazer da informação no
museu um fator transformador. E o reforço da atividade comunicacional, nesta
perspectiva, tem a possibilidade de se inserir em um processo de construção
de conhecimento com vistas ao fortalecimento das memórias e identidades
culturais, através do diálogo provocado pelo museu entre sujeito e sociedade.
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Sobre o autor / About the Author
Mestre em Ciência da Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação do IBICT/UFF.