Resumo: Propõe-se um trabalho interdisciplinar entre o
fenômeno do Colecionismo, a atribuição de sentidos estudada pela Lingüística e a
Ciência da Informação. Este estudo visa a estabelecer uma analogia entre a busca
que um colecionador realiza na ânsia por um novo objeto para sua coleção (o
sentido), a coerência que o mesmo dá a esta e entre o estudo que a Lingüística
realiza sobre o signo, o significado e o significante, assim como a coerência
textual e a situacional idade. Como objeto de estudo, tem-se o Museu Eduardo
André Matarazzo, localizado na cidade de Bebedouro – SP, uma coleção particular
de automóveis, aviões, helicópteros, motos, tratores, e caminhões.
Palavras-chave: Colecionismo; Museu de armas e veículos
Eduardo André Matarazzo; Relação de sentido; Lingüística.
Abstract: An interdisciplinary study between a
collectionism phenomenon, meaning’s atributtion permited by Linguistic and
Information Science is proposed. This study intends to establish an analogy
between the collector’s search for new objects, the meaning and the coherence
the your collection, and the Linguistic’s study realize about the sign, the
meaning and the significant, as well the textual coherence and the
situationality utilized in the elaboration the texts. The object study is Museu
de Armas e Veículos Eduardo André Matarazzo, situate in the Bebedouro – SP city,
succeed by the particular collection.
Keywords: Collectionism; Museu de armas e veículos
Eduardo André Matarazzo; Meaning’s relation; Linguistic.
O mito quer mostrar o poder criador da linguagem, que dá ao homem a capacidade de ordenar o mundo, de categorizá-lo. Com os signos, o homem cria universos de sentido. As línguas não são nomenclaturas que se aplicam a uma realidade pré-ordenada, mas são modos de interpretar o mundo. Por isso, estudar a linguagem é a forma de entender a cultura, de compreender o homem em sua marcha sobre a Terra. (Fiorin, 2002, p.73).
Introdução
A Lingüística, ciência das línguas naturais, permite descobrir o universo e compreendê-lo através dos signos verbais. “ no ato de falar, produz-se significação, não só ao se enunciar os signos mínimos, ou seja, os morfemas, mas também na produção de frases ou textos. Assim, as frases são signos, os textos são signos, qualquer produção humana dotada de sentido é um signo.” (Fiorin, 2002, p.60).
Através da leitura de Fiorin (2002) pode-se “enxergar” o universo de sentidos
que o homem pode criar ao categorizar as coisas do mundo.Uma possibilidade de
categorizar o mundo é através do
colecionismo. O fenômeno do colecionismo é
interdisciplinar, pois resulta do estudo sobre as pessoas que colecionam objetos
e tem sido analisado pelas áreas da Psicologia, História, Lingüística e outras,
e há a proposta de introduzir a Ciência da Informação nesta análise. Nos estudos
sobre colecionismo consegue-se distinguir a diferença entre colecionar e
guardar, como se pode ver na citação a seguir:
O limite entre guardar e colecionar é tênue e difere apenas na forma com que os itens são guardados e mantidos. O colecionador é visto como alguém que pode colaborar na preservação de objetos que fizeram parte da história”. (Lima, 2002).
A Ciência da Informação trabalha com o registro e recuperação da memória
produzida por um país, uma comunidade ou por indivíduos. O
colecionismo registra
o foco do colecionador sob a sociedade na qual vive. Este foco pode ser
cultural, familiar, histórico, estético ou simplesmente por prazer. Este viés
permite ao colecionador atribuir o sentido ou eixo de coerência (atribuído por
ele, colecionador) para a formação e desenvolvimento de sua coleção.
Num estudo
sobre coleções museográficas, bibliotecárias ou arquivísticas, o eixo norteador
da formação da coleção é de extrema relevância, tanto para o entendimento dos
registros históricos de nosso povo, quanto para a contextualização das coleções
em nossas instituições coletoras.
Pretende-se estabelecer uma analogia entre a busca que um colecionador realiza
na ânsia por um novo objeto para sua coleção, o sentido e a coerência que o
mesmo dá a esta, e entre o estudo que a Lingüística realiza sobre o signo, o
significado e o significante, bem como a coerência textual e a situacionalidade
utilizadas na elaboração de textos.
Como objeto de estudo, tem-se o Museu Eduardo André Matarazzo, localizado na cidade de Bebedouro, São Paulo, pois o mesmo advém de uma coleção particular de automóveis, aviões, helicópteros, motos, tratores, e caminhões. A reflexão será feita sobre a coleção e o processo de busca pelo sentido da formação da mesma, propondo-se a análise e a sugestão de uma organização sob o foco dado pelo colecionador, tentando utilizar como eixo norteador o sentido atribuído pelo mesmo, e por meio da organização da informação encontrada na Ciência da Informação.
A Ciência da Informação é uma ciência altamente social e pós-moderna, com
características interdisciplinares, que tem crescido e alicerçado suas bases em
pesquisas de áreas afins, tais como: a Psicologia, Lingüística, Sociologia,
Economia, Informática, Matemática, Filosofia, Política e Telecomunicações,
dentre outras.
Este estudo propõe unir estudos da área da Lingüística, com enfoque em
Saussure,
já que se afirma que:
“embora Saussure defina as relações paradigmáticas e sintagmáticas basicamente em termos lingüísticos, elas podem ser determinadas em outros sistemas de signos. Ou seja, a dicotomia paradigma versus sintagma vale para outras semiologias além da Lingüística.” (Pietroforte, 2002, p.91).
A Lingüística, Lingüística Textual e o Colecionismo
A Lingüística tem objeto e método científico próprios, desenvolvidos pelo
lingüista suíço Ferdinand de
Saussure, no princípio do século XX, e traz o
conceito de estrutura que futuramente se desenvolve na metodologia
estruturalista, amplamente difundida por volta da década de 40. O lingüista não
utiliza o termo estrutura, mas sim sistema.
Ainda segundo Saussure, a língua pode ser definida como um “ sistema cujos
termos são todos solidários e em que o valor de um não resulta senão da presença
simultânea dos outros.” (Saussure, 1971 apud
Textos Selecionados, 1985, p.VIII),
ou seja, a língua é a relação entre o indivíduo e o meio social, entendido como
sistema de signos: língua (elementos abstratos) e fala (concretização de
elementos abstratos).
O autor conseguiu estabelecer quais eram as possibilidades de articulação, para verificar certos princípios da língua, noção de descrição, ou seja, estabelecer o limite de articulação dos signos. De acordo com Saussure, outras ciências trabalham com objetos já estudados e analisados, porém na Lingüística alguém pronuncia:
... a palavra nu: um observador superficial será tentado a ver nela um objeto lingüístico concreto; um exame mais atento, porém, nos levará a encontrar no caso, uma após outra, três ou quatro coisas perfeitamente diferentes, conforme a maneira pela qual consideramos a palavra: como som, como expressão duma idéia, como correspondente ao latim nudum etc. Bem longe de dizer que o objeto precede o ponto de vista, diríamos que é o ponto de vista que cria o objeto; aliás, nada nos diz de antemão que uma dessas maneiras de considerar o fato em questão seja anterior ou superior às outras. (Saussure, 1971, p.15).
Sob este foco, o autor sugere que as interpretações de algo que se ouve pode ser
multiforme, porém se esta mesma palavra for contextualizada pouco de dúvida
haverá, pois dar-se-á sentido ao que se pretende transmitir. Quando se observa
uma coleção, pode-se interpretar os objetos de várias formas, porém quando se
analisam os objetos sob o foco do colecionador, pode-se compreender qual o
sentido que ele deu para cada objeto componente da coleção. De acordo com
Fiorin,
os signos nos permitem ver que a: “ realidade só tem existência para os
homens quando é nomeada. Só percebemos no mundo o que nossa língua nomeia.” (Fiorin,
2002, p.55).
Seguindo a teoria de Saussure que diz “ o signo lingüístico não une um nome
a uma coisa, mas um conceito a uma imagem acústica” (Fiorin, 2002, p.58),
pode-se compreender que o signo é a impressão psíquica dos sons.
Fiorin traz de
forma clara a relação de signo, significado e significante:
Saussure diz que o signo lingüístico não une um nome a uma coisa, mas um conceito a uma imagem acústica. O que o mestre genebrino quer mostrar-nos é que o signo não é um conjunto de sons, cujo significado são as coisas do mundo. O signo é a união de um conceito com uma imagem acústica, que não é o som material, físico, mas a impressão psíquica dos sons, perceptível quando pensamos numa palavra, mas não a falamos. O signo é uma entidade de duas faces, uma reclama a outra, à maneira do verso e do anverso de uma folha de papel. Percebem-se as duas faces, mas elas são inseparáveis.
Ao conceito Saussure chama significado e à imagem acústica, significante. Não existe significante sem significado; nem significado sem significante, pois o significante sempre evoca um significado, enquanto o significado não existe fora dos sons que o veiculam. A imagem acústica /gatu/ não evoca um gato particular, mas a idéia geral de gato, que tem um valor classificatório. Na criação desse conceito, a língua não leva em conta diferentes raças, os tamanhos diversos, as cores várias etc. Faz abstração das características particulares de cada gato, para instaurar a categoria da /felinidade/. O significado não é a realidade que ele designa, mas a sua representação. É o que quem emprega os signo entende por ele. (Fiorin, 2002, p.58).
Deve-se assimilar então que um signo é a união de um conceito (significado) com
a imagem acústica (significante). Os dois fundem-se, apesar de percebê-los de
forma separada não são separáveis, um depende do outro. “Poder-se-ia dizer que o
significante é o veículo do significado, o que se entende quando se usa o signo
sendo esta sua parte inteligível.” (Fiorin, 2002, p.58).
Para
Saussure a língua é um sistema de termos solidários, em que o valor de um
necessita da presença de outro. Ou seja, a língua é altamente rica, pois ela
possibilita representar da forma mais completa possível um objeto. Ao se pensar
na afirmação que “a realidade independe dos signos”, pode-se justificá-la como
falsa, pois um:
sistema não pode funcionar, porque o objeto não designa tudo o que uma língua pode expressar. Ele não exprime as propriedades de uma coisa. Daí a impossibilidade de construir metáforas e metonímias. Quando se usa a metonímia “as velas singram os mares”, velas têm o sentido de navio, porque, na fala, usa-se a parte para denominar o todo. Mostrar um objeto não exprime a pertença do objeto a uma determinada classe. No léxico de uma língua, agrupamos nomes em classes. Violeta, rosa, margarida pertencem à classe das flores. Mostrar uma margarida não exprimiria a classe flor. Exibir um objeto não exprime as categorias gramaticais, como a do singular ou do plural. A língua não é um sistema de mostração dos objetos, pois a linguagem humana pode falar de objetos presentes ou ausentes da situação de comunicação. Aliás, o objeto nem precisa existir, para que falemos dele, pois a língua pode criar universos de coisas inexistentes. (Fiorin, 2002, p.56).
Para o colecionador, o objeto expressa muito mais que a língua, na verdade, é carregado de sentimentos, recordações, palavras (não-expressas), mas representadas. O colecionador vê: “O objeto mitológico, de funcionalidade minimal e de significação maximal, refere-se à ancestralidade, ou mesmo à anterioridade absoluta da natureza. No plano vivido, tais postulações contraditórias coexistem no interior do mesmo sistema como complementares.” (Baudrillard, 2004, p.89).
Deve-se considerar que a atividade lingüística é uma atividade simbólica, em que
as palavras nomeiam ou categorizam o mundo, e que os signos mantém uma relação
de interdependência uns com os outros, para que o sentido destes conceitos seja
pleno. Sob este aspecto da interdependência ou inter-relação pode-se remeter à
coleção. Um objeto se relaciona a outro, pelo eixo central, ou norteador, da
coleção, sendo que esta relação é atribuída pelo colecionador. Peças idênticas
tomam sentidos diferentes em coleções diferentes. O valor atribuído a este signo
é alterado de acordo com a tradução que se faz dele.
Fiorin elucida na
lingüística a importância desta tradução.
O valor de um signo é dado por outro signo. Além disso, um signo é sempre
interpretável por outro signo: no interior do mesmo sistema pelos sinônimos,
pelas paráfrases, pelas definições; em outro sistema, em outra língua, por
exemplo, pela tradução. A dificuldade de traduzir indica que não há univocidade
na relação entre os nomes e as coisas. (Fiorin, 2002, p.56).
O sentido pode ser entendido como algo até certo ponto individual, pois como no
sistema dos signos a univocidade de relação entre nomes e coisas, não é
característica principal, uma vez que a diversidade é cultural. No fenômeno do
colecionismo se observa a mesma característica, pois um objeto idêntico, tem
valor e significado distintos em coleções distintas.
Para
Saussure:
cada elemento lingüístico deve ser diferente dos outros elementos com os quais contrai relação. Por isso, é preciso considerar o signo não mais em sua composição, mas em seus contornos, dados por suas relações com os outros signos. Por isso, Saussure cria a noção de valor . Com ela, dá-se uma definição negativa do signo: um signo é o que os outros não são. O valor provém da situação recíproca das peças na língua, pois importa menos o que existe de conceito e de matéria fônica num signo do que o que há ao seu redor. A significação é, então uma diferença entre um signo e outro signo, pois o que existe na língua são a produção e a interpretação de diferenças. Com o conceito de valor, Saussure mostra que o que importa na língua são as diferenças existentes entre conceitos e sons. (Fiorin, 2002, p.58-59).
Utilizando este conceito de Saussure que “um signo é o que os outros não são”,
ou seja, o valor está nos contornos das relações, nas diferenças existentes,
pode-se compará-la com o desenvolvimento das coleções. Para o colecionador,
quando busca uma nova peça para compor a coleção, procura por indícios não
encontrados nas peças que possui. O valor das peças que estão por vir trazem a
diferença, porém nunca perdendo de vista a relação que elas mantêm com as outras
peças da coleção.
Para
Hjelmslev (Textos), lingüista dinamarquês, o signo
"é a união de um plano de conteúdo a um plano de expressão. Trata-se de uma mudança de concepção ... cada plano compreende dois níveis: a forma e a substância. Assim, há uma forma do conteúdo e uma substância do conteúdo; uma forma da expressão e uma substância da expressão.” (Fiorin, 2002, p.59).
Para o autor, a forma
“ corresponde ao que Saussure chama valor, ou seja, é um conjunto de diferenças. Para estabelecer uma definição formal de um som ou de um sentido, é preciso estabelecer oposições entre eles por traços, pois os sons e os sentidos não se opõem em bloco.” (Fiorin, 2002, p.59).
A substância da expressão seriam os sons e a substância do conteúdo seriam os conceitos. Sons e conceitos são gerados pela forma e não existem antes dela. Assim para Hjelmslev, o signo:
" une uma forma da expressão a uma forma de conteúdo. Essas duas formas geram duas substâncias, uma da expressão e uma do conteúdo. A forma da expressão são diferenças fônicas e suas regras combinatórias; a forma do conteúdo são diferenças semânticas e suas regras combinatórias; a substância da expressão são os sons; a substância do conteúdo, os conceitos." (Fiorin, 2002, p.59).
Trazendo para o colecionismo e pensando na coleção de Eduardo Matarazzo, pode-se
imaginar que o objeto automóvel, por exemplo, Delahaye Dobh Pharta, 1912, possui
a forma de expressão e a forma de conteúdo, onde as formas de expressão são os
detalhes mínimos usados na sua fabricação, tais como: motor 12 HP, 1.593 cc,
quatro cilindros, magneto de alta tensão, carroceria de madeira, bancos de
couro, o acabamento interno todo trabalhado e a formas de conteúdo são o status
de se obter uma peça original com ótima conservação e fidedignidade à
fabricação.
Fig. 1

Delahaye Doubh Pharta. 1912
Fonte:
http://www.carroantigo.com/portugues/conteudo/varie_evolucao3.htm
Outro aspecto de análise para
Saussure é o de arbitrariedade do signo. Para o
autor:
"o signo lingüístico é arbitrário e, portanto, cultural. Arbitrário é o contrário de motivado, o que significa que, quando ele afirma que o signo lingüístico é arbitrário, está querendo dizer que ele não é motivado, ou seja, que não há nenhuma relação necessária entre o som e o sentido, que não há nada no significante que lembre o significado, que não há qualquer necessidade natural que determine a união de um significante e de um significado. Isso é comprovado pela diversidade das línguas." (Fiorin, 2002, p.60).
Se o signo lingüístico é arbitrário, portanto cultural, podemos analisar a diversidade de visão do colecionador frente às faces do objeto colecionado, por exemplo, um tanque de guerra. Quando o colecionador angaria um tanque de guerra, tanto pode fazer sua leitura pela força / poder / imponência que o tanque transmite numa guerra, como também pela leitura do desenvolvimento mecânico, da máquina em si, desenvolvida pela mente humana. Se o signo lingüístico é cultural, as leituras feitas pelos colecionadores também sofrem influência dos aspectos culturais.
Fig 2

Tanque da coleção do Museu Eduardo André Matarazzo
Fonte: http://www.museueduardoamatarazzo.com.br/
Essas alterações de leituras e de significações conduzem ao estudo da denotação
e da conotação. Um signo denotado é:
o signo cujo plano de expressão é um signo.” Por exemplo, quando pensamos no termo “olho-de-gato” em termos denotativos entende-se o termo como “globo colocado na parte anterior da cabeça e que serve de órgão da visão para um animal felino etc. (Fiorin, 2002, p.65).
Para se criar um signo conotado “ é preciso que haja uma relação entre o significado que se acrescenta e o significado já presente no signo denotado. Entre os dois significados, há então um traço comum.” (Fiorin, 2002, p.66). Em sentido conotado, por exemplo, “olho-de-gato” passa a ser entendido como “chapinha colocada em pequenos postes, instalados ao longo das estradas de rodagem que reflete a luz dos faróis dos automóveis, para marcar os limites do leito da estrada.” (Fiorin, 2002, p.66).
Estes aspectos de conotação e denotação podem ser aplicados na organização das
coleções. Quando uma coleção não recebe o registro da atribuição de
sentido/valor aí empenhados pelo próprio colecionador, ela perde seu eixo
norteador de sentido. No caso da coleção de Eduardo Matarazzo, pode-se verificar
que não havia nenhum registro sobre o eixo que permeava o desenvolvimento desta
coleção, ou seja, não há registros de como se deu a aquisição de cada objeto e
de como estes deveriam ser dispostos para visitação. Eduardo Matarazzo faleceu
recentemente e deixou esta coleção exposta num museu que leva seu nome, ou seja,
sua coleção recebeu sua própria designação.
Quando uma coleção “perde” seu “mentor” ela sofre interferências na sua coerência, pois cada observador, ou leitor dos objetos pode fazer sua leitura (arbitrariedade do signo) e conseqüentemente pode incorrer na conotação deste signo. Neste caso, a conotação aqui pode ser entendida como uma variação de interpretação.
Saussure traz uma dicotomia (divisão em partes iguais) formada por quatro pares
de conceitos que fazem parte da criação do objeto teórico da Lingüística. “Uma
dicotomia em Saussure diz respeito a um par de conceitos que devem ser definidos
um em relação ao outro, de modo que um só faz sentido em relação ao outro.” (Pietroforte,
2002, p.78). Alguns destes pares serão analisados, buscando-se estabelecer uma
relação destas dicotomias com o
colecionismo.
O primeiro é Sincronia versus Diacronia, em que numa análise sobre a formação
das línguas, pode-se “ pelo trabalho comparativo, reconstruir o
percurso histórico dessas línguas, ou seja, é possível determinar como uma
língua muda através do tempo, transformando-se em outras línguas.” (Pietroforte,
2002, p.78).
Pietroforte apresenta de forma sucinta o exemplo da reconstrução da língua
indo-européia:
A escrita apareceu tardiamente, de modo que muitas línguas não deixaram registros em documentos escritos. O trabalho do lingüista, então, torna-se um trabalho de reconstrução de uma língua a partir dos vestígios que ela deixa nas línguas que dela se originaram. Ou seja, reconstrói-se a “mãe” a partir de suas “filhas” e das “filhas” de suas filhas. Foi assim com o indo-europeu, uma língua que, sem deixar registros históricos, foi reconstruída pelo método histórico-comparativo. Os lingüistas do século XIX buscavam, comparando as línguas, organizá-las em grupos e reconstruir as línguas de que os grupos se originavam. (Pietroforte, 2002, p.79).
Num processo semelhante a esse da língua, esse par de conceitos permite-nos reconstruir o processo de atribuição de sentidos dado aos objetos, dentro do fenômeno do colecionismo, buscando o eixo norteador da coleção de Eduardo Matarazzo. Através de entrevistas com pessoas que acompanharam sua trajetória colecionadora, por exemplo, pode-se montar uma biografia com este perfil.
Ao estudo dessas mudanças ocorridas nas línguas
Saussure chamou Lingüística
Diacrônica. Diacronia vem do: grego dia “através” e chrónos “tempo”, quer dizer “através do tempo”, e
sincronia, do grego syn “juntamente” e chrónos “tempo”, significa “ao mesmo
tempo”.
Fazendo uma distinção entre dois pontos de vista diferentes de olhar para o
mesmo fenômeno, Saussure define um novo objeto de estudos para a Lingüística.
Contrariamente ao estudo da mudança lingüística, o ponto de vista sincrônico vê
a língua como um sistema em que um elemento se define pelos demais elementos. No
estudo sincrônico, um determinado estado de uma língua é isolado de suas
mudanças através do tempo e passa a ser estudado como um sistema de elementos
lingüísticos. Esses elementos são estudados não mais em suas mudanças
históricas, mas nas relações que eles contraem, ao mesmo tempo, uns com os
outros.” (Pietroforte, 2002, p.79).
Com a leitura da sincronia, analisamos as relações que os objetos passam a
receber quando inseridos na coleção. Cada qual tem seu valor, mas a partir do
momento em que se contextualizam na coleção passam a significar o todo e não
mais a parte.
A diacronia passa a analisar os estados da língua como sobreposição de sistemas.
Vejamos:
Saussure, ao definir a língua como sistema e ao pensar a sincronia como o estudo de um sistema num dado momento do tempo, abre caminho para a redefinição também do conceito de diacronia, que vai ser entendida como a sucessão de diferentes sistemas ao longo do tempo. Imaginemos, por exemplo, que, em cada século, haja um estado de língua. Faz-se um estudo sincrônico do português do século XIII, do século XIV etc. A diacronia é, então, a sucessão dessas sincronias. (Pietroforte, 2002, p.81).
Em termos de colecionismo, na diacronia como sucessão das sincronias, tem-se a cada novo objeto inserido na coleção uma releitura desta mesma coleção, pois ela vai se tornando mais completa a cada nova peça aí inserida.Outra das dicotomias saussurianas é língua e fala. Para Saussure o objeto de estudo da Lingüística é a língua e esta é definida como um sistema de elementos. Ele define um sistema como um:
conjunto organizado em que um elemento se define pelos outros. Um conjunto é uma totalidade de elementos quaisquer. Se eles estão organizados, isso quer dizer que um elemento está em função dos outros, de modo que a sua função se define em relação aos demais elementos. (Pietroforte, 2002, p.82).
Esta fundamentação ocorre com Baudrillard, quando o autor fala das coleções:
Só uma organização mais ou menos complexa de objetos que se relacionem uns
com os outros constitui cada objeto em uma abstração suficiente para que possa
ele ser recuperado pelo indivíduo na abstração vivida que é o sentimento de
posse. Esta organização é a coleção. O meio habitual conserva um estatuto
ambíguo: nele o funcional desfaz-se continuamente no subjetivo, a posse
mistura-se ao uso, em um empreendimento sempre carente de total integração. A
coleção, ao contrário, pode nos servir de modelo, pois é nela que triunfa este
empreendimento apaixonado de posse, nela que a prosa cotidiana dos objetos se
torna poesia, discurso inconsciente e triunfal. (Baudrillard, 2004, p.95).
Um sistema organizado cria a interdependência de função, ou seja, a relação
entre os elementos redefinindo suas funções. Transpondo este pensamento para
coleção de Eduardo Matarazzo (Museu de Armas e Veículos Eduardo André
Matarazzo), percebe-se que a coleção pode ser repensada e a cada novo objeto que
é inserido não há a perda da coerência da mesma, permanecendo o eixo norteador
de sentido. Como exemplo, pode-se analisar uma coleção de miniaturas de
automóveis, na qual um objeto não pertencente à mesma classe/categoria seja
inserido.
Fig. 3

Fonte: coleção particular
Num caso como este, há grande quebra de coerência, pois os elementos componentes
desse sistema não se inter-relacionam, as relações não podem ser repensadas,
pois há uma ruptura.
Saussure, ao definir o objeto de estudo da Lingüística, traz essa concepção de
estrutura, de sistema, de conjunto organizado em que um elemento se define pelos
demais por relação, como se fosse uma rede de nós, em que um indivíduo conversa
com o outro para formar uma grande teia. Pode-se remeter aos quipos como forma
de escrita, utilizados no sistema de comunicação dos incas.
O sistema lingüístico pode ser entendido então como:
uma rede, em que cada nó está relacionado com os demais nós que formam a rede, assim como os signos que formam um sistema lingüístico estão relacionados entre si. Concebendo a língua como um sistema de signos, Saussure (1969:23-24) define um novo objeto de estudos para a Lingüística. É desse modo que um ponto de vista determina um objeto de estudos: quando se observa a língua do ponto de vista sistemático, o que se reconhece nela é uma estrutura. Esse conjunto de relações que as unidades lingüísticas mantêm entre si constitui uma forma. Por isso, Saussure diz que a língua é forma e não substância. Esse conjunto de diferenças estabelece os conceitos e os sons na massa amorfa do pensamento e no plano fônico indeterminado que o aparelho fonador pode produzir. Para explicar melhor esse conceito, Saussure usa uma metáfora, a do jogo de xadrez. O que define o que é uma rainha, não é seu formato nem o material de que a peça é feita, mas seu valor no jogo, ou seja, sua oposição em relação às demais peças: os movimentos que ela pode fazer e as outras não podem. Não importa o material de que a peça é feita, nem seu formato. No limite, pode-se até jogar xadrez de memória, sem as peças. O que tem relevância é o valor das peças. Na língua, isso também ocorre. O que importa é o valor das unidades, ou seja, sua diferença em relação às demais.” (Pietroforte, 2002, p.83-84).
No sistema lingüístico os signos se relacionam com outros signos, formando uma rede. Esse conjunto de relações constitui uma forma. Para um colecionador de carros o objeto tem forma e sentido. O carro X, fabricado em tal país, foi de tal pessoa, e traz tais recordações – essa seria a forma carregada de sentido, transpondo-se a noção de forma de Saussure.
O terceiro par de dicotomias seria Significante versus Significado. Para
Saussure o que tem valor é a relação de um signo com outros e não a relação
entre palavras e coisas. Para ele:
O mundo e suas coisas passam para um domínio que está fora dos estudos lingüísticos e a língua ganha uma especificidade própria. Um significante e um significado (1969:81) formam um signo, que, por sua vez, é definido dentro de um sistema (1969:23-24), ou seja, um signo ganha valor na relação com outros signos. Esse conceito de signo traz a significação para dentro da língua e de sua estrutura. O que significa são os signos em suas relações uns com os outros e não a relação entre as palavras e as coisas do mundo. (Pietroforte, 2002, p.85).
A relação entre signos é o marco de Saussure. Pode-se concluir parcialmente que: um signo tem que se relacionar com outro para formar um texto. Um texto para ter sentido tem que ser coerente, da mesma forma que um objeto se relaciona com outro objeto para formar uma coleção. Em outras palavras, para que uma coleção seja coerente é necessário o sentido do colecionador.
Se os signos significam dentro de um sistema lingüístico, esse sistema
compreende uma visão de mundo, ou seja, um princípio de classificação que,
projetando-se sobre as coisas do mundo, classifica-se de acordo com sua
estrutura interna. Um conceito, ou seja, um significado, é uma idéia que modela
um determinado modo de compreender as coisas. Esse conceito deve,
necessariamente, estar relacionado a um meio de expressá-lo.
É preciso, então relacionar o conceito a uma imagem acústica, ou seja, a um significante. Essa maneira de ver o mundo varia de língua para língua, já que cada uma delas é definida por um sistema próprio de signos.
Além do mais, se é pela linguagem que se vêem os fatos humanos, se definem esses fatos, eles podem ser modificados por meio dela. Isso não quer dizer que se pode modificar o mundo físico por meio da linguagem, mas que cabe a essa linguagem dar um sentido para as interpretações desse mundo. É esse mundo de sentido, formado pela linguagem, que pode ser modificado por ela.
Desse modo,
pode-se afirmar que é a partir de uma língua que se vêem as coisas do mundo e
não o contrário. " Assim, o signo não une uma
palavra a uma coisa, mas um significante a um significado." (Saussure, 1969:80
apud Pietroforte, 2002, p.86).
A reconstrução do sentido da coleção pelo colecionador permite que se entenda a
classificação dada aos objetos, tendo como leitura o contexto sócio-histórico e
cultural vivenciado pelo colecionador, é a partir do sentido que o colecionador
dá aos objetos da coleção, que se designa o valor da mesma. Daí a união do
significante ao significado – o objeto à coleção.
O quarto e último par de dicotomias é Paradigma versus Sintagma. Por paradigma
pode-se entender a relação de seleção, uma série de elementos lingüísticos,
suscetíveis de figurar no mesmo ponto do enunciado, e significa modelo, exemplo.
Sintagma é a relação de combinação, que obedece a um padrão definido pelo
sistema, coisa posta em ordem.“O paradigma não é qualquer associação de signos pelo som e pelos sentidos, mas
uma série de elementos lingüísticos suscetíveis de figurar no mesmo ponto do
enunciado, se o sentido for outro.” (Pietroforte, 2002, p.89).
As relações paradigmáticas na coleção são a exclusão ou seleção desse ou daquele
objeto, para aquisição e ampliação da mesma.
As relações no sintagma "não se combinam quaisquer elementos
aleatoriamente. A combinação no sintagma obedece a um padrão definido pelo
sistema.” (Pietroforte, 2002, p.89).A relação sintagmática de um objeto para outro existe quanto à organização da
coleção, no que se refere à disposição dos objetos e à exposição ao público.
A diferença entre as relações sintagmáticas e as paradigmáticas não é a mesma
que existe entre língua e fala (Saussure, 1969: 26-28). Aquelas, por relacionar
no mínimo dois elementos lingüísticos, são um tipo de relação em que os
elementos relacionados se encontram em presença um do outro, já as relações
paradigmáticas, porque dizem respeito à seleção entre elementos, são um tipo de
relação em que o elemento selecionado exclui os demais elementos da relação.
Assim, as relações paradigmáticas entre os elementos lingüísticos ocorrem em
ausência, ao contrário das sintagmáticas, que ocorrem pela presença dos
elementos relacionados (Saussure, 1969:143 apud Pietroforte, 2002, p.89).
As relações sintagmáticas e paradigmáticas podem ser usadas em outras
semiologias inclusive na organização de coleções e museus.Para o melhor
entendimento do que seja a coleção, mas sob o foco de como poderia se sentir um
objeto de coleção citamos um trecho de um artigo de Andrade (2005), no qual o
autor apresenta o diálogo entre dois objetos: Miguel e Daniel. O diálogo relata
os objetos “olhando” para os colecionadores, ou seja, os objetos metaforicamente
conversando, tendo sentimentos:
Os objetos [...] ao serem singulares, mostram-se igualmente permutáveis, e só assim se constituem em colecções. A Colecção é uma coleccionação, ou seja, o processo social e cultural pelo qual diferentes elementos (objectos, sujeitos individuais ou colectivos, etc.) encontram-se relacionados entre si, através de determinadas regras. A coleccionação consiste numa permutação infinita de classificações e de desclassificações desses elementos. Em relação a ti, objecto de colecção, os objectos teus amigos de colecção, precisamente pelo facto de funcionarem como objectos ímpares, podem ser integrados numa ou noutra colecção, de acordo com as regras, taxonómicas ou outras, que as regem. Pelo que me dizes, tu não passas de um objecto objectivo, que pensa que a objectividade, e mais nada, constitui a tua natureza. O Miguel, pelo contrário, pensa-se um objecto bastante subjectivo, com uma personalidade individualizada. No entanto, as coisas não são assim tão lineares. Os objectos não só têm uma vida própria, mas apresentam duas vidas, uma antes de entrarem numa colecção, e outra depois de serem coleccionados. (Andrade, 2005, p.208).
O objeto tem uma vida própria, uma função específica para a qual foi criado, mas apresentam duas vidas, ou mais vidas, pois quando é inserido numa coleção toma o sentido que o colecionador dá a mesma. Sob este enfoque de relação do objeto com a coleção em que está inserido, pode-se retomar o conceito de sistema lingüístico de Saussure em que a relação do signo se dá pela relação com outros signos.
Somando-se aos conceitos saussurianos, apresentam-se, na seqüência, os conceitos
de coesão e coerência, com a intenção de aplicá-los como parâmetros de análise
nas leituras das coleções. Nesta análise, a coerência textual terá maior
enfoque, pois o que se pretende é estabelecer a reconstrução do sentido da
coleção de armas e veículos do Sr. Eduardo André Matarazzo.
De acordo com Marcuschi (1983 apud Koch, 2001, p.35) a coesão textual é formada
por aqueles fatores que “dão conta de sequenciação superficial do texto,
isto é, os mecanismos formais de uma língua que permitem estabelecer, entre os
elementos lingüísticos do texto, relações de sentido.”
Numa análise comparativa, pode-se compreender como fatores coesivos de uma
coleção os objetos componentes em si, ou seja, no caso da coleção do sr.
Eduardo, os carros, aviões, motos, etc.
Fig. 4

Museu de Armas e Veículos Eduardo André Matarazzo – Bebedouro/SP
Fonte:
http://www.museueduardoamatarazzo.com.br/
Koch diz que a coesão é “sinalização textual”, que:
tem a função básica de organizar o texto, fornecendo ao interlocutor “apoios” para o processamento textual, através de “orientações” ou indicações para cima, para baixo (no texto escrito), para a frente e para trás, ou, ainda, estabelecendo uma ordenação entre segmentos textuais ou partes do texto. (Koch, 2001, p.37).
A leitura de uma coleção pode ser feita de forma aleatória, o leitor / visitante de uma coleção tem indícios da organização da coleção pelos próprios objetos que a compõem, porém falta algo que dê sentido a esta. Falta algo que preencha este sistema de objetos: a relação (do sistema de Saussure), o sentido, a coerência (a “argamassa que liga o azulejo ao chão”).O que vem a ser a coerência? Para a Lingüística Textual:
A coerência [...] longe de construir mera qualidade ou propriedade do texto, é resultado de uma construção feita pelos interlocutores, numa situação de interação dada pela atuação conjunta de uma série de fatores da ordem cognitiva, situacional, sociocultural e interacional. (Koch e Travaglia, 1989 e 1990 apud Koch, 2001, p.41).
Ou seja, a coerência é algo construído com sentido, envolvendo-se motivos,
contextos, pensamentos, cultura e pessoas.Se, porém, é verdade que a coerência não está no texto, é verdade também que ela
deve ser construída a partir dele, levando-se, pois, em conta os recursos
coesivos presentes na superfície textual, que funcionam como pistas ou chaves
para orientar o interlocutor na construção do sentido.
Para que se estabeleçam
as relações adequadas entre tais elementos e o conhecimento de mundo
(enciclopédico), o conhecimento socioculturalmente partilhado entre os
interlocutores e as práticas sociais postas em ação no curso da interação,
torna-se necessário, na grande maioria dos casos, proceder a um cálculo,
recorrendo-se a estratégias interpretativas, como as inferências, bem como as
estratégias de negociação do sentido. (Koch, 2001, p.41).
O sentido do texto é algo construído, formado com elementos coesivos e
conhecimentos de mundo, conhecimento socioculturais partilhados, língua comum,
há uma negociação para construir-se sentido. Numa coleção há a formação e a
construção deste sentido também. Um objeto não diz nada sozinho, basta recordar
Manuel falando com Daniel no texto de Andrade (2005).
Quando o objeto se une a outros objetos, ele toma sentido, porque segue as regras aí instituídas. O objeto segue o contexto, a direção da coleção, dado pelo colecionador, formado pelos fatores psicológicos, sociais, culturais, financeiros e intelectuais do mesmo. Mais a frente esta abordagem de contexto será focada em situacionalidade.
Voltando ao caso da coleção em estudo, mas usando uma representação muito
simples do que seria a coleção, pode-se entender sobre a coerência do
colecionador. Se houvesse uma organização cronológica para a fabricação dos
carros e eles fossem expostos ao público da seguinte forma:
Fig. 5

Fonte: coleção particular
Supõe-se que estejam organizados da seguinte forma: o carro preto fabricado em
29, Studebacker vermelho em 50, o guincho Ford em 53, o Cadillac azul em 57 e o
Fusca amarelo em 60. A análise que se tem apenas olhando para os objetos seria
de que os objetos seguem uma ordem de fabricação, mas essa leitura só poderá ser
feita se houver informações sobre a evolução de fabricação dos automóveis. Para
um leigo no assunto, a coerência poderia ser a seguinte:
Fig. 6

Fonte: coleção particular
Observa-se que há uma alteração na seqüência dos carros: o carro preto fabricado
em 29 (permanece), o amarelo em 60 (sai da última posição e passa a ocupar a
segunda na disposição seqüencial), o guincho em 53 (permanece), o azul em 57
(permanece) e o vermelho em 50 (sai da segunda e passa a ocupar a quinta
posição). Há apenas uma inversão, mas que muda a seqüência e a coerência da
coleção.
Para um leigo isto não faria muita diferença, pois os carros permanecem aí, da
mesma forma, nas mesmas cores, porém perdeu-se a coerência de sentido, pois se a
regra era a ordem cronológica de fabricação, o de 60 acaba aparecendo antes do
53.
De acordo com a passagem já citada de Baudrillard, mesmo que os objetos tenham
suas individualizações, ele absorva o sentido da organização da coleção.
Só uma organização mais ou menos complexa de objetos que se relacionem uns com os outros constitui cada objeto em uma abstração suficiente para que possa ele ser recuperado pelo indivíduo na abstração vivida que é o sentimento de posse. Esta organização é a coleção. O meio habitual conserva um estatuto ambíguo: nele o funcional desfaz-se continuamente no subjetivo, a posse mistura-se ao uso, em um empreendimento sempre carente de total integração. A coleção, ao contrário, pode nos servir de modelo, pois é nela que triunfa este empreendimento apaixonado de posse, nela que a prosa cotidiana dos objetos se torna poesia, discurso inconsciente e triunfal. (Baudrillard, 2004, p.95).
O objeto, depois de inserido numa coleção, representa o sentido atribuído pelo seu colecionador, ou seja, ela representa a posse de seu colecionador. Voltando à análise de coerência, se uma coleção de automóveis relaciona estes tipos de automóveis, naturalmente não aceita outro tipo de objeto. Pode-se representar isto da seguinte forma:
Fig. 7

Fonte: coleção particular
Numa análise como esta há a quebra de coerência, pois objetos de diferentes
formas são misturados. Carros e animais não combinam, pois são categorias
diferentes numa coleção de automóveis. Há a quebra das regras, ou seja, do
sentido instituído pelo colecionador, que seria a ordem cronológica de
fabricação de automóveis.
Como nos textos a coesão e coerência estão presentes, sempre juntas, as duas
“ passam a constituir as duas faces de uma mesma moeda, ou então, para usar
de uma outra metáfora, o verso e o reverso desse complexo fenômeno que é o
texto.” (Koch, 2001, p.45).
Na coleção o mesmo acontece. A coesão, apresentada como sendo os objetos em si,
e a coerência, como sendo o sentido dado pelo colecionador, não funcionam
separadamente, elas se apresentam como o verso e o reverso do fenômeno, como
verso e anverso de uma folha de papel. O fenômeno do
colecionismo permite esta
leitura.
Para Baudrillard, o processo sistemático de coerência da coleção atua:
sobre o conjunto da cotidianidade na estrutura trabalho-lazer, onde o lazer não é de forma alguma superação nem mesmo uma saída para a vida ativa, mas onde uma mesma cotidianidade se desdobra para poder, para além das contradições reais, estabelecer-se como sistema coerente e definitivo. O processo é certamente menos visível ao nível dos objetos isolados, mas dá-se que cada objeto-função é desta forma suscetível de se desdobrar, de se opor assim formalmente a si mesmo para melhor se integrar no conjunto. (Baudrillard, 2004, p.89).
Nesta visão, pode-se compreender a coesão como os objetos da coleção em si e a
coerência como a organização do sentido da coleção, ou seja, desde que não haja
a representação do sentido que direciona a coleção, não será possível a
recuperação fidedigna do objeto na visão do colecionador. O objeto quando
inserido na coleção absorve seu sentido, ele abre mão de sua função particular
para se integrar ao conjunto, como no diálogo de Daniel e Miguel.
Na Lingüística o elo entre a coesão, a coerência e o sentido do texto
encontra-se na situacionalidade. Para Baugrande e Dressler (1981 apud
Koch;
Travaglia, 2000, p.76) “a situacionalidade refere-se ao conjunto de
fatores que tornam um texto relevante para dada situação de comunicação corrente
ou passível de ser reconstituída.”Koch e
Travaglia (2001, p.69) classificam a situacionalidade em duas direções:
A) da situação para o texto e B) do texto para a situação.
No caso A, “trata-se de determinar em que medida a situação comunicativa
interfere na produção/recepção do texto e, portanto, no estabelecimento da
coerência.” (Koch; Travaglia, 2001, p.69). A situação entendia em dois sentidos:
estrito – contexto imediato da interação; e amplo – contexto
sócio-político-cultural em que a interação está inserida.
No caso B, "o produtor recria o mundo de acordo com seus objetivos, propósitos,
interesses, convicções, crenças, etc. O mundo criado pelo texto não é, portanto,
uma cópia fiel do mundo real, mas o mundo tal como é visto pelo produtor a
partir de determinada perspectiva, de acordo com determinadas intenções." (Koch;
Travaglia, 2001, p.70).
A situacionalidade aplicada ao estudo do
colecionismo possibilita a seguinte
leitura.
No caso A pode-se focar no sentido amplo, no qual o contexto sócio-político-cultural em que o colecionador vive, influencia diretamente na
escolha do tipo de objeto que vai colecionar. Neste estudo as categorias: tipo,
marca, modelo e ano de carros que estariam sendo escolhidos, são exemplos claros
da influência da situacionalidade permeando o contexto comunicativo.
No caso B a representação do mundo real é apresentada de acordo com os
objetivos, interesses e leituras que o colecionador faz dos objetos que compõem
sua coleção.
O sentido da organização é dado pelo colecionador. Pode-se verificar que tanto o caso A quanto o B se inter-relacionam permitindo com que o contexto em que o colecionador cresce e tem sua formação, mais seus interesses pessoais, marcam as características de sua coleção. A situacionalidade ocorre nas duas direções tanto da situação para a coleção, quanto da coleção para a situação.
Considerações Finais
Como afirma Baudrillard “o objeto puro, privado de função ou abstraído de
seu uso, toma um estatuto estritamente subjetivo: torna-se objeto de coleção.”
(Baudrillard, 2004, p.94).
A proposta de um mapeamento de colecionador pode ser a reconstrução de sentidos,
pois:
O profundo poder dos objetos colecionados não lhes vem, com efeito, nem de sua singularidade nem de sua historicidade diversa, não é por este meio que o tempo da coleção deixa de ser o tempo real, é pelo fato de a própria organização da coleção substituir o tempo. ... inventariando o tempo em termos fixos com os quais pode jogar reversivelmente, a coleção representa o perpetuo reinicio de um ciclo dirigido onde o homem se entrega a cada instante e com absoluta segurança – partindo não importa de que termo e seguro de a ele voltar – ao jogo do nascimento e da morte. (Baudrillard, 2004, p.103).
Este estudo está em aberto, pois o colecionador já faleceu e o sentido de sua coleção tem se perdido com o tempo. Até o momento, resgatou-se que o sentido atribuído pelo colecionador para a busca seja tipológico - por marcas; e cronológico para organização e disposição do público. Não há registros sobre a organização e desenvolvimento da coleção, porém, a reconstrução tem se dado através de entrevistas com pessoas que viveram próximas ao colecionador, bem como próximas à coleção.
quipos -A palavra significa “nó” na língua dos
ancestrais dos peruanos e era justamente assim que as informações mais
importantes eram registradas: a partir de nós com grossuras e cores diferentes,
formando mensagens que eram interpretadas pelos quipucamayocs, os especialistas
da sociedade incaica nessa espécie de escrita.
Referências bibliográficas
ANDRADE, Pedro. Os objectos que coleccionavam sujeitos (estilo ou género de
escrita: diálogos sociológicos). Episteme, Porto Alegre, n. 20, suplemento
especial, p.206-210, jan./jun., 2005.
BAUDRILLARD, Jean. O sistema dos objetos. Tradução por Zulmira Ribeiro Tavares.
2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2004. 230 p. (Debates, 70).
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KOCH, Ingedore Villaça; TRAVAGLIA, Luiz Carlos. A coerência textual. 13 ed. São
Paulo: Contexto, 2001. 94 p. (Repensando a Língua Portuguesa).
KOCH, Ingedore Villaça; TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Texto e coerência. 7 ed. São
Paulo: Cortez, 2000. (Estudos de Linguagem, 4).
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Contexto, 2001. 124 p. (Caminhos da lingüística).
LIMA, Renata. A arte fascinante de colecionar. Collector’s Magazine. Disponível
em:
em <http:/ipcolecionismo.com.br/exibir_textos.php?noticia=198>. Acesso em: 23
fev. 2005.
PIETROFORTE, Antonio Vicente. A língua como objeto da Lingüística. In: FIORIN,
José Luiz (Org.). Introdução à Lingüística: I. objetos teóricos. São Paulo:
Contexto, 2002. 226 p.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingüística geral. Tradução por Antônio Chelini,
José Paulo Paes, Izidoro Blikstein. 3 ed. São Paulo: Cultrix, 1971. 279 p.
Textos de Ferdinand de Saussure, Roman Jakobson, Louis Trolle
Hjelmslev, Noam Chomsky. Tradução por Carlos Vogt et. al. 3 ed. São Paulo: Abril
Cultural, 1985. (Os Pensadores).
Sobre o autor / About the Author:
Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Faculdade de Filosofia e Ciências – Unesp.
João Batista Ernesto de Moraes
Professor Assistente-Doutor do Departamento de Ciência da Informação da Faculdade de Filosofia e Ciências – Unesp – Marília. Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação. Tutor do Grupo PET/MEC/SESu de Biblioteconomia.