DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.8   n.5  out/07                       COLUNAS

Sistemas de informação
por Aldo de Albuquerque Barreto

 

 


O enfoque sistêmico foi trazido para área de ciência da informação junto com as práticas de organização e controle, que foram a preocupação dominante de uma época em que, armazenar e recuperar o enorme volume de informação produzida a partir de 1945 constituía o problema central desta área. Adaptou-se perfeitamente ao modelo sistêmico nas funções de armazenamento e recuperação da informação - information retrieval systems – IRS, com suas funções técnicas bem definidas,  interrelacionadas e interdependentes. Foi importante dentro das prioridades e das preocupações de uma determinada época.


Entendemos, porém, dentro de uma perspectiva maior que estuda a informação como parte de um processo de geração de conhecimento,  o sistema de armazenamento e recuperação corresponde, somente, a produção dos estoques estáticos de informação, os quais representam só uma parte da  dinâmica de processo de geração do conhecimento.

É apenas uma das funções dos agregados de informação, os quais juntamente com a função transferência, viabilizam o destino final do processo,
Ao tratar da problemática da informação como sistema é preciso notar os conceitos básicos da teoria de sistemas, que indica serem estes um conjunto de elementos inter-relacionados e interdependentes com objetivo de um fim comum. Neste sentido o conceito de sistema não admite,  tecnicamente, que se considere o receptor ou o gerador da informação como parte ou elementos do sistema de informação. Eles estão na ambiência do sistema. De outra forma o sistema teria controle sobre estes elementos podendo receitar com autoridade qual informação seria produzida e qual informação poderia ser recebida pelo usuário como relevante.

 Esta é uma condição conceitual da teoria dos sistemas é técnica e não admite ajustes políticos. As racionalidades com que caracterizamos as funções básicas dos agregados de informação diferem tão profundamente, que não comportam mais um olhar sistêmico sobre o conjunto; a não ser unicamente nas funções do conjunto formado pelo armazenamento e recuperação da Informação. A produção de estoques de informação se orienta por uma razão prática, produtivista; a função de transferência da informação se orienta por uma razão reflexiva e cognitiva. Estas racionalidades devem se harmonizar para efetivar a relação informação/conhecimento, mas não poderão ser jamais interrelacionadas e interdependentes dentro de um sistema único.

É importante não confundir os conceitos de sistema e redes; o sistema como o conjunto de elementos que funcionam  interrelacinados e interdependentes para alcançar um fim comum e uma rede como sendo  um entrelaçamento de elementos formando uma espécie de entrosamento genérico  de formações;  nas redes cada ponto pode ter uma conexão com qualquer outro ponto sem uma relação de interdependência;  Em um sistema se retiramos um dos seus componente isso certamente acarretará a finalização do sistema. Em uma rede a retirada de um elemento fará com que uma nova conexão se forme sem comprometer sua existência.


Assim, como conseqüência imediata as medidas de eficácia que tradicionalmente são utilizadas no enfoque sistêmico como , a revocação e precisão, não servem mais dentro do que foi acima colocado, pois são parciais, abrangem somente parte do processo de geração de conhecimento e estão neste caso ultrapassadas.


Em recente publicação, o historiador Eric Hobsbawm*aponta que o mundo mudou mais tecnologicamente, nos últimos 40 ou 50 anos, do que em todo o resto da história da humanidade. As medidas parciais de eficiência do chamado sistema de informação, revocação e precisão*, datam de 1966 e fazem parte dos estudos de Cyril Cleverdon no Cranfield Institute of Tecnhnology, onde eram comparados sistemas tradicionais de indexação para recuperação.

A preocupação e as prioridades dos problemas de informação, então, eram outros, como também, toda a ambiência tecnológica em que foram realizados estes estudos. As limitações incorporadas às medidas de revocação e precisão, foram apontadas em 1975, por Gerard Salton*, que advertia:


a) as medidas são válidas somente para uma coleção específica de documentos e para um conjunto específico de questões colocadas à esta coleção;
b) estas medidas não devem ser utilizadas para comparar a eficiência de dois estoques (acervos) baseados em coleções diferentes e diferentes conjuntos de questões colocadas ao estoque;
c) as medidas dependem do tamanho da coleção, qualquer acréscimo ou decréscimo no volume do estoque invalida as medidas iniciais;
d) estas medidas são válidas, somente, para a ambiência dos usuários que fez o julgamento de valor sobre a qualidade da coleção.

Apesar das limitações operacionais apontadas por Salton e do desenvolvimento nas tecnologias de armazenamento e recuperação da informação após 1966, estas medidas de eficácia operacional, continuam sendo utilizadas até hoje como metrias envelhecidas, pois constituem quase uma ideologia técnica da área em sua avaliação.


Penso, ainda, que a condição mais forte para que se procurem novas medidas de eficácia e eficiência na distribuição de informação é a modificação conceitual relacionada a informação e o conhecimento. Com um novo quadro teórico, que aceite a informação como mediadora em uma cadeia de eventos que leva ao conhecimento, o acervo ou estoque de informação estática representa apenas um dos eventos, sem dúvida de fundamental importância, mas não o único no processo.


A função de produção de informação, que se consolida na formação dos estoques estáticos de informação, tem sido uma prioridade na atenção e nos estudos dos profissionais da área.  É, porém, na transferência da informação para a realidade dos usuários que se revela toda a essência do fenômeno da informação.


São funções se assemelham ao trabalho, independente,  de Vulcano e Mercúrio. No meio de sua montanha está Vulcano, Deus da técnica forjando instrumentos e modelos e martelos, linguagens  que permitam exercê-la a contento. Mensageiro dos Deuses Mercúrio, livre e avoante, cumpre sua missão ao levar a informação intencionada ao destinatário certo.


A confusão delimitando o sistema que produz estoques de informação como o principal na sucessão de eventos para o conhecimento é como manter Mercúrio cativo no interior das montanhas de Vulcano.

 

Referências Bibliográficas:


Cleverdon, C.W. , Factors Determining the Performance of Indexing Systems,Cranfield Institute of Technology, Cranfield, England,1966

Salton, G. , Dynamic Information and Library Processing, Prentice Hall, London, 1975

Medidas tradicionalmente aceitas para avaliar o rendimento operacional dos estoques de informação:
Revocação é a possibilidade do estoque de informação apresentar itens relevantes para o receptor.
Precisão é a possibilidade do estoque de informação em reter itens de informação não relevantes para o recepto
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Aldo de Albuquerque Barreto
aldobar@globo.com

Pesquisador titular do Ministério da Ciência e Tecnologia servindo no Ibict.