Resumo: Estudo
sobre articulação de redes entre organizações
sem fins de lucro no Brasil. O caso da Rede Voluntária, uma
rede de Centros de Voluntários, é abordado em detalhamento.
O trabalho objetiva: expor algumas relações entre os conceitos
de rede e informação; contextualizar as transformações
ocorridas nas últimas décadas relativas a formas de gerenciamento
organizacional; discutir técnicas de articulação de
redes; e apresentar o caso da Rede Voluntária, sua metodologia de
articulação, resultados obtidos, barreiras encontradas e
questionamentos futuros para o projeto.
Palavras chave: Redes
Organizacionais, Terceiro Setor, Ciência da Informação,
Voluntariado.
Abstract: Study
on network development among non-profit organizations in Brazil.
The case of the Volunteer Network (Rede Voluntária) – a network
of Volunteer Centers -– is discussed in detail. The purpose of this
article is: to present the relationship between the concepts of networks
and information; to put into context the transformations that have taken
place during the last few decades in relation to forms of organizational
management; to discuss techniques of networks development; to present the
case of the Volunteer Network, the way it has been promoted, results achieved,
obstacles encountered and questions for the future of the project.
Keywords: Organizational
Networks, Third Sector, Information Science, Volunteering.
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO
2. RELAÇÕES CONCEITUAIS ENTRE REDE E INFORMAÇÃO
3. REDES, FLUXOS DE INFORMAÇÃO E AS TRANSFORMAÇÕES
ORGANIZACIONAIS
4. TÉCNICAS PARA A ARTICULAÇÃO DE UMA REDE ORGANIZACIONAL
5. A REDE VOLUNTÁRIA
1. INTRODUÇÃO
Dentre tantas transformações
na economia e no meio empresarial, pode-se dizer que o surgimento de novas
formas de gerenciamento e atuação empresarial culmina com
o desenvolvimento de organizações articuladas em redes que
agregam valor a sua cadeia produtiva. Esta lógica de atuação
empresarial vem sendo trazida para o Terceiro Setor brasileiro, evidenciando
um dos atributos deste setor, que é unir o melhor de dois mundos:
os fins universais do estado e a eficiência da ação
empresarial.
As organizações de Terceiro
Setor[1] do Brasil têm percebido que o impacto
social gerado pelos seus trabalhos pode ser muito potencializado se suas
ações forem articuladas em redes de maior abrangência
técnica ou geográfica.
Organizações como a RITS
(Rede de Informações do Terceiro Setor) têm programas
específicos de sensibilização e apoio a formação
de redes organizacionais no Terceiro Setor brasileiro. Segundo a
RITS, existem hoje, no Brasil, dezenas de redes organizacionais do Terceiro
Setor sendo articuladas[2].
Dentre elas, temos bons exemplos de
articulação em rede para combater a exclusão social
e criar condições para o desenvolvimento regional, como a
Rede Mineira, que reúne diretamente 22 organizações
e, indiretamente, outras 380; e a Rede Voluntária (da
qual falaremos mais especificamente adiante), que reúne 34 Centros
de Voluntários – distribuídos por 13 Estados e o Distrito
Federal – para a disseminação da cultura da ação
voluntária no Brasil. Além destes exemplos de articulação
já iniciada, as organizações de vanguarda do setor
não-lucrativo do Brasil sabe da importância desta articulação
e está buscando alternativas para a estruturação de
suas redes organizacionais.
No mês de dezembro de 2000, em
São Paulo, foi realizado o primeiro Encontro Nacional de Redes de
Terceiro Setor, organizado pelo Núcleo de Estudos e Articulação
de Redes de Terceiro Setor (NA.REDE). Neste encontro foram trazidos
vários depoimentos de articuladores de diversas redes nacionais.
Dentre os principais pontos de atenção ressaltados por estas
redes estavam:
a) Participação
e debate de assuntos voltados para o acompanhamento de políticas
públicas;
b) Importância de
objetivos bem definidos, tanto estrategicamente quanto ope-racionalmente;
c) Disseminação
da cultura de rede dentro de suas organizações, tornando
a tarefa de articulação como uma rotina de trabalho, mesmo
sabendo que os resultados não são de curto prazo;
d) Observação
sobre a "fertilidade" de uma rede, nas palavras de uma das articuladoras
da Rede Brasileira de Educação Ambiental (REBEA): "As redes
desdobram em 'filhotes' e em determinados momentos esses estão maiores
que as próprias 'mães'".
Neste trabalho, trataremos especificamente
da articulação da Rede Voluntária, animada pelo Programa
Voluntários do Conselho da Comunidade Solidária. Este
Programa tem entre seus focos de atuação o apoio à
formação e desenvolvimento dos Centros de Voluntários.
Desde janeiro de 2000, o Programa Voluntários tem intensificado
seus esforços na tarefa de conceber metodologica-mente e articular
a Rede Voluntária.
A articulação da Rede
Voluntária está orientada para a formação de
equipes de trabalho, compostas por pessoas de diferentes Centros de Voluntários
que se unem espontaneamente para realizar projetos específicos e
cumprir os objetivos de suas organizações. Este trabalho
em rede já vem sendo bastante discutido pelos Centros de Voluntários
desde o ano de 1998. Em um encontro de Centros de Voluntários
brasileiros, realizado em setembro de 1999, consultores estrangeiros trazidos
para o evento (dentre eles, o Sr. Kenn Allen, presidente da IAVE[3]
) afirmaram que nenhum lugar, dentre os países onde eles são
consultados, tem características tão propícias quanto
o Brasil para a estruturação de redes or-ganizacionais de
Centros de Voluntários.
Este trabalho objetiva: (i) expor algumas
relações entre os conceitos de rede e informação;
(ii) contextualizar as transformações ocorridas nas últimas
décadas relativas a formas de gerenciamento organizacional; (iii)
discutir técnicas de articulação de redes; e (iv)
apresentar o caso da Rede Voluntária, sua metodologia de articulação,
resultados obtidos, barreiras encontradas e questiona-mentos futuros para
o projeto.
2. RELAÇÕES CONCEITUAIS ENTRE REDE E INFORMAÇÃO
Desde a década de 20, quando
os ecologistas começaram a estudar teias alimentares, o padrão
de rede foi reconhecido como único padrão de organização
comum a todos os sistemas vivos: “Sempre que olhamos para a vida, olhamos
para redes”[4]. Este padrão tem
algumas propriedades principais, dentre elas está a não-linearidade
(ela se estende por todas as direções) e a existência
de laços de realimentação, que proporcionam a capacidade
de auto-regulação.
Utilizando um exemplo citado em Capra,
estes conceitos de laços de realimentação e auto-regulação
ficam mais claros: em uma rede ativa de comunicação, uma
comunidade pode aprender com os próprios erros, pois as conseqüências
do mesmo se espalharão por toda a rede e o aprendizado proporcionado
por ele será conhecimento adquirido não só de seu
gerador (aquele que errou), mas da rede inteira.
A capacidade de auto-regulação
/ auto-organização é um ponto central para a compreensão
da dinâmica das redes. Este conceito foi um dos pilares da
cibernética, disciplina nomeada por Norbert Wiener, que a definiu
como a ciência do “controle e da comunicação no animal
e na máquina”[5].
A palavra cibernética deriva
do grego kybernetes (timoneiro). No exemplo original de Wiener, do
timoneiro, os laços de realimentação são descritos
na seguinte situação: quando um barco se desvia de um curso
prefixado, a percepção do desvio pelo timoneiro (informação)
o faz imprimir a correção movendo o leme para o lado oposto.
Esta correção, por sua vez, gera um novo desvio para o outro
lado, que é novamente corrigido pelo timoneiro e assim por diante
– até que as oscilações ficam cada vez mais suaves.
Esta auto-regulação é possibilitada pelo que Wiener
chamou de laços de realimentação.
A cibernética de Wiener alegava
que o mundo natural não consiste apenas de matéria e energia,
mas também de um terceiro componente básico: a informação.
Podemos, por exemplo, considerar uma rede de organizações
em que as informações que fluem pela rede circulam em laços
de realimentação. Estes laços produzem auto-regulação,
assim possibilitando “desvios de rota” cada vez menores. Esta capacidade
de correção de rumo possibilitada pela informação
remete ao conceito de informação como redutor de incertezas
(ou de entropia), defendido matematicamente por Claude Shannon[6].
Esta circularidade foi também
estudada mais recentemente pelo chileno Humberto Maturana: “Os sistemas
vivos estão organizados num processo circular causal fechado que
leva em consideração a mudança evolutiva na maneira
como a circularidade é mantida, mas não permite a perda da
própria circularidade.”[7] (Grifos meus.)
Esta “mudança na circularidade” citada por ele, associada ao conceito
de auto-organização transmite a idéia de evolução.
Para Maturana “esse padrão de rede, no qual a função
é ajudar a produzir e transformar outros componentes enquanto mantém
a circularidade global da rede, é a ‘organização [básica]
da vida’”[8].
É interessante observar que no
conceito de informação de Belkin & Robertson[9],
que procurou verificar uma noção básica comum à
várias outras definições – a de estruturas sendo mudadas
– é proposto que: “informação é o que é
capaz de transformar estruturas”.
3. REDES, FLUXOS DE INFORMAÇÃO E AS TRANSFORMAÇÕES
ORGANIZACIONAIS
O surgimento de uma economia informacional
global deve-se a transformações profundas ocorridas no ambiente
econômico nos anos 80[10]. Mais especificamente,
tais transformações se deram na organização
da produção e na configuração dos mercados
ao redor do mundo. Apoiadas na tecnologia da informação,
estas mudanças eram uma resposta das organizações
ao acelerado ritmo dos acontecimentos[11]. Este
novo ritmo, em última análise, aumentava o nível de
caos e incerteza dentro das organizações e era extremamente
prejudicial à manutenção de altos níveis de
racionalidade e ordem demandado para melhor de-sempenho destas[12].
Para reduzir o nível de incertezas
causado pelas constantes e abruptas mudanças no mercado, as organizações
e seus processos produtivos tiveram de se transformar[13].
De processo de produção de massa, para produção
flexível; do paradigma da empresa de grande porte independente,
para interdependência e flexibilidade apoiadas em redes de pequenas
empresas fornecedoras; e ascensão de novos modelos de gerenciamento
aplicados em empresas japonesas.
Dentre estes, o mais relevante para o
estudo em questão é a transição do chamado
“fordismo” para o “toyotismo” como alternativa para o sucesso, considerando
a nova economia globalizada e o sistema produtivo flexível.
Apesar das claras diferenças entre os dois modelos – como o sistema
de fornecimento kan-ban, o controle de qualidade ao longo do processo produtivo
e a estabilidade e complementaridade das suas relações em
redes cliente / fornecedor – de fato o que distingue o modelo japonês
do modelo americano não é a maneira de relacionamento entre
as empresas, mas fundamentalmente a relação entre seus participantes[14].
Segundo o economista japonês Masahiko
Aoki a estrutura de trabalho é apontada como principal fator de
sucesso para a empresa japonesa:
“A principal diferença entre a empresa norte-americana e a japonesa
pode ser resumida assim: a empresa norte-americana enfatiza a eficiência
conseguida via grande especialização e profunda demarcação
de função, ao passo que a empresa japonesa dá ênfase
à capacidade de o grupo de trabalhadores lidar com as emergências
locais anonimamente, o que se aprende fazendo e compartilhando conhecimentos
no chão de fábrica”[15]
O fluxo contínuo e desimpedido
da informação é peça fundamental para a flexibilização
de processo produtivo de uma empresa e para a sua inserção
na nova economia globalizada. Conseqüentemente, o compartilhamento
de informações é facilitador para atuação
em redes.
Estudos realizados por Ikujiro Nonaka[16],
entre as maiores empresas japonesas, propõem um modelo para representar
a geração de conhecimento nas mesmas. Segundo ele, a “empresa
criadora de conhecimento” tem habilidade para promover interação
entre os “conhecimentos explícitos” e os “conhecimentos tácitos”.
Entende-se por conhecimentos explícitos, os conhecimentos formais,
que podem ser transmitidos através de técnicas e treinamentos
estruturados; já os tácitos, são aqueles provenientes
da experiência, da interação entre o participante,
a empresa e o meio em que este está inserido, ou seja, o tino, ou
intuição de quem está em harmonia com os objetivos
da organização.
Nonaka defende que os conhecimentos
acumulados da empresa são aqueles que derivam da experiência
de seus participantes e não podem ser transferidos em ambientes
administrativos excessivamente formalizados. Assim, uma empresa que potencializa
suas fontes de inovação “estabelece pontes para transformação
de conhecimentos tácitos em explícitos, explícitos
em tácitos, tácitos em tácitos e explícitos
em explícitos”[17]. Nesse novo tempo de mudanças
aceleradas a capacidade da empresa em aumentar suas fontes de conhecimento
a torna adaptável e inovadora.
Portanto, a capacidade de comunicação
on-line e a capacidade de armazenamento computadorizado são ferramentas
fundamentais para a conexão organizacional entre conhecimentos tácitos
e explícitos de seus participantes[18].
4. TÉCNICAS PARA A ARTICULAÇÃO DE UMA REDE ORGANIZACIONAL
Em relação a técnicas
para
a estruturação e operacionalização de empresas
em rede, Stamps[19] apresenta alternativas concretas.
Este autor faz ampla divulgação do conceito de redes de equipes
que são utilizadas pelas empresas para conduzir seus negócios
transpondo fronteiras internas e externas. Segundo Stamps, redes de equipes
reúnem duas idéias poderosas:
a) “equipes, nas quais pequenos
grupos de pessoas trabalham com objetivo, motivação e destreza
para atingir metas compartilhadas; e
b) redes, nas quais diferentes
agrupamentos de pessoas e grupos ‘ligam-se’ para trabalhar em conjunto
com base em um propósito comum”[20] .
Estas redes de equipes são estruturadas
para trabalhar mais rápido, com maior sagacidade e flexibilidade
para resolver problemas.
A transposição de fronteiras
é um requisito cada vez mais importante devido ao surgimento de
novas formas de conexão entre pessoas, nos anos 90, onde organizações
aparentemente isoladas passam a se tornar muito produtivas.
Redes de equipes podem ser utilizadas na composição
de redes entre empresas de todos os tamanhos. Esta técnica parte
das seguintes premissas básicas:
a) “Atualmente nenhuma empresa
pode isoladamente fazer tudo o tempo todo. Seria demasiadamente complicado
e dispendioso. No momento presente, o significado disso estará sendo
a perda de oportunidades. E no futuro, o significado disso será
o encerramento das atividades da empresa;
b) A organização
correta proporciona a vantagem competitiva correta – maior poder para os
sócios, maior velocidade para os diversos responsáveis por
deci-sões e maior flexibilidade para conexões voluntárias
entre pessoas;
c) Redes de equipes referem-se
a transposição de fronteiras;
d) Co-opetition é
a chave para a vitalidade futura – e existe quando empresas, ao mesmo tempo,
competem e cooperam entre si, ou seja, compartilham apenas as informações
pertinentes ao projeto de cooperação / competição;
e) Redes de equipes de sucesso
possuem menos chefes e mais líderes. Hierarquias limitam o número
de posições com poder. Redes de equipes que trocam informações
aumentam o número de tais posições. A abertura de
comunicações estimula a ânsia pela democracia;
f) Redes de equipes entre
empresas – compartilhando custos e somando talentos – resultam na criação
de negócios. Maior quantidade de negócios significa maior
quantidade de empregos. Redes de equipes podem impulsionar o desenvolvimento
econômico.”[21]
Redes de equipes são baseadas em: (i) objetivos específicos em comum; (ii) participantes definidos; (iii) pessoas interligadas com ampla utilização da tecnologia da informação; (iv) multiplicação de lideranças e (v) interligação e transposição dos níveis hierárquicos da organização.[22]
Participar de uma Rede Organizacional envolve algo mais do que apenas trocar informações a respeito dos trabalhos que um grupo de organizações realiza isoladamente. Estar em rede significa realizar conjuntamente ações concretas que modificam as organizações para melhor e as ajudam a chegar mais rapidamente a seus objetivos.
Para que uma Rede Organizacional exerça
todo o seu potencial é preciso que sejam criadas equipes de trabalho
que atendam alguns princípios:
a) Existência de um
propósito unificador: É o espírito da Rede. Pode ser
expressado como um alvo unificador e um conjunto de valores compartilhado
pelos participantes, de forma esclarecedora, democrática e explícita.
b) Participantes Independentes:
Fazer parte de uma rede não quer dizer deixar de lado sua independência.
Ao contrário, uma rede requer participantes independentes, automotivados,
que não dependem de hierarquias. Cada participante possui talentos
únicos, diferentes e valiosos para trazer ao grupo e para exercer
sua criatividade é preciso independência. É o equilíbrio
entre a independência de cada participante e a interdependência
cooperativa do grupo que dá força motriz à Rede;
c) Interligações
voluntárias: Os participantes da rede se relacionam e realizam tarefas
de forma voluntária e automotivada, podendo escolher seus interlocutores
e optar por trabalhar em projetos que os ajudem a cumprir seus objetivos
pessoais e organizacionais.
d) Multiplicidade de líderes:
Uma rede possui menos chefes e mais líderes. Líderes podem
ser caracterizados como pessoas que assumem e mantém compromissos,
mas que também sabem atuar como seguidores – se deixar ser liderado.
Como cada participante traz seus talentos à rede, estes vão
ser utilizados para a resolução dos complexos problemas trazidos
pelo grupo. Descentralização, independência, diversidade
e fluidez de lideranças são atestados de autenticidade de
uma rede se visa a transposição de fronteiras.
e) Interligação
e transposição de fronteiras: Redes pressupõem transposição
de fronteiras, sejam elas geográficas, hierárquicas, sociais
ou políticas. O alcance dos objetivos e propósitos são
prioridades, não importa se para isso seja necessário que
o gerente delegue uma tarefa ao diretor, ou se a pessoa que melhor complementa
a sua aptidão para um determinado projeto esteja trabalhando a 2000km
de distância.
Redes de equipes trabalham transpondo
fronteiras entre diferentes níveis para melhor executar tarefas
específicas e são compostas por participantes independentes
(que não necessariamente são da mesma organização)
orientados para a execução de projetos com objetivos, prazos
e recursos definidos. A interligação destes participantes
independe de suas posições hierárquicas, ge-ográficas
ou suas origens organizacionais.
5. A REDE VOLUNTÁRIA
A articulação em rede
existe desde a criação dos primeiros Centros de Voluntários,
a partir do ano de 1997. Estes Centros surgiram como frutos de uma
estratégia do Programa Voluntários do Conselho da Comunidade
Solidária em tê-los como organizações de referência
para o voluntariado no Brasil, procurando aproximar potenciais voluntários
das necessidades de ação na socie-dade.
O Programa Voluntários, além
de estimular a criação dos Centros de Voluntários,
ainda financiou os três primeiros anos de atuação dos
dez primeiros Centros, através de um convênio com o Banco
Interamericano de Desenvolvimento. Apesar disso, os Centros de Voluntários
sempre foram autônomos em sua tomada de decisões estratégicas
sendo totalmente livres para articularem seus próprios relacionamentos.
A única exigência do Programa
Voluntários para os Centros financiados é uma prestação
de contas em consonância com o projeto de financiamento apresentado
pelos mesmos. O Programa Voluntários, desde a sua criação,
sempre desenvolveu ações de capacitação das
equipes técnicas dos Centros.
Em 1998, iniciaram-se as primeiras manifestações,
reflexões e ações dos Centros de Voluntários
para a formação da Rede Voluntária.
Até abril de 2000 as articulações
da Rede Voluntária estavam sob observação pela equipe
do Programa Voluntários. Os participantes da Rede estavam se comunicando
com freqüência, principalmente pela Internet, porém utilizando
para isso uma ferramenta pouco sofisticada (lista de discussão).
Neste mesmo período, foram iniciados
os preparativos para o Encontro Nacional de Centros de Voluntários,
que foi realizado em julho de 2000. Neste Encontro, houve um dia de trabalho
totalmente dedicado ao assunto redes de organizações sociais.
Como preparação prévia para o Encontro, foi enviado
aos Centros de Voluntários uma comunicação que objetivava:
(i) transmitir con-ceitos básicos para o trabalho em rede; (ii)
orientá-los na elaboração do planejamento de ações
e projetos para a celebração do Ano Internacional do Voluntário
(AIV 2001); e (iii) estimulá-los a formarem equipes de trabalho
para as celebrações conjuntas do AIV 2001.
Ao final do mês de junho de 2000,
os Centros de Voluntários estavam se comunicando freqüentemente
pela Internet e encontravam-se preparando seus planejamentos para o AIV
2001 – para divulgarem suas ações comemorativas no iminente
Encontro Nacional de Centros.
Nos itens seguintes, serão apresentadas:
(i) as ações de articulação da Rede Voluntária;
(ii) as barreiras e oportunidades encontradas; e (iii) as possi-bilidades
e questionamentos futuros para sua articulação.
5.1 As Articulações da Rede Voluntária
Durante o ano de 2001, pôde-se
observar dois tipos de articulação: articulações
orientadas, ou seja, as ações empreendidas pelo Programa
Voluntá-rios; e articulações livres, aquelas ações
empreendidas pelos próprios Centros de Voluntários.
Dentre as Articulações Orientadas,
temos:
a) Lançamento do CiberFórum.
Buscando estimular ainda mais as comunicações
da Rede Voluntária, o Programa Voluntários realizou uma pesquisa
utilizando a técnica de análise de conteúdos tendo
como amostra as mensagens enviadas à lista de discussão então
utilizada, chamada CVBrasil.
A partir dos resultados desta pesquisa, o Programa
Voluntários disponibilizou aos Centros de Voluntários uma
ferramenta de comunicação mais eficiente para grupos, onde
os usuários podem organizar melhor mensagens e arquivos a partir
da utilização de conferências temáticas. Esta
ferramenta se chama Ciberfórum e é adaptada pela RITS (Rede
de Informações do Terceiro Setor).
b) Apresentação de workshop para repasse de conceitos de rede e reflexão conjunta entre os Centros de Voluntários sobre a Rede Voluntária, realizado em julho de 2000, no II Encontro Nacional de Centros de Voluntários.
c) Montagem de um Quadro de Ações para
o AIV 2001. Este foi o fruto do planejamento conjunto dos Centros para
as celebrações do Ano. Neste quadro, constam nada menos que
86 iniciativas planejadas pelos Centros de Voluntários.
O Quadro de Ações foi bastante divulgado
pelo Programa Voluntários, para que os Centros de Voluntários
analisassem as iniciativas de toda a Rede Voluntária para atuarem
em cooperação, identificando projetos que possam ser realizados
conjuntamente com o objetivo de minimizar custos, compartilhar ca-pacidade
de trabalho e potencializar resultados em nível nacional.
d) Realização de Articulações Temáticas, que envolveram assuntos relevantes para os Centros de Voluntários.
e) Promoção do Prêmio Jovens
Voluntários
A Rede Voluntária também foi articulada
a partir da promoção do Prêmio Jovens Voluntários.
Em parcerias com empresas de grande porte, o Prêmio Jovens Voluntários
selecionou os 32 melhores projetos executados por jovens ligados a Centros
de Voluntários e premiou estas iniciativas com recursos fi-nanceiros
para que os grupos iniciassem os trabalhos.
Após a seleção e premiação
dos grupos, que estavam espalhados por todo o país, estes jovens
manifestaram a vontade de conhecer as outras iniciativas vencedoras. Com
isso, foi promovido um bate-papo na Internet para que os jovens pudessem
conhecer mais uns aos outros. a partir deste bate-papo, ficou acertado
que os jovens se articulariam em uma rede de comunicação
virtual e que fariam seções como aquelas periodicamente.
Dentre as Articulações Livres,
temos:
a) Formação de Grupos de Trabalho
para tratar de assuntos de interesse da Rede Voluntária. Foram formados
por eles, oito Grupos de Trabalho cujos participantes foram agregados voluntariamente.
Estes grupos são compostos por integrantes de Centros de Voluntários
de todo o Brasil e do Programa Voluntários que trabalhariam conjuntamente
com o apoio da tecnologia da informação. Os temas dos Grupos
de Trabalho vão deste assuntos estratégicos como a discussão
da missão e visão da Rede Vo-luntária, até
aspectos operacionais, como captação de recursos.
Apesar de ter sido uma decorrência do Encontro
Nacional de Centros de Voluntários, a formação dos
Grupos de Trabalho da Rede Voluntária pode ser considerada uma Articulação
Livre, pois surgiu a partir de uma iniciativa auto-organizada dos participantes
da Rede.
Os Grupos de Trabalho da Rede Voluntária
são: GT Conceitual, GT Integração e Participação,
GT Captação de Recursos, GT Tecnologia, GT Incubadora de
CV, GT Mecanismos de Reconhecimento e Visibilidade, GT AIV 2001 e GT Indicadores.
b) Criação dos Fóruns Permanentes
de Voluntariado.
Os Fóruns Permanentes de Voluntariado são
encontros mensais promovidos pelos Centros de Voluntários em suas
regiões de atuação. Estas encontros reúnem
vários segmentos da sociedade (empresas, instituições
sociais, governo e cidadãos), onde temas relevantes são debatidos,
buscando formas de compartilhamento de experiências e solução
de problemas sociais. É um espaço onde se envolve toda a
sociedade, em escala local, em reflexões e articulações,
aproveitando a mobilização para as comemorações
do AIV 2001.
Esta interação entre Centros de Voluntário
e outros agentes sociais busca também tornar mais claro o papel
dos Centros de Voluntários como catalisado-res da força transformadora
de suas comunidades.
c) Encontro de Centros de Voluntários de Campo
Grande – MS
No final do mês de novembro de 2001, o Centro
de Voluntários de Campo Grande realizou um Encontro de Centros de
Voluntários para discutir assuntos de interesse da Rede e para colher
informações sobre o funcionamento de um Centro de Voluntários.
Este encontro foi totalmente transmitido ao vivo
pela Internet. Nesta transmissão, o usuário podia assistir
ao evento e participar das seções de perguntas e respostas.
A experiência foi muito bem sucedida, pois possibilitou àqueles
Centros que não poderiam estar lá pessoalmente, que participassem
das discussões. O Encontro contou com mais de 100 participações
pela Internet.
A última conferência do Encontro foi
uma reunião de trabalho para a Rede Voluntária. Nesta reunião
ficou definido que seria dada continuidade a este projeto de Encontros
com transmissão pela Internet.
d) Outras articulações pontuais
Além destas que foram citadas, os participantes
da Rede Voluntária estão sempre em contato e o Programa Voluntários
pôde identificar pequenos grupos de articulação isolada,
de dois ou três Centros de Voluntários que realizam projetos
em colaboração mútua, compartilhando conhecimentos
e reduzindo custos.
5.2 A Evolução das Articulações da Rede
Voluntária
Até o momento, pode-se definir
a Rede Voluntária como uma rede de organizações interessadas
no desenvolvimento da ação voluntária no Brasil. Esta
rede surgiu da articulação do Programa Voluntários
e dos centros de voluntariado do Brasil, tendo até hoje, estes atores
como os mais ativos desta rede. Portanto, é correto dizer que a
sua estrutura e organização serão determinadas por
estes par-ticipantes e a partir deles a Rede Voluntária se expandirá.
Pudemos verificar, no II Encontro Nacional
de Centros de Voluntários que os participantes da Rede Voluntária
têm visões muito homogêneas em relação
ao futuro desta. O fato de atores de uma rede compartilharem dos mesmos
valores e visões de futuro demonstra que esta rede tem energia vital
e que a sua articulação é propícia.
Em dinâmica de grupo realizada
com os participantes do Encontro Nacional, identificamos alguns valores
em comum, provenientes de um exercício para levantar a visão
de futuro dos atores da rede. Na grande maioria os grupos foram observados
valores e visões como: (i) ética e compromisso com o país;
(ii) universalidade das formas e ramos de atuação voluntária;
(iii) cobertura nacional / ubiqüidade; e (iv) reconhecimento internacional
da força da Rede Voluntária brasileira. Esta homogeneidade
em termos de visão de futuro são os laços que mantêm
coesa a Rede Voluntária desde a sua criação.
É natural que logo após
um encontro presencial, uma rede de pessoas desenvolva um fluxo de informações
bastante intenso. A Rede Voluntária, após o Encontro Nacional,
em julho de 2000, manteve aquecidas discussões a respeito de seu
futuro e de suas possibilidades de atuação conjunta.
Porém, algumas semanas depois,
a freqüência de comunicação da Rede Voluntária
ficou bastante reduzido. Foram empreendidas algumas tentativas de reanimação
da Rede, mas esta não manteve o ritmo avançado de comunicações
atingido após o Encontro. As razões para esta queda serão
elencadas no próximo item.
5.3 Barreiras Encontradas para a Articulação da Rede
Voluntária
Após o Encontro de Centros, realizado
em julho de 2000, a Rede Voluntária se encontrava em um momento
muito intenso de articulação, porém alguns impedimentos
surgiram.
Estas barreiras podem ser classificadas
em três tipos de limitações: (i) Barreiras Políticas,
(ii) Barreiras Técnicas e (ii) Barreias Internas. Vamos a elas:
5.3.1 Barreiras Políticas
Há hoje no Brasil, um certo clima
desagregador no movimento voluntário. Em janeiro de 2000, um grupo
de pessoas ligados a Centros de Voluntários empreendeu a formação
de um Comitê Nacional para a Celebração do AIV 2001.
Porém este grupo não foi totalmente legitimado por outros
Centros de Voluntários como lideranças articuladoras para
a celebração.
Este grupo prosseguiu suas atividades
de liderança, porém suas propostas iniciais eram constantemente
questionadas por alguns Centros de Voluntários. Desta forma seguiu
durante todo o ano de 2000, com trocas de mensagens carregadas por críticas
e disputas veladas.
Segundo o pensador J. P. Sartre (1960)[23],
um grupo é diferente de série (ou agrupamento). O quadro
abaixo foi elaborado por Schlitler (2000) e busca mostrar estas diferenças:
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5.3.2 Barreiras Técnicas
Como esperávamos, a Rede Voluntária
enfrentou também algumas barreiras de ordem técnica, que
podem ser entendidas como problemas ao lidar com ferramentas de comunicação
e tecnologia em geral.
A primeira delas foi a falta de familiaridade
com a ferramenta CiberFórum, citada anteriormente. Por ser uma ferramenta
sofisticada, os participantes da Rede Voluntária que não
são da área de informática tiveram algumas dificuldades
ao utilizar o Fórum. Assim, ocorria uma, de duas situações
possíveis, a pessoa com dificuldade (i) retraía sua comunicação
com a Rede, ou (ii) voltava a utilizar a antiga lista de discussão
por e-mail que já conhecia anteriormente.
A utilização da lista
de discussão não oferece nenhum problema para a Rede Voluntária
, pois a lista é um ótimo substituto para o CiberFórum
(em alguns casos pode ser até uma melhor opção), porém,
por sugestão de um participante da Rede, foi feita uma pequena mudança
na configuração da lista de discussão. A partir desta
mudança, as respostas às mensagens enviadas à lista
eram remetidas apenas a quem às enviou, gerando descontinuidade
nas comunicações para toda a lista. Desta forma a comunicação
caiu bastante, veja a tabela abaixo:
Lista CV Brasil – Quantidade de mensagens por mês:
| Jan | Feb | Mar | Apr | May | Jun | Jul | Aug | Sep | Oct | Nov | Dec | |
| 2000 | 38 | 92 | 69 | 119 | 93 | 98 | 60 | 31 | 37 | 52 | 52 | 79 |
Janeiro de 2000 foi o primeiro mês completo de funcionamento da lista de discussão. Desde então, podemos verificar crescimento até o atingimento de um pico de 119 mensagens em abril, estabilizando o fluxo em 93 e 98 mensagens mês (maio e junho). A mudança na configuração aconteceu nos primeiros dias de julho e o impacto foi imediato, o fluxo de mensagens caiu para 60 neste mesmo mês (julho), 37 em agosto, 52 em setembro, 52 em outubro e 79 em dezembro. Podemos ver que houve uma estabilização nos meses de setembro e outubro e um crescimento em dezembro, este último, devido à necessidade de comunicação referente às celebrações do Dia do Voluntário (05/12) e do AIV 2001.
5.3.3 Barreira Internas
Como barreiras internas, podemos entender
as dificuldades que são originárias na estrutura operacional
e/ou cognitiva de cada Centro de Voluntários. Ou seja, podem haver
barreiras relacionadas a estrutura de trabalho do CV ou, ainda, problemas
na compreensão que cada participante tem dos conceitos de uma rede.
Dentre as Barreiras internas estão:
a) Confusão conceitual: muitos
participantes da rede tem certa dificuldade em entender a dinâmica
de funcionamento de uma rede de organizações. Isso é
decorrente de uma cultura baseada em estruturas hierarquizadas, em que
so-mos inseridos desde a infância.
b) Problemas Internos dos Centros de
Voluntários: alguns fatores atrapalham especialmente o potencial
de uma organização para atuar em rede. As que mais afetam
os Centros de Voluntários em geral, são:
(i) Falta de foco em suas
atividades. Para a atuação em rede é um aspecto facilitador
que os participantes tenham claros os seus objetivos e interesses. Isso
proporciona um melhor posicionamento dos membros na cadeia de valor de
uma rede.[24]
(ii) Falta de tempo: para
atuação em rede é preciso entender as atividades relativas
à manutenção da comunicação entre seus
membros como uma tarefa de rotina, mesmo que os resultados não sejam
tão perceptíveis a curto prazo.
(iii) Foco em outras atividades
mais urgentes: este item é muito relacionado com os dois itens anteriores.
Dentre as atividades que substituíram as articulações
da rede, estão as tarefas relacionadas a captação
de recursos e, principalmente, as tare-fas de celebração
do AIV 2001.
5.4 Uma Oportunidade para a Rede Voluntária: o Portal do Voluntário
No mês de outubro de 2000, a Rede
Globo de Televisão, convidou o Programa Voluntários para
a realização de um projeto em parceria. Este projeto tratava
da criação de um portal vertical de Internet totalmente voltado
para o tema voluntariado no Brasil.
O Programa Voluntários identificou
esta oportunidade como sendo de alta relevância estratégica
para seus objetivos devido a parceira com a Rede Glo-bo e seu grande poder
de mobilização social através da mídia.
O Portal do Voluntário foi lançado
no dia Internacional do Voluntário, 05 de dezembro de 2000 e pretende
disseminar uma nova cultura de ação voluntária no
Brasil, buscando resgatar as experiências daqueles que já
realizam ações voluntárias e oferecer conhecimentos
e oportunidades para aqueles que querem fazê-lo.
O perfil investigativo do Portal do
Voluntário e suas ações voltadas para a produção
de conhecimento sobre voluntariado no Brasil tem potencial para se tornarem
rastreadores de oportunidades de atuação para a Rede Voluntária
e suas organizações participantes, os Centros de Voluntários.
5.5 Estratégias de Articulação da Rede Voluntária
para 2001
No ano de 2001, a articulação
da Rede Voluntária dará ênfase a:
a) Incentivos a articulações
regionais: estas articulações regionais podem render bons
frutos, pois Centros de uma mesma região tendem a ter problemas
similares e estes, por estarem geograficamente mais perto têm maiores
possibilidades de realizarem reuniões presenciais. Os encontros
presenciais reforçam os elos de confiança da rede e a tornam
mais propícia a comunicação e trabalho conjunto. Estes
encontros podem ser transmitidos via Internet para toda a rede, a exemplo
do que foi feito em Campo Grande.
b) Estimular a construção
de um informativo: o objetivo deste informativo é manter os participantes
atentos às ações da rede. A tônica deste tipo
de comunicação deve ser bastante informal e usas notícias
podem ser de caráter corriqueiro e por vezes jocoso, para fortalecer
outros tipos de vínculos entre os participantes[25].
c) Inserção dos CVs nos
grupos de trabalho do Portal do Voluntário: os grupos de trabalho
do portal tratarão de temas e públicos específicos.
As ações dos grupos de trabalho e as possibilidades que se
abrirão com eles podem servir da orienta-ção aos Centros
nas suas definições de focos de atuação.
5.6 Questionamentos da Rede Voluntária para 2001
Neste momento, a Rede Voluntária
enfrenta alguns questionamentos em relação ao seu crescimento.
Por agora, podemos identificar dois caminhos possíveis. A Rede Voluntária
poderá optar por maior controle e profissionalismo, caminhando para
sua institucionalização, ou pode escolher uma alternativa
onde se tenha mais flexibilidade, abrindo mão do controle e contando
com resultados mais a longo prazo.
As vantagens de se ter uma estrutura
mais controlada para a rede é a possibilidade de obter resultados
a mais curto prazo, porém o preço que se paga por isso é
a possível perda do calor humano existente hoje nas relações
informais e voluntárias entre seus membros. A profissionalização,
se feita sem o devido cuidado das lideranças com os demais participantes,
tende a esfriar as relações profissionais[26].
Então, isso pode ser fator desagregador de uma rede.
Por outro lado, o descontrole em excesso
também pode ser danoso e até desagregador. Mas uma rede que
tem propósitos convergentes possui, embutida em si, uma estrutura
de auto-regulação. Os problemas que aparecem em um determinado
ponto de rede, reverberam por toda ela, e a tendência é que
de dentro dela, saia uma solução devido a propagação
deste problemas. Devido a este fator, somos inclinados a uma condição
mais flexível para a Rede Voluntária, mas para isso não
há regras e a única forma de decidir é levando este
tipo de discussão à própria rede.
Porém, uma forma de manter uma
certa formalização e controle é através da
constante ativação do fluxo de informações
que existe na rede. Um rede de organizações pode ser visualizada
como uma teia, onde os pontos são as organizações
(e seus participantes) e as teias que ligam os pontos, os fluxos de informação.
Portanto, quanto mais ativo este fluxo, maior a força da rede.
Um dos próximos passos para a
Rede Voluntária é a criação de seu website
interno
e, em breve, de seu boletim informativo. É importante frisar que
os membros da rede precisam “se apropriar” das decisões tomadas
e estes dois assuntos passarão por um processo de discussão
e validação dentro da Rede Vo-luntária .
Outro questionamento relevante para 2001
é a agregação ou não de outras pessoas e organizações
não ligadas a Centros de Voluntários. Um movimento natural
da Rede Voluntária a longo prazo é agregar as diversas pessoas
e organizações que se interessem pelo voluntariado no Brasil.
Esta agregação de novos membros tem sido cada vez mais discutida
e estimulada pelos integrantes da Rede Voluntária e, possivelmente,
o desenvolvimento da Rede passará pela adesão de novas pessoas
e instituições comprometidas com o trabalho voluntário
no Brasil.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As relações conceituais
entre rede e informação nos conduz à percepção
de que caminhamos para um modelo organizacional diferenciado, baseado em
fluxos de informação crescentes e formas cada vez mais sofisticadas
de organização desta. Este emergente modelo organizacional
será capaz de aprender mias rapidamente com os erros de seus parceiros
comunicacionais, redu-zindo incertezas em seus processos e promovendo constantes
transformações nas organizações.
No mundo empresarial, estas transformações
podem representar mercados mais sadios e competitivos. A lógica
imposta pela Internet está transformando as relações
tradicionais entre concorrentes, fornecedores e consumidores – um exemplo
disto são as turbulências que ocorrem na indústria
fonográfica, atualmente.
Esta transformação de
estruturas causada pela grande exposição à informação
também tem suas conseqüência em um outro "mercado": o
terceiro setor. Um "mercado" que objetiva outro tipo de lucro, o social,
e que surgiu já com uma nova lógica, unindo modos de operação
presentes no estado e na empresa.
Esta nova estrutura de atuação
presente no setor não-lucrativo é terreno fértil para
a formação de redes organizacionais. Os níveis menos
intensos de competição e agressividade comercial presentes
neste setor permitem uma troca mais freqüente de informações
e a cooperação se dá não só em níveis
operacionais, mas também em âmbito estratégico destas
organizações.
Portanto, com capacidade de cooperação
e compartilhamento mais altas que as observadas no meio empresarial, a
atual exposição à informação pode proporcionar
ao Terceiro Setor um desenvolvimento ainda mais acelerado que o esperado.
A criação e o desenvolvimento
de redes organizacionais no Terceiro Setor pode vir a representar um grande
passo para a inclusão social neste país. Potencializar o
impacto social já gerado pela brava atuação das organizações
de cunho social no Brasil, através da consolidação
de suas redes organizacionais, significa promover – com o auxilio da tecnologia
e dos conceitos do mundo globalizado – o surgimento de um país mais
justo e preparado para enfrentar as mudanças e desigualdades impostas
pelo próprio processo tecnológico e globalizante da atualidade.
BIBLIOGRAFIA
AYRES, Bruno R. C. Manual de Procedimentos para Execução de Pesquisa de Mercado. Monografia final, não publicada. Brasília: Universidade de Brasília – UnB, 1999.
BOS, Lex. Doze Dragões em Luta contra as Iniciativas Sociais, Ed. Antroposófica: Instituto Cristophorus, São Paulo-SP, 1994.
CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida, Ed. Cultrix: São Paulo-SP, 1996
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. A era da informação: economia, so-ciedade e cultura, vol. 1. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
CVBRASIL. Lista de Discussão Dedicada ao Tema Voluntariado - http://www.egroups.com/group/cvbrasil
FREIRE, Isa. Informação; consciência possível; campo. Um exercício com construtos teóricos - Ciência da Informação - Vol 24, número 1, 1995
CASAROTTO FILHO, Nelson, PIRES, Luiz Henrique. Redes de Pequenas Empresas e Desenvolvimento Local – Editora Atlas – SP, 1998.
SHANNON, Claude. A Mathematical Theory of Communication - The Bell System Technical Journal, vol. 27, pag. 379-423, 623-656, Jul-Out, 1948.
SCHLITHLER, Célia R. Belizia. Grupalizar para Transformar [Trabalho não publi-cado], pág. 01, 1999.
STAMPS, Jeffrey. Redes de Informações, São Paulo:
Makron Books, 1994.
[1] "No modelo de organização das sociedades que procura
dividir as atividades e processos entre o Estado, o mercado e a sociedade
civil, constituem o chamado Terceiro Setor as organizações
privadas sem finalidade lucrativa que geram bens e serviços de caráter
público ou privado e desenvolvem atividades com eventual impacto
político, social, econômico e cultural." Fonte: Rede
do Terceiro Setor (www.rits.org.br)
[2] Rede de Informações do Terceiro Setor: www.rits.org.br.
[3] International Association for Volunteer Effort.
[4] CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida. São Paulo: Cultrix, 1996.
[5] WIENER apud CAPRA.
[6] SHANNON, Claude. A Mathematical Theory of Communication. The Bell
System Technical Journal, vol. 27, pag. 379-423, 623-656, Jul-Out, 1948.
[7] MATURANA apud CAPRA.
[8] Capra, op. cit.
[9] BELKIN ; ROBERTSON apud FREIRE
[10] HARISSON (1994) apud CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. p.
174.
[11] Castells, op.cit.,p. 174 - 181.
[12] CHIAVENATO, Idalberto. Introdução à Teoria
Geral da Administração apud AYRES, Bruno R. C. Manual de
Procedimentos para Execução de Pesquisa de Mercado. p. 102.
[13] Castells, op. cit., p.178.
[14] Castells, op. cit., p. 180.
[15] Aoki, Masahiko apud CASTELLS, op.cit, p. 180.
[16] Nonaka (1991) apud CASTELLS, op.cit., p. 180.
[17] Castells, op. cit., p. 181.
[18] Conclusão extraída de conversas particulares entre
Nonaka e Castells, pois a tecnologia da informação não
desempenha um papel importante na "análise explícita" de
Nonaka.
[19] STAMPS, Jeffrey. Rede de Informações. São
Paulo: Makron Books, 1994.
[20] Stamps, op. cit., p.7.
[21] Stamps, op. cit, introdução. Vale lembrar que a
abordagem empresarial não se adequa totalmente ao escopo deste trabalho.
Neste caso específico, quando o autor fala em desenvolvimento econômico,
por exemplo, deve-se pensar em desenvolvimento social.
[22] Stamps, op. cit, p. 220.
[23] SCHLITHLER, Célia R. Belizia. Grupalizar para Transformar,
2000.
[24] Para noção de cadeia de valor, veja FILHO, Nelso
Casarotto, PIRES, Luiz Henrique. Redes de Pequenas Empresas e Desenvolvimento
Local. pág. 40.
[25] Esta dica devo ao Cássio Martinho, que me falou desta possibilidade
em uma das nossas longas conversas sobre articulação de redes.
Cássio é Coordenador de Redes da Rits (Rede de Informações
para o Terceiro Setor).
[26] Sobre a questão profissionalização versus
informalidade, ver o interessantíssimo ponto de vista antroposófico
no livro de BOS, Lex. Doze Dragões em luta contra as Iniciativas
Sociais, Ed. Antroposófica: Instituto Cristophorus, São Paulo-SP,
1994.
AGRADECIMENTOS
Às queridas professoras Nazinha e Isa Freire, pelo estímulo
para enfrentar um novo desafio – mudar de cidade – e pela acolhida desde
a minha chegada.
Sobre o autor / About the Author:
Bruno Ricardo Costa
Ayres
ayresbruno@uol.com.br
Mestrando em Ciência da Informação do Departamento
de Ensino e Pesquisa do IBICT/UFRJ (Convênio CNPq-IBICT / UFRJ-ECO),
bolsista da CAPES e acompanha a articulação da Rede Voluntária
desde janeiro de 2000. O tema deste artigo é o mesmo de sua
dissertação de mestrado, que é orientada pela professora
Maria de Nazaré Freitas Pereira.
Contatos:
Bruno R. C. Ayres
Rua Sorocaba, 411, nº 604
CEP 22271-110
Rio de Janeiro – RJ
Tel. (21) 246-6736