DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.5  n.5   out/04                            ARTIGO 05
A “Informação Construída” nos meandros dos conceitos da Teoria Social de Pierre Bordieu
The “Constructed Information” based into the concepts of Pierre Bourdieu’ social theory
por Denise Morado Nascimento e Regina Maria Marteleto




Resumo: Este artigo parte do entendimento da informação como elemento inserido em dimensões sociais e culturais, amparado pela oferta conceitual da sociologia da cultura de Pierre Bourdieu. A “informação construída” no espaço social, diz respeito também à visão de Birger Hjørland sobre o domínio do conhecimento dentro das comunidades discursivas. Enfim, uma proposta conceitual elaborada como possibilidade de aproximação da Ciência da Informação com as Ciências Sociais.
Palavras-chave: “Informação Construída”; Sociologia da Cultura; Comunidades Discursivas.

Abstract: This article arises from understanding the information as an element built into the social and cultural dimensions and supported by the cultural sociology of Pierre Bourdieu. The “constructed information” in the social space refers to the vision of Birger Hjørland about the knowledge domain concerned with the discourse communities. Lastly it is a conceptual proposal meaning a possibility to approximate the Information Science to the Social Sciences.
Keywords: Constructed Information; Cultural Sociology; Discourse Communities.
 
 
 

Introdução

A literatura da Ciência da Informação (CI) evidencia a ainda incipiente importância dada às dimensões sociais e culturais do seu objeto de estudo. Parte-se do pressuposto de que o tratamento, a captação e a interpretação da informação dentro destas dimensões, fortalecem a visão de que os problemas informacionais de um dado campo de conhecimento estão concatenados aos objetos, operações e relações entre o que os seus participantes percebam como importante dentro do acervo de soluções e experiências acumuladas e daquelas disponibilizadas para a sociedade.

Para orientar teoricamente este argumento, recorre-se à visão de Birger Hjørland (1995, 1997, 2002), que considera o objeto físico informativo como o objeto de estudo da CI, mas tendo a informação não como uma ‘coisa’ e sim como uma ‘mudança’ no conhecimento do receptor. Sendo assim, vê a possibilidade do entendimento da informação por meio do estudo do domínio do conhecimento dentro das comunidades discursivas, sendo reflexo das estruturas informacionais, da terminologia, da representação do conhecimento, dos padrões de cooperação, das formas de linguagem e comunicação.

Este pensamento sobre a prática informacional no espaço social é sustentado por meio da sociologia da cultura de Pierre Bourdieu. Para o sociólogo, só se pode explicar uma prática social se a estrutura objetiva que define as condições sociais de sua produção relacionar-se com as suas condições de exercício. Em outras palavras, o espaço social é estruturado pelo conjunto de ações, representações e interações sociais que os sujeitos enfrentam, mas, também, gera e estrutura as características sociais dos atores que produzem as práticas sociais.

Espera-se que esta outra forma de olhar a informação possa trazer contribuições sobre o estudo de uma base conceitual interdisciplinar construída pelas Ciências Sociais (CS) e CI.
 

O significado da informação

Conceitos-chave na ontologia e epistemologia da palavra informação foram determinados, segundo Capurro e Hjørland (2003), desde as traduções de várias palavras gregas em informatio ou informo. Para os autores, a transição do uso do conceito de informação da Idade Média para a Modernidade, de "dar uma forma substancial à matéria" para "comunicar alguma coisa a alguém", foi determinada pela ‘doutrina de idéias’ de Descartes que colocou o pensamento como um processo funcional, capaz de operar em uma parte do cérebro – "penso, logo existo" (cogito, ergo sum).

Esta premissa cartesiana fomentou desde a "Teoria Matemática da Comunicação" de Shannon e Weaver, até a exploração do conceito informação, proposta por Michael K. Buckland (1991) em seus três aspectos: (1) informação-como-processo, isto é, o ato de informar; (2) informação-como-conhecimento, sendo o conhecimento comunicado e (3) informação-como-coisa, funcionando como atributo para objetos, dados ou documentos.

Estas teorias da informação nada mais são do que distinções frente às propriedades transcendentais da informação. Shannon e Weaver não asseguram a construção do saber pela quantificação da informação, assim como Buckland atrela sua proposta às premissas de se medir e processar a informação, o tangível, ou representar o conhecimento e estar informado, o intangível. Estes quadros conceituais, auxiliados pelas teorias e técnicas da Biblioteconomia em relação à eficácia da seleção, coleta, armazenagem, representação, identificação, localização e acesso físico de dados, textos, documentos e objetos, fundamentam o pensamento dos que estudam, desenvolvem e desenham sistemas de informação, armazenagem e sistemas de recuperação de dados, tendo a informação como objeto físico passível de quantificação, padronização, classificação, controle e certificação. Mas, não a informação construída como prática social.

Sendo assim, é necessário concordar com Capurro e Hjörland (2003) quando afirmam que o significado epistemológico da palavra informação foi transformado pela Modernidade em uma propriedade do homem. Seus sinais e símbolos, sendo algo objetivo, foram considerados pelos racionalistas como algo a ser estocado e processado – o pequeno passo para se ver a informação como mercadoria ou algo a ser vendido. O significado epistemológico da informação, como ‘instruir’ e ‘providenciar conhecimento’ – to instruct e to furnish with knowledge, tem prevalecido no lugar do significado ontológico de dar forma a alguma coisa – giving form to something (CAPURRO, 1992).

Ora, se a informação não é apenas uma ‘coisa’ a ser fisicamente observada, e sim historicamente construída, pois é ela que ‘dá forma a alguma coisa’, pode-se concluir que os sujeitos criam mecanismos informacionais (percepção, memória, imagem, etc.) para reconhecer, interpretar e transmitir significados. Ou seja, agir. Como resultado, entende-se a informação, renascida do seu sentido ontológico, apenas se inserida dentro de seu contexto cultural e social, e não apenas causal ou natural.
 

Abordagens teóricas da CI

A literatura na CI não nega a escassez da investigação teórica apresentada em seus trabalhos acadêmicos durante todas estas décadas. Não existem fundações teóricas, atestou Brookes (1980, p.125); não temos expectativas de encontrar muitas teorias nas suas fronteiras disciplinares, afirmaram Boyce e Kraft (1985, p.155). Estas constatações são compartilhadas pelas autoras, mas é preciso reconhecer que há caminhos de pensamento traçados pela forma como a problemática da informação tem sido abordada.

Como ponto de partida, tem-se o encontro da American Society for Information Science, em 1993, Ohio. O interesse volta-se, particularmente, para a seção entitulada Debating different approaches to studying the organization of information [1], que teve o objetivo de elucidar as distintas abordagens da ‘informação’, apresentadas como possibilidades do entendimento da organização da informação: (1) o paradigma do objeto, através da análise da natureza das informações dos próprios objetos; (2) o paradigma cognitivo, por meio do estudo de como as pessoas pensam e, então, seus padrões de pensamento; (3) o paradigma comportamental, pela observação de como as pessoas interagem com fontes potenciais; (4) o paradigma da comunicação, através do estudo comunicativo do uso e da busca da informação, examinando como as pessoas elaboram questões e criam respostas a estas questões.

Entretanto, considerando a informação em seus processos de organização e uso, desenho de sistemas e tratamento, agrupam-se estes paradigmas apenas sob dois pontos de vista. Por um lado, atesta-se o paradigma físico, enraizado na prática da catalogação e classificação, que exclui o sujeito cognoscente e enfatiza a informação sistêmica e, por outro, o paradigma cognitivo que potencializa os modelos mentais e as operações entre o intelecto do usuário e o sistema. Esta percepção de apenas dois paradigmas é compartilhada por Ellis (1992).

Também para Choo (1998) as pesquisas sobre informação têm sido abordadas de forma dualista, podendo ser identificadas pelos seguintes pontos de vista: (1) sistemas – a informação como uma entidade externa e objetiva, que tem um conteúdo baseado na realidade própria dependente do indivíduo; cada documento ou registro contém informação "sobre alguma coisa", e esta pode ser determinada objetivamente; (2) usuários – a informação como uma construção subjetiva que é criada internamente em suas cabeças; o usuário reserva o conteúdo objetivo de um documento ou registro dentro de um envelope interpretativo, combinando-se conteúdo mais interpretação, definindo a informação como válida e útil.

É possível perceber que as abordagens apresentam-se como distintamente individualistas, já que focam o usuário ou o sistema, e não os aspectos coletivos ou o contexto social no processamento da informação (HJØRLAND, 1995; JACOB, SHAW, 1998). Wilson (1993) aponta que poucos pesquisadores têm visto a unidade de estudo da CI como disciplina, domínio, ambiente ou coletividade, mas quase sempre com foco no indivíduo.

A informação, além das estruturas de conhecimento, não pode ser apenas entendida por meio dos atributos formais do objeto, da potencialidade de interpretação do significado, da mecânica do cérebro, da consciência do indivíduo ou dos princípios e padrões de pensamento e comportamento. Corre-se o risco, por um lado, de se enfocar exageradamente a subjetividade do usuário ou o atendimento a cada desejo seu específico, e por outro, o da leitura e provisão da informação alienada em relação aos interesses dos usuários (PAIM, NEHMY, GUIMARÃES, 1996).

Parece-nos que a CI tem se preocupado muito mais com a facilitação ou adaptação da comunicação indivíduo-sistema, do que com o entendimento ou explicação de sua prática social. Não há dúvidas que os processos de produção, transferência e uso das informações são sociais, já que eles acontecem entre a sociedade e suas relações sociais. E, por isso, estão concatenados ao desenvolvimento social, que é fruto do crescimento urbano e comercial, da diferenciação de classes, da especialização do trabalho, das inovações tecnológicas, do acesso educacional, do bem-estar social e do entretenimento, no quadro da modernidade ocidental.

Esta postura é compartilhada por González de Gómez (2000) ao afirmar que "o objeto da Ciência da Informação tem que ser considerado como uma construção de significado de segundo grau a partir das práticas e ações sociais de informação que constituem seu domínio fenomênico". E também por Marteleto (2002, p.102) quando explicita "a relevância interdisciplinar das teorias sociais na compreensão das questões práticas e teóricas da informação". A autora continua ressaltando que "informação não é processo, matéria ou entidade separada das práticas e representações de sujeitos vivendo e interagindo na sociedade, e inseridos em determinados espaços e contextos culturais".

Neste cenário, entende-se que as dimensões históricas, culturais, econômicas, tecnológicas, sociais e políticas são pré-condições para o entendimento da ‘informação’.

Assim, a informação deve ser referenciada à historicidade dos sujeitos, ao funcionamento das estruturas e das relações sociais e aos sujeitos que executam ações. Isto é, a potencialidade de se ver a informação constituída como problema da sociedade, configurado como um fenômeno da ordem cultural e da humanidade.

Se assim é, a postura frente à necessidade de se aprofundarem estudos e pesquisas que incorporem o significado ontológico da informação de dar forma a alguma coisa é retomada, vinculado ao seu potencial informativo dentro de seu contexto social e cultural, e não às suas características permanentes ou inerentes. Como sugere Hjørland (1995), ancorar-se teoricamente para construir princípios que otimizem as práticas sociais de natureza informativa. Ou, em outras palavras, assumir a inserção da CI nas CS já que o objeto de pesquisa – a informação, é socialmente produzida, transferida e usada.
 

As ferramentas conceituais de Pierre Bourdieu

O pensamento sociológico de Bourdieu está fundamentado no embate das teorias sociológicas: (1) o objetivismo, que se baseia nas relações objetivas dos sujeitos; (2) a fenomenologia, que se refere à subjetividade do sujeito; (3) o marxismo e a construção sócio- histórica do real (ORTIZ, 1983; BOURDIEU, 1983).

Bourdieu instaura um diálogo crítico que ultrapassa os limites das três vertentes sociológicas, denominado conhecimento praxiológico, como mediação reencontrada entre a teoria e a prática, entre homem e história, entre ator e estrutura, entre agente social e sociedade. Este fundamento sustenta a percepção do que seja o espaço social, não como estrutura objetiva das práticas individuais (positivismo e estruturalismo) ou apreensão subjetiva individual do mundo (fenomenologia e etnometodologia), mas como "construção subjetiva da realidade feita sob a coação de estruturas que existem objetivamente" (STEVENS, 2003, p.66).

As estruturas constitutivas de um meio social permitem o reconhecimento do espaço social ocupado por cada ator social e produzem o habitus – primeiro aspecto de sua abordagem: "esse princípio gerador e unificador que retraduz as características intrínsecas e relacionais de uma posição em um estilo de vida unívoco, isto é, um conjunto unívoco de escolhas de pessoas, de bens, de práticas" (BOURDIEU, 1996, p.22).

O uso do termo habitus partiu de Panofsky (1991) em sua obra Arquitetura gótica e a escolástica, como base para o entendimento da "unidade significante genuína" e da uniformização das diversidades individuais expressas na arquitetura gótica. O autor afirma que a escolástica monopolizou a formação intelectual cunhando um hábito mental (mental habit) responsável pela transformação dos arquitetos em escolastas.

Bourdieu (1999) reinterpreta o conceito de mental habit perpassando pela evidência das capacidades criadoras e inventivas, definindo-o como "o que faz o criador participar da coletividade de sua época". Assim, temos que o habitus "são sistemas de disposições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes" (BOURDIEU, 1983, p.61).

As condições do exercício do habitus estão relacionadas a uma situação social, econômica, política – "estado particular dessa estrutura". Não é uma coleção passiva de conhecimentos, um conjunto de regras que aplicamos às situações sociais (STEVENS, 2003, p.72). É o que está no ator, no sujeito, na linguagem, na biografia cultural e na história individual, conformada, essencialmente, pela sua trajetória social dentro da família e de seu sistema de valores (habitus primário) e pela herança cultural e formação educacional da escola (habitus secundário).

Sendo assim, as experiências espaciais e temporais dos sujeitos derivam de suas percepções, atitudes e práticas geradas pelo habitus. Quando muda a posição de uma pessoa ou grupo dentro da sociedade, mudam também as suas relações sociais e o espaço social.

O habitus aplica-se ao sujeito embebido por seu ‘montante’ de conhecimento e à posição social determinada por este – o capital cultural, constituído pelas relações entre a cultura erudita e a cultura escolar, e social, constituído pelas relações sociais. Bourdieu (1989b) considera, entretanto, mais do que os diplomas ou a escolaridade dos pais, o nível cultural global da família, como mantenedor da relação mais estreita com o êxito escolar da criança e legitimador do sistema de classes.

A noção de capital – segundo aspecto da abordagem de Bourdieu, tomada de empréstimo das investigações econômicas do marxismo, auxilia no entendimento da posição do indivíduo inserido no campo dos dominantes (máximo de capital) ou dos dominados (mínimo de capital). Ao acesso às oportunidades de se adquirir capital e à capacidade de imposição do capital – cultural e social, mas também profissional, político, econômico, lingüístico, simbólico e informacional – pelos dominantes, Bourdieu dá o nome de violência simbólica.

A diversidade da "estrutura particular" de cada sujeito, as práticas individuais (percepção, apreciação, ação) e as variáveis que sustentam o habitus coletivo alimentam a construção do campo, terceiro aspecto da abordagem de Bourdieu. O conceito de campo se define como o espaço social estruturado pelo conjunto de ações, representações e interações sociais que enfrentam os sujeitos: a "estrutura objetiva que define as condições sociais de produção do habitus" (BOURDIEU, 1983, p.65).

O conceito de campo serve para construir a informação como expressão cultural de sujeitos posicionados pela estrutura. Bourdieu (1998, p.160) lembra que "efetivamente, o espaço social se retraduz no espaço físico", mas atrelado à posse das diferentes espécies do capital e da distância física de bens ou serviços, também dependente do capital.

Os benefícios que o espaço objetivado proporciona são o resultado de lutas dentro do campo: ganhos de localização, pelo fato do sujeito estar localizado perto de bens raros e cobiçados (principalmente equipamentos culturais, educacionais e de saúde); ganhos de posição de classe, ganhos simbólicos de distinção ligados à posse de uma propriedade distintiva, segundo as possibilidades de acesso físico (meios de transporte – público ou privado) e temporal; ganhos de ocupação, referentes à posse de um espaço físico, podendo ser uma forma de manter à distância ou de excluir toda espécie de intrusão indesejável (BOURDIEU, 1998).

Essa maneira de ver o lugar, não como espaço físico, mas como extensão da ocupação do sujeito, aproxima-se do caráter informacional desejado e auxilia na percepção das dimensões e cumplicidades no jogo de relações entre os sujeitos do campo, isto é, aqueles que exercem o poder e aqueles que deixam o poder ser exercido – o poder simbólico.
 

O olhar sociologizado de Hjørland

O paradigma social proposto por Hjørland [2] (1995, 1997) como reorientação da área, chamado análise de domínio (domain analysis), afirma que a melhor maneira de se entender a informação na CI é estudar os domínios de conhecimento relacionados com suas comunidades discursivas (discourse communities), que são distintos grupos sociais sincronizados em pensamento, linguagem e conhecimento, constituintes da sociedade moderna. Não são entidades autônomas, mas construções sociais compreendidas por indivíduos (JACOB, SHAW, 1998). Naturalmente, atrelados às dimensões culturais, sociais e históricas.

Segundo Hjørland, a estrutura e organização do conhecimento, os padrões de cooperação, as formas de linguagem e comunicação, os sistemas de informação, a literatura e sua distribuição, os critérios de relevância, são reflexos dos objetos de trabalho destas comunidades, e, também, dos seus papéis na sociedade. Esta possibilidade de se olhar a ‘informação’ significa a mudança da unidade de estudo de um fenômeno físico da informação como ‘coisa’ ou ‘estado mental de idéias e opiniões’ do indivíduo, para um fenômeno social de informação coletiva, estruturas de conhecimento e instituições de memória das comunidades discursivas – o campo em Bourdieu.

Swales (1990) propõe a identificação de uma comunidade discursiva a partir de seis características:
 

a) metas comuns: uma comunidade discursiva tem um conjunto combinado de objetivos, podendo se apresentar em documentos ou em conhecimento tácito;

b) mecanismos participativos: uma comunidade discursiva tem formas de intercomunicação entre os membros, seja por encontros, correspondência, newsletter ou simples conversas;

c) troca de informação: a comunidade discursiva usa mecanismos para prover informação com propósitos definidos como, por exemplo, melhora de perfomance e aumento da capacidade produtiva;

d) estilos específicos: uma comunidade discursiva usa e possui um ou mais estilos de comunicação para atingir seus objetivos, identificados por tópicos de discussão, forma, posição de elementos e mensagens;

e) terminologia especializada: uma comunidade discursiva tem um vocabulário específico;

f) alto nível de especialização: uma comunidade discursiva tem um mínimo de membros com um nível adequado de conhecimento relevante e expertise discursiva.


A análise de domínio reconhece que as comunidades discursivas compõem-se de atores com pontos de vista distintos, estruturas de conhecimento individuais, predisposições, critérios de relevância subjetivos, estilos cognitivos particulares. Mas, se fazem presentes no jogo entre as estruturas de domínio e o conhecimento individual e na interação entre o nível individual e social. A história do indivíduo, inserida dentro de uma história coletiva, apresenta suas variáveis e diferenças, e são estas que caracterizam as possibilidades de diferentes percepções, trajetórias, propósitos e apreciações em cada domínio de conhecimento.

As premissas básicas da abordagem da análise de domínio proposto por Hjørland são relacionadas, principalmente, à teoria da atividade dos russos Lev Vygotsky e Alexey Leontiev. Em seu preceito, o conhecimento é visto como resultado da interação do sujeito com o meio, como estrutura criada culturalmente e como produto histórico da atividade humana ligada, não às mentes dos indivíduos ou ao racionalismo cartesiano, mas, à prática social.

Hjørland (1995, 1997) também explicita as conseqüências metodológicas para a CI: os paradigmas da CI têm sido dominados por um individualismo metodológico onde o conhecimento é visto como um estado mental subjetivo do indivíduo; oposto ao coletivismo metodológico, que o tem como processo cultural, social e histórico. Para alcançar este coletivismo metodológico, o ponto de partida é o entendimento de determinada disciplina, ambiente ou domínio de conhecimento.
 

Finalizando ...

O resgate do sentido ontológico do conceito informação, como possibilidade no sentido amplo de "ser capaz de criar ou ‘in-formar’ novos contextos de significado", implica em entender que a CI está não apenas imersa no contexto da comunicação ou da estrutura da comunicação.

Esta visão é importante para formar a idéia da informação como um elemento dinâmico e não estático, onde o sujeito lhe confere sentido por meio de sua incorporação às suas estruturas estruturadas e estruturantes, alterando-as constantemente. Assim, a informação é elemento estruturante que produz sentido atrelado às possibilidades de mudança da linguagem, da narrativa e da comunicação, não se esgotando na relação lingüística de seus interlocutores.

Percebe-se uma passagem aberta na CI para assumir sua faceta essencial e fundamental de ciência social. Idéia recorrente na CI presente em um dos clássicos da área, Jesse H. Shera (1971): o estudo da informação deve estar baseado na trindade do atomismo, significando a operação tecnológica, do conteúdo, sendo aquilo que é transmitido, e do contexto, como o ambiente social e cultural, que define as características dos dois primeiros aspectos.

Esta aproximação da CI com as CS torna-se possível quando investigamos grupos de trabalho, disciplinas ou comunidades discursivas, ao contrário das estruturas de conhecimento individuais. É uma abordagem que vai além da distinção dos diferentes níveis de questionamentos da CI: holísticos ou atomísticos, individuais ou sociais, subjetivos ou objetivos, formalistas ou determinadas por conteúdo, históricos ou situacionais, simbólicos ou conexionistas.

Relacionar os conceitos básicos da sociologia da cultura de Pierre Bourdieu à abordagem da análise de domínio de Hjørland, constitui a possibilidade de interpretação das posições dos sujeitos nas comunidades discursivas, mas, também, da posição do próprio grupo na estrutura social do campo e da sociedade.

O paradigma social da informação de Hjørland está associado a um conjunto de atividades exercidas pelos e para os sujeitos e, por isso, não pode estar separado das características físicas e contextuais e, essencialmente, das peculiaridades dos agentes concatenados em seus espaços sociais e culturais. As diversas condições sociais de produção do habitus e capital de cada sujeito revelam as oposições e conflitos, subjetividades, relações de força e poder, interesses, contradições e tensões que alimentam, historicamente, e progressivamente, o campo de conhecimento.

Os conceitos de campo e habitus de Bourdieu ampliam o conceito de comunidades discursivas de Hjørland, ao possibilitar o entendimento sobre o funcionamento e os embates das comunidades e o modo como produzem, mediam e fazem uso das informações. A hipótese é que, assim, os processos de produção, transferência e uso das informações como prática de um domínio de conhecimento revelam a informação construída pelas comunidades discursivas em seu ambiente social e cultural.

Por fim, resgata-se uma indicação geral do último livro de Pierre Bourdieu (2001), uma coletânea dos seus seminários no Collège de France, na sessão de 2000-2001, onde o autor lança uma questão pertinente a respeito do campo científico e suas comunidades discursivas. O autor pergunta como é possível que uma atividade histórica, inscrita na história, como a atividade científica, produza verdades transhistóricas, independentes da história, e destacadas de todos os elos com o lugar e o momento, e portanto válidas eternamente e universalmente?

Para entender o modo de ser das comunidades discursivas e seu trato com as questões de informação é necessária uma pergunta de partida, em relação ao próprio modo de produção do conhecimento científico: a necessidade de verdades lógicas – intento do empreendimento científico e racional – é compatível com o reconhecimento da sua historicidade? É nas possibilidades de reflexão em torno dessa questão básica que residem as capacidades de encaminhamento da questão teórico-prática da informação nos espaços das comunidades discursivas.
 


Notas

[1] Programa da conferência disponível em:
<http://www.lists.ufl.edu/cgi-bin/wa?A2=ind9307&L=z3950iw&F=&S=&P=9464>. Acesso em Mar. 2004.

[2] Proposta presente também nos trabalhos conjuntos com Hanne Albrechtsen (1995).
 
 

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Sobre as autoras / About the Authoras:

Denise Morado Nascimento
dmorado@uol.com.br

Doutoranda da Escola de Ciência da Informação/UFMG,
Professora da Faculdade de Engenharia e Arquitetura/FUMEC.
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Regina Maria Marteleto
reginamar@eci.ufmg.br

Doutora em Comunicação e Cultura ECO/UFRJ,
Professora Adjunta da Escola de Ciência da Informação/UFMG.
Endereço: Av. Antonio Carlos 6627 – Belo Horizonte – 31270-010