DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.8  n.5   out/07                  ARTIGO 01

    Uma experiência na interface Lingüística Documentária e Terminologia [*]
    An experience in the interface documentary linguistic and terminology
    por Marilda Lopes Ginez de Lara  e  Maria de Fátima Gonçalves Moeira Tálamo
     


    Resumo: Apresenta os resultados de pesquisa da apropriação da Terminologia pela Lingüística Documentária a partir de experiência didática. Parte do pressuposto da existência de relações entre a modelização do conhecimento e a modelização documentária e informacional promovidas respectivamente pela Terminologia e pela linguagem documentária e relata etapas do trabalho concreto que mobilizam referenciais terminológicos e documentários visando o aprimoramento das linguagens de intermediação em sistemas informacionais.
     

    Palavras-chave: Terminologia; Lingüística documentária; Linguagem documentária; Experiência didático-pedagógica; Ensino.

    Abstract: It presents the findings of the investigation in the interface between Terminology and Documentary Linguistics by its aplication in a didactic experience. It presupposes the existence of solidary relations between the knowledge modelization and the documentary and informational modelization promoted respectively by the terminology and the documentary language. Describes the steps of the work that articulates the terminological references and the documentary references to the improvement of the intermediation languages in the informational systems.

    Key words: Terminology; Documentary linguistics; Documentary language; Teaching; Didatics and pedagogical experience
    .


      

    Introdução

    A apropriação das contribuições da Terminologia pela Lingüística Documentária tem apresentado resultados promissores para o refinamento dos princípios teóricos e metodológicos de organização de linguagens documentárias.


    No interior da Ciência da Informação, a Lingüística Documentária constitui um campo de estudos que se propõe a observar os problemas que caracterizam a linguagem documentária como uma forma específica de linguagem inscrita no universo da linguagem geral. O termo Lingüística Documentária foi originalmente proposto por García Gutiérrez (García Gutiérrez, 1990) a partir do pressuposto de que os problemas relacionados à informação são problemas de linguagem.

    Para identificá-los e enunciá-los adequadamente há de se reconhecer o âmbito da origem dos mesmos através do estabelecimento dos vértices do sistema lingüístico documentário. Buscam-se então, para isso, os fundamentos nas ciências da linguagem mobilizando conhecimentos da lingüística, da terminologia, da semântica, da gramática aplicada à gestão da informação, como em campos relacionados, como a análise do discurso, a análise do conteúdo e, de modo geral, as ciências cognitivas (García Gutiérrez, 1998).

    O trabalho de García Gutiérrez remonta às iniciativas de Jean-Claude Gardin (Gardin, 1973), que também marcam as propostas desenvolvidas por autores brasileiros na procura de referenciais para as discussões da mediação documentária (Smit, 1974; Smit, 1978; Smit (org.), 1989; Cintra et al., 1993; Lara, 2004a; Lara 2004b; Lara, 2006; Tálamo, 1997; Tálamo, 1999; Tálamo, 2001; Tálamo & Lara, 2006, entre outros). Em comum, tais trabalhos procuram entender o funcionamento da linguagem para tratamento da informação tanto no que interessa à sua construção quanto no que circunscrevem os propósitos metodológicos para a confecção de produtos.


    A elaboração dos produtos documentários se caracteriza como um processo sucessivo de escolhas que vão desde a seleção dos textos a serem analisados até a expressão das formas de sua disseminação que integram os sistemas informacionais, não sendo possível, pelo seu caráter 'industrial' (Gardin, 1973) verificar detalhadamente as condições de produção das unidades tratadas. Tais atividades são carregadas de valores e, para evitar que esses sejam aleatórios e dependentes das escolhas pontuais dos indexadores, é necessário tomar como base políticas institucionais que assegurem a possibilidade de interpretações razoavelmente respaldadas nas formas compartilhadas de compreensão da informação.


    É nesse sentido que se realiza o diálogo da Lingüística Documentária com a Terminologia que, enquanto campo de estudos, observa os discursos das áreas de especialidade propondo metodologias para a descrição de seus termos, com a finalidade de estruturar o campo nocional da especialidade. Tais discursos, até bem pouco tempo identificados com as 'linguagens de especialidade', que se caracterizariam por 'peculiaridades especiais' como a temática, os tipos de interlocutores, as situações de comunicação e de intercâmbio etc. (Cabré, 1993), são atualmente compreendidos como construções lingüísticas cujos léxicos muitas vezes se confundem com o léxico comum (Krieger, 2001), como ocorre grande parte das vezes com os discursos das humanidades. Estariam em questão os limites que separam os discursos da 'ciência' e os da linguagem comum. Por esse motivo, a Terminologia contemporânea propõe observar as terminologias in vivo (Boulanger, 1995) por meio da análise de corpora discursivos.


    A Terminologia desenvolve reflexões teóricas sobre suas bases conceituais, como metodologias de trabalho. Seus objetivos aplicados se relacionam à observação dos discursos especializados nas áreas do saber ou de atividade, visando principalmente a construção de dicionários e glossários especializados. Funcionalmente, a Terminologia é veículo de conhecimento, aspecto importante para a descrição e recuperação da informação.

    O conjunto de termos que se relacionam mutuamente permite subsidiar a interpretação global do conjunto de unidades documentárias selecionadas pela linguagem documentária.


    Decorre do exposto que a Terminologia modeliza o conhecimento como campo nocional; a linguagem documentária, modeliza a informação, para constituir sistemas informacionais. A construção da linguagem documentária se apóia nos desenvolvimentos da Lingüística Documentária, especialmente na hipótese que formula para a organização de linguagens de informação – ordens de organização do conhecimento e da informação - que articulem referenciais institucionais associados aos quadros nocionais e linguagens compartilhadas por produtores e usuários.

    Portanto, como campo de estudos, a Lingüística Documentária apóia seus fundamentos teóricos na construção de vértices oriundos da emissão, da recepção e do sistema de informação concebido como oferta de sentido. Na formalização da linguagem documentária, nesse sentido, combinam-se dados da produção e da recepção em um sistema documentário, o que permite responder pelo caráter socializado da informação documentária.


    O diálogo entre a Terminologia e a Lingüística Documentária se realiza no plano teórico e metodológico, não se restringindo, portanto, ao empréstimo pontual dos termos utilizados nas áreas do saber ou de atividade. Do ponto de vista da Lingüística Documentária, a organização e representação da informação requer, necessariamente, a integração sistemática e articulada do vocabulário de especialidade. Trata-se de uma apropriação que obedece, também, a critérios documentários: 'tornar próprio' um conhecimento se traduz como atitude que orienta a pesquisa para a interdisciplinaridade enquanto categoria de ação, cujos resultados prevêem a reorganização dos conceitos sob a ótica das práticas documentárias. O processo não é simples e sua sedimentação depende, também, da experimentação prática.

     Uma experiência didática: a disciplina Introdução à Terminologia para a Documentação [2]
    Trabalhar na interface entre a Lingüística Documentária e a Terminologia visa principalmente contribuir para o aperfeiçoamento das metodologias de organização da informação via linguagem documentária.

    Nesse espírito, procura-se oferecer ao aluno de graduação um conjunto de referências teóricas e de práticas experimentais que o levem a conhecer as possíveis contribuições da Terminologia ao fazer documentário. Interessa à formação a teorização, a interpretação e a proposição de metodologias de organização da informação que não sejam restritas aos ambientes tradicionalmente identificados como 'documentários', ampliando o escopo do termo linguagem documentária para caracterizar a linguagem utilizada com a finalidade de organizar, permitir a navegação, a recuperação e a busca da informação em ambientes web, dentre outros.

     
    Se nos dias atuais, o acesso à informação é feito por várias vias, não se pode negar a superioridade econômica e cognitiva da linguagem documentária que, na sua função mediadora, organizar a busca, frente a um quadro de grande desequilíbrio entre produção do conhecimento e possibilidade real de consumo da informação (Gardin, 2001). Busca-se, na Terminologia, referenciais para o aperfeiçoamento desse instrumento de mediação.


    Do ponto de vista didático-pedagógico, propõe-se a exploração teórica e metodológica da Terminologia, como o uso concreto de seus produtos, consubstanciados em dicionários temáticos especializados e glossários. No primeiro caso, se ganha no aperfeiçoamento dos procedimentos de descrição das unidades conceituais; no segundo, evita-se interpretações erráticas dos descritores, oriundas de universos semânticos fora do escopo temático nuclear de interesse.

    O uso da Terminologia (e das terminologias) resolve(m) indiretamente o problema ocasionado pelo isolamento dos termos de seus contextos de uso, uma vez que as fontes utilizadas são os discursos de especialidade, solo de referências contextuais e expressão de uso efetivo das unidades com valor terminológico, o que permite atualizar conceitos relativos a estados de socialização do conhecimento.


    A metodologia utilizada procura associar procedimentos presentes nos trabalhos terminológicos, terminográficos e documentários, vinculando as operações terminológico-documentárias à idéia de que a organização do conhecimento tem como objetivo precípuo o estabelecimento de mediações para acesso, circulação, distribuição e re-uso da informação conforme enunciado pelo ciclo social da informação, um dos fundamentos da própria Ciência da Informação.

     
    De modo concreto, a proposta didático-pedagógica visa criar condições para que os alunos identifiquem os diferentes tipos de texto, compreendam o significado da linguagem de especialidade no conjunto da língua, sua importância na expressão do compartilhamento da linguagem como dos conteúdos informacionais, além do papel das unidades terminológicas e dos conceitos na estruturação dos significados, como formas de apoio à construção das redes relacionais entre os descritores da linguagem documentária.


    Propõe-se, inicialmente, a análise de pequenos corpora que reúnem bibliografia de características crescentemente especializada (de textos de divulgação científica, para científicos propriamente ditos), geralmente sobre um temática atual. Após sua leitura, são identificados os termos (em algumas vezes, frases), considerados mais importantes para a compreensão do texto e, seguindo discussão coletiva, são selecionados os termos do vocabulário conceitual e do vocabulário funcional [3], sendo que sobre os primeiros incidirão os procedimentos de descrição terminológica.

    Os termos são registrados em fichas terminológicas de coleta (simplificadas, tendo em vista os objetivos documentários) com o termo candidato, suas definições, se existentes, contextos de uso (transcrições literais do termo no enunciado onde aparecem), fonte, domínio, responsável pelo preenchimento e data.


    Fig. 1.: Exemplo de ficha terminológica de coleta



    Por meio da experiência prática são propostos os fundamentos sobre as tipologias de textos - do cotidiano, de divulgação, especializado - que permitem discutir os diferentes níveis de especialização da linguagem dentro da língua geral, especialmente as relações que mantêm entre si, as quais no plano interpretativo subsidiam a passagem de um nível para outro.

    Através desse procedimento heurístico, os alunos são orientados a identificar as características e funcionalidades do termo, não só como palavra qualificada do discurso, mas também como expressão de conceito. O que está em jogo nesta etapa é a relação entre o termo e os seus usos, algo inexistente de modo claro na prática documentária estrita.


    Registrados os contextos de uso, cada grupo de alunos seleciona cerca de três termos sobre os quais desenvolverá um trabalho mais aprofundado. Os contextos são analisados, de início, para a identificação de características nocionais, que são posteriormente organizadas segundo atributos de semelhança e registradas em fichas terminológicas de síntese.

    Desse modo, conforme a prática terminológica aplicada se desenvolve, os alunos vão operando e se familiarizando com a idéia do conceito como feixe de características ou traços.

    Fig. 2: Exemplo de ficha terminológica de síntese: Termo: Gripe aviária


    Nesse momento se introduz a discussão teórica sobre a constituição e função do sistema de conceitos. Os alunos são conduzidos a organizar, primeiramente de modo intuitivo, uma espécie de mapa conceitual relativo à parte do domínio focalizado - a árvore de domínio [4] - e, em seguida, realizar tentativas de localizar tais conceitos no domínio de especialidade.

    O exercício é retomado a partir da discussão sobre categorias e categorização (utilizando referenciais da Documentação), procedendo-se à reorganização do conjunto segundo princípios abstratos de alta generalização.

    Fig. 3: Exemplo de árvore de domínio: gripe aviária


    Fig. 4: Outro exemplo de árvore de domínio


    Pelo exercício, é possível verificar que a exploração da noção de sistema nocional, enquanto conceito teórico, permite operacionalizar a organização dos termos segundo categorias genéricas relacionadas primeiramente à noção de conjunto e, em seguida, de encaixe.

    Parte-se do entendimento teórico do conceito para a proposição de um modo aplicado de abordá-lo no contexto da prática documentária. Por meio da noção de conjunto, os termos são distribuídos, de modo intuitivo, em categorias de alta generalização, utilizando-se a árvore de domínio como recurso de visualização.

    Esses agrupamentos são refinados, em seguida, utilizando-se a noção de encaixe e de associação, quando são retomados os dados da ficha terminológica de síntese, base para a observação dos traços definicionais dos termos.


    Tal procedimento marca a articulação da metodologia terminológica e da documentária, quando são introduzidos os referenciais já sistematizados pela Lingüística Documentária que remetem à lingüística, à semântica, à lógica, à pragmática, como o próprio conhecimento acumulado nas práticas documentárias. Em torno da noção de categoria e categorização, por exemplo, são mobilizados os conhecimentos dos princípios da classificação facetada formulados por Ranganathan e Vickery, entre outros (Ranganathan,1959; Vickery, 1963). Nesse processo são trabalhados, simultaneamente, graus de generalidade, encaixe lógico, associação por contigüidade espaço-temporal e sinonímia.


    Fig. 5 - Exemplo: Reorganização dos termos em categorias observando informações das fichas terminológicas e os princípios de organização facetada.




    As informações registradas nas fichas terminológicas são fundamentais para se proceder à contínua reorganização do conjunto, substituindo-se o produto intuitivamente construído, por outros que incluem a observação mais detalhada dos traços dos conceitos, e para legitimar a organização tendo como base os contextos de uso efetivo dos termos.

    As decisões sobre a categorização e a classificação se mostram, dessa maneira, como resultado da observação dos enunciados realizados nos domínios de especialidade, o que permite substituir a organização empírica por outra fortemente vinculada à literatura de especialidade.


    O percurso realizado permite, em seguida, construir a rede relacional do tesauro documentário. As informações teóricas e as coletadas no processo do trabalho fornecem as referências para a identificação das categorias funcionais do tesauro, dos níveis de superordenação e subordinação lógica dos termos, das associações de contigüidade espaço-temporal e da rede de equivalências sinonímicas, recorrendo-se, nesse ponto, aos indicadores simbólicos das relações tradicionais dos tesauros: Top Terms ou Categorias Temáticas, níveis de subordinação via TGs e TEs, associações horizontais e transversais por meio dos TRs, e equivalências, que compreendem sinonímia e quase-sinonímia, sejam lingüísticas ou não.

    Fig. 6: Exemplo de rede relacional de termos no tesauro




    O conjunto de informações levantadas permite, também, associar ao tesauro, um glossário: os elementos que serviram de alicerce à construção dessa linguagem documentária podem, posteriormente, ser reutilizadas para fornecer meta-informação: definições e explicações de uso dos termos que podem auxiliar o acesso e uso das informações.


    Realizado o exercício acima, os alunos têm condições de trabalhar sobre um tema livre, seguindo um roteiro específico que compreende a seleção de um corpus básico para a pesquisa, a seleção de termos do vocabulário conceitual e do vocabulário funcional, o registro dos contextos dos termos em ficha de coleta terminológica, o registro da síntese a partir da observação das características, a formulação de uma definição, a proposta de categorias e a construção de uma árvore conceitual de domínio aproximativa, a reorganização da árvore com base nas informações das fichas terminológicas de coleta e de síntese, a estruturação dos termos sob forma de tesauro a partir de uma hipótese de organização e a construção do glossário para o tesauro terminológico.


    Do ponto de vista operacional, a disciplina conta com o apoio de um site didático no endereço [ http://infobservatorio.incubadora.fapesp.br/portal ].         Em pasta específica, são disponibilizadas informações sobre o programa, bibliografia, slides com os roteiros de aula referentes aos conteúdos teóricos e metodológicos, links para textos integrais, exemplos e espaço para publicação de exercícios dos alunos, para o registro de suas dúvidas, além de comentários mútuos dos grupos aos exercícios realizados. Todas as etapas dos exercícios e dos trabalhos são publicados, com a oportunidade de se acrescentar comentários dos próprios alunos e do professor.

     Considerações finais
    A experiência didática, de natureza interdisciplinar, desenvolvida na disciplina Introdução à Terminologia aplicada à Documentação permite entender que a importância da Terminologia para o aprimoramento das metodologias de construção de tesauros e de instrumentos de organização da informação para o acesso, depende do estabelecimento de recortes disciplinares e da identificação de operações aplicadas para a elaboração efetiva de interface.

    A Terminologia teórico-metodológica contribui para o aperfeiçoamento das metodologias de construção de tesauros e de linguagens documentárias de um modo geral porque fornece as bases para o entendimento do conceito e das unidades terminológicas, do sistema conceitual e das redes relacionais de natureza lógico-semântica e pragmática entre os termos que responde pela estruturação desses instrumentos.

    A terminologia concreta, por sua vez, garante as referências para a interpretação dos descritores do tesauro. Para a Terminologia, a Lingüística Documentária, propõe a questão, que parece ser fundamental em nível de comunicação especializada, sobre o efetivo retorno social dos trabalhos descritivos levado a cabo sobre os textos de especialidade no que tange sua contribuição para o desenvolvimento de efetiva cultura informacional para a sociedade e não apenas para segmentos delimitados.

     
    A experiência didático-pedagógica também mostra que o trabalho terminológico e terminográfico, na ausência de dicionários especializados, o que é um problema freqüente, confere as bases para o levantamento e validação do uso dos termos nos domínios especializados, permitindo substituir práticas empíricas por procedimentos fundados na observação das unidades que adquirem valor terminológico nos discursos de especialidades. Do mesmo modo, encaminha-se a solução das questões de uso, alterando-se a ênfase usualmente conferida apenas à estruturação do vocabulário.


    Tal como se encontra desenvolvida na disciplina em questão, a interface trabalhada evidencia que a associação modelização terminológica e documentária permite não só a qualificação consistente dos operadores de sentido e a introdução de operadores contextuais para a codificação dos descritores, como a observação da linguagem compartilhada nos domínios do saber e de atividades.

    O investimento interdisciplinar conduz, portanto, à alteração do quadro das práticas eminentemente empíricas de construção de linguagens documentárias e à observação efetiva do uso socializado dos termos. Sua exploração didática por meio da disciplina 'Introdução à Terminologia aplicada à Documentação' mostra, de um lado, a importância dos referenciais terminológicos teóricos, metodológicos e concretos; por outro, a importância do uso dos referenciais documentários de categorização, classificação e organização de universos temáticos segundo pontos de vista funcionais ou hipóteses de organização.

     
    Do ponto de vista metodológico, verifica-se que o aperfeiçoamento da disciplina depende de contínuo investimento teórico, da experimentação, como também de articulação de esforços entre docentes.

    Ao ministrar a disciplina são enfrentados problemas de várias ordens, dentre eles: a dificuldade de definir um corpus que seja simultaneamente reduzido, em função do tempo disponível para sua exploração em classe, mas suficientemente amplo para abarcar um conjunto de conceitos que permita realizar exercícios que compreendam todas as etapas do trabalho; a complexidade do trabalho com conteúdos especializados em diferentes áreas do conhecimento ou de atividade; a necessidade de coordenar as disciplinas e as atividades dos professores em classe para o enfrentamento simultâneo dos diferentes aspectos da questão da linguagem documentária; a imprescindível presença de monitores para o acompanhamento do trabalho dos alunos, como a obrigatoriedade de se desenvolver o trabalho em laboratório etc.


    Ao lado das dificuldades, porém, a disciplina tem mostrado resultados que ultrapassam, em certa medida, os seus objetivos iniciais. Pode-se ressaltar nesse sentido a manifestação de alunos quanto à propriedade da metodologia como indutora do aperfeiçoamento de recursos didáticos para o ensino, ao permitir simultaneamente, a possibilidade de organizar quadros gerais sobre campos temáticos e disciplinares, como para introduzir a linguagem desses mesmos campos.

    Do mesmo modo, registra-se a importância do uso de procedimentos terminológicos e terminográficos para sistematizar os conceitos explorados na realização de monografias sob temas diversos. Para além desses benefícios, ressalta-se, por fim, que a Lingüística Documentária pode contribuir efetivamente para a proposição de metodologias para a elaboração de produtos híbridos – info-comunicacionais- economicamente factíveis e politicamente imprecindíveis para o desenvolvimento da cultura informacional que almeja a Ciência da Informação promover na sociedade contemporânea.

    Notas:

    [1] Trabalho elaborado com base em texto apresentado ao VII ENANCIB, Marília, 2006 (Lara & Tálamo, 2006) e a partir de pesquisas individuais das docentes.
    [2] Disciplina de Graduação oferecida como optativa (60h) no curso de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP, 2005-2007.

    [3] O vocabulário conceitual é relativo aos termos que, por sua forma ou significado, denominam as realidades específicas da especialidade; já o vocabulário funcional é constituído das expressões da linguagem natural que fazem parte do vocabulário dos especialistas (Dubuc, 1999).

    [4] Árvore de domínio: diagrama ou estrutura que organiza, de modo funcional, os conceitos de uma área temática. Tal árvore não representa uma classificação científica, mas uma maneira funcional de agrupar os conceitos de acordo com seu parentesco (Dubuc, 1999).
     

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    Sobre as autoras / About the Authors:

    Marilda Lopes Ginez de Lara
    larama@usp.br

    Profa.. Doutora, Depto. de Biblioteconomia e Documentação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e docente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

     

    Maria de Fátima Gonçalves Moreira Tálamo
    mfgmtala@usp.br

    Profa. Doutora, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.