Resumo:
Relaciona, teoricamente, busca de informação e cognição situada,
considerando contexto e tarefa ligados ao sujeito, usuário da informação.
Apresenta aspectos conceituais sobre busca de informação, usuário/contexto
/tarefa e discute as possíveis relações com aspectos cognitivos, ressaltando
aqueles centrais à cognição situada. Sugere, ao final, questões que podem
ser consideradas em pesquisas futuras, a respeito do comportamento
informacional de usuários da informação.
Palavras-chave: Contexto; Tarefa; Busca de
informação; Usuário da informação; Cognição situada .
Abstract: In a
theoretical level, the article relates information seeking to situated
cognition, considering individual context and task. It presents conceptual
issues on information seeking, information user, context, tasks, and
discusses their possible relations to cognitive aspects, highlighting those
central to situated cognition. At the end, it suggests questions that should
be taken into account by future research on informational behavior of
information users.
Keywords:
Context, Task, Information seeking, Situated cognition, Information user.
Introdução
As discussões a respeito do comportamento do usuário da informação têm
sido, historicamente, centrais na ciência da informação. De um modo geral,
os estudos sobre necessidades, demandas e uso de informação procuram
investigar como pessoas buscam informação sobre algo, que fontes lhes são
importantes e como as utilizam, bem como e para que e como usam determinada
informação. Esses aspectos levantados têm, como pano de fundo, investigar
que tipo de problemas os usuários procuram solucionar através do uso de
determinada informação.
Nesses estudos, encontram-se subjacentes os princípios das abordagens
tradicionais sobre a cognição humana, nas quais o sujeito (usuário) é um ser
que recebe informação do meio externo que lhe modifica as estruturas
próprias de conhecimento. A informação, tomada como algo objetivo, e
recebida pelo usuário, permite a ele resolver gaps
de conhecimento sobre algo. Além disso, esses estudos consideram a
informação como algo que pode ser estocado, processado e transmitido e o
conhecimento como algo que é obtido para se resolver um problema relacionado
a uma ausência de conhecimento sobre algo.
Há que se destacar ainda que, sempre que o usuário é discutido no âmbito da
ciência da informação, algumas abordagens são consideradas importantes para
a área. Neste artigo, três dessas abordagens serão apresentadas e discutidas
com maior atenção, uma vez que têm sido citadas com freqüência nos trabalhos
da área - a abordagem de
sense-making
(Dervin, 1983), a de busca de
informação proposta por Kuhlthau (1993) e a abordagem da análise de domínio
(Hjorland e Albrechtsen, 1995).
Além disso, não somente o usuário tem sido central, mas também tem sido
abordada a necessidade de se considerar o contexto no qual (Taylor,
1986; Wilson e Walsch, 1996; Dervin, 1983 e outros) esse usuário se encontra. Essa
é uma variável que trás aspectos bastante interessantes, mas ao mesmo tempo
difíceis de serem observados, caracterizados e mensurados. Alguns autores
como Allen (1978), Bystrom e Javerlin (1995),
Kuhlthau (1993) e Javerlin e Ingwersen (2004) têm chamado atenção para que a tarefa na qual o usuário se
encontra envolvido, ou que ele próprio desenvolve pode trazer questões mais
objetivas e claras a respeito do comportamento informacional do usuário.
Entretanto, as abordagens tradicionais da cognição parecem ser insuficientes
para dar suporte aos estudos sobre o comportamento informacional do usuário
e, sendo assim, a abordagem da cognição situada pode proporcionar discussões
mais ricas a esse respeito, no âmbito da ciência da informação. Neste
artigo, portanto, pretende-se mostrar como a cognição situada possui
elementos importantes a serem considerados na discussão acerca do
comportamento informacional do usuário na busca de informação.
Acerca dos usuários da informação e do processo de busca de informação
Conforme anunciado, algumas abordagens têm sido consideradas importantes
para se analisar o comportamento do usuário.A abordagem de
sense-making
proposta por Dervin(1983), constitui-se, segundo a autora, de conceitos e
métodos usados para estudar como pessoas constroem o sentido de seu mundo e,
em particular, como elas constroem necessidades e usos para informação em um
processo de formação de sentido.
Essa abordagem, também considerada como chave para se compreender os
mecanismos de busca de informação pelo usuário, apresenta uma identificação
significativa com as abordagens mais recentes sobre o conhecimento ao
considerar que a visão de mundo do sujeito é uma construção subjetiva
relacionada com o seu momento. Entretanto,
sense-making
ainda carrega em suas bases o representacionismo e o computacionismo por
basear-se na idéia de que a informação resolve “gaps”
de conhecimento. Além disso, essa abordagem centra-se no processo
cognitivo considerando somente o sujeito subjetivo.
Considerando aspectos semelhantes à abordagem de
sense-making, o processo de
busca da informação é visto por Kuhlthau (1991, 1993, 1993a) como uma
atividade realizada pelo usuário para dar sentido a uma informação e para
ampliar seu estado de conhecimento sobre um problema ou tópico específico. A
incerteza diante da falta de compreensão, de um vazio de significado, de uma
construção limitada com relação a algum assunto ou situação problemática, dá
início ao processo. A informação é vista como um elemento que auxilia a
transposição do gap cognitivo existente entre o conhecimento do usuário
sobre o problema e o que o usuário necessita saber para solucioná-lo.
O processo de busca de informação é descrito por Kuhlthau (1991, 1993a) em
termos de fases ou estágios que representam a tarefa principal de cada ponto
do processo: iniciação, seleção, exploração, formulação, coleta e
apresentação. Apesar de sugerir uma certa linearidade pela forma como é
descrito no modelo, o processo é recursivo e interativo e raramente se
desenvolve diretamente da fase de seleção para a apresentação. O modelo
também incorpora três dimensões da experiência humana que assumem
características em cada estágio experienciado:
a física representada pelas ações,
a cognitiva descrita pelos pensamentos,
e a afetiva por sentimentos.
Nessa perspectiva, uma pessoa move-se de um estado inicial de necessidade de
informação para um estado final de resolução do problema através de uma
série de escolhas feitas pela conjugação entre sentimentos, pensamentos e
ações. O critério para escolha é influenciado pelas restrições ambientais,
pelas experiências anteriores, pelo conhecimento e interesse disponível,
pelos aspectos do problema, pelo tempo disponível para resolução, e pela
relevância e conteúdo da informação recuperada.
A abordagem de análise de domínio, proposta por Hjorland e Albrechtsen
(1995), tem como foco domínios de conhecimento. Organização do conhecimento,
estrutura, formas de linguagem e comunicação, sistemas de informação e
critérios de relevância são, segundo os autores, reflexões do trabalho de
comunidades de discurso, como denominam, e de seu papel na sociedade.
Considera a ciência da informação como uma ciência social, e procura
compreender as funções implícitas e explícitas da informação e da
comunicação traçando assim os mecanismos básicos do comportamento
informacional. Apresenta-se ainda, de acordo com os autores, como uma
abordagem filosófico-realista, que procura encontrar as bases para a ciência
da informação em fatores que são externos às percepções individualistas e
subjetivas dos usuários.
A abordagem de análise de domínio também é uma tendência que procura quebrar
os paradigmas cognitivos tradicionais. Entretanto, ao contrário da abordagem
de sense-making, a ênfase do conhecer humano ocorre na interação com o
ambiente. Desta forma, a Ciência da Informação deixa de lado o
individualismo predominante em
sense-making
e na abordagem de Kuhltau (1991)
e dá lugar ao outro extremo, o coletivismo da abordagem da análise de
domínio, discutida por Radamés (2004) como uma abordagem sociocognitiva.
Ou
seja, ou pendemos para abordagens que privilegiam o sujeito, ou vamos ao
extremo oposto e privilegiamos os contextos, as comunidades sociais.
Entretanto, encontram-se subjacentes a essas abordagens, visões cognitivas
importantes que influenciam as ações na ciência da informação e a forma como
o comportamento do usuário será analisado. O ideal seria encontrar um
equilíbrio entre as visões e considerar igualmente os aspectos que
influenciam o comportamento informacional dos usuários, o que é possível se
encontrar nas abordagens cognitivas contemporâneas.
Em seu trabalho, Henrique (2006) ressalta que há mais de 20 anos,
Taylor (1986) já considerava que as necessidades de
informação consistiam de dois elementos distintos mas interligados: o
conteúdo informacional de que se tinha necessidade e os elementos
situacionais que influenciam a maneira pela qual a informação é utilizada.
Mesmo presente em muitos dos modelos de comportamento informacional,
disponíveis na literatura técnica, a exemplo de Wilson e Walsch (1996), o
“contexto de busca e recuperação de informação”
ainda não foi adequadamente tratado do ponto de vista teórico-conceitual
(Wilson, 1981; Gaslikova, 1999;
Johnson, 2003; Freud e Toms, 2005). Alguns
autores, a exemplo de Dervin (apud Cool e Spink, 2002), têm se revelado
muito mais severos nesse julgamento .
Ainda de acordo com aquele autor, mais recentemente, a orientação para o
usuário, introduzida nos estudos de Dervin e Nilan (1986),
Kuhlthau (1993) e
Belkin (1982) vem ensejando a emergência da tarefa como variável
relevante para o estudo das necessidades de informação e dos processos de
busca de informação (Mick,1980).
Desta forma, as atividades
informacionais são colocadas em um contexto específico e com propósito claro
(Byström,1999). No entanto, ainda são poucos os estudos que analisam
empiricamente como os processos de busca estão associados as muitas e
diversas características das tarefas (Allen, 1978;
Byström,e Jäverlin, 1995;
Kuhlthau, 1993). Por outro lado, é crescente a aceitação da relação
existente entre necessidades e processo de busca de informação e o
desempenho da tarefa (Jäverlin e Ingwersen, 2004).
Uma tarefa deve ser entendida como uma atividade a ser desempenhada para se
atingir um determinado objetivo (Vakkari, 2003). Nessa linha, cada tarefa
tem um início claramente definido que comporta estímulos e orientações a
respeito dos objetivos a serem alcançados e, por vezes, sobre as
providências a serem tomadas para a consecução desses objetivos (Jäverlin
e Wilson, 2003). Vista sob esse ângulo, a tarefa se constitui tanto uma
construção abstrata quanto um conjunto concreto de ações a serem
implementadas: trata-se, nas palavras de Bystrom e Hansen (2005), de uma
“descrição da tarefa”.
Uma tarefa pode ser analisada considerando-se diferentes níveis de
composição. Redigir um relatório, por exemplo, pode ser visto como uma
tarefa independente ou como parte integrante de uma tarefa maior, por
exemplo, o cumprimento de um contrato de prestação de serviço. O desempenho
das tarefas de maior complexidade irá exigir do sujeito sua decomposição em
sub-tarefas (von Hippel, 1990). A busca de informação, por exemplo, pode se
constituir uma sub-tarefa de uma tarefa de maior complexidade. A definição
do que deve ser considerado tarefa ou sub-tarefa, evidentemente, irá
depender dos objetivos específicos de cada estudo ou pesquisa.
Frente a essas dificuldades, Byström,e
Jäverlin (1995) preferiram fazer uso
de uma categorização de tarefas baseada em uma graduação da
pré-determinabilidade (i) da informação necessária, (ii) do processo e (iii)
do resultado. As categorias são descritas a seguir:
a) tarefas de processamento automático da informação: completamente determináveis a priori, podendo ser automatizadas (por exemplo: cálculo do salário líquido de um funcionário);
b) tarefas de processamento normal de informação: quase completamente determináveis a priori, mas que exigem algum arbitramento em seu processo (por exemplo: classificação de um produto para fins de exportação);
c) tarefas normais de decisão: tarefas razoavelmente estruturadas mas que exigem um grau de arbitrarem maior (por exemplo: avaliação de um aluno);
d) tarefas genuínas de decisão, mas de resultado conhecido : o resultado é conhecido a priori, mas o processo ainda não é determinado e, em decorrência, as informações necessárias não são pré-definidas (por exemplo: planejamento de médio prazo de uma empresa);
e) tarefas genuínas de decisão: tarefas novas e não-estruturadas nas quais nem o resultado, nem o processo e nem as informações necessárias são pré-determinadas (por exemplo: processos de inovação radical).
Importante ressaltar-se que a categorização da tarefa deve ser feita sempre
tendo em vista a percepção de quem a executa.
O tipo de informação necessária para o desempenho de uma tarefa varia tanto
em função da complexidade da tarefa (Vakkari, 2003) quanto do estágio de
execução em que se encontra o responsável (Byström,e
Jäverlin, 1995;
Kuhlthau, 1993; Ellis e Haugan, 1997).
Byström e Hansen (2005) sugerem que a tarefa profissional (work task) seja
constituída de três partes principais:
• etapa de construção da tarefa, que compreende as pré-condições e os objetivos associados à tarefa;
• etapa de desempenho da tarefa, que consiste nas ações conceituais e práticas assumidas com vistas à consecução dos objetivos da tarefa;
• etapa de conclusão da tarefa.
Considerando-se o comportamento de busca de informação, a etapa de
construção da tarefa, segundo os autores, está associada à análise da
informação que será necessária. A etapa de desempenho da tarefa, por seu
turno, compreende todos os cursos de ação assumidos no sentido de se coletar
informação. Finalmente, na etapa de conclusão da tarefa, implica a avaliação
dos resultados da busca de informação.
Portanto, é considerando os aspectos relacionados à busca de informação, no
âmbito da ciência da informação, que se mostram complexos e tão dependentes
de uma discussão cognitiva, que se propõe a discussão desse tema sob o ponto
de vista da cognição situada. A seguir, são apresentados os aportes
conceituais da cognição situada e em seguida as relações dessa abordagem
cognitiva com a busca da informação, considerando-se o usuário, o contexto e
a tarefa.
A cognição situada
As abordagens cognitivas agrupadas sob a denominação “cognição situada” têm
como princípio epistemológico fundamental a existência do
organismo-em-seu-ambiente, ou seja, o organismo e seu ambiente são
compreendidos como unidades inseparáveis. E o processo de interação
organismo/ambiente ocorre continua e simultaneamente.
As abordagens tradicionais sobre a cognição consideram os seres vivos como
sistemas abertos, processadores de informações, que recebem entradas,
processam e geram saídas. Diferentemente dessa visão, Maturana & Varela
(2001), autores importantes no contexto da cognição situada, consideram os
seres vivos como um sistema fechado informacionalmente e determinado
estruturalmente, nos quais nada externo pode especificar as mudanças
estruturais pelas quais eles passam como conseqüência de uma interação.
Um
agente externo que interage com um sistema estruturalmente determinado, pode
somente desencadear mudanças estruturais, sendo estas determinadas pelo
próprio sistema. "Em um sistema estruturalmente determinado, há mudanças
estruturais que se produzem tanto através de suas interações quanto como
resultado de sua própria dinâmica estrutural, mas que estão sempre, e a cada
instante, determinadas por sua estrutura" (Maturama 1997: 85).
Como resultado do determinismo estrutural, um sistema, quando vivo, opera
sempre em congruência estrutural com o meio e existe, como tal, enquanto
essa congruência for observada. Existe entre o meio e o sistema uma
congruência necessária, denominada, por Maturama (1997), de acoplamento
estrutural. Ou seja, um organismo co-evolui em constante interação com o
meio, de maneira co-determinda, a evolução de um modula e é modulada pela
evolução do outro, constituindo um todo inseparável.
Enquanto existir essa congruência, meio e organismo atuarão como fontes de perturbações mútuas e desencadearão mutuamente mudanças de estado.
"A história de vida de todo
organismo é uma história de mudanças estruturais coerente com a história de
mudanças estruturais do meio em que ele existe, realizada através da
contínua e mútua seleção das respectivas mudanças estruturais" (Maturama
1997: 62).
A Cognição Situada evidencia que todo ato cognitivo é um ato experiencial,
portanto situado, resultante do acoplamento estrutural e da co-evolução
congruente do organismo-em-seu-ambiente. Como Clancey (1997: 344) afirma,
"ser situado envolve, no-momento, um acoplamento dentro da organização
interna (formando novas coordenações) e entre a organização interna e
externa (mudando as coisas no mundo)".
Varela, Thompson e Rosch (1991) argumentam que a cognição
não é a representação de um mundo pré-concebido, cujas características podem
ser especificadas antes de qualquer atividade cognitiva. Ao contrário, é
ação incorporada, «é a atuação de um mundo com base em uma história da
diversidade de ações desempenhadas por um ser no mundo» (Varela, Thompson e Rosch 1991: 9).
Uma vez que as mudanças resultantes de uma interação entre organismo e meio
somente podem ser desencadeadas pelo agente perturbador e não determinadas
por esse agente, mas pela dinâmica estrutural do sistema perturbado, não faz
sentido a idéia de informação como uma quantidade pré-especificada e que
pode agir como um input para o sistema cognitivo.
Na Cognição Situada, a informação é vista como possível perturbação da estrutura biológica do usuário que pode ser determinada ou não em função da sua própria estrutura e da sua história de interações com o meio. Segundo Magro (1999: 202):
"os seres vivos não mantêm interações instrutivas com o meio e que não há informação no ambiente capaz de instruí-los inequivocamente: em cada caso, a informação e o que é “relevante” dependem do instante estrutural do organismo do sujeito, que lhe permite tomar algum evento como tal, uma vez que os organismos são sensíveis a cada instante às perturbações do meio, de uma maneira que é determinada por sua estrutura".
Desta forma, nós, seres humanos, não “captamos informações” do meio, ao
contrário, construímos um mundo ao especificarmos quais configurações do
meio são perturbações e que mudanças estas desencadeiam em nosso organismo.
Para a Cognição Situada, o conhecimento não se limita ao processamento de
informações oriundas de um mundo anterior à experiência do observador, e sim
experienciado pelo ser vivo em suas interações no mundo.
Um observador, ao distinguir e descrever a interação organismo/meio, poderá
dizer que, se o organismo interage de forma congruente às situações do meio,
ele conhece. Nesse processo, não existe instrução no organismo, mas sim
congruência entre as mudanças estruturais de ambos, que um observador
descreve como conhecimento.
O conhecer não é, então, um processo de
acumulação de representações do ambiente, mas relaciona-se às mudanças
estruturais que ocorrem no organismo de maneira contingente com sua história
de interações no meio. Como reinvidica Clancey (1997), o conhecimento é uma
“capacidade-em-ação”.
De forma semelhante, Maturana (1997: 23) afirma que o conhecimento é ação
efetiva - ação que permite um ser vivo continuar sua existência no mundo que
ele mesmo traz à tona ao conhecê-lo – e conduta adequada num meio relacional
no qual cada ato é um ato cognitivo. Segundo esse autor, «conhecer é viver,
viver é conhecer».
Concordando com o ponto de vista desses autores, Varela, Thompson e Rosch
(1991) afirmam que todo conhecimento é resultado de uma interpretação
contínua que emerge de nossas capacidades de compreensão, enraizadas nas
estruturas de nossa incorporação biológica e experienciadas em um domínio de
ação consensual.
Maturana & Varela,(2001) destacam ainda que toda a reflexão, inclusive a que
se faz sobre os fundamentos do conhecer humano, ocorre necessariamente na
linguagem. Estamos na linguagem, movendo-nos nela, ela é a nossa maneira
particular de sermos humanos. «Existimos em nosso funcionamento na
linguagem, e conservamos nossa adaptação no domínio de significados que isso
faz surgir. Fazemos descrições das descrições que fazemos. Somos
observadores e existimos num domínio semântico criado pelo nosso modo
lingüístico de operar» (Maturana & Varela, 2001: 233).
Para esses autores, a linguagem não é um sistema de signos e regras
utilizado para a comunicação, ela ocorre somente no fluir de coordenações de
conduta consensuais recursivas ou coordenações de coordenações de ação,
entre organismos. Assim, tudo o que nós fazemos, fazemos na linguagem,
guiados pelas nossas emoções. "Percebemo-nos num mútuo acoplamento
lingüístico, não porque a linguagem nos permita dizer o que somos, mas
porque somos na linguagem, num contínuo ser nos mundos lingüísticos e
semânticos que geramos com os outros" (Maturana & Varela, 2001: 257).
As emoções são disposições corporais dinâmicas que especificam, a cada
momento, os domínios de ação nos quais nos movemos. Não há ação humana sem
uma emoção que a estabeleça como tal e a torne possível como ação. Como
afirma Maturana (1998: 92), "nada nos ocorre, nada fazemos que não esteja
definido como uma ação de um certo tipo por uma emoção que a torna
possível".
O viver humano se dá, então, em um contínuo entrelaçamento de linguagem e
emoções. Nossas ações, na linguagem, mudam ao mudarem nossas emoções, e
nossas emoções mudam ao mudarem nossas coordenações de ações na linguagem.
Cognição situada e busca da informação
Os princípios das abordagens cognitivas contemporâneas que são agrupadas sob
a denominação “cognição situada” ainda são pouco conhecidos e utilizados no
âmbito da ciência da informação.
As questões que as abordagens contemporâneas apresentam, no que se refere
aos conceitos de informação, conhecimento, linguagem e emoção, mostram
possibilidades de estudos mais avançados sobre o comportamento de usuários
da informação em domínios diversos. A partir desses conceitos, é possível se
observar usuários com mais clareza e com mais amplitude, considerando
aspectos relativos ao contexto, a comportamentos específicos e às suas
respectivas ações no meio. Esses contextos podem ser organizações de
qualquer natureza, grupos sociais, atividades a que os usuários estejam
ligados, tais como leitura, pesquisa ou gestão. (Borges, 2002,
Borges, 2004)
Do ponto de vista da cognição situada, os usuários da informação são seres
humanos individuais e sociais, que vivem uma deriva de experiências
individuais e intransferíveis, ao mesmo tempo em que vivem em contínua
interação com outros sujeitos, no meio. Nesse viver cotidiano, os usuários
de informação vivem em domínios de ação (empresa, família, lazer, amigos,
etc), fazendo parte de diferentes de redes de relações e interações.
Cada
domínio de ação pelos quais transitam possibilita aos sujeitos estabelecerem
redes de relações e interações que, embora distintas, influenciam as suas
condutas no meio, a sua linguagem e as suas pré-disposições em aceitarem ou
não determinada informação.
Nas abordagens apresentadas sobre a busca de informação, ligadas à ciência
da informação, esses domínios de ação são os diversos contextos nos quais o
comportamento informacional dos usuários deve ser estudado.
Entretanto, ainda que os usuários da informação experienciem relações e
interações sociais, eles vivem, ao mesmo tempo, experiências individuais.
Isso significa que mesmo participando de domínios de ação que influenciem o
seu comportamento, há condutas que são exclusivas de cada sujeito que devem
também ser consideradas. Essas condutas específicas têm uma relação
intrínseca com a história individual de cada usuário ao longo de sua
existência, sobretudo com suas crenças.
E, além disso, as diversas tarefas que esses usuários executam em cada um
dos domínios de ação pelos quais transitam também devem ser analisadas.
Através da identificação e observação das tarefas é que se observam as
experiências e evidencia-se a característica cognitiva “situada”. Desta
forma, formam-se as relações entre sujeito, contexto e tarefa do ponto de
vista cognitivo situado, o que é bastante oportuno para a ciência da
informação.
Além disso, essa abordagem cognitiva considera as mesmas relações
apresentadas por estudiosos da ciência da informação sobre busca de
informação: sujeito, tarefa, contexto, aspectos afetivos e ações
empreendidas. Há que se destacar duas pesquisas recentemente publicadas
sobre o tema.
A pesquisa de Venâncio (2007) estuda a busca de informação e
tomada de decisão em uma dada situação ocorrida em uma organização de
pequeno porte e analisa os impactos emocionais e relacionais do fato. A
pesquisa de Henrique (2006) estuda a busca de informação ligada a contextos
de inovação em três empresas de médio porte. Apesar deste trabalho não ter
sido desenvolvido sob o ponto de vista da cognição situada, discute questões
conceituais e empíricas que tem uma relação intrínseca com os aspectos
apresentados neste artigo, no que se refere a busca de informação e relações
com o contexto e com a tarefa.
Considerações finais
A perspectiva cognitiva contemporânea oferece a possibilidade de
considerarmos não somente os aspectos que são levados em conta pelos estudos
de usuários, que têm subjacentes os princípios cognitivos tradicionais, mas
outras questões também importantes e provavelmente mais difíceis de serem
observadas.
Torna-se cada vez mais importante considerar as condutas dos sujeitos no
domínio de ação, ou contexto (escola, trabalho,família), ou ainda, situação
específica em que estão sendo observados; os contatos que estabelecem no
cotidiano e como e porque eles ocorrem; as pré-disposições e interesses
relacionados ao domínio de ação no qual estão sendo observados (assuntos
relacionados, publicações específicas, etc) e a pré-disposição emocional e
afetiva, desses usuários nos domínios de ação que determinam o grau de
interação sujeito-meio.
É, então, cada vez mais importante e necessário se pensar os comportamentos
informacionais – busca e até uso da informação - de um ponto de vista que
nos possibilite analisar as condutas dos usuários de informação em uma dada
situação, carregadas de história, de experiências e crenças.
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human experience. Cambridge: MIT Press, 1991.
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Sobre o autor / About the Author:
Professora da Escola de Ciência da Informação da UFMG.
Coordenadora do Grupo de Pesquisa em Estudos Cognitivos em
Ciência da Informação.
Ludmila Salomão Venâncio
Mestre em Ciência da Informação pela Escola de Ciência da Informação da UFMG.
Luiz Cláudio Junqueira Henrique
Doutor em Ciência da Informação pela Escola de Ciência da Informação da UFMG, graduado em Psicologia.