Resumo: Contextualiza o ambiente da sociedade da informação, para tratar de aspectos que se relacionam à tecnologia, à informação e à gestão da informação, situando a participação do profissional da informação, em um paralelo entre as funções tradicionais da Biblioteconomia e os desafios esperados na atualidade. Inicia com as fases que possibilitam a formação dos estoques e sua organização ou de disponibilização da informação, tais como: preservação, armazenagem, disseminação, recuperação e representação e as soluções possibilitadas pelo uso da tecnologia. Em seguida, focaliza as funções organizacionais, especialmente aquelas relacionadas ao uso freqüente da informação: a criação de significado ou a gestão da ambigüidade, a ampliação de conhecimento pela gestão da aprendizagem, a tomada de decisão pela gestão de estratégias. Finaliza com a adoção da responsabilidade ética e social direcionada à imagem da profissão e das organizações que devem ser assumidas por todos e pela sociedade em geral, numa demonstração de que as mudanças sofrem influxos das tecnologias e estas desafiam o aprendizado contínuo do uso e da gestão da informação.
Palavras-chave: Funções da biblioteconomia; gestão da informação; tecnologia da informação e comunicação; Informação e sua tecnologia.
Abstract:
This work puts into context the environment of the information
society to deal with some aspects related to technology, information and the
management of information highlighting the participation of the information
professional between the traditional function of librarianship and the
challenges of these days. It begins with the phases that make possible the
formation of the storage and its organization or the display of information
such as: preservation, storage, dissemination, retrieval and representation
and the possible solutions through the use of technology. Then, it focuses
the organizational functions mainly those related to the frequent use of
information: the creation of meaning or the management of ambiguity, the
spreading of knowledge by the management of learning, the decision making by
the management of strategies. It ends by adopting ethical and social
responsibility towards the professional and the organizational images which
may be assumed by everyone and by society in general, showing that the
changes are influenced by technology and this, challenges a continuous
learning of how to use and manage information.
Key words: TLibrarianship actions; information
management;. information and comunication technology; information and
technology.
O contexto1
O tema, inicialmente proposto para a mesa em evento da Associação
Profissional de Bibliotecários de Pernambuco, constituída por pesquisadores
das áreas de Biblioteconomia e de Ciência da Informação brasileiras, passou
por algumas acomodações e está apresentado em três partes: a primeira
contextualiza o ambiente que nos cerca, do ponto de vista da sociedade da
informação, e dos aspectos que se relacionam à tecnologia da informação e
suas influências nas atividades de gestão da informação, seguida de um
paralelo entre a disponibilização das informações por meio das funções
tradicionais da Biblioteconomia (preservação, armazenagem, disseminação,
recuperação e representação), situando as ocorrências de modificação a
partir da absorção das tecnologias da informação que, por sua vez, são
seguidas pelas funções organizacionais especialmente relacionadas ao uso da
informação: a criação de significado ou a gestão da ambigüidade, a ampliação
de conhecimento pela gestão da aprendizagem, a tomada de decisão pela adoção
de estratégias, funções consideradas primordiais por Choo
(2003) e, finalmente, aquelas relativas à imagem da profissão e da
organização, por meio da atuação do profissional da informação, com
responsabilidade ética e social.
As funções permanentes de gestão da informação, exercidas pelo profissional
da informação, historicamente, apresentam problemáticas que os meios
tradicionais solucionam com dificuldades, quais sejam: localização rápida e
imediata do documento; deslocamento, em algumas situações da obra, outras do
leitor, acarretado pela necessidade de acesso; capacidade física de
armazenagem, exigindo espaços condizentes com o aumento dos documentos;
preservação física da documentação estocada; e técnicas de recuperação da
informação, que atendam às reais necessidades dos consulentes. Essas são
atividades com as quais o profissional da informação se familiariza, e as
tecnologias de informação e comunicação (TICs) se
configuram como instrumental facilitador em qualquer uma delas.
Fibras óticas são conectadas às redes de computadores para disponibilizar e
difundir, em altíssima velocidade, informações científicas, tecnológicas,
comerciais, financeiras, culturais e várias outras. Isso conduz a uma fase
marcada pela abundância de informações e, por isso, recebe as denominações
de era da informação, sociedade da informação e, ainda, era do excesso.
Óbvio que a utilização de tecnologias de informação e comunicação e a possibilidade de acesso a informações de qualquer natureza, com rapidez e eficiência, rompe interveniências de tempo e de espaço.
Como o nome indica, para a sobrevivência dessa sociedade, é condição sine qua non que a informação seja estocada, disseminada e, no momento do uso, esteja organizada, disponibilizada e acessível. Sem dúvida, a convivência com essas tecnologias influencia relações pessoais, de trabalho, de informação, tornando necessários mais produtos e serviços.
É um contexto em que a informação e o conhecimento, que já eram importantes
na sociedade industrial, tornam-se imprescindíveis na sociedade globalizada
e levam o profissional a refletir sobre questões ligadas ao cenário da
gestão da informação. O influxo da tecnologia provoca mudanças que envolvem
as organizações que, por sua vez, devem responder à sociedade, colocando
seus produtos e serviços, com o objetivo de atender às expectativas de seus
usuários, o que conduz à responsabilidade social de forma amplificada para
praticar o respeito de parte a parte.
Ainda que a função estratégica da informação estenda-se a todos os campos, a
todas as tarefas humanas e a todos os tipos de empreendimento, produzindo
esse ingrediente básico em proporções geométricas, em alguns momentos, é
preciso retroceder no tempo e focar funções da Biblioteconomia,
atualizando-a, para atender ao objetivo pretendido: o de discutir a gestão
da informação a partir do desenvolvimento das tecnologias de informação e
comunicação.
Informação e tecnologia
A disponibilidade de grandes quantidades de informação exige que a relação
entre informação e conhecimento seja mais fluida, mais acessível. Essa
relação é defendida por autores de áreas diversas, como Burke
(2003), por exemplo - ao explicitar que, para adquirir conhecimento, o homem
depende do acesso aos acervos de informação, mas também de sua inteligência
e, ainda, de pressupostos e práticas individuais e Barreto
(2003), quando afirma que o conhecimento só se realiza se a informação for
percebida e aceita para colocar o indivíduo num estágio melhor, reforçando a
relação entre os dois elementos.
Nessa linha de pensamento, a informação é conceituada como um fenômeno, algo
produzido pelo homem, passível de ser transmitido para outros homens, e o
conhecimento, como aquilo que sabemos, que envolve os processos complexos e
dinâmicos de compreensão, entendimento, aprendizado, que só ocorrem na
mente. Ao expressar o que sabemos, utilizamos mensagens orais, escritas,
gráficas, gestuais ou corporais, e estas são diferentes para aquele que
emite e para quem recebe a mensagem (Wilson, 2006), pois,
além de cada pessoa ter sua própria estrutura de conhecimento, absorve as
influências do ambiente em que vive e das memórias genéticas herdadas.
Aquilo que sabemos está constantemente mudando, porque há uma absorção entre o que já existe na mente e o que resulta dos citados processos. O conhecimento nunca pode ser capturado nem gerido. O que se captura e gerencia são informações ou o objeto do conhecimento. (Mcinerney, 2006)
Ao ampliar seu conhecimento, o homem o utiliza como novo conhecimento ou
como instrumental que facilita sua vida, em outras palavras, produz ciência
e tecnologia. No sentido amplo, a tecnologia é entendida como conhecimento
absorvido e assimilado e um processo dele decorrente, que conduz à inovação,
contribui e serve de parâmetro para o desenvolvimento científico, econômico
e social de uma nação e o impulsiona. Toma como elementos básicos produtos e
processos que tornam mais fácil a vida do homem e que são gerados a partir
de conhecimento científico, empírico e intuitivo. A tecnologia é, pois, o
fruto, o resultado desses conhecimentos.
São as tecnologias de produto e/ou de processo que introduzem novos
conhecimentos no sistema produtivo, e estes as tornam diferenciais em termos
da competição entre organizações e nações ao se considerar a difusão de
novos produtos e de novas formas de comportamento (Motoyama,
1994).
Assim ocorre com a introdução da imprensa ou da indústria gráfica, que provocou uma imensa necessidade de capacitação de recursos humanos; de introdução de novos profissionais no mercado econômico e de novos materiais e equipamentos. Da mesma forma, ocorreu com a indústria têxtil, a automobilística e as demais, que podem servir como exemplos, tendo em vista que cada novo produto ou processo de produção introduz novos fazeres, exige qualificação humana, conduzindo, permanentemente, à inovação, provocando mudanças em todo o sistema produtivo.
Portanto, semelhantemente também ocorre com a tecnologia da informação e da
comunicação , considerada como um conjunto de tecnologias, que envolve
microeletrônica, informática (softwares e hardwares),
telecomunicação, radiodifusão e engenharia genética (Lima,
2007). Melhor dizendo, a tecnologia da informação e da comunicação é um tipo
especial de tecnologia que, na atualidade, disponibiliza grande parte das
informações que consumimos enquanto usuários e é responsável pelas
modificações citadas. Do uso dessa tecnologia, muitas áreas profissionais se
beneficiam, inclusive, os profissionais da informação, quando organizam,
gerem e disponibilizam informações sob sua guarda e responsabilidade.
Disponibilidade de informação
Neste item, serão feitas algumas reflexões sobre as competências que o
profissional da informação deve deter para gerir informações, principiando
com a função da preservação da memória documental para a formação de
estoques. Os primeiros bibliotecários levavam essa função tão a sério que as
bibliotecas constituíam-se verdadeiros labirintos, entre os quais somente o
bibliotecário-mor transitava livremente e conhecia o exato lugar das obras e
seus conteúdos. Quem leu o livro “O Nome da Rosa” ou assistiu a esse
filme pode esquecer a cena do bibliotecário comendo as folhas do livro para
impedir que outras pessoas acessassem o que estava ali registrado?
Preservação extremada, tempos em que o documento , somente ele, ou
principalmente ele, tinha valor de prova.
Na atualidade, dispõe-se da preservação digital usada como recurso, método e
tecnologia para assegurar a permanência e o acesso da informação no meio
digital. Comparativamente, se forem mantidas as condições de temperatura e
umidade adequadas, o papel supera em muito os outros suportes, inclusive o
digital. Um pen drive queima a uma queda de energia, enquanto o
máximo que ocorre com o documento impresso é pararmos de lê-lo até a energia
se normalizar. Por essa razão, é preciso, além de se armazenarem as
informações em várias mídias, estar constantemente migrando de mídias para
atender às questões de inovação tecnológica.
A despeito da migração sistemática, a preservação digital facilita a
armazenagem. As novas gerações de computadores e suas memórias cada vez
menores têm possibilidade real de armazenar um volume de informação cada vez
maior. Abundância e excesso são termos usados para indicar a quantidade de
informações que se encontram nas memórias eletrônicas. A web, criação de
Tim Berners-Lee,
conecta o mundo, permitindo que internautas naveguem com apenas um toque no
mouse. Na teia, cada ponto contém virtualmente a rede inteira, e a
informação está em qualquer um e em nenhum ao mesmo tempo (Vaz,
2002).
Exemplos disso são a biblioteca digital, constituída por documentos
digitalizados e disponibilizados sob a forma material em compact disk
read only memory (CD-ROM), ou em digital
vídeo disk (DVD), e a biblioteca virtual, que
disponibiliza textos completos em linha por meio da internet com acesso a
distância. Inclui-se, além da idéia de organização e preservação da
integridade dos documentos, a de armazenagem da informação, em forma
eletrônica, e de sua disseminação, independentemente de localização física
ou do horário de funcionamento.
Se o que existe transforma-se em bites e se insere nos hard disk
dos computadores, é possível armazenar toda a memória do mundo e eliminar a
intermediação do profissional da informação com as funções de seleção e
aquisição do material, como indica Garcia (2007). Aliás,
segundo Manguel (2006), eliminar-se-iam, também, as formas
de censura que as bibliotecas adotam, tais como estantes abertas ou
fechadas, através da catalogação, do privilégio de localização das obras em
determinadas seções, do gosto e da ética do profissional da informação,
escolhendo e dando forma aos acervos, de diretrizes oficiais, que julgam com
base em regras burocráticas, e de questões de orçamento, volume e
disponibilidade.
Assim, a vez é dos autores, produtores de conhecimento, que incluem suas obras nos diversos tipos de repositórios eletrônicos de informação existentes na rede ou de novas formas de disponibilização de conteúdo que advirão.
Como já mencionado, a importância estratégica da informação estende-se a
todos os campos, a todas as tarefas humanas e a todos os tipos de
empreendimentos. A geração de conhecimento é um processo que depende dos
contatos com informações, das relações pessoais, das habilidades individuais
e, finalmente, dos conhecimentos técnicos que alguém possa apreender.
No ambiente da biblioteca tradicional, virtual, digital, ou de qualquer
estoque de informação, ocorrem relações dos usuários com a informação
solicitada, recuperada, necessária para atendimento de suas necessidades,
objetivo primordial e maior de qualquer unidade de informação. Essa é uma
razão que leva às seguintes questões: Como disseminá-las? Como não esquecer
tantas memórias? As respostas pressupõem o continuum das atribuições do
profissional da informação, pois às funções anteriormente descritas, soma-se
a disseminação da informação iniciada de maneira tímida, diferentemente do
que hoje se pratica com as tecnologias de informação e comunicação.
A disseminação surge para efetivar e ampliar o uso das bibliotecas públicas
e especializadas, por meio das listas de livros que podiam/deviam ser lidos,
com a finalidade de manter os sistemas vigentes nas sociedades. Ao mesmo
tempo, as bibliotecas especializadas também desenvolviam técnicas de
disseminação para que os técnicos renovassem seus conhecimentos, e as
organizações pudessem ganhar de suas concorrentes, produzindo mais, melhor e
com menor custo. Implícita, portanto, a relação entre informação e novos
conhecimentos que, divulgados, mantêm o ciclo, reforçando a preservação,
porque só se dissemina o que existe, e para existir, há que se preservar (Garcia,
2007).
Dentre as proposições atuais de disseminação, está a world wide web,
de Berners-Lee, como um conjunto de textos separados, ligados logicamente,
como um meio simples de reunir virtualmente informação sobre qualquer coisa
(Rangel, 1999). O hipertexto representa o que o homem,
historicamente, sempre fez. Ao realizar uma leitura e algum conceito não se
apresentar com clareza, recorre a um dicionário ou a outra obra que
especifique o assunto, que pode conduzir a outro assunto e, assim,
sucessivamente, podendo desviar o leitor do texto inicial.
Ao se desviar do site inicial em busca de outros links, o usuário pode ampliar suas informações ou perder a centralidade temática inicial. Isso porque o estoque de informações é sempre maior do que a necessidade do usuário e, ao ser atraído, despertado para outro link, gera-se uma mudança no seu interesse com conseqüente nova demanda. Não é mais o autor que conclui o texto, mas o leitor, das formas mais diversificadas, que diferem de leitor para leitor, ao buscar novos links, a cada novo interesse.
A disseminação provoca, inclusive, uma ampliação na quantidade de obras
produzidas, no comércio livreiro e no aparecimento de outros profissionais,
que se ocupam da revisão, da crítica e do comércio das obras. Nesse
processo, surgem novos leitores que usam a web para se informar das
novidades, imprimem-nas para seu uso pessoal ou adquirem-nas por outros
meios para compor seus acervos. Os leitores tradicionais ou mais românticos
referem-se ao cheiro do livro, do papel e da tinta aos quais estão
habituados e dos quais gostariam de não se separar. O profissional de
referência, o disseminador das informações, torna-se um hábil navegador
nessa nova mídia e assume atividades de construção de mapas de navegação
para seus usuários.
Porém, o acesso às informações pressupõe a organização e a representação
dessa informação. Os profissionais da informação lançam mão de uma
terminologia padronizada e estruturada, fragmentam o conteúdo dos documentos
em partes e os representam. Utilizam como objeto a terminologia que assume
as concepções da área que a define, possibilitando aos especialistas
expressarem e comunicarem seus conhecimentos.
Portanto, adaptar os assuntos contidos e identificados nos documentos aos estipulados nas tabelas de classificação, nas listas de cabeçalhos e nos tesauros (instrumentos de representação do conhecimento), de maneira inequívoca, para o sistema disseminar e o usuário acessar informações, continua sendo um problema. Em primeiro lugar, porque as representações do conhecimento sofrem as influências sociais, visto que são construções arbitrárias dos homens, que vivem em sociedade e que as transferem para as ferramentas utilizadas para indexar.
Depois, talvez o mais importante, além dos valores sociais que também interferem no usuário, é que o profissional e o usuário tanto podem representar o mesmo documento de forma diferenciada, quanto podem usar a mesma representação para identificar coisas diversas.
Embora se reconheça que a organização das informações realizada pelo
profissional é essencial para disponibilizá-las e acessá-las, a reformatação
da linguagem compromete o código de comunicação, estabelece um duplo fluxo
de informação em que o intermediário constitui figura indispensável.
Barreto (2003) e Batles (2005) coincidem
nas idéias de que a codificação em uma metalinguagem oculta a informação,
diferentemente das proposições alternativas atuais ou do uso da linguagem
natural.
Isso acontece tanto nos catálogos manuais usados nas bibliotecas tradicionais quanto na rede eletrônica de informação e comunicação e surge como crítica aos profissionais da informação e aos processos utilizados para indexar quer documentos, quer informações.
Proporcionalmente ao excesso de informação, há o excesso de documentos, o
que não atende às demandas, gera lentidão, provoca desinteresse e competição
entre produtores de informação, desacredita o sistema e desestimula o
usuário, devido à dificuldade de encontrar o que procura.
Huertas (2007), pesquisadora espanhola e presidenta da
International Society Knowledge Organization (ISKO),
propõe uma alternativa para a indexação. Ela amplia o conhecimento sobre um
objeto, a partir de dicionários especializados, e identifica várias
possibilidades de utilização dos termos representativos.
Depois disso, cria categorias, expandindo as possibilidades de representação do objeto, utilizando vários termos que o identificam (Informação oral) . Essa alternativa assemelha-se ao que nos conta Batles (2005), por meio da história de um bibliotecário que catalogava, descrevendo ao máximo seu objeto, acreditando fazer a coisa certa. Porém aquele bibliotecário não atendia ao sistema, pois não correspondia à produtividade exigida e teve que ser aposentado. Realidade e/ou ficção refletem a busca de conhecimento, o questionamento da obviedade colocada em prática, originando um novo processo: a tecnologia.
Novamente, a inovação anunciada por Berners-Lee (2006),
com a tecnologia da web semântica, permite, com facilidade, que se cruzem
informações confinadas em programas de editores de texto, planilhas e
calendários, conectando-as e reunindo-as. Já há experiências sendo
desenvolvidas na área médica e, além dos serviços de busca e de navegadores,
muitos outros programas podem surgir para usufruir desse tipo de base de
dados. Além disso, importantes empresas estão contribuindo, escaneando
bibliotecas inteiras para disponibilizar o acervo anterior às tecnologias de
informação e comunicação.
“A real mágica acontece quando
cada palavra de cada livro estiver linkada a outras, agrupada, citada,
indexada, analisada, anotada, misturada novamente, reunida mais uma vez e
entrelaçada de forma profunda” (Kelly, 2006, p.45). Aí
teremos possibilidades de localizar as informações desejadas e organizadas
pelos sistemas para atender a qualquer das necessidades.
O uso da informação e os desafios
Antes, o uso da informação estava colocado como um aspecto conflitante entre
a necessidade sentida e a representação do documento ou da informação para
disponibilizar o acesso. Conceituamos a tecnologia como um processo
resultante de conhecimento científico, empírico, intuitivo, aplicado em
produtos e processos, objetivando o bem-estar do homem, pressupondo a
produção por organizações privadas. Indicamos a concorrência entre elas, com
a finalidade capitalista de ampliar o lucro cada vez mais e, assim, garantir
manutenção no mercado.
Retornemos ao ponto em que a tecnologia gera mudanças nas organizações, nas relações de trabalho e nas profissões, interferindo, portanto, no indivíduo, nas formas como as organizações disponibilizam essa informação, culminando com o uso que se faz dela.
Segundo Minayo (2005), há correntes teóricas que explicam
as causas das mudanças. A primeira delas assenta-se na possibilidade de
existir uma sociedade equilibrada e fechada, onde não houvesse conflito nem
contradições. Por ela, as mudanças se explicam pela intervenção de causas
externas passíveis de serem controladas.
Os teóricos do grupo seguinte consideram que a sociedade e as instituições vivenciam conflitos internos e é a própria existência dos problemas que provocam mudanças. Há, ainda, um terceiro grupo, para quem as transformações sociais acontecem por forças internas e externas.
Para a autora citada, qualquer mudança social e institucional é um fenômeno
simultaneamente histórico, coletivo, estrutural e relacional. São muitos os
processos que promovem efeitos diretos e indiretos, internos e externos
sobre as ações humanas e as instituições, muitos dos quais não podem ser
medidos. Por outro lado, as constatações de teorias sociológicas
caracterizam vários tipos de mudanças, a saber:
- as que são produzidas rapidamente e em cadeias seqüenciais;
- as que procedem da vontade deliberada ou resultam de inovações também voluntárias;
- as que são cumulativas por influxo de tecnologias e estratégias sociais;
- as que são cumulativas e afetam indivíduos e aspectos da sociedade, assemelhando-se, algumas vezes, a efeitos de redemoinho (Minayo, 2005).
Assim, há níveis e graus diferentes de tensão e conflito ao se provocarem mudanças, operacionalizá-las e incorporá-las. Elas surgem nas burocracias administrativas, originadas pelo poder institucional; nas empresas, provocadas por grupos de interesses; nas instituições, por causa da experimentação de técnicas e de propostas relativas à prática e suas relações com o meio; nas pessoas, influenciando sua subjetividade, mobilizando habilidades, relacionamentos, posturas e valores. Genericamente, as mudanças ocorrem em ritmo de inovação e adaptação, projetando tendências em um intervalo de tempo, por meio da aplicação de programas determinados.
Em tempos de globalização, as empresas adotam um perfil de compartilhamento,
organizam-se formando redes, especialmente quando têm um objetivo comum a
alcançar ou necessitam desenvolver alguma inovação. São outras mudanças que
a globalização opera na organização das empresas, e a necessidade de
compartilhamento as faz se agruparem. É a adoção da denominação genérica de
organizações do conhecimento, que serve tanto para a formação da rede quanto
para identificar as organizações, objetivando maior uso da informação.
Choo (2003) identifica três funções principais nessa
organização: a primeira é identificada como criação de significado, para a
qual se exige a retirada da ambigüidade da informação, devido à
identificação das necessidades, busca e uso da informação. Cada uma, por sua
vez, considerando a criação de significado, as necessidades cognitivas, as
reações emocionais e as dimensões situacionais.
Ele nos apresenta uma matriz em que esses elementos se cruzam para identificar o que a organização pode e deve fazer para encontrar o equilíbrio entre a ambigüidade e a certeza e, assim, basear a ação coletiva. Capurro (1991) chamou nossa atenção para a distância entre a informação e a desinformação, constituída por informação errada, obsoleta, inexistente etc.
Utilizando modelos da inteligência computacional, Bittencourt
(2006) aborda a incerteza informacional, empregando uma variação de
imperfeições da informação, que vai da certeza, ou a informação perfeita,
até a desinformação total, passando pela incerteza. No intervalo que se
localiza entre uma e outra, esse pesquisador, baseado nas respostas
possíveis a uma simples pergunta: Como saber a que horas começa
determinado filme? apresenta e exemplifica a tipologia: informação
perfeita; imprecisa; incerta; vaga; probabilista; possibilista;
inconsistente; incompleta até a ignorância total.
Ele esclarece que, para cada tipo de imperfeição, há um modelo adequado para representar a informação, o que justificaria a tomada de decisões, mesmo convivendo com essa gama de imperfeições da informação. As imperfeições, a desinformação e a ambigüidade da informação são desafios que devem ser solucionados para que o fornecimento da informação atenda à tomada de decisão nas organizações.
Na segunda função, Choo (2003) refere-se à construção de
conhecimentos, considerando as organizações como geradoras de conhecimento
e, por isso, trabalha as relações de aprendizagem. Dentre as possibilidades
de aprendizagem, a construção de um ambiente de confiança nas organizações
instaura as comunidades de prática.
Embora o termo seja relativamente novo, é assim que se aprende desde sempre, através da comunicação da informação ou, simplesmente, da reunião de pessoas, de forma totalmente informal, mas com interesse no aprendizado. É possível que as comunidades de prática substituam os antigos colégios invisíveis ou os tomem como originários. Pode ser simplesmente alguém ao meu lado, que percebe minhas ações e passe a adotá-las. Nesse percurso, existe a disposição de maior troca de informações entre os membros das organizações, algumas vezes, incentivada pelo desenvolvimento natural de confiança mútua, atingindo tais comunidades. A confiança é necessária para dissipar a idéia de que informação gera poder, podendo, por isso, significar perda de poder para aquele que dissemina, transmite informações, ensina.
A terceira função está relacionada à tomada de decisão e à administração da
incerteza, que se estrutura por procedimentos e regras que especificam
papéis, e para os quais Choo (2003) adota modelos: o
primeiro deles, o racional, orientado para objetivos e guiado por regras,
rotinas e programas de desempenho; o modelo processual, que é guiado por
objetivos, múltiplas ações e soluções alternativas; o modelo político, que
considera objetivos e interesses conflitantes e a certeza sobre abordagens e
resultados preferidos; e o modelo anárquico, para o qual os objetivos são
ambíguos, e os processos para atingi-los, obscuros.
Se, de um lado, a tecnologia da informação proporciona forma de melhor gerir
a informação, de outro, exige constante atualização dos instrumentos, dos
métodos e dos recursos humanos que a gerenciam, o que envolve capacitação e
aprendizado permanentes para adequar-se e atender às expectativas da
sociedade da informação e garantir sua manutenção no mercado.
Imagem da profissão e da organização
As organizações devem equacionar o lucro, obedecer às leis, comportar-se
eticamente, envolver-se com as comunidades nas quais se inserem e inovar os
produtos e os serviços para lidar com as tecnologias de informação e com os
padrões globais de operação.
Um dos efeitos da globalização é a adoção de padrões éticos e morais mais rigorosos, independentes dos códigos de ética, seja pela necessidade de manter a imagem perante o público, seja pela demanda do público para que as organizações atuem de acordo com tais padrões. A globalização exige, portanto, das empresas uma auto-avaliação constante e contínua.
Os princípios éticos e os valores morais culminam com o estabelecimento de
atividades, obedecendo a critérios socialmente responsáveis ou socialmente
éticos. Surgem como atribuições de categorias profissionais, em
comportamentos adotados por empresas e instituições e por indivíduos, no
sentido das responsabilidades éticas, morais e sociais perante funcionários,
acionistas, clientes etc. e correspondem a atividades, práticas, políticas e
comportamentos esperados (no sentido positivo) ou proibidos (no sentido
negativo) por membros da sociedade, apesar de não codificados em lei (Veloso,
2006).
Assim, esses membros da sociedade civil necessitam exercitar responsabilidades éticas entre si e desfrutar de atividades responsáveis das instituições públicas, das empresas privadas, das corporações, das categorias profissionais, da sociedade de um estado, do país e do mundo.
Wersig e Neveling (1975) entendem que a disseminação da
informação constitui a responsabilidade social dos bibliotecários e
cientistas da informação. Assim, enquanto atribuições de uma categoria
profissional, a responsabilidade social se acha presente na Biblioteconomia
como uma etapa de sua evolução. Dentre suas funções, o atendimento às
necessidades dos indivíduos que, conscientemente, decidem usar recursos de
informação, é compreendida como responsabilidade ética.
Para Du Mont (1991), aos bibliotecários cabe promover,
ativamente, a justiça social, apoiar as iniciativas culturais, adotar
posições políticas e assumir e seguir valores e princípios éticos,
objetivando o atendimento a necessidades de informação, seja de uma simples
consulta, seja para respaldar pesquisas que reverterão em conhecimento novo.
A responsabilidade ética e social pela sociedade compreende usuários e não
usuários, porquanto definida como forma ampla de desenvolvimento do
bem-estar público e da imagem positiva das organizações.
A difusão do uso ampliado das tecnologias é estratégica, mas também
instrumento de dependência, pois não há como parar de acompanhar as
inovações.
É necessário criar condições de apropriação social tanto desse aparato tecnológico – o que implica capacidade de os diferentes grupos sociais fazerem uso dos novos meios, contribuindo para a melhoria de suas condições de vida e de trabalho - quanto da capacidade de apropriação da informação e do conhecimento, hoje estratégicos do ponto de vista da capacidade de aprendizado, inovação e desenvolvimento (Albagli e Maciel, 2007, p.16).
Como visto, mudanças são intervenções na sociedade, nos valores individuais, na educação, nas organizações, que provocam contradições, conflitos, estranhamentos relacionais, remetendo à ética e aos valores incutidos, incorporados em cada indivíduo e, por via de conseqüência, na sociedade.
A fórmula para os profissionais
da informação deve ser encontrada individualmente, considerando-se
habilidades e competências, tomando-se em conta, especialmente, o fato de
ser um eterno aprendiz. Esse é, o desafio a enfrentar, se o desejo é
continuar a existir enquanto profissão, enquanto organização, enquanto área
do conhecimento.
[1]Comunicação para a mesa “Bibliotecário, informação e tecnologia: habilidades e competências para a gestão da informação e do conhecimento”, em 24 de outubro de 2007, durante a V Jornada Norte-Nordeste de Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação, ocorrida em Recife, 24 a 26 de outubro de 2007, no Auditório do CEFET, sob a organização da Associação Profissional de Bibliotecários de Pernambuco.
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Sobre a autora / About the Author:
Joana Coeli Ribeiro Garcia
joanacoeli@uol.com.br
Doutora em Ciência da Informação, professora associada do departamento de ciência da informação da Universidade Federal da Paraíba.