Resumo: A terminologia busca determinar o termo
que denota um conceito específico. A definição precisa
desta relação termo-conceito é fundamental para que
se possa organizar e comunicar informações e possui aplicação
em diversas áreas de estudo. Dentre elas, a ciência da computação,
mais particularmente a subárea da representação de
conhecimento, pode se beneficiar dos resultados e métodos oriundos
da terminologia. Este estudo descreve os principais aspectos da terminologia
e discute sua aplicação na modelagem de sistemas computacionais,
uma vez que oferece uma base sólida para a construção
de um sistema de conceitos.
Palavras-chave: Terminologia; Sistemas de conceitos;
Ontologia; Modelagem de sistemas computacionais.
Abstract: The terminology aims to determine the
term that denotes a specific concept. The accurate establishment of this
term-concept relationship is fundamental to allow the organization and
the communication of information and possesses applications in several
areas. Among them, the computer science and the knowledge representation
area, more specifically, can benefit from results and methods developed
in the terminology studies. This work describes the terminology mains aspects
and presents its contribution to the conceptual modeling of computer systems,
as it offers a solid base to construct concept systems.
Key words: Terminology; Conceptual Systems; Ontology;
Computer systems modeling.
1. Introdução
Sistemas computacionais baseiam-se na construção de um
modelo computacional de um determinado domínio com o propósito
de serem submetidos a procedimentos automáticos de transformação
e consulta. Apesar do procedimento de computação não
levar em consideração a semântica subjacente aos símbolos
que compõem o modelo computacional, a escolha adequada dos símbolos
é importante, uma vez que pessoas irão interagir com o modelo
em diversos momentos, tais como na criação, manutenção
e consultas ao modelo. A falha na escolha adequada dos símbolos
pode levar a sistemas difíceis de serem mantidos e entendidos, devido
a falta de consenso sobre o significado dos símbolos.
Vários autores (GOMES e CAMPOS, 1992; CAMPOS, 2001; DAHLBERG,
1978) mostraram a importância e o uso da terminologia em sistemas
de classificação da ciência da informação.
Este artigo tem por objetivo o estudo da contribuição da
terminologia no desenvolvimento de sistemas computacionais que, em função
do surgimento de novas tecnologias para o armazenamento e recuperação
informação, possui uma ampla área de contato com a
ciência da informação. A contribuição
da terminologia se faz presente no momento de se entender o significado
de um termo, e relacioná-la com outras, dentro de um domínio
específico, permitindo a formulação de relações
mais coerentes entre os termos selecionados para compor os instrumentos
que se pretende desenvolver. A terminologia é uma ciência
que busca determinar o termo que denota um conceito específico.
A definição precisa desta relação termo-conceito
é fundamental para que se possa organizar e comunicar informações
e possui aplicação em diversas áreas de estudo.
Na próxima seção, são apresentadas a história
e algumas das definições da terminologia mais aceitas. A
seção 3 discute as noções de termo e conceito
sob a luz da terminologia. A seção 4 descreve as relações
dos sistemas de conceito. Na seção 5 é discutida a
relação entre a terminologia e a computação.
Finalmente, a seção 6 apresenta as considerações
finais do trabalho.
2. Terminologia: origem e definições
A terminologia obteve seu reconhecimento como um campo da ciência
a partir dos estudos desenvolvidos pelo engenheiro austríaco Eugen
Wüster na década de 30. Seu objetivo inicial era organizar
a terminologia da Eletrotécnica, com o intuito de garantir uma comunicação
precisa. O trabalho se expandiu, resultando em uma proposta de uma teoria,
denominada de Teoria Geral da Terminologia, que trata dos conceitos de
uma língua técnica ou especial, e seus relacionamentos, na
forma de um sistema de conceitos (CAMPOS, 2001, p.60). Existem várias
definições para a terminologia como ciência, sendo
que a definição ISO é: o estudo científico
de conceitos e termos encontrados em linguagens especiais (ISO 1087, 1990).
Essa definição retrata as principais preocupações
da Terminologia, que são os termos e conceitos de uma determinada
área técnica ou científica. SUONUUTI enfatiza a preocupação
da terminologia com a estruturação dos conceitos em sua definição
sobre o trabalho da terminologia:
3. Princípios básicos
A terminologia se apoia em um pequeno conjunto de princípios
básicos, a saber: o caráter sincrônico, o caráter
onomasiológico e o princípio da univocidade. Cada um desses
princípios encontra-se descrito a seguir:
* Caráter onomasiológico — de acordo com o dicionário Aurélio (FERREIRA, 1975), onomasiologia é o estudo das expressões de que dispõe uma língua para traduzir determinada noção, e que parte, pois, do significado para estudar o significante. Desta forma, a terminologia busca observar o domínio para verificar quais são os conceitos envolvidos, para posteriormente indicar o termo que denotará cada conceito.
* Princípio da univocidade — este princípio estabelece uma correspondência única entre o significante/significado, impedindo, deste modo a ocorrência de ambigüidades.
O primeiro e o último princípio são naturais
para a área da computação, uma vez que ela, em geral,
não possui preocupações com a gênese de palavras
e a eliminação de ambigüidades é uma das metas
perseguidas pelos profissionais da área. Já o caráter
onomasiológico é intrínseco ao método terminológico
e é uma das contribuições possíveis para a
área da computação. A importância das noções
de termo e conceito e suas relações merecem uma descrição
mais detalhada.
3.1 Termo e conceito
Uma contribuição fundamental perseguida pela terminologia é o entendimento do que são “termo” e “conceito”. A definição constante no padrão ISO 1087-1:2000 apresenta o conceito como uma unidade de conhecimento criada por uma combinação única de características. Esta definição está de acordo com a definição proposta por Dahlberg (1978, p.143), tornando o conceito algo possível de ser capturado, uma vez que o conhecimento “pode ser considerado como a totalidade das proposições verdadeiras sobre este mundo, existindo, em geral, em documentos ou nas cabeças das pessoas”. Antes da publicação do padrão ISO 1087-1:2000, o conceito era definido como uma unidade de pensamento construído por meio de abstração sobre as propriedades comuns a um conjunto de objetos (ISO 1087, 1990). Esta definição colocava o conceito em um plano mental, inacessível diretamente. O conceito formado como resultado de um processo de abstração feito por um indivíduo a partir de suas observações sobre a realidade. Estas observações da realidade levam a uma detecção de um conjunto de características que são comuns a um grupo de objetos individuais. Este conjunto de características forma a intensão do conceito (SUONUUTI 2001, p.14).
Para a Terminologia, o termo é a designação verbal de um conceito geral em um domínio específico (ISO 1087, 2000) e estabelece com o conceito uma relação unívoca. Esta relação de unicidade é possível uma vez que o escopo de trabalho da terminologia abrange apenas as línguas artificiais, onde esta correspondência é garantida pelas normas.
Os elementos participantes deste processo formam a tríade linguagem-pensamento-realidade, proposta por SAUSSURE (1987). Em 1997, SUONUUTI (2001) adicionou uma quarta dimensão ao triângulo do significado de Ogden e Richards (1923) de modo a refletir a visão da terminologia sobre a relação entre seus elementos básicos. O triângulo tomou, então, a forma de uma pirâmide e a quarta dimensão inserida representa o papel da definição.
FIGURA 1 – Triângulo do Significado estendido.
A definição é, segundo a ISO 1087 (2000), “uma
declaração que descreve um conceito e permite sua diferenciação
de outros conceitos dentro de um sistema de conceitos”. Onde um sistema
de conceitos é definido, pelo mesmo documento, como “conjunto estruturado
de conceitos estabelecido de acordo com as relações entre
eles, sendo cada conceito determinado por sua posição no
conjunto.” Ao permitir a diferenciação de um conceito de
outros conceitos a definição posiciona o conceito dentro
do sistema de conceitos. Esta visão denotativa do significado de
um termo está de acordo com a visão da filosofia positivista,
onde proposições descrevem realidades, sendo, neste caso,
uma visão apropriada aos propósitos da Terminologia, uma
vez que seu nicho é o das linguagens da ciência e da técnica.
A essência da teoria terminológica é o fato do trabalho
terminológico iniciar com o conceito e não com a palavra.
Segundo PUTTONEN (2001, p.16), esta é a principal característica
que diferencia a terminologia da lexicologia. Outras diferenças
entre as duas áreas são o fato da terminologia focalizar
no vocabulário e não em questões gramaticais como
inflexão e pontuação, e o fato de possuir caráter
sincrônico.
4. Sistemas de conceitos
Segundo SUONUUTI (2001, p.14) “conceitos não são fenômenos independentes. Eles estão sempre relacionados a outros conceitos de uma forma ou de outra, e formam sistemas de conceitos que podem varia de muito simples a muito complexo”. Wüster propôs uma classificação para as relações entre conceitos que é diferente da adotada atualmente pela ISO (ISO 1087-2000). Essas duas abordagens oferecem formas diferentes de se estudar a natureza das relações entre os conceitos e ressaltam aspectos distintos que devem ser considerados, portanto, é importante que se conheça as diferenças e semelhanças entre estas duas formas de classificação.
4.1 Relações entre conceitos proposta por Wüster
No sistema de conceitos, proposto por Wüster, as relações entre conceitos podem ser divididas em dois grandes grupos: o grupo das relações lógicas e o das relações ontológicas. Esta divisão reflete a visão de Wüster que distingue as relações que podem ser observadas nos próprios objetos individuais (ontológicas) e as relações que são estabelecidas no plano conceitual (lógicas).
4.1.1 Relações lógicas
As relações lógicas se dão por abstração
e baseiam-se na similaridade das características entre conceitos,
ou seja, se baseiam na similaridade da intensão dos conceitos. Portanto,
as relações lógicas são relações
diretas entre conceitos. Uma observação importante é
que sendo relações que são estabelecidas em um nível
lógico, então não é o caso que elas existam
na realidade. Portanto, o estabelecimento de uma relação
lógica entre dois conceitos depende da conveniência e dos
propósitos de quem a estabelece. Por isso é possível
encontrar em um sistema de conceito para um domínio dois conceitos
relacionados por um tipo de relação e em outro sistema para
o mesmo domínio os mesmos conceitos ligados por outro tipo de relação.
A relação de subordinação lógica ocorre
quando se tem dois conceitos com as mesmas características, mas
um deles tem uma característica a mais. Neste caso, o conceito,
com uma característica a menos, é denominado de gênero
e o outro de espécie. Por exemplo, a relação entre
“profissional” e “advogado” é uma relação de subordinação,
onde “profissional” é o gênero e “advogado” é a espécie.
As relações de subordinação quando dispostas
em forma gráfica tomam a forma de um grafo hierárquico ou
árvore, como ilustra a FIG. 2.
FIGURA 2 – Diagrama de árvore.
4.1.2 Relações ontológicas
As relações ontológicas são aquelas que
podem ser observadas nos objetos individuais. Uma vez observada no plano
dos objetos individuais, as relações são estabelecidas
no plano conceitual por meio de um processo de abstração.
Por exemplo, ao se observar um pássaro particular pode-se notar
que possui (relação parte-todo) asas, bico, penas e etc.
A partir da contínua observação destas relações
nos pássaros individuais é possível estabelecer, no
nível conceitual, as relações que indicam que pássaros
possuem asas, bico, penas e etc. Portanto, a diferença básica
entre as relações lógicas e ontológicas é
que as primeiras se dão entre conceitos e as últimas entre
os objetos individuais, como por exemplo, a relação entre
o todo e suas partes. Wüster divide as relações ontológicas
em relações de contiguidade (ou de contato) e de causalidade.
As relações de contiguidade se subdividem em relações
de coordenação e de encadeamento. As relações
de encadeamento se estabelecem quando existe algum tipo de contato espacial,
do tipo parte-todo, como “motor” e “carro”, por exemplo. Já as relações
de encadeamento se estabelecem quando existe algum tipo de contato temporal
do tipo sucessor-predecessor, como a relação entre “Fernando
Henrique” e “Lula”, por exemplo. As relações de causalidade
ocorrem quando se observa um elo causal entre os objetos individuais, como
na relação entre pai e filho, por exemplo. Existem vários
tipos de relações de causalidade, dentre as quais pode-se
destacar as relações genealógicas (e.g. pai
e filho), ontogênicas (e.g. lagarta e borboleta), e de substância
(e.g. urânio e rádio). A FIG. 3 ilustra a classificação
das relações da terminologia proposta por Wüster.
FIGURA 3 – Classificação das relações segundo a TGT.
4.2 Classificação ISO para relações entre conceitos
Atualmente, a padronização ISO (ISO 1087-2000) adota uma classificação diferente para as relações entre conceitos. Ela estabelece que as relações podem ser hierárquicas ou não hierárquicas (ou associativas), sendo que as relações hierárquicas podem ser classificadas em genéricas ou partitivas. As relações genéricas são definidas como “relações hierárquicas que são baseadas em uma identidade parcial da intensão dos conceitos genéricos, específicos e coordenados” (ISO 1087-2000). As relações genéricas são equivalentes às relações lógicas propostas por Wüster. As relações partitivas são equivalente às relações parte-todo propostas por Wüster. As relações não hierárquicas contêm o restante das ontológicas contidas na proposta de Wüster. A FIG. 4 ilustra a equivalência entre as relações contidas nas duas propostas.
FIGURA 4 – Equivalência entre as relações conceituais.
A partir de uma análise comparativa entre os dois sistemas de
conceitos pode-se notar um maior destaque para as relações
hierárquicas na proposta da ISO. Isto a torna mais adequada para
o uso em domínios onde se pretende destacar este tipo de relações.
Além disso, é mais fácil compreender a classificação
proposta pela ISO, uma vez que a classificação proposta por
Wüster envolve a compreensão clara da distinção
entre as noções de “ontologia” e “lógica”, o que,
como o próprio WÜSTER (1981, p. 97) destaca, não é
trivial para as pessoas em geral. KEIZER et al (2000), argumenta
também em favor da proposta da ISO, uma vez que, segundo eles, as
relações ontológicas não hierárquicas,
apesar de serem numerosas em teoria, na prática, poucas são
de ampla utilidade.
5. A terminologia na ciência da computação
A terminologia pode contribuir de diversas formas para a ciência da computação. Primeiramente, os profissionais da área precisam entender a terminologia de sua própria disciplina de forma a discutir assuntos técnicos com seus pares com o propósito de realizar pesquisas e promover o desenvolvimento acadêmico em sua disciplina e profissão. Sem o estabelecimento de uma terminologia, os termos de uma determinada especialidade tendem a perder o significado, em razão de seu uso indevido, impedindo, assim, a troca de informação e, conseqüentemente, a evolução científica. Sendo a computação, uma ciência nova, é natural que ainda não exista uma terminologia bem definida, no entanto, é necessário empenhar esforços no sentido de evitar o caos terminológico.
Em segundo lugar, é importante entender a terminologia técnica de outras disciplinas de modo a organizar o conhecimento e comunicar efetivamente com os especialistas da área. Isto é especialmente importante na ciência da computação, uma vez que é uma ciência em permanente contato com outras especialidades.
A terminologia, como disciplina, também pode contribuir para o desenvolvimento da ciência da computação, estabelecendo uma terceira razão para que os cientistas da computação se envolvam com a terminologia. Neste caso, os métodos da terminologia seriam utilizados na modelagem de sistemas computacionais.
Este artigo preocupa-se em abordar, especificamente, esta terceira forma de contribuição, que está mais bem detalhada na subseção a seguir.
5.1 Relações entre a terminologia e a modelagem na computação.
Segundo STAA (2000) a modelagem conceitual é a etapa do processo de desenvolvimento de sistemas computacionais que tem por objetivo “criar um modelo do sistema a desenvolver. Este modelo deve focalizar o que o sistema deverá fazer sem se preocupar com a forma de sua implementação”. Na criação do modelo são utilizados diagramas e textos explicativos em linguagem natural, permitindo, assim, verificar se o sistema possui todos os elementos para atender as necessidades especificadas pelo usuário. Depois de definido, o modelo conceitual, serve para orientar os programadores na construção do sistema, da mesma forma que a planta de um edifício orienta a construção do mesmo. Os modelos computacionais são manipulados por homens e implementados em máquinas. Portanto, os termos utilizados no modelo devem ser selecionados de forma adequada para a obtenção de sistemas que possam ser comunicados e compreendidos por todos os elementos envolvidos em sua manipulação.
A modelagem computacional surge em várias subáreas da computação com o objetivo de atender diferentes tipos de necessidades. Na área de banco de dados busca-se representar as entidades e as relações de um domínio com o propósito de realizar consultas sobre os fatos que são verdadeiros sobre as instâncias particulares das entidades. Por exemplo, João é aluno de Biblioteconomia? Na área de engenharia de software é preciso representar, também, as funcionalidades que são requeridas para atender as necessidades de uma organização ou de usuários. Já no escopo da inteligência artificial é preciso representar não só as entidades e as relações de um domínio com o propósito de realizar consultas sobre os fatos que são verdadeiros sobre as instâncias particulares das entidades, como também, regras genéricas que permitam a realização de inferências sobre o modelo, por meio de um procedimento automático, resultando em conclusões tanto particulares quanto genéricas.
No caso de banco de dados, a modelagem conceitual é tipicamente expressa por meio de diagramas denominados de entidade-relacionamento ou E-R (CHEN, 1976). Estes diagramas registram os conceitos do domínio na forma de entidades, relações e atributos das entidades e relações. A FIG. 5 mostra um exemplo de diagrama E-R para um segmento do domínio acadêmico. No caso deste exemplo as entidades, representadas por retângulos, são “Aluno”, “Professor” e “Disciplina”, as relações, representadas por losangos são “Cursa” e “Ministra”. Os atributos de “Aluno” são “Nome”, “Endereço” e “Matrícula”; os atributos de “Disciplina” são “Nome”, “Código” e “Créditos”; os atributos de “Professor” são “Nome”, “Endereço” e “Matrícula”; os atributos da relação “Ministra” são “Horário” e “Sala”; e os atributos da relação “Cursa” são “Nota” e “Freqüência”. Assim, busca-se representar os fatos que alunos cursam disciplinas e que professores ministram disciplinas. O papel da terminologia, neste caso, é determinar os termos adequados para expressar os elementos que devem ser representados no diagrama, de forma que a representação seja compreendida por todos os envolvidos no desenvolvimento e uso do sistema: projetistas, programadores e usuários. Além disso, a escolha dos termos deve ser feita de modo a permitir a evolução e a integração do sistema com outros sistemas. Caso não ocorra esta preocupação com a terminologia, o sistema será difícil de alterar e integrar com outros sistemas, uma vez que os termos terão significados distintos para diferentes pessoas. No final dessa seção será mostrado como a aplicação da terminologia pode contribuir para a modelagem de sistemas, utilizando-se para isso o exemplo da FIG. 5.
FIGURA 5 – Diagrama para segmento do domínio acadêmico.
Na engenharia de software ocorre um número maior de diagramas, uma vez que é necessário representar um número maior de facetas do domínio, tais como operações, organização entre os módulos e interface com o usuário. Da mesma forma que na área de banco de dados, o estudo terminológico tem aqui um papel imprescindível, pois permite a escolha dos termos adequados a serem usados na modelagem para que ela capture adequadamente o segmento da realidade que se pretende simular.
Na área de inteligência artificial não existe um diagrama padrão para a modelagem. Vários tipos de representações podem ser usados, tais como diagramas hierárquicos, grafos conceituais (SOWA, 2000), quadros (MINSKY, 1975), sendo que em muitos casos, a representação conceitual é também a linguagem de implementação. Possivelmente, esta é área da computação onde a terminologia se faz mais necessária, uma vez que os usuários finais lidam mais diretamente com o modelo conceitual. Neste caso, a escolha inadequada de termos pode levar a equívocos na interação com o sistema, o que pode ter conseqüências desastrosas, em alguns casos. Por exemplo, imagine um sistema de inteligência artificial no apoio ao controle de uma usina nuclear. Uma interpretação errada de uma conclusão do sistema pode ser bastante perigosa.
Independentemente da subárea da computação, o objetivo é desenvolver um sistema que atenda a um propósito específico. Este foco em uma aplicação particular leva a uma visão estreita no que se refere à escolha de termos e ao desenvolvimento de sistemas cujo entendimento fica restrito ao grupo que o desenvolveu. Os problemas decorrentes desta abordagem, como falta de entendimento pelos usuários e dificuldade de manutenção, têm preocupado os cientistas da computação, principalmente os da subárea de representação de conhecimento, que buscam, por meio de estruturas conceituais mais genéricas e independentes de aplicações específicas, denominadas de ontologias, solucionar estes problemas. Atualmente existe um grande esforço para o desenvolvimento de metodologias para orientar a criação destes sistemas conceituais. Podemos citar como exemplo as propostas de GUARINO e WELTY (2000) e USCHOLD (1996). No entanto, nenhuma delas aborda a tarefa de seleção de termos e a falta de uma metodologia, específica para esta etapa, restringirá o alcance destes esforços.
É importante ressaltar aqui que o termo ontologia tem na computação um sentido distinto do que ocorre no âmbito da filosofia e da ciência da informação, como foi demonstrado por MOREIRA (2003)[1]. Na filosofia, segundo GUARINO (1998) “uma ontologia é um sistema particular de categorias que versa sobre uma certa visão do mundo”. Este ponto de vista também é compartilhado por SOWA (2000, p.492) que define ontologia “como estudo das categorias das coisas que existem ou podem existir em algum domínio”. É importante ressaltar que o termo ontologia é uma denominação mais recente para a metafísica, como assinala HEIDEGGER (1929, p. 61): “A metafísica diz o que é o ente enquanto ente. Ela contém um lógos (enunciação) sobre o ón (o ente). O título tardio ‘ontologia’ assinala sua essência, ...”. Outro filósofo que interpreta ontologia como um conjunto de categorias é o filósofo alemão Christian Wolff, um dos responsáveis pela adoção do termo, que segundo HEGEL (1833-36) escreveu: “first there is Ontology, the treatment of abstract and quite general philosophic categories, such as Being (ÓL) and its being the One and Good”.
O termo “ontologia” não aparece com freqüência nos textos de ciência da informação, no entanto, quando explicitamente mencionado, como em DODEBEI (2002, p.96), sua interpretação é similar à fornecida pela filosofia: “Assim é que a contribuição ontológica ao seu[2] modelo conceitual é representada pelas dez categorias aristotélicas ou as classes gerais pelas quais pode-se olhar o ser”. Apesar do termo não ser discutido com freqüência na ciência da informação, sistemas de categorias fazem parte de teorias fundamentais para ciência da informação. O sistema de classificação desenvolvido por Ranganatham, é baseado na premissa da existência de cinco categorias básicas: personalidade, matéria, energia, espaço e tempo (PMEST). Já a Teoria do Conceito, proposta por DAHLBERG (1978) faz uso das dez categorias sugeridas por Aristóteles. Portanto, pode-se concluir, que mesmo sem mencionar o termo explicitamente, a ciência da informação, usa a ontologia na forma como entendida pela filosofia.
Já na computação, o termo ontologia denota um sistema de conceitos, da mesma forma que os tesauros (MOREIRA, 2003), e como tal possui uma natureza epistemológica e não ontológica, ou seja, a preocupação está na estruturação de conceitos e não no entendimento da natureza dos objetos. O sentido do termo ontologia usado na computação é bem amplo e pode ser empregado para denotar uma grande variedade de sistemas de conceitos, que podem variar desde esquemas relacionais e diagramas de classe de domínio até bases de conhecimento especiais que registram o conhecimento sobre conceitos, caracterizado por BRACHMAN (1979) como TBOX.
De modo a exemplificar uma situação onde a ausência de um estudo terminológico pode levar a conflitos de entendimento, suponha que se deseja representar o fato de uma pessoa, cujo nome é “Pedro”, possui um livro intitulado “O que é ontologia”. Pode-se representar este fato por meio da seguinte sentença lógica:
Subjacente a esta sentença existe o entendimento do predicado “Pessoa” representando o conceito de um indivíduo da espécie humana; o entendimento do predicado “Livro” representando o conceito de um objeto particular inanimado, e o entendimento da relação “Possui” representando o conceito de relação de posse de um objeto particular por um indivíduo da espécie humana. No entanto, caso não exista um estudo da terminologia do domínio, é possível relacionar a sentença acima com a seguinte conceitualização: o predicado “Pessoa” representando o conceito de um indivíduo da espécie humana; o predicado “Livro” representando o conceito de uma obra intelectual como objeto abstrato (como na sentença “fulano escreveu o livro tal”); e o entendimento da relação “Possui” representando o conceito de relação de criação de uma obra por um indivíduo da espécie humana. Um estudo terminológico poderia revelar que o termo mais adequado para a primeira interpretação seria “exemplar” e não livro. O simples uso de palavras em linguagem natural como predicados e constantes é insuficiente para capturar esta semântica pretendida. Pode-se alegar que a sentença não está corretamente representada e, por isso, existe a possibilidade de um entendimento diferente do pretendido. No entanto, a questão é que a falta de um estudo terminológico prévio aumenta a possibilidade de confusão.
A aplicação da metodologia usada na terminologia seria,
então, a forma adequada para atacar os problemas mencionados, uma
vez que ela se ocupa da obtenção de um sistema conceitual
associado aos termos com o propósito de comunicação
entre os profissionais da área. Mas talvez a maior contribuição
da terminologia para a modelagem conceitual é no auxílio
na obtenção de modelos mais consistentes e mais representativos
do domínio que está sendo modelado. Para justificar esta
afirmação será apresentado um exemplo. Porém,
antes é necessário listar as principais fases de um projeto
terminológico segundo SUONUUTI (2001, p. 33):
As etapas acima podem ser aplicadas como uma etapa anterior ao processo
de modelagem conceitual para o desenvolvimento de uma aplicação
em particular. Para ilustrar como a aplicação da metodologia
da terminologia pode prover modelos conceituais mais consistentes e mais
fáceis de serem mantidos será utilizado o diagrama da FIG.
5, correspondente ao segmento do domínio acadêmico. Este é
o modelo que em geral é obtido pelo analista de sistemas a partir
de trechos de conversas com o cliente, tais como: um aluno cursa uma
ou mais disciplinas e um professor ministra uma ou mais disciplinas.
Note que os termos são pinçados de diálogos e, em
geral, nenhuma análise terminologia é realizada, precedendo
a modelagem conceitual. Seguindo o que determina as fases de projeto
terminológico, é necessário estabelecer um sistema
de conceitos, bem como suas respectivas definições. Neste
caso, o sistema de conceitos relativo ao domínio analisado poderia
ser representado graficamente como mostra a FIG. 6.
FIGURA 6 – Sistema de conceitos para segmento do domínio acadêmico.
Neste caso observa-se que os termos “Aluno” e “Professor” possuem um termo genérico comum que o é o termo “Acadêmico”. Em uma análise mais detalhada pode-se notar, também, que o termo “Acadêmico” possui atributos comuns aos dois termos específicos que são relevantes para o domínio que está sendo analisado: “Nome”, “Matrícula” e “Endereço”. Isto sugere que este termo também deve ser implementado como uma entidade no modelo conceitual. Assim, o modelo gerado a partir desta análise ficaria como mostrado na FIG. 7. Note que a ligação por meio de uma seta entre os elementos do diagrama denota uma relação de generalização.
FIGURA 7 – Diagrama modificado para segmento do domínio acadêmico.
Em que ponto o modelo obtido é superior ao modelo anterior? Basicamente, o segundo diagrama evita redundância de informação, o que diminui a possibilidade de inconsistências e facilita a manutenção. Isto ocorre porque as informações comuns a um acadêmico estão agrupadas em uma única entidade e não em mais de uma, como “Professor” e “Aluno”. Suponha que exista um aluno que é professor. Neste caso, qualquer alteração nos atributos comuns deve ser realizada em dois locais distintos e qualquer erro ou omissão levará à um conjunto de dados inconsistente. Suponha, também , que seja necessário alterar o formato de um atributo comum, como por exemplo, acrescentar um dígito no atributo “Matrícula”. No segundo modelo a alteração deve ser feita em apenas um local, enquanto que no primeiro é necessário alterar também em dois locais, o que dificulta a manutenção. Estes problemas que parecem simples de serem resolvidos em um diagrama pequeno, como o mostrado no exemplo, ganham outra dimensão quando transportados para situações realísticas.
Segundo AUSSENAC-GILLES et al. (1995), falta ao produto da análise
terminológica uma descrição mais formal dos conceitos
e termos associados, de forma a ser utilizado mais diretamente nos modelos
conceituais. Ultrapassando esta barreira, a metodologia da terminologia,
conforme descrita acima, se encaixa naturalmente ao processo de modelagem
conceitual.
6. Considerações Finais
Neste artigo procurou-se descrever os princípios e métodos
da terminologia e os benefícios de seu uso no desenvolvimento de
sistemas computacionais. Neste caso, um estudo terminológico do
domínio deve preceder a etapa da modelagem conceitual, com o propósito
de garantir que os termos que serão usados na documentação
e no sistema sejam os mais adequados. O intercâmbio de técnicas
e teorias entre as áreas da ciência é sempre benéfico,
pois enriquece as partes envolvidas e abre novos espaços para pesquisa.
No caso da ciência da computação e da terminologia
esta colaboração não se estabeleceu desde o princípio.
No entanto, pode-se observar que, pelo que foi argumentado neste estudo,
a ciência da computação pode-se beneficiar dos métodos
e técnicas advindos da terminologia, gerando sistemas mais fáceis
de serem usados e mantidos, como foi mostrado pelo exemplo. O intercâmbio
entre estas duas áreas não é imediato, uma vez que
ajustes precisam ser feitos quanto ao grau de formalização
da descrição de termos na terminologia devido à diferença
de propósitos das duas áreas. Mas o esforço deve ser
compensado com a geração de sistemas mais fáceis de
serem entendidos.
[1] Dissertação defendida em 2003. Apresenta uma ampla discussão sobre o significado do termo nas três áreas.
[2] De Dahlberg.
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Sobre os autores / About the Authors:
Alexandra Moreira
xandramoreira@yahoo.com.br
Rua Otávio Silva Araújo, 200/302
Bairro Belvedere, CEP 36570-000
Viçosa -MG
Membro do Grupo de Ontologia da Universidade Federal de Viçosa.
Mestre em Ciência da Informação pela Universidade
Federal de Minas Gerais (2003).
Bacharel em Biblioteconomia pela UNIRIO - Universidade Federal do Estado
do Rio de Janeiro (1997).
Lecionou disciplinas de Tratamento da Informação e Fontes
de Informação Especializada nos cursos de Biblioteconomia
na Universidade Federal de Minas Gerais e na Universidade Presidente Antônio
Carlos.
Consultora ad hoc da INFAX - Tecnologia e Sistemas Ltda.
Áreas de interesse: Teoria do conceito; construção
de ontologias; representação e organização
do conhecimento.
Alcione de Paiva Oliveira
alcionepaiva@yahoo.com
Av. P.H.Rolfs S/N
Campus, CEP 36570-000
Viçosa -MG
Professor Adjunto do Departamento de Informática da Universidade
Federal de Viçosa.
Membro do Grupo de Ontologia da Universidade Federal de Viçosa.
Doutor em Informática pela Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro (1996).
Mestre em Sistemas e Computação pelo Instituto Militar
de Engenharia (1990).
Bacharel em Oceanografia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro
(1984).
Áreas de interesse: inteligência artificial; sistemas
multi-agentes; representação e organização
do conhecimento.