Resumo: Neste artigo discutem-se as relações entre agir comunicativo, colaboração e complexidade nas organizações. Introduz-se a noção de redução da complexidade nas organizações da teoria de sistemas de Luhmann, a partir da qual se correlaciona complexidade e comunicação nas organizações. A partir desta discussão propõe-se o uso da Teoria da Ação Comunicativa de Habermas para uma comunicação organizacional dialógica, particularmente da a ética da discussão. Finalmente, argumenta-se que o trabalho imaterial prevalece atualmente na produção do capitalismo reorganizado. A produção colaborativa evidencia relações entre trabalho imaterial e a cooperação. Discute-se o processo de produção como processo de comunicação. Conclui-se que o agir comunicativo, na forma de discussão, pode potencializar a colaboração dos que trabalham, contribuindo para a inovação, a melhoria de processos e a cooperação produtiva. A comunicação na organização deve ser pensada não somente como meio de estabelecer relações e nexos entre ações, mas também como modo de construção do entendimento quanto a resultados esperados e meios para obtê-los.
Palavras-chave:Agir
comunicativo; Colaboração; Complexidade; Organizações; Ética da discussão;
Habermas.
Abstract:This article discusses the relationship
between communicative action, collaboration and complexity in organizations.
It introduces the concept of reducing complexity in the organizations of
Luhmann´s systems theory, from which correlates complexity and communication
in organizations. From this discussion it is proposed to use Habermas Theory
of Communicative Action for a dialogic organizational communication,
particularly in the ethics of discussion. Finally, it argues that the
immaterial labor prevails today in the production of reformed capitalism.
The production highlights collaborative relationships between immaterial
labor and cooperation. It discusses the production process as a
communication process. We conclude that the communicative action in the form
of discussion, can enhance the collaboration of working, contributing to
innovation, improving processes and productive cooperation. Communication in
the organization must be designed not only as a means of establishing
relationships and connections between actions, but also as a way of building
understanding about the expected results and means to get them.
Keywords:
Communicative action; Collaboration; Complexity; Organizations; Ethics of
discussion; Habermas.
Introdução
Neste artigo discute-se a relação entre agir comunicativo, colaboração e complexidade nas organizações, a partir da contribuição da Teoria do Agir Comunicativo de Jurgen Habermas. O objetivo desta discussão é desenvolver uma argumentação sobre as possibilidades do agir comunicativo na administração de organizações, especialmente no que se refere a colaboração produtiva, a inovação e a melhoria de processos.
Cabe observar que autores como Serva (1997), Teixeira Filho (2000),
Vizeu
(2003, 2005) e Cardoso e Fossá (2008) usam os conceitos da teoria de
Habermas como referencial para estudos organizacionais e para o agir na
administração. Serva (1997) usa Habermas no quadro de discussão da
racionalidade das organizações produtivas. Ele vê complementaridade entre
Habermas e Guerreiro Ramos, a partir do que elabora um quadro de análise das
práticas administrativas. Habermas fornece as bases teóricas para a
construção publicizada de formas substantivas de organização e de
administração.
Teixeira Filho (2000) desenvolve uma contribuição da ética do discurso de
Habermas para as questões administrativas, pensando o homem organizacional
como indivíduo livre e inteligente, numa abordagem orientada para a
co-responsabilidade e a auto-determinação. Vizeu (2003) diz que a
Teoria da Ação Comunicativa
tem sido importante referência para os estudos sociais, especialmente por
permitir um entendimento mais acurado dos processos de socialização e
individuação, de maneira que se possa evidenciar questões que favorecem a
solução de antigos problemas de ordem sociopolítica. Assim, busca a
visualização das contribuições efetivas à área organizacional: a análise da
burocracia, entendida como modelo monológico e favorecedor do comportamento
social-racional estratégico, e modelos de estilo gerencial e de estrutura
organizacional baseados na ação comunicativa.
Cardoso e Fossá (2008) confrontam a teoria sistêmica de
Niklas Luhmann com
a Teoria da Ação Comunicativa (TAC) de Habermas, e se
apropriam de abordagens da complexidade de autores como Morin e Genelot em
busca de construtos teóricos de aprofundar a interpretação da comunicação
organizacional nas sociedades modernas e complexas. Eles sustentam que os
aportes teóricos da comunicação organizacional instrumentalista, que trazem
a marca de toda a sorte de reducionismos, são inúteis e nada operacionais
para os grandes desafios das organizações complexas.
Discute-se, então, a relação entre comunicação e complexidade nas
organizações. O confronto da Teoria do Agir Comunicativo de Habermas com a
Teoria de Sistemas Sociais de Luhmann é um importante procedimento
metodológico para abrir as portas das organizações complexas para ações
comunicativas. A discussão nas organizações pode aumentar a cooperação
interna, melhorar processos e produzir inovação.
Faz-se uma breve introdução à Teoria do Agir Comunicativo. A teoria da
discussão de Habermas (2007) põe em cena a noção de procedimentos e
pressupostos da comunicação para formação democrática da opinião e da
vontade, funcionando como importantes escoadouros da racionalização
discursiva das decisões, das justificações e das aplicações nas
organizações.
Finalmente discutem-se as relações entre trabalho imaterial, discussão e
colaboração nas organizações. O conceito de trabalho imaterial é abordado
nos termos de André Gorz e Toni Negri. A produção colaborativa aparece como
a forma privilegiada de organização do trabalho na sociedade pós-industrial.
A partir dai confronta-se com a ética da discussão, e com a noção da
argumentação como dinâmica organizacional capaz de legitimar decisões e
orientar ações coletivas.
Luhmann e a complexidade das organizações
A grande contribuição de Niklas Luhmann é a renovação da teoria dos
sistemas, baseada numa mudança paradigmática fundamental: passar da
distinção do todo e das partes, para a distinção de sistema e entorno, tendo
como referência o conceito de complexidade. A relevância do conceito se faz
presente em diversas partes de sua teoria, desde a complexidade como
sinônimo de modernidade, até a complexidade como categoria analítica para a
apreensão da diferença sistema/entorno (Neves; Neves, 2006).
Luhmann (1973) trabalha com o conceito de mundo como um conceito paradoxo
que representa sempre uma combinação de determinação e indeterminação, de
unidade e de diferença. O mundo não é um sistema porque ele não possui um
entorno do qual poderia ser delimitado. O mundo também não pode ser
concebido como entorno, porque o entorno pressupõe um interior que, por sua
vez, não pertence ao entorno. Assim, o mundo não é sistema nem entorno, mas
engloba todas os sistemas e os entornos respectivos. Tudo o que acontece,
acontece no mundo. Manutenção e desaparecimento de sistemas ocorrem no
mundo. O mundo não pode ser superado e não possui as fronteiras através das
quais se estende um entorno. O mundo, ou melhor, a complexidade do mundo é o
problema central de sua análise (funcional-estrutural).
A complexidade significa a totalidade dos possíveis acontecimentos e das
circunstâncias: algo é complexo, quando envolve, no mínimo, mais de uma
circunstância. O crescimento do número de possibilidades faz crescer
igualmente o número de relações entre os elementos, logo, cresce a
complexidade. O conceito de complexidade do mundo retrata a última fronteira
ou o limite último extremo. Sendo que é possível, só é possível no mundo
(Neves; Neves, 2006).
A capacidade humana não dá conta de apreensão da complexidade, considerando
todos os possíveis acontecimentos e todas as circunstâncias no mundo. Ela é,
constantemente, exigida demais. Assim, entre a extrema complexidade do mundo
e a capacidade de entendimento humana existe uma lacuna. Neste ponto os
sistemas sociais assumem a sua função, assumindo a tarefa de redução de
complexidade. Os sistemas sociais intervêm entre a extrema complexidade do
mundo e a limitada capacidade do homem em trabalhar a complexidade (Luhmann,
1990).
Os sistemas sociais têm a função de redução da complexidade do mundo, na
medida em que excluem possibilidades e selecionam outras O sistema define-se
por sua diferença com relação ao entorno. O sistema que contém em si sua
diferença é um sistema autopoiético, auto-referente e
operacionalmente fechado e que se constitui como tal, reduzindo a
complexidade do entorno. Se, de um lado, os sistemas sociais operam para a
redução da complexidade, por outro, eles também constroem sua própria
complexidade. Para que isto aconteça, o sistema precisa fechar-se
operacionalmente em relação ao entorno, produzindo seus próprios elementos,
operando, assim, a construção de sua própria complexidade (Neves; Neves,
2006).
Os sistemas agem para reduzir a complexidade do mundo em dois planos: por
meio da estruturação ou redução da complexidade interna e através da
seletividade ou redução da complexidade externa. A complexidade interna dos
sistemas sociais é abordada pelos processos de diferenciação social, e a
externa, através da especialização autopoiética frente ao meio ambiente.
Esses processos se dão simultaneamente (Rodrígues; Arnold, 1991).
Luhmann considera que o problema fundamental é o da grande complexidade do
mundo. Complexidade é entendida como múltiplas possibilidades de vivência, e
de ações que o mundo engloba. A partir da formação de sistemas sociais
ocorre uma captação e uma redução dessa complexidade, pois se dá uma seleção
de possibilidades, negando outras, mas sem excluí-las definitivamente,
permanecendo como oportunidades. Luhmann advoga, ainda, que para reduzir a
complexidade é necessária uma formulação de um instrumento de redução de
complexidade e propõe uma teoria da sociedade complexa. Essa teoria
considera os sistemas sociais autopoiéticos, auto-referentes e
operacionalmente fechados, ou seja, são capazes de elaborar a partir deles
mesmos suas estruturas e os elementos de que se compõem (Neves; Samios,
1997).
Mathis (1998) afirma que complexidade é o conjunto dos possíveis estados e
acontecimentos de um sistema. Assim, a complexidade do mundo é sempre maior
do que a complexidade de um sistema, que por outro lado, precisa de um grau
de complexidade que lhe permita a redução da complexidade no seu meio. Para
sistemas sociais a redução da complexidade do mundo se traduz no problema de
como enfrentar a dupla contingência.
A dupla contingência surge quando se relacionam sistemas que contam com o
potencial de experimentar e conceber fatos como seleções que envolvem
negações, com o potencial de negar reflexivamente estas negações e, assim,
de reconstruir outras possibilidades. Os sujeitos individuais se vêem
constantemente enfrentados por múltiplas possibilidades abertas pela
comunicação com outros sujeitos (Rodrigues; Arnold, 1991).
No desenvolvimento da teoria de sistemas, aprofunda-se a análise da
diferença entre elementos e relações, enriquecendo-a com o conceito de
complexidade que é o “que melhor expressa a experiência de problemas da
nova investigação sistêmica”. A complexidade é definida “quando num
conjunto inter-relacionado de elementos não é possível que cada elemento se
relacione em qualquer momento com todos os demais, devido a limitações
imanentes à capacidade de interconectá-los”. Neste processo é que precisa
ocorrer seleção: “a complexidade significa obrigação à seleção, obrigação à
seleção significa contingência e contingência significa risco” (Luhmann,
1990).
Em relação ao problema da manipulação analítica da complexidade, cabe
observar que o problema dos distintos níveis de complexidade não tem sido
colocado, na teoria dos sistemas, como problema da medição da complexidade
da relação do sistema com o entorno, pelo fato que, se considerava como
óbvio que o entorno encerraria uma maior complexidade do que o sistema, e,
portanto, não era necessário medi-la (Luhmann, 1996).
Luhmann (1996) afirma que complexidade organizada
“são as diferentes características como sentido, auto-referência, reprodução autopoiética, fechamento operacional, com a monopolização de um tipo de operação próprio, a comunicação, que levam um sistema social (da sociedade) a construir sua própria complexidade estrutural e assim organizar sua própria autopoiése”.
Luhmann insiste em afirmar que a evolução não detém o crescimento dos
sistemas a partir do momento em que não é mais possível ligar cada elemento
a cada outro elemento e também de controlar cada perturbação vinda do
entorno, por isso, nos sistemas reais a seleção dos elementos é fundamental:
“a forma da complexidade é, pois a necessidade de manter uma relação de
elementos apenas seletiva, ou seja, a organização seletiva da autopoiése
do sistema” (Luhmann, 1999).
A diferenciação social é um processo paradoxal que requer tanto a redução
com base na especialização funcional de novos sistemas, como um aumento da
complexidade da mesma sociedade, entendendo que a redução da complexidade
por parte de um determinado sistema abre caminho para níveis mais elevados
de complexidade social, como ocorre, por exemplo, na atualidade através das
descobertas científicas, as novas formas de administração econômica, as
novas tecnologias educativas, etc. Através das relações que se ativam
reciprocamente, os sistemas sociais se fazem mais complexos, e sua redução é
alcançada por meio de sua diferenciação interna. Trata-se de uma solução
transitória, já que as novas relações e sistemas se transformam numa nova
fonte de complexidade que vai exigir novas diferenciações (Rodrigues;
Arnold, 1991).
Em outras palavras, o que define um sistema é a separação entre ele mesmo e
o ambiente, que como complexidade bruta, seria um exterior não organizado e
infinitamente complexo. O interior do sistema, contrariamente, é uma zona de
redução de complexidade. Daí a importância da comunicação, pois é por meio
dela que se seleciona a informação disponível no ambiente. A diferenciação
sistema/ambiente é processada apenas internamente, e de maneira autopoiética.
Luhmann (1999) relaciona dois aspectos importantes na constituição de
sistemas altamente complexos: o primeiro diz respeito ao alto grau de
auto-referência das operações e o segundo, à representação de complexidade
na forma de sentido: “a recursividade da autopoiése da sociedade não está
organizada por resultados causais (outputs como inputs) e também não na
forma de resultados de operações matemáticas, mas de forma reflexiva, isto
é, mediante a aplicação de comunicação sobre comunicação”. Luhmann chama
a atenção para a infinidade ineliminável da comunicação, ou seja, não existe
uma última palavra. Cada comunicação leva a nova comunicação (Neves; Neves,
2006).
Toda vinculação que dá origem a sistemas sociais envolve comunicações,
requerendo seleções, reduzindo a complexidade do meio ambiente, que ao
sedimentarem-se têm em comum a função de controlar em algum grau a
contingência comum em toda atividade humana e social, evitando deste modo
que os novos encontros ou relações tenham que partir da incerteza total.
Luhmann aponta que a formação de sistemas se produz pelo estabelecimento de
um limite dentro do qual pode se manter invariável uma ordem de máximo valor
com poucas possibilidades (Rodrigues;
Arnold, 1991).
Os sistemas sociais
autopoiéticos se compõem de comunicações e não de pessoas. Pessoas, que
na terminologia luhmanniana atendem pelo conceito de sistemas psíquicos,
produzem pensamentos, e não comunicação. Comunicação gera mais comunicação,
e pensamento gera mais pensamento: tudo separado. O conceito de comunicação
para Luhmann é um processo de seleção que sintetiza informação, comunicação
e compreensão.
Os sistemas sociais usam a comunicação como seu particular modo de reprodução autopoiética. Seus elementos são comunicações produzidas e reproduzidas de modo recorrente por outras comunicações. Em relação às comunicações, os sistemas sociais são sistemas fechados, ou seja, qualquer alteração que venham a sofrer depende exclusivamente das suas próprias operações (Neves; Neves, 2006; Rodrigues; Arnold, 1991).
Em Luhmann o limiar da complexidade propriamente dita está dado pelo nível a
partir do qual nenhum elemento pode entrar em relação com todos os outros. A
complexidade suscita um problema operacional. O sistema precisa funcionar,
vale dizer, precisa ser capaz de realizar operações que o mantenham como
sistema diferenciado em relação ao mundo. Essas operações não podem ser em
número ilimitado.
Portanto, a complexidade do sistema precisa ser limitada também, embora não numa dimensão fixa. Isto significa, em primeiro lugar, que as unidades de funcionamento de sistemas são operações (e não ações) e que todo sistema depende de operações orientadas para manter a complexidade em níveis manejáveis (Cohn, 1998).
Agostinho (2003) usa os princípios de autonomia:
(I), cooperação
(II), agregação
(III) e auto-organização
(IV) para definir a complexidade de um sistema adaptativo.
Considerando (I) o papel que os indivíduos assumem como tomadores de decisão, orientados por suas próprias capacidades de julgamento considerando o que apreendem da interação com o ambiente ao seu redor. (II) serve para manter a coerência e a evolução nos sistemas, já que não existe uma autoridade central e depende apenas das ações autônomas das partes constituintes. (III) estabelece que os limites de um agregado – seja ele uma equipe, um setor, um departamento ou assim por diante – definem o universo de ação autônoma. (IV) determina que a direção da organização deve garantir que o resultado das ações seja reportado aos atores e que estes sejam capazes de compreendê-lo e de ajustarem seus comportamentos. Assim, esses princípios são capazes de orientar a administração das organizações.
A autora resume a relação entre os princípios dos sistemas complexos
adaptativos da seguinte maneira:
“Indivíduos autônomos, capazes de aprender e de se adaptarem, cooperam entre si obtendo vantagens adaptativas. Tal comportamento tende a ser selecionado e reproduzido, chegando ao ponto em que estes indivíduos cooperativos se unem formando um agregado que também passa a se comportar como um indivíduo e assim por diante. Diz-se, então, que o sistema resultante se auto-organiza, fazendo emergir um comportamento global cujo desempenho também é avaliado por pressões de seleção presentes no ambiente (externo e interno)” (Agostinho, 2003, p. 36).
As organizações se constituem sobre regras explícitas de adesão de seus
membros, e o conhecimento e a aceitação (por parte deles) de uma determinada
ordem de expectativas de comportamento. As organizações estabelecem
condições e requisitos para sua adesão. Ao condicionar a adesão de seus
membros, as organizações tentam regular a contingência das ações e
comunicações possíveis de desenvolvimento em seu interior, e desta maneira,
fixar as fronteiras, em termos de diferenças de complexidade, com seus
ambientes.
Em conseqüência, as organizações significam uma limitação das possibilidades
da ação através de uma regulação mais ou menos estreita das possibilidades
comunicativas disponíveis para os atores sociais que ingressam nelas. É por
isto que, como contrapartida a essas limitações, surge o mundo da
organização informal, ou seja, espaços internos na organização, onde primam
as relações que não são controláveis pelos meios formais. Este ambiente
interno das organizações pode inclusive ganhar espaço para se constituir em
uma organização dentro da organização.
Enquanto sistemas sociais, os indivíduos não pertencem às organizações, mas
sim determinados comportamentos que devem tomar em suas posições na
organização. É por isso que, mais que pessoas, uma organização é uma
estruturação de programas, tarefas, postos, posições hierárquicas e redes
definidas de comunicação de decisões. Toda organização distingue suas
operações entre dois ambientes: ambiente interno, ou seja, as
características que têm seus membros e o ambiente externo, seus clientes e
outros sistemas, com os quais mantém uma relação de serviços determináveis e
operacionais em termos do esquema
input/output.
Em todos estes processos está presente o problema da contingência, pois
nenhuma organização pode estabelecer uma correspondência de igual a igual
com seu meio. Estes sistemas se orientam rumo a um subsistema social, apesar
de como no caso das universidades, podem compartilhar benefícios para dois
ou mais destes sistemas parciais, de onde podem desfazer restrições, mas
também novas alternativas de ação (Rodrigues;
Arnold, 1991).
Os sistemas auto-referenciados e auto-poiéticos são compostos por cadeias
recorrentes de comunicação de decisões. O conceito de organização
auto-poiética não se vê afetado pelo fato de que as decisões estão ou não
orientadas por seu ambiente ou outros sistemas sociais, como tampouco pelo
tipo de metas que podem racionalizar as decisões, pois esta racionalização
sempre teve por origem uma decisão. Neste sentido, toda organização se rege
pelos mesmos princípios. As decisões são eventos comunicativos que, por sua
vez, requerem para sua comunicação outras decisões; a partir dessa condição,
as organizações são fechadas. O problema básico das organizações é,
conseqüentemente, o de poder seguir reproduzindo decisões (Rodrigues;
Arnold, 1991).
O agir comunicativo do Habermas e a crítica à teoria dos sistemas
Habermas (1990) afirma que a passagem do paradigma da filosofia da
consciência para a filosofia da linguagem constitui um corte profundo. A
partir deste momento os sinais lingüísticos, que serviam apenas como
instrumento e equipamento de representações, adquirem, como reino
intermediário dos significados lingüísticos, uma dignidade própria. As
relações entre linguagem e mundo, entre proposição e estados de coisas,
substituem as relações sujeito-objeto. O trabalho de constituição do mundo
deixa de ser uma tarefa da subjetividade transcendental para se transformar
em estruturas gramaticais.
A nova compreensão da linguagem obtém relevância paradigmática graças,
principalmente, às vantagens metódicas que exibe frente a uma filosofia do
sujeito, cujo acesso às realidades da consciência é inevitavelmente
introspectivo. É possível alguém se certificar da validade intersubjetiva de
observações através da prática experimental, portanto, através de uma
transformação regulada de percepções de dados. Parece que uma objetivação
semelhante ocorre quando empreendemos a análise de representações e
pensamentos seguindo as formações gramaticais, graças às quais eles são
expressos (Habermas, 1990).
Habermas (1990) afirma que somente através da passagem para uma pragmática
formal é que a analise da linguagem conseguiu reaver a amplitude e os
questionamentos da filosofia do sujeito, que tinham sido dados como
perdidos. O próximo passo consiste na análise dos pressupostos gerais que
devem ser preenchidos para que os participantes da comunicação possam entrar
em entendimento sobre algo no mundo. Estes pressupostos pragmáticos do
entendimento apresentam como peculiaridade uma grande dose de idealização.
Somente a guinada pragmática oferece uma saída para aquilo que Habermas
(1990) chama de recuperação da abstração estruturalista. As realizações
transcendentais não se retiram para os sistemas de regras gramaticais
enquanto tais: a síntese lingüística é muito mais o resultado da obra
construtiva do entendimento, a qual se efetua através das formas de intersubjetividade rompida. As regras gramaticais garantem a identidade de
significado das expressões lingüísticas, mas têm de deixar espaço para um
uso individualmente nuançado e inovador destas expressões, cujo significado
possui uma identidade apenas suposta.
A noção de agir comunicativo é um desdobramento da intuição segundo a qual o
telos do entendimento habita na linguagem. O conceito de entendimento possui
conteúdo normativo que ultrapassa o nível da compreensão de uma expressão
gramatical. Um falante entende-se com outro sobre determinada coisa e ambos
só podem visar tal consenso se aceitarem os proferimentos por serem válidos,
isto é, por serem conformes à coisa. O consenso sobre algo se mede pelo
reconhecimento intersubjetivo da validade de proferimento aberto à crítica
(Habermas, 1990).
Habermas (1989) propõe o empreendimento intersubjetivo através da discussão,
que deriva da concepção construtivista da aprendizagem, na medida em que
compreende a formação discursiva da vontade como forma de reflexão do agir
comunicativo e exige a passagem do agir estratégico para a discussão.
A teoria da discussão de Habermas (2007) põe em cena a noção de
procedimentos e pressupostos da comunicação para formação democrática da
opinião e da vontade, funcionando como importantes escoadouros da
racionalização discursiva das decisões na administração de organizações.
Racionalização significa mais do que mera legitimação, mas menos do que a
própria ação de constituir o poder, o qual administrativamente disponível
modifica seu estado de mero agregado, desde que a formação democrática da
vontade não se exerça apenas no controle posterior do exercício do poder,
mas que também o programe de uma maneira ou de outra o exercício do poder.
Os pressupostos da ética da discussão e a graças à validez da comunicação
voltada para o entendimento mutuo, um falante pode, por conseguinte, ao
assumir a garantia de resgatar uma pretensão de validade criticável, mover
um ouvinte à aceitação de sua oferta de ato de fala e assim alcançar para o
prosseguimento da interação um efeito de acoplagem assegurando a adesão
(Habermas, 1987).
A ética da discussão desenvolvida por Habermas (1989) não dá orientação de
conteúdo, mas sim o procedimento rico em pressupostos que deve garantir a
imparcialidade da formação de juízo. O discurso prático é um processo, não
para a produção de normas justificadas, mas para o exame da validade de
normas consideradas hipoteticamente. É só com este procedimento que a ética
da discussão se diferencia de outras éticas cognitivistas, universalistas e
formalistas. Todos os conteúdos, mesmo os concernentes a normas de ação, não
importa quão fundamentais estas sejam, têm de ser colocados na dependência
de discursos reais.
A discussão prática acontece quando o modo de agir carece de fundamentação
de natureza coletiva e os membros da organização têm que chegar a uma
decisão comum sobre suas ações tem que tentar convencer-se mutuamente de que
é interessante para cada um que todos ajam assim. Neste processo cada um
indica ao outro as razões por que ele pode querer que um modo de ação seja
tornado socialmente obrigatório. Cada pessoa tem de se convencer de que a
norma proposta é igualmente boa para todos. A discussão pode criar
argumentos que legitimem a decisão de orientações para a ação coletiva e
acordos práticos (Habermas, 1989).
Na medida em que os participantes da comunicação compreendem aquilo sobre o
que se entendem como algo em um mundo, como algo que se desprendeu do pano
de fundo do mundo da vida para se ressaltar em face dele, o que é
explicitamente sabido separa-se das certezas que permanecem implícitas, os
conteúdos comunicados assumem o caráter de um saber que se vincula a um
potencial de razões, pretende validade e pode ser criticado, isto é,
contestado com base em razões. (Habermas, 1989).
A discussão conta com a intersubjetividade presente nos processos de
entendimento que se cumprem, por um lado, na forma institucionalizada de
aconselhamento nas organizações, e, por outro, nas redes de comunicação. As
estruturas de comunicação da opinião compõem rede amplamente disseminada de
sensores que reagem à pressão de situações-problema nas organizações. A
opinião transformada em poder comunicativo segundo procedimentos
democráticos não pode “dominar”, mas apenas direcionar o uso do poder
administrado para determinados canais. O discurso argumentativo imuniza
ações de repressão e desigualdades, apresenta-se como forma de comunicação
aproximada das condições ideais de cooperação.
Serva (1997) relata para as dificuldades encontradas em demonstrar
explicitamente como e quando a razão substantiva de Guerreiros Ramos se
concretiza nos processos e na dinâmica organizacionais. Para compreender
melhor esse dilema emprega a teoria da ação comunicativa de Habermas.
Destacando fortemente o sujeito, apontando os seus requisitos básicos para a
concretização da ação comunicativa, que são a plena capacidade de
comunicação, autonomia para agir e a responsabilidade.
Vizeu (2005) faz uma crítica à razão instrumental, mas está entre os que
consideram que a
Escola de Frankfurt de Adorno e Horkheimer não oferecem uma teoria
social que oriente a emancipação da razão. Assim, ele destaca a contribuição
de Habermas ao abandonar a filosofia da consciência e adotar a filosofia da
linguagem. Nesse novo paradigma o caráter emancipatório da razão é observado
pela relação intersubjetiva dos participantes em interação. Esse modelo de
comunicação pode ser considerado no meio organizacional, criticando os
existentes quase sempre deformados pela hierarquização e pela burocracia.
Habermas (1987) constrói seu conceito de ação social retomando a história da
Teoria Sociológica e analisa de maneira crítica o funcionalismo da Teoria de
Sistemas na obra de Talcott Parsons e Niklas Luhmann. Identifica-se na obra
de Parsons o funcionamento de dois programas distintos: um programa “ação
social” na tradição idealista e outro “sistema social” na tradição
positivista. O programa “ação social” incide sobre o significado que
uma ação tende para um ator, enquanto o “sistema social” incide sobre as
conseqüências que uma atividade tende para um sistema.
Habermas (1987) interpreta que a ação exige um esforço em certo modo moral,
está em conexão com o “voluntarismo” do marco de teoria da ação
proposto por Parsons a qual não pode explicar, pois sua análise se restringe
à unidade fundamental de ação. Em um marco de teoria da ação que só
compreende as orientações de um ator solitário não pode explicar-se o
conceito de orientação normativa da ação.
Parsons não se interessa, todavia, pelos processos de materialização e de
ancoragem, isto é, pelos processos de institucionalização dos valores. Ao se
contentar com a caracterização da dimensão normativa e a concordância ou não
do ator, ele reconhece a correspondência entre os planos pessoal e
suprapessoal, mas desconsidera o pressuposto de reconhecimento da pretensão
de validade das normas e valores, que segundo Habermas (1987), não pode ser
tomado como mera externalidade.
Habermas (1987) afirma que Parsons não consegue sustentar o conceito de ação
teleológica regulada por valores culturais que estruturariam as decisões dos
atores e abandonou o esforço de esclarecer a idéia de que os valores
culturais fossem incorporados à sociedade por meio da institucionalização,
no sistema social, e internalização (socialização), no sistema de
personalidade.
Siebeneichler (2006) chama atenção para dois pontos diferentes entre a visão
de Luhmann e a de Habermas. Para Habermas, a razão é comunicativa e pública,
não uma simples inteligência que opera e calcula monológica e secretamente:
"Para sabermos se aquilo que fazemos no mundo ou se nossas representações
do mundo são racionais, não temos outra saída a não ser a troca pública -
livre e libertadora - de argumentos sobre aquilo que experimentamos e
pensamos".
O outro ponto é a questão da comunicação e da intersubjetividade. Niklas
Luhmann situa o conceito de comunicação - que define como um operador
comunicativo e funcional - no paradigma de sistemas auto-referenciais, onde
ela é interpretada como um processo de seleções de sentido, autônomas e
fechadas, realizadas por sistemas psíquicos. Neste contexto, a comunicação
passa a ser entendida como operação básica paradoxal, uma vez que permite a
qualquer sistema entrar em contato com o seu entorno e, ao mesmo tempo, se
isolar dele.
Além disso, nessa "situação basal" os sistemas dispõem de uma linguagem dotada de um fundo semântico. Em contrapartida, Habermas privilegia as ações comunicativas que se realizam mediante a linguagem comum ante o pano de fundo do mundo da vida que constitui pressuposto, o horizonte, os recursos e o contexto para processos racionais de entendimento pela linguagem (Siebeneichler, 2006).
Além disso, a realização desses processos depende de discursos e argumentos
destinados a resgatar pretensões de validade. Habermas interpreta a
intersubjetividade como o "resultado intermitente" da relação
histórica frágil e vulnerável entre um ego e um alter, isto é, de uma
comunicação ou interação entre sujeitos capazes de falar e agir e que por
isso mesmo não podem ser tidos como mônadas destituídas de janelas nem
caixas-pretas (Siebeneichler, 2006).
Siebeneichler (2006) aponta para a interpretação que Luhmann faz em relação
à intersubjetividade. No contexto de uma dupla contingência, Luhmann
argumenta que a noção tradicional de intersubjetividade que se fundamenta na
co-originariedade da intersubjetividade e da subjetividade, e em uma
dialética entre ego e alter, apenas reproduz a alteridade na perspectiva de
uma “egoidade”, fazendo com que a intersubjetividade seja
simplesmente reprisada na perspectiva do sujeito.
Em Luhmann, a unidade da relação entre ego e alter não se encontra no ego,
nem em alter, mas em certo ponto situado entre ambos. E já que, para Luhmann,
as necessidades de comunicação entre ego e alter não residem no meio
lingüístico da comunicação (linguagem comum), ego ou alter têm de
decidir unicamente por si mesmos, cada um por seu lado, se uma determinada
suposição funcionou ou não, se ela permite ou não o engate de outras
suposições (Siebeneichler, 2006).
Enquanto que para Habermas o princípio da intersubjetividade é visto à luz
do paradigma do entendimento racional. Neste paradigma ego e alter aparecem
como sujeitos que se socializam por meio de uma comunicação intersubjetiva
viabilizada pela linguagem que é comum a ambos, uma vez que se encontram
previamente em mundos da vida compartilhados intersubjetivamente (Siebeneichler,
2006).
Trabalho imaterial, discussão e colaboração nas organizações
André Górz (2005) afirma que na economia atual, todo trabalho, seja na
produção industrial seja no setor de serviços, contém um componente de saber
cuja importância é crescente. As tecnologias de informação e comunicação
re-valorizam formas de saber vivo adquiridos no cotidiano, que pertencem à
cultura do cotidiano: o saber da experiência, o discernimento, a capacidade
de coordenação, de auto-organização e de comunicação. O modo como os
empregados usam este saber não pode ser predeterminado nem ditado. Toda
produção se assemelha a uma prestação de serviços. Os fatores que determinam
a criação de valor são o componente comportamental e a motivação, e não o
tempo de trabalho.
O saber que se torna à fonte mais importante da criação de valor é
particularmente o saber vivo, que está na base da inovação, da comunicação e
da auto-organização criativa e continuamente renovada. O trabalho do saber
vivo não produz nada materialmente palpável. Ele é, sobretudo na economia de
rede, o trabalho do sujeito cuja atividade é produzir-se a si mesmo. Todo
usuário do trabalho em rede sincroniza-se continuamente com os outros, e os
dados que usa põem em marcha um processo em que o resultado coletivo excede
de longe a soma de dados usados individualmente. Pierre Lévy compara a
“inteligência coletiva”, que assim se origina, a um “coro polifônico
improvisado” (Gorz, 2005).
Com a informatização da produção, a heterogeneidade do trabalho concreto
tende a ser reduzida, e o trabalhador é cada vez mais afastado do objeto do
seu trabalho. O computador se apresenta como a ferramenta universal, ou
melhor, como a ferramenta central, pela qual deve passar toda e qualquer
atividade. Mediante a informatização da produção, portanto, o trabalho tende
à posição de trabalho abstrato. O trabalho na produção informacional
baseia-se no que pode ser chamado de cooperação abstrata. Este trabalho
confere ainda um lugar mais central à comunicação de conhecimento e de
informação, mas aqueles que cooperam não precisam estar presentes num lugar
e podem ser relativamente desconhecidos entre si, ou ser conhecidos apenas
pelo compartilhamento de informações. Os lugares de produção podem ser
desterritorializados e tendem a existência virtual, como coordenadas da rede
de comunicação (Hardt; Negri, 2003).
O conceito de trabalho imaterial é desenvolvido por Lazzarato e Negri
(2001), a partir da década de 1990, nas suas análises do desenvolvimento da
sociedade pós-industrial. Os autores afirmam que as condições do
desenvolvimento da sociedade pós-industrial são: 1) o trabalho se transforma
integralmente em trabalho imaterial e a força de trabalho em
“intelectualidade de massa” (os dois aspectos que Marx chama de
General Intellect) e 2) a “intelectualidade de massa” pode se
transformar em sujeito social e politicamente hegemônico.
A cooperação lingüística é o modelo de produção pós-industrial e pós-moderno
– modelo não apenas pelo fato material de que as máquinas funcionam através
de linguagens, mas também porque, através da linguagem, emergem formas
sempre originais de cooperação entre as pessoas. Não nos encontramos diante
de pessoas, mas diante de singularidades que cooperam. Se a cooperação
lingüística é a cooperação produtiva, tudo, então, parece estar dentro dessa
cooperação (Negri, 2003).
O trabalho imaterial repousa sobre as capacidades expressivas e cooperativas
que não se podem ensinar, sobre uma vivacidade presente no uso dos saberes e
que faz parte da cultura do cotidiano. Os trabalhadores do capitalismo
pós-industrial devem entrar no processo de produção com toda a bagagem
cultural que eles adquiriram nos jogos, nos esportes de equipe, nas lutas,
disputas, nas atividades musicais, teatrais, etc. É nas atividades que estão
fora do trabalho que são desenvolvidas as suas capacidades de improvisação e
cooperação (Gorz, 2005).
Quando as capacidades de comunicação, relacionais, cooperativas, criativas
passam a fazer parte da força de trabalho, estas capacidades implicam a
autonomia do sujeito, não podem ser comandadas. A dominação do capital não
pode então ser exercida diretamente sobre o trabalho vivo por coerções
hierárquicas. Ela só pode se exercer por vias indiretas: deve tomar a forma
de um condicionamento que conduz o sujeito a aceitar ou escolher ele próprio
exatamente o que se trata de impor-lhe (Gorz, 2004).
Gorz (2004) afirma que, onde o
modelo
fordista-taylorista do capitalismo industrial foi mais ou
menos suplantado, o capitalismo pós-industrial se apresenta como anúncio de
uma possível re-apropriação do trabalho pelos trabalhadores, e ao mesmo
tempo, como regressão a sujeição total, a quase submissão da própria pessoa
do trabalhador. A emancipação virtual dos trabalhadores pós-fordistas no
seio do seu trabalho caminha de par com um controle social reforçado. Tal
controle assume a forma particular da submissão das pessoas à pressão
conformista e totalitária.
A nova organização do trabalho e o renovado modo de produção capitalista têm
por base aquilo que há de mais comum na vida dos homens: a linguagem. A
linguagem é o modelo mais rarefeito, embora mais intenso, da economia. O
comum lingüístico é continuamente reproduzido e enriquecido pelo trabalho
vivo. Estamos no ponto mais significativo das novas tecnologias de
informação e comunicação e da aplicação da engenharia do conhecimento e da
informação (Negri, 2003).
A hegemonia do trabalho imaterial cria relações comuns e formas sociais
comuns de um modo mais pronunciado do que nunca. Naturalmente, cada forma
hegemônica de trabalho cria elementos comuns. Os produtos do trabalho
imaterial são imediatamente sociais. A produção de comunicação, de relações
afetivas e de conhecimento é capaz de expandir diretamente o campo de
compartilhamento. Assim, casos singulares de processos de trabalho,
condições produtivas, situações locais e experiências vividas coexistem com
um “devir comum” – que tende a reduzir as divisões na qualidade do
trabalho (Hardt; Negri, 2005).
A utopia da sociedade do trabalho havia tomado como orientação a idéia da
auto-atividade e o contraste entre trabalho vivo e trabalho morto. No
entanto, ela teve de interpretar as formas de vida e a cultura dos
trabalhadores da indústria como fonte de solidariedade. Além disto, era
necessário pressupor que as relações de cooperação na fabrica iriam
fortalecer a solidariedade. A despeito disso, essas relações se decompuseram
quase totalmente. E nada indica que a força fundadora de solidariedade possa
ser regenerada nos locais de trabalho.
Benkler (2006) afirma que o software livre sugere que o ambiente em rede
possibilita uma nova modalidade de organização da produção: descentralizada,
colaborativa e não proprietária; baseada no compartilhamento de recursos e
de resultados entre pessoas amplamente distribuídas e frouxamente ligadas,
que cooperam entre si, sem depender de qualquer mercado ou de comandos na
administração. Um choque tecnológico altera os fundamentos econômicos de
produção. O que se vê é o surgimento de ação coletiva eficaz,
descentralizada, que não depende tanto do sistema de preços ou de estrutura
para coordenação.
As pessoas têm razões psicológicas e sociais variadas para agir. Se o custo
de fazer é baixo - como é o custo de participar na produção de informações
que estão na Internet, então não é preciso um alto grau de motivação. E,
como a rede conecta tanta gente em tantos lugares e ao mesmo tempo, tudo o
que é preciso para que a sociedade de produção compartilhada seja
sustentável é que centenas de milhões de pessoas conectadas, que podem
dispor de cinco minutos ou duas horas ou uma semana para se dedicar a um
projeto, se dediquem a esse projeto, que vai se tornar um conhecimento
criado coletivamente (Benkler, 2006).
A utopia da sociedade do trabalho havia tomado como orientação a idéia da
auto-atividade e o contraste entre trabalho vivo e trabalho morto. No
entanto, ela teve de interpretar as formas de vida e a cultura dos
trabalhadores da indústria como fonte de solidariedade. Além disto, era
necessário pressupor que as relações de cooperação na fabrica iriam
fortalecer a solidariedade. A despeito disso, essas relações se decompuseram
quase totalmente. E nada indica que a força fundadora de solidariedade possa
ser regenerada nos locais de trabalho (Habermas, 2005).
Habermas (2005) destaca que aquilo que era pressuposto ou condição marginal
para a utopia da sociedade do trabalho, transforma-se agora num tema. E com
esse tema os acentos utópicos do conceito de trabalho se deslocam para o
conceito de comunicação. Fala-se de acentos, uma vez que a mudança de
paradigma, isto é, a mudança do paradigma da sociedade do trabalho para a
sociedade da comunicação implica uma mudança no modo de articulação na
tradição utópica. Esta mudança não implica em abandono da consciência
histórica e a controvérsia política.
É importante mencionar que esta mudança resulta na perda da ilusão em uma
totalidade concreta de possibilidades de vida futuras. O conteúdo utópico da
comunidade de comunicação reduz-se a aspectos formais da intersubjetividade
intocada. A expressão “comunidade de comunicação ideal” apenas caracteriza
condições gerais necessárias para uma prática comunicativa cotidiana e para
um procedimento de formação discursiva da vontade, as quais poderiam
habilitar os próprios participantes a realizar possibilidades concretas de
vida melhor e menos ameaçadas, talhadas conforme idéias e necessidades
próprias (Habermas, 2005).
Habermas (1989) observa que a idéia fundamental do agir orientado para o
entendimento mútuo é que um se motiva racionalmente pelo outro para uma ação
de adesão – e isso em virtude do efeito ilocucionário de
comprometimento que a oferta de um ato de fala suscita, enquanto que no agir
estratégico um atua sobre o outro para ensejar a continuação desejada de uma
interação. No agir orientado para o entendimento são especificadas as
condições para um acordo a ser alcançado na comunicação.
São comunicativas as interações nas quais as pessoas envolvidas buscam
acordo para coordenarem seus planos de ação, sendo o acordo alcançado em
cada caso medido pelo reconhecimento intersubjetivo das pretensões de
validade situadas. No caso dos processos de entendimento mútuo lingüísticos,
os atores erguem com seus atos de fala, ao se entenderem sobre algo,
pretensões de validez, mais precisamente, de verdade, correção e
sinceridade, conforme se refiram a algo no mundo objetivo, no mundo social
comum e no mundo subjetivo próprio (Habermas, 1990).
Quando se tem presente à função coordenadora das ações que as pretensões de
validez normativas desempenham na pratica comunicativa cotidiana, percebe-se
por que os problemas que devem ser resolvidos em argumentações não podem ser
superados de modo monológico, mas requerem um esforço de cooperação.
Ao entrarem numa argumentação, os participantes prosseguem sua ação
comunicativa numa atitude reflexiva, com objetivo de restaurar um consenso
perturbado. As argumentações servem, pois, para dirimir consensualmente os
conflitos de ação.
Enquanto empreendimento intersubjetivo, o agir comunicativo e a argumentação
são necessários porque é preciso, para a fixação de uma linha de ação
coletiva, coordenar as intenções individuais e chegar a uma decisão comum
sobre essa linha de ação. Só quando a decisão resulta de argumentações, isto
é, se ela se forma segundo as regras pragmáticas de uma discussão, que a
norma decidida pode valer como justificada. Ela deve possibilitar a
autonomia na formação da vontade. A forma de argumentação resulta assim da
necessidade de participação e do equilibro de poder (Habermas, 1989).
A partir de aspectos processuais Habermas (1989) considera que a discussão
argumentativa apresenta-se como um processo de comunicação em que mostram
estruturas de situação de fala que está particularmente imunizada contra a
repressão e a desigualdade e que suficientemente aproximada de condições
idéias. Assim, a descrição dos pressupostos da argumentação são as
determinações de uma situação de fala ideal. É possível comprovar a
pressuposição de algo como uma “comunidade ilimitada de comunicação”.
Os participantes de uma argumentação não podem se esquivar à pressuposição
de que a estrutura de sua comunicação exclui toda coerção atuando do
exterior sobre o processo de entendimento mútuo ou procedendo dele próprio,
com exceção da coerção do argumento melhor, e que ela assim neutraliza todos
os motivos, com exceção do motivo da busca cooperativa da verdade (Habermas,
1989).
Habermas (2007) afirma que se podem representar processos de aprendizagem
morais como uma ampliação inteligente e como um entrecruzamento de mundos
sociais que, ao se depararem com conflitos, ainda não conseguem se sobrepor
suficientemente, as partes contundentes aprendem a inserir-se,
reciprocamente, em um mundo construído em comum, a partir do qual é possível
avaliar e solucionar consensualmente, a luz de padrões de avaliações
consensuais, ações controversas, fazendo uso da discussão para chegar ao
melhor argumento, a problematização orientada para o entendimento
possibilita o encontro de soluções, melhoria de processos e a inovação.
Considerações finais
Neste trabalho faz-se o confronto entre Luhmann e Habermas no sentido de
contribuir para melhor agir de modo comunicativo nas organizações. A teoria
de sistemas de Niklas Luhmann apresenta conceitos relevantes em relação à
complexidade do ambiente e como os sistemas se apresentam como redutores
dessa complexidade, apesar de possuírem uma complexidade interna que, quanto
maior, mais pode fazer frente à complexidade do ambiente.
No caso das organizações essa redução permite a estruturação dos processos
produtivos, mas, ao mesmo tempo, provoca a limitação da comunicação
organizacional, concorrendo para que esse sistema tenha uma complexidade
mínima, tal que não suporte a complexidade do ambiente.
A partir desta discussão propõe-se o uso da Teoria da Ação Comunicativa de
Habermas para abordar uma comunicação organizacional que deve, acima de
tudo, se sustentar em ações dialógicas. Acredita-se que ao fomentar o
entendimento através do discurso, aumenta-se a complexidade do sistema,
contribuindo para que a relação sistema-ambiente torne-se mais eficaz.
As comunicações sem sujeito, internas e externas às organizações e
programadas para tomar decisões, formam arenas nas quais pode ocorrer a
formação mais ou menos racional da opinião e da vontade acerca de temas
relevantes e de matérias carentes de regulamentação. A formação da opinião
que se dá de maneira informal desemboca em decisões institucionalizadas e em
resoluções pelas quais o poder criado pela via comunicativa é transformado
em poder administrativamente aplicável (Habermas, 2007).
Schraiber (1999) discute informação e comunicação no trabalho de
administração em organizações complexas. O trabalho em equipe na
administração requer a recomposição de suas ações. A comunicação dos membros
da organização deve ser pensada não somente como meio de estabelecer
relações e nexos entre ações, mas também como modo de construção do
entendimento quanto a resultados esperados e meios para obtê-los. A
comunicação possibilita construir “projetos comuns”.
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Sobre os autores / About the Authors:
Clóvis Ricardo Montenegro de Lima
Doutor em Administração e em Ciência da Informação. Pesquisador do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia.
Aline Lopes Silveira
Mestranda em Administração na Universidade Federal de Santa Catarina
Jacqueline Alexandre Martins
Mestranda em Ciência da Informação na Universidade Federal de Santa Catarina.
Lidiane dos Santos Carvalho
Mestranda em Ciência da Informação na Universidade Federal de Santa Catarina.