Resumo: Apresenta uma breve e panorâmica
história da Biblioteconomia, da Documentação e da
Ciência da Informação, em especial, sob o ponto de
vista dos processos de organização da informação.
Analisa a constituição destas áreas nos Estados Unidos
e Europa, em especial do final do século XIX até metade do
século XX, relatando as distinções culturais decorrentes
destas origens e seus desenvolvimentos. Sob esta abordagem histórica,
aponta a relevância e atualidade dos estudos e experimentos europeus
em Documentação e a contribuição fundamental
destes princípios para a constituição da Ciência
da Informação.
Palavras-chave: História da Biblioteconomia;
História da Documentação; História da Ciência
da Informação; Epistemologia da Ciência da Informação;
Organização da Informação.
Abstract: It presents a panoramic and summarized
history of Librarianship, Documentation and Information Science, focusing
on the processes of information organization. It analyses the constitution
of these fields in the United States and Europe, in special from end of
nineteen century until half of twenty century, and relates the cultural
distinctions resulting from their roots and their developments. According
to historical point view, it points to the relevance of European studies
and experiments in Documentation even in present time, and their fundamental
contribution to the Information Science.
Introdução
A abordagem sobre Ciência da Informação que segue
se justifica pela percepção do seu a-historicismo (supostamente
devido a uma origem remota não reconhecida) e pelas constantes dissidências
de grupos profissionais e campos de estudos que levaram à fragmentação
em diversas vertentes, simultaneamente a uma convivência conjunta
ainda não devidamente questionada, e a uma recorrente dificuldade
de elaboração de seus fundamentos comuns. Estes fatores decorrem
em uma atual e urgente necessidade de construção de identidades
para a área e para os profissionais envolvidos nesta trajetória.
Parte-se das primeiras evidências de organização
de documentos segundo seus conteúdos, apontando estes processos
e as bibliotecas primitivas da Antigüidade que os realizavam como
a origem do que depois foi denominado Biblioteconomia. Define-se Biblioteconomia,
no seu sentido restrito, como a área que realiza a organização,
gestão e disponibilização de acervos de bibliotecas,
e a Bibliografia como a atividade de geração de produtos
que indicam os conteúdos dos documentos, independente dos espaços
institucionais em que estes se encontrem. Neste sentido, em fins do século
XIX, a Bibliografia foi aprimorada e tornada autônoma como decorrência
da sedimentação da Documentação (de cunho essencialmente
europeu), ao mesmo tempo em que a Biblioteconomia desenvolvia e disseminava
o projeto da biblioteca pública moderna, de acesso universal, amplo
e gratuito (particularmente nos Estados Unidos). São traçados
aqui os movimentos que impulsionaram ambos, a Documentação
e o projeto da biblioteca pública, enquanto manifestações
técnicas, culturais e políticas expressadas sob a forma de
interesses distintos e cujos desenvolvimentos não levaram a projetos
integrados entre si. Discute-se a continuidade destes movimentos no século
XX, quais sejam, o surgimento da linha dominante da Biblioteconomia construída
pela Escola de Chicago dos Estados Unidos entre os anos 30 e 60 e o impasse
gerado pela discussão entre Biblioteconomia e Documentação.
As conseqüências da Segunda Guerra Mundial, tanto de evolução
quanto de reconstrução, e o grande desenvolvimento tecnológico
ocorrido a partir dos anos 50 com o surgimento dos computadores figuram
como elementos importantes no quadro internacional, influindo sobre o modo
como a ciência e as técnicas relacionadas à organização
da informação caminharam em cada cultura. Estas manifestações,
ocorridas de formas particulares mas com origens comuns, e em períodos
distintos porém próximos, desembocaram em uma nova área
que passou a ser denominada Ciência da Informação no
final dos anos 50, e que permanece ainda hoje em constante processo de
discussão e tentativa de consolidação.
1. As Bibliotecas e a Biblioteconomia (terceiro milênio a.C.
ao século XVII)
Segundo Kato (1987), data também do terceiro milênio a.C.
o início da escrita propriamente dita, como a escrita cuneiforme
e os hieróglifos (respectivamente do idioma sumério e egípcio),
em substituição aos sistemas pictográficos que ainda
não eram representações da fala. A escrita demorou
séculos para se constituir em sistemas de representação
similares aos que conhecemos hoje; contudo, pode-se dizer que seu surgimento
decorreu, de forma relativamente rápida, no início das atividades
de organização sistemática de documentos.
No segundo milênio a.C., na civilização mesopotâmica,
foi constatada a organização de documentos acompanhada de
representações para fins de recuperação: tábuas
de argila eram protegidas por espécies de envelopes nos quais estavam
dispostos resumos (Witty citado por Kobashi, 1996).
Lemos (1998) cita a existência de grandes bibliotecas da Antigüidade
entre os séculos VIII e VII a.C., como a de Assurbanipal, rei da
Assíria. A partir do século IV a. C, têm-se notícia
das bibliotecas dos templos gregos, sendo as mais importantes aquelas referentes
ao auge da cultura helênica, como a que Aristóteles criou
em sua Escola de Filosofia. Esta biblioteca teria sido o modelo para a
fundação, no século III a.C., da famosa biblioteca
de Alexandria, uma das maiores já conhecidas e que sobreviveu a
muitos saques e desastres naturais, até ter seu fim definitivo.
Manguel (1997, p. 217) comenta que Alexandria, no Egito, era uma cidade
excessivamente burocrática com um trânsito de documentos administrativos
maior que sua capacidade para tal, o que demonstra disseminado domínio
da escrita. No entanto, não se sabe se a biblioteca era reservada
apenas aos eruditos ou a um público mais amplo. Parte do acervo
desta biblioteca foi constituído principalmente a partir de um decreto
de Ptolomeu III em que todos os navios que parassem em Alexandria tinham
que entregar seus livros para serem copiados (após a cópia,
às vezes devolviam-se os originais, às vezes as cópias).
O objetivo era o de uma biblioteca que abrigasse a totalidade do conhecimento
humano registrado.
Na Idade Média, predominaram as bibliotecas ligadas a ordens
religiosas tanto no Ocidente como no Oriente, as quais foram responsáveis
pela preservação da antiga cultura greco-romana registrada.
No século XIII, na Europa, começaram a ser fundadas as bibliotecas
das universidades, ao mesmo tempo em que surgiram os grandes colecionadores
de livros entre a nobreza, cujas coleções viriam a formar
o núcleo de algumas bibliotecas nacionais (Lemos, 1998).
Por volta do ano de 1440, ocorreu a invenção da imprensa
por Gutenberg. Após vários aperfeiçoamentos e investimentos
de grandes somas de dinheiro, ele apresentou, na Feira de Frankfurt, uma
Bíblia impressa, cuja tecnologia permaneceu basicamente a mesma
até o início do século XX. Ao que consta, a tipografia
foi, nos seus primeiros tempos, uma arte hermética de iniciados
que prometiam segredo sob juramento por razões mais comerciais que
intelectuais pois os produtos impressos imitavam os manuscritos e, por
isso, assemelhavam-se ao trabalho lento e caro dos escribas. Em 1462, com
a tomada da Mogúncia, na Alemanha, os impressores foram dispersos
pelos diversos países da Europa, permitindo a vulgarização
da imprensa (Martins, 1996, p. 156). Esta revolução tecnológica
impulsionou a produção do livro, contribuindo para seu barateamento
e acelerando e ampliando sua distribuição. Também
propiciou o rompimento do monopólio que a Igreja exercia sobre a
produção editorial.
Durante a Idade Antiga e a Idade Média, museus, arquivos e bibliotecas
constituíam praticamente a mesma entidade, pois organizavam e armazenavam
todos os tipos de documentos. Esta entidade manteve-se inalterada até
a Idade Moderna quando a produção dos livros tipográficos,
entre outros motivos, levou a que as bibliotecas passassem a existir separadamente
e a adquirir maior relevância enquanto elemento social.
A tecnologia da impressão promoveu uma primeira modificação
na atividade da organização e preservação de
documentos, uma vez que, aos poucos, foi retirada da biblioteca a tarefa
de reprodução de manuscritos realizada pelos copistas, que
passou a ser feita em oficinas especializadas. Apesar do crescente destaque
social vivido pela biblioteca a partir de então, pode-se dizer que
o trabalhador da biblioteca perdeu certa responsabilidade, cumplicidade
e envolvimento com os documentos, já que não realizava mais
a reprodução dos mesmos e a compreensão e organização
dos conteúdos que lhe é decorrente. Aos poucos, tanto a biblioteca
quanto o "bibliotecário" de então se distanciaram dos processos
de organização, mas ganharam maior visibilidade pública
e social.
Este fenômeno recebeu impulso no século XVII, nos países
mais desenvolvidos da Europa e depois nos Estados Unidos, com o surgimento
do conceito de biblioteca pública moderna, constituída de
acervos gerais de livros e aberta gratuitamente ao público em horários
regulares. Eram bibliotecas financiadas por mecenas, cujo movimento continuou
até praticamente o século XX (Lemos, 1998).
A biblioteca pública, espaço para acesso a acervo organizado,
e não a Biblioteconomia, conjunto integrado de processos que possibilita
aquela, é que fez parte da nova concepção de mundo
que passou a ser chamada de modernidade, em oposição às
noções de antigo e de medieval que a antecederam. De fato,
em função do surgimento da biblioteca pública, geral
e aberta e do crescimento dos periódicos e de sua importância
na divulgação científica, a Biblioteconomia trilhou
novos caminhos, passando a dividir seus espaços com as atividades
desenvolvidas pela Documentação.
Gabriel Naudé, em sua obra "Advis pour adresser une bibliothèque",
cuja primeira edição é de 1927, escreveu os primeiros
princípios da Biblioteconomia moderna. Além de fornecer uma
das primeiras conceituações sobre biblioteca como a conhecemos
hoje, Naudé trabalhou com a idéia da "ordem bibliográfica",
a qual permitiria o acesso e o compartilhamento do saber, conduzindo a
uma organização da razão política. Propôs
um método de produção de bibliografias que contava
com o levantamento de referências e a identificação
de falsificações, o que se caracterizava como uma operação
de verificação; esse método proporcionou uma nova
forma de realizar uma pesquisa, a qual se iniciava com a elaboração
de um inventário, que era um balanço preliminar do conhecimento
acumulado. Naudé apresentou a biblioteca como necessariamente pública
e universal e defendeu um projeto político para substituir a autoridade
espiritual da Igreja pela "máquina cultural" da biblioteca (Coelho,
1997, p. 76-79).
Contudo, o termo "biblioteconomia" foi usado pela primeira vez somente
em 1839 na obra intitulada "Bibliothéconomie: instructions sur l’arrangement,
la conservation e l’administration des bibliothèques", publicada
pelo livreiro e bibliógrafo Léopold-Auguste-Constantin Hesse.
Mas foi efetivamente no século XIX que as técnicas e práticas
dos bibliotecários começam a ser sistematizadas (Lahary,
1997).
2. A Biblioteconomia, a Bibliografia e a Documentação
(século XV até início do século XX)
Estes autores citam que a atividade de organização de
conteúdos de documentos, a Bibliografia, já era realizada
de forma limitada desde a Idade Antiga, na Inglaterra. Efetivamente, as
primeiras bibliografias relevantes são a compilação
realizada pelo alemão Konrad Gesner, no final do século XV,
e a primeira tentativa de uma bibliografia universal pelo suíço
Johann Tritheim, na metade do século XVI. Após estas obras,
foram crescentemente produzidos catálogos de bibliotecas particulares
e bibliografias especializadas, a ponto de, em fins do século XVI,
na Europa, os estudiosos sentirem necessidade de sistematizarem este grande
volume de índices catalográficos e bibliográficos.
Surgiram então muitas bibliografias comerciais, precursoras das
bibliografias nacionais, mas pouco adequadas aos estudiosos. Esta atividade
de elaboração de bibliografias é considerada a origem
da Documentação.
O primeiro código nacional de catalogação e o início
do uso de catálogos em fichas tiveram lugar na França, em
1791, como decorrência da Revolução Francesa. Apesar
disto, até 1840, praticamente nenhuma biblioteca tinha índice
de assunto de seus acervos, nem estava completamente catalogada. A partir
desta data, catálogos de autor e assunto passaram a ser empregados
e as bibliografias foram se aperfeiçoando. Alguns fatos explicam
estes avanços: em 1841, no Reino Unido, foram publicadas as "91
regras" de catalogação elaboradas por Anthony Panizzi, que
estabeleceram as bases da catalogação durante várias
gerações; em 1850, nos Estados Unidos, Charles Jewett, da
Smithsonian Institution, propôs a criação de um centro
nacional de bibliografia e documentação a partir de um catálogo
coletivo do acervo das bibliotecas públicas do país, por
meio de um modelo padronizado de fichas a serem reproduzidas com uso da
estereotipia, enfatizando a importância do aprimoramento das técnicas
de organização bibliográfica dos documentos das bibliotecas
para sua melhor utilização; em 1876, Melvil Dewey publicou
nos Estados Unidos a primeira edição de sua Classificação
Decimal, primeiro sistema do gênero a ser amplamente adotado, inclusive
até os dias de hoje; no mesmo ano e país, Charles Ami Cutter
publicou as Regras para um Catálogo Dicionário que, além
do código de catalogação incluía uma declaração
sobre os objetivos do catálogo; em 1899, as Instruções
Prussianas, surgidas de estudos de catalogação de décadas
anteriores, foram adotadas na Alemanha, alcançando grande aceitação
na Europa; e em 1901, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos liderou
a organização bibliográfica em bibliotecas com o sistema
de distribuição de fichas catalográficas impressas
e padronizadas (Shera e Egan, 1961), (Fayet-Scribe e Canet, 2000).
A crescente importância dos periódicos como veículo
de publicação atingiu seu auge em 1850 e levou à necessidade
do tratamento de suas unidades de informação para possibilitar
sua recuperação. Na primeira conferência da American
Library Association (ALA), em 1876, bibliotecários e bibliógrafos,
confrontados com as dificuldades decorrentes do trabalho bibliográfico,
mostraram-se motivados em realizar esforços cooperativos. Teve início,
neste período, um movimento geral para a análise de assuntos
de artigos de periódicos e a criação de índices
coletivos, cuja tarefa foi considerada como atividade de responsabilidade
de bibliotecas. Contudo, a continuidade deste serviço pelas bibliotecas
decorreu em fracasso pois o catálogo e o esquema de classificação
das bibliotecas foram baseados nas monografias, ou seja, idealizados para
reunir em uma proximidade física os documentos de conteúdos
semelhantes, o que tornava as bibliotecas inoperantes para trabalhar os
periódicos, já que não havia tanta preocupação
com a diversidade intelectual do seu conteúdo. Além disso,
a viabilidade da organização política e tecnológica
entre bibliotecas independentes e distantes mostrou-se muito difícil.
A partir daí, esse segmento foi recolhido e desenvolvido pelo
crescente grupo de documentalistas, deixando o bibliotecário de
ter como atribuição o tratamento de parte da literatura e
a biblioteca reduzindo-se a sua antiga função de custódia
de documentos. Acredita-se que este fato tenha colaborado para o não
fortalecimento do caráter intelectualizado da profissão bibliotecária,
em contraposição à ênfase em atividades burocráticas.
Em fins do século XIX, a Biblioteconomia e a Documentação
apresentavam um desenvolvimento em grande parte inseparável: surgiram
em conseqüência das mesmas necessidades, empregavam processos
e instrumentos comuns (como as fichas de 7,5 por 12,5 cm e a Classificação
Decimal de Dewey-CDD), tinham objetivos quase idênticos e em muitos
casos deviam seu progresso aos mesmos homens. Havia, no entanto, uma tentativa
dos documentalistas em evitar os instrumentos e até mesmo os termos
adotados pela Biblioteconomia, o que levou, muitas vezes, a que aqueles
seguissem os caminhos já trilhados e até descartados por
esta. A diferença da Documentação era que pretendia
fazer uma análise de conteúdo mais profunda. Da mesma forma,
os arquivos apresentavam problemas semelhantes de organização.
A Biblioteconomia, a Documentação e a custódia dos
arquivos, como já citado, eram tratadas de forma única: no
entanto, interesses particulares começaram a dividir estas atividades
em grupos separados, os quais passaram a adotar atitudes de intolerância
entre si.
Uma circunstância que levou os bibliotecários a desviar
suas atenções dos processos de análise e representação
das unidades do conhecimento registrado foi o movimento de criação
e disseminação das bibliotecas públicas. A Idade do
Iluminismo, o crescimento do Mercantilismo e, mais tarde, a Revolução
Industrial levaram à necessidade de um corpo de trabalhadores alfabetizados
e treinados em tarefas manuais específicas. Neste contexto, em especial
na Inglaterra e nos Estados Unidos, por volta de 1850 (portanto, no período
do auge do crescimento dos periódicos), a biblioteca pública
era considerada uma agência educacional das massas e da democratização
da cultura. Com a absorção do bibliotecário tradicional
pela função "educativa" ou pelo culto da educação
universal e a negação do significado do serviço de
informação, os documentalistas adotaram as técnicas
da Biblioteconomia e as aperfeiçoaram.
Supõe-se que esta divisão poderia ter encontrado outros
caminhos caso houvesse o reconhecimento da natureza diversa do acervo e
do atendimento para ambos os casos: em uma biblioteca com fins educacionais
são necessários títulos devidamente escolhidos para
permitir uma orientação eficiente ao leitor. A necessidade
de estender os privilégios da educação a todos ocorreu
sem que se tivesse formulado os mecanismos para garantir esse objetivo
educacional e cultural, além de levar ao cancelamento dos trabalhos
de bibliografia.
A divergência entre bibliotecários e documentalistas refletiu-se
na segmentação das associações. Em 1908, um
grupo de bibliotecários especializados nos Estados Unidos separou-se
da American Library Association para formar sua própria associação,
a Special Libraries Association. E assim como estes, vários casos
se sucederam de dissidências de associações inicialmente
de bibliotecários, que passaram a representar a Documentação
(American Documentation Institute, criada em 1937, e atualmente denominada
American Society for Information Science and Technology-ASIS&T), a
Microfilmagem (National Microfilm Association), e áreas temáticas
como Biologia e Química.
A cisão entre Biblioteconomia e Documentação tornou-se
cada vez mais profunda, sem levar necessariamente ao desenvolvimento e
sedimentação de uma ou outra área. Shera (1980) cita
que este fenômeno tem particular interesse para a sociologia da profissionalização,
que ocorre quando um grupo muda a terminologia de outro para parecer que
se ocupa de uma nova disciplina, porém com mais dignidade e caráter
científico.
Nesta nova Biblioteconomia, estavam homens de ciência ou pessoas
que se preocupavam com o acesso aos conteúdos dos documentos. Já
os bibliotecários, representados por eruditos e bibliófilos
desde a biblioteca de Alexandria, sofreram uma acentuada mudança.
Registros do conhecimento erudito foram, por muito tempo, os únicos
a serem tratados em bibliotecas, levando a que muitos bibliotecários
continuassem dominados pela forma de organização imposta
pela tradição filosófica que marcou o mundo antigo
e medieval. A sociedade moderna, porém, cresceu e se transformou
rapidamente, graças à tradição científica
da pesquisa indutiva e empírica, que exigiu novas formas de organização
do pensamento registrado.
A partir desta história da Biblioteconomia, um comentário
aparentemente óbvio de Shera (1980) procura esclarecer o fato de
os bibliotecários serem comumente taxados como os mais culpados
neste conflito: unicamente tiveram mais tempo de sê-lo. Assim, o
bibliotecário deveria reaver a erudição que perdeu,
construindo uma nova intelectualidade, com base na sua história,
nos seus novos contextos e a partir de uma linguagem de especialidade própria.
Por mais de quatro séculos, a Biblioteconomia foi quase sinônimo
de Bibliografia. Considerando a Bibliografia como o princípio da
Documentação, pode-se dizer que esta esteve unida à
Biblioteconomia desde o século XV até fins do século
XIX, quando Otlet e La Fontaine sistematizaram e desenvolveram a Documentação
enquanto disciplina distinta da Biblioteconomia. Os europeus deram continuidade
a estes estudos e aplicações até que, os movimentos
causados pela Segunda Guerra Mundial acentuaram estes avanços devido
às necessidades específicas dos países envolvidos
na recuperação de conteúdos a partir de tipos diversos
de documentos, inclusive com tentativas rudimentares de recuperação
mecânica da informação.
3. Otlet e a Documentação (fins do século XIX
até década de 1930)
Vários autores, como Rayward (1997) e Sagredo (1994), argumentam
sobre a antecipação e previsão das tecnologias por
Otlet, como os sistemas de hipertexto e hipermídia. A atualidade
da obra de Otlet, de certa forma presente nos estudos realizados hoje por
pesquisadores de Ciência da Informação figura, por
exemplo, na eleição ampla dos profissionais envolvidos nas
operações distribuídas que constituem a Documentação,
quais sejam, autores, copistas, impressores, editores, livreiros, bibliotecários,
documentadores, bibliógrafos, críticos, analistas, compiladores,
leitores, pesquisadores e trabalhadores intelectuais; as operações
documentárias acompanham o documento desde o instante em que ele
surge da pena do autor até o momento em que impressiona o cérebro
do leitor (Otlet, 1937). A sistematização realizada por Otlet
culminou na publicação, em 1934, do "Traité de Documentation".
Segundo Rayward (1997) e Bradford (1961), o projeto teve início
no encontro entre Paul Otlet e Henri La Fontaine, em 1892, e no reconhecimento
de preocupações comuns quanto à organização
bibliográfica da produção científica, para
o que criaram o Escritório Internacional de Bibliografia, em Bruxelas,
na casa de Otlet. Logo perceberam que, para organizar um índice
universal, era necessária uma cooperação internacional.
Em 1895, promoveram a I Conferência Internacional de Bibliografia,
na qual foi aprovada a criação do Instituto Internacional
de Bibliografia (IIB), com o apoio do governo belga. Iniciativa pioneira
dentre as associações internacionais no campo da informação,
o IIB teve seu nome alterado para Instituto Internacional de Documentação
(IID), em 1931, e para Federação Internacional de Documentação
(FID), em 1938. Desde 1986, recebe a denominação de Federação
Internacional de Informação e Documentação,
mas mantém a sigla original.
O IIB tinha como pretensão desenvolver o Repertório Bibliográfico
Universal (RBU). A Classificação Decimal Universal (CDU)
foi criada, a partir da CDD, para contemplar as necessidades de tratamento
da informação especializada e viabilizar a elaboração
do RBU. Devido às primeiras experiências de trabalho cooperativo,
optou-se pela descentralização e pelo emprego de bibliógrafos
especializados em ciências. Para tanto, foram estabelecidos centros
de informação científica em um grande número
de bibliotecas científicas ou em anexos destas. Em 1934, o Repertório
Bibliográfico Universal continha 16 milhões de entradas e,
até o final da Segunda Guerra Mundial, doze países tinham
Seções Nacionais do IIB, quais sejam, Alemanha, Bélgica,
Dinamarca, Estados Unidos, França, Reino Unido, Holanda, Itália,
Polônia, Rússia, Suíça e Tchecoslováquia,
e mais seis estavam em formação.
O IIB prestava serviços de pesquisa a partir das fichas catalográficas,
contemplando a estratégia e a contextualização da
busca. Para a determinação dos assuntos trabalhava-se com
mapas conceituais que mostravam as intricadas relações dos
conceitos dentro das várias áreas. No tratamento bibliográfico,
utilizava-se o princípio monográfico, descrito como a divisão
física do livro de acordo com a divisão intelectual de idéias
contida no mesmo, o que consistia na fragmentação do documento
para chegar às unidades de informação. Supõe-se
que estas duas idéias, os mapas conceituais e o princípio
monográfico, ensaiavam, respectivamente, as noções
de tesauro e de tratamento documentário das partes dos documentos
(ou analíticas), o que provavelmente contribuiu para o refinamento
dos processos documentários.
Otlet fazia críticas às bibliotecas por conta das políticas
de seleção (advindas do princípio jesuítico)
e da resistência às inovações técnicas
e à prestação de serviços de informação.
Além disso, o projeto de Otlet pretendia armazenar a representação
das unidades de todo o conhecimento humano em um único local; era
um projeto universalista e concebido como uma ação para a
promoção da paz mundial, de onde se pode considerar que as
bases da Documentação eram técnicas, mas também
fortemente políticas.
Fonseca (1961) cita que, no Brasil, em 1899, o IIB tinha como membro
Juliano Moreira, diretor dos "Annais da Sociedade de Medicina e Cirurgia
da Bahia". No começo do século XX, a Livraria Civilização,
em São Paulo, recebia assinaturas e encomendas de publicações
do IIB, além de fichários padronizados. Em 1900, Oswaldo
Cruz introduziu a CDU na biblioteca do instituto de pesquisas que fundou
e hoje tem o seu nome. E em 1911, o professor de Direito Manoel Cícero
Pelegrino da Silva, diretor-geral da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro,
criou o Serviço de Bibliografia e Documentação em
correspondência com o IIB, com a pretensão de organizar o
repertório bibliográfico brasileiro em fichas catalográficas
e com uso da CDU, incluindo o tratamento dos artigos de periódicos,
como uma contribuição ao controle bibliográfico internacional.
No entanto, sendo a CDU um sistema europeu, passou
a ser rechaçado pela influência estadunidense que teve início
por volta de 1930 na Biblioteconomia brasileira, sendo retomado pelos centros
de documentação e bibliotecas especializadas a partir dos
anos 50. De uma forma geral, a influência do modelo estadunidense
de biblioteca pública trouxe benefícios, dentre os quais,
a renovação dos processos técnicos e administrativos,
a melhoria e diversificação dos serviços, como no
caso do empréstimo domiciliar, maior liberdade nas relações
com o público e a compreensão sobre o papel da biblioteca
para a educação e recreação da população
em geral e como estímulo às pesquisas especializadas. Como
aspecto negativo, processos e instrumentos (como a CDU e o catálogo
dicionário, que foram substituídos pela CDD e pelo catálogo
dicionário) foram deixados de lado, sem considerar a especificidade
das coleções e dos usuários.
Quanto ao Instituto, em 1924, foi reestruturado, mudou seu foco e a
CDU tornou-se uma de suas únicas tarefas. No início de 1992,
foi criado o Consócio CDU (UDC Consortium), que agrupa a FID e editores
da CDU de vários países. Em 1995, no centésimo aniversário
da agora denominada FID, foi firmada a Resolução de Tóquio
por 35 organizações não governamentais em informação,
comunicação e conhecimento como uma aliança estratégica
para melhor servir à comunidade mundial. Também foi organizado
o Fórum de Conhecimento da FID a fim de reunir e disponibilizar
a experiência comum e o conhecimento acumulado em diferentes comunidades.
A FID continua organizando eventos em nível mundial.
4. A Biblioteconomia nos Estados Unidos (fins do século XIX
até década de 1950)
Buckland (1996), pesquisador dos Estados Unidos mas versado na literatura
em idioma francês, explorou o tema da distinção entre
as culturas estadunidense e européia na área da Biblioteconomia,
da Documentação e da Ciência da Informação,
com foco para a questão tecnológica, justificando porém,
tratar-se de uma análise especulativa.
Afirma que a Biblioteconomia nos Estados Unidos, no final do século
XIX, foi marcada por sua sedimentação e por inovações
técnicas e tecnológicas. Já na primeira metade do
século XX (até o início da Segunda Guerra Mundial),
houve uma expansão de serviços de bibliotecas por todo o
país, especialmente nas áreas rurais, acompanhada, porém,
de uma relativa estabilidade técnica e tecnológica. De fato,
ocorreram aplicações tecnológicas para bibliotecas
durante este período, como as cópias fotostáticas
(projeção fotocopiadora em papel sensível) de 1912
e a microfilmagem, por volta dos anos 30. Houve também a retomada
de desenvolvimentos do século XIX, como a duplicação
a tinta e estêncil, telefones e máquinas de escrever e o uso
de regras para catalogação, classificação e
arquivo. Contudo, estas inovações não foram significativamente
estudadas e adotadas.
Um dos elementos que ajuda a explicar por que estes desenvolvimentos
foram grandemente ignorados nos círculos de bibliotecas antes da
Segunda Guerra Mundial foi a influência da Graduate Library School,
da University of Chicago, considerada o centro intelectual da Biblioteconomia
dos Estados Unidos, dos anos 30 até os anos 60, como segue abaixo.
A obra de Pierce Butler, "Introduction to Library Science", de 1933,
é considerada uma emblemática da assim conhecida Escola de
Chicago e suas influências. Butler admitiu que essa obra se tornaria
obsoleta com o tempo, mas não houve produção que a
substituísse. Afirmou que as bibliografias eram importantes desde
que houvesse clareza sobre seus fins e que, deveria haver um deslocamento
do foco nos processos para a função, com ênfase para
o status social dos bibliotecários e a função
social das bibliotecas (Butler, 1971). Nesta obra, observam-se três
pontos negligenciados: (1) modelos, tecnologias, técnicas e habilidades
de gerenciamento que forneçam um efetivo e eficiente serviço
de biblioteca; (2) menção a grandes nomes que contribuíram
para a Biblioteconomia, como Panizzi, Cutter, Dewey, Jewett, Bliss, causando
a impressão de que suas contribuições não existiram;
e (3) elaboração de aspectos científicos dos processos
e serviços (a despeito do título da obra).
Na Escola de Biblioteconomia de Chicago, houve alguma atenção
para a administração de bibliotecas mas o interesse era limitado
se comparado com os estudos e aplicações do país no
final do século XX e nos dias atuais. Pesquisadores da década
de 70 criticaram a Escola de Chicago por esta não sustentar uma
abordagem científica.
Na década de 50, Margaret Egan e Jesse Shera, membros da Escola
de Biblioteconomia de Chicago, avaliam que a atenção dos
bibliotecários durante os anos anteriores esteve voltada para a
revolução da comunicação de massa e seu provável
efeito sobre os serviços de biblioteca para o leitor em geral, enquanto
poucos se preocuparam com a revolução da organização
e serviços de biblioteca, a qual foi tratada por outro campo, nomeado
"comunicação da informação especializada" e
desenvolvido por documentalistas e especialistas de informação.
Shera apontou a própria Escola como uma das principais responsáveis
pela repulsa dos bibliotecários por habilidades técnicas.
Por outro lado, há indícios que demonstram que a Escola
de Chicago tinha consciência da relevância das inovações
tecnológicas para serviços de biblioteca (ao que parece,
nem tanto no que se refere às inovações técnicas),
como indicam o papel ativo de pesquisadores da Escola, especialistas na
tecnologia de microfilmagem, no Congresso Mundial da Documentação
Universal, em Paris, em 1937, e a introdução de um curso
sobre microfilme na Escola em 1939, entre outros.
Em oposição à Escola de Chicago houve, ao mesmo
tempo, um interesse por aspectos tecnológicos dos serviços
de biblioteca no Massachussetts Institute of Technology (MIT), Estados
Unidos. Desde o início dos anos 30, Vannevar Bush, um professor
do MIT e administrador acadêmico, tentou persuadir fundações
e corporações a financiar seus experimentos em recuperação
de informação em bibliotecas. O famoso artigo de Bush, "As
we may thing", embora publicado em 1945, foi escrito no final dos anos
30. Contudo, neste período, a Biblioteconomia naquele país
era essencialmente representada pela Escola de Chicago.
Já em relação à Europa, a análise
da produção dos anos 30 da revista Library Quartely, publicada
pela Escola de Biblioteconomia de Chicago, em comparação
com a análise dos anais dos congressos da FID do mesmo período,
constata que os aspectos tecnológicos foram evitados na primeira
revista, apontando para um contraste de interesses que evidencia que as
escolas européia e estadunidense eram marcadamente distintas.
Ao mesmo tempo em que escolas distintas se desenvolviam, a ajuda dos
Estados Unidos após o final da Primeira Guerra Mundial aos países
europeus atingidos, disseminou o modelo estadunidense de biblioteca pública
na França, por meio do projeto de reconstituição das
bibliotecas públicas francesas e do funcionamento de uma escola
estadunidense de bibliotecários em Paris entre 1923 e 1929. Neste
período, configurou-se um rico trabalho cooperativo que envolveu
o modelo das bibliotecas públicas, especialmente trazido pela Biblioteconomia
pública estadunidense, e os serviços de informação
especializados, em sintonia e continuidade à filosofia do IIB e
de Otlet (Fayet-Scribe, 1998).
Nos Estados Unidos, o movimento de bibliotecas especializadas foi formalizado
em 1908, com o grupo dissidente que constituiu a Special Libraries Association,
e a influência da Documentação européia evidenciou-se
no final dos anos 30, com a criação do American Documentation
Institute. Contudo, somente nos anos 50, uma mudança tornou-se aparente
na literatura dos Estados Unidos sobre Biblioteconomia em função
da tentativa de reconstruir, analisar e interpretar o pós Segunda
Guerra Mundial, ocasionando uma discussão baseada na dicotomia Ciência
da Informação versus Biblioteconomia. Houve um período
de tensão pois a abordagem dominante da Biblioteconomia dos Estados
Unidos, orientada para o não tecnológico e para as Ciências
Sociais e representada pela Escola de Chicago, foi desafiada e transformada
pelo retorno do interesse em modelos e em tecnologia. Os assuntos que tinham
interessado aos documentalistas europeus emergiram com muita força
na Biblioteconomia dos Estados Unidos 20 anos depois que na Europa, mas
aquilo que foi produzido na Europa, principalmente em francês e alemão,
foi amplamente esquecido.
Elegeu-se um nome para esta nova área – Ciência da Informação
– e o principal elemento foi a presença de indivíduos voltados
à tecnologia e de fora da Biblioteconomia, que estavam procurando
conduzir a nova tecnologia eletrônica para resolver velhos problemas.
Afinal, a Biblioteconomia dos Estados Unidos, neste momento, não
era formada por indivíduos sofisticados tecnologicamente e com experiência
e competência nos problemas e oportunidades de tecnologia em serviços
de biblioteca, Documentação e gerenciamento de informação
especializada, uma vez que a linha dominante representada pela pesquisa
de Chicago não contemplava estes aspectos.
Buckland acredita que a disputa sobre Ciência da Informação
e Biblioteconomia poderia ter ocasionado uma grande mudança se tivesse
ocorrido uma retomada das primeiras posições dos documentalistas
europeus e dos estudos e propostas dos pioneiros estadunidenses que atuaram
em fins do século XIX. Considera que as pesquisas e aplicações
em Ciência da Informação dos Estados Unidos do pós
Segunda Guerra realizadas por engenheiros, foram caras e ineficazes, mas
que poderiam ter sido produtivas se não tivesse havido uma separação
institucionalizada e atitudinal entre engenheiros e bibliotecários.
Pesquisadores e profissionais da Ciência da Informação
eram percebidos por muitos bibliotecários como uma espécie
de ameaça até o final dos anos 70, quando o debate sobre
Ciência da Informação versus Biblioteconomia dispersou
em segmentos diferentes aquilo que era uma ênfase construtiva sobre
teoria, modelos e serviços.
Uma temporária falta de ênfase em modelos e em tecnologia
contribuiu para uma prolongada falta de identidade e direção
nos departamentos acadêmicos de estudos de biblioteca e de informação,
que levou à carência de objetivos, além de sustentar
a continuidade de treinamento em procedimentos, a preocupação
com o profissionalismo e pouca base para uma agenda de pesquisa. Com o
tempo, passou-se a acreditar na necessidade de incluir novos estudos de
Ciência da Informação e Documentação
no currículo básico das escolas de Biblioteconomia dos Estados
Unidos, o que foi um desafio contínuo desde os anos 60. O que estava
sendo introduzido era, mais ou menos, uma versão atualizada dos
estudos apresentados nos congressos da FID dos anos 30.
A partir de Buckland, pode-se inferir que, na primeira metade do século
XX, a Europa inovou em termos de pesquisa e experimentos de processos de
organização da informação, mas o patamar tecnológico
de então e dificuldades políticas e econômicas não
permitiram sua disseminação e implementação.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos estavam preocupados com a ampliação
do número de bibliotecas, vistas como equipamentos culturais e educacionais,
e a garantia de acesso universal aos seus acervos. Mesmo considerando que
havia alguma pesquisa e experimentação no país em
tecnologias (mas não em técnicas e modelos) para processos
de bibliotecas, ela não foi significativa. Contudo, durante e após
a Segunda Guerra Mundial, o espírito pragmático e o apoio
em pesquisa tecnológica dos Estados Unidos gerou um grande avanço,
permitindo várias implementações. Enquanto isso, a
Europa estava devastada pela Guerra: não pôde acompanhar o
avanço estadunidense mas recebeu suas influências sem, no
entanto, ver aproveitados seus desenvolvimentos.
5. A Ciência da Informação (década de
1950 em diante)
No final da década de 60, nos Estados Unidos, com o crescente
desenvolvimento da Ciência da Informação, a Documentação
chegou a ser considerada até mais antiquada que a Biblioteconomia
(Shera, 1980). Já na Europa continental, o termo Documentação
é ainda hoje amplamente utilizado e se confunde, muitas vezes, com
a idéia expressada pela Ciência da Informação.
É conseqüência (mas também causa) da relativa
ausência dos estudos sobre Documentação nos Estados
Unidos o tardio aparecimento de literatura na área em idioma inglês.
Considerando a obra "Traité de Documentation", de Otlet, de 1934,
em Bruxelas, como a primeira e significativa sobre o tema, e a obra "Die
Decimal Klassification", de Frank, de 1946, em Berlim, cuja primeira parte
trata dos princípios documentários, somente um ano depois,
foi produzido em idioma inglês, o livro "Documentation", por Bradford,
em Londres. A obra referencial seguinte a esta é intitulada "Qu’est-ce
que la Documentation", de autoria de Suzanne Briet, de 1951 (Shera e Egan,
1961). Como se vê, estas obras de referência sobre Documentação
foram produzidas na Europa (contudo, a citação é de
pesquisadores estadunidenses). Além disso, percebe-se que, ainda
hoje, as literaturas em inglês e em francês sobre organização
da informação apresentam abordagens bastante peculiares.
Em especial, na França, a divisão profissional entre bibliotecários
e documentalistas deu-se de forma marcante, como pode ser observado atualmente
pelos cursos de formação específicos e pela ampla
disseminação dos centros de documentação. Os
primeiros centros de documentação surgiram neste país
entre as duas Grandes Guerras e se multiplicaram depois de 1945. A atuação
dos centros de documentação ilustra o papel que desempenha
a informação na ajuda à pesquisa e à tomada
de decisão nas organizações (Pomart, 1997, p. 124).
Já na área escolar, os assim chamados centros de documentação
e informação (CDI) são estruturas documentárias
dos estabelecimentos escolares do segundo grau do sistema de ensino francês,
que englobam biblioteca, sala de leitura, audioteca e videoteca, entre
outros, e efetivam o tratamento documentário dos materiais, a pesquisa,
a promoção de leitura e a ação cultural. Neles
trabalham os professores-documentalistas (Vernotte, 1997, p. 125).
Por outro lado, nos Estados Unidos, os CDIs são representados
pelas midiatecas (media centers) ou bibliotecas escolares, assim
como, os centros de documentação especializada são
geralmente denominados bibliotecas especializadas (special libraries)
ou centros de informação (information centers). Contudo,
a linha existente entre centros de documentação e bibliotecas
especializadas não é evidente (Pallier, 1997, p. 99).
De fato, há muita pesquisa histórica a ser realizada a
partir da exploração dos fatores que levaram ao surgimento,
em separado, da Biblioteconomia Especializada e da Documentação,
uma vez que esta divisão profissional (juntamente com a divisão
entre Biblioteconomia "Generalista" e Documentação) gerou
um estado de debilidade para a Ciência da Informação,
que perdura até os dias atuais (Williams, 1998). Uma das diferenças
pode ser observada na abrangência dos princípios documentários
para além das áreas especializadas do conhecimento, aproximando-se
da noção atual de Ciência da Informação.
Apesar disto, inicialmente, a tendência predominante exercida
pelos Estados Unidos contou com a Ciência da Informação
sendo empregada para designar a Biblioteconomia do tipo não tradicional,
passando-se do problema da diferença entre Biblioteconomia e Documentação
para a relação entre Biblioteconomia e Ciência da Informação.
Dado que estas três áreas apresentam mais divergência
entre si que arcabouço científico comum, acredita-se que
fundamentos científicos estejam mais presentes nos princípios
modernos da Documentação que nas práticas tradicionais
da Biblioteconomia. Para Frohmann (2004), os estudos contemporâneos
devem muito ao movimento documentalista do final do século XIX ao
início do século XX, pois as práticas documentárias
foram as primeiras a contemplar o tratamento da informação.
Segundo este autor, a Documentação, em seu sentido amplo,
cobre um território maior que os estudos de informação.
Contudo, um dos fatores que explica a criação da noção
de Ciência da Informação paralelamente à de
Documentação foi o surgimento dos bancos de dados: enquanto
a Documentação fornecia referências de documentos a
serem consultados, os bancos de dados ofereciam informações
propriamente, além de cálculos complexos a partir das mesmas
(Enciclopédia Mirador Internacional, 1994, p. 6115).
Apesar deste fator, a Ciência da Informação não
apresenta um conjunto de noções gerais comuns e significativas
que garanta a orientação a campos mais específicos
de atividade e estudo. De outra forma, na Medicina ou no Direito, por exemplo,
o estudante aprende os princípios gerais da área e quando
se especializa sabe que isto faz parte de um conjunto mais amplo (Shera,
1980).
Neste sentido, a história da Ciência da Informação
apresenta menos dados factuais, mas muita discussão sobre sua mal
resolvida identidade e controvertida constituição como área
de conhecimento.
Para Pinheiro (1999, p. 156), a Ciência da Informação
"parte do reconhecimento de sua interdisciplinaridade, de sua natureza
social, forte e profundamente relacionada à tecnologia da informação
e do novo papel da informação na sociedade e na cultura contemporâneas,
características essenciais da área". A Ciência da Informação
tem suas raízes na bifurcação da Documentação/
Bibliografia e da Recuperação da Informação
(Information Retrieval). É uma ciência social cujo
objeto é a informação, tendo início no campo
da informação científica e tecnológica, passando
a atuar também com a informação para fins educacionais,
sociais e culturais. Apresenta interfaces com a Biblioteconomia, Ciência
da Computação, Ciência Cognitiva, Sociologia da Ciência
e Comunicação, entre outras áreas.
Outras abordagens sobre a constituição da Ciência
da Informação incluem ainda áreas do conhecimento
como a Administração, que busca fornecer formas otimizadas
para a operação do fluxo da informação registrada,
e a Editoração, na produção de documentos impressos
e eletrônicos. Também podem ser citadas a Lingüística,
Lógica, Psicologia, Estatística e Economia.
Goffman (citado por Pinheiro, 1999, p. 164-165), aborda a questão
da relação da Ciência da Informação com
a Biblioteconomia e com a Ciência da Computação. Entende
que as bibliotecas foram as primeiras instituições que operam
com informação a utilizarem o processamento automático
e que a Biblioteconomia necessita de uma ciência que forneça
a respeitabilidade acadêmica que lhe falta. No caso da Ciência
da Computação, são apontadas também a definição
de problemas e a busca de legitimidade acadêmica. No entanto, afirma
que a Ciência da Informação não pode restringir-se
nem a uma nem a outra e deve transcender os sistemas físicos das
bibliotecas ou dos computadores, embora possa utilizar suas aplicações
e se beneficiar tanto da Biblioteconomia quanto da Ciência da Computação.
Comenta ainda que, a ligação da Ciência da Informação
com estas áreas é tão forte que, em seu início,
na década de 60, era confundida com elas.
Buckland e Liu (1998) afirmam que os termos Information Science
e Information Retrieval foram adotados para substituir o antigo
termo Documentation. Entendem a Ciência da Informação
como a aplicação de áreas especializadas, como arquivos,
bibliotecas e serviços de informação corporativa,
e afirmam que as bases teóricas da Biblioteconomia e da Documentação
estão relacionadas às da Ciência da Informação.
Outra denominação inicialmente utilizada para a Ciência
da Informação foi Informatologia, como uma tentativa de evitar
o termo Documentação. O termo Informatologia foi utilizado
pela primeira vez em 1962 em uma universidade de Estocolmo, na Suécia,
como nome de um curso de cem horas, que foi oferecido durante vários
anos (Chernyi, Gilyarevskii e Mikhailov, 1973).
A Enciclopédia Mirador Internacional (1994, p. 6114-6115) aborda
extensamente o tema, dividindo o verbete "Informação" em
três partes, quais sejam: Teoria da Informação, Informação
e autômatas e Informatologia. Nesta última parte, constam
as informações que seguem.
Considera-se que a Biblioteconomia deu origem à Bibliografia,
que fundamentou a Documentação, que por sua vez, forneceu
insumos à constituição da Ciência da Informação,
também nomeada Informatologia. A Ciência da Informação
é entendida como a preocupação com a unidade fundamental
do saber, através de estudos interdisciplinares e de métodos
como o estrutural. Engloba o conjunto das disciplinas voltadas para a produção,
comunicação e consumo da informação que, chamadas
por isso de ciências da informação, passaram a ser
consideradas como uma só ciência da informação.
A adoção do termo Ciência da Informação
no idioma inglês, pode ser verificada já em 1958, com a criação,
em Londres, do Institute of Information Scientists, e dez anos depois,
com a mudança de denominação do American Documentation
Institute para American Society for Information Science and Technology,
o mesmo ocorrendo com escolas de Biblioteconomia e publicações.
Marco considerado importante nesta nova ciência é a Encyclopedia
of Library and Information Science, editada por Allen Kent e Harold Lancour,
em New York, desde 1968 e até hoje publicada, cujo prefácio
discorre sobre "uma nova disciplina constituída sobre princípios
fundamentais decorrentes da experiência acumulada e que incorporam
todos os novos conceitos e técnicas", isto é, "uma ciência
integrada da biblioteconomia e informação" (Enciclopédia
Mirador Internacional, 1994, p. 6115). A própria Enciclopédia
Britânica publicou, em 1968, longo verbete intitulado Information
processing, considerando a necessidade de muitas disciplinas, tecnologias
e atividades sobre o processamento da informação para sua
organização, armazenamento, comunicação e uso.
Chernyi, Gilyarevskii e Mikhailov (1973) e Moreiro González (1995)
tratam da construção do conceito que envolve a Ciência
da Informação, na União Soviética, que teve
início alguns anos depois de fundamentado e desenvolvido pelos Estados
Unidos. A equipe de Mikhailov concebeu alguns enfoques diferentes e criou
o termo Informatika para defini-lo. Para os russos, essa nova disciplina
é responsável pelo estudo da estrutura e das peculiaridades
da informação científica (a qual engloba todas as
áreas do conhecimento), assim como as leis que regem essa atividade,
sua teoria, história, métodos e organização.
O assunto fundamental da Informatika é a informação
considerada no contexto comunicativo dentro do sistema social interessado
pelas mudanças no estado dos conhecimentos: deve produzir alterações
no pensamento das pessoas, o que significa que a informação
é comunicação que se recebe e se assimila. As áreas
que compõem a Informatika foram definidas por: Informatika
teórica (estuda os sistemas abstratos de informação);
Informatika
de gestão (relaciona-se com a gestão de sistemas de informação);
Informatika científica (investiga os sistemas de informação
automatizados); e Informatika bibliotecária (estuda os sistemas
de informação bibliotecária).
Os pesquisadores russos apontam para uma distinção entre
o serviço de informação científica e o trabalho
ativo com o leitor, a divulgação do livro e a orientação
para a leitura, como uma crítica aos desenvolvimentos dos "bibliotecários
burgueses". Citam que estes, por pensarem as atividades da biblioteca como
meramente técnicas, baseadas na aquisição de livros
e sua organização para os leitores, acreditavam que livros
seriam substituídos pelos microfilmes e as bibliotecas e os bibliotecários
estariam em extinção. Na União Soviética, a
ação do bibliotecário e a biblioteca pública
eram essenciais pois possuíam um papel pedagógico e formativo,
como meio para edificação da sociedade socialista.
No entanto, ocorreu um processo que levou à adoção
ampla da concepção e do termo Information Science,
elaborado nos Estados Unidos, em detrimento da Informatika, pensada
pelos russos no mesmo período. O fenômeno é explicado
pela ambigüidade do termo Informática no Ocidente e pelos avanços
na constituição conceitual e nas aplicações
da corrente estadunidense, sustentada pelo predomínio teórico
e comercial. Com o esgotamento do regime socialista, teve fim também
uma das principais correntes teórico-práticas da Ciência
da Informação.
Dentre as abordagens mais consistentes sobre Ciência da Informação
está a de Saracevic. Teórico de produção relevante
no campo da Comunicação, considera o objeto da Ciência
da Informação como o comportamento, as propriedades e os
efeitos da informação em todas as suas facetas, tanto quanto
os vários processos da comunicação que afetam e são
afetados pelo homem. A Ciência da Informação estuda:
(1) a dinâmica e a estática do conhecimento, ou seja, suas
fontes, organização, criação, dispersão,
distribuição, utilização, expressão
bibliográfica e obsolescência; (2) os aspectos comunicacionais
relacionados ao homem enquanto produtor e usuário de informação;
(3) os problemas da representação simbólica da informação
como na classificação e indexação; e, por extensão,
(4) o funcionamento de sistemas de informação como as bibliotecas
e os serviços de armazenagem, recuperação e processamento
de dados (Saracevic citado por Enciclopédia Mirador Internacional,
1994, p. 6115).
Wersig (1997) argumenta a favor da natureza da Ciência da Informação
como uma ciência pós-moderna. Isto implica um novo entendimento
da noção de conhecimento, por meio do abandono da idéia
de paradigmas como categorias únicas de compreensão científica.
Diferente da ciência clássica, que é baseada na pesquisa
do completo entendimento de como as palavras trabalham, a ciência
pós-moderna trata do desenvolvimento de estratégias para
resolver em particular aqueles problemas causados pelas ciências
clássicas e pelas tecnologias. Wersig define Ciência da Informação
como o conjunto de modelos, desenvolvidos sob o ponto de vista do problema
do uso do conhecimento nas condições pós-modernas
de informatização.
A aplicação do conhecimento científico deu origem
à tecnologia, que por sua vez, transformou e transforma as formas
de disseminação e uso do conhecimento. Possuindo como contexto
a pós-modernidade, o período contemporâneo é
marcado pela informação (unidade do conhecimento ou o dado
agregado de valor comunicacional), pela comunicação (que
vulgariza o conhecimento por meio da disseminação massiva
possibilitada pela tecnologia) e pela tecnologia (ferramenta transformadora
das formas de produção e transmissão de conteúdos).
Para Mendonça (2000, p. 65), o campo da construção
teórica da Ciência da Informação está
situado entre o tecnológico e o humano, pois os avanços tecnológicos
afetam o conceito e o uso da informação, que por sua vez
influem na estruturação do conhecimento.
Considerações Finais
Dos méritos da Biblioteconomia, os maiores talvez tenham sido
a preservação dos documentos acumulados pela humanidade,
a prestação de serviços para acesso e uso destes documentos
e a possibilidade (não a efetividade) do acesso e uso de seus conteúdos.
Entretanto, ressalvas são feitas ao apego às tradições
e regras estabelecidas, à dificuldade de constituição
científica enquanto área do conhecimento (apesar de ser nomeada
como organizadora de unidades do conhecimento de outras áreas) e
à resistência em desenvolver uma postura mais reflexiva e
uma ação profissional com viés intelectual e político,
que considere os modelos teóricos em contínua interação
com a prática e segundo seus contextos de implantação.
O quadro apresentado indica que parte da relação entre
Biblioteconomia e Ciência da Informação é decorrência
da continuidade da oposição entre Biblioteconomia e Documentação.
Afinal, se a Documentação surgiu de uma cisão da Biblioteconomia
e impulsionou a formação da Ciência da Informação,
seria coerente considerar as duas últimas como divergentes. Apesar
de ser verificável relativa divergência, ela só não
é maior pois a Biblioteconomia assimilou algumas técnicas
da Documentação, sendo por isso definida atualmente como
uma grande área nomeada "Biblioteconomia e Documentação".
Contudo, houve baixa absorção dos princípios documentários
pela Ciência da Informação moldada nos Estados Unidos.
Este fenômeno poderia encontrar justificativa no apelo dos avanços
tecnológicos, os quais obscurecem a informação que
veiculam, e no controverso estágio embrionário da Ciência
da Informação, que não propicia a apropriação
de fato das áreas que lhe deram origem. Já a Recuperação
da Informação (segundo a noção adotada pelo
termo inglês Information Retrieval), que também está
na base originária da Ciência da Informação,
parece realizar uma contribuição mais reconhecida. Sob o
ponto de vista do argumento da origem européia da Documentação
e da origem estadunidense da Recuperação da Informação,
reforça-se a necessidade de estudos para avançar na compreensão
da Ciência da Informação com base nas peculiaridades
e características históricas destas duas culturas.
A Lingüística Documentária e a Informática
Documentária são campos que representam elaborações
da Lingüística e da Informática aplicadas aos processos
documentários. Estando em sua origem ligados à Documentação
e suas denominações assim o indicarem, expressam conteúdos
essenciais para a composição da Ciência da Informação
por considerarem, respectivamente, a natureza lógico-semântica
da estruturação do conteúdo dos documentos e os requisitos
tecnológicos para a sua produção, organização
e disseminação. Observa-se uma lacuna na literatura sobre
Ciência da Informação ao considerar a Lingüística
e a Informática (ou Ciência da Computação) em
detrimento da Lingüística Documentária e da Informática
Documentária. Uma explicação possível está
na constatação de que, a exemplo da Documentação,
estes campos são pouco conhecidos. Isto, no entanto, não
justifica que a construção teórica da Ciência
da Informação não opere pela assimilação
destes campos interdisciplinares, de alguma forma já constituídos
e aplicados.
Pode-se inferir que, a construção teórico-prática
da Ciência da Informação pela União Soviética,
a partir dos anos 60, contou com relativa clareza sobre a distinção
entre os serviços de informação científica
e os trabalhos de estímulo à leitura, assim como, sobre os
métodos para a efetivação de cada um deles, a despeito
do controle socialista sobre a produção e uso de informação.
Já nos Estados Unidos e países europeus, houve um constante
embate entre o projeto da biblioteca pública e educativa e a Biblioteconomia
especializada (e a Documentação), desde o final do século
XIX até a metade do século XX. Apesar de este fenômeno
ter ocorrido de forma peculiar em cada país, nenhum obteve sucesso
na consolidação de uma conformação global da
área.
Contudo, verifica-se que, na França, a influência do modelo
estadunidense de biblioteca pública e os avanços documentários
europeus em constante reformulação produziram fundamentos
abrangentes e integrados, que podem ser observados na literatura técnico-científica
do país. Mesmo que a separação profissional entre
bibliotecários e documentalistas seja marcante na França,
mais que nos Estados Unidos onde predomina forte corporativismo bibliotecário,
interessa o fato de a literatura em francês realizar uma abordagem
tal que, em suas bases, contempla e subsidia a ação e a reflexão
dos diversos profissionais que atuam com organização da informação.
Esta mesma abordagem reflete-se na literatura em idioma espanhol, configurando-se
em uma excelente fonte de estudo para os profissionais brasileiros, dada
a maior familiaridade com o idioma. Porém, observa-se que as técnicas
documentárias encontram-se pouco difundidas, em especial, no Brasil.
Aqui, o modelo da Biblioteconomia disseminado pelos Estados Unidos está
sendo acrescido dos princípios da Ciência da Informação
sem a retomada dos princípios documentários, cuja importância
vem sendo citada na literatura internacional da última década.
Uma outra dificuldade apresentada nos estudos em Ciência da Informação
está em se recorrer às conceituações de informação
de forma descontextualizada. Acredita-se que o que está em questão
é antes a abordagem realizada sobre a informação pela
Ciência da Informação do que a informação
em sua singularidade. Neste sentido, a Ciência da Informação
pode ser definida como a área que estuda a teoria, os métodos
e as práticas da produção, organização,
armazenamento, recuperação, disseminação e
promoção do uso da informação, processos esses
compreendidos no âmbito dos fluxos comunicacionais, e a informação
abordada enquanto unidade operacionalizável do conhecimento.
A fragmentação, o não reconhecimento de campos
constituídos e aplicados e a falta de foco (ou a condução
a focos aqui considerados secundários) ainda hoje causam incômodo
e se colocam como um obstáculo àqueles que buscam compreender
teoricamente a área e desenvolver uma prática fundamentada
e abrangente.
Conclui-se que a Biblioteconomia, a Documentação e a Ciência
da Informação são áreas que se relacionam conceitual
e historicamente.
A Biblioteconomia tem origem efetiva na atividade de preservação
das unidades do conhecimento registrado, alterando-se com o tempo por meio
da democratização do acesso à educação
e à cultura em atividade de gestão de serviços de
biblioteca, porém sem constituir área cientificamente fundamentada
no seu todo. É marcada pela intensa disseminação de
seus equipamentos físicos, as bibliotecas, muitas das quais estabeleceram
redes cooperativas de catalogação, cujos laços são
essencialmente produtivos e formais, mas não estabelecidos com base
na informação e seu contexto de produção e
uso.
A Documentação, uma dissidência da anterior mas
também componente dela, caracteriza-se pelo tratamento do conteúdo
dos documentos, pela diversidade dos tipos de registros de informação
com que trabalha e pelo uso otimizado das inovações tecnológicas
em seus processos. Mesmo que críticas possam ser feitas, por exemplo,
à limitada perspectiva comunicacional efetivada pelos antigos centros
de documentação, seus preceitos baseiam-se na contextualização
institucional e de público como critérios para a definição
dos processos e serviços. Desenvolveu técnicas mais amplamente
aplicáveis e atingiu significativo grau de sistematização
de seus princípios e modelos. Deu insumo à Ciência
da Informação que, entendida como ciência pós-moderna,
portanto interdisciplinar e sem vinculação a paradigma único,
reflete a mudança instaurada no século XX pela comunicação,
pela tecnologia eletrônica e pelos fluxos de informação.
Finalmente, sendo a Biblioteconomia, a atividade mais antiga de organização
de documentos, encontra na Ciência da Informação a
possibilidade de construção de referenciais teóricos
e de conquista de status científico, enquanto esta encontra
naquela parte da história e das práticas que compõem
aquilo que vem elaborando a partir de diversas disciplinas e aplicações.
Já a Documentação, considerada em separado da Biblioteconomia,
desenvolveu princípios e técnicas voltadas à organização
e recuperação da informação, independente dos
suportes e tipos documentais e com base nos contextos de aplicação
e tipos de informação. Neste sentido, os princípios
documentários permitem à Biblioteconomia maior abstração
e adequação na elaboração de seus processos
e serviços, e fornecem à Ciência da Informação
insumos para uma construção científica sólida,
ao conduzir a um foco ou núcleo de referência para a alocação
integrada das demais disciplinas e aplicações.
O desafio atual de elaboração teórica, assim como,
de constituição dos diversos serviços de informação,
independente do nível de especialização ou generalização
da informação e do público, necessita da integração
conceitual e procedimental entre: (1) o acúmulo decorrente das práticas
da Biblioteconomia; (2) os primeiros princípios e técnicas
da Documentação até as elaborações mais
recentes; e (3) os avanços epistemológicos em Ciência
da Informação.
Atualmente, verifica-se a elaboração de tesauros e outras
linguagens documentárias, a criação de serviços
de indexação e resumos, a organização de conteúdos
de sites e a construção e gerenciamento de serviços
de informação empresarial, governamental ou do Terceiro Setor
realizados por diversos profissionais que não os oriundos da área
da Biblioteconomia. Este fato reforça a ocupação histórica
(desde fins do século XIX, pelo menos) por outros profissionais
nas lacunas deixadas pela Biblioteconomia. Corporativismo à parte,
pois a história mostrou que esta postura não tem sido profícua
e a diversidade de profissionais tende a ser saudável à Ciência
da Informação, seria de se esperar que os historicamente
conhecidos profissionais da informação atuassem ampla e significativamente
na pesquisa teórica e empírica, assim como, nos processos
de produção, organização, recuperação,
disseminação e promoção do uso da informação
segundo contextos determinados.
[1] Artigo baseado na dissertação de mestrado intitulada
“Informática Documentária: estado da arte”, defendida em
São Paulo, em 2002, na Escola de Comunicações e Artes
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Cristina Dotta Ortega
Mestre, Professora Assistente da Escola da Ciência da Informação
(ECI) da UFMG.
Keywords: History of Librarianship; History of Documentation; History of Information Science; Epistemology of Information Science; Information Organization.
Considerando a história das instituições e das
profissões que realizaram e realizam os processos de organização
e preservação da informação registrada, são
apresentados cronologicamente alguns fatos que a compõem. Contudo,
esta tentativa de representação linear da temporalidade é
deflagrada pelos variados avanços em culturas e locais diversos.
Em especial, a partir do final do século XIX até metade do
século XX, observam-se estudos e práticas de abordagens distintas
que, ora convivem independentes, ora entram em conflito, ora assistem à
dominação ou à assimilação de uns pelos
outros.
A existência comprovada das primeiras coleções
organizadas de documentos, ou o que se poderia chamar de primeira biblioteca
primitiva, data do terceiro milênio a.C. Trata-se da Biblioteca de
Ebla, na Síria, cuja coleção era composta de textos
administrativos, literários e científicos, registrados em
15 mil tábuas de argila, as quais foram dispostas criteriosamente
em estantes segundo o tema abordado, além de 15 tábuas pequenas
com resumos do conteúdo de documentos. A escrita era a cuneiforme,
porém não no seu idioma original (o sumério), mas
numa língua desconhecida a qual se chamou eblaíta. A descoberta
desta biblioteca, em 1975, altera a história conhecida sobre a Síria
e sobre o Oriente Médio no período e a organização
nela encontrada vem sendo considerada a origem dos princípios da
Biblioteconomia (Sagredo e Nuño, 1994).
O percurso da Biblioteconomia, da Bibliografia e da Documentação
no período citado é tratado aqui essencialmente a partir
de Shera e Egan (1961).
As atividades dos documentalistas foram se desenvolvendo simultaneamente
ao surgimento das bibliotecas públicas. Na virada do século,
Otlet e La Fontaine sistematizaram a Documentação, cunhando
este termo para significar, de forma mais ampla, aquilo antes denominado
Bibliografia. Mais que isso, Otlet vem sendo considerado precursor e fundador
da Documentação e da própria Ciência da Informação.
O período que corresponde ao final do século XIX até
metade do século XX foi marcado por uma divisão de interesses
entre bibliotecas públicas e processos documentários, com
maior ênfase nos Estados Unidos e Europa, respectivamente.
Shera e Egan (1961) citam que a Documentação e a Biblioteconomia
evoluíram como artes práticas com o fim de atenderem necessidades
imediatas. Tanto as bibliotecas quanto os centros de documentação
trabalharam de forma isolada, decorrente de um período caracterizado
por poucas bibliotecas, acervo reduzido e clientela homogênea e erudita
que pouco se relacionava entre si.
A Biblioteconomia apresenta uma longa história de atividades
de organização e conservação de documentos,
desde o início da escrita até a época moderna, no
século XV, quando recebeu novos insumos em função
da invenção da imprensa e do Renascimento científico
e cultural. Este período teve como elementos marcantes a primeira
explosão de produção e circulação de
livros e o distanciamento dos então bibliotecários das atividades
de (re)produção de documentos e, portanto, de uma maior relação
com o conteúdo dos mesmos. Por volta de 1850, a Biblioteconomia
sofreu uma ruptura com a Bibliografia, devido à proliferação
dos periódicos e à necessidade de acesso a seus artigos.
Esta ruptura foi concretizada pela sistematização e aplicação
da Documentação por Otlet e pela continuidade e aprimoramento
deste movimento na Europa. No mesmo período, na Europa, e principalmente
nos Estados Unidos, tiveram início a criação e a disseminação
das bibliotecas públicas, entendidas como equipamentos de acesso
universal à educação e à cultura. Também
foi emblemática a pesquisa em Biblioteconomia da Escola de Chicago,
entre os anos 30 e 60, focada na questão da função
social da biblioteca e do bibliotecário, em contraposição
aos progressos em tratamento documentário e mecanização
realizados pelos documentalistas europeus desde o final do século
XIX. Uma outra ruptura (que reforçou a anterior) ocorreu com a sedimentação
da Ciência da Informação nos Estados Unidos, a partir
dos anos 50, justificada essencialmente pela evolução da
tecnologia eletrônica e construída sem a retomada dos estudos
sobre processos e tecnologias anteriormente desenvolvidos pela Documentação.
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