Ciência da Informação: teoria e metodologia de
uma área em expansão
Antonio Miranda
Elmira Simeão, organizadora
Brasília: Thesaurus, 2003
Apresenta uma seleção de artigos, conferências e ensaios, alguns publicados em revistas e anais de eventos internacionais. Há trabalhos inéditos, todos voltados para as mudanças nos estudos teóricos e metodológicos da Ciência da Informação, área em expansão e de interesse para diversos campos do conhecimento. A partir da década de 80, com a formação das primeiras redes de conteúdos digitais, a informação transforma-se operacionalmente em um valor de mercado, independente do suporte, levando os países em desenvolvimento a procurarem estratégias para a visibilidade econômica e científica. As preocupações apresentadas no trabalho "Problemas culturais, políticos e econômicos da Informatização no Brasil" retratam a informatização da sociedade através de seus conteúdos técnicos e revolucionários com a tendência irreversível à automação dos diversos setores da economia, que têm como eixo de crescimento a informação e as bases de conhecimento.
Ao situar a informatização do terceiro mundo, implementada no Brasil principalmente pelas instituições bancárias, o autor, sempre crítico e polêmico, procura destacar que não se trata somente de uma questão tecnológica, mas um processo de renovação acelerada, que altera as relações de poder do Estado moderno e sem o qual as nações não poderão sobreviver. Apesar da situação adversa da América Latina, os avanços brasileiros na telemática, conseguidos às custas de uma dívida social preocupante, devem ser compreendidos como mensagem e massagem (McLuhan) de socialização e condicionamento político.
Em "Globalización y Sistemas de información: nuevos paradigmas e nuevos desafios" Miranda mostra a necessidade de um controle social efetivo sobre os produtos e serviços informacionais. O trabalho reconhece o papel do Estado como agente mantenedor da infraestrutura, garantindo os direitos do cidadão à informações fundamentais para seu crescimento pessoal, em sistemas amigáveis e interativos, revertendo assim o processo de dependência científica e tecnológica. A educação moderna deve promover mais metodologias de recuperação e uso da informação em redes virtuais, com ênfase nos valores locais. Estas idéias inicialmente apresentadas na Conferência Regional de Políticas e Estratégias para a Transformação da Educação Superior na América Latina e Caribe (Havana, novembro de 1996) também foram discutidas por especialistas em conhecimento e uso de novas tecnologias de informação e comunicação em um encontro promovido pela Unesco na cidade de Caracas em 1997.
Recentemente, durante um encontro de especialistas no México, Miranda focalizou o acesso aos conteúdos sob o prisma da Teoria dos Sistemas (com origens na biologia de Bertalanffy) e da Teoria do Conhecimento Objetivo (do filósofo Popper) apostando em um movimento transnacional integrador de repositórios e núcleos difusores do conhecimento. Em "Sociedade da Informação, conteúdos e acessos em perspectiva" destaca o ideal de acesso em redes e sistemas de ação cooperativa, como os grandes catálogos coletivos que possibilitam um efetivo controle bibliográfico servindo como exemplo emblemático da política informacional defendida pelo autor. Para que os sistemas promovam acessibilidade em uma grande rede é preciso considerar sua configuração horizontal, com unidades autônomas, organizadas conforme padrões consorciados. É preciso aceitar sua hierarquia e convenções moldadas para o bem comum como uma atividade necessária à compreensão do fenômeno informacional não apenas de forma objetiva, tal qual defende o popperiano diante de seus pares, mas principalmente saldando a dívida social que cientistas e profissionais têm com os excluídos da Sociedade do Conhecimento.
Como coordenador do grupo de trabalho sobre conteúdos e identidades
do programa Sociedade da Informação do Ministério
da Ciência e Tecnologia do Brasil, Miranda defende o papel dos sistemas
informais e formais, notadamente das escolas, bibliotecas e universidades,
como agentes de apoio às políticas públicas no trabalho
"Sociedade da Informação: Globalização, Identidade
cultural e conteúdos". Considerando a imprevisibilidade da inteligência
humana diante da automatização do trabalho intelectual, e
a incontrolabilidade dos conteúdos, há inevitavelmente a
necessidade\de uma ação pública reguladora, que garanta
a cidadania e as culturas nacionais. O Brasil, assegura o autor, é
presença importante na teia de países mais ricos culturalmente.
A prioridade no futuro será daqueles que souberem selecionar e tratar
suas bases de conhecimento, em ações normatizadoras e metodologias
competentes e cientificamente discutidas. Miranda ressalta que a informatização
global não se restringe aos processos de transferência de
informação e interdependência de dados, mas implica
também uma avaliação dos direitos individuais, dentro
das perspectivas sociais, éticas e políticas. A infra-estrutura
de serviços de informação, portanto, envolve todo
o tecido social. Para Miranda, a cultura nacional é um discurso,
um modo de construção de sentidos embutido na língua
e nos valores regionais e sincréticos, um software precioso que
identifica os países globalmente tornando-os únicos.
SEGUNDA PARTE - CIÊNCIA EM EVIDÊNCIA
A explosão da informação digital só aumentou as fronteiras temáticas e metodológicas da pesquisa em Ciência da Informação, motivando a integração de grupos heterogêneos que buscam respostas para as complexas relações sociais e problemas de comunicação e utilização de conteúdos. Mesmo com carências técnicas e estruturais, a área se renova superando seus próprios limites. Ao lado de outros especialistas, Antonio Miranda tenta compreender quais instâncias reguladoras devem nortear o ensino e a pesquisa da Ciência da Informação, diante do impacto das tecnologias de comunicação. A partir de uma análise conjunta com Mueller sobre "O ensino da biblioteconomia no Brasil", traça o perfil do profissional do futuro com a idéia fixa de uma disciplina multimeios que atenda às exigências do mercado diante da informatização e dos conteúdos digitais. O artigo demonstra que a crise de conceitos biblioteconômicos é resultado do crescimento de uma área estratégica para o crescimento do país em um modelo que tem a informação como força motriz.
Ao realizar uma revisão crítica nas metodologias utilizadas na área, suscita em "Biblioteconomia comparada", uma discussão sobre a função do método comparado no processo de planejamento e administração de bibliotecas e sistemas de informação, notadamente, conforme assegura, no processo decisório de importação de tecnologia informacional. Enquanto método científico de justaposição e comparação de dados, o estudo comparado tem muitas acepções, o que torna sua utilização um dilema para o pesquisador. Miranda, no entanto, destaca que justamente por permitir uma variação de comparações e situações, o estudo comparado pode representar uma excelente metodologia para as ciências sociais no Brasil, possibilitando a troca de experiências com bases mais científicas e voltadas para o interesse nacional.
Com Barreto descreve a evolução do paradigma da Ciência
da Informação no trabalho "Pesquisa em ciência da Informação
no Brasil, síntese e perspectiva". Segundo destacam os autores a
demanda por conhecimentos especializados cresce a partir da implantação
de grandes sistemas de informação, como o IBBD e a BIREME,
que criaram um ambiente propício para a pesquisa. O apoio de agencias
de fomento como o CNPq e a CAPES foi importante já que o atual modelo
garante uma participação efetiva da comunidade científica
na formulação de políticas e na repartição
de recursos. Através de uma revisão dos principais estudos
sobre os traçados e perspectivas da área no país,
o artigo aponta a diversidade das temáticas que envolvem desde a
organização de conteúdos e informação
tecnológica até os aspectos teóricos e metodológicos,
exigindo também uma discussão epistemológica freqüente.
Implementada há mais de trinta anos em diversas instituições
brasileiras.
TERCEIRA PARTE - METAMETODOLOGIAS
Com investidas inusitadas, recentemente no México Miranda defende "Uma metametodologia para a ciência" e afirma que não há limites teóricos para o conhecimento, principalmente para a Ciência da informação, que recorre a métodos e teorias de outras áreas sempre que se confronta com situações diferenciadas. "Ciência da Informação e a teoria do Conhecimento Objetivo: um relacionamento necessário" confirma o pensamento popperiano do autor em sua trajetória de pesquisador nas ultimas duas décadas. Os três mundos de Popper parecem conviver freqüentemente com Miranda sempre preocupado com as questões práticas, mas antenado com as inovações e tendências da pesquisa. Entre o físico e o metafísico, se concentra no entendimento do mundo do conhecimento objetivo para encontrar o aporte teórico que substancia sua obra. A objetivação do conhecimento em registros coisifica o pensamento humano e transforma uma idéia inalcançável numa informação acessível e passível de critica... "Conjecturas e refutações" (Popper).
Matéria prima da Ciência da informação, a
literatura científica, com suas propriedades físicas, campo
de domínio biblioteconômico, possibilita o avanço de
todas as ciências, de seus rituais legitimadores e perfecionistas.
Para os cientistas da informação fica claro que os documentos
têm uma especificidade que determina funções e uso,
requerendo para o "mundo 3" uma especialização, que reforce
a natureza prática da área como também subsidie teorias
para a informação registrada, com as novidades que a experiência
sempre propicia. A interpretação de Popper a um pensamento
de Descartes, segundo o qual o espírito humano deve tentar tudo
para alcançar algo, ainda que provisório e condenado a critica,
faz Miranda ressaltar que a Ciência da informação,
entre as limitações tangíveis do empirismo e as especulações
da metafísica, sobreviva por antítese e síntese dessas
contradições. É onde encontra substancia para progredir
diante de uma "teorização empírica" (Popper),
resultante do processo de critica da atividade profissional.
"O método indutivo e pesquisa na área de biblioteconomia"
é também uma análise com visão popperiana a
partir da proposta de Goldhor como alternativa viável à formulação
de hipóteses e leis que sejam úteis para o planejamento e
administração de sistemas de informação. Em
confronto com correntes racionalistas o método indutivo, na verdade,
pode ser uma opção complementar ao pensamento científico
mais clássico. Partindo de uma revisão da literatura, Miranda
extrai algumas idéias que podem ser utilizadas nas pesquisas biblioteconômicas,
normalmente direcionadas para a organização e difusão
de informações em diferentes suportes. O estudo indutivo
revela a abrangência maior da área diante de um objeto tão
complexo, favorecendo a renovação do construto teórico,
além de uma margem confiável na formulação
de conclusões em pesquisas aplicadas.
No trabalho "Conceituação da massa documental e o ciclo
de interação entre tecnologia e o registro do conhecimento",
apresentado no International Society for Knowledge Organization - ISKO
(Espanha, 2003)) Miranda e Simeão defendem sua proposta para a estrutura
do documento. O documento, por suas características peculiares,
é objeto de instâncias reguladoras gerando expectativas diferenciadas
por parte de leitores interpretantes, tornando-se elemento de uma indústria
editorial em constante mutação. Os formatos estariam diretamente
ligados ao trabalho dos cientistas da informação e os conteúdos
a qualquer área do conhecimento que deles se apropriam. O artigo
evidencia que a polissemia do termo informação é conseqüência
de sua amplitude e sua adaptabilidade faz parte do processo de interação
com a tecnologia, tornando-se inócuo legitimar uma única
concepção, ainda mais quando se trata de uma área
multidisciplinar.
A idéia de uma metametodologia para a Ciência da Informação
como uma ação derivada da integração teórica
e metodológica que supera orientações e aplicações
originais é o primeiro passo para grandes projetos do autor. "Tudo
é experimentável, vivenciável, no concreto e no abstrato...,
mas sempre de forma objetiva" (Miranda, 2003). Na ciência como na
arte tudo é possível e não há limites, apenas
obstáculos.
(recensão escrita pela profa. Elmira Simeão)