Resumo: O presente artigo discorre, através de uma revisão bibliográfica, entre um determinado estado sociológico das tecnologias de informação e comunicação, a confiança e a segurança na sociedade em redes como fator de influencia sobre diferentes formas de organizações no mundo presente. Na passagem da era da informação para a era do conhecimento, nos deparamos com uma sociedade que se organiza em rede, onde a individualização da era da informação se transforma em sociabilização. O estudo da cultura da virtualidade real formada por processos de comunicação, apresenta o domínio da diversidade, e constrói um novo ambiente simbólico, valorizado pelo universo digital que liga em um hipertexto histórico, manifestações passadas, presentes e futuras da mente humana. Aponta-se o virtual como complexo e problemático, um nó de tendências ou de forças que acompanham situações e acontecimentos. Observa-se a formação de comunidades, onde o sentido de ‘comunidade’, revela um tipo de mundo que não está ao alcance de todos, mas onde todos gostariam de estar. No momento que se amplia essa discussão, reflete-se sobre a perspectiva da gestão do conhecimento para organizar essas respostas e superar os desafios das tecnologias de informações e comunicações na sociedade em redes.
Palavras-chave:
Sociedade em rede; Comunidades de prática; Tecnologias de informação e
comunicação; Gestão do conhecimento; Sociedade do conhecimento.
Abstract:
This article discusses, through a literature review, among a certain
sociological state of information technology and communication, confidence
and security in society networks as a factor of influence on different forms
of organizations in the world today. In the passage of the information age
to the knowledge era, we face a society that organizes itself into the
network, where the individualization of the information turns into its
socializizatio. The study of the culture of real virtuality formed by
processes of communication, presents the field of diversity, and builds a
new symbolic environment, valued by the digital universe that links in a
hypertext historical events of the past, present and future of the human
mind. It points the virtual as complex and problematic, a knot of tendencies
or forces that accompany situations and events. Observes the formation of
communities, where the sense of 'community', reveals a kind of world that is
not accessible to everyone, but where everyone would like to be. The moment
you widen this discussion, we reflect on the perspective of knowledge
management to organize these responses and overcome the challenges of
information technologies and communications networks in society.
Key words: Society network; Communities of pratice;
Technologies of information; Knowledge management; knowledge society.
Introdução
O presente trabalho propõe uma análise sobre as tecnologias de informação e
comunicação, seus desafios, possíveis impactos e riscos na sociedade em
redes. Caracteriza-se como uma revisão bibliográfica interdisciplinar para
refletir a interligação do conhecimento com as questões psicossociais
relacionadas com o ambiente organizacional proposto por essas tecnologias,
em convergência com a era do conhecimento. Discorre através do embasamento
da sociedade em redes e como essa estrutura pode influenciar a percepção das
tecnologias de informação e comunicação e os seus impactos nas organizações.
A ideia de aliar o conceito de tecnologias de informação e comunicação com a
sociedade em rede, parte dos estudos do autor Manuel Castells
(1999), quando do seu primeiro volume a trilogia: “Sociedade em rede - a
era da informação: economia, sociedade e cultura”. O autor destaca o
cenário proposto pela sociedade da informação, na nova economia, organizada
em torno das redes globais de informações, acentuando as novas tecnologias
de informação e comunicação, e observa de que maneira elas permeiam os
diferentes cenários da estrutura social.
Os estudos revelam conceitos de modelos de relacionamentos da vida pessoal e
organizacional, e indicam a “cultura da virtualidade real” para
compreender questões atuais de comportamento e percepção da realidade.
Assim, a gestão do conhecimento apresenta a interdisciplinaridade, e
relaciona outras esferas dos saberes, para estudar diferentes sistemas que
oferecem arcabouço teórico para compreender essa questão. Porém apoiar-se no
caráter explicativo sob o ponto de vista dos sujeitos, tem-se que se afastar
do objeto, e observar de maneira não determinista, mas reflexiva, os
aspectos da cultura organizacional. Para isso, centra-se o conhecimento do
individuo, nos relacionamentos, concentrando esforços para o aumento da
positividade conectiva, compreendendo que as tecnologias de informação e
comunicação seguem um caminho sem volta, e que a cultura, contextualizada
nesse caso, é salutar para o espírito da organização.
Esse argumento configura um dos desafios desse trabalho em razão de
compreender a sociedade em redes e a criação do conhecimento gerada pelas
interações, como fator condicional na geração de valor para as organizações.
Para compreender a relação das tecnologias de informação e comunicação e a
sociedade em rede, parte-se de quatro premissas básicas:
1) as redes sociais que constituem a nova morfologia social;
2) o poder dos fluxos, quando mais importante que os fluxos do poder;
3) a nova economia e as redes globais de informação e capital;
4) o conhecimento e os fluxos de produção de conhecimento.
Pode-se pensar que as tecnologias da informação, a partir dos anos 70
sugerem à sociedade, uma nova conduta de relações humanas, redesenhando os
conceitos de “coletivo” e de “comunitário”, em função das
tecnologias disponíveis nos ambientes virtuais propostos pela sociedade da
informação.
O cenário da sociedade em redes.
Os impactos desse novo cenário podem considerar os pensamentos do sociólogo
Zygmunt Bauman e seus estudos da “Modernidade Liquida”
(2001) que escorre, flui, entre os aspectos de confiança e segurança na
movimentação das comunidades, outro tema discutido por Bauman. O autor
compreende que, quanto maior o grau de confiança entre os membros de uma
comunidade, mais as chances de que as comunidades se desenvolvam em prol dos
seus objetivos. Bauman, não trata das comunidades virtuais propriamente
ditas, mais traz uma visão sociológica dos ambientes virtuais na sociedade
em redes, estabelecendo profunda relação entre os aspectos da comunicação e
da aprendizagem.
Fortalecendo o pensamento sobre a segurança e a confiança, Pierre
Lévy (1992) diz que “a comunicação interativa e
coletiva é a principal atração dos ambientes virtuais, e essa interação é um
instrumento que parte do social e possibilita desenvolvimento, a partir da
partilha da memória, da percepção, da imaginação, resultando na aprendizagem
coletiva e na troca de conhecimentos entre os grupos”. Nesse caso,
pode-se pensar que para uma rede informacional de aprendizagem alcançar seus
objetivos, quanto mais estreitos os laços de confiança entre os sujeitos,
maior é a sensação de pertence, o que constitui maior segurança “num
mundo onde nada é certo e as relações fluem no ar” - liquidas (Bauman,
2001). Essa questão instiga a refletir com atenção, sobre os desafios e
riscos que ainda estão por vir nessa nova sociedade, no que tange o fluxo
das informações.
Pierre Levy (2000), diz que “as redes computacionais
suportam tecnologias que transportam grande carga de conhecimento, que
transformam e modificam a maioria das capacidades cognitivas”. Parte-se do
pressuposto que essa carga, propõe uma universalidade digital formada por
redes interativas, que por sua vez, redefinem de maneira fundamental as
relações de conhecimento. Esse particular trata de fluxos de informações,
onde o poder dos fluxos é mais importante que os fluxos do poder.
A redefinição dos fluxos de informações na sociedade em redes traz desafios
de legitimidade, fragmentação e reagrupamento das informações e das pessoas,
em função de um novo instrumentalismo, muitas vezes abstrato às identidades
primárias e particulares dos seres humanos. O instrumentalismo contribui
para uma certa positividade entre as redes sociais, porém não evidencia de
forma clara, os efeitos da soma dos sujeitos, e suas produções de
conhecimento.
Nesse sentido, deve-se considerar como fator de estudos – a cultura e o
sentido ontológico do sujeito, somado a individualização do comportamento
humano gerado pela sociedade da informação. E como a responsabilidade de um
mundo de “pertence”, requer revisões estruturais em direção a
interação e a democratização das identidades, visualizando consequências
sociais involuntárias na reconstrução dos valores que permeiam as “novas
comunidades”.
Para refletir as questões de comunidade, a gestão do conhecimento reconhece
as “comunidades de práticas”- estudas por Ethienne Wenger
(1998), e compreende que um grupo de pessoas que se importa com um conjunto
comum de questões, que compartilham e desenvolvem conhecimentos nesse
domínio e, assim, organizam uma competência crítica para o sucesso da
organização, são responsáveis pela fruição do conhecimento adquirido em
diferentes núcleos dos sistemas organizacionais, agrupadas normalmente pela
conectividades positiva do sentido do “trabalho” e seus objetos.
A Cultura e a Virtualidade Real
A argumentação de Manuel Castells (1999) na sociedade em
redes ressalta os efeitos das tecnologias a partir da década de 90. O autor
apresenta sua formulação teórica intitulada "a cultura da virtualidade
real", lembrando que as culturas consistem em processos de comunicação e
que, uma vez sendo a comunicação baseada em sinais, não há separação entre
"realidade" e representação simbólica. Castells entende, que a importância
disso para as relações humanas, esta na compreensão de que cada vez mais as
relações acontecem em ambientes multimídias, e que esse assunto, deve ser
mais investigado. Mais que isso, o autor reflete o conceito de virtual, e
traduz: tudo que é virtual é desprovido de realidade. Contrapondo-se,
Lévy (1996) diz que “essa visão é errônea, já que o
virtual é real e não se opõe ao mesmo, ainda que não esteja nas mesmas
categorias de tempo e espaço (é desterritorializado e atemporal)”.
Na tentativa de compreender e estabelecer uma relação entre os ambientes
virtuais e a “cultura da virtualidade real”, observa-se à falta de um
território comum sem hora marcada, alheia ao tempo e ao espaço, de maneira a
solucionar problemas individuais ou organizacionais em qualquer tempo e em
qualquer lugar. Compreende-se com isso, uma conectividade positiva para a
criação de comunidades virtuais de práticas, legitimadas diante do tempo e
do espaço, nas organizações. Traz consigo uma virtualidade real que influi
diretamente na estrutura da sociedade, muitas vezes como diferencial
competitivo nas organizações. Invariavelmente as tecnologias de informação e
comunicação são um meio de transportar conhecimento em redes de interações,
muitas vezes gerenciado sem foco analítico no individuo, mas nos
relacionamentos, o que nos leva a repensar como esses ambientes podem ser
socialmente construídos.
Desafios e riscos.
Ultrapassando os domínios da biologia e chegando aos fenômenos sociais, os
autores Maturana e Varela (2001) observam em seus estudos
que “nenhuma outra espécie de máquina, a não ser o cérebro humano, é
capaz de fazer isso - sistemas autopoiéticos, a um só tempo produtores e
produtos. Pode-se dizer, que eles são circulares, ou seja, funcionam em
termos de circularidade produtiva”. Sistemas circulares - “produto,
produção e riqueza”, com um centro propagador de informação muito mais
relevante do que somente dados inseridos num banco de informações, o
individuo e seus saberes.
Peter Drucker (2001) faz referencia a economia do
conhecimento inserida num mercado consumidor que não é determinado pelo
produtor, mas pelo consumidor, numa visão antropocêntrica, porém orientada
para o mercado. Sem dúvida o foco de Drucker nesse caso, diz respeito ao
marketing. Mas relacionando a teoria organizacional de Drucker e as
tecnologias de informação e comunicação, chega-se a Donald
Norman (1986) e seus trabalhos na engenharia de usabilidade. Os
trabalhos de Normam demonstram a importância da psicologia cognitiva e do
design de interfaces, centrada no ser humano, como fator de sucesso das
tecnologias de informação na sociedade em rede, na era do conhecimento.
A Psicologia Cognitiva estuda os processos perceptivos, a atenção, a
linguagem, a aprendizagem, etc. Estuda a forma como percebemos as coisas ao
entorno. Tenta explicar porque alguns estímulos são melhores lembrados do
que outros, a capacidade da memória, os tipos (curto e longo prazo), como e
por que num ambiente cheio de estímulos, somos capazes de discriminar e
focar a nossa atenção num só estímulo. Este tipo de conhecimento é básico
para explicar como os seres humanos interagem com os objetos/máquinas na
“economia do conhecimento”.
Para Maturana e Varela (2001) a ideia de que o mundo não é
um pré-dado, está construída a partir da interação do sujeito, não apenas
teórica, mas apoiada nas evidências concretas. Para os autores, a vida é um
processo de conhecimento, os seres vivos constroem esse conhecimento não a
partir de uma atitude passiva, mas sim por interação, ou seja, aprendem
vivendo e vivem aprendendo. Segundo os autores o conhecimento é
constituído por duas vertentes. Na primeira este não se limita ao
processamento de informações oriundas de um mundo anterior à experiência do
observador, o qual se apropria dele para fragmentá-lo e explorá-lo. E a
segunda em que os seres vivos são autônomos, autoprodutores, capazes de
produzir seus próprios componentes ao interagir com o meio; vivem no
conhecimento e conhecem no viver. Assim, as características únicas da vida
social humana e seu intenso acoplamento linguístico geraram um fenômeno
novo, ao mesmo tempo tão próximo e tão distante de nossa própria
experiência: a mente e a consciência.
Barreto (2009), descreve no texto do seu artigo
“Mediações digitais”
que, "com base em pesquisas internacionais realizadas, a mudança trazida
pela vida digital não é só comportamental. Há uma transformação no cérebro
das pessoas”. Esse pensamento complementa as questões do individuo, na
circularidade da produção do conhecimento gerado nas comunidades. Na
sociedade em rede, economias avançadas têm maior dependência de informações,
de conhecimentos, de altos níveis de especialização de dados e de
necessidade de interações.
Considerando a perspectiva acelerada das questões das tecnologias de
informação e comunicação, detectamos a relevância da interoperabilidade na
geração de conteúdo. Se pensarmos na produção em rede citada, pode-se
compreender o sentido de valor nas relações em rede, e a geração de
conhecimento dinâmico e contínuo para os sistemas de informação. Mas
interligando o conhecimento com as questões fundamentalmente subjetivas e
relacionais, os sujeitos se envolvem numa troca de dados, de informação, de
opinião, de colaboração e de mobilização, confrontado necessidades e
convergências com os mais diversos cenários da estrutura social. A Figura
1 abaixo sintetiza a relação descrita nesse parágrafo.
Figura 1: Interoperabilidade – Conteúdos interativos.

Fonte: PPEGC/UFSC, 2007.
Nas organizações, isso se dá na soma dos construtos individuais e contínuos,
alimentados por certo grau de objetividade empresarial, declarado
normalmente pela razão social da organização. Isso particularmente se
resolve, pela geração de canais de comunicação e disseminação do
conhecimento compartilhado que geram um conteúdo comum.
Castells (1999), sintetiza que a cultura formada por processos de
comunicação digital, está particularmente na diversidade, na construção de
um novo ambiente simbólico aonde todas as expressões culturais, da pior à
melhor, da mais elitista a mais popular, vêm juntas nesse universo digital
que liga em um supertexto histórico gigantesco, as manifestações passadas,
presentes e futuras da mente comunicativa.
Esses aspectos desafiam a velocidade de assimilação do aprendizado do
sujeito, na medida em que os fatos se sucedem muito rapidamente na sociedade
atual, e por consequência, impõem um processo complexo de escolhas e
decisões constantes, muitas vezes sem considerar questões relevantes sob o
ponto de vista organizacional. Exemplo disso é a demissão ou aposentadoria
de funcionários antigos sem atribuir o devido valor aos conhecimentos
individuais, que, se explicitados e compartilhados em redes, certamente
agregam valor para a organização.
Impactos e riscos
A conexão entre a sociologia e a tecnologia, requer analises
interdisciplinares instigantes sob o ponto de vista das tecnologias de
informação e comunicação. Na era do conhecimento, alguns autores das
Ciências Sociais, abrem a “caixa preta” das tecnologias, e trazem reflexões
epistemológicas para o centro dessa discussão. Ethienne
Wenger (1998), considera que as comunidades de prática, tem uma relação
virtuosa e importante entre o mundo real e virtual, no momento que
fortalecem o sujeito e geram competências coletivas, criando diferentes
comunidades de prática que interagem entre si, sejam elas de caráter
informal ou formal. Desse modo, afirmam-se os pensamentos sobre a
“cultura da virtualidade real”. Não somente as abstrações teóricas, mas
a experimentação pratica dos conhecimentos, nas construção das competências
organizacionais.
Os envolvidos numa comunidade de pratica, incorporam crenças e
comportamentos adquiridos que derivam da relação virtual, transpostas muitas
vezes para sua realidade, aumentando a segurança e a confiança individual,
num repasse de valores e de comportamentos que se intercalam na medida da
necessidade. Um exemplo disso é o Orkut, onde a inter-relação dos
indivíduos favorece novos conhecimentos, novos anseios e relações, até mesmo
novas linguagens e padrões. Esse tipo de comunicação facilita a discussão de
assuntos importantes, abre espaço para individualidades, quebra tabus e
diminui o tempo e os espaços - “comuns”, exemplo disso é o chat no
messenger.
A utilização dessas ferramentas ocorre cada vez mais frequentemente, em
diferentes tipos de relacionamentos na sociedade em redes. Avaliando sob o
ponto de vista da competitividade das organizações, as comunidades de
prática tornam-se diferencial competitivo, ao tratar da produtividade. A
aplicação do conhecimento adquirido por meio das comunidades de praticas,
produz trocas compartilhadas de soluções e inovações, abrem espaço para os
meios multimídia, e estendem os domínios, seja de casa para o trabalho, das
escolas aos hospitais, do entretenimento às viagens. A Figura 2
demonstra graficamente as comunidades de práticas.
Figura 2: Comunidades de Práticas.

Fonte: Adaptado de Saint – Onge H.E.Wallace D. , 2002
De um lado compreende-se tal fato como oportunidades para relacionamentos,
de outro como uma fragilidade social em estabelecer contato físico,
compartilhar interesses e solucionar problemas, de modo presencial. Nesse
momento, cabe perguntar até que ponto a sociedade esta preparada para a
dinâmica volátil e rápida das tecnologias de comunicação na “sociedade em
rede?” Além disso, se o sistema especialista comporta compreender mais
sobre o uso das tecnologias em rede, compartilhando a evolução tecnológica
com a consciência coletiva.
A consciência coletiva, proposta e pensada pelo sociólogo francês, Émile
Durkheim (1895), combina a pesquisa empírica com a teoria sociológica.
Reflete o reconhecimento da existência de uma "consciência coletiva",
partindo do princípio que o homem seria apenas um animal selvagem e só se
tornou humano porque se tornou sociável, ou seja, foi capaz de aprender
hábitos e costumes característicos de seu grupo social para poder conviver
no meio. Dentro da teoria clássica, a consciência coletiva demonstra
que os fatos sociais têm existência própria e independe daquilo que pensa e
faz cada individuo em particular. Embora todos possuam sua "consciência
individual", seu modo próprio de se comportar e interpretar a vida
pode-se notar, no interior de qualquer grupo ou sociedade, formas
padronizadas de conduta e pensamento. Essa constatação está na base do que
Durkheim chamou de consciência coletiva num arcabouço cultural de ideias
morais e normativas.
Na sociedade atual, o pensamento de grupo é um tipo de pensamento que
reflete de um lado a minimização dos conflitos, e de outro o consenso.
Entretanto, sem a devida atenção para os impactos e riscos dessa variação.
Para estar integrado é necessário o mesmo pensamento de grupo, o que muitas
vezes pode diminuir a capacidade criativa ou até mesmo fazer com que grupos
tomem decisões precipitadas e irracionais, onde dúvidas individuais são
postas de lado, por medo de perturbar o equilíbrio coletivo.
Consensar muito rapidamente, muitas vezes empobrece as discussões,
considerando que as mudanças partem da desconstrução do óbvio. Por um
reflexo de segurança, pode-se evitar a discussão, ou o desenvolvimento do
senso critico, mas até que ponto o “consensar” é saudável para o
grupo? Discutir não deve ser encarado como algo perturbador, mas sim como
contribuição individual para o construto do pensamento coletivo.
Contudo, diminuí-se a tensão entre esses valores, na medida em que se
demonstra, por meio de metáforas e analogias, os fundamentos da criação do
conhecimento em função da preservação de um “estado” integrado,
sentido e compartilhado que pode ser claramente observado, formatado,
expresso em palavras e números, fortemente orientado pela troca de dados, de
informação, de opinião, de colaboração, e de uma mobilização, em
convergência com os interesse da organização (Nonaka I,
Takeuchi H, 1997).
Minerar o conhecimento para o desenvolvimento de sistemas de informações na
era do conhecimento é considerar os ambientes externos e internos,
percorrendo caminhos investigativos ontológicos associados a tecnologias de
informações, como numa trama, em redes de associações e dissociações
individuais e coletivas que fornecem dados e influenciam fundamentalmente
essas tecnologias dentro das organizações. Esse importante diferencial
propõe novas avaliações e diálogos entre os indivíduos e seus meios. De
maneira genérica pode-se dizer que são práticas de gestão organizacional
voltadas para produção, retenção, disseminação, compartilhamento e aplicação
do conhecimento dentro das organizações, bem como para promover o
intercâmbio de experiências com o mundo externo (Nonaka I,
Takeuchi H, 1997).
A gestão do conhecimento.
A gestão do conhecimento no caso desse estudo organiza a compreensão teórica
sobre o assunto e aumenta a perspectiva da identificação do conhecimento,
adquirido pelos construtos pessoais, tácitos, como elemento primordial.
Enfatiza a relação direta do conhecimento com o indivíduo e,
consequentemente, com as ações humanas, envolvendo a criação de um ambiente
propício ao desenvolvimento de determinados atributos como autonomia,
interação entre ambientes, compartilhamento e acessibilidade às informações
(Nonaka I, Takeuchi H, 1997).Diante dessa nova ordem, as
tecnologias de informação e comunicação fazem à mediação da comunicação para
diferentes segmentos. No segmento da educação, a instalação e disseminação
do uso de tecnologias de informação e comunicação em rede no sistema
e-learning propícia à aproximação do individuo com o conhecimento,
especialmente nas seguintes modalidades de mídias interativas: a)
teleconferência, b) videoconferência e, c) acesso on-line com ferramentas
LearningSpace's, customizadas. Essas condicionantes estreitam os laços
entre os indivíduos e o conhecimento, oportunizando a sensação de
“pertencer” e contribuindo com aprendizagem.
Por outro lado, empresas japonesas se apropriam do conhecimento e
compartilham, quebram paradigmas mercadológicos, distinguindo-se dos
conceitos “fordianos” mecanicistas de trabalho do séc. XX. Essas
empresas aliam conceitos especialistas aos fundamentos psico - sociológicos
da filosofia japonesa, em busca de novas soluções somadas aos recursos
humanos e técnicos existentes no país, e formulam métodos de gestão. Exemplo
disso é a Sharp que criou uma base de conhecimento do consumidor fora da
organização, e através de indicadores específicos de pesquisa do cliente,
redesenhou seus produtos por meio de sistemas especialistas. A Toshiba
desenvolveu um projeto similar, estabeleceu um agente interno e outro
externo para incorporar conhecimento, de maneira orgânica, porém
compartilhada, criando um significativo diferencial competitivo (Fayard,
2006).
A Matsuhita Eletric Industrial Company, quando teve problemas com uma máquina de fazer pão na década de 80, e para resolver o problema, o chefe de desenvolvimento de produto, junto com vários engenheiros, foram até a melhor padaria da região e lá ficaram até observar o conhecimento tácito do padeiro-chefe em torcer a massa de pão de modo a dar a liga necessária para a massa (Costa, 2007). Resolveram o problema sistematizando o conhecimento e socializando a experiência no ambiente empresarial. A importância dos ambientes colaborativos, esta nos caminhos de como gerenciar equipes ou projetos de criação de conhecimento, como peças chaves para valorização do ambiente organizacional.
Para acrescentar, citamos novamente a visão autopoiética desenvolvida
por Maturana e Varela (2001), com destaque para o
conhecimento socialmente construído, como aquele que é determinado
contingencialmente e historicamente por meio do processo de interpretação e
da cognição social ligada à observação. Assim, relacionar a cadeia de
transformação dos dados em informação, e das informações em conhecimento,
obtendo como resultado a geração de riqueza, sem desconectar dos modelos
obtidos através dos significados das relações, contextualizadas pela
cognição social, pode caracterizar um novo pensamento social sobre as
tecnologias de informação e comunicação.
A valorização da criação do conhecimento se dá particularmente pela geração
de canais de comunicação e disseminação do conhecimento compartilhado. Esse
processo relacional nas organizações da sociedade em redes se desenvolve por
meio de uma construção contínua e dinâmica dentro dos ambientes interativos,
com destaque para as competências que transformadas em ação, produzem
criatividade e consequentemente inovação. Estas se disseminam por meio das
tecnologias de informação e comunicação. A relevância dessa questão esta em
compreender que as organizações são partes do mundo das ideias, e que esse
mundo não é um pré-dado, há uma construção ao longo de nossa interação que
produz efeitos em cadeia.
As organizações japonesas inspiram-se no sistema “expert” dos
norte-americanos e desenvolvem técnicas avançadas de criação do
conhecimento, partem do individuo, de sua habilidade técnica que,
sociabilizada se transforma em conhecimento explicito. Essas organizações
concentram esforços em “rede” de produção de conhecimento, inegavelmente
ultrapassando a fronteira tecnicista, e transformando conhecimento em gestão
estratégica para o sucesso, porém isso não é tudo.
Considerações Finais
Drucker (2001) faz referencia a compreensão dos desafios
das tecnologias de informação e comunicação diante da relevância da
informação e da capacidade de processamento de um dado dotado de relevância.
Ressalta a importância das mídias interativas nas organizações, e da
relação, aparentemente simples, porém significativa entre tempo e espaço, na
aceleração de processos fundamentais, seja por meio de ferramentas de
trabalho on-line, wikis, blogs, chats e ou comunidades em rede, a
exemplo do Orkut. Essa interatividade vem facilitando as comunicações
entre colaboradores, fornecedores e clientes, num estimulo entre a
colaboração e a participação coletiva, muitas vezes sem conferir a
procedência dos dados.
Observa-se uma nova ordem social refletida diretamente dentro das
organizações, tornando a produção do conhecimento, muitas vezes em tempo
real, um diferencial competitivo e um fator preponderante de geração de
riqueza. A interação homem máquina, aproxima o tempo, e o espaço, reproduz o
real para o virtual, e vice versa. De um lado produzindo fluxos de poder, e
de outro, riscos com questões complexas que necessitam de um espaço próprio
para discussão.
Sabe-se, portanto, que a sociedade em rede esconde uma complexidade
fundamental, uma vez que o espaço não é reflexo da sociedade, é sua
expressão. Em outras palavras: o espaço não é uma fotocópia da sociedade, é
a sociedade. Para Castells (1999) o espaço é o tempo
cristalizado, e esse limite se restringe no momento que não há participação
coletiva na produção do conhecimento. A interdependência global cria uma
relação entre a economia e a sociedade, gera um formato de capitalismo
flexível e descentralizado. Mas nem sempre atende as questões culturais.
Essa perspectiva propõe o processo de gestão do conhecimento dentro das
organizações, como uma forma de reestruturar velhos sistemas de
gerenciamento, e se organizar de maneira mais dinâmica e contínua, muitas
vezes gerando negócios em diferentes partes do mundo em tempo real, e
considerando aspectos importantes entre o individuo e a sociedade.
Finalmente diante dessas afirmativas, concluímos que a sociedade do
conhecimento, apontada por Drucker (1992), se reflete nos
pensamentos de Manuel Castells (1999), e ambos manifestam
a compreensão de que nesse novo tempo a sociedade se organiza com base nas
tecnologias de informação e comunicação, e que a rede e o ser, possuem uma
inter-relação direta na organização da era do conhecimento. Contudo,
construir ou desconstruir de maneira positiva, redes interativas de
relacionamentos, consolida uma revolução informacional nas forças
produtivas, reagrupando pessoas em torno de identidades e interesses que
merecem estudos interdisciplinares mais avançados.
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Sobre
os autores / About the Author:
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento, PGEGC/UFSC.
Gregório Varvakis
Ph. D.. em Ciência da Informação pela Loughborough University of Technology (Inglaterra).