Resumo: Para dar visibilidade à produção cientifica cinzenta gerada em instituições de pesquisa e mais especificamente os relatórios de pesquisa, como componentes dessa literatura, este estudo procura analisar o papel e importância dos relatórios de pesquisa para investigadores que trabalham nessas instituições, através de um estudo de caso na unidade ICICT da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) focalizando assuntos relacionados à produção desses documentos, a sua representação e recuperação. Os resultados do estudo denotam que o acesso a esses documentos constitui um desafio permanente e que os mesmos possuem relevada importância como registro da memória da instituição. Os relatórios em sua maioria contém informação detalhada sobre resultados e procedimentos metodológicos e como tal constituem uma fonte inestimável de informação para a comunidade científica, até mesmo se não formalmente publicados .
Palavras-chave:
Literatura cinzenta; Armazenamento e recuperação da informação;
Disseminação da informação; Comunicação científica; Relatório de Pesquisa.
Abstract:
The visibility to the grey production generated in research
institutions more specifically the research reports as component of that
literature looked for this study to understand the paper and importance of
the research reports for investigators that work in those institutions,
through case study in the unit ICICT
of the Oswald Cruz Foundation (FIOCRUZ),
focusing subjects related to the production of those documents, the
representation and recovery. The results of the study denote that the access
these documents represent a permanent challenge and that the same ones
possess emphasized importance as registration of the memory of the
institution. Most of the reports enclose detailed information on results and
methodological procedures and as such it constitutes a priceless source of
information for the scientific community, even if no formally published.
Keywords:
Grey literature; Information storage and retrieval; Information
dissemination; Scientific Communication; Research Report.
Introdução
A ‘literatura cinzenta’ tem sido diferenciada das outras expressões da literatura científica, com as quais partilha a marca da inscrição documentária, em duas dimensões específicas: em relação às formas e possibilidades de distribuição e aos procedimentos de avaliação e controle da produção científica, o que tem resultado ate hoje em sua inclusão limitada nas ‘memórias indexadas’ da ciência (Bowker, 2005).
Essa situação estaria hoje passando por mudanças, entre as quais estaria a
compreensão processual do conhecimento cientifico, conforme a qual todos os
momentos, instrumentos e produtos são igualmente decisivos na aplicação,
transferência ou replica desses conhecimentos. Nesse quadro, artigos
científicos, tese, relatórios ou outras manifestações da dita literatura
cinzenta, possuiriam uma qualidade e valor diferencial, a serem apreciados e
estimados nessa especificidade.
A importância dos relatórios de pesquisa, considerados parte da ‘literatura
cinzenta’, é ressaltada assim por diferentes autores por seus aportes em
processos de transferência tecnológica, já que seu conteúdo é mais detalhado
e mais explícito na documentação de procedimentos do que o encontrado em
outras formas de publicação.
Neste sentido, aferir o papel e lugar dos relatórios no desenvolvimento e
aplicação dos conhecimentos científicos, atende as demandas de estímulo à
pesquisa e à inovação tecnológica em instituições de pesquisa, presentes em
seus relatórios de atividades e nos Programas de Pesquisa e Desenvolvimento
Tecnológico da Instituição.Nesse contexto a
Fundação Oswaldo Cruz
(FIOCRUZ) como produtora e
divulgadora de informação e comunicação em Saúde tem realizado esforços
significativos para participar na elaboração das políticas de saúde, e de
ciência e tecnologia em saúde, no país.
É interessante considerar nesse contexto que as estratégias de enunciação e
registro do conhecimento científico assim como as estratégias institucionais
de sua avaliação, certificação e disseminação, participam substancialmente
no desempenho de metas institucionais de pesquisa e desenvolvimento.
Mesmo que se tenha consciência de que a memória eletrônica esteja
sedimentada nos sistemas de informação e da existência de múltiplos sistemas
nas instituições de pesquisa em geral, os relatórios de pesquisa, ainda
permanecem sem tratamento técnico adequado e são praticamente inacessíveis
ainda dentro dos ciclos comunicacionais internos da pesquisa institucional.
Neste caso, o fato dos pesquisadores terem bastante autonomia para
estabelecer vínculos com financiadores externos da pesquisa, independente de
sua vinculação com a instituição, dificulta o controle e acessibilidade
desse tipo de documento.
As organizações e profissionais mediadores do processo comunicacional da
ciência e da tecnologia, terão que assumir um papel principal e propositivo
na elaboração e implementação de políticas e instrumentos que facilitem o
controle e acesso à literatura cinzenta que hoje parece caracterizar um
modelo generalizado do que possa ser as ‘inscrições documentárias’ das
praticas cientificas atuais, suas configurações em redes e comunidade
virtuais.
A principal motivação do trabalho é contribuir para dar visibilidade
institucional a esse segmento da produção científica, através do controle
documentário, enfatizando a importância de delinear orientações
metodológicas para representação e recuperação dos relatórios de pesquisa.
Os pontos de partida: a comunicação em ciência
A comunicação científica
deve considerar-se parte constitutiva e
constituinte de um campo cientifico, imprescindível para o reconhecimento e
legitimação da validade, pertinência e relevância de uma pesquisa e de seus
resultados. Essa comunicação se dá, dentre outras formas, através de
registros e publicações que em conjunto constituem a literatura científica.
Para Solla Price (1976:2), a literatura - como manifestação exteriorizada do
conhecimento cientifico, e como tal, mensurável - podia ser objetivada,
representada e analisada com procedimentos metodológicos quantitativos.
Essa mensuração, com o devido tratamento estatístico, possibilitava a reconstrução expressiva de algumas características da produção científica, dos pesquisadores e instituições produtoras, permitindo sua representação em séries numéricas, gráficos e figuras, assim como a posterior analise de tendências e as leituras generalizantes e comparativas, em diversas escalas.
As leituras de macro-tendências se justificam pela expansão da atividade
científica, de seus produtos e das dimensões de seus empreendimentos, assim
como por sua crescente imersão nas redes institucionais do Estado, da
sociedade em geral e da economia. Não se deve esquecer, porém, que muitas
novas hipóteses, teorias e descobertas científicas partem de iniciativas
singulares e empreendimento em pequena escala.
[A
Pequena Ciência está] escondida em um canto de alguma academia, a Grande
Ciência contém, provavelmente, contribuições de pioneiros anônimos, cujas
linhas de pesquisa serão de interesse decisivo (Solla Price, 1976:2).
Como exemplo, citamos o caso de
Carlos Chagas que, de forma solitária,
encontrou o protozoário Trypanosoma cruzi, originador da doença
denominada, posteriormente, Doença de Chagas. Com o cientista, se consolida:
[...] praticamente, o ciclo da descoberta no qual foi conhecido primeiro, o vetor, em seguida o protozoário, o agente causador da doença, os seus depositários domésticos e, por fim um caso humano – tudo por um só pesquisador (Chagas Filho, 1993:84).
Os conhecimentos científicos seriam assim o resultante, às vezes, de heurísticas informacionais singularizadas na história biográfica de um pesquisador, ainda quando eles estejam rodeados de pares num laboratório; e outras, de informações construídas e compartilhadas em comunidades argumentativas – ainda que às vezes compostas por indivíduos distantes entre sim, interligados por arquivos científicos, e-mails, cartas, artigos de periódicos científicos.
Das diversas formas de comunicação, nos limites desta pesquisa, e para
enfatizar o interesse pela literatura cinzenta, trabalhou-se com os
relatórios de pesquisa, como um dos instrumentos mediadores entre a
comunicação científica formal e informal, assim como entre a comunicação
entre cientistas e dos cientistas com outros atores e demandas sociais.
A comunicação científica – aquela que acontece entre cientistas e na
atividade de pesquisa - pode-se considerar que se inicia antes de
constituir-se propriamente um programa ou projeto de pesquisa enquanto tal,
ou em sua fase inicial de desenvolvimento. Nesse contexto, denominamos
“comunicação informal” a comunicação direta e sincrônica entre
interlocutores que partilham, de alguma forma, um tempo e um espaço de
experiência.
A “comunicação formal” seria aquela que utiliza meios e processos de
inscrição documentária. Em termos de comunicação científica, implica, além
da escrita e do registro, a adequação dos textos a um conjunto de regras de
produção e a passagem por processos seletivos de avaliação e publicação,
onde se inserem os periódicos científicos.
Na história da ciência moderna, a comunicação entre os cientistas foi
primeiramente formalizada pelas cartas, para tornar-se a seguir mais extensa
e mais complexa, graças ao processo de impressão de livros e, já no século
XVII, de periódicos científicos. Todos estes temas têm sido abordados a
partir de diferentes pontos de vista nos estudos da Ciência e da Ciência da
Informação, e agora são retomados e reformulados no contexto das novas
tecnologias.
A passagem da comunicação informal para os canais formais, geraria novos
problemas de identificação e localização de fontes de informações relevantes
e pertinentes.
Estava claro, mesmo antes, por volta do fim do século XIX, que os
pesquisadores careciam de mais assistência para identificar, na massa de
toda a literatura disponível, o material de que precisavam. Parte do
problema era a falta de normalização bibliográfica na elaboração dos relatos
de pesquisa (e a correspondente omissão de dados relevantes) (Meadows,
1999:30).
Hoje, associado às formas modernas de publicação, ainda que nem sempre
apreciada em toda sua potência, se deve considerar que a rede
institucionalizada de gestão e controle da informação científica tem um
caráter constitutivo na produção e comunicação dos conhecimentos e na
formação de memórias científicas.
Pode-se dizer, assim, que questões referentes ao sistema de editoração e
circulação dos registros do conhecimento cientifico e questões epistêmicas
acerca da legitimação e avaliação do conhecimento cientifico - gerando
ciclos ‘autorizados’ de circulação de temas e documentos em áreas
específicas de geração e recepção - terão um lócus comum de equacionamento e
elucidação que são os processos de gestão e representação da informação.
Bases de dados bibliográficas, leituras quantitativas e mapeamentos temáticos da produção científica, dão visibilidade às áreas do conhecimento conforme o escopo e abrangência de instituições, países, épocas, que contribuem na definição do caráter público, intra ou trans-institucional, dos produtos do conhecimento e facilitam a ampliação regulada de sua disseminação. Atividades e saberes que tem essas finalidades reúnem-se sob a denominação de Organização do Conhecimento.
Essas práticas institucionalizadas de organização dos registros do
conhecimento têm dupla influência sobre as configurações modernas das áreas
científicas, por um lado, ‘condensando’ e ampliando a comunicação seletiva
dos conhecimentos científicos, visando a recuperação de informações; por
outro, fornecendo elementos para a avaliação e o monitoramento da produção
científica, como parte importantíssima dos ciclos de legitimação e
certificação desses conhecimentos.
Nesse contexto se deve tratar de entender o papel e as potencialidades da
chamada ‘literatura cinzenta’. Ela sem dúvida ilustra muito bem dois
movimentos da maior importância na comunicação científica; um desses
movimentos, já mencionado, que é o movimento orientado a construção da
credibilidade (procedimentos de legitimação e certificação); outro, que
denominou-se movimento de translação, acompanhando
Bruno Latour.
Na verdade, em qualquer que seja o meio em que se publica, o cientista está,
de certa forma, buscando a credibilidade do conhecimento que ele construiu
ou está construindo. Isso se dá através do processo avaliativo dos seus
pares, dos comitês editoriais e das agências para obtenção de financiamento,
daí resultando caminhos para a construção do conhecimento científico.
Dada a existência de compromissos assumidos seja com os financiadores da
pesquisa, seja com as instituições com as quais mantém seu vínculo
principal, é difícil estabelecer a distinção entre os interesses próprios e
externos. Segundo Bourdieu (1983:131), existe a dependência do pesquisador
da reputação que ele tenha adquirido junto aos colegas, para conseguir
dentre outras subvenções, os recursos para a pesquisa. Sendo assim, o
reconhecimento se torna uma condição essencial para que os processos de
produção e os produtos científicos sejam consagrados por meio de um valor
que os singularize com relação aos demais, respaldados pela originalidade e
pelo conhecimento científico acumulado.
Refletindo sobre o papel e construção do “círculo de legitimidade” ampliamos
o estudo através de
Bruno Latour que envolve, de maneira explícita, a informação
no processo de produção científica. Para
Bruno Latour, a informação estabelece uma
relação entre dois lugares: um de quem conhece e o outro de quem quer
conhecer. Existem espaços, onde são alocados às inscrições do conhecimento
em quaisquer meios, que podem ser denominados de bibliotecas, museus,
laboratórios, etc.
Neles ocorrem a acumulação, representação e recuperação do conhecimento. Para Bruno Latour, é nesses espaços em que se dá a intermediação onde se fabrica “não só o corpo, mas, também a alma do conhecimento " (Latour, 2000:21)”. Segundo Latour (2000:26), não deveria ser conferido ao conhecimento do especialista um estatuto de superioridade com relação a outras formas de saber; o entendimento de um mesmo objeto não se dá de forma superior, mas, sob diferentes maneiras de entender.
A comparação de todas as aves do mundo sinoticamente visíveis e
sincronicamente reunidas lhe dá uma enorme vantagem sobre quem só pode ter
acesso a algumas aves vivas. A redução de cada pássaro se paga com uma
formidável amplificação de todos os pássaros do mundo (Latour, 2000:26).
O mesmo significado deve ser atribuído aos registros do processo de
construção da pesquisa, que retrata os caminhos percorridos e que em sua
singularidade amplia o universo de outros processos.
As inscrições documentárias amparam e de certa forma comprovam o que foi
experimentado e executado e está sendo falado ou demonstrado. Latour (2000)
mostra que, sem a rede de transformações, deslocamentos, traduções,
destaques, que vai, transversalmente, do texto às práticas de pesquisa e
seus instrumentos, nem a pesquisa poderia existir nem o pesquisador poderia
conhecer.
A compatibilidade do registro da informação na produção das inscrições
resultará da existência de uma metodologia, que buscará a padronização da
representação do documento que contém registros plausíveis de comprovar
aquilo que se pesquisou.Para
Bruno Latour, a informação designaria o momento de fixação e inscrição de um
conhecimento, que por meio dessa objetivação, que ele denomina “móvel
imutável”, ganha também “mobilidade” nos espaços comunicativos, permite sua
“translação”. Sendo que a Ciência da Informação tende a considerar a
informação científica e tecnológica em seus aspectos semânticos e
referenciais e no contexto da comunicação do conhecimento, seu uso de
informação seria próximo a aquele de “translação”.
Segundo Latour (2001:206) os cientistas estabelecem estratégias que são
utilizadas na operação de translação, palavra que:
[...] não significa passagem de um vocabulário a outro, de uma palavra francesa a uma palavra inglesa. [mas, indica] deslocamento, tendência, invenção, mediação, criação de um vínculo que não existia e que, até certo ponto, modifica os dois originais (Latour, 2001:206).
Isto nos remete a uma reflexão sobre a produção dos relatórios e o papel que
eles exercem na produção científica como um instrumento de translação no
campo científico, ampliado por suas redes de relações com outros campos ou
domínios de atividade, que podem ser tanto campos fenomênicos de construção
do objeto cientifico como campos sociais de demanda e destinação dos
conhecimentos.
A literatura cinzenta e os relatórios
Alguns conceitos sobre a literatura cinzenta foram identificados e descritos
a seguir. O primeiro conceito o da III Conferência Internacional sobre
Literatura Cinzenta, realizada em Luxemburgo, em 1997, ficando a literatura
cinzenta assim definida:
“[...] aquela que é produzida em todos os níveis de governo, academias, negócios e indústrias em formato impresso ou eletrônico, mas que não é controlada pelos editores comerciais (Carvalho, 2001:2)”.
A literatura cinzenta, não se distingue, exclusivamente, pela forma de seu
conteúdo e de sua disseminação. Essa literatura, destacando nela os
relatórios, apresenta uma estrutura que pode favorecer o aumento da
aplicação social da pesquisa, e não servir apenas como prestação de contas
para as agências financiadoras.
Segundo Luzi (2000:111), antes da III Conferência Internacional sobre
Literatura Cinzenta não havia um consenso sobre a definição da literatura
cinzenta. Alguns autores associam o conceito de informação cinzenta a “[...]
informações, dados e pacotes de informação acessíveis pelos meios de
comunicação eletrônica (Luzi 2000:111)”.
Utilizou-se o conceito acima para distinguir a tradicional literatura
cinzenta, da apresentada nesse novo formato, que poderá oferecer facilidade
de acesso e recuperação da informação. Outros estudos, presentes em todas as
conferências, buscaram identificar as formas de transferir as inovações
tecnológicas, analisando o comportamento dos cientistas e o uso das fontes
de informação cinzenta, e também o método utilizado para ler os relatórios.
Segundo Almeida (2000) apresentou-se uma sucessão de definições a respeito
da literatura cinzenta formuladas a partir de diferentes aspectos
[...] como aquela que por assunto e método pode formar parte da literatura
científica e que, pela intenção de seus autores ou modos de distribuição, se
fornece inicialmente só a um público científico restrito e, inclusive, a
grupos fechados, opondo-se a uma distribuição ulterior a outras pessoas
interessadas, sem que haja para ele nenhuma razão pessoal ou jurídica (Artus
apud Almeida, 2000:35).
No Brasil, segundo Población (1992:244), os documentos da área da saúde
considerados cinzentos, começaram a serem incluídos a partir de 1982 na base
de dados LILACS da Bireme. A autora afirma que:
“[...] a base de dados Lilacs, [...] após 10 anos de criação (1982-1992), está incluindo 14% da
literatura não convencional coletada pela Rede Latino-Americana (Población,
1992:244)”.
Existem outras iniciativas, no Brasil, com relação ao estabelecimento de
bases de dados de literatura cinzenta. Entre elas, destaca-se, em Brasília,
a base do Instituto Brasileiro de Informação Científica e Tecnológica (IBICT),
que tem como missão o desenvolvimento do setor de informação, estabelecendo
a Rede ANTARES, que identifica, opera e oferece acesso às bases de dados; o
Programa COMUT, que oferece serviços de comutação; e as bases de Teses e
Dissertações.
No Rio de Janeiro, destaca-se o
Centro de Informação Nuclear da
Superintendência de Informática da Comissão Nacional de Energia Nuclear -
(CIN/CNEN)
por oferece diversos serviços e acessos a bases de dados no campo da energia
nuclear e áreas correlatas, possuindo, nestas bases, volume significativo de
literatura cinzenta.
Cabe destacar, também, o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Leopoldo
Miguez de Mello, da Petrobrás (CENPES), criado, em 1955, para atuar na área
de Engenharia de Perfuração. Este centro mantém, entre outros documentos, a
sua coleção cinzenta, contendo relatórios técnicos, teses, traduções e vídeo
cassetes, apresentando um “crescimento anual de 15%, em sua maioria, de
documentos cinzentos (Petróleo Brasileiro S/A apud Almeida, 2000:132)”.
Os relatórios como componente desse tipo de literatura
Para que fique clara a diferença entre os relatórios de pesquisa e os demais
documentos próprios da comunicação científica, descreveram-se a seguir
alguns de seus conceitos. Segundo publicação da Universidade Federal do
Paraná - UFPR (2000:1), o relatório de pesquisa ou relatório
técnico-científico é o documento que relata, de maneira formal, os
resultados obtidos em pesquisas e/ou que descreve uma questão técnica ou
científica de um projeto de pesquisa.
Esse tipo de relatório pode ser conceituado também como:
[...] documento expositivo que apresenta em condições formais os resultados ou progressos alcançados em uma investigação ou estudo, com conclusões e fazendo recomendações, que é submetida inicialmente a uma pessoa ou a uma comissão para quem o trabalho foi desenvolvido (Auger, 1994:50).
Outro conceito de relatório nos é apresentado por Cunha:
[...] é o tipo de documento que apresenta os resultados de projetos técnico-científicos, bem como de testes efetuados para comprovação e avaliação. Os relatórios técnicos geralmente são preparados em linguagem concisa e se concentram no conteúdo permitindo, assim, que o leitor possa acompanhar o processo e fazer desenvolvimentos a partir dessa leitura (Cunha, 2001:30).
O relatório de pesquisa é valorizado por estabelecer elos não só entre a comunicação formal e informal e entre pares, mas também por agir como objeto relacional em alianças entre instituições, com diferentes setores do Estado, da economia, da sociedade e instituições cooperativas de nível internacional e intergovernamental. Portanto, seu valor mais relevante está na possibilidade de extensão da informação.
No Brasil, segundo Almeida (2000:111), os relatórios, além de serem vistos
como parte da literatura cinzenta, são, freqüentemente, nomeados na área da
Biblioteconomia como ‘Memória Técnica, Memória Institucional, Memória
Documental ou Arquivo Técnico Central’.
As comunicações apresentadas no preâmbulo da pesquisa se dão sob a forma de
relatórios, que podem acontecer no decorrer do processo de pesquisa e após a
sua conclusão como relatório final produzido de acordo com as exigências dos
mantenedores e cumprido na busca do reconhecimento diferenciado do
reconhecimento que se busca da comunidade científica, mas como validação
para outros tipos de disponibilização de recursos para outros fins.
Mesmo onde a informação pode ser totalmente liberada, nem todos os projetos
de pesquisa são publicados em outro formato. Relatórios que têm vida própria
parecem ser mais comuns nas ciências sociais e na tecnologia do que nas
ciências. Muitos relatórios constituem publicações esporádicas, porém os
centros e institutos de pesquisa às vezes produzem uma série destinada a
pesquisas. Neste caso, há maior probabilidade de que não serão utilizadas
formas adicionais de publicação. Não é somente o conteúdo que sofre mudança
durante a transmutação de um relatório em artigo de periódico. Um estudo
constatou que quase um quarto dos artigos subseqüentes possuía autores
diferentes dos autores do relatório, e uma proporção igual tinha títulos
totalmente diferentes (Meadows, 1999).
Ainda que o conteúdo dos relatórios viesse a ser transformado em artigos,
não cobriria na íntegra o conteúdo dos relatórios e devido tanto ao seu
caráter cada vez mais interdisciplinar e ao crescente volume dos resultados
produzidos seria difícil também dar vazão através da publicação formal.
Para Población (1992:244), os relatórios predominam em volume dentre os
documentos considerados cinzentos que tem seu acesso restrito em função da
confidencialidade, por vezes existentes, da exigência da propriedade
intelectual e empresarial e da sua distribuição limitada. Esses fatores
dificultam a coleta e a representação desses documentos nas bases de dados.
Por serem limitados os conhecimentos sobre os relatórios de pesquisa na
literatura brasileira e pela necessidade de se obter informações básicas
sobre eles, buscaram-se o entendimento de seu papel e importância nos
processos de desenvolvimento, aplicação e réplica das pesquisas.
Para entender o papel e importância dos relatórios: o estudo de caso
A FIOCRUZ, segundo dados registrados em levantamentos históricos, sempre
foi, desde o seu início como Instituto Soroterápico Federal em 1900 e depois
como Instituto Oswaldo Cruz (IOC), uma instituição inovadora no seu modo de
fazer ciência, sempre tendo como objeto, na área das Ciências Biomédicas, a
busca de soluções para as questões da população.
A FIOCRUZ tem, hoje, como missão: “[...] gerar, absorver e difundir
conhecimento científico e tecnológico em saúde, [...] com a finalidade de
proporcionar apoio estratégico ao Sistema Único de Saúde (Fiocruz, 2002:2)”.
A disponibilização e uso dos seus relatórios de projetos de pesquisa, onde
estão descritas, em detalhes, as experiências realizadas nesses processos,
visando ao intercâmbio dessas informações entre os pares e para outros
ambientes de pesquisa, estão inseridos na missão Institucional.Para tal, utilizou-se três estratégias de pesquisa:
a) reconstrução do ciclo de geração e uso dos relatórios no ICICT, através de entrevistas e consultas documentárias;
b) a analise estrutural do relatório como parte da literatura científica;
c) o levantamento de Bases de dados de Relatórios técnicos e
científicos e a realização de buscas simuladas.
a) a experiência do ICICT.
O ICICT, criado em 1992, como unidade técnica de apoio da
FIOCRUZ que, no
escopo da missão da FIOCRUZ, procede à execução de: “[...] ações de
Informação e Comunicação no campo da Ciência e Tecnologia em Saúde, visando
identificar e atender às demandas sociais, do SUS e de outros órgãos
governamentais (CICT, 2003:6)”.
No tocante à sua missão, o ICICT deve atuar de forma relevante nas
atividades de informação e comunicação, contribuindo para o fortalecimento
da instituição nesse setor, tendo, portanto, na representação dos projetos
de pesquisa desenvolvidos na Unidade, uma das formas importantes de difusão
do conhecimento. Nesse contexto realizou-se o principal trabalho de campo.Em primeiro lugar, considerou-se que os pesquisadores do
ICICT que executam
projetos de pesquisa e, conseqüentemente, produzem literatura cinzenta,
constitui-se o universo da pesquisa. Definiram-se a seguir os critérios para
obter uma amostra intencional, Thiollent (2004:62), afirma que, na pesquisa
qualitativa, entende-se por amostra intencional, aquela que é constituída a
partir da seleção de sujeitos que, por sua experiência, conhecimento,
atividades, são representativos das situações, processos, ações que
constituem o domínio de indagações.
Selecionaram-se grupos de pesquisa da Unidade, registrados e credenciados
pela FIOCRUZ e constantes na
Plataforma Lattes do CNPq. Dentre eles,
estabeleceu-se que, como mínimo desejável, a amostra incluísse ao menos um
pesquisador, representando cada uma das diferentes agências que patrocinam
os projetos e grupos de pesquisa. No caso de haver um pesquisador presente
em projetos de mais de uma agência, agregou-se mais um ou dois outros
pesquisadores do mesmo grupo.
Tendo como objetivos proporcionar visibilidade aos conteúdos informaionais,
ao papel e à circulação dos relatórios na Unidade, seguiu-se a seguinte
estratégia metodológica:
- Levantamento dos relatórios de pesquisa em execução no ICICT, com base no diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq;
- Análise dos relatórios elaborados no ICICT;
- Mapeamento dos parâmetros dos formatos e categorias dos documentos cinzentos disponíveis em bases de dados significativas.
As informações assim obtidas permitem uma primeira descrição da geração e
uso dos relatórios.A Unidade ICICT possui três grupos de pesquisa registrados no CNPq aos quais
estão vinculados os 14 pesquisadores que possuem projetos de pesquisa no
período de 2003 a 2004 com agências de fomento externos e oriundos dos
Programas da FIOCRUZ.
A análise das respostas dos entrevistados foi construída a partir da
estrutura do roteiro da entrevista, organizando-se as respostas em blocos.
O primeiro bloco reúne perguntas sobre a produção de relatórios; as
condições de produção e os itens importantes dessa produção. Não se
evidenciou um consenso sobre a obrigatoriedade de se apresentar relatórios
para as agências. As agências não estabelecem formalmente que conteúdo deve
constar de um relatório além da prestação de contas financeiras. Não foram
apontadas demandas muito rigorosas do ponto de vista formal, ainda que tenha
sido admitida uma estrutura mínima desejável. Quanto às condições de
produção não existem condições impostas sob o ponto de vista das agências
para a produção especifica dos relatórios de pesquisa, e sim as implícitas e
próprias da execução do projeto de pesquisa. As respostas dos dez
pesquisadores evidenciaram que mais de 50% destes acham que a FIOCRUZ não
define condições para produção de relatórios.
Constatou-se que, os pontos mais importantes na descrição do documento são o
objetivo, a justificativa, o método e os resultados, sendo que o item método
foi o considerado mais importante pela maioria dos entrevistados.
No segundo bloco de entrevistas, sobre a questão do acesso aos relatórios
ficou claro que os pesquisadores têm dificuldades de acesso a esse tipo de
documento. Na busca em fontes de informação, os pesquisadores usam
diferentes meios e bases de dados; entre eles, o buscador Google seria
utilizado como primeira fonte de busca por nove dos dez respondentes. As
opiniões dos pesquisadores sobre a facilitação do acesso aos relatórios
divergem quanto aos critérios de disponibilização e lugar de armazenagem dos
documentos.
No terceiro bloco de perguntas, acerca da importância dos relatórios para a
pesquisa, contatou-se que seis dos dez respondentes utilizam relatórios de
outros pesquisadores, mas encontram bastante dificuldade em conseguir os
documentos. Cabe destacar que as agências em sua maioria, não estabelecem
critérios sobre a divulgação, salvo em alguns casos em que as agências
estabelecem limite por conta de dados considerados sigilosos.
Os três gestores entrevistados concordaram com os pesquisadores ao afirmar
que as agências não disponibilizam normas de produção. Os gestores também
consideram os relatórios de pesquisa, tanto parciais quanto finais,
importantes, tanto como forma de integração da pesquisa com outras demandas
institucionais, como um componente importante da memória institucional.
b) analisando os documentos
Sete relatórios compunham o conjunto analisado, visando estabelecer
critérios temáticos e não temáticos de representação e selecionou-se a
tabela de áreas utilizadas na Plataforma Lattes para identificar as
categorias temáticas dos relatórios analisados por projeto de pesquisa.
Considerando o tipo de relatório, constatou-se que quatro deles eram
relatórios parciais e três relatórios finais. Constatou-se, também, que um
relatório final transformou-se numa publicação e outro foi disponibilizado
na página da Unidade.
Quanto à análise da estrutura dos relatórios, que são as divisões das partes
centrais de um documento, adotou-se como base um documento publicado pela
Universidade Federal do Paraná, já mencionado. Os elementos pré-textuais
encontram-se presentes de modo irregular nos relatórios analisados; a ‘folha
de rosto’ consta em três dos sete documentos; ‘apresentação’
e ‘resumo estão
presentes em apenas um documento. Somente dois documentos continham
‘sumário’. De fato, o componente ‘desenvolvimento’, caracterizado como o
núcleo textual, forma parte de todos os documentos, ainda que com diversos
formatos. A ‘introdução’ e os ‘resultados’, como componentes diferenciados
estão presentes em ‘cinco’ e ‘seis’ respectivamente dos sete documentos
analisados. Os elementos caracterizados como pós-textuais - ‘glossário’,
‘apêndices’ e ‘índice’ - não constam dos documentos analisados. As
‘referências’ e ‘anexos’ constam em somente três dos sete documentos.
Quanto ao formato estabelecido pelas agências, identificou-se que algumas
delas disponibilizam formulários para a prestação de contas. Alguns
formulários foram identificados no site das agências e utilizados para
análise.
O ICICT, enquanto agente de fomento, não possui formulários para prestação
de contas. Constatou-se que, para os outros quatro financiadores da pesquisa
analisados, a apresentação de relatórios científicos parciais constitui uma
condição para a liberação de recursos. Os relatórios finais representam o
encerramento do convênio firmado e a regularização da situação do
responsável pela pesquisa perante a agência. As agências têm, como exigência
para a produção dos relatórios de pesquisa, a descrição do desenvolvimento
do projeto e dos resultados alcançados, sejam eles parciais ou finais.
c) a recuperação dos relatórios de pesquisa: componentes de representação
Para a representação dos relatórios, os componentes de indexação, resumo e
classificação são o que se denomina de valores possíveis a serem dados, de
forma controlada, a elementos ou atributos de metadados. Esses componentes
podem ser utilizados de forma obrigatória ou facultativa para a organização
das fontes.
A partir da nomenclatura utilizada para registrar e classificar os
documentos cinzentos identificou-se algumas fontes de dados, que possuem
inscrição documentária dos relatórios de pesquisa, a seguir descritos:
1) base LILACS da Bireme. A partir do uso dessa nomenclatura ‘por tipo de literatura e relatório’ como estratégia de busca localizou-se 24 registros de relatórios. Entre os relatórios encontrados nessa base, apenas um único relatório teria resultado de um projeto de pesquisa da FIOCRUZ. Esse relatório refere-se a um projeto financiado pelo CNPq, intitulado ‘Desenvolvimento de uma metodologia de planejamento estratégico adequado a níveis de complexidade intermediária’. Essa publicação, localizada na Biblioteca da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, consta como um documento formalmente publicado e disponível para consulta. Esse exemplo é um dos poucos relativos a um relatório de pesquisa transformado em publicação semiformal, sendo por isso registrado na base. Por ser a base LILACS, entre as bases consultadas a única que utilizou o campo ‘resumo’ surge à dúvida, se o descrito no campo resumo é uma transcrição própria do relatório ou se foi elaborado pelo documentalista. No caso do documento citado acima se constatou que o mesmo não possui resumo em sua estrutura.
2) Outra base de dados acessada foi a da Divisão de Informação e Prospecção Tecnológicas (DINT), do Instituto Nacional de Tecnologia (INT) , na qual inscrições documentárias são registradas e disponibilizadas, utilizando o arranjo por suportes. Utilizou-se o suporte (sic) ‘relatório técnico’ que é o termo que se aproxima do conceito de relatório empregado para este estudo. Não foram necessárias estratégias de busca para acessar esse tipo de documento, uma vez que existe uma página própria para ele mencionada acima. Identificou-se, quando do acesso, 1.014 títulos de relatórios.
Nesta base possui o registro referente à disponibilidade de exemplar, porém sem o campo de localização. No exemplo nomeado, a localização está registrada no campo ‘Notas’ seguida pelo código do projeto.Um outro fato que vale ser ressaltado é que, quando existe categorização de ‘sigiloso’, os dados do registro não ficam disponíveis na base.Na análise da constituição dos campos da base DINT, observou-se que ela é do tipo referencial e apresenta os campos básicos, (autor, título e data), também existentes nas demais bases pesquisadas.
3) Na base Suprir do Centro de Informações Nucleares (CIN) da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) . Observou-se que não existe um tratamento diferenciado para o registro dos relatórios e que existem divisões por tipos de material tais como: anais, normas, relatórios. Na divisão sobre relatórios, há vários documentos registrados por meio de campos básicos: número de registro, título, número do relatório, autor, data e localização. A recuperação dos documentos é feita através de busca, a partir do sistema Suprir Net.
4) Na base Acervos Online da FIOCRUZ, localizaram-se sessenta e um registros através da estratégia de busca pelo assunto ‘relatórios técnicos’. Dos registros recuperados constatou-se que todos os registrados são, formalmente, publicados.Quanto às bases referenciais identificadas, observou-se que existem critérios diferenciados para as nomeações dos campos destinados ao registro desse tipo de literatura. Observou-se também que, na base Acervos Online, não aparecem alguns campos, considerados básicos para registro de relatórios tais como: número do relatório, nome e código do projeto e fonte. Cabe explicar que na base de dados DINT usou-se a nomeação de campo ‘fonte’ para registrar onde o projeto foi apresentado e na base de dados LILACS utilizou-se a mesma nomeação para registrar os dados de imprenta (que são os de local de editoração, editora e a data de edição) e dados que seriam do campo de notas (informações sobre a paginação e indicação de ilustrações).
Buscando novos caminhos
Os procedimentos metodológicos, aqui propostos, para registro dos relatórios
de pesquisa pretendem interferir nas formas de produção, de representação e
acesso aos relatórios de pesquisa. No que diz respeito à produção dos
relatórios, sugeriu-se a observação de critérios para uma padronização e de
inserção de elementos mínimos em sua estrutura, tomando como parâmetro
documentos normativos.
Hoje, os relatórios de pesquisa, produzidos e acumulados de forma
individual, possuem relevada importância como registro da memória da
instituição. Em vista disso, algumas ações devem ser implementadas no
sentido de modificar o estado atual de registro e acesso desses documentos,
tendo como ponto de partida a questão da representação. A representação da
informação auxiliará a criação de base de dados referencial, ou seja, com
inscrições documentárias dos referidos relatórios, constantemente
atualizadas.
Tratando os relatórios como documentos produzidos e identificados propõe-se a criação de uma estrutura de base, utilizando o formato Marc21 gerenciado pela Library of Congress dos Estados Unidos, que oferece todos os tipos de campos para o registro desse tipo de documento. A adoção desse formato, padrão internacional (ISO 2079), permitirá utilizar o software Aleph disponível nas bibliotecas do ICICT.
A inserção de relatórios, na base Acervos Online, poderá agregar campos que
possibilitem descrever: o número de identificação e nome do projeto que
gerou o relatório; a agência patrocinadora e a instituição de vinculação do
originador do relatório; o tipo de relatório; o grupo e linha de pesquisa,
certificada na FIOCRUZ, em que o projeto está alocado.
Para o acesso ágil aos relatórios, poderão se empregados campos com os tipos
de pesquisa e utilizar-se elementos de ligação eletrônica, para
disponibilização dos relatórios na íntegra ou de seu resumo.
O que virá a diferenciar a base de dados do ICICT, dos modelos encontrados e
comentados acima, será a construção de uma estrutura de campos, utilizando o
Formato Marc21, que possibilitem a inserção de informações importantes na
descrição dos documentos, conforme quadro abaixo:

Fonte: Rejane Machado, 2005.
A coleta sistemática dos relatórios de pesquisa, produzidos e apresentados
às agências de fomento, poderá ser realizada através de contato com os
coordenadores dos grupos de pesquisa da Unidade.
O acesso aos relatórios dependerá de critérios estabelecidos por cada tipo
de pesquisa e poderá ocorrer em dois níveis: o primeiro nível se destina ao
acesso interno (Intranet) – disponibilizando documentos na íntegra e quando
não existirem restrições a esse respeito por parte das agências
patrocinadoras, das organizações às quais eles estão vinculados e por parte
da ética da pesquisa; o segundo nível se destina ao acesso externo
(Internet) – disponibilizando o documento na íntegra ou o seu resumo,
levando em consideração a não existência de restrições, aplicáveis no
primeiro nível.
Considerações finais
Os procedimentos metodológicos apresentados não têm a pretensão de
constituir um modelo final e sim uma proposta, em uma primeira versão, de
representação para os relatórios de pesquisa, sujeita a testes e aprovação.
Esta proposta constitui um passo dado em relação a uma modelização dessa
representação.
A complexidade dos processos de produção e comunicação do conhecimento
cientifico ressalta novamente o papel dos estudos e atividades referentes à
Organização do Conhecimento e representação da informação, já que cada vez
mais serão necessários instrumentos e procedimentos de contextualização e
mapeamento de cada inscrição documentária na rede em que adquire significado
e valor. Klein (1996) fala de uma literatura que antes que ‘cinzenta’ seria
‘fugidia’, difícil de produzir, de coletar, de tratar, de preservar.
Nesse quadro, não se trata de contrapor, por exemplo, os artigos científicos
– máxima expressão da comunicação formal publicada - aos relatórios -
literatura cinzenta. As duas manifestações deverão compor, junto a outras,
um novo e mais complexo mapa de uma compreensão processual do conhecimento
cientifico, onde todas suas fases, as de conhecimento tácitos e codificados,
experimentais ou textuais, integram um mesmo continuum de agregação de
valor, e são igualmente decisivos tanto na aplicação, quantos na
transferência ou replica desses conhecimentos.
Importante, seria, logo, poder reconstruir os caminhos informacionais desde
os projetos de pesquisa aos relatórios, as teses e dissertações associadas,
as comunicações em reuniões, as bases de dados de séries estatísticas, os
artigos em periódicos impressos e digitais, sendo que a formação e agregação
de valor se dariam no conjunto das fases, práticas e registros da pesquisa,
e não só num momento final dos resultados formalizados do conhecimento
cientifico.
Portanto, é bom pensar em formas de organização e representação do
conhecimento cientifico, principalmente de suas atividades de pesquisa e
inovação, que incluam as principais instâncias intermediárias de inscrição
documentaria – tal como as que se prefiguram nos relatórios – articulando
mapas não dedutivos da produção cultural e científica, alertando sobre as
novas linguagens sociais.
Essas transformações compõem um dos horizontes fundamentais que devemos
reconhecer para entender, com maior clareza, o papel das estratégias
literárias – tais como as de autoria –, as estratégias institucionais
avaliação e certificação e as estratégias infra-estruturais de distribuição,
ou as estratégias jurídicas de definição do que seja público e privado em
matéria de conhecimento científico. A literatura científica cinzenta nesse
caso, restrita ao relatório de pesquisa, é tão importante quanto o trabalho
o qual o relatório se originou.
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Sobre as autoras / About the Authors:
Maria Nélida González de Gómez
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia - IBICT/MCT.
Rejane Machado
LabCiTIes, Laboratório de Pesquisa em Ciência Tecnologia e Inovação em Saúde, Fundação Oswaldo Cruz.