DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.1   n.5  out/00                       COLUNAS & cartas

 
 
Sociedade da Informação e Universidade: uma perspectiva brasileira
por Maurício Santoro

Em nossa sociedade, a informação é cada vez mais considerada como uma mercadoria valiosa, em especial no que diz respeito ao mercado financeiro e ao avanço tecnológico e científico. O desenvolvimento dos meios de comunicação, principalmente a Internet, também foi fundamental para trazer a informação para o centro dos debates. Qual será o papel da universidade nessa sociedade da informação?

Histórico
Na Europa, EUA e Japão, as universidades tiveram um grande crescimento na segunda metade do século XX - exatamente o período em que se constitui a sociedade da informação. O historiador Eric Hobsbawm relaciona a expansão do ensino superior com o desenvolvimento econômico do pós-guerra:

"Era óbvio para planejadores e governos que a economia moderna exigia muito mais administradores, professores e especialistas técnicos que no passado, e que eles tinham que ser formados em alguma parte - e as universidades ou instituições semelhantes de educação superior vinham, por tradição, funcionando em grande parte como escolas de formação para o serviço público e as profissões especializadas." (1)

No Brasil, as primeiras universidades surgem na década da 1930. No contexto da industrialização do país, o meio acadêmico se forma de maneira semelhante à descrita por Hobsbawm. É durante a ditadura militar estabelecida com o golpe de 1964 que o perfil das universidades brasileiras começa a se transformar, com a presença cada vez maior do ensino superior privado. Hoje 70% dos alunos no ensino superior estão em instituições particulares, segundo dados do Ministério da Educação.

A universidade pública no Brasil de hoje
As estatísticas poderiam, num primeiro momento, fazer crer que as universidades públicas perderam a importância, mas não é assim. A maior parte das pesquisas acadêmicas está concentrada em poucas instituições públicas do centro-sul do Brasil: UFRJ, USP, Unicamp, Unesp, UFRGS, UNB, UFMG. 

Para definir esse quadro, criou-se a absurda expressão "universidades de pesquisa", quando uma das características básicas da universidade é reunir ensino, pesquisa e extensão. Na prática, a iniciativa privada forma a maior parte dos alunos de graduação, mas a maioria dos professores (mestres e doutores) vêm das universidades públicas.

Informação e tecnologia
Os empresários que investem nas universidades particulares afirmam que somente o capital privado é capaz de criar as vagas necessárias para a expansão do ensino brasileiro. Eles também argumentam que suas instituições estão melhor aparelhadas do que as públicas, possuindo laboratórios modernos e equipamentos avançados. 

A ênfase na tecnologia é constante na sociedade da informação - em grande parte, um produto do desenvolvimento dos meios de comunicação. Nesse contexto, o papel da universidade é o de preparar mão-de-obra qualificada para as grandes empresas. O modelo mais conhecido é a Universidade de Stanford, na Califórnia, que opera em parceria com as empresas de alta tecnologia instaladas no Vale do Silício.

Qual a viabilidade desse projeto no Brasil? A iniciativa privada investe na graduação, mas não na pesquisa de mestrado e doutorado, fundamentais para gerar desenvolvimento tecnológico próprio. Além disso, as políticas neoliberais adotadas pelos presidentes brasileiros na década de 1990 enfraqueceram a indústria nacional e aumentaram a participação das multinacionais, em especial na área de telecomunicações e informática. Isso significa que um cientista ou engenheiro brasileiro provavelmente irá exercer a profissão numa empresa estrangeira. Daí surge a conseqüência lógica desse processo, apontada pelo filósofo Roberto Romano: 

"O ministro Paulo Renato chegou a dizer na revista 'Exame' que seria ótimo imitar a Coréia, não incentivar cursos de pós-graduação no país e mandar gente, por exemplo, para Harvard, porque era mais barato. [O governo diz:] 'Hoje na era da Internet, a gente não precisa mais de instituto de pesquisa aqui no Brasil. Apareceu uma moléstia, você acessa a Internet, vem o remédio e está tudo resolvido.' " (2)
 

(... continua)
(...)

O quadro pintado por Romano é extremo - uma advertência do que podemos nos tornar. Seria, em realidade, sermos consumidores de ciência e tecnologia, ao invés de produzi-las. Algo coerente com a globalização estabelecida após o Consenso de Washington (1990): à América Latina cabe ser mercado para as indústrias dos EUA e da Europa. Mas podemos exportar soja, suco de laranja, discos de bossa-nova e até conseguir uns dólares dos turistas no carnaval.

Informação global e local
Existe alternativa a essa situação? Se a resposta for sim, então ela passa com certeza pela universidade pública e pelas empresas estatais de tecnologia e pesquisa científica, como a Petrobrás e a Embrapa. A política do governo tem sido cortar verbas para essas instituições, provocando repetidas greves nas universidades (1996, 1998, 2000), sérios vazamentos de petróleo e protestos por toda parte.

Na busca cada vez mais acirrada pelos financiamentos, os pesquisadores muitas vezes procuram temas que sejam dos interesses das grandes empresas multinacionais, colocando em segundo plano assuntos fundamentais para o Brasil. O economista Celso Furtado, do alto de 50 anos de estudos, chama a atenção para essa distorção:

"O que choca atualmente é que nossas universidades orientam suas melhores cabeças para falsos problemas, alguns muito sofisticados, enquanto problemas como a exclusão social, a concentração de renda e o anacronismo da estrutura agrária são ignorados." (3)

É preciso abandonar a euforia com a globalização e mudar o foco de informação global para informação local. Sabemos muito do que acontece nos EUA e na Europa Ocidental, mas pouco sobre o que ocorre no interior do Brasil ou mesmo na periferia das grandes cidades. Clinton pode anunciar, orgulhoso, que sua meta educacional é ter Internet em todas escolas dos Estados Unidos. Enquanto isso, precisamos enfrentar problemas mais urgentes:

"Só 5% das salas de aula têm dicionário
É o que mostra pesquisa sobre ensino fundamental do requisitado sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, 60 anos, feita a pedido do governo brasileiro. Apenas 4,6% das 54.417 salas de aula pesquisadas possuem dicionário e menos de 1% delas possui exemplares da Constituição." (4)

A Internet é uma ferramenta preciosa e importante. É lógico que devemos utilizá-la, mas precisamos ter em mente que nossas prioridades são diferentes daquelas dos países desenvolvidos. A participação do Brasil na sociedade da informação deve se dar de uma perspectiva brasileira e as universidades públicas têm papel fundamental, para formar não somente profissionais capacitados, mas cidadãos conscientes. Se queremos outra globalização, diz o geógrafo Milton Santos (5), temos que formular um projeto político voltado para o território nacional.


Notas: 
(1) HOBSBAWM, Eric: "Era dos Extremos" p. 291, São Paulo: Cia das Letras, 1996
(2) Entrevista à revista "Caros Amigos", fevereiro de 1999.
(3) Entrevista à revista "Cadernos do Terceiro Mundo", setembro/outubro 1998
(4) Site Notícia e Opinião (www.no.com.br), coluna Ancelmo Gois, 22 de agosto de 2000
(5) SANTOS, Milton: "Por uma Outra Globalização: do pensamento único à consciência universal". Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.
 
 


Maurício Santoro
Jornalista e
Co-administrador do site jornalistas da web http://www.jornalistasdaweb.com.br
 
 


 

DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.1   n.5  out/00                       CARTAS & colunas



 
     Bom dia.
     Sou aluno do curso de Biblioteconomia na UNESP/Marília.[4o período]
Estou desenvolvendo uma pesquisa para o Trabalho de Conclusão de Curso sobre sobre Metodologias de publicação eletrônica de revistas científicas de Biblioteconomia e Ciência da Informação.
Parti da "curiosidade" de identificar as metodologias disponíveis. 
Pois bem, até agora a única metodologia que encontrei foi o Scielo (www.scielo.br), mas ela não é uma revista e sim uma biblioteca de periódicos, cujos editores não utilizam nenhuma metodologia, e sim critérios para [indexação] no Scielo.
Gostaria então de saber e confirmar se a DataGramaZero utiliza-se de alguma metodologia. (...)quais? Caso não [use], precisarei mais tarde dos critérios, pois, como define a metodologia Scielo: é um conjunto de normas, guias e critérios.
Caso eu não encontre nenhuma metodologia, poderei concluir:
a) Realmente não existe nenhuma metodologia e ponto final;
ou
b) Não se utiliza nenhuma metodologia, porém se utilizam tais critérios (...).
 
Desde já fico agradecido com a sua colaboração, e estou disponível pra qualquer ajuda.
 
Elândio Robson Ferreira
(por e-mail)
 

A revista DataGramaZero não obedece a uma "metodologia" (ou "método"), no sentido estrito de atualizar uma receita ou algoritmo para a produção de suas edições.
Certamente, os seus editores procuram divulgar e seguir, da forma mais  uniforme e consciente possível, as suas normas de submissão e os critérios de aceitação das contribuições, certos princípios editoriais considerados adequados para uma publicação científica, a proteção das fontes e de seu trabalho, etc. Se isto for uma "metodologia"...
Certamente, também, como ocorre com qualquer atividade humana, a nossa não está imune ao escrutínio, estabelecimento ou avaliação das "técnicas", intenções, limitações, afinidades, origens ou vínculos, enfim, à "descoberta" de um modo de produção mais ou menos consciente, derivada pelo pesquisador a partir daquelas características.
Às vezes, porém, o risco de se tentar definir tipos de resposta possíveis a uma questão (ainda) prematura é muito grande. Outras vezes, descrever o "método" de uma atividade não só pressupõe como é algo muito menos importante do que a aventura mesma de envolver-se na atividade.
Boa sorte no seu trabalho.

(LCBP)
DGZero