DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.5  n.1   fev/04                            ARTIGO 03

A determinação do campo científico da Ciência da Informação: uma abordagem terminológica [1]
Determining the scientific domain of Information Science: a terminological approach
por Johanna W. Smit, Maria de Fátima G. M. Tálamo e Nair Y. Kobashi




Resumo: A Ciência da Informação é um campo científico em constituição e não apresenta consenso quanto ao seu objeto e delimitação. A pesquisa partiu do pressuposto segundo o qual o termo "Ciência da Informação", na atualidade, impõe-se como um significante à procura do seu significado. A análise da terminologia de área forneceu o referencial para a discussão da natureza da área: a mesma justapõe termos oriundos da Biblioteconomia e Documentação que nomeiam procedimentos; uma proporção considerável de termos oriundos de outras áreas de conhecimento e, finalmente, uma proporção igualmente considerável de termos que não apresentam uma conceituação específica em Ciência da Informação, sendo empregados no senso comum. A análise terminológica aponta para a necessidade de uma construção conceitual do objeto da Ciência da Informação.
Palavras-chave: Ciência da Informação; Campo da Ciência da Informação; Terminologia da Ciência da Informação.

Abstract: Information Science is a scientific domain in development, which does not present consensus as to its objects and does not clearly define its boundaries. This research started from the presupposition according to which the term "Information Science", at present, is a significant looking for its meaning. The terminological analysis of the area provided the frame of reference to discuss its nature: the area juxtaposes terms originated from Library Science and Documentation to name its internal procedures, a considerable proportion of terms originated from other knowledge areas and, finally, an also considerable proportion of terms that does not present specific meaning in Information Science, been used as terms of the natural language. The terminological analysis points out to the necessity of the conceptual construction of the object of Information Science.
Keywords: Information Science; Information Science Domain; Information Science Terminology.
 
 
 

1. INTRODUÇÃO

A Ciência da Informação é um campo científico em constituição. Assim como não há opiniões contrastantes quanto a esta afirmação, tampouco se pode afirmar que exista consenso quanto ao seu objeto e campo abrangido. A pesquisa se propôs a refletir sobre os critérios científicos que pautaram a constituição do campo atualmente denominado "Ciência da Informação". A resposta comum a esta questão identifica a constituição da área na interdisciplinaridade, propondo quadros nocionais tomados de empréstimo de disciplinas tais como a Lógica, a Administração, a Lingüística, a Teoria Geral dos Sistemas, a Psicologia, as Ciências da Computação, etc. Esta resposta, bastante freqüente na bibliografia, associa a propalada interdisciplaridade da área a uma reunião de diferentes disciplinas, revelando uma inconsistência teórica, associando à área uma abordagem a-histórica. A pesquisa desenvolveu uma hipótese alternativa para a questão, ao considerar que o termo "Ciência da Informação" funciona como mero significante, ou seja, que o mesmo propõe-se como uma forma vazia conceitualmente, podendo ser preenchida circunstancialmente. O termo não se define pelo que é, mas pelas possíveis apropriações que realiza em campos do saber, estabelecidas, via de regra, por associações dependentes do problema investigado. Desse modo, se a questão é de usuário recorre-se à Psicologia, se é de informática documentária recorre-se à Informática, se é de administração de sistemas, recorre-se à teoria da Administração, e assim sucessivamente.

O termo "Ciência da Informação" contempla o estágio atual da delimitação do domínio dos estudos da informação, podendo-se notar que à alteração designativa (de "Documentação" para "Ciência da Informação") não correspondeu um deslocamento qualitativo da reflexão. A possível explicação para tal situação encontra-se no fato de que a área, seja qual for a designação a ela atribuída, afirmou-se na interdisciplinaridade, seguindo o modo de constituição da ciência proposto pela pós-modernidade, sem examinar com clareza sua própria trajetória disciplinar autônoma. É importante salientar uma unanimidade bibliográfica a respeito do caráter interdisciplinar da Ciência da Informação, ou como diz Saracevic (1995, p.37), esta "não precisa ser procurada. Ela está aí".

A passagem da modernidade para a pós-modernidade, ou mais especificamente da disciplinarização do conhecimento para a sua interdisciplinaridade, foi tão rápida e intensa, que diversos domínios, dentre os quais o da Ciência da Informação, estabeleceram-se pontualmente, em sincronia, não tendo empreendido a reflexão sobre o próprio trajeto de sua constituição. De certo modo, tudo se passa ao largo da memória. Existe uma ausência de especificidade e de delimitação conceitual das denominações que se fizeram da área. A Biblioteconomia é uma atividade desenvolvida no interior de bibliotecas, tidas como instituições culturais que estocam livros; a Documentação é uma atividade de tratamento e organização da informação: os termos não indicam muito mais do que um conjunto de procedimentos.
 

2. METODOLOGIA

O trabalho terminológico teve por fundamentação as normas ISO 704/1987, 860/1968, 919/1969, 1087/1969 (revisada em 1990), 1149/1969 e as normas ABNT 13789/1997 e 13790/1997.

A documentação de trabalho consistiu de fontes especializadas (dicionários, artigos de periódicos, livros, anais de congressos), além de vocabulários e tesauros da área.

Após levantamento bibliográfico e seleção das fontes de informação, as definições foram coletadas e registradas em fichas padronizadas, a partir de 15 obras de referência e 25 fontes bibliográficas da área, constituídas de 9 livros e 16 artigos de periódicos. A bibliografia compulsada cobre o período de 1970 a 1998.

Ao todo foram coletadas definições de 118 termos que, uma vez sistematizados, deram origem a 54 fichas-síntese. Os termos que deram origem às fichas-síntese encontram-se arrolados em anexo.
 

3. RESULTADOS

A partir de uma análise da função da biblioteca e da informação, contextualizadas no projeto da modernidade, e do estatuto da Ciência da Informação no cenário da ciência pós-moderna, fundamentada na terminologia da área, obteve-se duas ordens de conclusões, complementares. A primeira diz respeito à terminologia utilizada pela área da Ciência da Informação. A segunda conclusão, gerada a partir da primeira, concerne a identidade da área.

3.1 A terminologia da Ciência da Informação
A abordagem terminológica mostrou-se, efetivamente, muito fertilizadora e reveladora. A partir desta abordagem, e da bibliografia que a subsidiou, chegou-se à constatação que o avanço do domínio da informação no último século é inegável, mas que a constituição do campo científico correlato enfrenta obstáculos de várias naturezas. Identifica-se como um dos mais importantes deles a ausência de consolidação do corpo conceitual utilizado na análise e produção discursiva da área. Assim, quando a ela nos referimos, embora haja concordância que se trata de uma prática importante e fundamental para a transformação do mundo, já que a mesma responde por uma cultura que subverte as tipologias tradicionais do modo de conhecer, não reconhecemos o pensamento que constitui o referido campo.

No caso específico da Ciência da Informação, a sua compreensão como campo científico depende em larga medida de um nominalismo, isto é, de uma forma significante instituída - a própria denominação "Ciência da Informação" -, cuja referência, na grande maioria das vezes, remete ao universo inter ou multidisciplinar, que apresenta um caráter pouco distintivo. De fato, o trabalho terminológico revela que o nominalismo não resiste à indagação sobre qual é o objeto específico do campo, quais os principais problemas a enfrentar, suas hipóteses e a natureza dos procedimentos. A imprecisão terminológica resulta do fato de que facilmente pode-se substituir a noção de interdisciplinaridade pela de reunião ou junção. Não seria a Ciência da Informação uma reunião de procedimentos oriundos de diferentes disciplinas com o objetivo único de desenvolver uma prática?

A relação do homem com a informação é seguramente mais antiga do que a primeira biblioteca. Mas é a partir deste equipamento que se instituem modos sociais específicos de recepção do conhecimento registrado: foi a biblioteca o lugar de retiro, o lugar das obras raras, o lugar da seleção de uma ordem, a da coleção (Naudé 1876). Através deste equipamento cultural, e de suas variações, estabeleceram-se ordens e formas de socialização e de uso da informação armazenada. Apesar de todo assentamento conceitual que essa rica experiência poderia ter provocado, as disciplinas envolvidas acabaram por propor noções práticas, passando ao largo de uma rede teórica consolidada. Sob o ponto de vista da estreita ligação que mantêm face ao conhecimento registrado e sua organização para fins de socialização, a Biblioteconomia, a Documentação e a Ciência da Informação têm apresentado uma terminologia aberta demais, por vezes à deriva de empréstimos obtidos junto a diferentes disciplinas, como a sociologia, economia, ciência da computação, psicologia, etc. Essa composição heteróclita traz conseqüências. A imprecisão terminológica provoca não só o impasse mas colabora fortemente com o retardamento teórico. À medida que as disciplinas ocupam espaços nas universidades, multiplicam-se cursos, impondo-se modos de circulação similares às demais formações, os problemas terminológicos passam para o primeiro plano.

A partir deste contexto é possível analisar o vocabulário empregado pela Ciência da Informação.

É fato reconhecido que as denominações servem de referência para a determinação do vocabulário de uma especialidade, isto é, do conjunto de formas significantes que respondem pelos conceitos particulares a partir dos quais se constituem as áreas do conhecimento (Cabré 1993). Deste modo, integram o vocabulário de especialidade os conceitos relativos aos objetos, processos e métodos que permitem o desenvolvimento da investigação e a produção do conhecimento. Como os conceitos não resultam de convenções absolutamente arbitrárias ou de preferências individuais, mas de relações entre suas características e sua pertinência ao domínio, como ponto de partida, determinou-se uma configuração hipotética e provisória do domínio, segundo a qual a Ciência da Informação é a disciplina que opera com problemas relativos à:
 

* produção: identificação dos códigos explicitadores dos conteúdos registrados sob a forma de informação - resultado das operações sobre os conteúdos registrados que se apresenta sob a forma de conteúdos socializados; articulação entre os dispositivos tecnológicos e a produção da informação;

* circulação da informação: inserção social da informação;

* consumo da informação: condições de recepção da informação, locais, equipamentos e usuários; dimensão sociológica, política e econômica das atividades informacionais.


A análise das fichas terminológicas de síntese ensejou um ensaio de categorização das noções da área, de acordo com o estatuto das mesmas em relação à área da Ciência da Informação. Este ensaio de categorização dispõe:
 

* noções específicas da área;

* noções da área, semi-elaboradas;

* noções tomadas de empréstimo de outras áreas do conhecimento;

* noções da experiência empírica comum, ou seja, noções gerais da língua.


3.1.1 Noções específicas da área, sedimentadas ao longo do tempo
Nesta categoria incluem-se as noções que designam os procedimentos e componentes clássicos da Biblioteconomia, tais como "classificação", "biblioteca", "resumo" e "análise documentária". Alguns - poucos - conceitos posteriores, recorrentes na Documentação, como "colégio invisível", também ocorrem. No entanto, embora estas noções apresentem estabilidade em seu conceito e tendam à univocidade, é interessante notar que as mesmas, via de regra, são descritas pelos procedimentos ou pelos componentes que lhe determinam o alcance, mas dificilmente pela pertinência em relação à área. Assim a "classificação", por exemplo, é conceituada pelo procedimento e pelos instrumentos utilizados, mas não pela sua função em relação à área da Biblioteconomia, Documentação ou Ciência da Informação: a "organização da informação" não é, em outros termos, conceituada como um meio, mas como um fim em si.

3.1.2 Noções da área, semi-elaboradas
Estas noções, bastante freqüentes no levantamento feito, apontam para termos cujos conceitos ainda apresentam grande variação, sendo que as diferentes abordagens não se apresentam como efetivamente distintivas. Estas noções são muitas vezes, na bibliografia, apresentadas integrando vários significados, ou abordagens, mas a diferenciação não remete a escolas de pensamento ou tradições diferenciadas, mas à simples coexistência de uma diversidade de opiniões. Nesta categoria podem ser incluídas noções como "necessidade de informação" (que não discute a diferença entre necessidade, demanda e desejo), "ciência da informação" (que contempla amplitudes muito diferentes ao não atribuir ao termo "informação" uma definição própria da área e que a diferencie das área de comunicação ou da experiência empírica), "análise", "estratégia de busca" e "recuperação da informação".

3.1.3 Noções tomadas de empréstimo de outras áreas do conhecimento
Nesta categoria incluímos termos "importados" de outras áreas do conhecimento e não submetidos a uma adaptação à área da Ciência da Informação. A noção "base de dados" exemplifica esta categoria. O fenômeno da importação terminológica, muito freqüente em Ciência da Informação, aponta para uma área que mantém interfaces bastante próximas com uma diversidade de outras áreas do conhecimento, mas também permite refletir sobre as razões da ausência de "exportações" de termos da Ciência da Informação para as outras áreas, como já fora apontado por Pinheiro e Loureiro (1995). A alta proporção de "noções emprestadas" é reveladora, a nosso ver, de uma interdisciplinaridade formal, que não reflete uma interdisciplinaridade real mas um "empréstimo" de termos de outras áreas, sem que haja uma adaptação, ou customização, dos conceitos aos propósitos da área.

3.1.4 Noções da experiência empírica comum
Diferentes noções - centrais para a área - são definidas de forma totalmente empírica e portanto não configuram uma terminologia própria da área. Assim, por exemplo, o termo "livro" é descrito como um conjunto de páginas impressas, ligadas entre si, contendo no mínimo 49 páginas. A função do livro para a área, como suporte de informação, não é destacada, não se dispondo de conceitos distintivos do livro para a área da Ciência da Informação. Quando as definições do "livro" vão além de sua materialidade, inscrevem o mesmo na lista dos objetos sagrados, dignos de culto, permanecendo a indistinção do termo no que diz respeito à sua inserção na área. A noção "transferência de informação" dá margem a paráfrases mas nenhuma delimitação distintiva em relação à área. A noção "assunto", por sua vez, dá margem a definições inseridas na área ("tema principal de um livro") ou outras, retiradas da experiência empírica ("conceito que introduz, justifica, prova ou amplia o tema principal de uma obra"). A noção do "usuário", muito freqüente na bibliografia da área, não conta com uma definição distintiva, pois o mesmo é considerado sinônimo de "leitor" ou "cliente da biblioteca".

3.1.5 A terminologia de área
De modo geral, as expressões lingüísticas são utilizadas de diferentes maneiras. Observadas pela lógica clássica, tais expressões têm a função de fazer-nos conhecer a proposição, a idéia, isto é, a realidade objetiva a que se refere o conceito, ou permite atribuir-lhe um julgamento. No entanto, no âmbito das Ciências Humanas e Sociais, não resulta de uma insuficiência da linguagem a ambigüidade e o equívoco que nos afasta das expressões de idéias claras e distintas. Não se pode delas eliminar a contingência, o processo histórico e a realidade social; de modo geral a possibilidade de diversas interpretações, em sua maioria baseadas num recurso à experiência. Neste contexto, próprio da controvérsia, a condição fundamental da lógica - a univocidade entre o termo e o conceito - não pode ser obtida. Assim identificou-se a não existência de alcance igual e idêntico do princípio ao fim dos argumentos: a demonstração do conceito não se finaliza, seja porque não se identificam todos os critérios de aplicabilidade, seja porque as noções ainda são empíricas.

Em conseqüência do acima afirmado, não se identifica, na área, um sistema conceitual elaborado. As conclusões são obtidas por interpretação, isto é, sempre é possível atribuir às noções um significado ainda não previsto. Por não ser quase nunca conclusivo, o conceito na área participa de uma cadeia aberta de significação, que compromete o trabalho intelectual, substituindo o processo de geração de conhecimento por um esforço de convencimento sobre a existência a importância da Ciência da Informação.

Consideram-se usualmente textos fundadores de uma área científica os que apresentam uma base teórico-prática, apoiados simultaneamente em um conhecimento geral e específico, de modo a propiciar o avanço interno da área. O que se encontra, ao contrário, na Ciência da Informação, são textos cujos fins perseguem a auto-legitimação: atribuem à área uma imperativa significação social, apresentam as orientações metodológicas de forma conclusiva, induzindo uma crítica positiva que limita a proposição de questões controvertidas (Day 2000).

O domínio da Ciência da Informação não se constitui apenas pelos referentes dos quais se ocupa mas principalmente pelos enfoques e instrumentos que associam esses referentes a situações que determinam o campo da produção e circulação de bens e serviços informacionais. Sendo assim a área encontra-se entre a totalidade de uma disciplina compartimentada - proveniente da experiência da vida cultural - e um projeto fundado em ciências parciais desconectadas umas das outras. Organiza-se inicialmente por meio de um quadro de conceitos ligados a distintos domínios e ganha a especificidade de disciplina situacional, quando se propõe a representar o mundo de determinado modo e a nele intervir através de determinados produtos e equipamentos sociais. No entanto, o levantamento terminológico fornece uma base sólida para concluir que os conceitos da área são insuficientes para que se possa deduzir dos mesmos uma delimitação teórica do objeto da área. Os termos nomeiam e descrevem procedimentos e/ou instrumentos, mas raramente os contextualizam em relação à área.

A segunda conclusão do projeto diz respeito à identidade da Ciência da Informação.

3.2 A identidade da área
O levantamento terminológico realizado apontou para uma área que, em larga medida, carece de uma linguagem de especialidade própria. Os termos utilizados pela área não refletem conceitos, mas remetem a procedimentos práticos, instrumentos que regulamentam as aplicações práticas ou a outras áreas do conhecimento. Em outros termos, o levantamento terminológico permite uma interpretação que enfatiza a fragilidade - conceitual e, portanto, epistemológica e acadêmica - da área pela insuficiência na consolidação de uma linguagem de especialidade (Sager 1993). A autonomização da linguagem de especialidade, afastando-a da linguagem natural, constitui um pressuposto para a constituição de qualquer campo científico e, portanto, igualmente, para a constituição da Ciência da Informação. Dito ainda em outros termos, nenhum campo científico se impõe no ambiente da pesquisa acadêmica se não dispuser de uma linguagem própria, ou seja, de uma linguagem especializada. E, para cumprir a função de uma linguagem especializada, esta pressupõe, por sua vez, que os termos da mesma remetam a conceitos específicos, distintivos.

A Ciência da Informação, na atual conjuntura, apresenta uma linguagem ainda muito próxima do senso comum e, portanto, pouco, ou insuficientemente, especializada.

 Boa parte das noções sedimentadas pela área denominam procedimentos oriundos da Biblioteconomia, o que nos leva a concordar com Dias (2002, p.94): este autor, através de uma argumentação de resgate histórico, considera que a Ciência da Informação e a Biblioteconomia mantêm um vínculo essencial. Ingwersen (1992) levanta a hipótese segundo a qual a Biblioteconomia seria o paradigma competente da Ciência da Informação: esta afirmação atualiza outra, da década de 70, pela qual Gardin (1974) associava a documentação ao único ramo industrial no conjunto das práticas da análise de discurso.

Não menosprezando outras interpretações possíveis, consideramos poder vislumbrar um eixo evolutivo que se inicia na Biblioteconomia, da qual - ou contra a qual - surge a Documentação, mas que não a substitui. A Ciência da Informação, por sua vez, surge no pós-guerra, com múltiplas definições e abrangências: no que nos concerne reconhecemos que uma boa parte dos objetivos da Ciência da Informação encontra seu nascedouro na Documentação, embora a esta tenham sido agregadas as tecnologias da informação, modificando as dimensões espaço-temporais da guarda e da transmissão da informação.

Os ideários de Naudé, datado de 1627, embora tenhamos trabalhado com uma edição datada de 1876, e de Otlet (1934), não diferem, excetuado o aporte das tecnologias da informação, dos objetivos da Ciência da Informação. Nesta acepção, cremos pertinente, portanto, o eixo evolutivo abaixo transcrito, que nasce na Biblioteconomia, passa pela Documentação e leva à Ciência da Informação:

FIGURA 1: eixo evolutivo

De acordo com a figura acima, a área deslocou seu fulcro do acervo para o acesso à informação, ou seja, uma abordagem estática foi substituída por outra, dinâmica e forçosamente social. A Documentação, como ponto de passagem neste esquema, representa efetivamente uma transformação em relação ao paradigma do acervo (Otlet recortava os documentos para isolar as informações!): à informação estática sobrepõe-se seu significado social, o acesso.

No entanto, forçoso é constatar que a figura resume uma evolução no tempo, com o respectivo deslocamento de ênfase (do acervo para o acesso [2]), mas que ao mesmo tempo as aplicações práticas próprias da Biblioteconomia e da Documentação continuam sendo realizadas e são imprescindíveis quando a ênfase recai no acesso à informação. Em outros termos, o resgate histórico-terminológico não permitiu identificar o objeto-estrutura da área, mas evidenciou um ponto de vista: o ponto de vista dos procedimentos.
 
A história da área pode ser elaborada em termos da história dos procedimentos, não em termos de evolução na compreensão de seu objeto-estrutura.

Em relação ao objeto da área, enquanto a "informação" não for melhor delimitada - e diferenciada do objeto de tantas outras áreas do conhecimento, não cremos reunidas as condições para que a investigação adquira uma maior consistência epistemológica. Se o termo "informação" não for melhor delimitado, sua incorporação em expressões tais como "acesso à informação" ou "transferência de informação" tampouco redunda em avanço conceitual.

A expressão "transferência da informação" aponta para outra questão a ser melhor dimensionada. O objetivo da área é alcançado, de acordo com a bibliografia, quando ocorre a "transferência da informação" para o usuário e, portanto, a apropriação da informação pelo mesmo. Nesta condição o usuário pode gerar um novo conhecimento ou reformular um conhecimento existente. O processo de apropriação da informação pressupõe, no entanto, que o usuário detenha competências lingüísticas e enciclopédicas (Sfez 1996), bem como disponibilidade para receber a informação que lhe está sendo comunicada, razão pela qual o processo é subjetivo, individual, e participa portanto da agenda de pesquisa de outras áreas do conhecimento: ciências cognitivas, educação, sociologia, etc.

A satisfação do objetivo da área é, portanto, constatada num "extra-área", e seu objeto, a "informação", no senso comum, é compartilhado com todas as outras áreas do conhecimento: estas duas variáveis certamente alimentam a "crise paradigmática" da área e seguramente dificultam a construção de seu arcabouço teórico-conceitual.

A contextualização da Biblioteconomia e da Ciência da Informação na modernidade e na pós-modernidade talvez traga alguns subsídios para avançar a discussão. O resgate de dois teóricos da área, cujas propostas caíram, em boa parte, no esquecimento - Naudé em 1627 e Otlet em 1934 - ressaltam uma dimensão humana e libertária do acesso à informação pública que soa extremamente atual neste início de século. Os procedimentos práticos, com a conseqüente primazia da técnica, e a introdução muito rápida da tecnologia na área parecem ter obscurecido seu verdadeiro ideal e, provavelmente, restringido ou até impedido uma formulação mais teórica para a área.

Borko, em 1968, apontava o caráter multi e interdisciplinar da Ciência da Informação como um empecilho para seu desenvolvimento: quase 35 anos depois é possível concordar com uma afirmação que, na época, provavelmente não pôde ser entendida em todas as suas conseqüências.
 

4. CONCLUSÃO

A terminologia da área reúne uma série de unidades lexicais mas não permite entrever o sistema conceitual que deveria conferir um estatuto epistemológico à área. Diante da ausência de um sistema conceitual explicitado, os termos utilizados pela área não remetem a conceitos.

Observou-se, no decorrer da pesquisa, que o trabalho na Ciência da Informação apresenta-se como um ponto de conjunção entre subjetividades que compartilham de uma prática comum. Não existe um acordo fundamental e uma linguagem de especialidade de natureza científica que comunique uma realidade integrada. A fragmentação conceitual, o recurso constante a terminologias de outras áreas, a ausência de projeto de consolidação acabam retardando o desenvolvimento da área.

Assim sendo, forçoso é constatar que, a partir da análise terminológica, a Ciência da Informação se enuncia formalmente como um objeto teórico que carece de construção conceitual. As manifestações aplicadas, realizadas em seu âmbito, não têm potencial para construir o objeto teórico, mas ressaltam os campos de aplicação e os problemas enfocados pela área.
 

ANEXO

Lista dos termos consolidados em fichas-síntese

1. Acervo
2. Acesso
3. Análise
4. Análise documentária
5. Assunto
6. Autor pessoal
7. Autoria compartilhada
8. Autoria mista
9. Base de dados
10. Bibliografia
11. Biblioteca
12. Biblioteca especializada
13. Biblioteconomia
14. Cabeçalho
15. Catalogação
16. Catálogo
17. Ciência da informação
18. Classificação
19. Colégio invisível
20. Conhecimento
21. Conservação
22. Descrição bibliográfica
23. Disseminação da informação
24. Documentação
25. Documento
26. Empréstimo
27. Entrada
28. Estocagem
29. Estratégia de busca
30. Função documentária
31. Indexação
32. Índice
33. Informação
34. Lei
35. Linguagens documentárias
36. Livro
37. Material
38. Necessidade de informação
39. Objeto
40. Palavra-chave
41. Pesquisa
42. Preservação
43. Princípio
44. Recuperação de informação
45. Referência
46. Registro bibliográfico
47. Regra
48. Resumo
49. Sistema de recuperação de informação
50. Tesauro
51. Transferência de informação
52. Transmissão de informação
53. Usuário
54. Vocabulário controlado
 


Notas

[1]  Resumo do Relatório Final de um Projeto Integrado de Pesquisa, apoiado pelo CNPq, concluído em 2002.

[2] Este deslocamento de ênfase vem sendo identificado, pela bibliografia, como uma ruptura paradigmática, o que é bastante discutível face aos resultados desta pesquisa.

 

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Sobre as autoras / About the Authors:

Johanna W. Smit
cbdjoke@usp.br
Doutora, docente do Departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP

Maria de Fátima G. M. Tálamo
mfgmtala@usp.br
Doutora, docente do Departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP

Nair Y. Kobashi
nykobash@usp.br
Doutora, docente do Departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP e do Programa de Pós-Graduação em Biblioteconomia e Ciência da Informação da PUC-Campinas