DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.5   n.5   out/04                            RECENSÕES

O Futuro da Natureza Humana
por Jurgen Habermas

Coleção Tópicos
Editora Martins Fontes
ISBN 8533619944
Brochura   1ª Edição - 2004 - 160 pág.
 

O texto principal deste livro, 'O futuro da natureza humana', traz uma discussão desencadeada pela técnica genética - pode a filosofia se permitir a mesma moderação também em questões relativas à ética da espécie? A discussão sobre o tratamento que se deve dar à pesquisa e à técnica genética gira há algum tempo em torno da questão do status moral da vida humana pré-pessoal sem trazer resultados. Neste livro, o autor adota a perspectiva de um presente vindouro, a partir do qual um dia, possivelmente será lançado um olhar retrospectivo às práticas, hoje contestadas, considerando-as como precursoras de uma eugenia liberal, regulada pela oferta e pela procura. O livro traz também o texto 'Fé e saber' em que é abordada uma questão que ganhou nova atualidade no dia 11 de setembro - o que a secularização, que perdura nas sociedades pós-seculares, exige dos cidadãos de um Estado constitucional democrático e o que exige igualmente dos fiéis e dos não fiéis?




Um pequeno e precioso livro saiu há coisa de um ano na Alemanha: "Die Zukunft der menschlichen Natur" (O Futuro da Natureza Humana, editora Suhrkamp, 125 págs.). Seu autor é um dos maiores filósofos vivos, Jürgen Habermas. Muita gente na academia tupiniquim torce o nariz para ele, mas não a ponto de deixar de reconhecê-lo como um herdeiro -com voz própria- da famosa Escola de Frankfurt.

Pouco tempo depois, já neste ano, uma obra algo mais alentada foi publicada nos Estados Unidos, "Our Posthuman Future" (Nosso Futuro Pós-Humano, editora Farrar, Straus and Giroux, 256 págs.). Quem a escreveu foi Francis Fukuyama, o conservador que anunciou há uma década a tese polêmica de um ponto final hegeliano na história.

Dada a coincidência, tanto mais extraordinária pela envergadura, manda a prudência que ao menos em hipótese seja tomada como sintoma, mais do que acaso. E um sintoma que cresce em importância quando se tem em conta que os dois expoentes como que interromperam o curso normal de suas preocupações, que decerto não incluiriam espontaneamente as implicações arcanas do DNA recombinante e das células-tronco embrionárias, não no ano em que o mundo se chocou com o 11 de setembro.

Deixo Fukuyama para outra feita e me detenho em Habermas. Em "Die Zukunft der menschlichen Natur", Habermas se concentra sobre uma ameaça mais insidiosa que a própria guerra para a subsistência da noção de espécie humana -em sentido ético-universal, e não biológico.

Mas, paradoxalmente, é no caráter aleatório dessa base biológica que ele vai buscar o fundamento daquela humanidade, ora ameaçado pelas biotecnologias (que fique provisoriamente de lado a questão cabeluda de definir se essa "natureza humana" é de fato universal ou historicamente construída).

Em se tratando de um filósofo alemão, e ainda por cima Habermas, o argumento até que não soa dos mais complicados. É o mesmo que ele já empregara a favor da proibição da clonagem humana: a conformação genética de cada pessoa, por ser fruto do acaso (ninguém tem como escolher a metade dos próprios genes que legará para os filhos, muito menos os efeitos de sua interação com os do outro genitor), é uma condição imprescindível da igualdade entre todas as pessoas que vêm ao mundo.

Desse ponto de vista, nasceria em desvantagem a pessoa que tivesse ou deixasse de ter determinados genes por escolha de outrem, fosse pai ou cientista, por ter sido clonada, sofrido intervenção genética ou passado por seleção embrionária.

Tudo aquilo que alguém recebia dos pais por escolha deles, até o advento da engenharia genética, ou o que se costuma resumir como "criação", podia cedo ou tarde tornar-se objeto de contestação, na medida em que a pessoa construía a própria biografia. Genes são outros 500, pois podem ser tecnologicamente escolhidos, agora, antes do nascimento, ou seja, antes da entrada no próprio universo social e da linguagem.

Para Habermas, essa assimetria ameaça dissolver o próprio alicerce da vida social, a igualdade. Diante disso, nem mesmo a filosofia acabrunhada pelos tempos poderia calar: "As novas tecnologias nos impõem um discurso público sobre o correto entendimento da forma de vida cultural enquanto tal. Os filósofos não têm mais bons motivos para deixar esse objeto de disputa para os biocientistas e os engenheiros entusiasmados com a ficção científica." Fukuyama que o diga.

Marcelo Leite
no http://www.herbario.com.br/



 

Se Filosofia em Tempo de Terror apresenta o pensamento de Habermas sobre política internacional, O Futuro da Natureza Humana traz suas idéias sobre outra questão polêmica, a pesquisa genética com embriões. Aqui, Habermas assume uma posição bastante restritiva, alertando contra a tentação de aperfeiçoar a espécie por meio da seleção de genes – o filósofo chama essa intervenção hipoteticamente bem-intencionada de "eugenia liberal", distinguindo-a assim (ao mesmo tempo que a aproxima) da eugenia racista praticada na Alemanha durante a II Guerra. Esse complicado ensaio sobre as conseqüências filosóficas da pesquisa genética é bastante característico da maneira como Habermas procura pautar discussões na Alemanha. Aos 15 anos, o pensador fez parte da Juventude Hitlerista. Quando os primeiros filmes sobre os campos de concentração chegaram ao seu país, depois do fim da guerra, ele sofreu o choque de descobrir que servira a "um sistema politicamente criminoso". A descoberta, diz Habermas, estabeleceu o norte de sua atuação política. Ele decide intervir sempre que alguma idéia veiculada pela imprensa lhe parece nacionalista, conservadora ou irresponsável demais para um país que tem no passado recente a tragédia nazista.

Citação da opinião de Carlos Graieb  para Veja de 13/10/2004