Resumo:
Os movimentos sociais que emergem nas sociedades complexas são
protagonizados por um ator coletivo descentralizado que, a partir de novas
práticas, tem tematizado, na cena pública, conflitos decorrentes de
diferentes esferas da vida individual e coletiva. Estes antagonismos sociais
contemporâneos são assinalados por lutas em direção à apropriação do sentido
contra formas hegemônicas que nomeiam a realidade, nas quais o controle e a
veiculação da informação, a partir dos processos de mediação, se apresentam
como aportes nucleares. Partindo de uma perspectiva social das dinâmicas
informacionais, discute-se o papel da informação e da mediação como
baluartes das práticas de mobilização social, destacando que estas dinâmicas
são caracterizadas, sobretudo, pelas tensões, contradições e relações de
poder. Apresenta assim, o conceito de mediação informacional, evidenciando a
natureza simbólica e dialética da informação e mediação, bem como o
movimento e o processo que caracterizam a relação entre estas duas
instâncias.
Palavras-chave:
Movimentos sociais; Mediação; Informação; Mediação informacional;
Sentidos sociais.
Abstract: The social movements that emerge in
complex societies is a leading protagonist in a decentralized collective
actor that from new practices have been discussed in the public scene the
conflicts arising from different spheres of individual and collective life.
These conflicts are highlighted by contemporary social struggles toward the
appropriation of meaning against hegemonic forms that appoint the reality,
where the control and delivery of information from the processes of
mediation, are presented as nuclear contributions. This paper discusses from
a social perspective of informational dynamics the role of information and
the practice of mediation as bulwarks of social mobilization, highlighting
that these dynamics are characterized by, above all, the tensions,
contradictions and power relations. Thus the paper presents the concept of
informational mediation, emphasizing the symbolic nature and dialectic of
information and mediation, as well as movement and process that
characterized the relationship between these two bodies.
Keywords: Social movements; Mediation; Information; Informational
mediation; Social meanings.
Introdução
Nas dinâmicas das sociedades complexas, assinaladas pela ascensão de novos atores e cenários políticos, os conflitos sociais assumem diferentes nuances e formatos que excedem o escopo da luta de classes.Os novos movimentos sociais sinalizam o deslocamento dos conflitos para o terreno da cultura, onde se colocam em pauta questões plurais decorrentes das esferas antes restritas à vida privada. Assim, a emergência de espaços alternativos de luta (fora do domínio da política institucional) e de um sujeito coletivo descentralizado trazem à cena pública formas de conflito que defendem a liberdade e a responsabilidade de cada indivíduo, indo contra a lógica de reprodução do capitalismo contemporâneo e da ordem estabelecida que delibera o normal ou anormal, proibido ou permitido. (Touraine, 2006).
Neste contexto, onde as articulações das coletividades se fazem sempre mais ancoradas no uso da linguagem e dos símbolos antagonistas (Melucci, 1996), a informação se apresenta como um importante recurso simbólico a conferir aos sujeitos conflitais possibilidades de nomeação das diferenças que os assinalam e, portanto, da inscrição discursiva de suas identidades e demandas nas instâncias públicas.Isto porque, por meio dos movimentos sociais as pessoas se envolvem em lutas simbólicas sobre os significados e interpretações dos fatos e coisas, de modo que os conflitos se encaminham em direção à apropriação do sentido em oposição às formas hegemônicas que nomeiam a realidade, já que esta se apresenta como um campo aberto e em disputas por formas de significação. (Prado; Rodrigues, 2008)
Assim, são travados duelos sempre renováveis nas quais o controle e a veiculação da informação se apresentam como aportes nucleares. Para tanto, a efetivação destes duelos dá-se por meio dos procedimentos de mediação, responsáveis por promoverem o encontro/confronto entre diferentes códigos simbólicos e sentidos sociais, sob a forma de discursos.Partindo de uma perspectiva social das dinâmicas informacionais, discute-se neste artigo o papel da informação e da mediação como baluartes das práticas de mobilização social, destacando que estas dinâmicas são caracterizadas, sobretudo, pelas tensões, contradições e relações de poder subjacentes às práticas sociais.
Busca-se evidenciar que a interação entre tais temas tem como elemento definidor a necessidade de imprimir, pelos diferentes atores, o significado a ser atribuído à realidade, sob a égide da informação. A partir de tais considerações, introduz-se a noção de mediação informacional como modo de destacar a natureza simbólica e dialética da informação e da mediação, bem como o movimento e o processo que caracterizam a relação entre estas duas instâncias.
Movimentos sociais: aproximações teóricas
Ainda que o conceito de movimento social tenha sido amplamente desenvolvido no campo das Ciências Sociais (estando associado ao próprio desenvolvimento da sociologia em alguns países, como os Estados Unidos), o mesmo ainda goza de uma imprecisão conceitual, não havendo consenso sobre seu significado entre os pesquisadores. Blanco (1994) nos lembra que o panorama teórico geral de estudos que se referem a este fenômeno se utiliza, amiúde, de três conceitos distintos (comportamento coletivo, ação coletiva e movimento social) para definir os fenômenos de mobilização de cidadãos. Para a autora, em alguns casos, o movimento social se apresenta como uma forma de comportamento coletivo; em outros casos, os conceitos de movimento social e ação coletiva são utilizados como sinônimos de uma forma de ação pouco organizada e não institucional.
O ponto de contato entre essas diferentes lentes teóricas se assenta na consideração de que, de forma explícita ou implícita, o movimento social se configura como um tipo de ação coletiva. (Blanco, 1994). É em decorrência desta multiplicidade de aportes teóricos que tão logo precisamos demarcar nossa concepção de movimentos sociais, entendidos aqui como: “ações sociais coletivas de caráter sócio-político e cultural que viabilizam distintas formas da população se organizar e expressar suas demandas”. (Gonh, 2003; p.13)
As primeiras correntes interpretativas das ações coletivas, denominadas por Gonh(1997) de teorias clássicas, estiveram ancoradas: a) no interacionismo da Escola de Chicago, especialmente em trabalhos de Herbert Blumer; b) na teoria das sociedades de massas de Fromm, Hoffer e Kornhauser; c) na abordagem sociopolítica de Lipset e Rudolf Heberle; d) na abordagem funcionalista de Turner e Killian e nas teorias organizacionais-comportamentalistas de Gusfield. Estas abordagens privilegiaram determinações psicológicas da participação não alcançando, assim, respostas para perguntas relacionadas ao “como” e “onde” as pessoas participam. (Prado, 2008)
Estas perspectivas de leitura das ações coletivas se inserem no que Gohn (1997) cognomina de paradigma norte-americano, arranjo explicativo que inclui também as contemporâneas: Teoria da Mobilização de Recursos (MR) e Teoria da Mobilização Política (MP).
Enquanto a teoria da Mobilização de Recursos (MR) entende os movimentos sociais como agrupamentos de interesses, a teoria da Mobilização Política (MP) propõe a reintrodução de perspectivas do paradigma clássico, buscando identificar as significações e as estratégias da ação coletiva.
Apreendendo especialmente as determinações econômicas da participação, a teoria da Mobilização de Recursos concebe os movimentos sociais pelo prisma das organizações formais, partindo de uma lógica baseada na racionalidade instrumental que privilegia o enfoque da interação a partir da relação custo-benefício, negligenciando elementos simbólicos envolvidos na ação como cultura, ideologia, projeto e identidade dos indivíduos.Esta vertente analítica tem como expoente os trabalhos de Olson (1965), McCarthy e Zald (1973), que, fundamentados por categorias econômicas, enfatizaram a mobilização social pelo ponto de vista dos grupos de interesses.
É a partir de críticas dirigidas ao utilitarismo e ao individualismo metodológico da Teoria da Mobilização de Recursos que se formula outro modelo dentro do paradigma norte-americano, com vistas a sobrelevar unidades conceituais que ocupassem o hiato proveniente da abordagem econômica da Mobilização de Recursos. Gonh (1997) ressalta que esta proposta procurou lançar luzes sobre as dinâmicas da política, reativando o campo da cultura, no qual a análise das ações coletivas foi focalizada como processo. Desse modo, esta vertente:
“passou a enfatizar a estrutura das oportunidades políticas, o grau de organização dos grupos demandatários, e a se aplicar a análise cultural na interpretação dos discursos dos atores dos movimentos, a linguagem, as idéias, os símbolos, as ideologias, as práticas de resistência cultural, tudo passou a ser visto como componente dos conflitos expressos nos discursos, numa análise menos preocupada com a desconstrução de textos e mais interessada nos símbolos e idéias presentes naqueles discursos, enquanto veículos de significados sociais que configuram as ações coletivas”. (Gonh, 1997; p. 70)Como expoente deste modelo estão os trabalhos teóricos de Klandermas (1988, 1990, 1994, 1995), Tarrow (1988), Meyer (1990, 1993, 1996), dentre outros que se propuseram a iluminar o campo de oportunidades políticas que fomentam, ou inviabilizam, a participação social (Prado, 2008), a dimensão simbólica das ações coletivas e as redes de relações sociais, em tentativas de articulação do universo micro ao macro.
A reincorporação do plano simbólico das ações coletivas dá-se, assim, a partir da inclusão da análise cultural, da reintrodução da psicologia social e do resgate de teorias clássicas da ação social como o interacionismo da Escola de Chicago, sob a forma de interacionismo simbólico, através da recuperação dos trabalhos de Irving Goffman.
A retomada do conceito de frame é emblemática neste aspecto, pois buscou orientar o olhar acerca dos arranjos simbólicos que informam as ações nos movimentos. Snow e Benford (1986) são alguns dos autores que lançaram mão do conceito de frame, ou seja:“marcos referenciais significativos e estratégicos da ação coletiva, ... quadros estruturais que dão suporte e sustentação às ações ao expressar os significados atribuídos àquelas ações coletivas por um movimento ou grupo social e ao ser utilizados de forma estratégica para criar um conjunto de representações que expressem aqueles significados”. (Gonh, 1997; p.87)
É um construto de cunho cognitivista recuperado de Goffman (1974) e Piaget (1954), autores para os quais frame refere-se ao conjunto das estruturas psíquicas dos indivíduos, sendo definido como “a orientação mental que organiza a percepção e a interpretação da realidade social”. (Gonh, 1997; p.87). O termo fora utilizado também em 1982 por Gamson, Fireman e Rytina quando abordaram os frames de injustiça social. O primeiro recobrou o conceito para analisar processos de elaboração de frames, tendo destacado três elementos responsáveis para a mobilização das pessoas: injustiças, identidades e agenciamento:
“um frame de injustiça refere-se à indignação moral expressa em forma de consciência política.O de identidade refere-se ao processo de definição de um “nós” em oposição ao “eles”. E o de agenciamento refere-se ao processo de conscientização de que é possível alterar as condições ou as políticas por meio da ação coletiva”. (Gonh, 1997; p.89)
Snow (1986) e Snow e Benford (1986, 1992) propuseram o conceito de frame alignment para caracterizar orientações interpretativas dos indivíduos em sua ligação com a ideologia, objetivos e atividades dos movimentos sociais organizados. Tais autores destacam o papel dos elementos simbólico-culturais na mobilização dos movimentos, distanciando-se da proposta inicial de frame apoiada em um viés cognitivo. Partem, assim, de uma conceituação de frame como um esquema de interpretação elaborado por coletividades com vistas à compreensão do mundo (Snow e Benford, 1986; Gonh, 1997), utilizando-o para a: “identificação das estratégias pelas quais os ativistas de uma organização de movimentos sociais vinculam seus esquemas de interpretação à existência de outros frames na sociedade, espécie de marcos referenciais estratégicos e significativos” (Gonh, 1997; p.88).
O frame compreende direção e estratégias de mobilização empregadas pelos atores envolvidos nos movimentos sociais e apresenta uma natureza dupla: tanto orienta os indivíduos de um grupo conferindo sentido aos eventos ocorridos, como auxilia na mobilização de outros indivíduos e no planejamento de ações ulteriores.Os frames de um movimento social podem ser apreendidos em discursos, documentos e espaços públicos. Encerram ainda “um esquema interpretativo que simplifica e condensa o mundo exterior por meio de situações, eventos, experiências e seqüências de ações dentro de um meio ambiente passado ou presente”. (Ssnow, 1992; p.197 apud Gonh, 1997; p.91) A elaboração de modelos teóricos que enfatizam a cultura e a natureza simbólica da mobilização social é alçada, portanto, com mais destaque a partir de 1960/70, em que a emergência de novos tipos de conflitos e atores políticos acenou para uma mudança paradigmática no modo como a Sociologia entendia as ações coletivas. É neste contexto que intelectuais europeus como Touraine, Mouffe, Melucci e Castels, propõem um enfoque teórico paralelo, conhecido como “novos movimentos sociais”.
Novos movimentos sociais
Concomitantemente à criação de novos espaços públicos fundados a partir da experiência, à emergência de novos sujeitos políticos e de novas práticas, vê-se, a partir de 1960/70, a reativação dos múltiplos debates sobre as relações entre os ensejos individuais e estruturais das ações coletivas. Sobre este contexto Pradoe Rodrigues (2008) destacam que:
“as polêmicas travadas nesse campo conduziram à necessidade de se ater à complexidade dos fenômenos de ação coletiva e à apreensão dos movimentos sociais como processos dinâmicos envolvidos na democratização das relações sociais nos mais diversos âmbitos que os aparatos do Estado e mercado buscam regular”. (Prado; Rodrigues, 2008; p. 5)Para Laclau (1986) as novas e emergentes formas de conflitos travadas na arena social contemporânea foram denominadas de “novos movimentos sociais” em decorrência da crise que estas lutas proporcionaram ao paradigma tradicional das Ciências Sociais, concernente à forma de integração que assinalava os agentes sociais e aos contornos tomados pelo conflito entre eles. O pensamento pós-estruturalista deste autor fornece-nos uma significativa lente analítica para entendermos a conjuntura mais ampla responsável por modular este panorama hodierno.
Para ele, as conceituações e formulações tradicionais dos conflitos sociais eram tipificadas através de três características principais:“a determinação da identidade dos agentes era feita através de categorias pertencentes à estrutura social; o tipo de conflito era determinado em termos de um paradigma diacrônico-evolucionário; e a pluralidade de espaços do conflito social era reduzida, na medida em que os conflitos se politizavam, a um espaço político unificado, onde a presença dos agentes era concebida como uma ‘representação de interesses’”(Laclau, 1986; p.01).
O primeiro aspecto deste paradigma diz respeito à área de emergência dos conflitos como a unidade de referência empírica. Nesta abordagem, vemos a classificação das lutas em categorias (camponesas, burguesas, operárias) que evocam, a priori, uma unidade entre as várias posições do agente social. O segundo ponto demarca, de modo teleológico e evolucionário, o significado das lutas sociais. Esta visão informa que determinado significado torna-se objetivo independentemente da conscientização dos agentes, estando o mesmo atrelado a um “movimento subjacente da história como a transição da sociedade tradicional para a sociedade de massas; ou a transição do feudalismo para o capitalismo”. (Laclau, 1986; p.02)
O terceiro aspecto é concebido por Laclau (1986) como uma implicação dos outros dois. Nesta sociedade fechada, demarcada por uma lógica diacrônica e sincrônica postulada pelo paradigma analisado pelo autor, a política se configura como um “nível” localizado do social. Desse modo, a diversidade dos espaços de conflitos era amortizada e a presença dos agentes sociais na esfera política concebida como uma “representação de interesses.” O que assinala os novos movimentos sociais é que, por meio de suas lógicas articulatórias, rompe-se a unidade destas três dimensões do paradigma.
As novas lutas emergentes apontaram que:a) a posição que o sujeito ocupa nas relações produtivas não precisa necessariamente seus demais posicionamentos;
b) é incoerente delimitar a realidade através de etapas de desenvolvimento sucessivas e
c) o político é uma extensão de toda prática social e não um lócus restrito.
Esta alteração tem como pano de fundo uma transformação na dinâmica das relações sociais, a qual, até o século XIX, era explicada exclusivamente pelo compasso das relações de produção e pelas categorias ligadas às condições estruturais. Laclau (1986) adverte que a centralidade atribuída às relações de produção devia-se à extensa jornada de trabalho nas fábricas, à limitação do acesso a bens de consumo pelos trabalhadores e à participação social decorrente, amiúde, das condições de baixos salários. Contudo, a alteração destas condições no século XX:
“enfraqueceu os laços entre as várias identidades do trabalhador ou trabalhadora, enquanto produtor (a), consumidor (a) agente político etc.Os resultados têm sido dois: por um lado, as posições do agente social tornaram-se autônomas e é essa autonomia que está na base da especificidade dos novos movimentos sociais- mas , por outro lado, o tipo de articulação existente entre estas diferentes posições torna-se, continuamente, cada vez mais indeterminado. De qualquer forma, elas não podem ser automaticamente derivadas da unidade do grupo como referente. As categorias de “classe trabalhadora”, “pequeno burguês” adquirem um significado cada vez mais reduzido como forma de entendimento da identidade global dos agentes sociais. O conceito de “luta de classes” fica insuficiente para descrever os conflitos contemporâneos” (Laclau, 1986; p.04).
Esta lacuna da unidade sincrônica entre distintas posições de sujeito corroborou com a falência da dimensão diacrônica de estágios, pois, já que uma dada posição de sujeito não indica a priori nenhuma determinação necessária de outras posições, não há como conjecturar uma posição a uma seqüência lógica e racional de estágios. Sendo assim: “a identidade dos agentes sociais não é mais concebida como constituída num único nível da sociedade, a presença desses agentes em outros “níveis” também não pode mais ser concebida como uma “representação de interesses”. O modelo de ‘representação de interesse’ perde, assim, sua validade” (Laclau, 1986; p. 06).
O político também não se configura mais como um nível do social e torna-se uma dimensão que se apresenta, com diferentes traços, em toda prática social, fato notado, sobretudo, na politização de espaços alternativos de lutas. Neste contexto de falência da concepção de sujeito coletivo unificado, da constituição de lugares políticos novos e de novas práticas, são reconfiguradas abordagens teóricas dedicadas a explicar a natureza das ações coletivas, agora representadas por diferentes modelos de protestos e conflitos sociais no âmbito da sociedade capitalista. (Prado, 2002) Os movimentos sociais contemporâneos apresentaram, na cena pública, lutas a favor da democratização das relações sociais que, formatadas em redes de solidariedade com fortes conotações culturais, trouxeram à tona conflitos emergentes das inúmeras esferas que compõem a vida individual ou coletiva e que ainda não se encontravam democratizadas. (Touraine, 2006; Melucci, 2001)
Touraine (2006) defende que a reorientação da ação coletiva é assinalada pela recusa às lógicas de uma dominação social contra a qual se evocam “valores, orientações gerais da sociedade que se opõem ao adversário para privá-lo de legitimidade” (Touraine, 2006; p.100) reorientação que ele identifica como “chamamento ao sujeito”. Assim, o sujeito se forma:“na vontade de escapar às forças, às regras, aos poderes que nos impedem de sermos nós mesmos, que procuram reduzir-nos ao estado de componente de seu sistema e de seu controle sobre a atividade, as intenções e as interações de todos. Essas lutas contra o que nos rouba o sentido de nossa existência são sempre lutas desiguais contra um poder, contra uma ordem. Não há sujeito senão rebelde, dividido entre a raiva e a esperança” (Touraine, 2006; p.119).
A consciência do sujeito se elabora a partir de três elementos concatenados: a referência a si mesmo como possuidor de direitos fundamentais, um conflito com as forças hegemônicas que lhe subjugam o direito de atuar como sujeito e a percepção geral do indivíduo proposta pelo sujeito.
Diante desta nova face da natureza de conflitos sociais e culturais, Touraine (2006) afirma que a definição do ator histórico não é mais proclamada em termos sociais, mas num vocabulário de outra ordem, a partir do qual se discute a dignidade de certos indivíduos, as condições de sobrevivência do planeta e a heterogeneidade de culturas. Porque o sujeito novo é descentralizado:“é social; são os movimentos sociais populares, em cujo interior indivíduos, até então dispersos e privatizados, passam a definir-se a cada efeito resultante das decisões e atividades realizadas. [...] É um sujeito que embora coletivo, não se apresenta como portador da universalidade definida a partir de uma organização determinada que operaria como centro, vetor e telos das ações sócio-políticas e para a qual não haveria propriamente sujeitos, mas objetos ou engrenagens da máquina organizadora” (Chauí, 1988; p.10).
Nesta dinâmica, a reformulação da identidade pessoal não se realiza por meio da identificação com uma ordem de cunho global, econômico, natural ou religioso, mas pela consideração da desintegração dos elementos que compunham uma experiência unificada. (Prudencio, 2003).
Assim, diante da impossibilidade de localizar o adversário (não mais identificado com uma classe, um partido ou o Estado), o chamamento ao sujeito é um processo de identificação e não mais de identidade e se evidencia onde a lógica das técnicas e dos mercados entra em conflito com a lógica do sujeito (Touraine, 2006; Prudencio, 2004).
As novas formas de conflito defendem a liberdade e a responsabilidade de cada indivíduo, sozinho ou em coletividade, contra a lógica impessoal do lucro e da concorrência. E também contra uma ordem constituída que delibera o normal ou anormal, o proibido ou permitido. (Touraine, 2006)
Os conflitos se encaminham, desse modo, em direção à apropriação do sentido, em oposição “aos aparatos distantes e impessoais que fazem da racionalidade instrumental a sua razão e sobre esta base impõem identificação”. (Melucci, 2001; p.90).
As questões antagonistas não se limitam então a atingir o processo produtivo em sentido lato, mas sopesam sobre as dimensões idiossincráticas do indivíduo, em sua existência temporal e suas relações sociais. Assim, surgem questões de diferentes lugares da experiência onde se privilegiam a convivência com a natureza, a identidade sexual e afetiva, dentre outros elementos relacionados à manifestação da individualidade. São estes os campos nos quais se alarga a intervenção dos aparatos de controle e de manipulação, mas onde também se revela uma reação difusa às definições externas de identidades, porque os atores conclamam, antes de tudo, o direito de serem eles mesmos. (Melucci, 2001) As ações coletivas das sociedades complexas intentam, assim, verem significadas as diferenças (Touraine, 2006) e engendram conflitos simbólicos pela atribuição de sentidos ao real por intermédio de um recurso que, nas sociedades complexas, está intimamente ligada à posse do poder de instituir e nomear a realidade: a informação.
Informação e movimentos sociais
Para Melucci (2001), as articulações das coletividades se fazem sempre mais sustentadas no uso da linguagem e dos símbolos antagonistas que exprimem, no campo simbólico, uma resistência aos códigos estruturantes da lógica hegemônica. Isto porque:“nas sociedades com alta densidade de informação, a produção não diz respeito somente aos recursos econômicos, mas investe em relações sociais, símbolos, identidade, necessidades individuais. O controle sobre a produção social não coincide com a propriedade por parte de um grupo social reconhecível, mas se move, ao contrário, rumo aos grandes aparatos de decisão técnica e política” (Melucci, 2001; p.79).
O autor busca chamar atenção para a direção da intervenção sobre processos relacionais e sobre os aparelhos simbólicos, já que os sistemas complexos sobre os quais hoje se desenvolvem as ações coletivas são marcados por um desenvolvimento não mais afiançado pelo domínio sobre a força de trabalho e pela transformação de recursos naturais. Para ele, nestas sociedades às quais nos referimos com imprecisão conceitual (pós-industriais, complexas, pós-materiais, da informação, do conhecimento), constituem-se questões antagônicas que invertem o modo de produzir o desenvolvimento e de determinar identidade e necessidades. Já que: “produzir não significa mais transformar os recursos naturais e humanos em mercadorias para a troca, organizando as formas da produção, dividindo o trabalho, integrando-o no complexo técnico-humano da fábrica. Significa, ao contrário, controlar sistemas complexos de informações, de símbolos, de relações sociais” (Melucci, 2001; p.80).
Decorre daí que os exercícios de produção e consumo dos atores sociais envolvam um processo de reconhecimento tanto da identidade que estão em condições de construir como daquela que lhes é conferida pela pluralidade de pertencimentos sociais e pelos sistemas de normas que a governa (Melucci, 2001). Observa-se, então que os movimentos sociais se integram em um intricado circuito de relações que, muitas vezes, provocam não apenas contradições com as significações hegemônicas da realidade, mas, também, antagonismos múltiplos que, em um campo de negociações eminentemente conflituais, se justapõem. No plano simbólico-cultural as ações coletivas questionam a definição dos códigos, o modelo de leitura da realidade e oferecem outros modos de apreender o significado da ação individual e coletiva. (Prudencio, 2003)
A articulação dos movimentos homossexuais e pela diversidade sexual, ou movimento de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais1 , é representativa neste aspecto. Esta ação coletiva demanda por mudanças que podem ser entendidas tanto pelo prisma econômico-estrutural quanto simbólico-cultural. (Prado; Machado, 2005), visto que: “manifestações que visam a instituição da parceria civil registrada seriam uma forma de luta que demanda mudanças em elementos simbólico-culturais – como os conceitos tradicionais de família e certos preceitos religiosos –, mas com a intenção de garantir também direitos diretamente ligados às questões estruturais, como o direito a seguros sociais e de saúde, pensão, distribuição de rendas e divisão de bens” (Prado; Machado, 2005; p.37).
Isto significa que, ao questionar as formas hegemônicas de concepção de família e casamento, o movimento em questão luta não apenas pela democratização das relações sociais concretizada sob a forma de garantia dos direitos civis, mas contra uma lógica social pautada pela heteronormatividade, ou seja, sistemas simbólicos e normas socialmente construídas que privilegiam padrões heterossexuais. Esta evidência do confronto simbólico indica-nos, pois, que um importante eixo dos conflitos contemporâneos reside na produção e reapropriação do sentido.
Prado (2006, 2008) acredita que as mobilizações coletivas não aparecem na cena pública apenas em decorrência da supressão da presença de certos atores no mundo político institucional, ou do mercado, mas, também, por objetivarem a criação de uma realidade plural, ou a instituição de novas ordens ou elementos culturais, que podem demandar novos movimentos de institucionalização.
Ao interrogarem a ordem social hegemônica, os movimentos sociais engendram tentativas de alteração do arranjo de significações vigente, elaborando novas concepções da realidade através dos discursos públicos e das ações coletivas (Prado, 2008). Nos movimentos sociais, as matrizes discursivas revelam seus problemas, objetivos e valores e, também, o seu sujeito, porque do discurso é dependente a imputação de sentidos às coisas, pedra angular para o estabelecimento das identidades. Emergem, então, inúmeras formas discursivas que tematizam de um modo novo os elementos que compõem as condições de existência e as particularidades dos atores dos movimentos sociais. (Sader, 1988)
É neste sentido que Prado e Rodrigues (2008) leem a constituição das ações coletivas nas sociedades contemporâneas como tentativas de significação do real, partindo do entendimento de que a realidade não se conforma como: “uma objetividade transparente e completa. [...] Ao contrário, deveríamos partilhar de uma conceituação do real, na qual este está sendo construído por conflitos e lutas que concorrem às possibilidades de limitar suas múltiplas significações, ou seja, criar hegemonias e contra-hegemonais sociais” (Prado; Rodrigues. 2008; p.15).
O real é tido, então, como um jogo complexo e intenso em disputa por formas de significação, de nomeação, de atribuição de sentidos.
Melucci (2001) aponta que a idéia ingênua de que a informação reflete uma “realidade em si” é um resíduo do passado ao qual devemos renunciar. Para ele, o mundo onde vivemos é “irreversivelmente construído pela informação” e esta última, nas suas diversas configurações, conforma a realidade, já que nossa experiência passa continuamente por mediações, dentre as quais se incluem as formas comunicacionais e informacionais amplamente difundidas e alargadas nas sociedades contemporâneas. Sobre isso diz Prudencio (2003):“Se a informação não existe independente da capacidade humana de percebê-la, é crucial controlar os códigos que permitem organizar informações. E o controle da informação depende do controle dos códigos que permitem acessá-la. Porque o poder não se exerce apena sobre o conteúdo, pois o conflito da sociedade da informação- controle, capacidade de resistência e subversão dos códigos- se expressa na forma da ação coletiva” (Prudencio, 2003; p.99).
Desse modo, os movimentos sociais têm como importante diretiva de ação a reapropriação dos códigos para remeter à realidade. Para isso recorrem à produção e publicização2 de informação e/ou contra-informação , de modo a potencializar sua ação política, fato que pode ser notado na presença de inúmeros websites dedicados a campanhas globais de caráter ambientalista, humanista, pacifista ou econômico (Prudencio, 2006), que: “ao rivalizarem com a grande imprensa, considerada por esses atores um dos seus adversários principais, .. produzem sobre esta um fator de desestabilização da sua perícia. Ou seja, reivindicam a posse da “verdade” da informação contra os “desvios” da comunicação de massa” (Prudencio, 2006; p.V).
Há, assim, uma luta pela apropriação do sentido. (Melucci, 1996, 2001; Prudencio, 2006). O conflito se instaura pela busca do poder da nomeação, ou seja, o poder de conferir à realidade interpretações a partir da inscrição no espaço público de distintos moldes de classificação e apreensão da mesma. No âmbito das práticas conflituosas de significação do real, a informação é o principal recurso simbólico visto que seu potencial é conferir as possibilidades articulatórias e discursivas de nomeação do real. Isto porque a informação se apresenta como uma produção discursiva estabelecida a partir de sistemas de relações específicas, que, inscrita em dada contigüidade histórico-cultural, está atrelada à instituição de sentidos sociais e de representações acerca do mundo.O sentido, por seu turno, compreende: “uma construção social, um empreendimento coletivo, mais precisamente interativo, por meio do qual as pessoas- na dinâmica das relações sociais historicamente datadas e culturalmente localizadas- constroem os termos a partir dos quais compreendem e lidam com as situações e fenômenos a sua volta” (Spink, 2004; p.41).
Para Spink (2004), atribuir sentido ao mundo é uma prerrogativa poderosa e inevitável na vida em sociedade, que não se restringe às cadeias cognitivas intra-individuais, nem à reprodução de modelos predeterminados. “Ela é uma prática social, dialógica, que implica a linguagem em uso”. (Spink, 2004; p.42). A produção de sentidos encerra um fenômeno seminalmente lingüístico e social, já que o uso da linguagem ampara as produções de sentido abarcando as práticas discursivas que perpassam o cotidiano. As práticas discursivas referem-se, por sua vez: “aos momentos de ressignificações de rupturas, de produção de sentidos, ou seja, corresponde aos momentos ativos do uso da linguagem nos quais convivem tanto a ordem como a diversidade”. (Spink, 2004; p.44)
Assim, através das construções discursivas, os sujeitos produzem sentidos e se posicionam nas relações cotidianas em que o confronto simbólico das posições sociais em disputa toma corpo. A relação intrínseca operada pela noção de informação e produção de sentidos fundamenta-se a partir do entendimento da informação como um procedimento cultural e simbólico que, articulado sob a forma de discurso, carrega em sua essência o papel de intermediação da relação do homem com o mundo, de representação e significação do real. Na esfera dos conflitos sociais, a informação enquanto articulação discursiva processada nos ambientes da comunicação e nas dinâmicas da linguagem confere a “expressão simbólica das posições sociais em disputa, a sua divulgação pública e sua elaboração racional e argumentativa”. (Prudencio, 2006).
A multiplicidade de sentidos evocados pelos atores nas dinâmicas antagonistas empreende um extenso caleidoscópio discursivo, fazendo com que estas práticas tornem-se indissociáveis dos processos sociais de mediação.
Mediação e informação: negociações de sentido e poder
Categoria tomada por inúmeras lentes teóricas e metodológicas, a noção de mediação, advinda do latim mediatione, designa, de modo geral, uma idéia de intervenção, intercessão, ponte ou elo estabelecido na experiência humana por meio de um elemento terceiro. No campo da Ciência da Informação o construto mediação é, segundo Almeida (2008), um exemplo de unidade conceitual que, a partir de certo momento, passa a estar circunscrito aos debates acadêmicos do campo, “exibindo uma naturalidade que muitas vezes esconde a falta de discussões mais aprofundadas acerca de suas aplicações, limites e paradoxos”. (Almeida, 2008; p.3)
Tendo em vista esta discussão de diversas naturezas e matizes e da indefinição consensual de mediação nos ambientes da pesquisa e da prática em Ciência da Informação, entendemos ser importante3 a recuperação, ainda que de modo sumário, de alguns apontamentos teóricos, históricos e epistemológicos que orientam nosso olhar acerca do entendimento da mediação. Com o fito semelhante, Raymond Williams (1985) tece uma perspectiva histórica referente ao termo, indicando que este conceito é dotado de relativa complexidade e que se tornara mais abrangente na medida em que fora utilizado como termo-chave por vários sistemas do pensamento moderno.
Williams (1985) aponta que, na língua inglesa, o mais antigo uso da mediação que se tem conhecimento foi feito por Chaucer na obra Man of Law´s. Tal, em 1386, referindo-se ao modo de interceptação entre dois adversários, com vistas à reconciliação entre ambos. Esta idéia da mediação como intercessora na solução de conflitos compreende, também, a abordagem tradicionalmente adotada pelo campo jurídico, para o qual a mediação se caracteriza: “como um processo de solução de conflitos, por meio do qual os envolvidos dispõem do auxílio de um interventor, mas que atua de maneira interativa, promovendo a prática discursiva, sempre com vistas a preservar e promover a autonomia das partes” (Pompeu, 2006; p.26).
Williams (1985) ressalta ainda o emprego de tal conceito designando um modo de predição e compreensão da realidade a partir da postura de certos atores sociais frente à realidade e a consciência desse real. Preconiza-se também a utilização do termo de forma implícita ou explícita por vários filósofos da Antiguidade Clássica, quando estes se viram ante a necessidade de encontrar um modo de relacionar dois elementos diferentes. Assim, a mediação foi entendida como a atividade própria de um agente mediador que era, ao mesmo tempo, uma realidade intermediária. (Pugliesi; Bini, 1977)
No pensamento clássico, especialmente na lógica aristotélica, desempenha função importante o chamado “termo médio”, cujo papel de mediador no raciocínio permite que se torne possível uma conclusão a partir de determinada premissa. “Em geral, a mediação em um processo discursivo é o que torna possível tal raciocínio: de fato, em um processo discursivo, tanto dedutivo como indutivo, são necessários termos ou juízos que ‘medeiam’ entre o ponto de partida e a conclusão” (Pugliesi; Bini, 1977; p.252).
Na dialética hegeliana e marxista a mediação representa “as relações concretas –e não meramente formais – que se estabelecem no real, e as articulações que constituem o próprio processo dialético”. (Braga, 2004; p.3). Assim, a mediação pode ser apreendida tanto como uma categoria ontológica (na composição do ser social) tanto como uma formulação elaborada “pela razão de forma lógica a fim de possibilitar a apreensão do movimento do real” (Braga, 2004; p.4). Konder (1981) assinala que “a experiência nos ensina que em todos os objetos com os quais lidamos existe uma dimensão imediata (que nós percebemos imediatamente) e existe uma dimensão mediata (que a gente vai descobrindo, construindo ou reconstruindo aos poucos)” (Konder, 1981; p. 48). Este raciocínio advém da dialética de Hegel para quem a mediação seria um momento da dialética em que o ser retornaria a si através da negação, já que: “enquanto Espírito o homem não é um imediato, mas essencialmente um ser que retorna a si. Este movimento de mediação é um momento essencial do Espírito. Sua atividade consiste em sair da imediatez, em negá-la e retornar assim, a si” (Hegel, 2008; p.78).
Para Hegel, a mediação se funda no instante em que se inicia a relação do sujeito ao objeto, compreendendo uma forma de relacionamento com o mundo e com o outro, e abarcando tudo que é elaborado pelo homem na superação da natureza (imediato). Guarady (1983) destaca no método hegeliano a posição da mediação e a relação entre o mediato e o imediato.“Todo conhecimento real deve passar por três momentos: o do imediato ou do universal abstrato, depois o de sua negação, que é reflexão, mediação, e o da totalidade concreta, do universal concreto, isto é, do resultado que conserva e contém nele o momento da negação, da reflexão, da mediação. Dizer que o método do conhecimento é dialético é dizer que não poderia existir conhecimento imediato. É negar somente a possibilidade de possuir a verdade por uma intuição sensível, direta, mas também de alcançar a verdade por um conceito isolado”. (Guarady, 1983; p. 28).
Assim, para Hegel, o conhecimento mediato compreende um momento subseqüente de negação acerca do conhecimento imediato sendo responsável pela reflexão acerca das contradições que atravessam e engendram a realidade. A superação do imediato implica na atribuição de um significado, por meio da mediação, ao mundo. Como categoria dialética, a mediação figura unindo o que aparece como contraposto, o que se afasta, ou seja:
“a mediação implica a interposição de um meio ou medium. Porém, para além do seu significado imediato e literal, “do que está entre”, mediação implica congregar, compor, assimilar o múltiplo e o diverso, o que ao mesmo tempo implica o estabelecimento de uma distância. Consiste em pensar no que une a experiência, no que lhe dá ordem, sentido. Desde sempre, sabemos que o homem é um ser que vive no meio, agindo de forma reflexiva, sobre os seus horizontes imediatos. A mediação constitui um traço desta acção, no sentido em que o homem, paradoxalmente, se relaciona através de um processo de afastamento em relação aos impulsos primários que têm a sua origem na natureza para interagir com o que o rodeia através da atribuição de um sentido graças ao qual a realidade ganha uma dimensão eminentemente humana” (Simão, 2002; p.3).
Tendo como eixo principal a intercessão entre elementos que se contrapõem, a Antropologia estuda os fenômenos da mediação e, especialmente, os mediadores, como modo de perceber a natureza e os domínios das interações entre categoriais sociais e níveis culturais distintos. Estudos que se apresentam, frequentemente, em tentativas de reconstituição da divisão produzida pela cultura moderna ocidental, que polarizou urbano e rural, erudito e popular, asfalto e favela, grande tradição e pequena tradição. (Duarte, 2001). Vê-se que a mediação atua como o componente elementar na experiência, interpretação, associação, relação e conexão, que, dialeticamente, os sujeitos fazem acerca dos elementos da realidade, ocupando, de modo especial, o entre - lugar dos processos de elaboração de sentidos.
Esta consideração, fundamentada em uma perspectiva dialética, aliada à abordagem antropológica, tem-nos servido de fio condutor para que entendamos as mediações como as articulações que promovem o encontro/confronto entre distintos códigos e universos simbólicos, entre diferentes esquemas de sentidos. Nos movimentos sociais, as mediações proporcionam o trânsito- tenso e initerrupto- dos arranjos de sentidos que, formulados discursivamente pelo modo informacional, circulam socialmente, promovendo processos de negociação da realidade, ou seja, da significação e nomeação do real. A esta dinâmica temos atribuída a designação de mediação informacional, como modo de destacar a natureza simbólica e dialética da mediação e da informação.
A partir dos apontamentos de Araújo (200; 2003; 2009), Marteleto (1994; 2006), Spink (2004), Velho (2001), Bourdieu (1998), Caune (2000), Jeanneret (2008), entendemos a mediação informacional como um processo a partir do qual os atores em inter-relação, situados em campos histórico-culturais de conflito e contradição, negociam, disputam e confrontam sentidos simbólicos destinados à leitura, apreensão e nomeação do real:“Num contínuo processo de negociação da realidade, escolhas são feitas tendo como referência sistemas simbólicos, crenças e valores, em torno de interesses e objetivos materiais e imateriais dos mais variados tipos. A mediação é uma ação social permanente, nem sempre óbvia, que está presente nos mais variados níveis e processos interativos” (Velho, 2001; p.10).
Esta noção funda-se a partir do entendimento de que as relações entre mediação e informação compreendem um processo de natureza dialética, cuja apreensão requer a consideração dos múltiplos aspectos sociais, culturais e temporais que compõem as estruturas de sentidos inerentes a todo procedimento informacional. Desse modo a mediação informacional se constitui por: a) uma dimensão histórica, já que os sujeitos e suas práticas estão inseridos em determinadas conjunturas sócio-temporais; b) uma dimensão totalizante, porque encerra um movimento contínuo e encadeado a outros de modo a compor-se em totalidade; e, ainda; c) uma tensionalidade que, imanente à sociedade, assinala as relações e práticas sociais e a produção de sentido subjacente às mesmas. (Cardoso, 1994)
Entende-se, a partir deste percurso dialético, que as configurações tecidas entre informação e campo social não gozam de neutralidade na medida em que a dinâmica social é perpassada continuamente por contradições específicas que a produzem e, também, porque a informação “constitui um dos aparatos da estrutura social, exigindo, para sua compreensão, o desvelamento das articulações de poder bem como uma visão histórica da sociedade e das relações sociais que nela se engendram” (Reis, 1999; p.154). Assim, as relações entre mediação e informação ganham contornos delimitados pelas relações de poder nas quais a visibilidade das articulações discursivas que exprimem diferentes sentidos sociais não depende apenas do compartilhamento de códigos lingüísticos e culturais, mas de sistemas funcionais da sociedade (legislação, normas, ideais compartilhados) que instituem os contextos estruturantes da vida social (Kuwahara, 2004).A ótica da mediação em sua relação com os procedimentos de elaboração de sentidos se ancora na premissa de que há um contínuo processo de produção, circulação e negociação dos mesmos pelos sujeitos, visto que os sentidos não estão aderentes aos objetos ou mensagens. (Marteleto; Andalécio, 2007; Araújo, 2008).
O sentido não é concebido então como um enunciado programático, elaborado fora da experiência comum, mas como resultado da relação intersubjetiva, ou seja, de controle e de troca de subjetividades (Caune, 2000) que se formulam nos espaços da comunicação, lugares de circulação e negociação dos sentidos sociais (Araújo, 2008). Nas articulações dos movimentos sociais a busca pela apropriação dos sentidos e controle dos códigos dá-se a partir de processos comunicacionais dos atores em relação antagonista, que nos “espaços mediadores sociais” (Cortez, 2005), confrontam, disputam e negociam sentidos que demarcam experiência, identidade e demanda dos sujeitos.Araújo (2000; 2004; 2008) entende a comunicação mesmo como um processo baseado na interlocução e negociação de sentidos que se conforma aos moldes de um mercado simbólico: espaço de produção e circulação dos sentidos sociais, no qual os agentes negociam sua mercadoria, ou seja, os modos de apreensão, ordenação e representação da realidade. Os sentidos sociais, estruturados sob a forma de discursos, assumem, assim, a forma de bens simbólicos, que, no caso dos movimentos sociais contemporâneos, constituem um caro recurso em disputa.
O elemento regulador destas tramas comunicacionais e informacionais em busca da nomeação do real é o “poder simbólico”, que, de acordo com Bourdieu (1998), é “um poder de construção da realidade” (Bourdieu, 1998; p.9), em que os símbolos, enquanto elementos de conhecimento e comunicação, são instrumentos de integração social. São eles que tornam possível o consenso acerca do sentido do mundo social, o que contribui para a reprodução da ordem. Para o sociólogo, o poder simbólico é um poder invisível, presente nas relações sociais, sendo estruturante e estruturado pelas mesmas, e que só pode ser exercido se ignorado como arbitrário.
Bourdieu (1998) situa as relações de comunicação na esfera das relações de poder, já que os processos comunicacionais “dependem, na forma e no conteúdo, do poder material ou simbólico acumulado pelos agentes” (Bourdieu, 1998; p.11). O poder simbólico, todavia, dispõe-se de acordo com o capital simbólico dos discursos, ou seja, o lugar de fala cuja legitimidade é socialmente reconhecida pelos sujeitos e instituições sociais. “O que faz o poder das palavras e das palavras de ordem, poder de manter a ordem ou de subvertê-la, é a crença na legitimidade das palavras e daquele que as pronuncia.”. (Bourdieu, 1998; p. 15). O capital simbólico está, portanto, atrelado às composições materiais e institucionais da sociedade, instâncias do poder econômico e político.
É em decorrência desta lógica da legitimidade que os movimentos sociais propõem formas alternativas de produção e disseminação de informação em jornais e websites sem abrirem mão, contudo, das convenções legitimadas do jornalismo, ou seja, “refutam o conteúdo e a orientação editorial da grande imprensa, mas não a forma” (Prudencio, 2006; p.21). A legitimidade conferida aos lugares de fala é responsável nos processos de negociação de sentidos, por colocar em pauta a competência discursiva dos atores. Esta prerrogativa pode ser conferida tanto pela posição institucional ocupada pelos mesmos, quanto pela posse do capital simbólico destes. Araújo (2000), a partir da perspectiva do poder simbólico de Bourdieu, nos alerta para o fato de que a fala:“não é necessariamente legitimada por seus interlocutores, ela depende do capital simbólico. A legitimidade discursiva é determinada por outros fatores além da posição social e institucional e do poder econômico e social dos falantes. Passa por interesses individuais, grupais e de classe (contexto existencial), pela história das relações institucionais anteriores e pela forma de mediação discursiva (contexto situacional), pela concorrência de outras falas (contexto intertextual) etc. É o reconhecimento de um discurso como legítimo, pelos receptores, que instaura as relações de poder que lhe são inerentes” (Araújo, 2000; p. 2).
Desse modo, o poder simbólico, na mobilização social: “define os modos pelos quais os atores sociais disputam, através de práticas discursivas, a prevalência do seu modo de perceber e classificar as coisas do mundo, isto é, de produzir a realidade e, portanto, de intervir sobre essa realidade” (Araújo, 200; p.02). Para Araújo (2000), as relações de poder entre interlocutores são definidas pelo modo como os “dispositivos de enunciação” (posição discursiva do interlocutor a partir da qual o mesmo elabora sua identidade, a identidade do receptor e propõe um modo de relação entre eles) são reconhecidos e consumidos.
Quando o sujeito se reconhece4 no enunciado de uma mensagem, texto ou informação, quando ele se identifica com o conteúdo e a cultura ali expressos, ele consente as premissas que o interlocutor lhe propõe. O poder está conjugado, desse modo, aos efeitos proporcionados pelo discurso. Sua perspectiva defende, ainda, que os interlocutores, ao estabelecerem relação, ora assentam-se no centro, ora na periferia dos processos sócio-históricos e, a partir deles, vão formulando seus discursos. Nesta dinâmica, “os poderes são mais fortes ou mais fracos em função não só do capital que possuem e de sua composição, mas também da relação estratégica que os move” (Araújo, 2000; p.5).
É importante ressaltar que a autora, ao indicar a existência de tais espaços, adverte que centro e periferia compõem-se reciprocamente e que não encerram lugares de exclusão, nos quais existe ou inexiste poder, já que o poder habita todos os lugares e é amainado ou fortalecido pelas relações estratégicas. Para ela, ainda que os nódulos centrais detenham, devido a seu elevado poder de enunciação, a prerrogativa de produção e circulação de sentidos, a determinação de políticas e de práticas que nomeiam o seu lugar e o lugar do “outro”, não há uma deliberação irrestrita do núcleo central em relação aos espaços periféricos. “Se o Centro é hegemônico, não é onipotente, tanto pela capacidade de reação e estratégias da Periferia, como pela luta interna que se desenvolve dentro de cada núcleo” (Araújo, 2000; p.5).Essas estratégias são amparadas pelos “fatores de mediação”, responsáveis por promoverem o fluxo dos interlocutores entre as posições (Araújo, 1999; 2008).
Para a autora, o conceito de mediação encerra a idéia de movimento, mas também, as de condições de produção, o que permite perceber que “as mediações constroem os pólos da relação, não sendo destacáveis delas” (Araújo, 1999; p.12). Tendo como horizonte teórico o modelo do mercado simbólico proposto por Araújo, intenciona-se assinalar as tensões e contradições presentes no processo informacional e, portanto, nas articulações dos códigos que (re) configuram o universo simbólico e discursivo dos sujeitos, a partir da mediação e da informação. Diante disto, a mediação informacional aqui delineada se distancia das abordagens em Ciência da Informação que relacionam informação e mediação, articulando-as ao binômio oferta- uso.
Desse modo, nossa noção de mediação informacional não se assenta na premissa reificante de que o acesso à informação, necessariamente, esclarece dúvidas, reduz incertezas, gera um novo conhecimento, transforma estruturas cognitivas e, consequentemente, as estruturas sociais (Mangue, 2008). Isto porque os processos informacionais e de produção de sentidos trazem as marcas das delimitações histórico-culturais específicas impressas nas lutas e antagonismos de diferentes naturezas que aliam e opõem sujeitos e grupos sociais. Nota-se que, além de proclamarem as incoerências do desenvolvimento econômico e social das sociedades contemporâneas e acenarem para a democratização das relações sociais, os novos movimentos estão, antes, na cena pública, a apontar as contradições que assinalam a informação.
Contradições que se exibem na medida em que as trocas simbólicas que configuram a informação abarcam tanto relações econômicas de exclusão quanto relações de dominação, o que faz com que o processo de construção de sentido esteja circunscrito nos domínios do simbólico, do econômico, do político e do cultural (Kuwahara, 2004).Em função dos elementos anteriormente apontados, evidencia-se a necessidade de precisar a relação informação-mediação sob o prisma das contradições que perpassam a mesma, perspectiva que busca avançar na compreensão desta relação com vistas a não reificar a ótica da operacionalidade pela qual vem sendo tratada.
Conclusões
Referenciadas pelos recursos simbólicos e informacionais, estabelece-se nas práticas dos movimentos sociais uma relação intrínseca entre mediação e informação responsáveis por configurar redes que articulam e estabelecem as posições discursivas dos atores sociais. É a partir destes posicionamentos que os sujeitos antagonistas buscam ver significadas as diferenças que demarcam suas identidades e demandas, questionando e desafiando os códigos (Melucci, 1996) que determinam o sentido da realidade social. Formulam-se, assim, disputas simbólicas em um mercado discursivo em torno do poder de classificar e nomear o real (Marteleto; Ribeiro; Guimarães, 2002).
Este ponto de vista nos obriga a renunciar ao pressuposto de que uma informação espelharia a realidade mais ou menos fielmente, já que a mudança na natureza da vida individual e coletiva tornou premente uma reflexão sobre os modos pelos quais a informação constrói a realidade. (Melucci, 2001) Demarcamos aqui, a partir do construto mediação informacional, a existência de conflitos adjacentes a estes procedimentos de nomeação e construção do real que se apresenta como um campo em disputas por formas de significação construídas, compartilhadas e disputadas pelos atores nas dinâmicas da linguagem e nos ambientes da informação, comunicação e mediação.
Os movimentos sociais contemporâneos atuam em espaços híbridos de lutas pela significação que, formulando espaços políticos regulados pela informação, denotam, dialeticamente, as relações de poder subjacentes a todo processo informacional.
Notas:
[1] LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) foi nomenclatura escolhida pelos ativistas dos movimentos pela diversidade sexual na 1ª Conferência Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais, que decidiram, em 2008, padronizar a nomenclatura utilizada pelos movimentos sociais e pelo governo, alinhando-se ao padrão utilizado pelo resto do mundo. A sigla substitui o antigo acrônimo GLBT, objetivando também destacar as reivindicações das mulheres lésbicas. Dividindo opiniões e causando polêmica, a mudança demonstrou a própria desigualdade de gênero dentro do movimento, indicando a importância da nomeação e classificação das identidades dentro de um mesmo grupo.
[2] O conceito de contra-informação aparece pioneiramente nos trabalhos de Pio Baldelli para quem a função da contra-informação seria “garantir a circulação de informações sobre situações de classe, à margem dos canais controlados pelo poder constituído, e também, utilizando espaços que as contradições da burguesia oferecem no seio desses canais” (Baldelli apud Fadul, 1982; p.36). A contra-informação é um termo utilizado para designar a produção elaborada por organizações ativistas veiculadas em canais alternativos às grandes corporações midiáticas.
[3] A recuperação do conceito “mediação” encontra-se em processo de sistematização no contexto do trabalho de dissertação “Informação e memória: um olhar para os processos de mediação informacional das animadoras comunitárias do Vale do Jequitinhonha”, desenvolvida no programa de Pós-Graduação da Escola de Ciência da Informação da UFMG,por Ana Amélia Lage Martins sob a orientação da professora Alcenir Soares dos Reis e auxílio da CAPES.
[4] Reconhecimento tanto em Bourdieu (1998) como em Araújo (2003; 2008) está ligado à noção de legitimidade.
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Sobre o autores / About the Author:
Doutora em Educação. Professora Adjunta da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais.
Ana Amélia Lage Martins
Mestranda em Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais.