Sociedade da Informação e Universidade: uma
perspectiva brasileira
por Maurício Santoro
Em nossa sociedade, a informação é cada vez mais
considerada como uma mercadoria valiosa, em especial no que diz respeito
ao mercado financeiro e ao avanço tecnológico e científico.
O desenvolvimento dos meios de comunicação, principalmente
a Internet, também foi fundamental para trazer a informação
para o centro dos debates. Qual será o papel da universidade nessa
sociedade da informação?
Histórico
Na Europa, EUA e Japão, as universidades tiveram um grande crescimento
na segunda metade do século XX - exatamente o período em
que se constitui a sociedade da informação. O historiador
Eric Hobsbawm relaciona a expansão do ensino superior com o desenvolvimento
econômico do pós-guerra:
"Era óbvio para planejadores e governos que a economia moderna
exigia muito mais administradores, professores e especialistas técnicos
que no passado, e que eles tinham que ser formados em alguma parte - e
as universidades ou instituições semelhantes de educação
superior vinham, por tradição, funcionando em grande parte
como escolas de formação para o serviço público
e as profissões especializadas." (1)
No Brasil, as primeiras universidades surgem na década da 1930.
No contexto da industrialização do país, o meio acadêmico
se forma de maneira semelhante à descrita por Hobsbawm. É
durante a ditadura militar estabelecida com o golpe de 1964 que o perfil
das universidades brasileiras começa a se transformar, com a presença
cada vez maior do ensino superior privado. Hoje 70% dos alunos no ensino
superior estão em instituições particulares, segundo
dados do Ministério da Educação.
A universidade pública no Brasil de hoje
As estatísticas poderiam, num primeiro momento, fazer crer que
as universidades públicas perderam a importância, mas não
é assim. A maior parte das pesquisas acadêmicas está
concentrada em poucas instituições públicas do centro-sul
do Brasil: UFRJ, USP, Unicamp, Unesp, UFRGS, UNB, UFMG.
Para definir esse quadro, criou-se a absurda expressão "universidades
de pesquisa", quando uma das características básicas da universidade
é reunir ensino, pesquisa e extensão. Na prática,
a iniciativa privada forma a maior parte dos alunos de graduação,
mas a maioria dos professores (mestres e doutores) vêm das universidades
públicas.
Informação e tecnologia
Os empresários que investem nas universidades particulares afirmam
que somente o capital privado é capaz de criar as vagas necessárias
para a expansão do ensino brasileiro. Eles também argumentam
que suas instituições estão melhor aparelhadas do
que as públicas, possuindo laboratórios modernos e equipamentos
avançados.
A ênfase na tecnologia é constante na sociedade da informação
- em grande parte, um produto do desenvolvimento dos meios de comunicação.
Nesse contexto, o papel da universidade é o de preparar mão-de-obra
qualificada para as grandes empresas. O modelo mais conhecido é
a Universidade de Stanford, na Califórnia, que opera em parceria
com as empresas de alta tecnologia instaladas no Vale do Silício.
Qual a viabilidade desse projeto no Brasil? A iniciativa privada investe
na graduação, mas não na pesquisa de mestrado e doutorado,
fundamentais para gerar desenvolvimento tecnológico próprio.
Além disso, as políticas neoliberais adotadas pelos presidentes
brasileiros na década de 1990 enfraqueceram a indústria nacional
e aumentaram a participação das multinacionais, em especial
na área de telecomunicações e informática.
Isso significa que um cientista ou engenheiro brasileiro provavelmente
irá exercer a profissão numa empresa estrangeira. Daí
surge a conseqüência lógica desse processo, apontada
pelo filósofo Roberto Romano:
"O ministro Paulo Renato chegou a dizer na revista 'Exame' que seria
ótimo imitar a Coréia, não incentivar cursos de pós-graduação
no país e mandar gente, por exemplo, para Harvard, porque era mais
barato. [O governo diz:] 'Hoje na era da Internet, a gente não precisa
mais de instituto de pesquisa aqui no Brasil. Apareceu uma moléstia,
você acessa a Internet, vem o remédio e está tudo resolvido.'
" (2)
(... continua)