Resumo: Fatores que caracterizam a complexidade do mundo
moderno direcionam as organizações para o desenvolvimento de infra-estrutura
tecnológica com capacidade de processamento de informações e distribuição de
conhecimentos em forma de redes. As organizações contemporâneas implementam
plataformas e processos visando o fluxo da informação por toda organização, de
maneira a torná-la disponível e organizada. As organizações policiais se vêem
diante da necessidade de se transformarem em verdadeiros cérebros, pois a
velocidade dos acontecimentos, conectividade de pessoas, crescimento da
intangibilidade e complexidade da criminalidade apresentam-se como fatores que
exigem cada vez mais da investigação criminal. O presente trabalho analisa a
investigação criminal no contexto da Inteligência Organizacional, apoiado pela
aplicação da análise de vínculos e por meio de um modelo organizacional em rede
de conhecimento, onde todos os componentes (setores de investigação, agentes ou
grupo de investigadores) são disseminadores de informações, participam do
processo de criação do conhecimento e funcionam como se fossem neurônios de um
cérebro. Conclui-se que a inteligência organizacional, apoiada pela análise de
vínculos, estabelece novas condicionantes doutrinárias para a investigação
criminal.
Palavras-chave: Inteligência organizacional; Metáforas
organizacionais; Análise de vínculos; Complexidade.
Abstract: The modern world complexity addresses the
organizations for the development of technological infrastructure with capacity
of information processing and knowledge distribution in networks. Then the
police organizations need to transform in a fulfilled brain, because the speed
of the events, the people's connectivity, the intangibility growth, and the
criminality complexity come as factors that demand more and more from the
criminal investigation. The present work analyzes the criminal investigation in
the context of the Organizational Intelligence, by the application of the link
analysis and an organizational model in knowledge network, where all of the
components (investigation sections, agents or investigators group) are
information sources of dissemination, they participate in the process of
knowledge creation and they work as if they were neurons of a brain. That’s
concluded that the organizational intelligence, supported by the link analysis,
it establishes new criminal investigation doctrine conditions.
Keywords: Organizational intelligence; Organizational
metaphors; Link analysis; Complexity.
Introdução
O axioma de que a facilidade de acesso à informação possibilita a interação face
a face entre pessoas nos diversos cantos territoriais, permite também afirmar
que não existe hoje nada mais distribuído e disseminado do que a informação. Não
existe mais um mundo estável, baseado somente na troca de experiências
individuais, que busca explicar os fenômenos de forma empírica e responder todas
as questões.
Daí a necessidade das organizações desenvolverem estruturas tecnológicas e, pela atividade de Inteligência, aumentar a capacidade de solucionar problemas, realizar diagnósticos mais precisos em direção à realidade atual e com a visão do contexto.
Na nova era, fatores determinantes de mudança na sociedade estão associadas à
velocidade, conectividade, intangibilidade (DAVIS, MEYER, 1999) e a complexidade
ambiental (Mintzberg, 2003). Esses fatores influenciam no modo de interação das
pessoas e na eficiência das organizações. No mesmo sentido, o crime adquire
novas características de organização, planejamento, diversificação de
atividades, atuação sem limites territoriais, facilidade de comunicação e acesso
à informação.
Ações criminosas no Brasil têm se apresentado predominante à capacidade do Estado, este, temendo mais as conseqüências políticas do que sociais, submetendo as organizações policiais a um confronto desafiador.
A eficiência e a rapidez dos sistemas de transporte e comunicação facilitam e
abrem espaço para um processo que pode ser chamado de globalização do crime. A
globalização do crime está associada a vários fatores, entre eles, a evolução
tecnológica que abre campo a uma nova característica delitiva, a dos crimes
cibernéticos, cuja atuação transcende os limites territoriais de um Estado e de
um País, sem falar dos crimes, efeitos replicadores, decorrente das ações
terroristas no mundo.
As organizações criminosas exercem suas atividades sem divisas ou fronteiras, demonstrando poder de articulação, planejamento e sofisticação. O narcotráfico, contrabando, pirataria, crimes financeiros, corrupção, fraudes milionárias são as áreas preferidas, bem como a imensidade de outros delitos que assumem uma condição quase imbatível, causando prejuízo incalculável ao Estado e à sociedade em geral.
Cada vez mais a atividade policial defronta com situações complexas, exigindo
mais da investigação. Diante desta situação, as organizações buscam e fazem uso
da tecnologia da informação, edificam infra-estruturas com o objetivo de obter
mais rapidamente informações e busca de significado e conhecimento sobre o
crime.
É fundamental que setores, investigadores e dirigentes de uma organização
policial compartilhem conhecimento, visando identificar as tendências, padrões
de comportamento, revelando as conexões existentes entre atividades criminosas e
realizar prognósticos. A investigação policial empírica está ruindo,
evidenciando a necessidade de implementação de novos processos, por uma
inteligência distribuída, e por meio de procedimentos específicos que
possibilitem a consolidação de informações, oriundas de diversas fontes, e
viabilizando o fluxo e a transmissão por toda a rede da organização, de modo que
todos tenham acesso (Ferro Júnior, 2002).
Atualmente, na Polícia Civil do Distrito Federal, faz-se a integração de
atividades de análise de inteligência e investigativa por meio da aplicação de
Análise de Vínculos, cuja técnica possui condições de trabalhar volume de dados
e informações, simultaneamente, oriunda de fontes variadas, com resultados em
tempo mais curto, e conseguindo revelar casos que pareciam insolúveis, numa
maneira tradicional de esclarecê-los.
Organizações policiais, especialmente aquelas voltadas à atividade investigativa
começam a perceber que a administração da informação é uma condição estratégica.
A necessidade de gerar informação e conhecimento de forma mais rápida, em razão
da complexidade e velocidade que ocorrem os fenômenos criminais, vem
impulsionando o trabalho policial para a implementação de novos processos,
infra-estrutura tecnológica com a edificação de um modelo de gestão policial com
suporte na Inteligência da organização.
Este trabalho aborda os elementos de Inteligência Organizacional (comunicação,
memória, aprendizagem, cognição e raciocínio) e sua utilidade estratégica para o
funcionamento de um sistema de fluxo de conhecimento, possibilitando a
consolidação e propagação de conhecimento produzido em todos os setores
policiais, criando um ambiente cumulativo e acessível por toda a organização
policial.
A Inteligência Organizacional integra
um processo de informação humana e computacional que gera capacidade de
solucionar problemas. Por meio de componentes integradores de conhecimento e a
Análise de Vínculos, a gestão policial torna-se eficiente por meio da
distribuição da informação, agregando valor significativo e possibilitando a
criação de conhecimento para melhores decisões.
Referencial Teórico
Foi realizada uma revisão de literatura onde evidenciou-se a ausência de
trabalhos e pesquisa sobre o tema. A Tabela 1 apresenta uma síntese dos
resultados obtidos.

Bases pesquisadas: Scirus (http://www.scirus.com)
e Webofscience (http://isiknowledge.com).
O assunto análise de vínculos e inteligência organizacional apresentou apenas
duas referências. A primeira apresenta um estudo que analisa o uso da tecnologia
da informação na aprendizagem organizacional (Zhu, Prietula, Hsu, 1997). Mais
precisamente, estuda processos organizacionais que geram aprendizado,
desenvolvendo e aplicando um novo conjunto de métricas de aprendizagem
organizacional para estes processos. A outra referência trata de um modelo de
Inteligência Competitiva, que define a coleta e a análise simultânea de
informações por unidades de monitoração e gerenciais (Gibbons, Prescott, 1996).
Entretanto, nenhuma das duas referências trata de análise de vínculos no
contexto da Inteligência Organizacional.
No confronto dos termos análise de vínculos e investigação criminal apresentou
doze referências no Web of Science.
Xu e Chen (2005) mostram a criação de um
modelo estrutural de análise de vínculos que permite a extração e formação de
conhecimento de redes criminais em grandes volumes de dados. Eles apresentam a
aplicação de um sistema denominado
“CrimeNet”, que incorpora técnicas para uma abordagem espacial conceitual,
agrupamento hierárquico, métodos de análise de rede sociais e escalamento
multidimensional.
Os resultados evidenciam que o sistema pode alcançar níveis de precisão na detecção de subgrupos nas redes criminais. Além disso, identifica membros centrais e padrões de interação entre grupos de forma significativamente mais rápida com ajuda do recurso de análise estrutural que é possível somente com o recurso de visualização.
Em outro artigo, Xu e Chen (2004) afirmam que técnicas de análise de vínculos
são eficientes e eficazes para as agências de inteligência e de investigação
criminal para combater o crime organizado, tráfico de drogas, terrorismo, e
seqüestro. Eles propõem uma técnica de análise de vínculos que usa algoritmos
resumidos, para identificar as associações mais fortes entre entidades em uma
rede criminal.
Smith e King (2005) corroboram que a informação coletada ao logo do tempo na
investigação criminal é de grande importância utilizando uma interface para
visualização dos dados como uma rede e a forma em que estão conectados pela
análise de vínculos.
Por outro lado, os crimes de roubo de carro e os conhecimentos especiais gerados
pelos vínculos favorecem efetivamente a tomada de decisão neste contexto (Santtila, 2004). A análise de vínculos com base em sistemas de suporte de decisão
automatizados demonstra em escala multidimensional a criação de vínculos
automaticamente entre vários casos.
Uma abordagem sobre um sistema de análise de vínculos da polícia canadense, além
de sua utilização e adoção por vários países, é o resultado de dois anos de
pesquisa e desenvolvimento (Collins, 1998). A Polícia Montada Real
Canadense (RCMP) junto com a Polícia Provinciana de Ontário (OPP) introduziram o
Sistema de Análise de Vínculos de crimes violentos (ViCLAS). Este sistema
computadorizado permite aos especialistas treinados criar vínculos entre crimes
como homicídios em série e atentados ao pudor em série. O Sistema de Análise de
Vínculos de crimes violentos, ViCLAS representa a
aplicação da mais recente tecnologia em análise de vínculos de crimes para ajuda
da investigação criminal.
Em suma, as referências encontradas revelam a ausência de estudos que apontem a
real contribuição da análise de vínculos para a efetividade da organização
abordando os aspectos de Inteligência Organizacional (comunicação, memória,
aprendizagem, cognição e raciocínio), sua utilidade estratégica para o
funcionamento de um sistema de fluxo e propagação de conhecimento, criando um
ambiente cumulativo, acessível por toda a organização policial, e que
potencialize a investigação criminal.
A Metáfora do Cérebro e Organizações em Rede
De acordo com Putnam, Phillips e Chapman (2004), as metáforas facilitam a
construção das teorias, pelo exame das imagens em seus múltiplos níveis de
análise. Na teoria organizacional, a análise metafórica contribui para a
construção da teoria de diversas formas:
1) articulando as hipóteses ontológicas de diferentes visões das organizações;
2) revelando o fundo assumido dos constructos organizacionais chaves; e
3) gerando novos constructos, tais como analogias. A metáfora do cérebro em organizações direciona a uma construção mental, criada a partir de seu funcionamento.
A metáfora do cérebro trata a organização em forma de redes, grupos e sistemas de indivíduos e setores interconectados, construindo uma atividade e fluxo relacional de informações e conhecimento pela integração global.
Morgan (2006) afirma que à medida que entramos numa economia baseada no
conhecimento, em que a informação, o conhecimento e o aprendizado são
recursos-chave, a inspiração de um cérebro vivo, capaz de aprender, oferece uma
imagem poderosa para a criação de organizações ideais, perfeitamente adaptadas
aos requisitos da era digital.
Organizações funcionando como cérebro significa dizer que a informação e o
conhecimento estão distribuídos por toda a rede da organização, não existindo
nenhum ponto de controle e armazenamento fixo. O armazenamento e o processamento
da informação estão em muitas partes ao mesmo tempo.
Almeida (1995), fazendo uma analogia entre as organizações e o cérebro, diz que
na “nova forma de organização não existe mais controle central de atividades".
Cada célula é responsável e tem consciência do que deve fazer e do produto que deve gerar. Como a informação flui facilmente no interior de cada célula, para fora ou para dentro, a rede ou a cadeia como um todo tem condições de se adequar rápida e eficazmente às necessidades: " O fluxo eficaz da informação é o elemento-chave para o sucesso da nova forma de organização".
Estudos das teorias da administração incentivam as empresas para um modelo
neural, no qual não existe absolutamente coordenação central, como acontece no
caso de estruturas hierárquicas. Prossegue Almeida (1995) explicando que no
cérebro humano não existe conjunto de neurônios responsável pela coordenação do
trabalho dos outros neurônios. Cada neurônio exerce autonomamente sua função a
partir dos sinais recebidos e envia sinais para os à sua frente.
Hoje, organizações policiais têm excesso de informações em vez de carências.
Existe grande quantidade de conteúdos, relatórios de investigação, laudos
técnicos, depoimentos, ocorrências, inquéritos, o que obriga o setor de
Inteligência a realizar uma tarefa de seleção basicamente mental. Dispõe de
sistemas informatizados que permitem acessar uma ampla variedade de bancos de
dados, acesso a um imensurável volume de informações, decorrentes de
interceptações e movimentos bancários, sem considerar o vasto mundo da Internet.
Apesar de tudo isso, muitos sentem que estão mal informados.
Os analistas e investigadores freqüentemente suspeitam que o conhecimento que desejam existe em algum lugar. O que lhes falta é uma maneira de acessar o ambiente de conhecimento e identificar os tipos específicos de conhecimento, tanto interna quanto externamente. De fato, o que é preciso é criar uma organização em forma de rede de fluxo de conhecimento, e como o resultado deste processo, contribuir para aumentar a capacidade da investigação criminal.
Inteligência Organizacional
As organizações podem ser vistas como sistemas que processam informação. Elas
coletam dados de fontes internas e externas, os processam e os transformam em
informações e conhecimentos úteis à organização. Os negócios não funcionam
apenas com dados brutos. Dependem do conhecimento de indivíduos, que
contextualizam e dão significados a esses dados, transformando-os, por sua vez,
em informação e conhecimento pronto para ser colocado em ação (Moresi, 2006).
Outro aspecto que o autor ressalta é que as organizações comportam-se como
sistemas adaptáveis. Uma organização é um sistema de processamento que converte
diversas entradas de recursos em saídas de produtos e serviços, que ela fornece
para sistemas receptores ou mercados. A organização é guiada por seus próprios
critérios e feedback interno, mas é, em última análise, conduzida pelo feedback
de seu ambiente externo.
Nesse sentido, a inteligência organizacional integra um processo de informação
humana e computacional e a capacidade de solucionar problemas por meio de cinco
componentes (Kirn, 1995): comunicação organizacional, memória organizacional,
aprendizagem organizacional, cognição organizacional e raciocínio
organizacional.
Cognição Organizacional
Etimologicamente, a palavra “cognição” deriva das expressões latinas “cognitio”
ou “cognoscere”, que por sua vez conotam as operações da mente humana que
permitem que alguém possa estar ciente da existência de objetos, pensamentos ou
percepções (Dorlands, 2005). Aí estão incluídos aspectos da percepção,
pensamento e memória. A cognição é, portanto, um processo pertinente às
operações mentais da inteligência humana. Já a inteligência seria a faculdade de
aprender, e com a cognição estaria relacionada aos métodos ou processos
envolvidos nessa “aprendizagem inteligente”.
Cognição é o elemento propulsor da organização na implementação de processos
sistêmicos e continuados de coleta da informação, com aplicação de tecnologia da
informação, que facilitem a interpretação e a construção do conhecimento.
Prosbst, Raub e Kai (2002) apontam que, ao contrário de fazer distinções nítidas
entre dados, informações e conhecimento, pode ser mais útil colocá-los em uma
série contínua, com os dados em uma extremidade e o conhecimento na outra.
Assim é que sinais esparsos reúnem-se para formar padrões cognitivos sobre os
quais as ações podem basear-se. As habilidades e o conhecimento são adquiridos
lentamente, desenvolvendo-se ao longo do tempo e por intermédio de um processo
em que somas de informações são reunidas e interpretadas.
Tal processo pode ser definido como
uma progressão ao longo de um contínuo de dados, passando por informações e até
a elaboração do conhecimento.
Segundo Hayes e Allinson (1994), a cognição está relacionada à forma como as
pessoas adquirem, armazenam e utilizam o conhecimento. Portanto, cognição é
busca, processamento e utilização de informações, que gera um significado
efetivo para a organização.
Cognição é um processo mental humano associado à análise e ao processamento da informação para resolução de problemas e tomada de decisão. São processos desenvolvidos pela organização no tocante à identificação de padrões, captação de dados e organização de informações em bancos de memória, realizando diagnóstico e produzindo conhecimento sobre situações complexas no ambiente social.
Memória Organizacional
A memória é uma condição a ser incorporada para capacitar a organização a
preservar, recuperar e utilizar sua experiência (informação sobre sucessos e
falhas passadas) e, assim, aprender por meio de sua própria história.
Informações e conhecimento novo adquirido pela organização devem estar
disponíveis para serem utilizados em decisões futuras. Geralmente a forma como
que as pessoas trabalham juntas não é sistemática.
Algumas vezes elas trabalham sincronizadas e na maioria das vezes elas têm um foco e uma visão dos problemas bem diferentes, sem saber que a solução já pode existir e estar dentro da organização.
Euzenat (1996) explica que memória organizacional é um repositório do
conhecimento e o know-how do conjunto dos indivíduos que trabalham em uma
organização, tendo por finalidade preservar o conhecimento, a fim de permitir a
socialização, uso, reuso, inovação e transformação do mesmo. Pode ser comparada
a uma rede virtual sobre o ser humano e à experiência dos mesmos (tácita ou
representada explicitamente) disponíveis em uma organização.
A memória organizacional pode ser considerada como um núcleo de um sistema de
conhecimento que fornece motivação para criar, adquirir, alcançar, combinar,
rejeitar e preservar o conhecimento organizacional (Carvalho, 2003).
A aquisição de conhecimentos na organização pode ser implementada através da
aquisição e circulação de registros e capital humano numa rede de comunicação
(Stein, 1995). O autor afirma que pela passagem de mensagens através de redes de
comunicação, a informação pode ser mantida por longos períodos de tempo, mesmo
com membros entrando e saindo. O conhecimento compartilhado de normas e valores
emerge destes contínuos processos de comunicação organizacional, contribuindo
para o desenvolvimento de mapas cognitivos compartilhados e cultura.
Não existe ainda uma definição completa de memória organizacional. O senso mais
geral para definir a memória organizacional está dirigido em como poder usar de
novo uma experiência da organização, também relevante àqueles esforços da
organização, em considerar um repositório monolítico de informações que
proporcione conhecimento como "uma mistura fluida de experiência moldada,
valores, informação contextual”, e uma estrutura para incorporar experiências
novas pelo fluxo de informações (Atwood, 2002).
Nas organizações está embutido freqüentemente não só em documentos ou repositórios, mas também nas rotinas, processos, práticas, e normas. É a memória presente na cultura da organização.
Aprendizagem Organizacional
A aprendizagem como elemento constitutivo da Inteligência Organizacional não se
refere a ensino e a aprendizado em cursos acadêmicos. Resulta do relacionamento
entre profissionais, conversas, dinâmica de diálogos e discussão de problemas
por equipes multidisciplinares. É o processo pelo qual o individuo adquire
informações, habilidades, atitudes, valores, entre outros aspectos, a partir de
seu contato com a realidade, com o ambiente e com outras pessoas.
De acordo com Chiavenato (2004), a aprendizagem organizacional desenvolve os
conhecimentos e habilidades que capacitam as pessoas a compreender e agir
eficazmente nas organizações. A organização de aprendizagem constrói relações
colaborativas para dar força aos conhecimentos e experiências de fazer as coisas
que as pessoas devem utilizar. A aprendizagem é o resultado dinâmico de relações
entre informações, eficiência potencial e relacionamentos interpessoais,
eficiência real. A aprendizagem permitirá que pessoas e grupos possam conduzir
as organizações para a mudança e renovação contínuas, apresentando novas idéias.
O processo de aprendizagem, na perspectiva da organização, é apresentado na
figura 1. Choo (2002), a partir do modelo desenvolvido por
Chris Argirys, definiu um
modelo com a visão da organização, envolvendo dois circuitos de aprendizagem:
simples e duplo. O circuito simples onde os resultados alcançados são utilizados
para correção de rumos na ação organizacional. O circuito duplo permite que a
organização analise e altere princípios que orientam a sua ação.

(CHOO, 2002)
Comunicação Organizacional
A comunicação é um componente da Inteligência Organizacional está além das
transmissões em redes de computação e informativos administrativos. Refere-se,
também, aos recursos disponíveis, e quase todos de caráter verbal, como a
propaganda e a divulgação da imagem; habilidades para a desinformação e
contra-propaganda; contatos com a imprensa, discursos formais dos diretores,
chefes de polícia, os enunciados de suas políticas, a difusão e publicação de
estatísticas; e até aqueles mais sutis, normalmente não entendidos ou não
considerados expressivos, como os da visualidade da organização e da
gestualidade dos dirigentes, a arquitetura das instalações físicas, a postura e
vestimenta do policial, o atendimento e serviço acessível pelo cidadão em
delegacias, e a presteza nos atendimentos externos.
Em síntese, é a forma de transmissão de informações e conhecimentos que flui em
uma organização, entre atores humanos e em sistemas, além daquelas trocas que
ocorrem entre uma organização e seu ambiente (imprensa, comunidade, órgãos de
governo etc).
Raciocínio Organizacional
O raciocínio refere-se à condição que a organização adquire de prever e resolver
situações e problemas organizacionais, realizar uma assimilação e possibilidade
de antecipação na solução. É a capacidade que surge a partir da interação com os
outros quatros elementos para manter a eficiência da estrutura organizacional.
Proporciona a definição de novas estratégias em direção à infra-estrutura tecnológica, produção do conhecimento, eficiência na transferência de conhecimento entre pessoas e as organizações sempre que houver alterações no ambiente. É considerado um dispositivo de prevenção, dissimulação e tratamento de problemas organizacionais, além da solução dos mesmos e como a organização usa o conhecimento organizacional para avaliar ameaças e oportunidades.
Resume-se que Inteligência Organizacional é possuir ferramentas para interpretar
o ambiente complexo da organização. É um modelo mental no qual se baseiam os
processos de relacionamento entre organização e ambiente; ter arquitetura e
plataformas tecnológicas, melhorar o desempenho da organização de forma global
em sintonia com conhecimento pertinente. É a capacidade de julgamento de um
problema que surge pelo conhecimento distribuído na organização, com vistas à
utilização na consecução de seus objetivos e como principal meta de apoio ao
processo decisório em todos os níveis.
A maioria das organizações policiais ainda não dispõe de habilidades e
ferramentas para organizar, formalizar e capitalizar informações de forma
efetiva. Para otimizar a gestão informacional, além de disponibilizar toda a
infra-estrutura necessária, é preciso reunir qualificação e aptidões,
desenvolver novos processos para selecionar, avaliar, formalizar e validar a
informação. Isto pode ser feito por meio da Inteligência Organizacional que
possui elementos geradores de conhecimento global em todas as pontas da
organização, facilitando um fluxo interativo de conhecimento, para tanto,
imprescindível a sua implementação com apoio na tecnologia.
A Inteligência Organizacional é interativa, agregadora e uma complexa
coordenação das inteligências humana e de máquina dentro de uma organização. A
inteligência humana associada a máquinas nos leva a idéia do sistema cerebral,
onde ocorre a agregação de inteligência em neurônios. Tudo ocorre sem
hierarquia, nos níveis individuais, dos grupos e da organização como um todo.
Para tanto são utilizadas tecnologias como suporte e adoção de princípios de funcionamento de uma organização em rede, quando se explica os processos de fluxo, acúmulo interativo da informação, conhecimento disponível em todo o lugar, com possibilidade de visualização do conhecimento pertinente em contexto.
Princípios da Organização em Rede
O fluxo interativo de informações na organização é uma confirmação recíproca do
estado de relação de comunicações entre pessoas, grupos e setores que geram
significado e conhecimento global. Este sistema pode ser explicado pela figura
2, onde se demonstra um modelo de organização com os elementos de Inteligência
Organizacional, interagindo no ambiente, e com característica de organização em
rede, semelhante a um cérebro, onde características essenciais estão presentes.

Para explicar as características do sistema em rede, talvez a metáfora do
hipertexto é válida para verificar de modo sistêmico e dotá-lo de princípios
para uma interpretação lógica do funcionamento, (Levy, 2004):
- princípio da metamorfose : a rede está em constante construção e renegociação, pois o fluxo de comunicação favorece seu constante desenvolvimento e estabilidade pela composição e permanente movimento de atores envolvidos;
- princípio da heterogeneidade: os nós e conexões da rede são heterogêneos. É composto de varias fontes de informações e conhecimentos e o nível de interação entre todos os componentes e o processo de comunicação não é uniforme;
- princípio da multiplicidade: a rede se organiza de forma que qualquer conexão pode revelar-se como sendo composto por toda uma rede, e assim por diante, ao longo de uma escala maior. Em efeitos de propagação do conhecimento, gera capacidade de uma Inteligência distribuída por toda a organização;
- princípio da exterioridade: a rede não possui unidade orgânica. Seu crescimento e diminuição, sua composição e recomposição dependem de fatores indeterminados. Pode haver adição de novos órgãos, interação com outras fontes de conhecimento e conexões com outras redes;
- princípio da topologia: tudo funciona por proximidade e conexão. O curso dos acontecimentos e o fluxo de conhecimento ocorrem de forma sincrônica. Tudo trafega na rede em conjunto, de acordo com o processo evolutivo da rede como um todo;
- princípio da mobilidade dos centros: a rede não tem centro, ou melhor, possui permanentemente diversos centros, onde a informação e o conhecimento percorrem todos os nós, distribuindo ao redor de uma ramificação infinita de pequenas raízes. O centro está em todo o lugar da rede.
As organizações em rede são geradoras de capacidade cognitiva (aquelas com potencial de aprender, onde ocorrem processos cognitivos, que constituem a aquisição de conhecimentos). Ela faz uma representação distribuída da informação, proporcionando uma memória que assimila informações e conhecimento novo adquirido pela organização e disponível para ser utilizado em decisões. A aprendizagem vem por seguinte capacitando as pessoas e setores a compreender e agir eficazmente.
Na forma de conexões entre um grande
número de elementos, a comunicação operacionaliza a função de executar a soma
das entradas e saídas, além de executar uma transformação (linear ou não linear)
no sistema. Assim a rede se apresenta como um modelo semelhante a um cérebro e a
suas interconexões, que permitem a representação do processamento do
conhecimento na organização, resultando capacidade de responder eficazmente
sobre problemas de ordem funcional e no ambiente em que atua.
A Complexidade da Investigação Criminal
Cada vez mais fazer uso do conhecimento tem se destacado como principal fator de
sucesso e eficiência nas organizações do mundo moderno. A complexidade é o
elemento fundamental da instabilidade. O desenvolvimento de sistemas de
informações em forma de rede tem um importante papel na gestão do conhecimento.
O conhecimento se consolida por processos que objetiva identificar, administrar, armazenar e compartilhar o conhecimento, agregando valor na produção para seu uso. Capturar efetivamente o conhecimento e disseminá-lo constitui o problema central nas organizações.
O mundo contemporâneo é caracterizado por fatores que impõe desafios e
impulsiona as organizações policiais para constantes inovações na investigação
criminal. São fatores ligados à velocidade (fatores do ambiente ocorrem e mudam
em tempo real e, isto é muito característico do fenômeno criminal);
conectividade (todas as coisas vão se conectando eletronicamente: produtos,
pessoas, empresas, movimentação financeira, crimes etc); intangibilidade (o
intangível cresce mais rapidamente referente ao acúmulo de conhecimento pela
organização e pelo crime); criatividade (mudanças de processos impulsionam a
organização para adaptações em suas estruturas) pela necessidade de inovar; e a
complexidade (muitos fatores e entidades interagem entre si, sendo que uma
entidade é qualquer coisa que tenha determinado significado porem pode sofrer
transformações de acordo com o ambiente).
Numa determinada perspectiva a complexidade sempre acaba demonstrando uma
padronização. Isto encontra semelhança na “Teoria do Caos”, que segundo Stacey
(apud Paiva, 2002) em sua definição científica, o caos não significa desordem
absoluta ou uma perda completa da forma. Significa que sistemas guiados por
certos tipos de leis perfeitamente ordenadas são capazes de se comportar de uma
maneira aleatória e, desta forma, completamente imprevisível ao longo prazo, em
um nível específico.
Por outro lado, esse comportamento aleatório também apresenta um padrão ou ordem escondida em um nível mais geral. O caos é a variedade individual criativa dentro de um padrão geral de similaridade.
A necessidade de busca de informações e do uso do conhecimento com mais
intensidade têm obrigado as organizações policiais a perceber que é preciso ter
um sistema organizacional capaz de gerar respostas mais instantâneas, com visão
de contexto dos fenômenos que afligem a população e exigem a atuação rápida e
eficaz.
Este cenário revela uma característica com grau de incerteza e complexidade cada
vez mais elevado, de crescente hostilidade na vida das pessoas, provocando
profundas transformações na conduta das pessoas que estão sob o medo. Em razão
desta situação, cada vez é maior a condição de um gerenciamento efetivo das
informações sobre o crime, com acompanhamento sistemático de situações que
influenciam na mudança do ambiente social para a implementação de novas
estratégias de segurança pública.
Construir conhecimento na segurança pública, em que o avanço da tecnologia e o
necessário aumento do nível de monitoração ambiental submetem os órgãos
policiais a um fluxo cada vez maior de informações, deixou de ser o único
objetivo. Atualmente não basta só garantir o acesso à informação. É preciso
também interpretar e criar significados, visando a uma clareza dos problemas
percebidos.
O desafio passa a ser gerenciar e
otimizar a carga de informações para que o seu uso seja potencializado. Este
processo será possível a partir da firmação de um novo modelo de investigação
que terá melhores condições de estabelecer objetivos e capacidade de resposta.
Análise de Vínculos
Xu e Chen (2003) explicam que para estabelecer vínculos em uma análise de
relacionamento (ou “de vínculos”), a tarefa indispensável é a extração de
informações sobre entidades e suas associações em grande escala de dados brutos,
convertendo-as em uma representação de rede. Normalmente, na forma gráfica, as
entidades são representadas por pontos centrais ou “nós”, e as associações entre
elas são representadas por uma teia ou rede. Métodos de construção de diferentes
redes são utilizados dependendo da categorização dos dados, ou seja, se os dados
brutos são registros estruturados de bases de dados ou documentos textuais
não-estruturados.
Prosseguem os autores referindo que a consolidação e as operações de formação de
relacionamentos são executadas em registros de dados transacionais durante
investigações de crimes. Assim, a consolidação consiste no processo de “fazer
com que os dados deixem de ser ambíguos, combinando informações de identificação
em uma única chave referente a indivíduos específicos”. Relacionamentos ou
vínculos entre indivíduos consolidados são formados com base em um conjunto de
fórmulas heurísticas, tal como se os indivíduos dividissem endereços, contas
bancárias ou transações relacionadas.
Para Harrison (apud Gonçalves, 1999), a Análise de Vínculos pode ser considerada
uma técnica de mineração de dados, na qual é possível estabelecer conexões entre
registros, com o propósito de desenvolver modelos baseados em padrões de
relações. É mais aplicada nas investigações de comportamento humano,
especialmente na área policial, quando determinadas “pistas” são ligadas entre
si para solucionar crimes. Esta técnica define indicadores que facilitam o
trabalho de análise na observação de freqüência dos fatos, observação de
convergências e a análise de conjunções que apresentam um padrão da atividade
criminosa e o perfil do comportamento criminoso.
Em uma pesquisa de comportamento humano em crimes violentos, Strano, (2003)
propõe modelos gráficos que extraiam conhecimento de um determinado sistema de
dados empíricos, mapeando relações de nexo causal (causa e efeito) entre
variáveis relevantes de um local de crime. As variáveis podem ser: (i) o objeto
do crime, (ii) o local, (iii) o sexo do criminoso e (iv) o modus operandi.
Usando probabilidades condicionantes, pode-se perceber a extensão com que determinadas variáveis são passíveis de afetar umas às outras, ainda que as circunstâncias em que o crime ocorreu sejam desconhecidas. Os relacionamentos causais entre variáveis independentes (causas) e variáveis dependentes (efeitos) são assimilados de um conjunto de casos conhecidos, dos quais todas as variáveis da mesma espécie são avaliadas.
As tecnologias da informação, hoje disponíveis para a Análise de Vínculos,
proporcionam uma visão gráfica do “grande conteúdo”, oferecendo apoio
procedimental automático com três diferentes técnicas de determinação de
relacionamentos: (i) análise de freqüência de dados, (ii) análise de redes de
contatos e (iii) análise de convergência de ações no caso investigado.
A visualização destas formas de relacionamento se faz pormenorizadamente, pela análise de cada parte de um todo de grupos de informações conexas. Da visão geral, de maneira prática e funcional, o analista pode focar em componentes separados, e que serão analisados detalhadamente, produzindo-se então uma seqüência de novos gráficos.
Organizações policiais têm imenso repositório de informações, entretanto, ainda
não se consegue desenvolver um ciclo de gestão, captura e disseminação de
conhecimento criado por todos. Na verdade, apesar dos esforços, a mentalidade
destas organizações ainda está em direção à fragmentação e à estruturação de
silos de informação.
Temos a informação e o poder da
informação nas mãos para solucionar os mais complexos problemas, porém, sem um
mecanismo perfeito de transmissão do conhecimento que resultaria em resultados
significativos para a antecipação de ações (pró-ativo) e no assessoramento às
decisões.
O Conhecimento Pertinente
O conhecimento dos problemas e das informações-chave relativas ao mundo, por
mais difícil que seja, deve ser buscado, ainda mais quando o contexto atual nos
leva a situar tudo no contexto da complexidade, Morin (2000). O autor nos
reporta a uma profunda reflexão da inadequação que existe, cada vez mais ampla,
profunda e grave entre, de um lado, os saberes desunidos, divididos,
compartimentados e, de outro, as realidades ou problemas cada vez mais
multidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais e
planetários.
Destaca-se nesse sentido, princípios para que o conhecimento seja pertinente:
- o contexto: o conhecimento das informações ou dos dados isolados é insuficiente. É preciso situar as informações e dados em seu contexto para que adquiram sentido. Para ter sentido, a palavra necessita do texto, que é o próprio contexto, e o texto necessita do contexto no qual se enuncia;
- o global: o global é mais que o contexto. É o conjunto das diversas partes ligadas a ele de modo inter-retroativo ou organizacional. Dessa maneira, uma sociedade é mais que um contexto: é o todo organizador de que fazemos parte. O planeta terra é mais do que um contexto: é o todo ao mesmo tempo organizador e desorganizador de que fazemos parte. O todo tem qualidades ou propriedades que não são encontradas nas partes, se estas estiverem isoladas uma das outras e certas qualidades ou propriedades das partes podem ser inibidas pelas restrições provenientes do todo;
- o multidimensional: unidades complexas, como o ser humano, ou a sociedade são multidimensionais: dessa forma, o ser humano é ao mesmo tempo biológico, psíquico, social, afetivo e racional. A sociedade comporta dimensões histórica, econômica, sociológica e religiosa. O conhecimento pertinente deve reconhecer esse caráter multidimensional e nele inserir estes dados: não apenas não se poderia isolar uma parte do todo, mas as partes umas das outras;
- o complexo: o conhecimento pertinente deve enfrentar a complexidade. Complexus significa o que foi tecido junto; de fato, há complexidade quando elementos diferentes são inseparáveis constitutivos do todo (como o econômico, o político, o sociológico, o psicológico, o afetivo, o mitológico), e há um tecido interdependente, interativo e inter-retroativo entre o objeto de conhecimento e o seu contexto, as partes e o todo, o todo e as partes, as partes entre si. Por isso, a complexidade é a união entre a unidade e a multiplicidade.
Pode-se dizer que no mundo moderno, a Tecnologia da Informação permite uma visibilidade da complexidade. O Quadro 1 apresenta como a Análise de Vínculos facilita a produção do conhecimento pertinente. As organizações policiais investem na aquisição de computadores, implementando redes corporativas e internet, facilitando o compartilhamento de documentos e dados que estão sendo armazenados em grande volume, colocados à disposição das unidades de investigação, entretanto, sistemas dispersos e não integrados estrategicamente não traz eficácia na produção de conhecimento.

Existem dois tipos de conhecimento. O conhecimento formal (explícito) é aquele
que está em inquéritos, nos livros, manuais, documentos, periódicos, base de
dados, artigos, processos etc. Por ser um produto concreto, ele normalmente é
captado pelas organizações. O outro tipo é o conhecimento informal (tácito),
aquele gerado e utilizado no processo intelectual para a produção do
conhecimento formal, constituindo-se de idéias, fatos, suposições, decisões,
questões, conjecturas, experiências individuais e pontos de vista. Por conter a
inteligência, ele é um ativo patrimonial de imenso valor, apesar de se perder
nas organizações policiais ao longo do tempo por falta de mecanismos para que
seja coletado, estruturado, compartilhado, transmitido e reutilizado.
Segundo Nonaka e Takeuchi (1997), as duas formas de interação, entre o
conhecimento tácito e o conhecimento explícito, e entre o indivíduo e a
organização, realizarão quatro processos principais da conversão do conhecimento
que, juntos, constituem a criação do conhecimento: externalização, combinação,
internalização e socialização.
Embora a criação do conhecimento organizacional seja o fundamental, prosseguem
os autores dizendo que “uma organização não pode criar conhecimento por si
mesma, sem a iniciativa do indivíduo e a interação que ocorre dentro do grupo”.
O conhecimento só pode ser amplificado e cristalizado em nível de grupo, através
de discussões, compartilhamento de experiências e observações em atividade.
De maneira geral, a criação do conhecimento novo sintetiza-se pela conversão do conhecimento tácito em conhecimento explícito. Ter uma idéia ou palpite altamente pessoal tem pouco valor, a não ser que o indivíduo tenha como repassá-lo na organização e possa convertê-lo em conhecimento explícito, permitindo assim que seja compartilhado com outros profissionais.
Ainda na ótica da gestão do conhecimento de Nonaka e Takeuchi (1997), a
informação como produto capaz de gerar conhecimento pode ser vista de duas
perspectivas: a informação sintática (ou volume de informações) e a informação
semântica (ou o significado). A análise sintática é a realizada no fluxo de
informações sem levar em consideração o significado. Já o aspecto semântico da
informação é mais importante para a criação do conhecimento, pois se concentra
no significado transmitido. O conhecimento, como a informação, diz respeito ao
significado e é específico ao contexto relacional.
O Significado da Informação na Organização
Segundo Choo (2003), a informação organizacional percorre três arenas de uso
da informação: criar significado, construir conhecimento e tomar decisões. São
de fato processos interligados, de modo que, analisando como essas três
atividades se alimentam mutuamente, tem-se uma visão holística do uso da
informação.
Num nível geral são três camadas concêntricas, em que cada camada, internamente,
produz fluxos de informação para a cada externa adjacente (figura 3). A
informação flui do ambiente exterior (fora dos círculos) e é progressivamente
assimilada para permitir a ação da empresa.
Primeiro, é percebida a informação sobre o ambiente da organização; então, seu significado é construído socialmente. Isso fornece contexto para toda a atividade da empresa e, em particular, orienta os processos de construção de conhecimento. O conhecimento reside na mente dos indivíduos, e esse conhecimento pessoal precisa ser convertido em conhecimento que possa ser partilhado e transformado em inovação.
Quando existe conhecimento
suficiente, a organização está preparada para a ação e escolhe seu curso
racionalmente, de acordo com os objetivos. A ação organizacional muda o ambiente
e produz novas correntes de experiência, às quais a organização terá de se
adaptar, gerando assim um novo ciclo.
Segundo a Escola Superior de Guerra, ESG (1997) a informação é designada para aplicação em três diferentes
formas:
- as Informações como Organização: para designar a informação como Estrutura, incluindo os repositórios informatizados, a rede de comunicação, pessoal e seu funcionamento;
- as Informações como Atividade: refere-se à atividade das informações que abrange o conjunto de ações no sistema organizacional, compreendendo o processo desenvolvido para a produção de conhecimento e apoio a inúmeras atividades na organização;
- as Informações como Conhecimento: a informação vista como produto, voltado para o conhecimento que deve contribuir para a tomada de decisões na organização. A qualidade das informações reflete decisivamente no sucesso da decisão resultante e sua importância estratégica.

Análise de vínculos e investigação policial
A técnica da análise de vínculos possibilita ao investigador a visualização de
diferentes elementos funcionais e estruturais da investigação correspondente. De
maneira sintética, a técnica engloba a captura, armazenamento e diagramação de
informações pertinentes aos chamados “alvos monitorados”, emprestando um valor
agregado ao trabalho investigativo que está fora do alcance prático da cognição
humana normal.
Ela permite a visualização gráfica de relações entre pessoas, objetos, empresas, dados bancários e registros/dados de qualquer ação que revele padrões de ação e de comportamento (Figura 4), o que de outra forma permaneceria oculto em meio a um grande volume de dados e/ou informações desconectadas (Ferro Júnior, Dantas, 2007).
Estabelecer vínculos pressupõe associar dados, condutas, eventos, entidades ou
quaisquer outros elementos de um empreendimento criminal complexo, subsidiando a
ação policial no sentido de permitir uma visão esclarecedora de um determinado
comportamento ou ação delitiva, possibilitando o alcance de resultados efetivos
na consecução de operações de Inteligência/investigação policial.
A figura 4 e o Quadro 2 apresentam
uma síntese da aplicação da análise de vínculos no contexto da Inteligência
Organizacional.


Em 2005, a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) desencadeou a
Operação Galileu que teve por objetivo investigar fraudes em concursos públicos.
A investigação começou no final do ano de 2004 e revelou um esquema onde os
candidatos pagariam, em troca de aprovação, até 20 vezes o valor do que
receberiam mensalmente no cargo. Em troca do pagamento, os inscritos receberiam
os resultados da prova antecipadamente ou por meio de equipamentos eletrônicos
ou ainda podiam ter os nomes incluídos na lista de aprovados.
A investigação realizada pela Polícia Civil do Distrito Federal consistiu em interceptar
negociações mantidas entre os integrantes da quadrilha brasiliense acusada de
burlar as provas de diversos concursos públicos. A Figura 5 apresenta um
diagrama da obtido através do cruzamento de informações provenientes de diversas
fontes. A investigação evidenciou a fraude em mais de dez concursos. O resultado
foi a prisão dos integrantes do esquema.

Conclusão
Este trabalho apresentou uma análise dos elementos de Inteligência
Organizacional (comunicação, memória, aprendizagem, cognição e raciocínio)
no
contexto da investigação criminal. Por meio de componentes integradores de
conhecimento e o emprego da técnica de análise de vínculos, a capacidade da
investigação policial amplia-se por meio da distribuição da informação,
agregando valor significativo e possibilitando a criação de conhecimento para
melhores decisões.
Nesse sentido, constata-se que a inteligência organizacional, apoiada pela
análise de vínculos, estabelece novas condicionantes para a investigação
criminal:
- a cognição organizacional possibilita à unidade policial, com o uso da Análise de Vínculos, desenvolver capacidade de análise de volume de informações, de fontes variadas, descoberta de ligações ocultas no crime complexo, por meio de processos sistêmicos e continuados de coleta da informação, com aplicação de tecnologia da informação;
- a memória Organizacional proporciona um repositório da totalidade da informação, compartilhamento de experiências, criação de significados e construção de conhecimento para tomada de decisões e a fim de permitir a socialização, uso, reuso e transformação do mesmo;
- a comunicação organizacional permite a articulação em rede das unidades policiais o que possibilita adquirir capacidade sistêmica de transmissão e de distribuição da informação, integrando inteligências humanas e de máquina;
- o raciocínio organizacional, orientado pela análise de vínculos, amplia a capacidade de investigação criminal pela visão de contexto de diversos grupos criminosos, que atuam conexos, e pela visão sistêmica da rede de organizações policiais, que proporciona recursos para a solução de situações e de problemas com antecipação;
- o aprendizado organizacional permite a evolução da doutrina de investigação criminal pois as unidades policiais, articuladas em rede, adquirem compreensão e ação eficaz devido ao resultado dinâmico de relações entre informações (eficiência potencial) e relacionamentos interpessoais (eficiência real)
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Sobre os autores / About the Authors:
Celso Moreira Ferro
ferro.celso@gmail.com
Mestrando em Gestão do Conhecimento e da Tecnologia da Informação, Universidade Católica de Brasília.
Eduardo Amadeu Dutra Moresi
moresi@ucb.br
Doutor em Ciência da Informação, UNB; docente em gestão do conhecimento e da tecnologia da informação, Universidade Católica de Brasília.