Bibliotecas comunitárias como território de memória interagindo práticas da aprendizagem e mudanças
por Geraldo Moreira Prado 1
Escrever não é inventar, mas é correr o risco de encontrar a realidade
Clarice Lispector
Com relação ao termo “biblioteca comunitária” vem sendo empregado pelo próprio poder público e também pela sociedade civil como sinônimo de biblioteca pública ou popular o que, de modo geral, também ocorre no contexto acadêmico. A questão principal deste texto é se a biblioteca comunitária tem potencial para ser considerada uma instituição de memória e de interação de práticas de aprendizagem e de mudanças sociais. 2
A resposta a esta questão será dada baseada em Nora, Halbwachs, Michel Pêcheux. Para Nora (1997, p. 25), “a memória é talvez o início de uma história da história”. Portanto, a história é processo enquanto a memória é vida porque está sempre presente, ela está aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, susceptível de longas latências e de repentinas revitalizações”.
Para Halbwachs (1990: 81-82), “a memória não faz corte ou ruptura entre passado e presente porque retém do passado somente aquilo que ainda está vivo ou capaz de viver na consciência do grupo que a mantém. Por definição, ela não ultrapassa os limites deste grupo”. O conceito de memória e de leitura, diz Pêcheux (1994, p.57)“, são dispositivos através dos quais os aparelhos do poder gerem a memória coletiva, terminando por envolver uma divisão do trabalho de leitura promovendo leituras originais interpretativas. A biblioteca comunitária como território de memória por ser, segundo Prado e Machado (2008), uma organização que vai além de um espaço de leitura, engloba outros aspectos da problemática sociocultural como o localismo versus cosmopolitismo, a desterritorialização, o desenraizamento, a hibidrização, a globalização e, especialmente, a erradicação do analfabetismo.
Francis Bacon (1561-1626) dizia que o que faz uma pessoa sábia não é o conhecimento que ela tem, mas sim o que ela faz com esse conhecimento. E esse conhecimento é produzido pelo sujeito no interior da história, e a cada instante é fundido e refundido pela própria história. Considerando este aspecto como uma verdade, a história do sujeito do conhecimento deste texto apresenta uma problemática até hoje muito pouco considerado nos meios acadêmicos e científicos brasileiros: as bibliotecas comunitárias comprometidas com o ensino, a aprendizagem, a integração social e o desenvolvimento local sustentável.
Historicamente, no Brasil, as bibliotecas comunitárias como sujeito do conhecimento e a sua relação com a educação e a aprendizagem ou como suportes de informações de fato nunca existiram. Elas eram um desconhecimento que só veio se transformar num conhecimento muito recentemente, ou seja, depois do fim da ditadura militar ou mais exatamente nas ultimas duas décadas deste século. Certamente este fenômeno tem uma relação intrínseca com o processo de aculturação da sociedade brasileira desde o período colonial porque, como diz Jacques Derrida (1996, p. 68), “todo cultura é originalmente colonial”.
Já biblioteca comunitária como território de memória no Brasil, tem como objeto principal a erradicação do analfabetismo, em especial a do semi-árido brasileiro, porque é nesse região onde se encontra ainda hoje os mais altos índices de analfabetismo do país. Em 2007 o índice de analfabetismo no Nordeste era de 40,7%, alcançando 49,2% no Estado do Piauí, o que não uma denúncia porque a constatação está nos dados oficiais disponíveis na Internet 3.Outro indicador histórico importante é sobre a distribuição de riqueza no país. O geógrafo francês Yves La Coste em seu estudo “Os Países Subdesenvolvidos” publicado no Brasil em 1968, dizia que durante os séculos XIX a renda brasileira estava assim distribuída: 1,0% da população detinha 99% da riqueza do país, e o 1,0% restante dessa riqueza era distribuído pelos 99% da população. Hoje em dia essa relação mudou substancialmente, mas ainda existe uma grande defasagem, como mostra a Agência Diap (2009). Ou seja, enquanto os 10% mais ricos detêm 43% da riqueza nacional, os 10% mais pobres detêm apenas 1% 4.
Fazendo uma pesquisa na Internet 5 verificou-se que o Brasil ainda tem um baixíssimo índice de biblioteca comunitária. Isto deixa os defensores dessa categoria muito descrente de que ela seja uma das saídas para que a democratização da informação contribua para o avanço da leitura no Brasil. Esta situação deve ser enfrentada, como já sendo feito nos dias atuais pelo Programa Nacional do Livro e da Leitura (PNLL) do Ministério da Cultura, embora a leitura comunitária não seja mais aquilo que Carvallo e Chartier (1998, p. 35) dizem ser: “um mundo em que o livro é venerado e a autoridade respeitada”, mas ela continua sendo a melhor forma para refletir a realidade, porque ler “é a oportunidade de encontrar um tempo para si mesmo, de forma clandestina ou discreta, tempo de imaginar outras possibilidades e reforçar o espírito critico” (Petit, 2008, p.56).
[1] Geraldo Moreira Graduado Prado é graduado em História pela Universidade de São Paulo (USP), Mestre e Ph.D em Ciências Sociais Aplicadas (Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade) pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ); Pesquisador do CNPq e do IBICT e Professor de Metodologia das Ciências Sociais, Epistemologia e História da Ciência do Programa de Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) em Ciência da Informação (convênio IBICT/MCT-UFRJ). Professor palestrantes (2007) do Centro de Estudos Culturais da Embaixada Brasileira/Univerdidad San André - Buenos Aires, Argentina e nos últimos anos vem realizando estudos e pesquisa sobre bibliotecas comunitárias e popularização da C&T no Brasil. Tem vários trabalhos (comunicação em congressos, capítulos de livros e artigos científicos) publicados no Brasil e no Exterior.
[2] Texto selecionado para participar do 17º Congresso de la SFSIC em junho de 2010,em Dijon - França.
[3] Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. “Indicadores do Inep, IBGE e PNUD estão reunidos no Mapa do Analfabetismo, que traz informações de todos os municípios brasileiros”.
[4] Agência DIAP. Disponível em http://www.diap.org.br/index.php/agencia-diap/10883-melhorou-brasil-mantem-75o-lugar-no-idh-mostra-relatorio-da-onu - acessado em 06/10/2009.
[5] PRADO, Geraldo Moreira. Pesquisa: o perfil da biblioteca comunitária no mundo segundo dados da Internet. Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT)/OSCIP Associação Biblioteca Comunitária Maria das Neves Prado. Rio de Janeiro/São José do Paiaiá – Bahia, 2009, no prelo.
Bibliografia:
CARVALLO, Gugliemo e CHARTIER, Roger. História da Leitura no mundo ocidental. São Paul, Ática, 1998.
DERRIDA, Jacques. Le Monolinguisme. Paris, Galilée, 1996.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.
LACOSTE, Yves. Os Países Subdesenvolvidos. São Paulo, Editora Difusão Européia do Livro (Coleção Saber Atual), 1968.
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Ensaio História, São Paulo: PUC-SP, n.10, 1993.
PÊCHEUX, Michel. (1982) Ler o arquivo hoje. Trad. Maria das Graças Lopes Morin do Amaral. In: ORLANDI, Eni Puccinelli (org.) [et al.]. Gestos de leitura: da história no discurso. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1994. p. 55-66.
PETIT, Michèle. Os Jovens e a leitura: uma nova perspectiva. São Paulo, Editora 34, 2008.
POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, FGV, v.5, n.10, p.200-212, 1992. Disponível em: http://www.cpdoc.fgv.br/revista/ Acessado em 18/02/2008.
PRADO, Geraldo Moreira. Bibliotecas comunitárias no semi-árido brasileiro: miniterritórios de memória da inclusão sócio-cultural. CNPq, Brasília, 2009 (relatório de pesquisa). Processo CNPq nº 401677/07-6
PRADO, Geraldo Moreira e MACHADO, Elisa Campos. Território de Memória: Fundamento para a Caracterização da Biblioteca Comunitária. IX ENANCIB. São Paulo, 2008.
Geraldo Moreira Prado
geraldo@ibict.brMestre e Ph.D em Ciências Sociais Aplicadas (Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade) pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.